A RELEVÂNCIA DO TRATAMENTO ENDODÔNTICO EM DENTES COM LESÃO DE CÁRIE EXTENSA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511041524


Herisson Gabriel Oliveira Coimbra
Vanessa de Oliveira Moraes


RESUMO

A cárie dentária é uma doença crônica e biofilme-dependente que acomete os tecidos mineralizados do elemento dentário, sendo desencadeada pela atividade metabólica de microrganismos cariogênicos presentes na microbiota bucal. Esses microrganismos, organizados em biofilme aderido à superfície dental, metabolizam carboidratos fermentáveis da dieta, produzindo ácidos orgânicos que promovem a desmineralização progressiva do esmalte e da dentina.O diagnóstico dessa patologia envolve um processo clínico detalhado e complexo, que requer a integração de diferentes fontes de informação, incluindo a anamnese do paciente, o exame clínico intraoral minucioso, a avaliação visual-tátil, o uso de sistemas de detecção auxiliados por tecnologia (como transiluminação, fluorescência e radiografias), bem como a consideração de fatores de risco individuais, como dieta, higiene bucal, fluxo salivar e histórico de cárie.No contexto do tratamento de lesões cariosas profundas, especialmente aquelas que atingem camadas mais internas da dentina, a conduta clínica demanda cautela, uma vez que a remoção completa do tecido necrosado pode comprometer a dentina peripulpar. Essa região exerce papel essencial como barreira biológica e mecânica de proteção da polpa dentária. A exposição ou o enfraquecimento dessa barreira pode desencadear processos inflamatórios pulpares, como pulpite reversível ou irreversível, e, em casos mais graves, levar à necrose pulpar.Por esse motivo, as abordagens terapêuticas atuais priorizam técnicas minimamente invasivas, como a remoção seletiva do tecido cariado, com o objetivo de preservar ao máximo as estruturas dentárias sadias e estimular a resposta biológica do complexo dentino-pulpar. A manutenção da vitalidade pulpar é uma diretriz fundamental nesses casos, e o sucesso do tratamento está diretamente relacionado à correta seleção de materiais restauradores biocompatíveis, ao controle da infecção e à monitorização clínica ao longo do tempo.

Palavras-chave: Cárie dentária, Diagnóstico, Capeamento pulpar.

ABSTRACT

Dental caries is a chronic and biofilm-dependent disease that affects the mineralized tissues of the tooth, being triggered by the metabolic activity of cariogenic microorganisms present in the oral microbiota. These microorganisms, organized in a biofilm attached to the dental surface, metabolize fermentable carbohydrates from the diet, producing organic acids that promote the progressive demineralization of enamel and dentin. The diagnosis of this pathology involves a detailed and complex clinical process, which requires the integration of different sources of information, including the patient’s history, a thorough intraoral clinical examination, visual-tactile evaluation, the use of technology-assisted detection systems (such as transillumination, fluorescence and radiographs), as well as consideration of individual risk factors, such as diet, oral hygiene, salivary flow and history of caries. In the context of the treatment of deep carious lesions, especially those that reach the inner layers of the dentin, clinical conduct requires caution, since the complete removal of necrotic tissue can compromise the peripulpal dentin. This region plays an essential role as a biological and mechanical barrier to protect the dental pulp. Exposure or weakening of this barrier can trigger inflammatory processes in the pulp, such as reversible or irreversible pulpitis, and in more severe cases, lead to pulp necrosis. For this reason, current therapeutic approaches prioritize minimally invasive techniques, such as selective removal of decayed tissue, with the aim of preserving healthy dental structures as much as possible and stimulating the biological response of the dentin-pulp complex. Maintaining pulp vitality is a fundamental guideline in these cases, and treatment success is directly related to the correct selection of biocompatible restorative materials, infection control, and clinical monitoring over time.

Keywords: Dental caries, Diagnosis, Pulp capping.

1. INTRODUÇÃO

A cárie dentária constitui uma condição patológica que compromete os tecidos mineralizados do dente, resultante da atividade metabólica de microrganismos presentes no biofilme dental, que se desenvolve a partir do acúmulo de resíduos alimentares nas superfícies dentárias. Em fases iniciais, essa enfermidade pode ser controlada por meio da modulação dos fatores etiológicos responsáveis por sua progressão. No entanto, em lesões cariosas mais extensas, há um risco iminente de exposição pulpar, o que torna indispensável a intervenção clínica especializada para contenção e tratamento da patologia (VALETIM et al., 2017).

O metabolismo bacteriano no interior do biofilme promove alterações significativas no pH do meio bucal, favorecendo o processo dinâmico de desmineralização e remineralização dos tecidos dentários. Esse fenômeno, denominado ciclo de des-remineralização (des-re), é intensificado pela ingestão frequente de carboidratos fermentáveis, que elevam a produção de ácidos e contribuem diretamente para o início da destruição do esmalte dentário (MATZ et al., 2016). A identificação da cárie dentária envolve um processo diagnóstico complexo que requer a análise integrada de sinais clínicos, sintomas relatados pelo paciente e exames complementares. Em lesões profundas, a remoção total do tecido comprometido pode resultar na eliminação da camada de dentina protetora, aumentando o risco de comprometimento pulpar e, consequentemente, prejudicando a viabilidade do órgão pulpar (SOARES et al., 2012).

O tratamento convencional, caracterizado pela remoção completa do tecido cariado, frequentemente culmina na exposição pulpar, comprometendo a preservação da vitalidade dental. Tal abordagem pode ser evitada mediante a adoção de estratégias terapêuticas mais conservadoras. A manutenção da integridade da polpa dental está diretamente relacionada à longevidade do dente tratado, à melhoria do prognóstico clínico e à redução dos custos associados ao tratamento odontológico (SILVA et al., 2018). Atualmente, o diagnóstico precoce aliado a intervenções voltadas à interrupção da progressão cariosa tem se tornado uma prática amplamente difundida (ARAÚJO et al., 2020).

Mesmo em estágios mais avançados da doença, quando não há exposição pulpar iminente, ainda é possível recorrer a métodos terapêuticos menos agressivos. Com os avanços científicos e tecnológicos recentes, a Odontologia Minimamente Invasiva (OMI) ganhou destaque ao propor intervenções que priorizam a conservação máxima das estruturas dentárias saudáveis, minimizando a necessidade de remoções extensas (ANDRADE, 2020).

A cárie dentária representa uma das doenças bucais de maior prevalência em escala global, com expressiva variação geográfica em sua incidência. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que entre 60% e 90% das crianças em idade escolar, assim como quase a totalidade da população adulta mundial, apresentem histórico de cárie. Em países em desenvolvimento, a elevada prevalência está associada à limitação no acesso aos serviços de saúde bucal e à baixa conscientização sobre a importância da higiene oral e das medidas preventivas. Em contrapartida, nações com sistemas de saúde mais estruturados têm registrado uma redução significativa na incidência da doença, atribuída à implementação de políticas públicas de prevenção e ao avanço das práticas odontológicas modernas (OMS, 2012).

Segundo informações epidemiológicas divulgadas pelo Ministério da Saúde, a cárie dentária constitui-se como um dos mais relevantes problemas de saúde bucal no Brasil, acometendo uma expressiva parcela da população. Em crianças com 5 anos de idade, a prevalência da doença atinge aproximadamente 53%, enquanto em adolescentes com 15 anos, esse índice se eleva para cerca de 80%. Observa-se, ainda, uma maior incidência da patologia em comunidades de baixa renda e em regiões com restrito acesso aos serviços de saúde bucal. Esses dados evidenciam a necessidade de estratégias eficazes voltadas à promoção da saúde bucal e à prevenção da cárie dentária, por meio de ações educativas, fortalecimento das políticas públicas de saúde bucal e incentivo à adoção de práticas adequadas de higiene oral e alimentação saudável (BRASIL, 2010).

A cárie dentária é reconhecida como a doença crônica mais prevalente na cavidade bucal, sendo desencadeada por uma complexa interação de fatores biológicos, comportamentais e ambientais. Desenvolve-se em indivíduos suscetíveis, cuja microbiota oral apresenta predominância de microrganismos acidogênicos e acidúricos. A progressão da lesão cariosa, embora frequente, pode ser interrompida e controlada mediante intervenção adequada. A presença de carboidratos fermentáveis na dieta, sobretudo a sacarose, favorece a produção de ácidos orgânicos, como o ácido lático, que em associação com o tempo de exposição e a quantidade de saliva, promove o processo de desmineralização do tecido dental (BATISTA TRM et al., 2020; MALTZ M et al., 2016).

O biofilme dentário desempenha papel central na etiologia e progressão da cárie. Sua atividade metabólica induz a formação de um ambiente ácido sobre a superfície dental, superando a capacidade tampão da saliva e resultando em um desequilíbrio que culmina na perda mineral da estrutura dentária. Tal processo patológico se intensifica na ausência de medidas preventivas eficazes (DA SILVEIRA ABV et al., 2025). Apesar da existência de intervenções preventivas amplamente reconhecidas — como a fluoretação da água de abastecimento público, que pode reduzir em 40% a 70% a formação de lesões cariosas —, bem como o uso de dentifrícios fluoretados, aplicação tópica de vernizes, escovação adequada, utilização do fio dental, orientação dietética e visitas regulares ao cirurgião-dentista, a cárie dentária permanece como uma condição de alta prevalência na população (CARMINATTI M et al., 2017; MALTZ M et al., 2016).

O tratamento clínico da cárie varia conforme o estágio da lesão. Em fases iniciais, a aplicação tópica de flúor tem demonstrado eficácia na remineralização do esmalte dentário. Já nos casos mais avançados, torna-se necessário recorrer a procedimentos restauradores, tratamentos endodônticos e, em situações irreversíveis, à exodontia, com o objetivo de restabelecer a função e a saúde bucal do paciente (MALTZ M et al., 2016).

Evidências científicas indicam que o elevado consumo de alimentos cariogênicos é um dos principais fatores de risco associados à cárie dentária. Não apenas o tipo de açúcar ingerido, mas também a frequência com que esse consumo ocorre ao longo do dia influencia significativamente no desenvolvimento da doença (DE SOUZA EJ et al., 2018; DA SILVEIRA ABV et al., 2025).

Diante da magnitude do problema, torna-se imprescindível realizar uma revisão da literatura científica atual sobre o manejo de lesões cariosas profundas, com o intuito de consolidar o conhecimento necessário para o diagnóstico precoce e a tomada de decisões clínicas embasadas nas evidências mais recentes. A justificativa para o presente estudo reside no impacto multidimensional que a cárie dentária exerce sobre a vida do indivíduo, incluindo dor, infecções, perda dental, comprometimento da dimensão vertical, prejuízos à alimentação e ao ganho de peso, desnutrição, alterações na fala, além de implicações psicológicas, emocionais e sociais, resultando, por fim, em significativa redução da qualidade de vida.

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 FATORES DE RISCOS ASSOCIADOS AS LESÕES DE CÁRIE PROFUNDA

A identificação precoce das lesões cariosas é essencial para o planejamento de estratégias terapêuticas eficazes, devendo estas estar alinhadas aos princípios da promoção da saúde e da prevenção de agravos. A conduta clínica deve evitar intervenções invasivas desnecessárias, priorizando abordagens baseadas em evidências e que respeitem a biologia do tecido dental (MALTZ et al., 2016).

Conforme descrito por Soares et al. (2012), o método mais amplamente empregado para a detecção de cáries é o exame clínico visual-tátil, realizado por cirurgiões-dentistas por meio de instrumentos básicos, como a sonda exploradora e o espelho clínico, com o objetivo de avaliar a sensibilidade e a especificidade das superfícies dentárias. Complementarmente, o exame radiográfico é utilizado para a visualização de lesões não detectáveis clinicamente, especialmente em áreas interproximais ou de difícil acesso. Embora técnicas complementares como a Transiluminação por Fibra Óptica (FOTI), a Quantificação da Fluorescência Induzida por Luz (QLF) e o DIAGNOdent apresentem alto grau de acurácia diagnóstica, seu uso ainda é limitado na prática clínica cotidiana, principalmente devido aos custos elevados e à ampla eficácia dos métodos tradicionais (MARINHO et al., 1998).

Evidências científicas atuais recomendam a adoção da técnica de remoção seletiva de tecido cariado, que consiste na eliminação completa da dentina infectada apenas nas margens cavo-superficiais e nas paredes laterais da cavidade, preservando a dentina afetada nas paredes de fundo (pulpar e axial). Esta abordagem tem demonstrado resultados clínicos e radiográficos favoráveis, incluindo a diminuição do risco de exposição pulpar e o aumento da taxa de sucesso terapêutico em médio e longo prazo (ANDRADE, 2020 apud LEKSELL, 1996; ORHAN, 2010; MALTZ, 2013; FRANZON, 2014; SINGH, 2019).

A obtenção de resultados clínicos satisfatórios está diretamente relacionada ao domínio de técnicas minimamente invasivas e à correta seleção e manipulação dos materiais restauradores. O cirurgião-dentista, portanto, deve possuir conhecimento técnico-científico aprofundado para garantir a adequada aplicação dos materiais e alcançar suas melhores propriedades físico-mecânicas (CRISTINA, 2025 apud VAN AMERONGEN, 1996).

De acordo com Maltz et al. (2016), o êxito nas etapas de diagnóstico, escolha do tratamento, monitoramento clínico, manutenção e acompanhamento pós-operatório depende fundamentalmente da compreensão detalhada das características das lesões cariosas. A análise criteriosa dos diferentes métodos de detecção disponíveis constitui um fator determinante para a correta identificação da patologia e, consequentemente, para a efetividade das intervenções terapêuticas.

Diversos fatores etiológicos estão relacionados à progressão da cárie dentária, variando desde lesões iniciais, restritas ao esmalte ou à dentina superficial, até cavidades mais profundas ou extremamente profundas que comprometem camadas internas da dentina. A severidade e a extensão da lesão estão intrinsecamente ligadas à anatomia do elemento dental afetado e à interação de múltiplos fatores predisponentes. Entre os principais elementos envolvidos na etiopatogênese da doença, destacam-se: a suscetibilidade individual, a presença de microrganismos cariogênicos na microbiota oral e os hábitos alimentares ricos em substratos fermentáveis (LIMA, 2007).

A tabela a seguir apresenta a definição e a relevância de cada um desses fatores associados ao desenvolvimento da cárie dentária. Considerando que esta é uma condição crônica e multifatorial, tais componentes atuam de forma interdependente, contribuindo para a evolução das lesões, cuja gravidade é diretamente influenciada pelo nível de atenção e cuidado que o paciente dedica à sua saúde bucal:

Quadro 1 – Fator e característica das lesões cariosas:

Fator Característica
SuscetibilidadeOs fatores extrínsecos relacionados à cárie dentária abrangem elementos do contexto sociocultural, como o ambiente social, o nível educacional da população e as práticas culturais associadas à saúde bucal. As diferenças culturais podem influenciar diretamente os hábitos alimentares, o comportamento em relação à higiene oral e o acesso a serviços odontológicos, refletindo-se na prevalência e gravidade das lesões cariosas.
Entre os fatores intrínsecos, destacam-se características fisiológicas do próprio indivíduo, especialmente aquelas relacionadas à saliva. O fluxo salivar, sua composição bioquímica e a capacidade tampão são determinantes na proteção contra a cárie, uma vez que contribuem para a neutralização de ácidos, a limpeza da cavidade oral e a manutenção do equilíbrio entre desmineralização e remineralização dos tecidos dentários.
MicrorganismoO Streptococcus mutans é um dos principais microrganismos envolvidos na etiologia da cárie dentária, devido à sua capacidade de aderência às superfícies dentárias e de produção de ácidos orgânicos a partir da fermentação de carboidratos. O controle dessa bactéria é essencial para a prevenção da doença e deve ser realizado por meio de estratégias que combinem métodos mecânicos e químicos de higiene bucal.A remoção mecânica do biofilme dental, utilizando escova dental e fio dental, representa a abordagem mais eficaz e fundamental no controle da carga microbiana. Associadamente, o uso de agentes químicos, como dentifrícios com fluoreto e enxaguatórios bucais contendo fluoreto ou digliconato de clorexidina, pode potencializar a redução da atividade cariogênica do S. mutans, promovendo um ambiente oral menos favorável à sua colonização e proliferação.
DietaO Streptococcus mutans figura entre os principais microrganismos implicados na patogênese da cárie dentária, devido à sua elevada capacidade de adesão ao esmalte dental e à produção de ácidos por meio da metabolização de carboidratos fermentáveis. Sua presença está fortemente associada ao início e à progressão das lesões cariosas, sendo, portanto, um alvo prioritário nas estratégias preventivas voltadas à manutenção da saúde bucal.A higienização mecânica, por meio do uso regular e adequado da escova dental e do fio dental, constitui o método mais eficiente e indispensável na remoção do biofilme dental e, consequentemente, na redução da população microbiana cariogênica. De forma complementar, a aplicação de recursos químicos, como dentifrícios fluoretados e soluções antissépticas contendo fluoreto ou digliconato de clorexidina, contribui para a supressão da atividade metabólica do S. mutans, dificultando sua adesão e multiplicação. A combinação dessas abordagens proporciona um controle microbiológico mais eficaz, favorecendo a prevenção da cárie dentária de forma ampla e sustentada.

Fonte: Quadro confeccionado a partir de dados da pesquisa de: MORAES, J.C.S; OLIVEIRA S.F.S. 2025; extraídos de LIMA, 2007.

2.2 TRATAMENTO DAS LESÕES CARIOSAS PROFUNDAS

Os profissionais da odontologia devem exercer grande cautela ao recomendar e implementar o tratamento para cáries profundas, uma vez que tal intervenção exige um diagnóstico preciso da condição clínica do dente afetado (RIBEIRO, 2012). A remoção do tecido cariado é essencial para viabilizar a reconstrução das estruturas dentárias comprometidas, restabelecendo tanto a proteção pulpar quanto a função estética. A reconstrução do complexo dentino-pulpar depende de fatores como a idade do paciente, a condição da polpa e a profundidade da cavidade, sendo impraticável em dentes que apresentem sinais de patologia pulpar irreversível (CASARIN et al., 2016).

O processo de remoção das áreas afetadas pela cárie tem como objetivo primordial a preservação das zonas saudáveis que ainda são capazes de responder ao processo cariogênico, estimulando os odontoblastos e as células odontoblásticas a formarem dentina reacional. A proteção do complexo dentino-pulpar pode ser realizada por dois métodos: o capeamento pulpar indireto e o direto (CASARIN et al., 2016).

O capeamento pulpar indireto envolve a cobertura da dentina afetada com um material específico que protege a polpa, sendo indicado para dentes com lesões cariosas profundas e risco de exposição pulpar durante a remoção da dentina cariada. Esse procedimento é recomendado quando não há sintomas subjetivos de patologia pulpar pré-existente e sem lesões perirradiculares evidentes em exames radiográficos (SOUZA, 2020). Por outro lado, o capeamento pulpar direto consiste na aplicação direta de um biomaterial sobre a polpa dental, com o objetivo de estimular a formação de dentina reparadora, preservando a vitalidade pulpar (SOUZA, 2020).

O tratamento conservador é particularmente indicado para pacientes jovens e crianças, uma vez que, com o envelhecimento da polpa, ocorre a diminuição do número de células, do volume pulpar e da irrigação sanguínea. Em lesões de cárie profundas tratadas com hidróxido de cálcio, a taxa de sucesso do capeamento pulpar indireto varia entre 92% e 97%. Esse material não apenas reduz a carga bacteriana, mas também favorece o efeito fisiológico do complexo dentino-pulpar e minimiza o risco de progressão das lesões (FAGUNDES et al., 2009).

Imparato et al. (2014) avaliaram o tratamento de uma lesão profunda de cárie em uma paciente de 11 anos, com grande destruição coronária no primeiro molar permanente inferior esquerdo. A dentina infectada foi removida com instrumentos manuais, e a dentina afetada foi coberta com cimento de ionômero de vidro e resina composta. Após 36 meses de acompanhamento, não foram observados sinais clínicos ou radiográficos de dano pulpar, apesar da preservação da dentina afetada. O tratamento pulpar indireto, com a conservação da dentina afetada, mostrou-se uma alternativa eficaz para o tratamento de lesões cariosas profundas, uma vez que reduziu o risco de exposição pulpar, economizou tempo clínico e interrompeu a progressão da lesão, com aumento da densidade radiográfica e ausência de sintomas dolorosos.

De acordo com Bjørndal et al. (2010), técnicas de escavação menos invasivas têm sido sugeridas para o tratamento de lesões cariosas profundas. Em um estudo realizado com 314 adultos, foi comparada a escavação por etapas com o capeamento pulpar indireto, um ano após o procedimento. A escavação por etapas resultou em menos exposições pulpares, e a taxa de sucesso nos dentes tratados por esse método foi significativamente maior. A vitalidade pulpar foi mantida, e os exames radiográficos não revelaram radiotransparência apical. Dessa forma, a escavação por etapas demonstrou reduzir o risco de exposição da polpa quando comparada ao capeamento pulpar indireto em dentes permanentes.

Conforme Mantelli et al. (2014), o tratamento expectante representa uma excelente alternativa para a proteção do complexo dentino-pulpar, uma vez que diminui substancialmente as chances de exposição pulpar, ao mesmo tempo em que oferece uma resposta reparadora tecidual favorável. Essa abordagem evita a necessidade de tratamentos invasivos precoces, preservando a integridade da polpa e proporcionando um maior tempo de vida útil ao dente.

3. METODOLOGIA

A presente investigação visa descrever as abordagens terapêuticas aplicadas no tratamento de lesões cariosas. Para tanto, foi conduzida uma revisão bibliográfica baseada em uma análise rigorosa de artigos científicos. Nesse contexto, a pesquisa bibliográfica busca resolver uma problemática ou hipótese a partir de referenciais teóricos previamente publicados, permitindo a avaliação e discussão das diversas contribuições científicas existentes (LAKATOS, EM e MARCONI, MA, 2010).

Conforme Lakatos e Marconi (2010), a pesquisa bibliográfica tem como objetivo conectar o pesquisador a todo o conhecimento já produzido sobre determinado tema, oferecendo-lhe suporte adicional para a análise de suas próprias investigações ou manipulação das informações disponíveis.

A pesquisa qualitativa, por sua vez, foca na compreensão e interpretação dos fenômenos, levando em consideração os significados atribuídos pelos indivíduos às suas práticas. Isso demanda que o pesquisador adote uma abordagem hermenêutica, que se divide em duas vertentes: a epistemológica, voltada para a interpretação de textos, e a ontológica, que se refere à interpretação da realidade em si (GONSALVES, EP, 2003).

Os estudos selecionados para esta pesquisa foram indexados em bases de dados eletrônicas como PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Acervo+ Index, além do mecanismo de busca Google Acadêmico.

Para a pesquisa, foram utilizados os seguintes descritores, com base no Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH) da United States National Library of Medicine: “cárie dentária” e “assistência odontológica”, associados por meio do operador booleano “AND”. O objetivo foi responder à questão de pesquisa: “Quais práticas podem ser utilizadas no tratamento de lesões cariosas?”.

Os critérios de inclusão para a seleção dos artigos utilizados na pesquisa foram: (a) artigos publicados em português ou inglês; (b) artigos completos que abordassem a temática da revisão integrativa; (c) artigos publicados nas bases de dados mencionadas nos últimos dez anos (2012 a 2022). Os critérios de exclusão incluíram: (a) artigos com mais de dez anos de publicação; (b) artigos em idiomas diferentes dos designados; (c) teses; (d) revisões sistemáticas; (e) artigos com textos incompletos; (f) artigos duplicados nas bases de dados.

Após a aplicação dos critérios de seleção e exclusão, e o descarte de artigos que não atendiam aos objetivos da pesquisa, foram identificados cinco artigos relevantes que serão apresentados nos resultados. Esses artigos foram organizados e sistematizados em tabelas, destacando-se os dados mais significativos, que serão discutidos na seção de Discussão, em comparação com artigos mais recentes e relevantes. Visando evitar plágio, a pesquisa foi conduzida de maneira a respeitar os direitos autorais dos autores dos artigos selecionados para compor a amostra, assegurando a integridade do conteúdo utilizado. Considerando que a pesquisa não envolveu seres humanos, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Os riscos associados à pesquisa limitam-se à seleção e extração dos dados dos estudos, devendo ser realizados com rigor e precaução. Os benefícios da pesquisa incluem os esclarecimentos que ela pode oferecer, estimulando a realização de novos estudos sobre o tema.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foi realizada a seleção de nove estudos para integrar a presente revisão, os quais foram publicados entre os anos de 2017 e 2025. Em termos de origem geográfica, entre os nove estudos selecionados, um foi conduzido na Argentina, enquanto os demais foram realizados no Brasil. Os estudos foram organizados de acordo com seus respectivos objetivos e metodologias aplicadas, como ilustrado no Quadro 1 a seguir.

Quadro 1 – Objetivo e principais resultados dos estudos selecionados.

AutorObjetivoPrincipais aspectos
Alves ISG, et al. (2020)Analisar o impacto do tratamento odontológico na qualidade de vida relacionada à saúde bucal em crianças de 6 a 8 anos.O tratamento odontológico de crianças com idades entre 6 e 8 anos, que apresentavam cáries não tratadas, demonstrou um impacto positivo. O tratamento restaurador atraumático foi empregado para lesões localizadas na dentina, sem comprometimento da polpa dental, enquanto a extração dentária foi realizada somente após a obtenção do consentimento dos pais ou responsáveis, sendo este procedimento confirmado por meio de radiografia realizada nas dependências da escola.
Anchava J, et al. (2025)Apresentar o atendimento e acompanhamento em dois anos de uma pré-escolar apresentando cárie na primeira infância.Com o objetivo de atender às exigências estéticas e minimizar o desconforto para o paciente, optou-se por uma resina bisacrílica que apresenta boa adaptação marginal e uma temperatura de cura de 37°C, sendo utilizada na confecção dos provisórios no caso em análise.
Mendonça JG, et al. (2025)Relatar o tratamento de reabilitação estética e funcional de uma criança com cárie na primeira infânciaCom base na avaliação clínica e radiográfica, o plano de tratamento estabelecido incluiu a confecção de coroas de aço para os dentes 74 e 84, a extração dos dentes 51, 52, 61 e 64, a instalação de um aparelho mantenedor de espaço funcional removível, além de restaurações com compósito resinoso nos demais dentes comprometidos. Esse tratamento possibilitou a recuperação das funções estéticas, fonéticas e mastigatórias, resultando em uma melhoria significativa na autoestima da criança e na satisfação dos responsáveis. A educação em saúde bucal desempenhou um papel fundamental no sucesso do tratamento, além de contribuir para a manutenção da saúde bucal a longo prazo.
Messias LJ, et al. (2020)Investigar de métodos de aderência de BS ao dente cariado, assim como o desenvolvimento de metodologia para melhor interação do BS com o laser de Nd:YAG.O aquecimento gerado pelo laser promove a fusão e recristalização do BS, resultando em uma superfície com aspecto uniforme e apropriado. Adicionalmente, a temperatura intrapulpar não apresentou variações significativas que comprometem a vitalidade pulpar, sendo considerada segura. Em síntese, a combinação do tratamento com BS e o uso do laser de Nd:YAG demonstra-se uma abordagem promissora no tratamento da cárie dentária.
Barzotto I e Rigo L (2018)Analisar qual é a seleção mais apropriada de diagnóstico e opções de tratamento para lesões de esmalte dentário pelos estudantes e professores do curso de Odontologia.O diagnóstico mais frequentemente identificado pelos alunos foi a fluorose dentária, com uma taxa de acerto de 93,9%, enquanto o tratamento mais selecionado para lesões cariosas foi a restauração direta, com 86,7% de escolha. Por outro lado, os docentes apresentaram uma taxa de 100% de acerto no diagnóstico de lesão de cárie, e o tratamento mais indicado para casos de hipoplasia foi a restauração direta, com 95,7% de escolha.
Mendonça ICG, et al (2019)O objetivo do estudo foi observar a atividade da cárie de mancha branca e os índices de higiene bucal, monitorando a resposta ao tratamento preventivo e conservador a longo prazo em lesões ativas e inativas.O procedimento incluiu a supervisão da escovação a cada quinzena, acompanhada da aplicação semestral de gel fluorado com 2% de fluoreto de sódio. Além disso, foram desenvolvidas atividades educativas e interativas com o objetivo de instruir as crianças sobre a relevância dos cuidados com a saúde bucal. Os resultados obtidos foram positivos e evidenciam a eficácia de estratégias preventivas na promoção da saúde oral.
Amiché T, et al (2025)O estudo teve como objetivo avaliar se a extração precoce de dentes afetados por cárie grave na infância pode prejudicar a qualidade de vida de crianças de 6 a 8 anos de idade.A remoção antecipada de dentes comprometidos por cárie severa em crianças pode ser considerada uma estratégia preventiva em determinados casos, com o objetivo de evitar a evolução da doença e prevenir complicações subsequentes. A avaliação minuciosa de cada situação é fundamental, assim como a implementação de intervenções preventivas antes que a cárie atinja um estágio avançado, a fim de minimizar a necessidade de extração precoce dos dentes afetados.
Rocha AO, et al. (2025)Descrever a reabilitação de uma unidade dental comprometida por cárie avançada que afetou a polpa e a estrutura do dente. O tratamento endodôntico foi realizado e a restauração da unidade dental foi feita utilizando um pino de fibra de vidro e uma resina composta.A utilização apropriada do pino de fibra de vidro garante a integridade estética e a estrutura adequada para a adesão do material restaurador. É essencial que o material restaurador seja modelado e ajustado conforme a anatomia dentária e os contornos do tecido gengival, visando maximizar a taxa de sucesso do procedimento e assegurar o conforto do paciente durante e após o tratamento.
Goldenfum GM, et al. (2020)Avaliar a efetividade de uma abordagem não invasiva para inativação de lesões não cavitadas em dentes decíduos e permanentes, realizada na Clínica Infanto-Juvenil, por meio da identificação de fatores clínicos do paciente e sua associação com o sucesso clínico do tratamento.Com base nos resultados obtidos, os quais indicam uma diminuição tanto no índice de placa visível quanto na quantidade de lesões não cavitadas ativas, pode-se inferir que a abordagem não invasiva para a inativação de lesões cariosas não cavitadas demonstra eficácia.

Fonte: Teixeira AMA, et al., 2023.

A cárie dentária é amplamente reconhecida como uma condição multifatorial, infecciosa, transmissível e fortemente influenciada pela dieta, resultando na desmineralização das estruturas dentárias. Este distúrbio é considerado uma condição complexa em vários aspectos, como descrito por Lima (2007). Nos estágios iniciais, pode ocasionar sensibilidade e dor nos dentes, e, caso não tratada, pode evoluir, comprometendo a estrutura dental, provocando dor intensa e até infecções. Além disso, a progressão da cárie pode levar à perda dentária, impactando negativamente na estética, na fala e na capacidade mastigatória. Para além das consequências locais, as bactérias causadoras da cárie podem se disseminar para outros órgãos por meio da corrente sanguínea, resultando em infecções sistêmicas. Esse processo também está associado a doenças cardíacas, diabetes e outras condições crônicas de saúde (Leites et al., 2006).

A suscetibilidade à cárie dentária envolve não apenas fatores relacionados ao indivíduo, mas também às características do dente. Fatores extrínsecos, como o ambiente sociocultural em que a pessoa vive, podem influenciar a predisposição à cárie. Diferentes contextos culturais têm impacto significativo no comportamento individual e no controle da incidência da doença, conforme observado em populações distintas, como aquelas residentes em Nova Iorque em comparação com as do Tibete (De Souza et al., 2018; Lima, 2007). Além disso, os fatores intrínsecos, como o fluxo salivar, a composição e a capacidade tampão da saliva, assim como aspectos hereditários e imunológicos, desempenham papel relevante, embora sua manipulação seja complexa, não sendo, portanto, foco principal nas estratégias preventivas propostas (Leites et al., 2006).

Para alcançar um prognóstico favorável a longo prazo, é fundamental realizar um diagnóstico preciso das lesões cariosas, identificando aquelas que necessitam de intervenção restauradora e aquelas que podem ser tratadas por métodos não invasivos. Esses métodos incluem o uso de fluoretos tópicos, dentifrícios fluoretados, aplicação de selantes, melhorias na dieta, além de educação em saúde bucal e cuidados odontológicos preventivos (Grimaldi et al., 2005).

A pesquisa de Mendonça et al. (2019) destaca a importância da prevenção no tratamento precoce da cárie. A adoção de medidas preventivas, como escovação adequada, uso de fio dental, alimentação saudável e aplicação de flúor, pode auxiliar na prevenção da cárie e contribuir para a manutenção da saúde dental ao longo da vida. Nesse sentido, é crucial incentivar a implementação de práticas preventivas desde a infância e promover uma rotina constante de cuidados bucais.

Entre os tratamentos identificados para o manejo das lesões cariosas, destacam-se: o tratamento restaurador atraumático (ART), exodontia, instalação de aparelho mantenedor de espaço funcional removível, restaurações diretas, irradiação com laser, tratamentos preventivos e abordagens minimamente invasivas (Mendonça et al., 2025; Messias et al., 2020; Alves et al., 2020; Barzotto e Rigo, 2018; Anchava et al., 2025; Goldenfum et al., 2020; Mendonça ICG et al., 2019; Amiché et al., 2025; Rocha et al., 2025).

O estudo de Goldenfum et al. (2020) demonstrou a eficácia de uma abordagem não invasiva para a inativação de lesões não cavitadas em dentes decíduos e permanentes, evidenciando a efetividade do tratamento. Pacientes que receberam mais sessões de terapia com flúor apresentaram um maior número de lesões inativadas, o que pode ser explicado pelo aumento da concentração de flúor na cavidade bucal. A associação entre o uso de dentifrício fluoretado e a aplicação tópica de flúor é fundamental para promover o aumento da microdureza superficial e criar um reservatório de flúor, ajudando a prevenir novos episódios de desmineralização. O tratamento restaurador atraumático (ART) é uma técnica efetiva, realizada em consultório ou em campo, que visa a remoção do tecido cariado por meio de escavação manual da dentina afetada, sem necessidade de anestesia e sob isolamento relativo. A cavidade é então selada com cimento de ionômero de vidro de alta viscosidade (Luengas-Quintero et al., 2013; Mendonça JG et al., 2025).

A indicação do tratamento restaurador atraumático (ART) é restrita a dentes com lesões cariosas que envolvem a dentina, sendo necessária uma abertura cavitária mínima de 1,6 mm. Quando a abertura é inferior a esse valor, deve-se alargar a cavidade utilizando instrumentos do tipo machado para esmalte, com o objetivo de remover a dentina afetada, desde que não haja comprometimento pulpar, presença de fístula ou dor pré-existente no dente. O ART não é recomendado quando a lesão não é acessível com instrumentos manuais, ou se houver sinais de dor, fístula, abscesso ou mobilidade dentária. Além disso, não se aplica a dentes decíduos da classe IV, devido à ausência de retenção suficiente para o material restaurador (Bonifácio et al., 2013; Mendonça JG et al., 2025).

Essa técnica apresenta vantagens em relação aos métodos convencionais, principalmente por utilizar instrumentos manuais, o que preserva a estrutura dental e resulta em um tempo de atendimento reduzido, contribuindo para a diminuição da ansiedade do paciente. Além disso, é de baixo custo e de fácil execução, sem necessidade de anestesia ou isolamento absoluto. No entanto, suas limitações incluem a fadiga do profissional devido ao uso exclusivo de instrumentos manuais e a restrita estética dos ionômeros de vidro. Outro ponto negativo é o desgaste precoce das restaurações, que pode ocorrer devido à manipulação inadequada do material ou à inserção incorreta do ionômero na cavidade (Mendona JG et al., 2025; Navarro MFL, 2015).

O estudo de Mendonça JG et al. (2025) também destaca a necessidade de exodontia nos casos mais avançados de cárie. Quando há destruição significativa da coroa de molares decíduos e a erupção simultânea do dente permanente, a remoção dos fragmentos dentários decíduos é indicada. No caso de lesões complexas em incisivos decíduos, recomenda-se a reabilitação com coroas estéticas após tratamento pulpar. Em situações de destruição coronária extensiva de dentes posteriores, o uso de coroas pré-formadas, como níquel-cromo ou coroas estéticas, é a alternativa mais indicada (Ribeiro JAJ, 2014).

Em crianças, a extração precoce de dentes pode ter impactos negativos significativos na saúde bucal e na qualidade de vida, como a perda prematura dos dentes, alterações na posição dos dentes adjacentes, problemas de fala e mastigação, além de afetar a autoestima e a socialização. Por isso, é crucial avaliar cada caso com cuidado e implementar medidas preventivas para evitar que a cárie atinja estágios avançados e reduza a necessidade de extração precoce (Amiché T et al., 2025).

Uma alternativa terapêutica para o tratamento das lesões cariosas é a irradiação a laser. Essa técnica pode aumentar a concentração mineral da dentina ao remover preferencialmente água e proteínas presentes nesse tecido. O uso do laser estimula a recristalização da dentina, aumentando o tamanho dos cristais de hidroxiapatita e formando uma dentina estruturalmente modificada, que se aproxima da estrutura cristalina do esmalte normal. Estudos indicam que a aplicação do laser Nd:YAG, em associação com flúor, pode promover uma maior absorção de íons fluoreto na dentina irradiada em comparação com a dentina não irradiada. Contudo, o efeito desta técnica na resistência à desmineralização ainda não é completamente compreendido (Messias LJ et al., 2020).

Apesar dessas alternativas, a restauração direta com resina composta é amplamente considerada a melhor opção para o tratamento das lesões cariosas. Este material atende adequadamente às necessidades estéticas e funcionais de restauração, proporcionando um tratamento conservador em uma única sessão. As técnicas restauradoras diretas minimizam a remoção de tecido dental e são eficientes para restaurar dentes afetados pela cárie (Souza JB et al., 2009).

Além disso, o uso de restaurações adesivas diretas é uma abordagem eficaz para o tratamento de hipoplasia do esmalte. Entre suas vantagens estão o tempo reduzido de tratamento, a facilidade de execução, a estética satisfatória e o custo acessível. Esses materiais resinosos permitem a restauração da anatomia dental, proporcionando uma aparência natural dos dentes, com a restauração de características como cor, translucidez, matiz, croma e valor (Macêdo-Costa MR et al., 2010).

Uma alternativa terapêutica amplamente descrita na literatura para a reabilitação dental em casos de cárie é o uso de pinos de fibra de vidro. A utilização deste dispositivo, em conjunto com resina composta, tem se mostrado eficaz na restauração da estética e função dentária, proporcionando benefícios significativos para o paciente, incluindo uma melhoria substancial na qualidade de vida (Rocha AO et al., 2025). Segundo o autor citado, a aplicação adequada do pino de fibra de vidro garante uma estrutura sólida para a adesão do material restaurador, enquanto a adaptação do material à anatomia dental e ao tecido gengival contribui para o aumento da taxa de sucesso do tratamento, proporcionando maior conforto para o paciente.

De acordo com Grimaldi et al. (2005), as anomalias dentárias são desvios do padrão normal do desenvolvimento dental, ocasionados por alterações durante a formação embrionária dos dentes. Tais anomalias podem afetar diversos aspectos, como quantidade, tamanho, forma, posição na arcada, cor e estrutura interna dos dentes. Exemplos dessas anomalias incluem hipoplasia do esmalte, desmineralização e fluorose dentária, que podem resultar em lesões no esmalte caracterizadas por manchas brancas localizadas ou disseminadas. Essas lesões comprometem a estética dentária e, no caso de desmineralização ativa, exigem intervenção imediata. O diagnóstico diferencial adequado é crucial para a definição da terapêutica apropriada. Apesar de algumas lesões serem menos frequentes, os profissionais devem estar capacitados para lidar com tais condições e fornecer suporte clínico e emocional aos pacientes afetados (Grimaldi N et al., 2005).

Explicar ao paciente os diferentes tipos de tratamento para cárie é fundamental para garantir que ele compreenda claramente as opções disponíveis, possibilitando que tome uma decisão informada sobre a melhor escolha para a sua saúde bucal. Os tratamentos para cárie podem variar, abrangendo desde medidas preventivas até intervenções mais invasivas, dependendo da gravidade da lesão. Além disso, deve-se enfatizar a importância da prevenção, incentivando o paciente a adotar uma rotina de higiene bucal eficaz e hábitos saudáveis de alimentação e estilo de vida (Messias LJ et al., 2020).

O estudo de Barzotto I e Rigo L (2018) abordou o papel fundamental dos estudantes de odontologia no acompanhamento de pacientes com cárie dentária. Esse acompanhamento representa uma das principais atividades para os alunos durante sua formação acadêmica, sendo uma etapa essencial para o desenvolvimento de habilidades clínicas e aprimoramento de conhecimentos teóricos na área de saúde bucal. Os estudantes são capacitados a identificar lesões precocemente e a realizar intervenções preventivas, o que contribui para a minimização da necessidade de tratamentos invasivos e mais complexos no futuro. Esse processo também proporciona aos alunos a oportunidade de aprimorar suas habilidades de comunicação e relacionamento interpessoal, essenciais para o atendimento personalizado (Brandão BA et al., 2018).

Para garantir a eficácia desse acompanhamento, é crucial que os estudantes de odontologia recebam supervisão de profissionais experientes, que possam orientá-los e assegurar que os tratamentos sejam realizados de forma adequada e segura para os pacientes. Dessa forma, a participação dos alunos no acompanhamento de pacientes com cárie é uma fase indispensável de sua formação profissional, proporcionando o desenvolvimento de habilidades clínicas, o aprofundamento do conhecimento teórico e a construção de uma abordagem personalizada para o cuidado de pacientes com problemas de saúde bucal (Barzotto I e Rigo L, 2018).

Outro aspecto relevante diz respeito à prevalência de cáries na infância, uma vez que essa condição impacta consideravelmente a saúde, qualidade de vida, desenvolvimento e até a situação financeira de muitas famílias. Portanto, é imperativo promover a conscientização sobre a importância da prevenção e do tratamento precoce da cárie, assegurando que as crianças tenham acesso aos cuidados de saúde bucal necessários para preservar sua saúde e bem-estar (Anchava J et al., 2025). Segundo o autor citado, crianças afetadas por cárie podem apresentar dificuldades no desenvolvimento da fala e da dentição, o que pode afetar negativamente sua autoestima e desempenho escolar. Além disso, a cárie não tratada pode levar a infecções graves e até à perda dentária, o que comprometeria a nutrição e a estética da criança. Outro fator de importância é o impacto financeiro das cáries na infância, uma vez que o tratamento odontológico pode ser oneroso, e muitas famílias de baixa renda não têm acesso a cuidados odontológicos adequados, o que pode resultar em complicações graves e custos mais elevados a longo prazo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cárie dentária é uma condição patológica que resulta da atividade prolongada de microrganismos no biofilme acumulado sobre a superfície dentária. O avanço dessa doença leva à desmineralização das camadas de tecidos mineralizados, resultando no comprometimento das estruturas dentárias que recobrem a polpa. Historicamente, o tratamento das lesões cariosas profundas era baseado na remoção completa da dentina afetada, com o intuito de eliminar o processo cariogênico. Esse procedimento, no entanto, frequentemente resultava na exposição da polpa dental. Nos dias atuais, abordagens mais conservadoras e menos invasivas têm sido priorizadas, com ênfase em procedimentos de mínima intervenção, que se concentram na prevenção do desenvolvimento da cárie e na implementação de práticas clínicas padronizadas para as diversas fases do processo carioso. Essas técnicas visam controlar tanto a instalação quanto a progressão da doença, a qual permanece prevalente, apesar dos avanços tecnológicos experimentados pela Odontologia contemporânea.

A cárie dentária é uma enfermidade multifatorial, resultante da interação entre o hospedeiro, o substrato dental e os microrganismos presentes na cavidade bucal. O diagnóstico precoce e a adoção de tratamentos adequados são fundamentais para o manejo eficaz dessa condição. As estratégias de prevenção e tratamento devem ser adaptadas às características epidemiológicas e socioeconômicas da população em questão. Compete aos cirurgiões-dentistas a responsabilidade de selecionar as opções terapêuticas mais adequadas, além de proteger tanto os pacientes quanto a equipe de saúde contra o risco de infecções cruzadas. Nesse contexto, as técnicas alternativas de tratamento da cárie, que não geram aerossóis, têm se mostrado eficazes, bem aceitas pelos pacientes e economicamente viáveis. No entanto, ainda são necessários mais estudos para consolidar sua aplicação clínica.

Em síntese, a orientação adequada sobre a cárie dentária é crucial para a prevenção e tratamento dessa enfermidade bucal amplamente disseminada. A conscientização da população sobre a importância de hábitos alimentares saudáveis, higiene bucal adequada e cuidados regulares com profissionais da saúde odontológica pode resultar na redução significativa da incidência de cárie, além de melhorar a qualidade de vida dos indivíduos. Portanto, espera-se que a educação em saúde bucal e a prevenção continuem sendo prioridades no campo odontológico, promovendo benefícios para a população de todas as faixas etárias.

6. REFERÊNCIAS

ALVES, I. S. G. et al. Reabilitação estética e funcional em paciente com cárie na primeira infância: relato de caso. Revista Científica do CRO-RJ (Rio de Janeiro Dental Journal), 2020; 5(3): 48-53.

AMICHE T., et al. Cárie precoce e severa na infância: a exodontia precoce pode prejudicar a qualidade de vida de crianças acometidas?. Revista Eletrônica Acervo Saúde, 2025; 13(5): e7624.

ANCHAVA J., et al. Caries Temprana de la Infancia: Rehabilitación Estética, Funcional e Integral en Paciente Pre-Escolar: Caso Clínico. Revista de la Facultad de Odontologia de la Universidad de Buenos Aires, 2025; 36(83): 7-12.

ANDRADE, F. V.; SANTOS, R. M. C. Avaliação clínica e radiográfica de restaurações após remoção seletiva de lesão de cárie em dentes permanentes: uma revisão sistemática. 7f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Odontologia) – Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos, 2020.

ARAÚJO, A. A. et al. Caries detection and diagnosis methodis: a narrative review. Research, Society and Development, v. 9, n. 10, 2020.

BARZOTTO, I.; RIGO, L. Clinical decision making for diagnosis and treatment of dental enamel injuries. Journal of Human Growth and Development, 2018; 28(2):189-198.

BATISTA, T. R. M., et al. Fisiopatologia da cárie dentária: entendendo o processo carioso. Rev. Salusvita (Online), 2020: 169-187.

BJORNDAL, L. et al. Treatment of deep caries lesions in adults: randomized clinical trials comparing stepwise vs. direct complete excavation, and direct pulp capping vs. partial pulpotomy. Eur J Oral Sci, v. 118, n. 3, p. 290-297, 2010.

BONIFÁCIO, C. C., et al. The effect of GICbrand on the survival rate of proximalart restorations. International Journal of Paediatric Dentistry, 2013; 23(4): 251-258.

BRANDÃO, B. A., et al. Importância de um exame clínico adequado para o atendimento odontológico. Caderno de Graduação-Ciências Biológicas e da Saúde-UNIT, 2018; 5(1): 77-77.

CARMINATTI, M. et al. Impacto da cárie dentária, maloclusão e hábitos orais na qualidade de vida relacionada à saúde oral em crianças pré-escolares. Audiology-Communication Research, 2017; 22.

CASARIN, D. et al. Uso da proteção do complexo dentino-pulpar por discentes de odontologia. J Oral Invest, v. 5, n. 1, p. 40-49, 2016.

CORREIO, I. B.; CORREIO, L. R. Tomada de decisão clínica frente ao diagnóstico e tratamento de lesões em esmalte dentário. Journal of Human Growth and Development, 2018; 28(2): 189-198.

CRISTINA, E. P. T. Tratamento restaurador atraumático: uma técnica minimamente invasiva. Trabalho de conclusão de curso – Centro Universitário Uniguairacá. p. 7. 2025.

DA SILVA COSTA, A. et al. Tratamento Restaurador Atraumático: Técnica Minimamente Invasiva para Lesões de Cárie na Primeira Infância. Archives of health investigation, 2022: 11(2): 297-303.

DA SILVEIRA, A. B. V. et al. Quais fatores de risco determinam a cárie dentária nos dias atuais? Uma scoping review. Research, Society and Development, 2025; 10(7): 24810716548-24810716548.

DE SOUZA, E. J. et al. O papel da sacarose na formação da cárie dental: uma breve revisão. Archives Of Health Investigation, 2018.

FAGUNDES, T. C. et al. Indirect pulp treatment in a permanent molar: case reort of 4 – year follow – up. Rev. Journal of Applied Oral Science, v. 17, n. 1, 2009.

FRANZON, R et al. Outcomes of one-step incomplete and complete excavation in primary teeth: a 24-month randomized controlled trial. Caries Res, v. 48, n. 5, p. 376- 83, 2014.

GOLDEFUM, G. et al. Estudo retrospectivo da efetividade de uma abordagem de tratamento não invasiva para inativação de lesões de cárie dentária não cavitadas em pacientes infantis. Arquivos em Odontologia, 2020; (56): e25.

GONSALVES, E. P. Iniciação à pesquisa científica. 3. ed. Campinas: Alínea, 2003.

GRIMALDI, N. et al. Conduta do cirurgião-dentista na prevenção e tratamento da osteorradionecrose: revisão de literatura. Revista brasileira de cancerologia, 2005; 51(4): 319-324.

IMPARATO, J. C. P. et al. Indirect pulp treatment without re-entry in a permanent tooth: 36 months of follow-up. Rev. Gauch Odontol, v. 62, n. 1, 2014.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica: Técnicas de pesquisa. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010.

LEITES, A. C. B. et al. Aspectos microbiológicos da cárie dental. Salusvita, 2006: 25(2): 239-252.

LEKSELL, E. et al. Pulp exposure after stepwise versus direct complete excavation of deep carious lesions in young posterior permanent teeth. Endod Dent Traumatol, v. 12, n. 4, p. 192‐196, 1996.

LIMA, J. E. O. Cárie dentária: um novo conceito. Revista Dental Press de Ortodontia e Ortopedia Facial, 2007; 12.

LUENGAS-QUINTERO E, et al. The atraumatic restorative treatment (ART) strategy in Mexico: two-years follow up of ART sealants and restorations. BMC oral health, 2013; 13(1): 1-7.

MACÊDO-COSTA, M. R. et al. Habilidade dos odontopediatras e clínicos gerais em diagnosticar e tratar defeitos do esmalte. RGO. Revista Gaúcha de Odontologia (Online), 2010: 58(3): 339-343.

MALTZ, M. et al. Cárie dentária: conceitos e terminologia. Cariologia: Conceitos básicos, diagnóstico e tratamento não restaurador. São Paulo: Arts Médicas, 2016, 11-16.

MALTZ, M. et al. Cariologia: Conceitos Básicos, Diagnóstico e Tratamento Não Restaurador. 1ª. ed. São Paulo: Artes Médicas, 2016.

MALTZ, M. et al. Partial removal of carious dentine: a multicenter randomized controlled trial and 18-month follow-up results. Caries Res, v. 47, n. 2, p. 103- 109, 2013.

MANTELLI, E. et al. A eficácia da remoção parcial de dentina cariada – tratamento expectante em cavidades cariosas profundas em paciente jovem: relato de caso. Ação Odonto, v. 2, n. 3,

MARINHO, V. A., PEREIRA, G. M. Revisão de literatura cárie: diagnóstico e plano de tratamento. Rev. Un. Alfenas, v. 4, p. 27-37, 1998.

MENDONÇA, I. C. G. et al. Monitoramento Da Atividade De Lesões Iniciais De Cárie Em Alunos De Uma Escola Do Município De Maceió-AL Após Tratamento Preventivo Conservador. Revista Eletrônica Acervo Saúde, 2019; 20: e584.

MENDONÇA, J. G. et al. Impact of dental treatment on the oral health-related quality of life of Brazilian schoolchildren. Brazilian Oral Research, 2025: 35.

MESSIAS, L. J. et al. Avaliação da associação do biosilicato® ao laser de Nd: YAG para o tratamento de cárie. Brazilian Journal of Health Review, 2020: 3(6): 18461-18475.

NAVARRO, M. F. L. Tratamento Restaurador Atraumático: atualidades e perspectivas. Revista da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas, 2015: 69(3): 289-301.

ORHAN, A. L. et al. Pulp exposure occurence and outcomes after 1 – or 2 visit indirect pulp therapy vs complete caries removal in primary and permanente molars. Pediatr Dent, n. 4, p. 347- 55, 2010. 

RIBEIRO, J. A. J. Motivos de extracção em Odontopediatria. 2014. Tese de Doutorado. 2014; 61p.

RIBEIRO, A. A. Tratamento de lesões cariosas profundas em dentes decíduos. PRO-odonto prevenção, v. 6, n. 2, p. 9-37, 2012.

ROCHA, A. O. et al. Uso de pino de fibra de vidro para reabilitar unidade dental comprometida por extensa lesão cariosa: relato de caso. Revista Eletrônica Acervo Saúde, 2025; 13(6): e7847.

SILVA, B. P. et al. Current trends in the conservative treatment of deep-caries lesion with risk of pulp exposure. Revista Brasileira de Odontologia, v. 75, p. 1-7, 2018.

SINGH, S et al. Effect of Different Liners on Pulpal Outcome after Partial Caries Removal: A Preliminary 12 Months Randomised Controlled Trial. Caries Res, v. 53, n. 5, p. 547‐554, 2019.

SOARES, G. G. et al. Métodos de detecção de cárie. Rev. bras. odontol., v. 69, n. 1, p. 84-9, 2012.

SOUZA, J. B. et al. Hipoplasia do esmalte: tratamento restaurador estético. Revista Odontológica do Brasil Central, 2009: 18(47).

SOUZA, K. M. Sucesso Clínico Da Terapia Pulpar Vital Em Dentes Permanentes Com Lesões De Cárie Profunda E Sintomatologia Dolorosa: Uma Revisão Sistemática De Literatura. 44f. Dissertação – Universidade Federal Do Rio Grande Do Sul, 2020.

VALETIM, V. C. B. et al. Tratamento De Lesões De Cárie Profunda Com Risco De Exposição Pulpar – Decisão Baseada Em Evidências. Rev. Odontol. Univ. Cid. São Paulo, v. 29, n. 2, p. 163-73, 2017.

VAN AMERONGEN, I. A. et al. (1996). Large deformation rheology of gelatingels. Polymer Gelsand Networks, v. 4, n. 3, p. 189-227, 1996.