ABORDAGEM CLÍNICA EM FELINO COM NEOFORMAÇÃO EM REGIÃO TRAQUEAL – RELATO DE CASO

CLINICAL APPROACH TO FELINE NEOPLASIA IN THE TRACHEAL REGION – RASE REPORT

ABORDAJE CLÍNICO EN UN FELINO CON NEOPLASIA EN LA REGIÓN TRAQUEAL – REPORTE DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511190913


Gabriel Marcos Oliveira Garcia1


RESUMO  

O presente relato tem como objetivo descrever o caso de uma felina sem raça definida, fêmea, castrada, com três anos de idade, apresentando dificuldade respiratória progressiva. Foram realizados exames hematológicos e de imagem, que auxiliaram na avaliação clínica; entretanto, o diagnóstico definitivo foi obtido por meio de laringotraqueobroncoscopia, a qual evidenciou uma neoformação em região traqueal. Procederam-se biópsia, cultura fúngica e bacteriana com antibiograma, confirmando processo inflamatório. O caso evidencia a importância da endoscopia e da integração diagnóstica no manejo de afecções respiratórias em felinos. Conclui-se que a laringotraqueobroncoscopia é essencial para o diagnóstico diferencial dessas afecções, permitindo uma conduta terapêutica mais precisa.

Palavras-chave: Endoscopia respiratória; Diagnóstico diferencial; Doenças do sistema respiratório; Infecção oportunista; Metaplasia escamosa; Terapêutica veterinária

ABSTRACT

This report aims to describe the clinical case of a three-year-old, neutered, mixed-breed female cat presenting with progressive respiratory difficulty. Hematological and imaging examinations were performed, contributing to the clinical evaluation; however, the definitive diagnosis was obtained through laryngotracheobronchoscopy, which revealed a mass in the tracheal region. Biopsy, fungal and bacterial cultures, and an antibiogram were performed, confirming an inflammatory process. This case highlights the importance of endoscopy and diagnostic integration in the management of respiratory disorders in cats. It is concluded that laryngotracheobronchoscopy is essential for the differential diagnosis of respiratory diseases, allowing for more precise therapeutic decisions.

Keywords: Respiratory endoscopy; Differential diagnosis; Respiratory system diseases; Opportunistic infection; Squamous metaplasia; Veterinary therapeutics.

RESUMEN 

El presente informe tiene como objetivo describir el caso clínico de una gata mestiza, esterilizada, de tres años de edad, que presentaba dificultad respiratoria progresiva. Se realizaron exámenes hematológicos y de imagen que ayudaron en la evaluación clínica; sin embargo, el diagnóstico definitivo se obtuvo mediante laringotraqueobroncoscopia, que reveló una masa en la región traqueal. Se efectuaron biopsia, cultivos fúngico y bacteriano con antibiograma, confirmando un proceso inflamatorio. El caso evidencia la importancia de la endoscopia y de la integración diagnóstica en el manejo de las afecciones respiratorias en felinos. Se concluye que la laringotraqueobroncoscopia es fundamental para el diagnóstico diferencial de estas afecciones, permitiendo una conducta terapéutica más precisa.

Palabras clave: Endoscopia respiratoria; Diagnóstico diferencial; Enfermedades del sistema respiratorio; Infección oportunista; Metaplasia escamosa; Terapéutica veterinaria.

INTRODUÇÃO 

As neoplasias que acometem o trato respiratório em pequenos animais são consideradas incomuns, especialmente quando localizadas na traqueia, sendo ainda mais raras em felinos (CORREA et al., 2020).

Os sinais clínicos associados às neoformações traqueais são geralmente compatíveis com obstrução das vias respiratórias superiores, manifestando-se por dispneia, estridor inspiratório, tosse improdutiva, intolerância ao exercício e, em casos mais graves, episódios de cianose e síncope (BECK et al., 1999; CORREA et al., 2020; REGINALDO et al., 2017). A gravidade dos sinais está diretamente relacionada ao grau de obstrução do lúmen traqueal e à velocidade de crescimento tumoral (CORREA et al., 2020).

O diagnóstico presuntivo dessas alterações baseia-se na anamnese detalhada, exame físico e exames de imagem, como radiografias e tomografia computadorizada. Entretanto, o diagnóstico definitivo requer avaliação endoscópica (laringotraqueobroncoscopia) com coleta de material para biópsia e exames microbiológicos (SILVA et al., 2008; CORREA et al., 2020). Esse exame permite a visualização direta da lesão, definição de sua localização e extensão, e a obtenção de amostras representativas para análise histopatológica, cultura bacteriana e fúngica com antibiograma, que orientam o tratamento adequado.

Dessa forma, a identificação de uma neoformação traqueal em felinos representa um desafio clínico e diagnóstico, exigindo uma abordagem multidisciplinar que envolva exames laboratoriais, métodos de imagem e, principalmente, endoscopia associada à biópsia. O presente trabalho tem como objetivo relatar o caso de uma felina sem raça definida, três anos de idade, fêmea castrada, com dificuldade respiratória, em que o diagnóstico definitivo foi estabelecido por meio de laringotraqueobroncoscopia associada à biópsia e cultura fúngica e bacteriana com antibiograma, destacando a importância desses procedimentos na investigação de alterações traqueais em pequenos animais.

RELATO DE CASO

Foi atendida no dia 22/01/2025 no hospital veterinário uma felina sem raça definida (SRD), fêmea, castrada, com três anos de idade e peso de 3,7 kg, cuja queixa principal era dificuldade respiratória progressiva e rouquidão persistente há aproximadamente 14 dias, associadas à intolerância a exercícios físicos. O tutor relatou que o quadro se agravava gradualmente, com episódios de dispneia acentuada após esforço.

No exame físico, a paciente apresentava-se agitada ao toque, com mucosas normocoradas, linfonodos não reativos, ausculta cardíaca sem alterações e presença de estridor respiratório audível à ausculta pulmonar. A temperatura corporal era de 38°C, e o estado de hidratação encontrava-se adequado.

Diante da gravidade do quadro, optou-se pela internação por 24 horas para observação e estabilização clínica. Foram solicitados exames complementares, incluindo hemograma completo, ALT, gama-GT, ureia e creatinina, radiografias de crânio, tórax e abdômen, e ultrassonografia abdominal.

O hemograma revelou leucocitose (21.400/mm³) com neutrofilia (85%) e ausência de eosinófilos, achados compatíveis com processo inflamatório agudo de origem infecciosa. As proteínas totais (8,3 g/dL) estavam discretamente elevadas, reforçando a suspeita de inflamação sistêmica. O exame ultrassonográfico abdominal evidenciou processo inflamatório no rim esquerdo, caracterizado por discreta irregularidade cortical e aumento da ecogenicidade, compatível com nefrite leve.

As radiografias torácicas demonstraram redução focal do lúmen traqueal na porção torácica, sugerindo estenose ou colapso traqueal, sem outras alterações relevantes em estruturas pulmonares ou cardíacas. Diante desses achados e da persistência dos sinais respiratórios, indicou-se a realização de laringotraqueobroncoscopia para avaliação direta das vias aéreas.

O exame endoscópico revelou meatos nasofaríngeos com espaço preservado, porém com mucosa congesta e vascularização acentuada. A orofaringe e a epiglote apresentavam forma e mobilidade normais, assim como a laringe, cujas cartilagens aritenoides exibiam movimentos de abdução e adução preservados.

A cultura fúngica indicou presença de Candida sp.. O exame histopatológico identificou metaplasia escamosa secundária, sem evidências de malignidade, compatível com processo inflamatório crônico reacional.

Com base nos resultados, foi instituído um tratamento clínico multimodal, com enfoque no controle das infecções e da inflamação traqueal. A paciente foi medicada com itraconazol (50 mg, via oral, uma vez ao dia, por 30 dias), dexametasona (0,1 mg/kg, via oral) e inalação com fluticasona associada a salmeterol, com o objetivo de reduzir o edema e melhorar o fluxo de ar.

Durante o primeiro mês de tratamento, observou-se melhora significativa do padrão respiratório, com redução do estridor, melhora da tolerância ao exercício e restabelecimento do apetite. Após estabilização do quadro, optou-se por suspender o itraconazol e manter apenas a inalação com fluticasona e salmeterol, para controle do processo inflamatório residual.

Entretanto, após aproximadamente três meses do início do tratamento, a paciente apresentou piora respiratória súbita e severa, evoluindo rapidamente a óbito antes que novas medidas pudessem ser adotadas.

DISCUSSÃO E RESULTADOS FINAIS

As afecções que acometem a traqueia em felinos são raramente descritas na literatura e constituem um desafio diagnóstico, devido à baixa incidência e à semelhança dos sinais clínicos com outras doenças respiratórias. O caso relatado ilustra essa dificuldade, uma vez que a paciente apresentava dispneia progressiva, estridor e intolerância ao exercício — manifestações frequentemente associadas a obstruções de vias aéreas superiores ou a processos inflamatórios crônicos.

A laringotraqueobroncoscopia foi fundamental para o diagnóstico definitivo, permitindo a visualização direta de um colapso traqueal grau III a IV e de uma formação irregular que obstruía parcialmente o lúmen. Tais alterações não haviam sido evidenciadas nos exames radiográficos, o que reforça a importância da endoscopia como exame complementar decisivo em casos de suspeita respiratória, conforme também relatado por Correa, Machado, Rocha, Costa, Cabral e Mariano (2020). De forma semelhante, Reginaldo, Rocha, Oliveira, Silva e Almeida (2017) destacaram o papel da avaliação endoscópica em cães com tumores traqueais, enfatizando sua relevância para o diagnóstico diferencial entre lesões neoplásicas e inflamatórias.

A análise histopatológica revelou metaplasia escamosa secundária, sem características de malignidade, sugerindo processo inflamatório reacional crônico. Essa resposta adaptativa da mucosa traqueal está frequentemente relacionada à irritação persistente ou à infecção oportunista, o que é compatível com os resultados microbiológicos, que identificaram Escherichia coli e Candida sp.. Esses achados indicam que a lesão traqueal teve origem infecciosa e inflamatória, levando ao colapso parcial e à obstrução do fluxo aéreo. A presença concomitante de infecção bacteriana e fúngica pode ter contribuído para o agravamento do quadro, condição também observada por autores que descrevem processos mistos em felinos imunocomprometidos ou submetidos a estímulos inflamatórios crônicos.

A conduta terapêutica priorizou o manejo clínico, uma vez que o caráter inflamatório da lesão não justificava intervenção cirúrgica imediata. O tratamento incluiu itraconazol (50 mg, via oral, durante 30 dias) para controle da infecção fúngica, dexametasona (0,1 mg/kg, via oral, uma vez ao dia por sete dias) para reduzir o edema e a inflamação, e a inalação de fluticasona associada a salmeterol, visando melhorar o fluxo de ar e estabilizar o quadro respiratório. Durante o primeiro mês, observou-se melhora significativa, com redução do estridor, retorno do apetite e aumento da tolerância à atividade física. O tratamento clínico mostrou-se eficaz no controle dos sinais e proporcionou um período de estabilidade e qualidade de vida à paciente. 

Após 30 dias, o antifúngico foi suspenso e manteve-se o tratamento inalatório para controle do processo inflamatório residual. Entretanto, cerca de três meses após o início da terapia, houve piora súbita e grave do quadro respiratório, culminando em óbito. A evolução desfavorável, apesar da resposta inicial satisfatória, evidencia o caráter progressivo e de prognóstico reservado das doenças traqueais em felinos. É possível que o agravamento tenha ocorrido em decorrência da progressão do colapso traqueal ou da recidiva infecciosa, fatores que frequentemente limitam a resposta terapêutica a longo prazo.

O presente caso reforça a importância de uma abordagem diagnóstica integrada, que associe exames laboratoriais, de imagem, endoscópicos e histopatológicos. O manejo clínico demonstrou ser uma alternativa eficaz para estabilização temporária do quadro, especialmente em situações em que a intervenção cirúrgica não é indicada. Além disso, ressalta-se a relevância da endoscopia não apenas como ferramenta diagnóstica, mas também como meio de acompanhamento evolutivo, permitindo a adoção de condutas individualizadas que priorizem o bem-estar e a qualidade de vida dos pacientes felinos.

CONCLUSÃO 

O caso relatado evidenciou a complexidade diagnóstica e terapêutica das afecções traqueais em felinos, especialmente diante de sinais respiratórios persistentes e inespecíficos. A laringotraqueobroncoscopia foi fundamental para o diagnóstico, permitindo identificar o colapso traqueal associado a processo inflamatório e infeccioso, além de possibilitar a coleta de amostras para análises complementares.

Os resultados de biópsia, cultura bacteriana e fúngica foram decisivos para compreender a natureza da lesão, que apresentou caráter inflamatório crônico reacional, sem evidências de neoplasia. O manejo clínico, baseado na associação entre antifúngico, corticosteroide oral e broncodilatador inalatório, proporcionou melhora significativa do quadro respiratório e estabilidade temporária, garantindo qualidade de vida à paciente durante o tratamento.

O caso reforça a importância de uma abordagem clínica individualizada e multidisciplinar, sustentada por uma investigação diagnóstica completa e sequencial. Destaca-se também o papel essencial da endoscopia como método de avaliação direta das vias aéreas, permitindo diagnósticos mais precisos e condutas terapêuticas direcionadas.

Este relato contribui para a literatura ao documentar um caso de neoformação inflamatória em região traqueal de felino, ampliando o conhecimento sobre doenças traqueais não neoplásicas e ressaltando a necessidade de atenção clínica diante de sinais respiratórios crônicos em pequenos animais.

REFERÊNCIAS

CORREA, M. D.; GERARDI, D. G.; QUEIROGA, L. B.; DRIEMEIER, D.; PEREIRA, P. R.; HAMMERSCHMITT, M. E.; BECK, C. A. C.; TRINDADE-GERARDI, A. B. Adenocarcinoma traqueal em um gato: relato de caso. Acta Scientiae Veterinariae, Porto Alegre, v. 48, n. 1, p. 1–5

ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de medicina interna veterinária: doenças do cão e do gato. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.

NELSON, R. W.; COUTO, C. G. Medicina interna de pequenos animais. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.

REGINALDO, A. P.; ROCHA, C. A.; OLIVEIRA, A. P.; SILVA, K. F.; ALMEIDA, M. C. Tumor em traqueia de cão: relato de caso. Anais da X Mostra Científica FAMEZ/UFMS, Campo Grande, p. 1–5, 2017.

SILVA, A. A.; LIMA, F. S.; COSTA, R. M. Diagnóstico por endoscopia em pequenos animais. Revista Brasileira de Medicina Veterinária, Rio de Janeiro, v. 30, n. 2, p. 112–118, 2008.

MARTINS, B. P.; DIAS, L. R.; GOMES, P. C.; MOURA, F. M.; LIMA, L. T.; RIBEIRO, G. P. Adenocarcinoma traqueal em felino doméstico: relato de caso. Revista Brasileira de Ciência Veterinária, Niterói, v. 28, n. 3, p. 162–166, 2021.


1Médico Veterinário. Universidade São Judas Tadeu – Mooca, São Paulo, Brasil. E-mail: gabs_marcos@hotmail.com