REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202509222334
Ronaldo Memória Brito
Sabrina Mendes Viana Oliveira
RESUMO
O objetivo deste artigo é explorar a relevância do desenho no processo de aprendizagem dos alunos dos anos iniciais do ensino fundamental e como a prática pedagógica do professor pode integrar essa ferramenta de forma eficaz no desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças. A metodologia utilizada será a revisão bibliográfica, com a análise de estudos e pesquisas existentes sobre a importância do desenho no contexto escolar e a prática pedagógica dos professores. Serão abordadas publicações científicas, livros e artigos acadêmicos que discutem a relação entre o desenho, a criatividade infantil e as estratégias pedagógicas aplicadas nas primeiras fases da educação básica. Espera-se que a revisão evidencie como o desenho pode contribuir para o desenvolvimento da linguagem, da expressão emocional, da percepção espacial e da coordenação motora das crianças. Também se busca identificar quais práticas pedagógicas são mais eficazes para integrar o desenho ao currículo escolar e como essas práticas podem estimular a aprendizagem ativa e criativa. A conclusão do artigo deverá reforçar que o desenho é uma ferramenta pedagógica valiosa, que, quando bem utilizada, pode enriquecer a prática docente nos anos iniciais. Além disso, será destacada a importância do professor em estimular o uso do desenho como um meio de expressão e aprendizado, proporcionando um ambiente de ensino mais dinâmico, inclusivo e criativo para as crianças.
Palavras-Chave: desenho, prática pedagógica, anos iniciais, aprendizagem, criatividade.
ABSTRACT
The objective of this article is to explore the relevance of drawing in the learning process of students in the early years of elementary school and how teachers’ pedagogical practices can effectively integrate this tool into children’s cognitive, social, and emotional development. The methodology used will be a bibliographic review, with the analysis of existing studies and research on the importance of drawing in the school context and teachers’ pedagogical practices. Scientific publications, books, and academic articles that discuss the relationship between drawing, children’s creativity, and pedagogical strategies applied in the early stages of basic education will be addressed. The review is expected to highlight how drawing can contribute to the development of language, emotional expression, spatial perception, and motor coordination in children. It also seeks to identify which pedagogical practices are most effective for integrating drawing into the school curriculum and how these practices can stimulate active and creative learning. The conclusion of the article should reinforce that drawing is a valuable pedagogical tool that, when used well, can enrich teaching practices in the early years. Furthermore, the importance of teachers in encouraging the use of drawing as a means of expression and learning will be highlighted, providing a more dynamic, inclusive and creative teaching environment for children.
Keywords: drawing, pedagogical practice, early years, learning, creativity.
1 INTRODUÇÃO
O Ensino de Artes Visuais promove a ampliação do conhecimento e das potencialidades dos alunos. Através da Arte, a criança pode expressar seus sentimentos e ideias, enriquecendo sua relação com o mundo ao seu redor. Nesse processo, ela utiliza as Artes Visuais como uma forma de expressão, desenvolvendo sensibilidade e competência para lidar com formas, cores, imagens, gestos, sons e outras manifestações artísticas.
Na fase de transição escolar, do ensino infantil para o ensino fundamental, o desenho muitas vezes é substituído por outros métodos avaliativos e investigativos, o que limita a forma de expressão das crianças. Esse processo pode restringir o uso do desenho como ferramenta de comunicação e desenvolvimento durante essa importante etapa de aprendizagem. Tsuhako (2015) explica que:
O trabalho com o desenho é uma prática comum nas instituições de Educação Infantil, porém muitos profissionais, ao desconhecerem a importância dessa forma de expressão, acabam adotando abordagens que não desafiam as crianças. Tais práticas podem se resumir a atos mecânicos, como cópias, desenhos estereotipados ou pinturas em imagens mimeografadas ou xerocopiadas. Essas atividades limitam a capacidade da criança de elaborar e valorizar suas próprias respostas em relação ao mundo ao seu redor, não favorecendo o desenvolvimento da criatividade e imaginação, que são essenciais para a formação da linguagem artística (TSUHAKO, 2015, p.1).
O desenho é uma forma essencial de comunicação e expressão para as crianças, e é fundamental respeitar suas fases de desenvolvimento, utilizando-o como uma ferramenta de investigação para compreender melhor o universo infantil. No entanto, muitas vezes, o desenho é restringido a formas limitadas de expressão nas escolas, principalmente durante a transição do ensino infantil para o ensino fundamental. Esse período, que envolve crianças de 6 a 7 anos, pode ser marcado por práticas pedagógicas que substituem o desenho por outros métodos avaliativos, impedindo que as crianças usem o desenho para expressar suas ideias, sentimentos e compreensões do mundo.
A partir da observação de uma situação concreta, a autora deste trabalho se deparou com uma fala de uma criança nesse processo de transição escolar, que, após um período de ensino remoto durante a pandemia, respondeu a uma pergunta sobre desenho com a frase: “Minha professora não gosta muito de desenho.” Essa resposta despertou questões sobre a relevância do desenho na fase de transição escolar e gerou reflexões sobre a importância desse instrumento como uma ferramenta diagnóstica essencial para o desenvolvimento da criança, de acordo com as normas educacionais vigentes.
De acordo com Vygotsky (1998), ao desenhar, a criança expressa sua subjetividade e sua percepção da realidade, baseada nas interações e nas experiências com o ambiente e as pessoas ao seu redor. O desenho não é apenas uma manifestação de fantasia, mas também um meio de expressar o que a criança sabe e sente sobre o mundo. Além disso, a criança passa por diferentes fases de desenvolvimento, que envolvem exploração, descoberta e comunicação, e essas fases devem ser respeitadas para que a aprendizagem seja efetiva (Lustig et al., 2014).
Contudo, o desenho muitas vezes é limitado ou substituído por outros métodos de avaliação e investigação, como cópias ou pinturas em imagens pré-existentes, que não incentivam a criatividade e a expressão genuína das crianças. Esse problema pode ser atribuído à falta de formação adequada dos professores, que não compreendem o valor do desenho como meio de comunicação e expressão emocional, ou à ausência de um olhar atento para a realidade do aluno. Tsuhako (2015) destaca que muitos professores enfrentam dificuldades ao articular a teoria pedagógica com a prática, especialmente no que diz respeito ao ensino do desenho, sendo necessário que eles se apropriem do conhecimento teórico para aplicá-lo de forma transformadora.
Este trabalho tem como objetivo investigar se as teorias sobre a importância do desenho no processo de aprendizagem infantil estão alinhadas com a legislação educacional brasileira. Para isso, será realizado um levantamento bibliográfico sobre o tema, com base na Psicologia Histórico-Cultural, e uma análise das legislações educacionais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), para comparar as referências teóricas com as diretrizes legais.
A pesquisa também busca analisar o papel atribuído ao desenho na primeira infância, conforme a Psicologia Histórico-Cultural, e identificar como a legislação brasileira aborda o uso do desenho no contexto educacional. A metodologia adotada é bibliográfica e documental, com análise de livros e artigos que tratam do tema, bem como da legislação vigente, conforme explicado por Silva, Almeida e Guindani (2009), que destacam a importância de investigar documentos de forma técnica e analítica para elaborar sínteses e conclusões sobre o tema.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1 O DESENHO A PARTIR DA PSICOLOGIA HISTÓRICO CULTURAL.
A percepção infantil nos primeiros meses de vida difere consideravelmente da percepção adulta. Para as crianças, as formas ainda não são reconhecidas de maneira distinta, o que torna difícil associar seu comportamento a elas. Estudos mostram que, à medida que a criança cresce, novas formações surgem em seu processo de desenvolvimento, influenciadas pelo amadurecimento orgânico e pelas experiências acumuladas. Essas novas formações, que não existiam nas etapas anteriores, resultam de tudo o que ocorreu durante esse período de desenvolvimento, criando, ao final de cada fase, uma nova situação social e de desenvolvimento da criança. Com isso, iniciase uma nova etapa de aprendizado e crescimento. Essas transformações moldam a forma como a criança se relaciona com o ambiente, consigo mesma e com os outros (MELLO, 2007, p.96).
Luria (2005) observa que, até os três ou quatro meses, a criança é como um “cego mental”, não conseguindo perceber o mundo exterior de forma clara e distinta. Ele descreve as fases do desenvolvimento infantil desde o primeiro ano de vida até o primeiro contato com cores e manchas. Cada criança tem seu tempo específico para se desenvolver e criar formas de socialização com o ambiente ao seu redor. Durante os primeiros anos, algumas crianças ainda não conseguem identificar as formas de representação, concentrando-se apenas nas cores que vêem nos objetos, o que torna sua percepção mais simplificada nesta fase inicial.
De acordo com Luria (2005, p.86), “a primeira coisa a penetrar o manto que separa a criança do mundo exterior são a cor e manchas coloridas descontinuadas”. À medida que a criança começa a desenhar, ela se desenvolve culturalmente, e é crucial que o professor tenha uma visão ampla e sensível, compreendendo as particularidades de cada aluno. Nesse período, a interação social é essencial para o desenvolvimento cultural da criança na sociedade, e não é justo que ela seja forçada a realizar ações que restrinjam sua forma de expressão.
Por exemplo, quando o desenho é visto apenas como uma atividade direcionada com o intuito de avaliar os traços da criança, perde-se o valor dessa expressão como uma forma genuína de investigação sobre a percepção e o olhar social da criança. O desenho não deve ser utilizado como um simples instrumento de avaliação, mas como uma ferramenta para explorar a visão da criança sobre o mundo e suas relações sociais.
Segundo Luria (2010,p.104);
A capacidade de raciocínio e a inteligência da criança, suas ideias sobre o que a cerca, suas interpretações das causas físicas, bem como seu domínio das formas lógicas do pensamento e da lógica abstrata, são vistas pelos estudiosos como processos autônomos, que não são, de maneira alguma, impactados pela aprendizagem escolar.
O desenho, quando abordado como uma forma de comunicação na perspectiva histórico-cultural, está intrinsecamente ligado aos meios sociais estruturados, e o conceito histórico se funde ao conceito cultural, trabalhando uma perspectiva de mudança ao longo do tempo. A partir dessa visão, o desenho pode se tornar um instrumento diagnóstico que facilita o processo de aprendizagem, por meio das interações com o mundo e com o outro. Com base nos pressupostos filosóficos e nas concepções histórico-sociológicas de Marx e Engels, Vygotsky afirma: “Em sua concepção, o desenvolvimento humano é uma construção histórica e social, derivada de processos interacionais e das condições objetivas de vida, e a consciência é formada a partir das experiências vividas” (GOMES et al., 2016).
Os autores destacam ainda que, nessa concepção de desenvolvimento, está subentendida a ideia de que a condição para que o indivíduo se torne sujeito é sua imersão na cultura. Ou seja, ele se insere em um mundo constituído de significações, que o orienta sobre a funcionalidade dos objetos, o modo de ser, agir e interagir com outros que compartilham as mesmas referências culturais. Esse processo se concretiza por meio da linguagem, que, exclusivamente no ser humano, assume um papel organizador e planejador do pensamento, permitindo-lhe não só comunicar-se, mas também construir e regular a si mesmo e o mundo ao seu redor (GOMES et al., 2016).
O processo de desenhar requer paciência e atenção pois trabalha com a linguagem, percepção, memória e emoção. Estudos dizem que;
O modo como estes processos se desenvolvem e se objetivam variam em razão das condições sociais e culturais, historicamente produzidas e particularmente apropriadas em razão dos lugares sociais que cada pessoa ocupa na trama das relações cotidianas das quais ativamente participa (FERNANDES, 2010,p.89).
É por meio da conversa sobre o desenho que se podem obter informações sobre o contexto histórico-cultural em que a criança vive e como ela enxerga esse contexto. Segundo Natividade; Coutinho; Zanella (2008 p.2);
Através da revisão de literatura, pode-se compreender que o desenho, por se tratar de uma forma de linguagem, tem papel importante tanto no desenvolvimento da capacidade cognitiva e semiótica, como também na criatividade e expressão das emoções.
É importante que o professor entenda que o desenho é uma forma de expressão muito significativa e que pode auxiliar muito em seu diagnóstico. Toda forma de expressão necessita de uma interpretação, e a partir dessa observação o professor pode tornar o processo de ensino e aprendizagem mais flexível e voltado ao aluno. A partir dessa perspectiva;
Ler um desenho, por sua vez, não é tarefa simples, posto que os signos ali traçados não falam por si só: é preciso interpretá-los, proceder à escuta do que dizem, o que não raro somente pode ser feito com o auxílio da palavra. Isso é particularmente necessário quanto se intenciona conhecer/explicar uma dada realidade, o que se apresenta como objetivo da pesquisa acadêmica. Nesse caso, para compreender o desenho infantil e aquilo que seu autor diz por meio de traços e cores lançados em uma folha de papel, necessário se faz escutar o que o próprio autor fala sobre sua produção (Natividade; Coutinho; Zanella, 2008, p.5).
O desenho pode ser expresso de diversas maneiras, independente do material utilizado, faz parte do desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças. Ele é um método investigativo muito importante, cada desenho possui sua particularidade pois cada criança possui uma condição social e cultural historicamente produzida que também é associada ao lugar onde vive, por isso cada desenho deve ser analisado como uma linguagem espontânea que reproduz sentimentos, imaginações percepções.
Além de ser considerado como uma fala espontânea, o desenho organiza a fala pois a criança nomeia os seus gestos e isso se torna importante para ela, mesmo que a nomenclatura do objeto não esteja correta. Sobre o desenvolvimento do desenho infantil, segundo Vygotsky (1998); “Primeiro a criança se fixa no todo para realizar seus desenhos e somente depois passa a dar atenção às partes, às peculiaridades do objeto que pretende desenhar”. Cada etapa da criança se resulta em novas funções e apropriação cultural, o desenho bem expressado, uma escrita bem desenvolvida ou um gesto compreendido se torna uma nova conquista e uma nova etapa.
Nessa primeira infância, a linguagem do desenho também pode se assemelhar a um faz de conta da criança para a criança, alguns desenhos podem ser reproduções de manifestações adultas que a criança capta durante seu desenvolvimento. Ao decorrer das fases e da interação com adultos a criança vai ampliando seu olhar e expandindo seus interesses pelos objetos.
2.2 O ENSINO DE ARTES VISUAIS E DESENHOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
As Artes Visuais são uma forma de expressão que revela, por meio de diversos materiais, o pensamento humano, suas emoções, anseios, histórias e a cultura da qual faz parte. Elas também desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da identidade de um povo ou de uma classe social. O Ensino da Arte, portanto, contribui para a formação sensível do indivíduo, e é no processo de criação artística que essa aprendizagem realmente acontece.
A comunicação entre as pessoas e a compreensão do mundo vão além das palavras. Grande parte do que sabemos sobre os pensamentos e sentimentos de diversas pessoas, povos, países e épocas nos chega através de suas expressões artísticas, como música, teatro, pintura, dança e cinema (MARTINS; PICOSQUE; GUERRA, 1998, p. 14).
A Arte existe desde a época dos homens das cavernas, ocupando um espaço significativo na sociedade desde os primórdios da humanidade e passando por grandes transformações ao longo do tempo. A educação em Arte proporciona aos alunos valiosas descobertas, refletindo as diferentes culturas em que estão inseridos.
As Artes Visuais na Educação Infantil oferecem amplas oportunidades para o desenvolvimento da aprendizagem da criança, pois ajudam a expandir seu conhecimento sobre o mundo, suas habilidades e a descoberta de suas potencialidades. Além disso, essas expressões artísticas estão presentes no cotidiano das crianças, que se comunicam e expressam seus sentimentos, pensamentos e emoções por meio de diversos meios, como linhas, formas e rabiscos. Elas desenham no chão, na areia, em muros e utilizam materiais que encontram ao seu redor.
Para entender o estado atual do Ensino de Artes Visuais nas escolas, é essencial explorar a trajetória e a história do Ensino de Arte no Brasil, que desde seu início esteve interligado à história da Arte e à educação no país. No Brasil, o Ensino de Arte teve início com a educação jesuítica durante o período colonial, sendo o primeiro sistema de ensino formal do país. A metodologia utilizada priorizava o estudo da arte literária, que era considerada mais valorizada do que o trabalho manual. Em contrapartida, existiam as Escolas de Artífices, que funcionavam como oficinas para artesãos, onde eram ensinados ofícios artesanais e práticas agrícolas.
O trabalho manual era desvalorizado, visto como um ofício servil voltado para as classes menos favorecidas. Em contraste, a formação artística e o uso da linguagem eram priorizados apenas pela elite, que recebia uma educação diferenciada em vários aspectos. O barroco jesuítico representou uma fusão das referências do modelo português com as práticas dos artesãos brasileiros, sendo considerado uma Arte popular devido à influência de distintas camadas sociais.
No início do século XIX, um grupo de artistas franceses formou a Missão Artística Francesa, que trouxe a estética greco-romana do Neoclassicismo. Com a implementação do sistema de ensino superior acadêmico, a Arte Neoclássica, ensinada nas academias e baseada na repetição de modelos, acabou por substituir o Barroco brasileiro.
A escola tradicional no Brasil teve início com a República, caracterizando-se por uma preocupação com o Ensino de Arte que se baseava no Desenho como uma prática técnica e científica, em vez de um aprendizado significativo e de qualidade. Rui Barbosa defendia a inclusão da Arte como disciplina obrigatória nas escolas primárias e secundárias.
Um marco importante na afirmação do pensamento liberal foi a fundação da Academia de Belas Artes, que mais tarde se tornou a Escola Nacional de Belas Artes. A educação começou a se tornar mais democrática, valorizando os aspectos psicológicos dos alunos e o processo de aprendizagem, apenas a partir da Escola Nova, em 1930. Com a ruptura dos ideais da escola tradicional, o educador passou a enfatizar a livre expressão dos alunos.
Na Escola Nova, houve uma priorização dos aspectos psicológicos do desenvolvimento infantil, com uma ênfase significativa nas dimensões sociais. Os conteúdos curriculares eram definidos com base nas experiências vivenciadas pelos alunos, promovendo uma abordagem mais prática e contextualizada. Nesse modelo, o foco não estava apenas no acúmulo de conhecimentos, mas no desenvolvimento de habilidades que favorecessem o “aprender a aprender”, considerado mais importante do que a simples memorização de conteúdo. Essa abordagem buscava formar indivíduos mais autônomos e críticos, capazes de refletir sobre seu próprio processo de aprendizado (IAVELBERG, 2003, p. 114).
Com o surgimento da Escola Tecnicista, entre 1960 e 1970, o ensino passou a focar exclusivamente no que era necessário para que os alunos pudessem atuar de maneira prática no mercado de trabalho, valorizando os princípios da sociedade industrial. Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nº 5292/71, a educação artística foi incluída no currículo escolar, mas não como uma disciplina formal. Em vez disso, era tratada como um mero entretenimento, uma atividade de transição entre as demais disciplinas.
A arte não era reconhecida como uma disciplina formal, mas sim como uma “área generosa”. No entanto, os professores eram obrigados a definir objetivos, conteúdos, métodos e critérios de avaliação, o que gerava contradições. Inseguros, muitos deles dependiam de livros didáticos de baixa qualidade para fundamentar seu trabalho (IAVELBERG, 2003, p. 115).
Dessa forma, os professores de Arte começaram a buscar o reconhecimento e a valorização de seu conteúdo, o que levou a novas direções para a disciplina. A promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN) nº 9394/96 estabeleceu a obrigatoriedade e o reconhecimento do conteúdo de Arte como uma disciplina nas escolas. De acordo com Gouthier (2008, p. 19): “Com a nova LDBN, a Educação Artística foi extinta e passou a ser oficialmente reconhecida a disciplina Arte, como uma área do conhecimento”. A consolidação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) representou um marco significativo na história do Ensino de Arte no Brasil. Baseados na Abordagem Triangular proposta por Ana Mae Barbosa, os PCNs promoveram melhorias substanciais na qualidade do ensino de Arte, ao integrar aspectos históricos, estéticos e de produção artística, favorecendo um aprendizado mais rico e contextualizado. Essa abordagem buscou não apenas desenvolver habilidades técnicas, mas também estimular a reflexão crítica e a apreciação estética, essenciais para a formação integral dos alunos.
Muitos arte-educadores começaram a estruturar seu trabalho em torno de três eixos de aprendizagem significativa em Arte. O primeiro eixo é o “fazer artístico”, que envolve a prática de criação e a produção de obras pelos alunos, permitindolhes explorar suas habilidades e expressar suas ideias. O segundo eixo refere-se à “apreciação”, onde os alunos são incentivados a analisar e valorizar não apenas suas próprias produções, mas também as obras de colegas e de artistas consagrados. Esse processo de apreciação enriquece a experiência estética e promove o diálogo entre diferentes visões artísticas. Por fim, o terceiro eixo aborda a “reflexão sobre a arte”, considerando-a como um objeto sociocultural e histórico. Isso envolve discutir o contexto em que as obras foram criadas, suas influências e significados, promovendo uma compreensão mais profunda da Arte como um reflexo das realidades sociais e históricas. Essa abordagem tripartite visa não apenas desenvolver habilidades práticas, mas também fomentar um entendimento crítico e consciente da Arte no mundo contemporâneo (IAVELBERG, 2003, p. 118).
De acordo com Iavelberg (2003), a Arte deve ser abordada a partir de três eixos de aprendizagem: a produção dos alunos, a apreciação de seus próprios trabalhos, dos trabalhos dos colegas e das obras de artistas, e a compreensão da Arte dentro de uma perspectiva histórica e cultural na sociedade. Ao analisar a trajetória do Ensino de Arte no Brasil, é possível perceber que essa área passou por diversas transformações. Anteriormente, o conteúdo era frequentemente reduzido a um ensino mecanizado. Atualmente, há uma crescente valorização da Arte como uma disciplina essencial para a formação integral do ser humano.
A Arte contribui para o desenvolvimento de competências, habilidades e conhecimentos relevantes em diversas áreas de estudo. No entanto, a justificativa para sua inclusão no currículo escolar vai além disso; o que realmente a valida é seu valor intrínseco como uma construção humana, um patrimônio comum que deve ser apropriado por todos (IAVELBERG, 2003, p. 9).
É fundamental que a Educação Infantil reserve um espaço para as Artes Visuais, assim como para a alfabetização e a leitura de textos escritos. A linguagem visual abrange uma variedade de atividades que exploram diversos aspectos, entre os quais se destaca o imaginário. A imaginação desempenha um papel crucial na construção do aprendizado, pois, por meio dela, a criança consegue criar e transformar a realidade de acordo com suas necessidades e desejos.
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais:
A educação em Arte favorece o desenvolvimento do pensamento artístico e da percepção estética, características que permitem ao aluno organizar e dar sentido às suas experiências humanas. Ao se envolver na criação de obras artísticas e ao apreciar as produções suas, de colegas, da natureza e das diversas culturas, o estudante aprimora sua sensibilidade, percepção e imaginação (BRASIL, 2000, p. 19).
É na Educação Infantil que as crianças expandem ainda mais seu conhecimento sobre as artes, tendo também a oportunidade de explorar múltiplas linguagens e expressões. “É importante ressaltar que, ao limitar as linguagens oferecidas às crianças, também estamos restringindo seus instrumentos privilegiados de interação com o mundo ao seu redor” (BRASIL, 2006, p. 18). As atividades artísticas devem ocupar espaços privilegiados nas instituições educacionais, como creches, pré-escolas e escolas, para que esses ambientes se tornem lugares humanizados de autoria e expressão. Conforme o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil:
Assim como a música, as Artes Visuais são linguagens que constituem formas essenciais de expressão e comunicação humana, o que justifica sua inclusão no contexto educacional de maneira geral, e especialmente na Educação Infantil (BRASIL, 1998, p. 85).
As Artes Visuais englobam diversas formas de expressão visual, como pintura, desenho, escultura, colagem, fotografia, cinema, arquitetura, paisagismo e decoração, entre outras. Elas promovem a interação e a comunicação das crianças, servindo como uma importante forma de linguagem. Por isso, é essencial incluir esse ensino na Educação Infantil, pois isso possibilita o desenvolvimento da imaginação, criatividade, cognição, intuição e sensibilidade.
A Arte contribui para a formação intelectual da criança, estimula a ação espontânea, facilita a livre expressão e permite a comunicação. As Artes Visuais constituem um tipo de linguagem com características únicas, e sua aprendizagem ocorre através dos seguintes aspectos:
Fazer artístico: Focado na exploração, expressão e comunicação por meio da produção de trabalhos de arte, este eixo propicia o desenvolvimento de um percurso de criação pessoal. Apreciação: Envolve a percepção do significado que um objeto artístico propõe, articulando elementos da linguagem visual com os materiais e suportes utilizados. O objetivo é desenvolver, através da observação e da fruição, a capacidade de construir sentido, reconhecer, analisar e identificar obras de arte e seus criadores. Reflexão: Este eixo abrange tanto o fazer artístico quanto a apreciação, consistindo em um processo de pensar sobre todos os aspectos do objeto artístico que se apresenta em sala de aula. Envolve o compartilhamento de perguntas e afirmações que a criança formula, incentivadas pelo professor, em contato com suas próprias produções e as de outros artistas (BRASIL, 1998, p. 89).
De acordo com o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (1998), as práticas em Artes Visuais possuem objetivos específicos para cada faixa etária:
- Crianças de zero a três anos: O foco é ampliar o conhecimento da criança através da manipulação de diferentes materiais. Isso inclui explorar suas características e modos de manuseio, além de ter contato com diversas expressões artísticas. A utilização de materiais gráficos e plásticos ajuda a expandir as possibilidades de expressão e comunicação.
- Crianças de quatro a seis anos: Nessa faixa etária, as crianças demonstram interesse por suas próprias produções, pelas obras de colegas e por diversas criações artísticas. Elas são incentivadas a produzir trabalhos de Arte utilizando linguagens como desenho, pintura, modelagem, colagem e construção, promovendo o desenvolvimento do gosto, do cuidado e do respeito.
A habilidade de criar linhas e formas que se assemelham a objetos reais é uma competência simbólica exclusiva do ser humano. Embora a Arte seja frequentemente percebida como algo ligado ao sentimento ou à inspiração, na verdade, ela envolve uma ampla gama de capacidades e habilidades cognitivas. A mensagem que a Arte transmite é vasta e multidisciplinar, variando ao longo do tempo, do espaço e de indivíduo para indivíduo.
Muitos educadores da Educação Infantil reconhecem o valor das Artes Visuais, pois oferecem oportunidades de auto-expressão e promovem importantes descobertas para as crianças pequenas. As crianças menores utilizam atividades artísticas para se expressar, abordando questões abstratas e complexas que muitas vezes não conseguem comunicar aos adultos por meio de outras linguagens.
A Arte não é exclusiva das creches, pré-escolas e escolas, nem deve ser subserviente a outros interesses. Ela serve para abrir portas e janelas nas instituições educacionais, apresentando a vida de uma maneira estética e poética. Além disso, favorece o transbordamento das múltiplas linguagens da criança, promovendo o acesso e estimulando diversas formas de expressão artística (BRASIL, 2006, p. 28).
Ainda hoje, a educação tende a valorizar mais o saber científico e a linguagem escrita, relegando as outras formas de expressão, especialmente as linguagens artísticas. No entanto, é fundamental que os ambientes educacionais sejam espaços de troca, respeito, expressão e diversidade de linguagens.
Assim, pode-se concluir que as atividades artísticas oferecem às crianças a oportunidade de comunicar conceitos que muitas vezes são difíceis de expressar verbalmente. Ao se engajar com as Artes, elas conseguem manifestar suas vivências internas de maneira simples e envolvente. No entanto, é lamentável notar que práticas pedagógicas do passado, que marcaram o Ensino de Arte, ainda persistem nas escolas de hoje. Muitos professores carecem de formação adequada, não há espaços físicos apropriados para o desenvolvimento das aulas, e a valorização dos profissionais é insuficiente, entre outros desafios enfrentados.
2.3 O EDUCADOR COMO MEDIADOR DA APRENDIZAGEM EM ARTES VISUAIS
Os alunos e educadores são coautores do processo de aprendizagem. Assim, a interação entre eles é fundamental, com o foco principal no ato de criar e fazer juntos. Essa parceria é essencial para o desenvolvimento da criatividade, pois é na convivência produtiva que as ideias florescem. O educador desempenha o papel de mediador entre o conhecimento e o aluno, e sua função é reconhecer que o contato com as Artes Visuais deve ir além da mera exposição; é vital que a criança se aproprie dessas artes, explore-as e produza de maneira significativa. É crucial estimular os alunos a se tornarem pesquisadores, despertando sua criatividade e incentivando habilidades como observar, imaginar, criar, sentir, ver e admirar.
Essa mediação do conhecimento não se limita à linguagem oral; ela se dá através de múltiplos meios linguísticos e gestuais. Entre as linguagens que enriquecem o processo de ensino-aprendizagem, destacam-se a linguagem oral e escrita, que são fundamentais para a interação entre aluno e educador, e a linguagem corporal, expressa por meio de gestos e posturas, permitindo que o aluno comunique suas experiências sobre o ambiente em que vive.
A linguagem visual também é uma forma significativa de expressão e comunicação. Ela se manifesta por meio de desenhos, pinturas, esculturas e modelagens, adquirindo uma importância especial na Educação Infantil, um período em que as crianças utilizam a imaginação para se expressar.
Entretanto, muitos educadores da Educação Infantil ainda não valorizam adequadamente o trabalho com as Artes Visuais em sala de aula. Frequentemente, as atividades artísticas são usadas apenas para acalmar o ambiente, decorar o espaço, aprofundar conteúdos ou proporcionar um momento de descanso para os professores, levando a propostas de desenhos e pinturas que, posteriormente, não são exploradas.
As atividades artísticas precisam ter um papel central na prática pedagógica dos educadores da Educação Infantil. Deve haver uma interação prazerosa entre educador e alunos, possibilitando que eles criem suas próprias produções. Para isso, é essencial que o ensino inclua métodos e técnicas adequadas para o uso dos materiais e o desenvolvimento do processo criativo, garantindo que as aulas sejam momentos de aprendizado enriquecedor, e não apenas de desordem e bagunça.
O professor deve estimular a atitude criativa do aluno, atuando como um facilitador do pensamento, da sensibilidade e do questionamento, além de promover a construção de novas ideias. Para isso, é fundamental que ele desafie os alunos e crie situações que incentivem a criação. Existem diversas técnicas de Artes Visuais que podem ser aplicadas na Educação Infantil, cada uma oferecendo oportunidades para os alunos expandirem seu potencial criativo. Para que isso aconteça, o educador precisa disponibilizar uma variedade de suportes e materiais que possibilitem a manipulação e a expressão artística.
O desenho, a pintura e a colagem realizados pelas crianças são expressões da sua relação com o mundo, em um diálogo constante com seu imaginário. Essas obras são marcas pessoais que refletem a individualidade de cada criança. É fundamental reconhecer que cada uma tem um estilo único de se expressar: alguns podem ter traços mais vigorosos ou mais delicados, ocupar todo o espaço ou apenas um pequeno canto, usar muitas cores ou optar por uma única tonalidade. Nós, educadores que interagimos diariamente com meninos e meninas e suas produções culturais, temos a capacidade de reconhecer a obra de cada criança, mesmo sem um nome escrito, se permitirmos que elas se expressem com autoria (BRASIL, 2006, p. 48).
A criação artística desempenha um papel crucial na formação do aluno, ajudando a desenvolver relacionamentos interpessoais e a promover o domínio corporal. Portanto, fazer Arte vai muito além de simplesmente disponibilizar lápis, canetas e folhas de papel; o educador deve fornecer meios que estimulem a criatividade e a imaginação. Por exemplo, um pedaço de carvão ou um graveto pode produzir resultados tão expressivos quanto um lápis. Assim, ao se envolver com a Arte, a criança explora sua identidade e o mundo ao seu redor.
O educador deve criar um ambiente propício, repleto de diversas superfícies, materiais e instrumentos, permitindo que os alunos tenham acesso a uma ampla gama de possibilidades de expressão. Com mais recursos e estímulos, eles podem experimentar novas técnicas, materiais, texturas e misturas de cores e tintas, desenvolvendo assim seus sentidos e, consequentemente, sua intelectualidade. Além disso, é essencial que esse ambiente proporcione condições favoráveis, como conforto e comodidade, para que os alunos possam produzir seus trabalhos artísticos com criatividade e autonomia.
De acordo com o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil:
É recomendável que os locais de trabalho sejam projetados para acomodar as crianças de forma confortável, proporcionando máxima autonomia no acesso e uso dos materiais. Ambientes apertados podem inibir a expressão artística, enquanto espaços amplos favorecem a liberdade de criação e expressão (BRASIL, 1998, p. 110).
Assim, é fundamental criar situações no cotidiano escolar que despertem o interesse das crianças pela Arte. Ambientes desafiadores permitem que elas reconheçam seu potencial, descubram habilidades desconhecidas e se envolvam nas atividades artísticas com prazer e diversão.
Ao ter acesso a diferentes materiais nas práticas das Artes Visuais, os alunos despertam seu imaginário, utilizando a fantasia para explorar novas formas de criação. A imaginação não apenas sustenta o raciocínio, mas também enriquece as emoções dos jovens alunos, permitindo que sua mente viaje por outros tempos e espaços. A Arte transporta as crianças para um universo repleto de novas sensações e sentimentos, impactando tanto sua cognição quanto seu afeto.
A didática no Ensino de Artes Visuais deve ser envolvente, prazerosa e capaz de despertar a curiosidade da criança. O educador precisa evitar a repetição e atividades mecânicas, mediando o processo de forma significativa. É essencial promover oportunidades para que os alunos manipulem o material didático, o que gera interesse em entender o que estão utilizando, de que é feito e permite que experimentem e compreendam melhor os materiais disponíveis.
A didática do ensino da Arte geralmente se divide em duas tendências: uma que promove exercícios de repetição ou a imitação mecânica de modelos prontos, e outra que se concentra em atividades meramente autoestimulantes. Ambas favorecem tipos de aprendizagem que resultam em um legado empobrecido para o verdadeiro crescimento artístico do aluno. (BRASIL, 2000, p.94).
O material didático utilizado pelo educador é essencial para um trabalho eficaz com Artes Visuais na sala de aula. Esse material deve despertar a curiosidade dos alunos e provocar estímulos que despertem seu interesse. Os educadores devem incluir uma variedade de atividades artísticas em seu planejamento, que incentivem e estimulem a criatividade dos alunos. Isso pode incluir desenhar com lápis, giz de cera ou canetas, pintar com diferentes tintas em diversas superfícies, além de criar obras tridimensionais.
Algumas crianças podem se destacar no uso de canetas, enquanto outras podem ter mais facilidade com tintas ou argila em vez de arame. Há aquelas que preferem materiais como tintas, enquanto outras optam por meios mais controlados e precisos, como canetas. Ao expor as crianças a diferentes materiais e se tornar sensível às particularidades que diferenciam os trabalhos artísticos de cada uma, o professor poderá ter uma visão mais abrangente sobre o desenvolvimento e as habilidades individuais de cada criança. (KRECHEVSKY, 2001, p.146).
No ambiente escolar, é fundamental que o aluno seja incentivado a participar de diversas atividades artísticas. Para isso, o educador de Artes Visuais deve adotar práticas que ajudem os alunos a desenvolver habilidades para criar suas próprias obras, além de analisar e apreciar tanto a produção dos colegas quanto a arte local e o patrimônio artístico.
Ao apresentar um objeto de estudo ou uma obra de arte, o educador deve engajar os alunos em ações de apreciação, produção e contextualização. Essas ações são igualmente importantes no trabalho com a Arte, e não há uma sequência fixa para sua aplicação; quanto mais variações de ordem os alunos vivenciarem, mais forte se tornará seu processo criativo.
Ao oferecer apreciação de obras de diferentes artistas, é essencial que o educador discorra sobre a relevância e o valor histórico de cada peça. Isso estimula a autonomia da criança na apropriação cultural e artística, criando oportunidades para que expressem o que observam e sentem, despertando sua curiosidade e sensibilidade.
Dessa forma, amplia-se o conhecimento cultural e artístico da criança.
A apropriação artístico-cultural das crianças ocorre em seu próprio tempo e ritmo, à medida que estabelecem um diálogo direto com diversas obras, ativando suas memórias, afetividade e cognição. Isso possibilita uma variedade de olhares e significados. Essa experiência se torna mais intensa quando incentivamos sua curiosidade e estimulamos novas indagações. (BRASIL, 2006, p.26).
O educador deve estar atento às capacidades artísticas de cada aluno, observando como, em um curto período, a criança experimenta diferentes formas para expressar temas de seu interesse. Essa vigilância é crucial, pois permite ao professor notar mudanças e avanços no processo criativo. Através de suas orientações e feedbacks, os alunos conseguem desenvolver suas produções, ganhando confiança nas sugestões recebidas.
Uma ferramenta valiosa para essa avaliação é o portfólio, que serve como um método de acompanhamento do progresso dos alunos nas Artes Visuais. Ele permite que o educador identifique interesses e estilos únicos de cada criança, como a tendência de desenhar a realidade ou de explorar sua imaginação. Segundo Krechevsky (2001, p.146), “o portfólio, incluindo as atividades estruturadas e os outros trabalhos produzidos na escola pela criança, é o principal veículo de avaliação no domínio das artes visuais”.
Cada criança é um indivíduo com seu próprio ritmo de aprendizagem, e é fundamental que o educador leve em conta as características de cada faixa etária ao planejar as atividades e os objetivos a serem alcançados. Essa atenção cuidadosa garantirá que os alunos alcancem o êxito esperado, respeitando suas particularidades e promovendo um ambiente de aprendizado eficaz.
De acordo com o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (1998, p.107), “a organização do tempo em Artes Visuais deve respeitar as possibilidades das crianças em relação ao ritmo e ao interesse pelo trabalho, ao tempo de concentração, assim como ao prazer na realização das atividades.” É essencial que o educador compreenda o processo de desenvolvimento de cada criança e ofereça atividades que estimulem a criatividade natural e inovadora que elas possuem. Para que as crianças cultivem o gosto pelo que fazem, é fundamental que o educador as incentive constantemente, valorizando a produção de cada uma sem comparações, uma vez que cada criança traz características e habilidades únicas.
Todas as crianças têm a capacidade de se expressar por meio das linguagens visuais, cada uma à sua maneira e no seu próprio ritmo, deixando suas marcas pessoais. Por isso, é fundamental que suas produções artísticas sejam respeitadas e valorizadas. (BRASIL, 2006, p.33).
2.4 ELEMENTOS VISUAIS E ATIVIDADES PARA EDUCAÇÃO INFANTIL
Atualmente, vivemos em uma cultura visual, onde as imagens estão presentes em todos os lugares e carregam significados sobre a cultura e a vida da sociedade. Através da alfabetização visual, os alunos aprendem a realizar uma leitura crítica das imagens, interpretando-as e expressando-se por meio delas. Antes de aprender a ler, as crianças se encantam facilmente com as imagens ao seu redor, mostrando preferência por livros ilustrados e expressando-se por meio de garatujas e desenhos. No entanto, após o processo de letramento, as imagens, cores e desenhos frequentemente perdem espaço nos livros, enquanto escolas, pais e professores passam a priorizar o alfabetismo verbal, desvalorizando a expressão por meio das imagens. A habilidade de produzir e interpretar imagens deve ser incentivada desde cedo no ambiente escolar, pois a apropriação da linguagem visual contribui para o desenvolvimento da expressão pessoal, da análise crítica e de aspectos emocionais e cognitivos.
Os educadores precisam atender às expectativas de todos que desejam aprimorar suas habilidades em alfabetização visual. É essencial que eles mesmos compreendam que a expressão visual não é apenas um passatempo ou uma prática mística e mágica. Assim, surge uma excelente oportunidade para implementar um programa de estudos que capacite as pessoas não apenas a dominar a linguagem verbal, mas também a linguagem visual. (DONDIS, 1997, p.230).
Assim, o educador desempenha o papel de mediador na alfabetização visual de seus alunos, facilitando a aquisição de conhecimentos em Artes Visuais e ajudando-os a dominar os elementos visuais fundamentais. É fundamental que ele estimule o aprendizado, preparando os alunos para interpretar o mundo visual, especialmente neste contexto contemporâneo. Assim como um indivíduo é considerado alfabetizado verbalmente ao dominar aspectos essenciais da linguagem, como letras, palavras e ortografia, também é necessário que se conheçam os elementos visuais básicos para promover uma expressão visual eficaz.
Quando iniciamos o aprendizado da leitura e da escrita, começamos pelo nível mais básico, memorizando o alfabeto. Essa metodologia tem um paralelo no ensino do alfabetismo visual. Cada uma das unidades mais simples da informação visual, conhecidas como elementos, deve ser explorada e compreendida sob diferentes aspectos, considerando suas qualidades e seu potencial expressivo. Nesse processo, é crucial que os educadores apresentem cada elemento visual — como linha, forma, cor e textura — de maneira detalhada, permitindo que os alunos analisem suas características e a forma como podem ser combinados para transmitir significados. Ao entender as propriedades de cada um desses elementos, os alunos não apenas desenvolvem habilidades de interpretação, mas também aprimoram sua capacidade de expressão criativa. Dessa forma, assim como no domínio da linguagem verbal, a base do alfabetismo visual se constrói por meio do reconhecimento e da exploração dos componentes fundamentais da comunicação visual. (DONDIS, 1997, p.228).
Os elementos visuais são a base fundamental de tudo que podemos observar. Apesar de serem relativamente poucos, eles se combinam de diversas maneiras para criar toda a informação visual de uma imagem. Assim, cada imagem é composta por elementos como ponto, linha, forma, direção, tom, cor, textura, dimensão, escala e movimento (DONDIS, 1997). Para entender a construção da linguagem visual e refletir sobre sua estrutura como um todo, é essencial explorar cada um desses elementos, destacando suas características específicas e como eles contribuem para a comunicação visual.
3. CONCLUSÃO
Com o desenvolvimento deste trabalho, concluímos que o desenho é uma linguagem expressiva de grande importância para o desenvolvimento da criança na fase da primeira infância, estando profundamente ligado aos seus conceitos culturais e sociais. Ao analisar as teorias sobre a importância do desenho nesse contexto escolar, com base na psicologia histórico-cultural, realizamos um levantamento de artigos sobre o desenho infantil e verificamos o papel atribuído ao desenho na primeira infância, conforme a legislação educacional brasileira, como a BNCC (2018) e os PCNs (2006). A comparação entre essas referências nos permitiu perceber a necessidade de alinhar as práticas pedagógicas às diretrizes legais e educacionais que regem essa fase de desenvolvimento.
Dessa reflexão, destacamos a importância de as escolas e os educadores trabalharem o desenho como uma atividade autônoma e criativa, promovendo a expressão dos aspectos sociais, culturais e individuais das crianças para um diagnóstico mais eficaz e enriquecedor. A partir da base teórica deste estudo, entendemos que o desenho tem um papel fundamental no processo educacional, sendo representado também nas normativas educacionais, que orientam a intervenção pedagógica conforme as fases de desenvolvimento das crianças.
Com base nas informações abordadas ao longo deste trabalho, é possível afirmar que o desenho é um instrumento valioso no processo de construção e desenvolvimento infantil, inserido no contexto educacional e fundamental para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. Para isso, é necessário utilizar métodos pedagógicos específicos, progressivos e adequados às necessidades dos alunos, respeitando sua faixa etária e suas particularidades, além de garantir que esses métodos sejam envolventes, significativos e motivadores.
Este estudo atingiu seu objetivo inicial, proporcionando uma reflexão sobre a importância de valorizar as formas de expressão criativa das crianças por meio do desenho, respeitando suas fases de desenvolvimento e sem impor um currículo rígido que prejudique sua criatividade. Cabe à escola valorizar esses momentos de expressão e proporcionar espaços onde as crianças possam demonstrar seu conhecimento e aprendizagem de maneira livre e autêntica.
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