ABORDAGENS CIRÚRGICAS DA DISFUNÇÃO TEMPOROMANDIBULAR: REVISÃO DA LITERATURA 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511141350


Fatima Kazaal
Rim Dbouk
Orientador: Yann Phillip Gomes


RESUMO 

A articulação temporomandibular (ATM) é uma das mais complexas do organismo humano, responsável por funções vitais como mastigação, fala e deglutição. A Disfunção Temporomandibular (DTM) representa um conjunto de alterações musculoesqueléticas que acometem a ATM e os músculos da mastigação, tendo etiologia multifatorial e impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. Embora a maioria dos casos responda a tratamentos conservadores, há situações em que a intervenção cirúrgica se torna necessária. Este estudo tem como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura sobre as diferentes abordagens cirúrgicas da DTM, incluindo artrocentese, artroscopia, discopexia e cirurgia aberta com prótese de ATM. A metodologia consistiu em levantamento bibliográfico em bases como PubMed, SciELO, LILACS e Scopus, considerando publicações entre 2014 e 2024. A análise dos resultados demonstrou que técnicas minimamente invasivas, como a artrocentese e a artroscopia, apresentam bons índices de eficácia, menor morbidade e recuperação rápida. Já cirurgias abertas, como a discopexia e a implantação de prótese, são indicadas para casos graves e refratários, embora envolvam maiores custos e riscos. Conclui-se que a escolha do procedimento deve ser individualizada, considerando a gravidade do quadro clínico, a resposta ao tratamento conservador e as necessidades do paciente, reforçando a importância de uma conduta baseada em evidências científicas. 

Palavras-chave: Temporomandibular. Disfunção Temporomandibular. Cirurgia Bucal. Tratamento Cirúrgico.

ABSTRACT 

The temporomandibular joint (TMJ) is one of the most complex structures in the human body, responsible for vital functions such as chewing, speech, and swallowing. Temporomandibular Disorder (TMD) represents a set of musculoskeletal alterations that affect the TMJ and the masticatory muscles, with a multifactorial etiology and a significant impact on patients’ quality of life. Although most cases respond to conservative treatments, there are situations in which surgical intervention becomes necessary. This study aims to conduct an integrative literature review on the different surgical approaches for TMD, including arthrocentesis, arthroscopy, discopexy, and open surgery with TMJ prosthesis. The methodology consisted of a bibliographic search in databases such as PubMed, SciELO, LILACS, and Scopus, considering publications between 2014 and 2024. The analysis of the results showed that minimally invasive techniques, such as arthrocentesis and arthroscopy, present good effectiveness rates, lower morbidity, and faster recovery. On the other hand, open surgeries, such as discopexy and prosthesis implantation, are indicated for severe and refractory cases, although they involve higher costs and risks. It is concluded that the choice of procedure should be individualized, considering the severity of the clinical condition, the response to conservative treatment, and the patient’s needs, reinforcing the importance of an evidence-based approach. 

Keywords: Temporomandibular Joint. Temporomandibular Disorder. Oral Surgery. Surgical Treatment.

1. INTRODUÇÃO 

A Disfunção Temporomandibular (DTM) é um termo que descreve um conjunto de alterações que afetam a articulação temporomandibular (ATM), os músculos mastigatórios e estruturas associadas. Trata-se de uma condição multifatorial, frequentemente relacionada a fatores anatômicos, funcionais, psicológicos e hormonais. A Disfunção Temporomandibular (DTM) é considerada uma das condições musculoesqueléticas mais comuns que afetam a região orofacial, apresentando alta prevalência na população em geral. Um dado consistente na literatura aponta maior prevalência da DTM em mulheres, principalmente na faixa etária entre 20 e 40 anos. Esse predomínio feminino tem sido associado a fatores hormonais, como a ação dos estrogênios sobre a articulação temporomandibular e sobre a sensibilidade à dor, além de aspectos comportamentais e psicossociais, como maior predisposição ao estresse e à ansiedade.

Gráfico 1 – Fatores incidência da DTM 

Fonte: As Autoras

Apesar da maior ocorrência em adultos jovens, a DTM pode acometer indivíduos em diferentes fases da vida. Crianças e adolescentes podem apresentar sinais de desgaste dentário e hábitos parafuncionais, enquanto em idosos há maior frequência de alterações degenerativas da ATM, como artrite e artrose.

Assim, a prevalência da DTM é considerada significativa, com impacto direto na qualidade de vida dos pacientes, já que os sintomas dolorosos e funcionais afetam atividades cotidianas como mastigação, fala e sono. O reconhecimento da maior suscetibilidade em mulheres jovens reforça a importância de estratégias de diagnóstico precoce e de prevenção voltadas a esse grupo populacional. 

A DTM possui etiologia multifatorial, influenciada por fatores anatômicos, fisiológicos, psicológicos e comportamentais. Entre os principais fatores predisponentes estão: Bruxismo (diurno ou noturno); Má oclusão dentária ou discrepâncias funcionais entre dentes e articulação; Traumas diretos ou indiretos na região da ATM; Alterações posturais, especialmente cervicais; Fatores psicológicos, como estresse, ansiedade e depressão; Distúrbios do sono; Hipermobilidade articular em indivíduos com maior laxidade ligamentar. 

A Disfunção Temporomandibular (DTM) caracteriza-se por um conjunto de sinais e sintomas que podem envolver não apenas a articulação temporomandibular (ATM), mas também estruturas musculares, dentárias e regiões adjacentes. Essa condição possui manifestações clínicas bastante variadas, o que muitas vezes dificulta o diagnóstico diferencial com outras desordens orofaciais. Entre os principais sintomas relatados pelos pacientes, a dor é o mais prevalente e pode se manifestar em diferentes áreas da face e da cabeça. Frequentemente, observa-se dor em região massetérica, decorrente da sobrecarga ou hiperatividade do músculo masseter, sendo relatada como uma dor em peso ou sensação de fadiga na mastigação. Também é comum a presença de dor em região temporal, muitas vezes confundida com cefaleia tensional, devido à proximidade com a região da têmpora. Além disso, pacientes podem relatar dor em região frontal, o que contribui para a sobreposição com quadros de cefaleia primária, especialmente enxaqueca. Outro sintoma frequente é a pressão ou dor ao redor dos olhos, resultado da irradiação da dor miofascial ou da sobrecarga funcional da ATM, que pode se estender para o terço médio da face. A dor ou pressão nessa região é um achado recorrente, associada tanto a alterações musculares quanto articulares. A DTM também pode cursar com sintomas auditivos, como zumbido no ouvido, que se explica pela relação anatômica e funcional entre a articulação temporomandibular e a orelha média, podendo ser confundida com alterações otológicas. Além disso, há relatos de cervicobraquialgia, caracterizada por dor na região posterior do pescoço que irradia para os ombros e braços, refletindo o envolvimento da musculatura cervical e a propagação da dor para regiões distantes. Outro ponto comum é a dor na região occipital, frequentemente relacionada à tensão muscular crônica.No que se refere à articulação, é frequente a presença de ruídos articulares, sendo a crepitação um sinal clássico da degeneração ou irregularidade das superfícies articulares, geralmente associada a deslocamentos do disco articular ou processos degenerativos.Outro sintoma relatado com frequência é a dor de cabeça constante, resultado da interação entre os músculos mastigatórios, estruturas articulares e fatores de sobrecarga, como o bruxismo.Além dos sintomas subjetivos, a DTM também se manifesta por sinais clínicos observáveis. Entre eles, destacam-se o desgaste dentário, indicativo de atrito excessivo entre os dentes, geralmente relacionado ao hábito parafuncional de ranger ou apertar os dentes. O bruxismo é um fator etiológico importante, sendo considerado tanto um sinal quanto um sintoma, visto que o paciente pode relatar dor ou cansaço muscular associado a este hábito. De forma geral, os sinais e sintomas da DTM abrangem: Dor muscular: em regiões massetérica, temporal, frontal, occipital e no terço médio da face, sintomas otológicos: zumbido, sensação de pressão no ouvido, alterações cervicais: cervicobraquialgia, rigidez e dor na musculatura do pescoço, alterações articulares: crepitação, estalos, limitação ou desvios de movimento mandibular, sintomas sistêmicos associados: cefaleia constante, fadiga muscular e sensação de aperto facial, sinais clínicos dentários: desgaste dentário e presença de hábitos parafuncionais (bruxismo). Portanto, a DTM apresenta um quadro clínico multifacetado, que vai além da dor localizada na ATM, podendo irradiar para diferentes áreas da cabeça, pescoço e até membros superiores, além de gerar repercussões funcionais e estruturais perceptíveis no sistema estomatognático. 

O diagnóstico da Disfunção Temporomandibular deve ser realizado por meio de uma avaliação clínica detalhada, associada à anamnese completa e, quando necessário, ao uso de exames complementares. Através do histórico do paciente investigar queixas relacionadas a dor, ruídos articulares, dificuldade de mastigação e hábitos parafuncionais. Pacientes frequentemente relatam que não dormem bem, apresentam altos níveis de ansiedade e estresse e muitas vezes se percebem durante o dia apertando os dentes. O exame clínico envolve a palpação da musculatura mastigatória e cervical, a análise da amplitude e simetria dos movimentos mandibulares, além da detecção de sons articulares como estalos e crepitações. Caso necessário, são solicitados exames complementares que podem incluir radiografias, tomografia computadorizada e ressonância magnética, especialmente nos casos em que se suspeita de alterações estruturais significativas na ATM.

Figura 1 – Ressonância Magnética – ATM 

IVEIRA, V. G. B (2024)

O tratamento da DTM é indicado sempre que os sintomas afetam a qualidade de vida do paciente, prejudicam a mastigação, a fala, o sono ou causam dor persistente. Também é recomendado nos casos de sinais clínicos de desgaste dentário ou de sobrecarga articular significativa. Em geral, o tratamento inicia-se por meio de abordagens conservadoras, como fisioterapia, placas oclusais, farmacoterapia e terapia cognitivo-comportamental . A fisioterapia desempenha papel fundamental no manejo da DTM, especialmente nos casos de dor miofascial e limitações funcionais. As técnicas incluem Exercícios de alongamento e fortalecimento da musculatura mastigatória e cervical, visando restaurar a amplitude de movimento da mandíbula; Terapia manual, com técnicas de liberação miofascial, mobilização articular e manipulações suaves para reduzir a tensão muscular e melhorar a função da ATM; Recursos eletroterápicos, como TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea) e laserterapia de baixa intensidade, utilizados para analgesia e modulação inflamatória; Orientações posturais, uma vez que alterações cervicais e de posicionamento mandibular estão frequentemente associadas à DTM. As placas oclusais (ou placas interoclusais) são dispositivos acrílicos confeccionados sob medida, ajustados à arcada dentária do paciente, com o objetivo de reduzir a sobrecarga na ATM e na musculatura mastigatória. Seus principais efeitos incluem a Distribuição uniforme das forças oclusais, diminuindo a sobrecarga articular; Redução da atividade parafuncional, especialmente em casos de bruxismo;Proteção dos dentes contra desgastes e fraturas; Diminuição da dor muscular e articular. Com a farmacoterapia inclui o tratamento medicamentoso que tem como objetivo reduzir a dor, controlar a inflamação e auxiliar no relaxamento muscular. Os principais fár macos utilizados incluem analgésicos e anti-inflamatórios indicados para alívio da dor aguda e controle do processo inflamatório os relaxantes musculares são recomendados em casos de espasmo ou contratura muscular associada; antidepressivos tricíclicos em baixas doses (como a amitriptilina) são utilizados em pacientes com dor crônica, especialmente quando há sobreposição com distúrbios do sono e também os ansiolíticos, em situações específicas, para controle de ansiedade diretamente relacionada à exacerbação dos sintomas. E por fim a terapia cognitivo-comportamental tem como foco a modificação de fatores psicológicos e comportamentais associados à DTM, como estresse, ansiedade e hábitos parafuncionais. Essa abordagem oferece benefícios como a Identificação e controle de hábitos nocivos, como apertamento dentário durante o dia a Redução do estresse e ansiedade, que atuam como fatores predisponentes e perpetuadores da dor a Melhora da qualidade do sono, frequentemente comprometida em pacientes com DTM a Educação em saúde, incentivando o autocuidado e estratégias de enfrentamento da dor crônica. 

Quando necessário as opções cirúrgicas são indicadas e incluem procedimentos minimamente invasivos, como artrocentese e artroscopia, e técnicas mais complexas, como discopexia, discectomia, artroplastia e implante de próteses da ATM. Cada técnica possui indicações específicas, diferentes níveis de eficácia e riscos, exigindo avaliação criteriosa para a escolha do melhor tratamento. Entre as técnicas menos invasivas, destacam-se a artrocentese, que consiste na lavagem da cavidade articular para remoção de mediadores inflamatórios e melhora da mobilidade, e a artroscopia, realizada com o auxílio de ópticas e instrumentos específicos, permitindo visualização direta da articulação e intervenções mais precisas. Em casos que exigem correção estrutural, podem ser indicadas cirurgias como a discopexia, que busca reposicionar o disco articular, ou a discectomia, que consiste na remoção do disco quando este está severamente danificado. Há ainda a artroplastia, indicada para remodelação ou reconstrução parcial da articulação, e, em situações mais avançadas ou irreversíveis, o implante de próteses da ATM, que substitui total ou parcialmente a articulação comprometida. Cada uma dessas abordagens apresenta indicações específicas, níveis distintos de eficácia e riscos associados, tornando indispensável a avaliação criteriosa do quadro clínico para a seleção do tratamento mais adequado. 

Assim, este trabalho tem como objetivo reunir e analisar criticamente a literatura científica recente acerca das abordagens cirúrgicas da DTM, comparando suas indicações, resultados clínicos, benefícios e limitações, de modo a subsidiar a prática odontológica.

2. MATERIAL E MÉTODO 

Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura de caráter qualitativo e comparativo. A coleta de dados foi realizada entre janeiro e junho de 2024, por meio de buscas em bases de dados como PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, BVS e Scopus. 

Foram utilizadas combinações de descritores e palavras-chave em português, inglês e espanhol, incluindo: “disfunção temporomandibular”, “articulação temporomandibular”, “tratamento cirúrgico”, “artrocentese”, “artroscopia”, “cirurgia aberta da ATM”, “prótese da ATM”, “surgical treatment of temporomandibular disorders”. 

Critérios de inclusão: 

– Artigos publicados entre 2014 e 2024; 

– Idiomas: português, inglês e espanhol; 

– Estudos sobre intervenções cirúrgicas na DTM; 

– Revisões sistemáticas, meta-análises, ensaios clínicos e estudos comparativos. 

Critérios de exclusão: 

– Estudos que abordassem apenas terapias conservadoras; 

– Relatos de caso isolados; 

– Trabalhos com metodologia pouco clara ou sem análise crítica da eficácia cirúrgica. 

Os artigos selecionados foram analisados de forma crítica, organizando-se os achados em categorias temáticas (artrocentese, artroscopia, discopexia, cirurgia aberta e prótese de ATM). Sempre que possível, foram considerados parâmetros como eficácia clínica, riscos, complicações, custo-benefício e impacto na qualidade de vida dos pacientes. 

Inicialmente, foram identificados 60 artigos nas bases de dados. Não foram identificados registros em outras fontes, após a remoção de 17 duplicatas, restaram 43 registros para triagem. Na etapa de leitura de títulos e resumos, 12 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão, resultando em 31 artigos para avaliação completa. Destes, 20 foram excluídos por abordarem apenas terapias conservadoras, apresentarem metodologia pouco clara ou não tratarem de intervenções cirúrgicas. Assim, 11 artigos foram incluídos na revisão final e organizados de acordo com as categorias temáticas: artrocentese, artroscopia, discopexia, cirurgia aberta e prótese de ATM. Sendo 10 desses artigos de síntese qualitativa e 1 de síntese quantitativa.

Diagrama 1 – Diagrama Prisma da seleção dos estudos incluídos

Fonte: As autoras

3. REVISÃO DA LITERATURA 

A literatura científica aponta que a artrocentese é uma técnica minimamente invasiva, indicada principalmente para casos iniciais ou moderados de deslocamento do disco articular e processos inflamatórios. Por ser simples e de baixo custo, mostra bons resultados na melhora da dor e da função mandibular, embora possa apresentar recidivas. 

A artroscopia permite visualização direta da ATM e execução de procedimentos intra-articulares, como lise de aderências e reposicionamento discal. É considerada mais eficaz que a artrocentese em casos moderados, especialmente na melhora da amplitude mandibular. Além disso, apresenta baixo risco de complicações e recuperação rápida, sendo vista como opção de equilíbrio entre custo-benefício e eficácia. 

A discopexia é um procedimento cirúrgico mais complexo, indicado para reposicionamento do disco articular em casos de deslocamento sem redução persistente. Embora proporcione bons resultados, envolve maiores custos, tempo de recuperação prolongado e riscos como fibrose e recidiva. 

As cirurgias abertas e a prótese total de ATM são reservadas para casos graves, como anquilose, degeneração irreversível ou falha das terapias menos invasivas. Apesar de proporcionarem melhora significativa da função mandibular, estão associadas a maiores riscos operatórios, necessidade de internação hospitalar e custos elevados. 

De forma geral, a análise comparativa revela que procedimentos minimamente invasivos devem ser priorizados como primeira escolha nos casos refratários ao tratamento conservador. Já as cirurgias abertas e a prótese devem ser consideradas como último recurso, em situações de comprometimento estrutural severo. 

Outro ponto relevante diz respeito ao impacto psicológico da DTM, já que estresse e ansiedade agravam os sintomas. Assim, uma abordagem interdisciplinar envolvendo odontólogos, fisioterapeutas e psicólogos é fundamental para garantir resultados mais duradouros. 

A literatura científica converge no sentido de que os procedimentos minimamente invasivos, como artrocentese e artroscopia, devem ser priorizados frente às abordagens abertas no tratamento da DTM, por apresentarem eficácia clínica satisfatória e menores riscos associados. Batistela (2021) destaca que a artrocentese é uma técnica simples, de baixo custo e eficaz na melhora da dor e da função mandibular, especialmente em casos de deslocamento discal sem redução e aderências intracapsulares. Essa visão é reforçada por Grossmann e Grossmann (2011), que acrescentam que a associação da artrocentese à viscossuplementação com ácido hialurônico potencializa os resultados, proporcionando aumento da abertura bucal e significativa redução da dor. Figueirêdo et al. (2022) corroboram esses achados ao compararem artrocentese e artroscopia, ressaltando que ambas apresentam altas taxas de sucesso e baixo índice de complicações, embora a artroscopia, por permitir visualização direta da articulação, possibilite intervenções adicionais e resultados superiores em casos mais complexos. Nesse sentido, Vilar et al. (2020) propõem um raciocínio escalonado no manejo cirúrgico, em que a artrocentese é a primeira opção após falha das terapias conservadoras, seguida da artroscopia, e, em casos refratários, de procedimentos abertos como a discopexia ou artroplastia.Segami (2018) reforçam essa lógica ao apontar a eficácia da discopexia com ancoragem em estágios mais avançados (II e III de Wilkes) e a indicação da eminectomia em situações de luxação recidivante, demonstrando que as cirurgias abertas ainda têm papel relevante, embora restrito a casos graves ou recidivantes. Essa perspectiva também é compartilhada Pereira, Campos e Paula (2021), que defendem a indicação criteriosa das técnicas invasivas, sempre em associação a medidas conservadoras, como fisioterapia e controle de hábitos parafuncionais, para garantir melhores resultados a longo prazo. No contexto das cirurgias mais complexas,Pereira, Campos e Paula (2021)chama atenção para o avanço das próteses customizadas da ATM, que oferecem biocompatibilidade, funcionalidade e estabilidade, sendo uma alternativa promissora em casos de degeneração irreversível. No entanto Grossmann e Grossmann (2011), e Oliveira et al. (2024) alertam que esses procedimentos devem ser encarados como última opção, visto os custos elevados, os riscos operatórios e a necessidade de diagnóstico anatômico e funcional preciso, muitas vezes obtido por meio da ressonância magnética. Paralelamente às abordagens cirúrgicas, diversos autores reforçam a importância do tratamento conservador como primeira escolha. A revisão bibliométrica de Batista et al. (2024) evidencia que as modalidades mais estudadas — como placas oclusais, laserterapia e terapia manual — apresentam eficácia significativa na redução da dor e melhora funcional, mas não existe consenso sobre a superioridade de uma técnica sobre as demais. De modo semelhante, Santos e Pereira (2016) demonstraram que a terapia manual pode ser eficaz isoladamente ou em associação com outros recursos, sugerindo que a integração terapêutica é mais benéfica do que intervenções únicas. A revisão publicada na Nascimento et al. (2024) também enfatiza a relevância do manejo conservador, destacando medidas de autocuidado, exercícios musculares e farmacoterapia como pilares iniciais do tratamento, enquanto recursos adjuvantes, como laser de baixa intensidade, acupuntura e até toxina botulínica, podem contribuir em casos específicos. Assim, observa-se um consenso na literatura de que o tratamento da DTM deve seguir uma abordagem escalonada e interdisciplinar. Os métodos conservadores e minimamente invasivos representam a base terapêutica, proporcionando bons índices de sucesso clínico e baixo risco, enquanto os procedimentos abertos e as próteses da ATM devem ser reservados para situações de falha das técnicas anteriores ou de comprometimento estrutural grave. Além disso, considerando a forte influência de fatores psicológicos como estresse e ansiedade sobre a evolução da DTM, diversos autores ressaltam a importância de um acompanhamento multiprofissional, envolvendo odontólogos, fisioterapeutas e psicólogos, a fim de garantir resultados mais duradouros e reduzir a recorrência dos sintomas.

4. CONCLUSÃO 

A Disfunção Temporomandibular (DTM) se apresenta como uma condição complexa, multifatorial e de grande relevância clínica, capaz de afetar de maneira significativa a qualidade de vida dos pacientes. A literatura científica evidencia que seus sinais e sintomas, dor facial, zumbido, crepitação articular, desgaste dentário e repercussões cervicais estão intimamente relacionados a fatores biomecânicos, emocionais e comportamentais, tornando o diagnóstico e o manejo da DTM um desafio que exige cuidado e precisão. Com base na análise crítica dos estudos revisados, entendemos que o tratamento conservador deve ser sempre a primeira escolha, pois fisioterapia, placas oclusais, farmacoterapia e terapias cognitivas demonstram eficácia consistente na redução da dor e na melhora da função mandibular, com baixo risco de complicações. Os procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos, como artrocentese e artroscopia, surgem como ferramentas intermediárias valio sas, oferecendo resultados clínicos satisfatórios em casos refratários, enquanto as cirurgias abertas e as próteses customizadas devem ser reservadas para situações graves, estruturais ou irreversíveis. Os achados desta revisão indicam que Artrocentese e artroscopia são eficazes, seguras e apresentam menor morbidade, sendo indicadas para casos leves e moderados; Discopexia e cirurgias abertas devem ser reservadas para casos avançados, nos quais há falha das técnicas minimamente invasivas; Próteses de ATM representam alternativa definitiva em casos de destruição articular irreversível, mas implicam maiores riscos e custos. Em nossa avaliação, o sucesso do tratamento da DTM não depende apenas da técnica escolhida, mas da capacidade de integrar estratégias terapêuticas de forma interdisciplinar, envolvendo odontologia, fisioterapia e acompanhamento psicológico, e de engajar o paciente em seu próprio cuidado. O controle dos fatores emocionais e comportamentais, aliado a intervenções individualizadas, é essencial para garantir resultados duradouros e prevenir recidivas. Portanto, defendemos que a abordagem da DTM deve ser gradativa, personalizada e multidisciplinar, priorizando sempre métodos menos invasivos, mas sem ignorar a importância das soluções cirúrgicas quando estritamente necessárias. Em nossa opinião, somente ao unir ciência, experiência clínica e cuidado centrado no paciente será possível alcançar um manejo eficaz da DTM, restaurando a função, aliviando dor e promovendo uma melhora real na qualidade de vida.

REFERÊNCIAS 

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