A RELAÇÃO ENTRE O DESCARTE DE EMBALAGENS DE PESTICIDAS E A DEGRADAÇÃO AMBIENTAL EM PEQUENAS COMUNIDADES

THE RELATIONSHIP BETWEEN THE DISPOSAL OF PESTICIDE CONTAINERS AND ENVIRONMENTAL DEGRADATION IN SMALL COMMUNITIES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202601101030


Emanuel Francisco Marcos Lima e Silva1
Iane Moreira dos Santos2
Matheus Antonio Alex Lima da Silva3
João Victor de Sousa dos Santos4
Monique da Silva Albuquerque Pinheiro5


Resumo

O descarte irregular de embalagens de pesticidas em pequenas comunidades constitui uma preocupação relevante para o meio ambiente e a saúde pública. Esses produtos, amplamente utilizados na agricultura para controle de pragas, podem causar sérios impactos quando suas embalagens são descartadas de forma inadequada, resultando em contaminação do solo, da água e riscos diretos aos moradores e aos ecossistemas. Estudos demonstram a amplitude do problema: cerca de 83% das amostras de solo avaliadas em diversos países da União Europeia apresentaram resíduos de pesticidas (Silva et al., 2019). Em comunidades de baixa renda, a situação se agrava devido à carência de infraestrutura para gestão de resíduos e à limitada fiscalização. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 1% das operações agrícolas passam por inspeções anuais, favorecendo práticas de descarte inseguras que atingem de forma desproporcional populações vulneráveis (Naijuan et al., 2022). Soma-se a isso a prática recorrente de reutilização de embalagens para armazenamento de alimentos ou combustível, muitas vezes sem conhecimento dos riscos, perpetuando ciclos de contaminação. Aspectos culturais, informações insuficientes e ausência de conscientização também contribuem para a manutenção dessas práticas, assim como a pressão econômica que leva moradores a evitar o descarte adequado. Diante desse cenário, iniciativas educativas e programas comunitários têm surgido para mitigar os impactos por meio de oficinas, campanhas de reciclagem e ações de engajamento social, reforçando a necessidade de abordagens integradas que unam fiscalização, educação e participação comunitária (Donley et al., 2022). Esses esforços demonstram que respostas efetivas dependem da articulação entre políticas públicas, conscientização e ações locais que promovam a sustentabilidade e reduzam os riscos à saúde e ao ambiente.

Palavras-chave: Descarte irregular. Agrotóxicos. Vulnerabilidade social. Embalagens.

1 INTRODUÇÃO

O uso de pesticidas desempenha um papel importante na agricultura moderna por ser uma importante ferramenta no controle de pragas e proteção de culturas, embora não seja o ideal para a manutenção da qualidade ambiental, haja vista que o uso e o descarte inadequados dessas substâncias podem causar danos ao meio ambiente e à saúde humana (Lykogianni et al. 2021). A aplicação inadequada de agrotóxicos, além de impactar a saúde do grupo exposto, contribui com a poluição do solo, dos recursos hídricos e da biodiversidade local (Rasool et al. 2022). Este problema é particularmente grave em pequenas comunidades, que não possuem infraestruturas adequadas para gerir e eliminar estes resíduos perigosos (Lud et al. 2022). Além disso, a falta de consciência dos riscos das emissões nocivas e do mal estar pelo viés econômico enfrentado pelos agricultores e comunidades agrava a situação, pondo em perigo o equilíbrio ecológico e a segurança alimentar. 

Os pesticidas constituem um grupo de compostos químicos sintetizados para o controle e erradicação de organismos considerados nocivos, abrangendo insetos (inseticidas), plantas invasoras (herbicidas), nematódeos (nematicidas), fungos (fungicidas), moluscos (moluscicidas), roedores (rodenticidas), além de reguladores de crescimento vegetal (Zhan et al., 2020; Bhatt et al., 2021a; Zhang et al., 2021). A sua aplicação primária reside na prevenção de doenças vetoriais e na proteção de cultivos agrícolas, conferindo também benefícios significativos na preservação de alimentos. Estes agentes desempenham funções críticas em operações comerciais e industriais do setor alimentar, nomeadamente na aquicultura, agricultura e fases de processamento e armazenamento de produtos alimentícios (Mieldazys et al., 2015; Sharma et al., 2019).

Organismos biológicos, de origem animal ou vegetal, que ocasionam danos econômicos ou à saúde humana e animal são taxonomicamente classificados como pragas. Sob esta definição, pesticidas são agentes biocidas ou bioestáticos empregados para suprimir populações de pragas ou inibir o seu desenvolvimento e proliferação. englobam uma ampla gama de produtos, incluindo inseticidas, herbicidas e desinfetantes, todos projetados para eliminar organismos considerados prejudiciais à agricultura e à saúde pública (Umetsu e Shirai, 2020). 

Silva et al. (2019) constatou que aproximadamente 83% das amostras de solo superficial de vários países que fazem parte da União Europeia, como Reino Unido, Portugal, Dinamarca, Polônia e entre diversos outros, continham resíduos de vários pesticidas, indicando uma contaminação generalizada. Esse problema é agravado pela prática de reutilização de recipientes de pesticidas para armazenamento de alimentos ou combustível, muitas vezes sem consciência dos perigos residuais presentes. Atrela-se a isso a regulamentação e a supervisão inadequadas das práticas de segurança de pesticidas, agravando ainda mais o problema. 

Nos Estados Unidos, as inspeções em áreas agrícolas voltadas à verificação da conformidade com os padrões de segurança são alarmantemente baixas, com apenas cerca de 1% da área total inspecionada anualmente. Nesse cenário, as violações são comuns, muitas vezes ligadas a falhas no fornecimento de treinamento de segurança e equipamentos de proteção necessários para os trabalhadores. Consequentemente, as comunidades de baixa renda e marginalizadas frequentemente são afetadas de forma desproporcional, pois essas áreas têm maior probabilidade de abrigar instalações de fabricação e armazenamento de pesticidas (Naijuan et al. 2022).

Assim, este artigo tem como objetivo analisar as causas e consequências do descarte irregular de embalagens de pesticidas em pequenas comunidades, com um foco nos impactos ambientais e na saúde pública, e como isso pode interferir diretamente em comunidades com maior vulnerabilidade social.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

O uso de pesticidas tornou-se fundamental para a agricultura moderna, principalmente por seu papel no controle de pragas e no aumento da produtividade. Contudo, o manuseio incorreto e o descarte inadequado de embalagens têm gerado impactos ambientais e riscos significativos à saúde pública (Lykogianni et al., 2021). A presença de resíduos químicos em solos e águas é amplamente documentada, como no estudo de Silva et al. (2019), que identificou pesticidas em 83% das amostras de solo da União Europeia.

O descarte irregular das embalagens contribui para a contaminação ambiental, afetando solo, recursos hídricos e fauna, além de favorecer processos de bioacumulação e biomagnificação na cadeia alimentar (Tuuri & Leterme, 2023; Koelmans et al., 2017). A degradação lenta dos plásticos presentes nas embalagens acentua esses impactos, aumentando a presença de microplásticos em ecossistemas terrestres e aquáticos (Chamas et al., 2020).

As pequenas comunidades rurais são as mais afetadas por esse problema. Fatores como baixa escolaridade, falta de informação, ausência de infraestrutura e vulnerabilidade econômica dificultam a adoção de práticas adequadas de descarte (Boziki et al., 2011; Andrade et al., 2017; Veiga, 2013). A reutilização de embalagens para armazenamento de água, alimentos ou combustíveis, motivada por desconhecimento ou necessidade, representa um risco direto à saúde, podendo resultar em intoxicações, doenças respiratórias, problemas neurológicos e distúrbios endócrinos (Mehmood et al., 2021; Alagan et al., 2023).

Outro ponto crítico é a insuficiência de políticas públicas efetivas e fiscalização adequada. No Brasil, apesar de avanços na legislação, ainda há inconsistências regulatórias e dificuldades no acesso aos pontos de coleta e programas de logística reversa (Ollinaho et al., 2023). Nos Estados Unidos, apenas 1% das operações agrícolas são inspecionadas anualmente, o que demonstra uma falha estrutural que afeta especialmente grupos vulneráveis (Naijuan et al., 2022).

Pesquisas recentes apontam que a solução para o problema depende da integração entre educação ambiental, participação comunitária, infraestrutura adequada e governança colaborativa. Programas de capacitação sobre o manuseio seguro de pesticidas, campanhas de devolução de embalagens, incentivos econômicos e parcerias entre governos, ONGs e agentes locais têm mostrado bons resultados (Barbosa et al., 2014; Arantes et al., 2020; Donley et al., 2022).

3 METODOLOGIA 

Esse trabalho foi desenvolvido como um revisão literária buscando assim um desenvolvimento, principalmente de diversos aspectos e visões distintas sobre o tema, com a finalidade de, ao final do estudo, obter o melhor diagnóstico e/ou informações possíveis para a temática abordada.

Utilizou-se livros e revistas eletrônicas como ferramentas de pesquisa,  as quais foram diretamente extraídas do Google Acadêmico e Scielo. Para a principal busca, optou-se por utilizar palavras chave, sendo elas “agrotóxicos”, “descarte irregular”, “agrotóxicos em pequenas comunidades” e “descarte irregular de embalagens de agrotóxicos”. Assim foi possível encontrar mais de 50 resultados, os quais consideram  artigos, teses, dissertações e livros. Além disso, todos os materiais selecionados foram analisados qualitativamente, de forma a buscar os melhores resultados possíveis para o estudo do tema. 

A seleção dos materiais para esta pesquisa se baseou em publicações dos últimos 15 anos, de 2010 a 2025, de modo a considerar trabalhos mais atuais e com maior relevância sobre o tema. Foram escolhidos alguns itens como artigos, monografias, dissertações, teses e livros escritos em português ou inglês que possibilitassem o acesso integral aos textos. Excluíram-se os materiais literários que não estavam nas línguas desejadas no assunto sugerido.

A partir disso, foi possível discorrer melhor sobre o tema e identificar as causas, problemas e possíveis soluções para a atual situação quanto ao descarte irregular de embalagens de agrotóxicos e seus impactos  na qualidade ambiental e na saúde de pequenas comunidades. 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Muitos agricultores ainda carecem de conhecimento acerca de métodos adequados de descarte e dos pontos de coleta disponíveis, o que resulta, com frequência, no descarte incorreto de recipientes vazios em lixos comuns ou diretamente em ambientes abertos (Boziki; Beroldt; Printes, 2011). Evidência semelhante foi observada no estudo de Bagheri et al. (2022), realizado no Irã, país em desenvolvimento, onde se constatou que aproximadamente 34,33% dos agricultores da província de Ardabil, a partir de questionários aplicados, não possuíam qualquer informação sobre práticas adequadas de descarte, enquanto 56,3% apresentavam conhecimento muito limitado ou inadequado. Esses resultados reforçam que a insuficiência de informação configura-se como uma das principais causas do descarte incorreto, especialmente em pequenas comunidades, nas quais o nível de escolaridade tende a ser mais baixo. Embora haja ciência, por parte de alguns agricultores, dos riscos associados ao descarte inadequado, essa conscientização nem sempre se traduz em práticas corretas. 

Além disso, os fatores que contribuem para o descarte inadequado incluem orientação técnica insuficiente, inspeção inadequada e acesso limitado aos pontos de coleta (Moreira et al., 2002; Castro; Confalonieri, 2005). O nível de educação se correlaciona com o manuseio correto e o uso de pesticidas menos nocivos. Para abordar essas questões, os pesquisadores sugerem a implementação de políticas públicas para conscientizar os agricultores, aumentar os esforços de fiscalização e melhorar o acesso a instalações de descarte adequadas (Moreira et al., 2002). 

As restrições econômicas também influenciam os comportamentos de descarte irregular. Muitos indivíduos e pequenos agricultores podem não ter recursos financeiros para acessar serviços adequados de descarte de resíduos, logística reversa ou para participar de programas de coleta de resíduos perigosos (Veiga, 2013). Como resultado, a incapacidade de pagar por opções de descarte seguro pode levar a práticas que prejudicam a saúde humana e o meio ambiente, como o uso indevido das embalagens ou o próprio descarte irregular. 

Além disso, uma das principais causas do descarte irregular de embalagens de pesticidas em pequenas comunidades é a conscientização insuficiente sobre os riscos associados às práticas inadequadas de descarte atrelada ao baixo nível de escolaridade presente em comunidades rurais e pequenas comunidades (Andrade et al. 2017). Diversos agricultores reutilizam embalagens vazias de pesticidas para armazenar alimentos, combustível ou água, por não saberem da persistência dos resíduos químicos nas embalagens, mesmo após a sua higienização.

Essa prática não resulta da imprudência dos indivíduos envolvidos, mas da ausência de acesso a conhecimentos apropriados e de baixo custo, os quais deveriam ser fornecidos pelo próprio governo, nas situações em que não obtêm esse tipo de informação ou quando a referida informação não é disseminada de maneira democrática, considerando não apenas a exposição, mas a forma de exposição da informação, tendo em vista o possível baixo nível de escolaridade predominante, especialmente em áreas rurais (Andrade et al. 2017), e isso pode levar a graves riscos à saúde e ao meio ambiente, pois os produtos químicos remanescentes podem se infiltrar nesses novos conteúdos. Segundo Barbosa et al. (2014) e Leite e Torres (2008) é possível trabalhar essa problemática dos agricultores de baixa escolaridade através de capacitações sobre o manejo adequado e a importância do seu uso de modo seguro, minimizando assim a situação de risco em que esses indivíduos estão sujeitos (Waichman et al. 2007). 

Tendo em vista outra perspectiva, a ausência de infraestrutura adequada de gerenciamento de resíduos agrava ainda mais o problema. Em muitas áreas, as autoridades locais não conseguem estabelecer pontos de coleta seguros ou instalações de armazenamento temporário para resíduos relacionados a pesticidas, deixando os membros da comunidade sem opções de descarte seguro (Veiga, 2013). Consequentemente, os moradores podem recorrer a reutilizar, enterrar ou até mesmo  queimar os recipientes de pesticidas, o que representa riscos significativos de contaminação do solo e da água, bem como a liberação de fumaça tóxica na atmosfera (Morello et al. 2019).

As práticas culturais e as concepções errôneas sobre o gerenciamento de resíduos desempenham um papel significativo no descarte irregular (Ibiapina et al. 2021). Em algumas comunidades, os indivíduos podem achar que estão minimizando o desperdício ao manter pesticidas não utilizados ou recipientes vazios, acreditando erroneamente que o armazenamento é preferível ao descarte (Damalas et al. 2008). Além disso, as normas sociais sobre a reutilização de recipientes podem perpetuar práticas perigosas, pois os indivíduos podem relutar em descartar materiais que consideram ainda úteis.

4.1.  Consequências do descarte irregular

O descarte irregular de embalagens de pesticidas contribui significativamente para a degradação ambiental, afetando a qualidade do solo, da água e do ar (Veselinovic et al. 2023). Quando as embalagens de pesticidas são descartadas incorretamente, elas podem liberar produtos químicos nocivos, levando à contaminação do solo (Sun et al. 2018). Essa contaminação altera a composição do solo e reduz a fertilidade, o que pode ter efeitos duradouros sobre a produtividade agrícola e a segurança alimentar (Qin et al. 2021). Além disso, essas toxinas podem entrar na cadeia alimentar, representando sérios riscos à saúde humana e à vida selvagem, quando partículas de plástico são retidas em organismos, seja por meio do consumo direto ou em decorrência da aderência e/ou do emaranhamento, estabelecem-se rotas para o consumo indireto em organismos de níveis tróficos superiores, essas vias de ingestão podem ocorrer tanto de forma seletiva quanto acidental, quando um predador consome um organismo; além disso, os predadores estão igualmente sujeitos ao risco de consumo direto de plásticos (Tuuri & Leterme, 2023), num processo chamado de Bioacumulação e biomagnificação, que consiste em conceitos críticos utilizados em avaliações de risco ecológico para determinar a extensão do transporte de poluentes dentro de cadeias alimentares (Koelmans et al., 2017)

Outro problema no descarte irregular de embalagens de pesticidas diz respeito aos riscos significativos à saúde das comunidades locais (Mehmood et al., 2021). Fontes de água contaminadas podem transmitir doenças de veiculação hídrica, enquanto a exposição a produtos químicos perigosos no meio ambiente pode levar a sérios problemas de saúde a longo prazo, incluindo câncer, problemas reprodutivos e distúrbios neurológicos (Alagan et al., 2023). Ademais, as comunidades próximas a locais de resíduos gerenciados de forma inadequada podem apresentar taxas mais altas de doenças respiratórias devido à poluição do ar gerada pela queima de materiais residuais (Mahler et al., 2016).

O descarte incorreto de embalagens de pesticidas representa uma ameaça terrível à vida selvagem e aos ecossistemas naturais. Os animais podem ingerir, de forma direta ou indireta ou até mesmo ficar presos nos resíduos, causando ferimentos ou mortes, seja de forma direta ou por contaminação indireta (Blankespoor et al. 2009). No que se refere à vida marinha, têm-se uma preocupação adicional.  A quantidade de detritos plásticos que entram nos oceanos, rios e lagos é estimada, de forma conservadora, em 10% dos resíduos plásticos (Thompson, 2006) e como os plásticos são projetados para serem duráveis, a degradação de resíduos plásticos pode levar aproximadamente 58–1.200 anos por meio do processo de fotodegradação, que requer a interação de luz, oxigênio e micróbios (Chamas et al., 2020). Isso causa a fragmentação de pedaços maiores de plástico em micro e nanopartículas, resultando na lixiviação de aditivos no meio ambiente (Lambert et al., 2017).Esse processo aumenta a biodisponibilidade dos plásticos para a teia alimentar. Os trabalhos de Galloway et al. (2017) e Akhbarizadeh et al. (2020) já apresentam resultados alarmantes, como a presença de plásticos nos intestinos de invertebrados, peixes, tartarugas e outros animais maiores, incluindo organismos destinados ao consumo humano e espécies-chave ecologicamente críticas. A introdução de substâncias perigosas nos ecossistemas pode levar à redução da biodiversidade e perturbar os equilíbrios ecológicos, ameaçando ainda mais as espécies incapazes de se adaptar a essas condições em constante mudança (AbuQamar et al., 2024). A abordagem desses desafios ambientais e de saúde é fundamental para proteger o bem-estar humano e ecológico.

4.2.  Desafios enfrentados por pequenas comunidades

As pequenas comunidades geralmente enfrentam uma série de desafios relacionados ao descarte irregular de embalagens de pesticidas, o que pode ter implicações significativas para o meio ambiente e a saúde (Lud et al. 2022). Esses desafios são multifacetados e exigem intervenções direcionadas para serem enfrentados com eficácia.

Dentre os principais fatores que estão relacionados aos desafios supracitados, têm-se os aspectos econômicos, haja vista que muitas comunidades rurais dependem de subsídios de programas governamentais para apoiar seus esforços de reciclagem e descarte. No entanto, esses subsídios podem ser inadequados ou aplicados de forma inconsistente, resultando em uma falta de motivação para que os agricultores e moradores cumpram as melhores práticas de descarte (Desye et al. 2024). O ônus financeiro da criação de sistemas adequados de gestão de resíduos geralmente recai sobre os governos locais, que podem já estar enfrentando restrições orçamentárias.

Ressalta-se ainda que as pequenas comunidades não têm a infraestrutura necessária para gerenciar os resíduos de pesticidas de forma eficaz. A ausência de instalações de descarte adequadas pode levar a uma maior dependência de soluções improvisadas que agravam a poluição (Bagheri et al. 2023). Além disso, os programas de treinamento sobre métodos de descarte seguro, como o tríplice enxágue de recipientes de pesticidas, muitas vezes não são atendidos ou não têm acessibilidade, o que dificulta os esforços de educação da comunidade (Bagheri et al. 2023).

Após o enxágue, a água resultante da tríplice lavagem é frequentemente direcionada diretamente para a rede coletora ou, em muitos casos, descarregada em sistemas de drenagem pluvial. Essa água, que contém resíduos significativos de produtos químicos provenientes dos agrotóxicos utilizados, acaba por contaminar corpos hídricos e, eventualmente, comprometer o funcionamento das estações de tratamento de água, que não dispõe de um tratamento adequado para esse tipo de produtos químicos de agrotóxicos, em geral (Souza et al., 2020), resultados analíticos em estudos realizados no norte da Itália mostraram concentrações de PPPs até 37,9 vezes maiores na água de lavagem interna (lavagem de equipamentos e embalagens) do que aquelas encontradas na água de lavagem externa (campos e instalações) e isso mostra que a contaminação mais preocupante se dá de forma interna (Calliera et al., 2025). E quando descartado principalmente de forma inadequada, isso afeta diretamente, e se torna um agravante ainda maior, para essa pós contaminação (Souza et al., 2020).

A regulamentação do descarte de pesticidas é ainda mais complicada devido a uma variedade de leis estaduais e federais que se alteram de forma rápida e não condizente com a realidade, atualmente a lei que rege esse tipo de resíduo é a Lei 14785, de 27 de dezembro de 2023, que acabou substituindo a regulamentação anterior por um quadro atualizado que rege o registro e controle de pesticidas. Muitos estados implementaram regulamentações variadas que regem a notificação de incidentes com pesticidas e o gerenciamento de resíduos, o que pode gerar confusão e não conformidade entre os residentes e os agricultores (Ollinaho et al. 2023). Sendo assim, a inconsistência na supervisão regulatória limita a eficácia das iniciativas destinadas a melhorar as práticas de descarte.

As mudanças climáticas representam desafios adicionais para as pequenas comunidades, afetando sua resiliência ao lidar com problemas de descarte de pesticidas. Muitas áreas rurais estão enfrentando eventos climáticos extremos que interrompem os sistemas de gestão de resíduos existentes e agravam os riscos de contaminação (Gichamo & Gökçekuş, 2019), pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostram que a contaminação e o impacto dessa mesma afeta desproporcionalmente comunidades de baixa renda (Martin et al., 2024). Além disso, todas as zonas de de oportunidades que foram designadas pelo governos no Estados Unidos, em ferramenta que avalia desenvolvimento econômico e que permite que pessoas invistam em áreas carentes (Arefeva et al., 2025), estão em vulnerabilidade hídrica com maior teor subterrâneo, essa intersecção ressalta justamente que a contaminação e o uso da água escassa viabiliza em caráter emergencial o uso de águas que podem estar contaminadas, sem ter outro meio ou alternativa viável, e isso mostra a necessidade de planejamento cuidadoso, engajamento comunitário e práticas de desenvolvimento sustentável para evitar o agravamento das disparidades ambientais e garantir que as oportunidades econômicas sejam distribuídas equitativamente entre todas as comunidades (Patel & Schmidt, 2017). À medida que as comunidades trabalham para melhorar seus ambientes construídos e suas economias, elas também devem desenvolver estratégias que considerem a resiliência climática em suas práticas de gestão de resíduos (Gichamo, & Gökçekuş, 2019).

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O envolvimento das comunidades locais em campanhas de conscientização é fundamental para o gerenciamento eficaz dos resíduos de embalagens de pesticidas. Iniciativas como eventos de limpeza da comunidade podem aumentar a conscientização e, ao mesmo tempo, melhorar o ambiente local (Donley et al. 2022).  O envolvimento de escolas, empresas e autoridades locais pode ampliar a participação, criando um impacto maior na disseminação da responsabilidade ambiental. Além disso, educar os membros da comunidade sobre práticas adequadas de descarte pode promover uma cultura de sustentabilidade e incentivar a conformidade com as regulamentações (Desye et al. 2024). 

É essencial, também, estabelecer estruturas administrativas robustas e regulamentos de apoio para a reciclagem de resíduos de embalagens de pesticidas. Isso inclui a incorporação de práticas de reciclagem no sistema de aplicação da lei administrativa e o aprimoramento da orientação sobre sistemas informais, como normas sociais (Desye et al. 2024).  Os formuladores de políticas devem se concentrar na regulamentação direta por meio de impostos e subsídios, conforme destacado por Pigou (1932), para fortalecer a regulamentação ambiental e incentivar a conformidade entre agricultores e usuários de pesticidas (Desye et al. 2024). 

Organizações como o Office of Community Revitalization da EPA oferecem assistência técnica às comunidades, um exemplo claro diretamente dos EUA, que é uma organização que  fornece recursos e conhecimento sobre a implementação de práticas de desenvolvimento sustentável. Programas que promovem abordagens de crescimento inteligente, como o Building Blocks for Sustainable Communities, podem ajudar as áreas rurais a projetar soluções eficazes para gerenciar os resíduos de embalagens de pesticidas e promover a resiliência econômica (Hu et al. 2022).

As organizações não governamentais (ONGs) desempenham um papel fundamental para preencher a lacuna entre os recursos do governo e as necessidades da comunidade. As ONGs podem mobilizar as partes interessadas até locais ambientalmente corretos e criar parcerias que facilitem o desenvolvimento de práticas eficazes de gerenciamento de resíduos (Arantes et al. 2020). Ao demonstrar a eficácia de suas iniciativas, as ONGs podem atrair financiamento e apoio para sustentar seus projetos, que geralmente tratam de questões localizadas com mais flexibilidade do que as abordagens governamentais.

A implementação de diretrizes claras para o descarte seguro de resíduos relacionados a pesticidas é fundamental. As autoridades reguladoras, os distribuidores e os fornecedores devem se coordenar para garantir que os usuários finais recebam instruções adequadas sobre como minimizar os resíduos e descartar com segurança as embalagens vazias e os pesticidas indesejados (Donley et al. 2022). Os programas comunitários podem se concentrar na redução dos resíduos de pesticidas por meio da educação sobre a segregação adequada dos resíduos, a reciclagem e a compostagem de resíduos orgânicos, que contribuem coletivamente para um ambiente mais sustentável (Orozco et al. 2011). 

Além disso, o aproveitamento da tecnologia e das mídias sociais pode aumentar a conscientização e o envolvimento em iniciativas ambientais. As plataformas on-line podem ser usadas para compartilhar informações, hospedar campanhas e promover o diálogo comunitário em torno das práticas de gerenciamento de resíduos.  A criação de conteúdo envolvente que repercute em um público mais amplo pode ajudar a mobilizar ações coletivas e inspirar soluções voltadas para a comunidade para os desafios do descarte de embalagens de pesticidas. (Donley et al. 2022)

Com a implementação dessas soluções e práticas recomendadas, as comunidades podem lidar de forma eficaz com o descarte irregular de embalagens de pesticidas, o que, em última análise, leva a um ambiente mais saudável e a melhores resultados de saúde pública.

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1Discente do Curso Superior de Engenharia Ambiental e Sanitária do Instituto Federal do Ceará Campus Juazeiro do Norte e-mail: emanuel.francisco.marcos06@aluno.ifce.edu.br;
2Discente do Curso Superior de Engenharia ambiental e Sanitária do Instituto Federal do Ceará Campus Juazeiro do Norte e-mail: ianemoreira14@gmail.com;
3Discente do Curso Superior de Engenharia de produção da Universidade regional do Cariri Campus Pimenta e-mail: matheus.antonio@urca.br;
4Discente do Curso Superior de Engenharia de produção da Universidade regional do Cariri Campus Pimenta e-mail: joaovictor.souza@urca.br;
5Docente do Curso Superior de Engenharia Ambiental e Sanitária do Instituto Federal do Ceará Campus Juazeiro do Norte. Mestre em Engenharia Civil e Ambiental pela Universidade Federal de Campina Grande. e-mail: monique.albuquerque@ifce.edu.br

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