REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511181315
Paloma Aparecida Castoldi1
Ana Carla Ferreira Ramos2
Orientador: Luiz Gustavo Minosso Ferreira3
Resumo: Dentre as principais doenças que afetam a população idosa, tem-se a doença de Alzheimer (DA). Trata-se de uma doença neurodegenerativa que atinge as células nervosas cerebrais, levando a um declínio da capacidade, perda gradativa de memória e, em muitos casos, a óbito. Nos dias atuais, muitos estudos vêm sugerindo que, além de processos inflamatórios locais, os processos inflamatórios sistêmicos também podem influenciar na progressão da DA. Nesse contexto, a doença periodontal (DP) vem sendo estudada como uma das patologias de interesse para a correlação com a DA. O presente trabalho teve o objetivo de realizar uma revisão bibliográfica a fim de avaliar a literatura dos últimos dez anos a respeito da associação entre a DA e a DP no meio científico. Foi realizada uma busca nas bases de dados Pubmed, Google Acadêmico e Scielo, a fim de identificar artigos científicos que abordassem o tema proposto nos últimos dez anos. Foram selecionados 28 trabalhos de interesse aos pesquisadores. Os achados literários apontaram que a DP, principalmente em estágios de desenvolvimento avançado, pode ser um dos fatores de risco para a progressão do Alzheimer. Não há uma certeza sobre o real mecanismo de correlação entre as duas doenças, mas as hipóteses mais sustentadas pela literatura envolvem a inflamação sistêmica pelos microorganismos periodontopatogênicos ou pelo transporte dessas bactérias através da circulação sanguínea até o sistema nervoso central. Enfatiza-se ser importante que haja a integração entre os profissionais da odontologia e da medicina para mais avanços nos estudos e no tratamento desses pacientes.
Palavras-chave: Doença de Alzheimer; Doenças Periodontais; Periodonto; Gengiva.
Abstract: Among the main pathologies affecting the elderly population is Alzheimer’s disease (AD). It’s a neurodegenerative disease that affects brain nerve cells, leading to a decline in capacity, gradual memory loss and in many cases, to death. Currently, many studies suggest that in addition to local inflammatory processes, systemic inflammatory processes can also influence the progression of AD. In this context, periodontal disease (PD) has been studied as one of the pathologies of interest for correlation with the AD. This study aimed to conduct a literature review to evaluate the data in the last ten years regarding the association between both pathologies in scientific community. A search was made in the PubMed, Google Scholar and SciELO databases to identify scientific studies addressing the proposed topic. Twenty-eight studies of interest to the researchers were selected. The literature findings indicated that PD, especially in advanced stages of development, may be one of the risk factors for the progression of AD. There is no certainty about the actual mechanism of correlation between both diseases, but the hypotheses most supported by the literature involve systemic inflammation caused by periodontopathogenic microorganisms or the transport of these microorganisms through the bloodstream to the central nervous system. It is emphasized that integration between dental and medical professionals is important for further advances in the study and treatment of these patients.
Keywords: Alzheimer disease; Periodontal diseases; Periodontium; Gingiva.
Resumen: Entre las principales enfermedades que afectan a la población anciana se encuentra la enfermedad de Alzheimer (EA). Esta enfermedad neurodegenerativa afecta a las células nerviosas del cerebro, provocando un deterioro cognitivo, pérdida gradual de la memoria y, en muchos casos, la muerte. Actualmente, numerosos estudios sugieren que, además de los procesos inflamatorios locales, los procesos inflamatorios sistémicos también pueden influir en la progresión de la EA. En este contexto, la enfermedad periodontal (EP) se ha estudiado como una de las patologías de interés por su correlación con la EA. Este estudio tuvo como objetivo realizar una revisión bibliográfica para evaluar la literatura de los últimos diez años sobre la asociación entre la EA y la EP en la comunidad científica. Se realizó una búsqueda en las bases de datos PubMed, Google Scholar y SciELO para identificar artículos científicos que abordaran el tema propuesto en los últimos diez años. Se seleccionaron veintiocho estudios de interés para los investigadores. Los hallazgos bibliográficos indicaron que la EP, especialmente en etapas avanzadas, puede ser un factor de riesgo para la progresión de la enfermedad de Alzheimer. No se conoce con certeza el mecanismo exacto de correlación entre ambas enfermedades, pero las hipótesis más respaldadas por la literatura científica implican una inflamación sistémica causada por microorganismos periodontopatógenos o el transporte de estas bacterias a través del torrente sanguíneo hasta el sistema nervioso central. Se destaca la importancia de la integración entre profesionales de la odontología y la medicina para seguir avanzando en el estudio y el tratamiento de estos pacientes.
Palabras clave: Enfermedad de Alzheimer; Enfermadades periodontales; Periodoncio; Encía.
1 Introdução
Com o consequente avanço da tecnologia, da medicina, dos acessos em serviços de saúde e da expectativa de vida, é cada vez mais comum o aumento na população idosa, tanto no Brasil quanto no mundo. Juntamente a esse envelhecimento populacional, também há um consequente aumento de doenças comuns da terceira idade, tornando-se assim uma preocupação em saúde pública e saúde do idoso (Telles; Silva; Vidal, 2020).
Dentre as principais doenças que afetam a população idosa, um dos grupos mais frequentes são as chamadas “demências”. As demências consistem em um grupo de patologias complexas caracterizadas pela parte parcial ou completa das capacidades intelectuais dos idosos (Fontes et al., 2024).
A Doença de Alzheimer (DA) é o tipo de demência mais comum entre os idosos. Trata-se de uma doença neurodegenerativa que atinge as células nervosas cerebrais, levando a um declínio da capacidade cognitiva dos idosos, perda gradativa de memória e, em muitos casos, à óbito (Aragón et al., 2018).
A DA representa mais da metade dos diagnósticos de demência em idosos (cerca de 60%), sendo mais frequente no gênero feminino e em pessoas acima dos 65 anos de idade. Não apresenta etiologia claramente definida, podendo estar relacionada a uma série de fatores genéticos, hereditários e ambientais (Conceição et al., 2023; Fontes et al., 2024).
Nos dias atuais, muitos estudos vêm sugerindo que, além de processos inflamatórios locais, os processos inflamatórios sistêmicos também podem influenciar na progressão da DA por meio da produção de mediadores químicos inflamatórios que atingem e afetam os tecidos cerebrais (Sansores-España et al., 2021).
Nesse contexto, a DP (acrônimo de Doença Periodontal) vem sendo estudada como uma das patologias de interesse para a correlação com a DA. A DP é uma doença infecto-inflamatória responsável por grande parte da perda dentária na população (Conceição et al., 2023).
Acredita-se que, devido ao seu grande potencial inflamatório e microbiano, essa doença bucal pode contribuir para a neurodegeneração em pacientes com DA, o que torna importante o estudo e análise dessas possíveis correlações (Fontes et al., 2024; Rosa; Junior, 2024).
Assim, mediante ao pressuposto abordado, o presente trabalho tem o objetivo de realizar uma revisão bibliográfica a fim de avaliar a literatura dos últimos dez anos a respeito da relação entre a DA e a DP no meio científico.
2 Metodologia
Trata-se de uma revisão descritiva e qualitativa de literatura. O intuito foi buscar por estudos científicos que abordassem a correlação entre a DP e a DA. Para tal, foram utilizados os seguintes bancos de dados: PubliMed, Scielo, Google Acadêmico.
A busca pelos artigos se deu através das seguintes palavras chaves como descritores: “doença periodontal” OR “periodontal disease” + “doença de Alzheimer” OR “Alzheimer’s disease”. Foram inclusos trabalhos em português, inglês ou espanhol, publicados nos últimos dez anos (de 2015 a 2025) e disponíveis de forma integral para acesso. Foram excluídos trabalhos que fossem contrários a esses critérios (artigos em outras línguas, fora do recorte temporal pré-estabelecido ou sem disponibilidade integral de acesso).
Por meio desses critérios, foram selecionados 32 trabalhos científicos. Após a leitura dos artigos de forma integral, 4 trabalhos foram excluídos por duplicidade. Assim, a amostra final foi composta por 28 publicações científicas. O trabalho foi dividido em quatro etapas de abordagem: doença periodontal e suas características; aspectos gerais da doença de Alzheimer; a relação entre a doença periodontal e a doença de Alzheimer; a atuação e o papel do cirurgião-dentista nestes casos.
3 Revisão de Literatura
3.1 Doença Periodontal e suas características
O periodonto é uma das estruturas de maior importância na cavidade oral. Trata-se de uma estrutura constituída por gengiva (periodonto de proteção), osso alveolar, ligamento periodontal e cemento (periodonto de sustentação). A função do periodonto é fornecer suporte aos elementos dentários no tecido ósseo e manter a integridade da mucosa mastigatória da cavidade bucal (Costa et al., 2020).
A DP (ou doença periodontal) é uma patologia inflamatória que ocorre no periodonto, no qual o principal fator etiológico é a ação do biofilme bacteriano. O acúmulo do biofilme bacteriano e sua mineralização, sem intervenção terapêutica, leva ao desenvolvimento da DP, que possui como consequência a inflamação gengival com progressiva destruição do cemento e estruturas do suporte, podendo levar à perda dentária (Rocha et al., 2019).
A Associação Americana de Periodontia classifica a DP de acordo com o seu grau de acometimento. A classificação se inicia em saúde gengival, podendo progredir para gengivite, periodontite leve, periodontite moderada e periodontite severa, conforme pode ser observado no Quadro 01, adaptado de Steffens e Marcantonio (2018).
Quadro 01 – Classificação das doenças periodontais.
| Classificação | Características |
| Saúde gengival | Periodonto íntegro, ausência de sangramento e sem perda de inserção óssea. |
| Gengivite | Presença de inflamação na margem gengival com tom avermelhado associado a sangramento, inflamação e aumento de volume. |
| Periodontite leve | Envolvimento dos tecidos ósseos de suporte com até 2mm de perda. |
| Periodontite moderada | Envolvimento dos tecidos ósseos de suporte com até 4mm de perda. |
| Periodontite severa | Envolvimento dos tecidos ósseos de suporte acima de 5mm. |
Fonte: Steffens e Marcantonio (2018)
Na DP, bactérias como Porphyromonas gingivalis, Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Treponema denticola, Actinomyces spp e Streptococcus sanguinis são responsáveis pelo desenvolvimento do processo inflamatório que provoca um aumento no suco gengival, formando bolsas periodontais que levam ao descolamento da gengiva e, consequentemente, a perda do suporte ligamentar, resultando em subsequente perda óssea e recessão gengival (Neves et al., 2019).
Os fatores de risco para o desenvolvimento da DP podem ser modificáveis ou não modificáveis. Alguns fatores modificáveis incluem a obesidade, tabagismo, alcoolismo, diabetes mellitus, stress e osteoporose, enquanto que alguns não modificáveis incluem etnia, gênero, fatores genéticos e idade. Além desses, a literatura aborda também a correlação da doença de Alzheimer com a DP (Silva et al., 2020; Fontes et al., 2024).
3.2 Aspectos gerais da Doença de Alzheimer
A DA (Doença de Alzheimer) ou Mal de Alzheimer, é uma doença do tipo neurodegenerativa, caracterizando-se pela desordem degeneração irreversível do sistema nervoso central (SNC) do ser humano, levando a destruição progressiva dos neurônios e ocasionando prejuízos cognitivos-comportamentais aos seus portadores (Caetano; Silva; Silveira, 2017).
Segundo Ganesh et al. (2017) a DA é uma patologia que progride de forma lentamente. De maneira geral, os autores citam que o comprometimento progressivo causado pela doença é desenvolvido ao longo do tempo, muitas vezes levando décadas. Porém, em algumas categorias, a taxa de progressão da doença pode ser mais rápida do que o habitual.
De acordo com Pazos et al. (2016) os sintomas iniciais da DA incluem os seguintes sinais: comprometimento da memória, confusão, deterioração cognitiva, incapacidade de concentração, desorientação espacial, declínio nas habilidades verbais e depressão.
O desenvolvimento desses sintomas leva a mudanças na personalidade do idoso. A medida que a doença progride no organismo, as funções cognitivas do idoso vão sendo cada vez mais prejudicadas, até que a incontinência e a rigidez dos membros vão fazendo parte do declínio, conforme citam Sensever et al. (2018).
Não há um fator principal desencadeador da DA, sendo uma doença desenvolvida a partir de diversos fatores de risco. Os mais comumente conhecidos são o histórico familiar, fatores genéticos, inatividade intelectual, baixa estimulação cognitiva, doenças sistêmicas, depressão, nutrição e traumatismo craniano (Weber et al., 2019).
No ponto de vista anatomopatológico, observa-se que, extracelularmente, há a deposição de placas relacionadas a clivagem de peptídeo beta-amilóide (Aβ), enquanto intracelularmente observa-se agregados de poteína TAU, as quais são conhecidas por gerar os chamados emaranhados neurofibrilares (Jaques et al., 2023).
O diagnóstico da DA deve ser realizado de forma precoce. As ferramentas de diagnóstico incluem o exame clínico médico pelos critérios da National Institute of Neurological and Communicative Disorders and Strokes (NINCDS) e da Alzheimer’s Disease and Related Disorders Association (ADRDA) associado a exames complementares como hemograma completo, dosagens de enzimas hepáticas (TGO e TGP), ureia, creatinina, tiroxina (T4), hormônio tireo-estiulante (TSH), albumina, dosagem de cálcio e vitamina B12, sorologia para sífilis e HIV, e exame Liquor LCR. Exames de imagem como ressonância magnética do crânio e tomografia computadorizada também podem servir de auxílio (Von Borstel et al., 2021).
As alterações físicas, fisiológicas e psíquicas derivadas do desenvolvimento do Alzheimer influem diretamente nos relacionamentos interpessoais e na qualidade de vida dos idosos. A sobrecarga dos cuidados, o afastamento dos familiares e a redução na qualidade diária de vida preponderam negativamente a essas pessoas (Rodrigues et al., 2020).
3.3 Relação entre Doença Periodontal e Doença de Alzheimer
Algumas evidências vêm sugerindo que o desenvolvimento e a progressão da DA pode ser influenciada por alguns processos inflamatórios sistêmicos através da produção de mediadores químicos inflamatórios que afetam o cérebro. Dessa forma, a DP vêm ganhando um destaque nessa associação, devido ao fato dessa doença bucal possuir um potencial neurodegenerativo através de seus mecanismos microbianos e inflamatórios (Monteiro et al., 2025).
Segundo Telles, Silva e Vidal (2020) a presença de citocinas inflamatórias tanto na DP quanto na DP pode sugerir uma interligação entre as doenças. Para esses pesquisadores, a periodontite pode se correlacionar com o desenvolvimento do mal de Alzheimer através de dois mecanismos: a periodontite precedendo uma inflamação sistêmica ou por meio da influência bacteriana e viral circulatória.
De acordo com Facchini e Bona (2024) o primeiro mecanismo pelo qual a DP pode influenciar na progressão da DA está no fato de que, os patógenos da DP, em conjunto com a resposta inflamatório do indivíduo, aumentam os níveis de citocinas pró-inflamatórias, que levam a um estado inflamatório periférico e/ou sistêmico.
Essas citocinas, de acordo com os mesmos autores supracitados, comprometeriam a integridade da barreira hematoencefálica do hospedeiro, o que permite o acesso dessas células a regiões cerebrais, levando a uma ativação das células microgliais e, consequentemente, desenvolvendo danos neuronais, como a DA (Facchini; Bona, 2024).
Outra hipótese de correlação entre as duas doenças é a da possibilidade de invasão do cérebro por meio de bactérias presentes no biofilme dental. Essa invasão pode ocorrer tanto por meio do transporte sanguíneo direto como pelos nervos periféricos (Aguiar, 2022).
As interações mediadas através das citocinas geradas pela DP para com os neurônios e as células gliais são fundamentais para a progressão da DA. Tanto a DP quanto a DA apresentam características cônicas semelhantes, no qual a inflamação emerge como um dos fatores centrais da patogênese de ambas as doenças (Aguiar, 2022; Facchini; Bona, 2024).
Segundo Conceição et al. (2023) a proteína plasmática PCR é regulada por citocinas como a TNF-α, IL-1 e IL-6, também conhecidos como marcadores sensíveis da inflamação sistêmica. Na fase aguda da DP, pode haver um aumento de marcadores como TNF-α em pacientes com DA. Esse aumento pode estar relacionado com a presença de bactérias responsáveis pela DP, como Porphyromonas gingivalis e Aggregotibacter actinomycetemcomitans. A presença de microorganismos como P. gingivalis. A. actinomycetemcomitans, T. denticola e T. forsythia na microbiota oral de pacientes com DA, principalmente no fluído gengival, pode sugerir uma conexão entre as duas doenças. Há evidências de um aumento nos níveis de anticorpos contra esses microorganismos em indivíduos que são diagnosticados com ambas as doenças. Logo, a identificação de anticorpos específicos contra essas bactérias pode ajudar no diagnóstico do mal de Alzheimer (Arruda et al., 2024; Monteiro et al., 2024). Mesmo com as possíveis associações entre as duas doenças, é válido salientar que, a DP é considerada um dos fatores ambientais modificáveis para a progressão da DA, e não um fator preponderante (Gao et al., 2020).
3.4 O papel e atuação do Cirurgião-Dentista
De acordo com Gao et al. (2020) a prevenção e o tratamento da DP são estratégias de cunho fundamental e de elevada importância para que se retarde o desenvolvimento do mal de Alzheimer, bem como também é importante para neutralizar ou reduzir a sua progressão.
Segundo Telles, Silva e Vidal (2020) toda a parte de prevenção em saúde bucal nos pacientes com DA deve ser realizada na fase inicial da doença, pois é o período onde os pacientes ainda colaboram. É importante, nessa etapa, o controle do biofilme, orientação em higiene bucal, tratamento periodontal, tratamento endodôntico, tratamento restaurador e protético. Também é nessa etapa onde se devem orientar os familiares ou cuidadores a respeito da colaboração na higienização em saúde bucal do paciente com DA.
Na fase intermediária do mal de Alzheimer, de acordo com os mesmos autores supracitados, é difícil a colaboração do paciente. Nessa etapa, os procedimentos possivelmente necessitarão serem realizados com sedação com benzodiazepínicos ou óxido nitroso, com a autorização médica. É uma fase importante para remoção de focos de infecção da DP com raspagens sub e supragengivais (Telles; Silva; Vidal, 2020).
Já na fase avançada da doença, devem ser mantidas as mínimas condições em saúde bucal, devendo o cirurgião-dentista atuar principalmente na remoção de focos e infecciosos ou que estejam relacionados à sintomatologia, os quais podem afetar o estado de saúde geral do paciente, principalmente em casos de periodontite (Conceição et al., 2023).
Assim, o papel do cirurgião-dentista é de crucial importância para o manejo e prevenção da DP em pacientes com DA, principalmente em pacientes com idade avançada, sendo este um grupo mais suscetível para as duas doenças. O controle do processo inflamatório periodontal e a promoção em saúde bucal podem ser uma estratégia preventiva na redução dos riscos de progressão do mal de Alzheimer (Monteiro et al., 2025).
4 Discussão
Analisando os dados literários revisados, os autores definiram a DP como uma patologia inflamatória do periodonto que tem como etiologia o biofilme bacteriano sem intervenção terapêutica. A literatura também classificou a DP de acordo com seu estágio de evolução, podendo ser gengivite, periodontite leve, moderada ou severa. Ainda, nota-se também que a DP é um dos principais causadores da perda dentária, juntamente a doença cárie (Steffens; Marcantonio, 2018; Neves et al., 2019; Rocha et al., 2019; Costa et al., 2020; Silva et al., 2020; Fontes et al., 2024).
Quanto a DA, os autores revisados apontaram que se trata de uma doença neurodegenerativa que afeta o SNC, com destruição progressiva dos neurônios, onde os principais sintomas se caracterizam pela perda cognitiva, perda da memória, desorientação, depressão e incapacidade de concentração. Os autores também apontaram que o Alzheimer é uma doença de cunho multifatorial, ou seja, vários fatores podem estar envolvidos no seu desenvolvimento e em sua progressão (Pazos et al., 2016; Caetano; Silva; Silveira, 2017; Ganesh et al., 2017; Sensever et al., 2018; Weber et al., 2019; Rodrigues et al., 2020; Von Borstel et al., 2021; Jaques et al., 2023).
A DP não é um fator etiológico direto para a DA. Entretanto, é um fator que pode estar associado a sua progressão, isto é, pacientes com DP sem tratamento podem apresentar maiores chances de progressão e agravamento do mal de Alzheimer em relação a pacientes que não possuem DP (Telles; Silva; Vidal, 2020; Aguiar, 2022; Conceição et al., 2023; Facchini; Bona, 2024; Monteiro et al., 2025).
Autores como Facchini e Borba (2024) acreditam que a DP em sua fase inflamatória possui a capacidade de aumentar as citocinas pró-inflamatórias levando a um estado inflamatório sistêmico ou periférico que, por sua vez, influenciam na desintegração da barreira hematoencefálica fazendo com que as bactérias periodontopatogênicas cheguem à região cerebral e causem danos neuronais.
Por outro lado, autores como Aguiar (2022) citaram que as bactérias periodontopatogênicas, principalmente do tipo Porphyromonas gingivalis e Aggregotibacter actinomycetemcomitans, podem invadir a região cerebral através do sistema circulatório. Assim, em pacientes com DP ativa e sem intervenção terapêutica, esses microorganismos podem ser transportados à região do SNC através da corrente sanguínea ou dos nervos periféricos.
Alguns estudos na literatura já buscaram analisar a correlação entre a DP e a DA. Chen, Wu e Chang (2017) realizaram um estudo retrospectivo com 9.291 pacientes acima dos 50 anos diagnosticados com DP e 18.672 pacientes sem DP, sendo pareados de acordo com idade, gênero e anos-índice. Os autores identificaram que, a exposição de DP ao longo de 10 anos associou-se a um aumento em 1.7x maior de chance de desenvolvimento do mal de Alzheimer.
Malone et al. (2022) realizaram um estudo retrospectivo com 439.760 pacientes de um sistema de saúde para avaliar a taxa de incidência de DP em pacientes com DA. Os achados mostraram que, a taxa de incidência de DA nos pacientes diagnosticados com DP foi 10,84% maior do que nos pacientes sem DP. Ainda, os pacientes com DP tiveram um diagnóstico precoce da DA de forma mais precoce do que aqueles sem DP e com o mesmo diagnóstico de Alzheimer.
Beydoun et al. (2020), por meio de um estudo retrospectivo com 33.199 pacientes, analisaram a relação entre a presença de patógenos periodontais e o desenvolvimento de DA. Os resultados mostraram que o IgG do patógeno Porphyromonas gingivalis foi realizado a um aumento no risco de morbimortalidade para DA em pacientes acima dos 65 anos de idade. Os autores elencaram algumas hipóteses para a relação entre as doenças, como o transporte bacteriano via corrente sanguínea, estresse oxidativo cerebral por meio das toxinas geradas pelos patógenos periodontais e produção de citocinas e outros mediadores inflamatórios que atravessem a barreira hematoencefálica e geram inflamação cerebral.
Em contrapartida, autores como Sun et al. (2020) não acharam evidências que possam apoiar a teoria de que a periodontite é um dos fatores causais de desenvolvimento para a DA, muito embora os autores acreditem que há evidências limitadas que sugiram que o fator genética para a DA está associado a um maior risco de DP.
Apesar dessas evidências, o real impacto da DP sobre a função cognitiva gerada pela DA ainda é limitada. Sugere-se, assim, a realização de estudos com amostras mais robustas, de forma multicêntrica e com acompanhamento a longo prazo, para que a investigação sobre a correlação das doenças seja mais aprofundada.
5 Conclusão
Mediante aos dados obtidos pela literatura revisada e pela discussão de suas respectivas informações, conclui-se que a doença periodontal, principalmente em estágios de desenvolvimento avançado, pode ser um dos fatores de risco para a progressão da doença de Alzheimer, especialmente em pacientes mais idosos.
Não há uma afirmação direta sobre o real mecanismo de correlação entre as duas doenças, mas algumas das hipóteses mais sustentadas pela literatura envolvem a inflamação sistêmica pelos microorganismos periodontopatogênicos ou pelo transporte dessas bactérias através da circulação sanguínea até o sistema nervoso central.
Dessa forma, é importante que haja a integração entre os profissionais da odontologia e da medicina para que hajam avanços no real entendimento entre essas duas doenças, a fim de que sejam desenvolvidas intervenções de cunho interdisciplinar e que sejam de caráter eficaz, para que os indivíduos portadores de DA tenham maior qualidade de vida.
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1Faculdade Uninassau, Brasil, E-mail: palomacastoldi97@gmail.com;
2Faculdade Uninassau, Brasil, E-mail: anacarla2013ramos@gmail.com;
3Faculdade Uninassau, Brasil, E-mail: gustavo.minosso@gmail.com
