ABORDAGEM CLÍNICA E TERAPÊUTICA DA ASMA INFANTIL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202508231857


Anna Júlia Silveira Freitas1; Fabiana Rocha Jorge2; Henrique Monteiro Figueiredo3; Lara Urives Rosa4; Larissa Modesto Miranda5; Lucas Bortogliero do Valle6; Marina Dias Ferreira7; Stephany Cristina Boldi de Pinho8


Resumo

O artigo aborda a asma infantil como uma doença inflamatória crônica das vias aéreas, caracterizada por sintomas como sibilância, tosse, sensação de aperto no peito e dificuldade respiratória. A condição é a doença respiratória crônica mais comum na infância, impactando significativamente a qualidade de vida de crianças e suas famílias. O diagnóstico da asma em crianças, especialmente em pré-escolares, é desafiador devido à variabilidade dos sintomas e à ausência de um teste diagnóstico padrão. A avaliação clínica detalhada, incluindo histórico de sintomas e fatores desencadeantes, é fundamental para a suspeita diagnóstica. Em crianças em idade escolar, testes de função pulmonar, como a espirometria, são utilizados, embora em crianças menores a avaliação dependa mais dos critérios clínicos. O tratamento da asma infantil é escalonado com base na gravidade da doença. Os corticosteroides inalatórios são recomendados como a base do tratamento anti-inflamatório. A educação do paciente e da família é crucial para o controle da doença, e planos de ação personalizados são eficazes para prevenir exacerbações. Por fim, o artigo discute a importância do reconhecimento precoce das crises asmáticas e a administração rápida de medicamentos, ressaltando que a implementação das diretrizes é fundamental para otimizar os resultados clínicos.

Palavra – chave: Asma Infantil, Diagnóstico Pediátrico, Tratamento Farmacológico, Educação em Saúde, Manejo Clínico

Abstract

This article reviews the clinical approach to pediatric asthma, an inflammatory chronic airway disease characterized by symptoms such as wheezing, coughing, chest tightness, and difficulty breathing. It highlights that asthma is the most common chronic respiratory disease in childhood, significantly impacting the quality of life for children and their families.Diagnosing asthma in children, especially preschoolers, is challenging due to the variability of symptoms and the lack of a standard diagnostic test. A detailed clinical evaluation, including a history of symptoms and triggers, is crucial for suspicion. In school-aged children, pulmonary function tests like spirometry are used, although in younger children, diagnosis relies more on clinical criteria.The treatment of pediatric asthma is stepped-based on disease severity, with inhaled corticosteroids recommended as the foundation of anti-inflammatory treatment. Patient and family education are crucial for disease control, and personalized action plans are effective in preventing exacerbations.Finally, the article discusses the importance of early recognition of asthma attacks and prompt administration of medications, stressing that the implementation of guidelines is essential for optimizing clinical outcomes.

Keyword: Pediatric Asthma, Pediatric Diagnosis, Pharmacological Treatment, Health Education ,Clinical Management.

Introdução

A asma infantil é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas caracterizada por sintomas como sibilância, tosse, sensação de aperto no peito e dificuldade respiratória, que variam em intensidade e frequência. Esta condição representa a doença respiratória crônica mais comum na infância e apresenta impacto significativo na qualidade de vida das crianças, suas famílias e no sistema de saúde. Apresentamos uma síntese clara e objetiva dos principais aspectos clínicos relacionados ao diagnóstico, manejo e tratamento da asma infantil, com base nas evidências atuais disponíveis.

A metodologia é uma revisão de literatura, focando na abordagem clínica da asma infantil. A pesquisa foi a busca em bases de dados acadêmicas, como PubMed, Scopus e Google Scholar, além da análise de diretrizes clínicas relevantes. Os critérios de inclusão priorizarão estudos recentes que abordem o diagnóstico, manejo e tratamento da asma em crianças, enquanto os critérios de exclusão limitarão a seleção a estudos que não se concentrem especificamente na população pediátrica. A análise dos dados será realizada por meio de uma síntese qualitativa dos achados, visando identificar os principais aspectos relacionados ao diagnóstico, tratamento farmacológico, monitoramento e intervenções multidisciplinares na abordagem da asma infantil.

Diagnóstico da Asma Infantil

O diagnóstico da asma em crianças, especialmente em pré-escolares, representa um desafio considerável devido à variabilidade dos sintomas, à ausência de um teste diagnóstico padrão e à sobreposição com outras condições respiratórias na primeira infância. A avaliação clínica detalhada, que inclui história de sintomas recorrentes de sibilância, tosse (especialmente à noite ou pelo menos com esforço físico), além do relato de episódios desencadeados por alérgenos ou infecções virais, é fundamental para a suspeita diagnóstica.

Objetivar o diagnóstico é possível em crianças em idade escolar por meio de testes de função pulmonar, como a espirometria, que demonstram limitação ao fluxo aéreo reversível e hiper-responsividade das vias aéreas. No entanto, em crianças menores de cinco anos, esses testes são de difícil realização, e o diagnóstico é frequentemente baseado em critérios clínicos e resposta ao tratamento. Protocolos recomendam a utilização de uma abordagem em múltiplos passos, incluindo a exclusão de outros diagnósticos (como bronquiolite, refluxo gastroesofágico e anomalias anatômicas), avaliação ambiental e pesquisa de fatores de risco e comorbidades (Niekerk et al., 2021).

Além disso, o uso de ferramentas complementares, como o teste de oscilometria por impulso, que avalia a função tanto das vias aéreas grandes quanto das pequenas, tem se mostrado promissor na detecção precoce de disfunção das vias aéreas inferiores, podendo auxiliar no diagnóstico e monitoramento da asma em crianças pré-escolares e escolares (Niekerk et al., 2021)

Fisiopatologia e Fenótipos da Asma Infantil

A asma é agora entendida como um conjunto heterogêneo de condições com diferentes mecanismos imunológicos subjacentes (endótipos) e apresentações clínicas (fenótipos). Na infância, a doença tende a estar associada a sensibilização alérgica (tipo 2) e atopia, embora existam formas não-alérgicas e mecanismos inflamatórios diversos. Essa heterogeneidade explica as diferentes respostas aos tratamentos e a variabilidade no prognóstico.

Estudos recentes integiram dados clínicos, imunológicos e metabolômicos para caracterizar endótipos específicos na asma infantil, identificando marcadores metabólicos relacionados a hiperresponsividade das vias aéreas, função pulmonar, eosinofilia sanguínea e atopia. Essas informações abrem caminho para abordagens terapêuticas mais precisas e personalizadas (Mendez et al., 2025).

O reconhecimento das diversas manifestações clínicas, incluindo a asma brônquica variante da opressão torácica, reforça a necessidade de um diagnóstico minucioso e individualizado para evitar maus-tratos ou tratamentos inadequados (Martin, Townshend e Brodlie, 2022)

Manejo Clínico e Tratamento

Objetiva-se atingir e manter o controle dos sintomas e prevenir exacerbações que aumentam a morbidade. O conceito de controle de asma envolve a avaliação da frequência e intensidade dos sintomas, limitações nas atividades diárias, necessidade de medicações de resgate e função pulmonar.

A educação do paciente e da família é componente essencial para o controle da doença, incluindo o entendimento dos fatores desencadeantes, a correta utilização dos medicamentos e adesão ao plano terapêutico. Planos de ação personalizados, com instruções claras para reconhecer e manejar crises, são ferramentas eficazes para capacitar cuidadores e reduzirem hospitalizações (Joanne Martin et al., 2022).

O tratamento farmacológico segue um esquema escalonado baseado na gravidade e controle da doença. Os corticosteroides inalatórios (CI) constituem a base do tratamento anti-inflamatório para crianças com asma persistente, reduzindo episódios agudos e melhorando a função pulmonar. O uso regular de CI é recomendado, mesmo em idades iniciais, desde que balanceado com a avaliação dos riscos e benefícios.

Broncodilatadores beta2 agonistas de curta duração são utilizados para alívio rápido dos sintomas. Em crises mais graves, pode-se empregar corticosteroides sistêmicos, broncodilatadores inalatórios, anticolinérgicos e, em situações críticas, medicamentos adjuvantes como magnésio intravenoso e ketamina (Rogerson, White e Abu-Sultaneh, 2024).

Monitoramento e Avaliação

O monitoramento regular da função pulmonar através da espirometria é recomendado para avaliar a resposta ao tratamento e detectar disfunção persistente. Entretanto, limitações logísticas e a pouca cooperação em crianças pequenas restringem seu uso rotineiro. Ferramentas como questionários validados para controle dos sintomas e a oscilometria facilitam avaliações em diferentes faixas etárias (Boonjindasup et al., 2022)

Abordagem Multidisciplinar e Educação em Saúde

A adesão às diretrizes internacionais e nacionais é crucial para padronizar a abordagem e otimizar os resultados clínicos, embora existam desafios na implementação prática, principalmente em recursos limitados. A educação continuada das equipes de saúde, o treinamento para o uso correto dos dispositivos inalatórios e a inclusão dos pacientes e familiares no processo decisório são estratégias fundamentais para o sucesso terapêutico (Ittiporn e Prajongdee, 2022).

Programas multifacetados de educação em saúde vêm demonstrando aumento da adesão ao tratamento, controle dos sintomas e melhoria da qualidade de vida, utilizando diversas plataformas educacionais, desde sessões presenciais até recursos digitais e interativos (Ittiporn e Prajongdee, 2022)

Exacerbações e Emergências

As crises asmáticas continuam sendo uma causa significativa de atendimento em emergências pediátricas. O reconhecimento precoce dos sinais de gravidade, administração ágil de medicações e hospitalização, quando necessária, são essenciais para evitar morbidade e mortalidade. Protocolo de tratamento emergencial baseia-se em corticosteróides sistêmicos, broncodilatadores inalatórios e terapias adjuntas em casos críticos, respeitando as particularidades da pediatria (Niekerk et al., 2021)

Além do manejo clínico, intervenções educacionais para os profissionais em serviços de urgência, incluindo o uso correto de notas clínicas específicas, podem otimizar a qualidade do atendimento e a codificação para fins administrativos e epidemiológicos (Niekerk et al., 2021).

CONCLUSÃO

A abordagem clínica da asma infantil revela-se um desafio complexo e multifacetado, que demanda uma compreensão integrada dos aspectos diagnósticos, terapêuticos e educacionais. A heterogeneidade da doença, caracterizada por diferentes fenótipos e endótipos, exige uma estratégia personalizada de tratamento que considere as particularidades de cada criança.

O sucesso no manejo da asma infantil depende fundamentalmente de uma abordagem multidisciplinar, que integre não apenas intervenções farmacológicas precisas, mas também educação continuada para profissionais de saúde, pacientes e familiares. A implementação de diretrizes baseadas em evidências, associada ao monitoramento contínuo e à adaptação do plano terapêutico, representa a chave para o controle efetivo da doença.

As pesquisas recentes apontam para um futuro promissor, com avanços na compreensão dos mecanismos imunológicos e metabólicos da asma, sinalizando a possibilidade de tratamentos cada vez mais personalizados e direcionados. Entretanto, permanece o desafio de traduzir essas descobertas científicas em práticas clínicas acessíveis e efetivas para todas as populações.

A educação em saúde emerge como um componente crítico, capaz de empoderar famílias e pacientes no auto manejo da doença, reduzindo hospitalizações e melhorando significativamente a qualidade de vida das crianças com asma.

REFERÊNCIAS

BOONJINDASUP, W.; CHANG, A. B.; MCELREA, M. S.; YERKOVICH, S. T.; MARCHANT, J. M. Does the routine use of spirometry improve clinical outcomes in children? A systematic review Wiley, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1002/ppul.26045

ITTIPORN, S.; PRAJONGDEE, K The implementation of pediatric asthma guidelines including self-assessment of the level of confidence and accessibility of medical supplies necessary for asthma management from the perspectives of multidisciplinary care teams. Asian Pacific Journal of Allergy and Immunology, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.12932/AP-171121-1273.

MARTIN, J.; TOWNSHEND, J.; BRODLIE, M.Diagnosis and management of asthma in children.* BMJ, 2022. Disponível em: <https://doi.org/10.1136/bmjpo-2021-001277.

MENDEZ, K. M.; KACHROO, P.; PRINCE, N.; et al.Exploring the varied clinical presentation of pediatric asthma through the metabolome. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1164/rccm.202407-1382OC

NIEKERK, A. V.; WHITE, D.; GOUSSARD, P.; RISENGA, S. Childhood asthma: a best-practice strategy for the diagnosis and assessment of control in south africa. South African Medical Journal, 2021. Disponível em: <https://doi.org/10.7196/samj.2021.v111i8.15851

 ROGERSON, C. M.; WHITE, B. R.; ABU-SULTANEH, S. Pharmacological management of pediatric critical asthma. Respiratory Care, 2024. Disponível em: <https://doi.org/10.4187/respcare.12458


1Graduanda em medicina pela Universidade Nove de Julho Campus Bauru – SP annajulia060103@gmail.com

2Pós-graduada em Administração Hospitalar pela INESP – SP fabi.rochinha@gmail.com

3Pós-graduado pela FBP em Medicina de Emergência UNIFENAS – ALFENAS/MG henriquemonteiro.h1@gmail.com

4Graduada em medicina pela Universidade Nove de Julho Campus Bauru – SP laraurivesrosa02@gmail.com

5Pós-graduada em pediatria pelo instituto CADUCEU lari.modesto@hotmail.com

6Graduado em medicina pela Uniara – Universidade de Araraquara lucasvalle1984@live.com

7Mestranda em Saúde Pública pela UDE Universidad de la Empresa enfmarina.ferreira@outlook.com

8Graduada em medicina pela Universidade Nove de Julho, campus Bauru stephanydepinho@gmail.com