AÇÃO CÍVICO-SOCIAL (ACISo): A EXPERIÊNCIA DA ODONTOLOGIA POR RESIDENTES DE ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA NA ILHA DO MARAJÓ, PARÁ

CIVIC-SOCIAL ACTION (ACISo): THE EXPERIENCE OF DENTISTRY BY RESIDENTS OF THE FAMILY HEALTH STRATEGY ON MARAJÓ ISLAND, PARÁ

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601081146


Raquel Rodrigues Bastos1
Nayara Akemi Tsunemitsu1
Jennifer da Silva Mendes do Rosário1
Mayra Trindade Pantoja Leão2


Resumo

O presente artigo constitui um relato de experiência vivenciado por residentes de odontologia do Programa de Residência Multiprofissional em Estratégia Saúde da Família, os quais participaram de atividades cívico-sociais em comunidades ribeirinhas localizadas nos municípios de Soure, Ponta de Pedras, Muaná e Melgaço, situados na região da Ilha do Marajó, estado do Pará. As ações foram realizadas em parceria com a equipe de saúde do Hospital Naval de Belém, pertencente à Marinha do Brasil, durante expedição ocorrida entre os dias 20 de julho e 2 de agosto de 2025. As atividades tiveram como objetivo oferecer assistência integral e humanizada a populações em situação de vulnerabilidade social e geográfica, cuja realidade é marcada pelo acesso restrito aos serviços de saúde. Foram desenvolvidas ações educativas, preventivas e clínicas, com ênfase na promoção da saúde bucal e geral, alinhadas aos princípios da Atenção Primária à Saúde e da integralidade do cuidado. Além de fortalecer o vínculo entre profissionais e comunidade, a experiência possibilitou aos residentes uma vivência prática e reflexiva sobre os desafios e potencialidades da atuação odontológica em contextos de difícil acesso, contribuindo para sua formação ética, técnica e humanista.

Palavras-chave: Residência em Odontologia; Saúde Pública; Militares.

Abstract

This article is a report on the experience of dentistry residents of the Multiprofessional Residency Program in Family Health Strategy, who participated in civic and social activities in riverside communities located in the municipalities of Soure, Ponta de Pedras, Muaná, and Melgaço, located in the Marajó Island region, Pará state. These activities were carried out in partnership with the healthcare team at the Belém Naval Hospital, part of the Brazilian Navy, during an expedition that took place between July 20 and August 2, 2025. The activities aimed to provide comprehensive and humane care to populations in situations of social and geographic vulnerability, whose reality is marked by limited access to health services. Educational, preventive, and clinical initiatives were developed, with an emphasis on promoting oral and general health, aligned with the principles of Primary Health Care and comprehensive care. In addition to strengthening the bond between professionals and the community, the experience provided residents with practical and reflective experience on the challenges and potential of dental practice in difficult-to-access settings, contributing to their ethical, technical, and humanistic development.

Keywords: Dental Residency. Public Health. Military Personnel.

1. INTRODUÇÃO

A Ação Cívico-Social (ACISO) constitui um conjunto de atividades de caráter temporário, planejadas e executadas com o propósito de oferecer assistência a comunidades, promovendo espírito comunitário entre os cidadãos, além de fornecer materiais, instrumentos e recursos pessoais. A Marinha do Brasil coordena, planeja e executa essas ações em conjunto com civis, oferecendo assistência médica, odontológica e previdenciária, a fim de resolver demandas imediatas ou permanentes de populações mais necessitadas.

A Ilha do Marajó, localizada no estado do Pará, configura-se como o maior arquipélago fluviomarinho do planeta, composto por inúmeras ilhas interligadas por extensas áreas de várzea. Essas localidades são habitadas predominantemente por comunidades tradicionais ribeirinhas, cuja organização socioeconômica e cultural está intimamente relacionada ao ambiente natural. Entretanto, as particularidades geográficas — como a ausência de estradas pavimentadas e a dependência quase exclusiva do transporte fluvial — constituem obstáculos significativos ao acesso a serviços públicos essenciais, especialmente nas áreas de saúde e educação. Além das barreiras territoriais, o Marajó enfrenta expressivos desafios sociais. No campo educacional, observam-se elevados índices de evasão escolar e deficiência estrutural nas unidades de ensino. No âmbito da saúde, as dificuldades são ainda mais acentuadas, com alta incidência de doenças infecciosas, como malária e dengue, além da persistência de quadros de desnutrição em determinadas comunidades.

A condição de saúde bucal observada nessas populações ribeirinhas apresenta alta prevalência de cárie dentária, perda de elementos dentários e doença periodontal. Esse quadro evidencia as iniquidades no acesso aos serviços de saúde enfrentadas por esses grupos, refletindo o impacto dos determinantes sociais na qualidade de vida da população. Os indicadores sociais característicos dessas comunidades – incluindo baixo nível socio-econômico e escolaridade reduzida – demonstram associação significativa com o limitado acesso aos serviços odontológicos.

Diante desse contexto, a ACISo foi realizada em quatro municípios da Ilha Marajó: Soure, Ponta de Pedras, Muaná e Melgaço, por apresentar necessidades urgentes e demandas de saúde reprimidas. Assim, esse artigo visa relatar a experiência de residentes de odontologia do Programa de Saúde da Família da Universidade do Estado do Pará em conjunto com a equipe odontológica do Hospital Naval de Belém (HNBe), evidenciando o impacto dessas ações como forma de amenizar as desigualdades sócio-sanitárias nas comunidades ribeirinhas.

2. METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza descritiva, do tipo relato de experiência, com ênfase na área da assistência à saúde. A experiência refere-se à participação de residentes do Programa Multiprofissional em Estratégia Saúde da Família (ESF), da Universidade do Estado do Pará (UEPA), na Ação Cívico-Social (ACISO) realizada entre os dias 20 de julho e 2 de agosto de 2025 em comunidades ribeirinhas dos municípios de Soure, Ponta de Pedras, Muaná e Melgaço, localizados na Ilha do Marajó, estado do Pará.

A pesquisa fundamenta-se em uma abordagem observacional sistemática, que dispensa a formulação de hipóteses, priorizando a análise e correlação entre dados empíricos e referenciais teóricos. De acordo com Lakatos e Marconi (2017), relatos de experiência configuram-se como um método de investigação que documenta vivências práticas, registrando eventos significativos e refletindo sobre as aprendizagens decorrentes da execução de projetos ou intervenções específicas.

As ações foram coordenadas pela Marinha do Brasil e contaram com a participação de seis residentes vinculados ao programa multiprofissional da UEPA — duas cirurgiãs-dentistas, duas enfermeiras e duas terapeutas ocupacionais. As atividades foram desenvolvidas em parceria com profissionais de saúde da Odonto-Clínica do Hospital Naval de Belém (HNBe), que acompanharam os atendimentos odontológicos prestados à população.

O fluxo assistencial odontológico seguiu as etapas de triagem, aferição de pressão arterial, glicemia capilar e temperatura corporal, seguidas de atendimento clínico. Os dados foram coletados a partir da observação direta das práticas desenvolvidas e das fichas de atendimento individuais e coletivas preenchidas pelos profissionais durante as consultas. Esses registros funcionaram como instrumentos de controle e monitoramento, contendo informações epidemiológicas e descrição dos procedimentos realizados na clínica odontológica instalada a bordo do Navio-Auxiliar (NA) Pará.

Por tratar-se de um relato de experiência baseado em observação direta, não se fez necessária a obtenção de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Contudo, todas as ações seguiram os princípios éticos da pesquisa em saúde, assegurando a confidencialidade e a privacidade dos dados.

3. RELATO DA EXPERIÊNCIA

Os residentes foram recepcionados em 20 de julho de 2025 por representantes da Marinha do Brasil na Base Naval de Val de Cães, em Belém (PA), onde se encontrava atracado o Navio-Auxiliar (NA) Pará, embarcação que serviu simultaneamente como alojamento e unidade de trabalho durante os 14 dias de expedição. A bordo, encontrava-se uma equipe multidisciplinar composta por tripulantes da Marinha, incluindo marinheiros e fuzileiros navais, além de profissionais de saúde do Hospital Naval de Belém (HNBe), entre os quais médicos, nutricionista, enfermeiros, farmacêutica, técnicos de enfermagem e técnicos de laboratório. Integravam ainda o contingente a assessoria jurídica, membros da Organização Não Governamental (ONG) Américas Amigas, convidados e voluntários civis.

A equipe de residência do Programa Multiprofissional em Estratégia Saúde da Família, vinculada à Universidade do Estado do Pará (UEPA), era formada por seis profissionais, sendo duas terapeutas ocupacionais, duas cirurgiãs-dentistas e duas enfermeiras. No mesmo dia da chegada, foi realizada a reunião inaugural com todos os participantes da missão, na qual foram apresentadas as diretrizes operacionais da embarcação, a rotina de bordo e a estrutura organizacional dos serviços de saúde que seriam executados ao longo da ação.

As atividades assistenciais tiveram início após o alinhamento das equipes e se estenderam pelos municípios de Soure, Ponta de Pedras, Muaná e Melgaço, localizados no arquipélago do Marajó (PA). A missão teve duração total de 14 dias, com carga horária semanal de 32 horas, organizada em regime alternado: dois dias consecutivos de atendimento (com jornada diária de oito horas) seguidos de um dia de deslocamento da embarcação até o município subsequente.

A estrutura odontológica do NA Pará era composta por duas cadeiras odontológicas completas, dois compressores (um principal e um reserva) e um aparelho de ultrassom odontológico. Apesar de o consultório possuir suporte técnico para radiografias periapicais digitais, essa funcionalidade encontrava-se inoperante devido à ausência da placa digital necessária para o exame.

Do ponto de vista assistencial, as ações concentraram-se na atenção primária em saúde bucal, com enfoque na resolutividade dos casos e na satisfação dos usuários. A demanda predominante consistiu em atendimentos de urgência odontológica, sendo realizados procedimentos preventivos, restauradores e cirúrgicos, conforme segue:

a) Medidas preventivas: orientação de higiene bucal, profilaxia e aplicação tópica de flúor;

b) Terapia periodontal: raspagem e alisamento radicular supra e subgengival por sextante;

c) Dentística restauradora: restaurações com resina composta (anteriores e posteriores) e ionômero de vidro;

d) Cirurgias menores: exodontias de elementos decíduos e permanentes;

e) Tratamentos paliativos: curativos de demora em dentes indicados para tratamento endodôntico.

Os atendimentos foram classificados em três categorias principais: procedimentos odontológicos gerais, procedimentos preventivos não pediátricos e procedimentos odontopediátricos. No total, foram realizados 676 procedimentos gerais, 2.010 procedimentos preventivos não pediátricos e 451 procedimentos odontopediátricos (Tabela 1).

Identificou-se, contudo, limitação técnica para a execução de procedimentos de maior complexidade, como as exodontias de terceiros molares, que exigiram encaminhamento para serviços especializados. Essa limitação evidenciou uma lacuna assistencial relevante, uma vez que os municípios visitados não dispõem de atendimento odontológico especializado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), obrigando os usuários a deslocarem-se até localidades vizinhas com infraestrutura adequada.

Essa constatação reforça a relevância de ações interinstitucionais como a ACISo, que, mesmo diante de restrições logísticas e estruturais, viabilizam o acesso a cuidados odontológicos básicos e contribuem significativamente para a redução das desigualdades em saúde em populações ribeirinhas e de difícil acesso.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência vivenciada pelos residentes em Odontologia na Ilha do Marajó, estado do Pará, evidenciou a relevância das ações de promoção da saúde bucal como estratégia essencial no enfrentamento das desigualdades socioespaciais, sobretudo em regiões de difícil acesso geográfico. A intervenção possibilitou a oferta de assistência odontológica à população, contribuindo significativamente para a ampliação do acesso aos cuidados básicos em saúde bucal e para a redução das iniquidades assistenciais. Para além do caráter assistencial, a Ação Cívico-Social (ACISO) configurou-se como um espaço formativo ampliado, favorecendo o desenvolvimento de competências clínicas, comunicacionais e colaborativas entre os residentes. Essa vivência prática reafirmou o papel da Estratégia Saúde da Família (ESF) como eixo estruturante da formação em saúde, pautada na integralidade do cuidado, no trabalho em equipe e na valorização dos determinantes sociais da saúde. Assim, a inserção de residentes em ações interinstitucionais dessa natureza não apenas fortalece os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), mas também contribui para a promoção da equidade e para a consolidação de práticas profissionais comprometidas com a transformação social e o cuidado humanizado.

REFERÊNCIAS

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1Residente do Programa Estratégia Saúde da Família, da Universidade do Estado do Pará, Campus CCBS.
2Especialista em Saúde da Família, Universidade do Estado do Pará (UEPA), Preceptora da Residência Multiprofissional em Saúde da Família – UEPA; Mestranda em Saúde Coletiva na Amazônia – UFPA e-mail: mayra.leao@yahoo.com.br

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