ONE HEALTH VETERINARY APPROACH IN THE TEKOA PYA INDIGENOUS COMMUNITY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510250610
Nicoly de Almeida Rafael
Resumo
As doenças zoonóticas são aquelas transmitidas entre animais e seres humanos, podendo ser causadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas. Em aldeias indígenas, essas enfermidades representam um risco importante à saúde coletiva, dada a convivência próxima entre humanos, animais domésticos e animais silvestres, além das condições sanitárias e de acesso limitado a serviços de saúde.
Palavras chaves: zoonose, comunidade indígena, veterinário
Abstract.
Zoonotic diseases are those transmitted between animals and humans and can be caused by viruses, bacteria, fungi, or parasites. In indigenous villages, these diseases pose a significant risk to public health, given the close coexistence of humans, domestic animals, and wild animals, as well as poor sanitary conditions and limited access to health services.
Keywords: zoonosis, indigenous community, veterinarian
Objetivo
Este trabalho tem como o objetivo de conscientizar as pessoas da comunidade indígena que não tem o conhecimento sobre doenças zoonóticas, fazendo uma pesquisa-ação, e mostrar a realidade de muitos lugares que ainda hoje mantém animais e pessoas em situações insalubres, meio onde abrange a propagação de doenças.
O propósito deste estudo constitui em propagar o conhecimento sobre doenças zoonóticas. Trata-se de uma pesquisa-ação, onde será levado informações sobre algumas doenças que são zoonóticas, trazer esse conhecimento para a aldeia poder se conservar.
A pesquisa será feita em uma comunidade indígena, localizada no Jaraguá, chamada Tekoa Pya propondo trazer conhecimento ao público sobre doenças zoonóticas e sua forma de prevenção. A escolha deste local se deu em razão a quantidade alta de animais abandonados, que convivem com um grupo de pessoas sem conhecimento sobre doenças transmissíveis.
Introdução
Nas últimas décadas, o aumento das interações entre seres humanos, animais e meio ambiente tem contribuído significativamente para o surgimento e a reemergência de diversas doenças, principalmente zoonoses. Estima-se que aproximadamente 75% das doenças infecciosas emergentes em humanos sejam de origem animal (KAJIHARA; SOUZA; MOTA, 2021). Nesse contexto, surge a necessidade de uma abordagem interdisciplinar que promova a integração dos setores de saúde humana, saúde animal e meio ambiente: a Saúde Única.
O conceito de Saúde Única (One Health) reconhece que a saúde dos animais, das pessoas e dos ecossistemas está interligada, sendo indispensável a atuação conjunta de médicos veterinários, médicos, biólogos, profissionais de saúde pública e especialistas ambientais para prevenir, monitorar e controlar riscos à saúde global (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022). Para a medicina veterinária, essa abordagem é especialmente relevante, uma vez que o médico veterinário desempenha papel central no monitoramento de zoonoses, na vigilância epidemiológica, na segurança alimentar, no uso racional de antimicrobianos e na conservação da saúde dos animais, sejam eles de produção, companhia, silvestres ou de vida livre (MACHADO et al., 2020).
O abandono de animais domésticos é um problema de saúde pública que afeta não apenas as áreas urbanas, mas também comunidades rurais e populações vulneráveis, como as aldeias indígenas. Nesses territórios, a presença de cães e gatos sem cuidados adequados representa um risco significativo para a disseminação de zoonoses, doenças infecciosas transmitidas entre animais e seres humanos, como raiva, leishmaniose, toxoplasmose e verminoses intestinais (SILVA et al., 2020).
As aldeias indígenas, por suas características culturais, geográficas e sociais, apresentam particularidades no modo como se relacionam com os animais.
Frequentemente, cães e gatos são considerados parte da coletividade, e não há uma distinção clara entre animais “de estimação” e animais comunitários. Essa convivência próxima, aliada à falta de acesso a serviços veterinários, controle reprodutivo e vacinação, favorece o aumento da população animal e o risco de transmissão de doenças (FERREIRA; MORAES; DIAS, 2021).
Nesse contexto, torna-se essencial adotar a abordagem da Saúde Única (One Health), que considera a interconexão entre saúde humana, saúde animal e o meio ambiente. O médico veterinário, inserido em ações interdisciplinares com agentes de saúde indígena, lideranças locais e profissionais de saúde pública, desempenha um papel central na vigilância epidemiológica, no controle populacional ético de animais e na prevenção de zoonoses nas comunidades tradicionais (FUNASA, 2009; FAO; WHO; WOAH, 2021).
A vulnerabilidade das aldeias indígenas a surtos de zoonoses é agravada pela limitação de políticas públicas específicas, pela escassez de dados epidemiológicos e pela dificuldade de acesso a programas de educação em saúde voltados à realidade cultural dessas comunidades. Assim, é fundamental desenvolver estratégias integradas e respeitosas que promovam o bem-estar animal e humano, garantindo o direito à saúde dessas populações tradicionais de forma sustentável e inclusiva.
Diante desse cenário, o presente trabalho tem como objetivo analisar os impactos do abandono de animais em aldeias indígenas e sua relação com o risco de zoonoses, discutindo o papel do médico veterinário e da abordagem de Saúde Única como estratégia essencial para promover o equilíbrio sanitário nessas comunidades.
Desenvolvimento
O abandono de animais domésticos, como cães e gatos, em áreas próximas ou dentro de aldeias indígenas é uma realidade crescente em diversas regiões do Brasil. Muitos desses animais são deixados por pessoas de fora das comunidades, enquanto outros nascem ali mesmo, sem qualquer tipo de controle populacional. Em consequência disso, é comum encontrar animais vagando pelas aldeias em estado de vulnerabilidade: desnutridos, feridos, doentes ou infestados por parasitas, como pulgas, carrapatos e vermes intestinais.
Essa situação representa um risco direto à saúde da população indígena, principalmente porque, na maioria das vezes, os membros dessas comunidades não possuem conhecimento sobre o que são as zoonoses, nem sobre as formas de prevenção e controle dessas doenças. Zoonoses são enfermidades transmitidas entre animais e seres humanos, causadas por diferentes agentes, como vírus, bactérias, fungos e parasitas. A convivência próxima entre pessoas e animais não vacinados ou doentes aumenta significativamente a possibilidade de contaminação.
Entre as zoonoses mais comuns que podem afetar essas comunidades, destacam-se:
- Raiva: doença viral grave, transmitida pela mordida ou lambida de animais infectados. É quase sempre fatal após o início dos sintomas.
- Leishmaniose: transmitida pela picada de flebotomíneos (mosquitos-palha), geralmente em cães infectados. Pode afetar humanos com formas cutâneas e viscerais.
- Leptospirose: transmitida pela urina de animais, especialmente em ambientes com água ou solos contaminados. Causa febre, dor muscular e pode evoluir para formas graves.
- Sarna e outras dermatites parasitárias: facilmente transmitidas pelo contato direto com animais infectados, causando coceira, feridas e infecções secundárias.
- Toxoplasmose e giardíase: transmitidas por fezes contaminadas, podendo comprometer especialmente gestantes e crianças.
Muitas dessas doenças poderiam ser prevenidas com medidas simples, como vacinação, vermifugação, castração e higiene adequada dos animais. No entanto, nas aldeias, o acesso aos serviços veterinários é limitado ou inexistente. Além disso, falta informação acessível e culturalmente adaptada, que leve em consideração a realidade social, ambiental e econômica dessas populações.
O risco se agrava ainda mais porque as crianças indígenas tendem a ter uma convivência mais próxima e frequente com esses animais. Por não entenderem os riscos, elas muitas vezes brincam, dormem ou se alimentam junto aos animais, o que facilita a transmissão de agentes patogênicos. Também é comum que os resíduos de fezes, urina e restos alimentares dos animais fiquem expostos no ambiente, aumentando a contaminação do solo e da água.
Mesmo que os animais abandonados não pertençam às famílias da aldeia, é fundamental promover uma cultura de cuidado e responsabilidade coletiva. Esses animais fazem parte do ecossistema local e sua saúde impacta diretamente a saúde dos seres humanos. Campanhas de educação comunitária podem contribuir para conscientizar os indígenas sobre como se proteger: evitar o contato com animais doentes, manter áreas limpas, lavar as mãos com frequência, e buscar apoio de profissionais de saúde ao notar sinais de doenças, tanto nos animais quanto nas pessoas.
Nesse contexto, o médico-veterinário exerce um papel indispensável. Sua atuação vai muito além do atendimento clínico individual. Ele deve colaborar com lideranças indígenas, agentes de saúde, escolas e outros profissionais para implementar ações integradas de vigilância sanitária, educação em saúde e manejo ético da população animal. Essa atuação precisa ser orientada pela abordagem da Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental.
A Saúde Única propõe soluções colaborativas e interdisciplinares para problemas complexos como o abandono de animais e o risco de zoonoses. Em áreas indígenas, onde os recursos são escassos e as distâncias até centros urbanos são grandes, é essencial que essas ações sejam organizadas de forma participativa, respeitando os saberes tradicionais e envolvendo as comunidades no planejamento e execução das soluções.
Portanto, enfrentar o problema do abandono de animais e das zoonoses em aldeias indígenas exige não apenas ações pontuais, mas estratégias sustentáveis e integradas, com apoio governamental, envolvimento comunitário e a presença ativa de profissionais da saúde humana e animal. Proteger os animais, educar as famílias e oferecer infraestrutura básica são passos fundamentais para garantir o bem-estar de toda a comunidade e evitar surtos de doenças que podem ter consequências graves – especialmente para as crianças, que continuam sendo o grupo mais afetado.
Conclusão
É possível concluir que o abandono de animais em aldeias indígenas representa um problema de saúde pública, especialmente pela ausência de cuidados veterinários adequados e pela falta de conhecimento da população indígena sobre as zoonoses e os riscos que elas representam. A convivência próxima entre animais e pessoas – principalmente crianças – sem as medidas básicas de prevenção, potencializa a exposição a doenças como raiva, leishmaniose, leptospirose, sarna, entre outras.
Nesse contexto, a presença de uma equipe de profissionais, incluindo médicos veterinários, que realizam um trabalho semanal na aldeia, torna-se essencial para a promoção da saúde coletiva. Essa equipe atua todos os domingos, oferecendo serviços como vacinação, castração, vermifugação e atendimento clínico básico aos animais da comunidade. Além disso, os profissionais também realizam ações educativas com os indígenas, explicando de forma simples o que são as zoonoses, como evitá-las e de que forma cuidar dos animais, mesmo quando não são de propriedade direta das famílias.
Essas ações têm contribuído de maneira significativa para a melhoria das condições sanitárias da aldeia, mostrando que o trabalho conjunto entre profissionais da saúde e a comunidade, com base na abordagem de Saúde Única, é fundamental para promover o bem-estar tanto dos seres humanos quanto dos animais. Investir nesse tipo de iniciativa, ampliando o acesso aos serviços veterinários e fortalecendo a educação em saúde, é um passo necessário para enfrentar os desafios sanitários das populações indígenas e garantir a saúde integral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Anexo 1


