THE RELATIONSHIP BETWEEN THE PERSISTENCE OF TAKOTSUBO CARDIOMYOPATHY AND ESTROGEN LEVELS AND OTHER FEMALE HORMONES IN POSTMENOPAUSAL WOMEN
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601081651
Maria Elisa Schulz1
Alberto Gabriel Borges Felipe2
Vanessa Bridi3
Resumo
A cardiomiopatia de Takotsubo é uma síndrome cardíaca caracterizada por disfunção sistólica transitória do ventrículo esquerdo, frequentemente desencadeada por estresse físico ou emocional e predominante em mulheres na pós-menopausa. Este estudo teve como objetivo analisar a relação entre a persistência da cardiomiopatia de Takotsubo e os níveis de estrogênio e outros hormônios sexuais femininos em mulheres pós-menopáusicas, buscando aprofundar a compreensão dos mecanismos endócrinos envolvidos na fisiopatologia da síndrome. Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, realizada por meio de busca sistemática na base de dados PubMed/Medline, utilizando descritores relacionados à cardiomiopatia de Takotsubo, menopausa e hormônios femininos, no período de 2010 a 2024. Foram selecionados seis artigos, incluindo revisões sistemáticas, estudos caso-controle, estudos clínicos e relatos de casos. Os resultados evidenciam que a cardiomiopatia de Takotsubo acomete majoritariamente mulheres pós-menopáusicas, sugerindo associação significativa com a deficiência estrogênica, a hiperatividade do sistema nervoso simpático e a liberação excessiva de catecolaminas. Além disso, estudos apontam possível influência genética relacionada aos receptores de estrogênio e demonstram que, apesar da apresentação clínica semelhante ao infarto agudo do miocárdio, a síndrome apresenta caráter reversível na maioria dos casos. Conclui-se que a interação entre fatores hormonais, genéticos e neuro-hormonais desempenha papel central na fisiopatologia da cardiomiopatia de Takotsubo, reforçando a necessidade de novos estudos para elucidar seus mecanismos e contribuir para estratégias diagnósticas e terapêuticas mais específicas.
Palavras-chave: Takotsubo.Cardiomiopatia.Pós-menopausa.Estrogênio.Hormônios sexuais.
Abstract
Takotsubo cardiomyopathy is a cardiac syndrome characterized by transient left ventricular systolic dysfunction, frequently triggered by physical or emotional stress and predominantly affecting postmenopausal women. This study aimed to analyze the relationship between the persistence of Takotsubo cardiomyopathy and estrogen levels and other female sexual hormones in postmenopausal women, seeking to deepen the understanding of the endocrine mechanisms involved in the pathophysiology of the syndrome. This is a narrative literature review conducted through a systematic search of the PubMed/Medline database, using descriptors related to Takotsubo cardiomyopathy, menopause, and female hormones, covering the period from 2010 to 2024. Six articles were selected, including systematic reviews, case-control studies, clinical studies, and case reports. The findings indicate that Takotsubo cardiomyopathy predominantly affects postmenopausal women, suggesting a significant association with estrogen deficiency, hyperactivity of the sympathetic nervous system, and excessive catecholamine release. Additionally, studies point to a possible genetic influence related to estrogen receptors and demonstrate that, despite a clinical presentation similar to acute myocardial infarction, the syndrome is reversible in most cases. It is concluded that the interaction among hormonal, genetic, and neurohormonal factors plays a central role in the pathophysiology of Takotsubo cardiomyopathy, reinforcing the need for further studies to elucidate its mechanisms and contribute to more specific diagnostic and therapeutic strategies.
Keywords: Takotsubo.Cardiomyopathy.Postmenopause.Estrogen.Sexual hormones.
1 INTRODUÇÃO
A cardiomiopatia de Takotsubo (CMT), também denominada síndrome do coração partido ou cardiomiopatia induzida por estresse, caracteriza-se por disfunção sistólica transitória do ventrículo esquerdo, frequentemente associada à discinesia anteroapical com hipercinesia basal compensatória e elevação do segmento ST em derivações anterolaterais (YOON et al., 2011; SATO et al., 1990). Essa condição acomete predominantemente mulheres na pós-menopausa, geralmente após exposição a estressores físicos ou emocionais intensos. Diversos mecanismos têm sido propostos, como o espasmo coronariano, a oclusão transitória da artéria coronária, a liberação excessiva de catecolaminas e a deficiência de estrogênio, este último sendo um dos principais focos de estudo atual (BRITO et al., 2020).
Descrita inicialmente no Japão em 1990, a CMT tem apresentado aumento progressivo de casos ao longo dos anos, com significativa predominância em mulheres com idade superior a 55 anos (BRITO et al., 2020). A prevalência estimada é de 0,6 casos por 1.000.000 de habitantes do sexo masculino e 5,0 casos por 1.000.000 no sexo feminino, o que representa um risco 4,8 vezes maior de desenvolvimento da síndrome entre mulheres pós-menopáusicas (BRITO et al., 2020). A possível relação entre os hormônios sexuais femininos, em especial o estrogênio, e seus efeitos cardioprotetores tem sido objeto de investigação. O estrogênio atua na modulação do sistema vascular, da resposta inflamatória e do estresse oxidativo, fatores diretamente implicados na fisiopatologia cardiovascular. (KOU et al., 2010).
A síndrome de Takotsubo é caracterizada por uma disfunção sistólica aguda e transitória do ventrículo esquerdo. Do ponto de vista anatômico e funcional, observa-se a presença de artérias coronárias não obstruídas associadas a um padrão típico de “balonamento” discinético dos segmentos anterosseptal e apical do ventrículo esquerdo, concomitante à hipercinesia dos segmentos basais. Tais alterações costumam ser reversíveis, com recuperação espontânea, aparentemente total, da função ventricular esquerda. Apesar da ampla caracterização clínica, a etiologia e a fisiopatologia da síndrome permanecem incompletamente elucidadas, o que contribui para a ausência de terapias específicas e diagnósticos precisos podendo até mesmo ser confundida com outras situações cardiológicas, em apresentações mais graves, podem ocorrer manifestações compatíveis com infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST, além de insuficiência cardíaca grave, choque cardiogênico e arritmias, exigindo, em alguns casos, suporte hemodinâmico e ventilatório, o que configura um desafio clínico relevante. Clinicamente, os pacientes acometidos apresentam, de forma clássica, dor torácica de início agudo, dispneia e alterações eletrocardiográficas, frequentemente desencadeadas por um evento estressor agudo, mimetizando uma síndrome coronariana aguda. (SINGH et al., 2022).
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo analisar a possível associação entre a deficiência hormonal estrogênica, característica do período pós-menopausa, e a maior suscetibilidade ao desenvolvimento da cardiomiopatia de Takotsubo, contribuindo para o aprofundamento da compreensão sobre os mecanismos endócrinos envolvidos nessa síndrome.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Incidência da Síndrome de Takotsubo
A síndrome de Takotsubo (ST) tem sido documentada globalmente desde sua descrição inicial no Japão, em 1990, onde foi inicialmente reconhecida como uma entidade clínica distinta. Desde então, sua incidência tem sido relatada em diversos países, incluindo Estados Unidos, países da Europa (como Alemanha, Itália, Suíça e Reino Unido), Austrália e outras regiões da Ásia, evidenciando que se trata de uma condição de distribuição mundial (SINGH et al., 2022). Estima-se que a ST corresponda a aproximadamente 1–2% dos casos inicialmente diagnosticados como síndrome coronariana aguda, com maior prevalência em mulheres, especialmente na faixa etária pós-menopausa.
Apesar do crescente reconhecimento da síndrome, ainda há escassez de dados epidemiológicos precisos, principalmente em países de baixa e média renda, devido à subnotificação, dificuldades diagnósticas e ausência de registros nacionais específicos. No Brasil, os dados disponíveis são limitados e baseiam-se majoritariamente em relatos de caso, séries de casos e estudos observacionais pontuais, não havendo, até o momento, estatísticas nacionais consolidadas sobre incidência e prevalência da síndrome. Essa lacuna reforça a necessidade de estudos epidemiológicos multicêntricos no país (MOURA et al., 2024).
2.2 Hormônios e sua Relação com a Síndrome
A predominância da síndrome de Takotsubo em mulheres pós-menopáusicas sugere fortemente a participação dos hormônios sexuais femininos, especialmente o estrogênio, em sua fisiopatologia. O estrogênio exerce efeitos cardioprotetores por meio da modulação da função endotelial, da resposta inflamatória e da atividade do sistema nervoso simpático. A redução estrogênica característica da menopausa está associada à maior vulnerabilidade miocárdica aos efeitos tóxicos das catecolaminas liberadas em situações de estresse físico ou emocional (SINGH et al., 2022).
Além disso, estudos recentes apontam que a deficiência estrogênica pode favorecer disfunção microvascular coronariana, aumento do tônus simpático e alteração na sinalização β-adrenérgica, contribuindo para o atordoamento miocárdico transitório observado na ST. Evidências genéticas envolvendo polimorfismos nos receptores de estrogênio (ESR1 e ESR2) também sugerem que fatores hormonais e genéticos atuam de forma integrada na suscetibilidade feminina à síndrome (PIZZINO et al., 2017).
2.3 Impactos na Saúde e Qualidade de Vida
Embora a síndrome de Takotsubo seja tradicionalmente considerada uma condição reversível, seus impactos na saúde e na qualidade de vida dos pacientes não devem ser subestimados. Na fase aguda, a síndrome pode cursar com complicações graves, como insuficiência cardíaca aguda, choque cardiogênico, arritmias ventriculares e tromboembolismo, exigindo, em alguns casos, suporte hemodinâmico intensivo (SINGH et al., 2022).
No longo prazo, estudos recentes demonstram que parte dos pacientes pode apresentar persistência de sintomas como fadiga, dispneia, dor torácica atípica e comprometimento da capacidade funcional, mesmo após a normalização da fração de ejeção ventricular. Além disso, há impacto significativo na saúde mental, com maior prevalência de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático, especialmente em mulheres. Esses achados reforçam que a síndrome de Takotsubo não é apenas um evento cardíaco transitório, mas uma condição com repercussões físicas e psicossociais duradouras, exigindo acompanhamento clínico multidisciplinar.
METODOLOGIA
3. 1 Tipo de estudo e coleta de dados
Este trabalho constitui uma revisão bibliográfica narrativa. A pesquisa dos estudos relacionados ao tema foi realizada na base de dados eletrônica National Center for Biotechnology Information (PubMed/Medline). Foram utilizados as seguintes palavras-chave ou descritores em português e inglês com múltiplas combinações: “Takotsubo Cardiomyopathy”e “Menopause” combinados com operadores booleanos AND e OR, conforme descritos no Medical Subjects Headings (MESH) e no Health Sciences Descriptors (DECS). A pergunta de pesquisa norteadora para este estudo foi “A relação entre a persistência da cardiomiopatia de Takotsubo e os níveis de estrogênio e outros hormônios femininos em mulheres pós-menopausa.” A abordagem utilizada foi o PICO (População, Intervenção/Exposição, Controle e Outcome/ Desfecho), a qual encontra-se descrita no quadro 1, disposto abaixo:
Quadro 1: estratégia PICO utilizada.

3.2 Critérios de inclusão e exclusão dos estudos
Foram selecionados trabalhos nos idiomas português e inglês, publicados no período do ano de 2010 a 2024, que apresentaram conteúdos relacionadas aos objetivos desta pesquisa, trabalhos que abordassem manifestações em mulheres na menopausa ou na pós-menopausa com níveis baixos de estrogênio ou outros hormônios sexuais femininos fazendo ou não reposição hormonal, e que estavam disponíveis na íntegra para leitura. Foram incluídos artigos com metodologias distintas, incluindo relatos de casos, revisões bibliográficas e estudos de caso controle.
Foram excluídos do estudo os trabalhos publicados fora do período temporal, os duplicados, os que não apresentavam texto completo disponível nas bases de dados e aqueles não condizentes com os objetivos propostos, literaturas que não correlacionaram o estrogênio ou outros hormônios como fator desencadeante ou influenciador para a CMT.
O presente trabalho representa uma revisão bibliográfica narrativa. Durante a etapa de identificação, foram localizados 43 artigos provenientes da base de dados PubMed entre os anos de 2010 e 2024. Após a leitura dos títulos e resumos, seguidos da aplicação dos critérios de elegibilidade, foram selecionados 6 artigos, conforme descrito no fluxograma abaixo (Figura 1).
Figura 1: Processo de busca e seleção na forma de fluxograma PRISMA

Traduzido por: Verónica Abreu*, Sónia Gonçalves-Lopes*, José Luís Sousa* e Verónica Oliveira / *ESS Jean Piaget – Vila Nova de Gaia – Portugal
de: Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, Boutron I, Hoffmann TC, Mulrow CD, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ 2021;372:n71. doi: 10.1136/bmj.n71
A tabela 1 demonstra o resultado dos estudos incluídos, ressaltando dados como: título, autor/ano de publicação, modelo experimental, abordagem e conclusões dos artigos abordados para sumarizar o conteúdo presente nessa revisão.
Tabela 1: Sumarização de Dados.
| Título | Autor/ Ano de publicação | Modelo experimental | Abordagem | Conclusões |
| Cardiomiopatia de Takotsubo da patogênese ao diagnóstico: estado da arte. | Josué da Silva Brito et al. (2020) | Revisão bibliográfica | Análise da literatura dos últimos 30 anos sobre o tema em relação à patologia, epidemiologia, achados laboratoriais, manifestações clínicas, critérios e métodos diagnósticos e enumeração de medidas que permitam a diferenciação entre IAM e CMT. | O estudo aponta que a Cardiomiopatia de Taktsubo tem uma prevalência estimada no sexo masculino de 0,6/1000.000 habitantes e de 5,0/1000.000 habitantes no sexo feminino, existindo 4,8 vezes mais chances de mulheres com mais de 55 anos de desenvolverem a síndrome. Ressalta-se que existem vários efeitos vasculares ligados aos níveis de estrogênio e sua deficiência associa-se a maior probabilidade de ocorrer espasmos microvasculares concomitante a disfunção endotelial e estímulos simpáticos, o que explica a prevalência da cardiomiopatia em mulheres pós-menopausa. Contudo, há controvérsias sobre a suplementação de estrogênio como profilaxia. Também foi apontado pelo estudo que estresse físico e/ou psicológico liberam cortisol e catecolaminas, que atuam diretamente sobre o miocárdio através da inervação simpática nos cardiomiócitos. Verifica-se que a alta concentração de catecolaminas e espasmos coronarianos causa um desequilíbrio entre oferta e demanda de aporte sanguíneo causando atordoamento do miocárdio. |
| Differential diagnosis at admission between Takotsubo cardiomyopathy and acute apical-anterior myocardial infarction in postmenopausal women. | Alessandro Zorzi et al. (2015) | Estudo de caso | Analisou-se eletrocardiogramas e ecocardiogramas de 31 mulheres, com idade média de 67 anos, com a Síndrome de Takotsubo e 30 mulheres, com idade média de 73 anos, com IAM apical-anterior devido a uma oclusão da parte média/distal esquerda da parte anterior descendente da artéria coronária. | O estudo investigou como diferenciar clinicamente, no momento da admissão hospitalar, a miocardiopatia de Takotsubo (TTC) do infarto agudo do miocárdio (IAM) apical-anterior em mulheres pós-menopáusicas. Ambos apresentam sintomas e alterações eletrocardiográficas semelhantes, dificultando o diagnóstico inicial. O artigo analisou 61 mulheres (31 com TTC e 30 com IAM), comparando dados clínicos, laboratoriais, eletrocardiográficos (ECG) e ecocardiográficos. Diferenças clínicas foram mínimas, exceto que pacientes com TTC relataram mais estresse físico/emocional e apresentaram ao hospital com maior tempo após o início dos sintomas. Não houve diferença significativa entre os grupos quanto à idade, troponina-I inicial e fração de ejeção ventricular esquerda. O estudo concluiu que o eletrocardiograma no momento da admissão é a ferramenta mais eficaz para diferenciar TTC de IAM apical-anterior em mulheres pós-menopausa, superando exames clínicos, laboratoriais e ecocardiográficos. A combinação da depressão do segmento PR e elevação do ST ≤ 2 mm permite excluir com segurança o diagnóstico de infarto, evitando tratamentos desnecessários e potencialmente perigosos, como o uso de anticoagulantes em pacientes com TTC. |
| Reduced estrogen in menopause may predispose women to Takotsubo cardiomyopathy. | Bruce T. Kuo et al. (2010) | Revisão sistemática | Análise de dados dos pacientes do hospital Cleveland Clinic Florida e artigos extraídos do banco de dados MEDLINE e apresentação de relato de casos sobre síndrome de Takotsubo em mulheres e a prevalência de terapia de reposição de estrogênio. | O estudo aponta que desde sua descoberta no Japão os casos vêm aumentando e notou-se a predisposição de ocorrer em mulheres mais velhas que se encontraram na menopausa. Ainda não está clara a relação entre a presença de hormônios sexuais, especificamente o estrogênio, e seus efeitos de proteção cardíaca. O mesmo, estudou uma série de casos de cardiomiopatia de Takotsubo e examinou a prevalência de terapia de reposição de estrogênio. Dentre os 18 casos identificados pela instituição, 16 eram mulheres que se encontravam pós-menopausa, a maioria dos pacientes, 89%, tinham histórico de fatores estressantes, principalmente sepsis e eventos relacionados a hipoxemia. O estudo aponta a possibilidade de níveis de estrogênio diminuídos predisporem mulheres à síndrome. |
| Takotsubo syndrome and estrogen receptors genes: partners in crime? | Gabriele Pizzino et al. (2017) | Revisão sistemática | Análise genotípica do locus ESR1 E ERS2, de 81 mulheres brancas, sendo 22 com Síndrome de Takotsubo, 22 com infarto agudo do miocárdio e 37 controles assintomáticos. | O estudo investigou se há uma associação entre polimorfismos genéticos dos receptores de estrogênio (ESR1 e ESR2) e a ocorrência da síndrome de Takotsubo (TS) em mulheres pós-menopáusicas. Foram incluídas 81 mulheres: 22 com TS, 22 com infarto agudo do miocárdio (IAM) e 37 saudáveis e foram analisados polimorfismos nos genes ESR1 (rs2234693 e rs9340799) e ESR2 (rs1271572 e rs1256049). Percebeu-se que a presença do alelo T no locus rs2234693 (ESR1) aumentou significativamente o risco de TS (OR: 2,79 comparado ao grupo IAM, p = 0,016). O alelo T no locus rs1271572 (ESR2) mostrou associação ainda mais forte com a TS (OR: 9,13 comparado ao grupo IAM, p = 0,0001) e os polimorfismos nos loci rs9340799 (ESR1) e rs1256049 (ESR2) não apresentaram associação significativa. O estudo identificou uma associação significativa entre polimorfismos nos genes dos receptores de estrogênio (ESR1 e ESR2) e a ocorrência da síndrome de Takotsubo em mulheres na pós-menopausa. Especificamente, os alelos T nos loci rs2234693 (ESR1) e rs1271572 (ESR2) estão associados a um maior risco de desenvolver a síndrome. Esses achados sugerem uma possível base genética para a maior susceptibilidade feminina à TS, relacionada à função estrogênica. |
| Takotsubo (Stress-Induced) Cardiomyopathy in Post-Menopausal Women. | Dustin Y.Yoon et al. (2011) | Relato de caso. | Análise de caso de uma mulher caucasiana de 55 anos que apresentava hipotiroidismo e ansiedade, ocasionalmente. | O artigo descreve a apresentação e o manejo da cardiomiopatia de Takotsubo em uma mulher pós-menopáusica, relacionando-a a eventos emocionais intensos e ao papel dos hormônios sexuais femininos. O artigo relata o caso de uma mulher de 55 anos que desenvolveu dor torácica e insuficiência cardíaca aguda após ter sido demitida do trabalho — evento estressante que provavelmente desencadeou o quadro. Com diagnóstico inicial foi de infarto agudo do miocárdio (IAM), mas a ventriculografia revelou balonamento apical típico da Takotsubo, com fração de ejeção reduzida (10–15%).O tratamento foi de suporte com bomba de balão intra-aórtico, medicações cardiovasculares e acompanhamento psiquiátrico. A paciente apresentou recuperação completa da função ventricular após um mês. O artigo conclui que a cardiomiopatia de Takotsubo é uma condição aguda, reversível e frequentemente subdiagnosticada em mulheres pós-menopáusicas, sendo desencadeada por estresse emocional. A intervenção precoce e o suporte psicológico são essenciais para a recuperação e prevenção da recorrência. A relação com deficiência estrogênica sugere um componente hormonal na fisiopatologia, reforçando a importância de considerar fatores emocionais e endocrinológicos no diagnóstico e tratamento. |
| Clinical characteristics, sex hormones, and long – term follow – up in Swiss postmenopausal women presenting with Takotsubo cardiomyopathy. | Roman Brenner et al. (2012) | Caso controle | Analisou-se um grupo de 23 pacientes com cardiomiopatia do estresse, ou cardiomiopatia de Takotsubo, e um outro grupo de 17 pacientes como grupo controle, em ambos apenas participaram mulheres que não preencheram todos os critérios de exclusão impostos pelo estudo | O estudo investigou o papel dos hormônios sexuais femininos na fisiopatologia da cardiomiopatia de Takotsubo (CT), também chamada de cardiomiopatia induzida por estresse. Participaram 17 mulheres com Takotsubo, 16 com infarto agudo do miocárdio (IAM) e 15 com artérias coronárias normais. Os níveis séricos de estradiol(E2), progesterona, hormônio luteinizante (LH) e hormônio folículo-estimulante (FSH) foram medidos na admissão hospitalar e, para o grupo CT, novamente após 6 anos. Foi descoberto que durante o episódio agudo, os níveis de estradiol foram significativamente mais altos nas pacientes com CT em comparação aos grupos com IAM e com artérias normais e não houve diferenças significativas nos níveis de progesterona, LH ou FSH entre os grupos na fase aguda. O estudo demonstrou que pacientes pós-menopáusicas com Takotsubo apresentaram níveis elevados de estradiol durante o evento agudo, em comparação com mulheres com infarto ou artérias coronárias normais. Esse aumento temporário de estrogênio pode estar relacionado à resposta ao estresse e possivelmente desvia o desfecho de um evento isquêmico (IAM) para uma cardiomiopatia por estresse (CT), por efeitos protetores sobre os vasos. |
Fonte: autoria própria
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise dos estudos selecionados evidencia que a cardiomiopatia de Takotsubo (CMT) permanece como uma entidade clínica complexa, multifatorial e ainda não completamente compreendida do ponto de vista fisiopatológico. De modo geral, os achados da literatura convergem para uma predominância significativa da síndrome em mulheres pós-menopáusicas, sugerindo forte influência hormonal, especialmente relacionada ao estrogênio, associada a mecanismos neuro-hormonais e vasculares (BRITO et al., 2020).
Brito et al. (2020), demonstraram que a prevalência da CMT é substancialmente maior no sexo feminino, especialmente em mulheres acima de 55 anos, com risco aproximadamente 4,8 vezes superior quando comparado ao sexo masculino. Segundo os autores, “a deficiência estrogênica característica da pós-menopausa pode contribuir para maior suscetibilidade miocárdica ao estresse catecolaminérgico” (BRITO et al., 2020). Tal achado reforça a hipótese de que o estrogênio exerce papel cardioprotetor, atuando na modulação da função endotelial, no controle da resposta simpática e na prevenção de espasmos microvasculares.
De forma semelhante, Kuo et al. (2010) observaram que a maioria dos pacientes diagnosticados com cardiomiopatia de Takotsubo era composta por mulheres pós-menopáusicas expostas a estressores físicos ou emocionais intensos, como sepse e hipoxemia. Embora os autores não estabeleçam relação causal direta, destacam que “níveis reduzidos de estrogênio podem aumentar a vulnerabilidade do miocárdio aos efeitos tóxicos das catecolaminas” (KUO et al., 2010), sugerindo um ambiente fisiológico propício ao desenvolvimento do atordoamento miocárdico transitório.
No que se refere aos aspectos genéticos, Pizzino et al. (2017) acrescentam evidências relevantes ao demonstrar associação entre polimorfismos nos genes dos receptores de estrogênio (ESR1 e ESR2) e a ocorrência da CMT. Os autores identificaram que a presença dos alelos T nos loci rs2234693 (ESR1) e rs1271572 (ESR2) esteve significativamente associada ao aumento do risco da síndrome em mulheres pós-menopáusicas. De acordo com o estudo, “variações genéticas nos receptores de estrogênio podem modular a resposta cardiovascular ao estresse, influenciando a susceptibilidade à síndrome de Takotsubo” (PIZZINO et al., 2017). Esses dados reforçam o caráter multifatorial da doença, envolvendo tanto fatores hormonais quanto genéticos.
Sob a perspectiva clínica e diagnóstica, Zorzi et al. (2015) ressaltam a dificuldade em diferenciar a cardiomiopatia de Takotsubo do infarto agudo do miocárdio (IAM) na fase inicial de apresentação. Segundo os autores, dados clínicos, laboratoriais e ecocardiográficos iniciais apresentam limitações importantes para o diagnóstico diferencial, sobretudo em mulheres pós-menopáusicas. Contudo, o eletrocardiograma mostrou-se ferramenta relevante, uma vez que “a presença de depressão do segmento PR associada à elevação do segmento ST ≤ 2 mm favorece o diagnóstico de Takotsubo em detrimento do IAM” (ZORZI et al., 2015).
Os relatos clínicos descritos por Yoon et al. (2011) exemplificam a apresentação típica da síndrome, caracterizada por início súbito após evento emocional intenso, evolução aguda para insuficiência cardíaca e posterior recuperação completa da função ventricular esquerda. Conforme destacado pelos autores, “apesar da gravidade inicial do quadro clínico, a disfunção ventricular apresenta caráter reversível na maioria dos casos” (YOON et al., 2011), o que reforça a importância do reconhecimento precoce e do manejo adequado.
Por fim, Brenner et al. (2012) apresentaram resultados que ampliam a compreensão do papel hormonal na CMT ao demonstrarem níveis elevados de estradiol durante a fase aguda da síndrome em mulheres pós-menopáusicas, quando comparadas a pacientes com IAM ou artérias coronárias normais. Segundo os autores, “a elevação transitória do estradiol pode representar uma resposta adaptativa ao estresse, conferindo proteção contra lesões isquêmicas permanentes” (BRENNER et al., 2012). Esse achado sugere que o estrogênio pode exercer efeitos distintos conforme o contexto fisiopatológico e o momento da agressão.
Além disso, a literatura analisada sugere que a fisiopatogênese da cardiomiopatia de Takotsubo envolve uma resposta exacerbada do sistema nervoso simpático frente a eventos estressores, resultando em liberação maciça de catecolaminas e consequente toxicidade miocárdica transitória. Conforme destacado por Brito et al. (2020), níveis elevados de catecolaminas promovem vasoconstrição coronariana, disfunção endotelial e aumento da demanda miocárdica de oxigênio, culminando em um desbalanço entre oferta e consumo energético do miocárdio. Esse mecanismo é reforçado pelos achados clínicos descritos por Yoon et al. (2011), nos quais a síndrome foi precipitada por estresse emocional intenso, evidenciando a relação direta entre fatores psicossociais e a manifestação clínica da CMT. Ademais, a interação entre hiperatividade simpática e deficiência estrogênica parece potencializar os efeitos deletérios das catecolaminas sobre os cardiomiócitos, uma vez que o estrogênio exerce papel modulador sobre a resposta adrenérgica e a função microvascular (KUO et al., 2010; BRENNER et al., 2012).
Em síntese, os estudos analisados indicam que a cardiomiopatia de Takotsubo resulta da interação entre fatores hormonais, genéticos, neuro-hormonais e emocionais, não sendo explicada por um único mecanismo isolado. A predominância em mulheres pós-menopáusicas, a associação com estressores agudos e a reversibilidade da disfunção ventricular reforçam a necessidade de estratégias diagnósticas individualizadas e de novas investigações que aprofundem a compreensão dos mecanismos fisiopatológicos envolvidos (BRITO et al., 2020; PIZZINO et al., 2017; ZORZI et al., 2015).
5 CONCLUSÃO
A cardiomiopatia de Takotsubo é uma condição cardíaca aguda e reversível, que acomete predominantemente mulheres na pós-menopausa e apresenta quadro clínico semelhante ao infarto agudo do miocárdio, porém sem obstrução coronariana significativa. Evidências indicam que sua fisiopatologia está relacionada à deficiência estrogênica, ao estresse físico ou emocional e à liberação excessiva de catecolaminas, resultando em disfunção miocárdica transitória (BRITO et al., 2020; KUO et al., 2010).
Ademais, os estudos analisados demonstram que o eletrocardiograma constitui ferramenta fundamental para o diagnóstico diferencial precoce, auxiliando na exclusão do infarto e evitando intervenções desnecessárias (ZORZI et al., 2015). Além disso, fatores genéticos associados aos receptores de estrogênio podem contribuir para a maior suscetibilidade feminina à síndrome (PIZZINO et al., 2017). Apesar dos avanços no reconhecimento clínico, persistem lacunas quanto aos mecanismos fisiopatológicos e às estratégias terapêuticas específicas, reforçando a necessidade de investir em mais pesquisas sobre essa relação, considerando as múltiplas variáveis que influenciam o quadro.
REFERÊNCIAS
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MOURA, A. K. B. de; JUNQUEIRA, M. B.; OLIVEIRA, M. V. S. et al. Síndrome de Takotsubo: uma revisão de literatura. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 6, p. 1110–1119, 2024.
PIZZINO, G. et al. Takotsubo syndrome and estrogen receptor genes. Journal of Cardiovascular Medicine, v. 18, n. 4, p. 268–276, 24 jan. 2017.
SINGH, T. et al. Takotsubo Syndrome: Pathophysiology, Emerging Concepts, and Clinical Implications. Circulation, v. 145, n. 13, p. 1002–1019, 29 mar. 2022.
YOON, D. Y.; DOLE, A.; GONSALVES, L. Takotsubo (Stress-Induced) Cardiomyopathy in Post-Menopausal Women. Psychosomatics, v. 52, n. 4, p. 375–378, jul. 2011.
ZORZI, A. et al. Differential diagnosis at admission between Takotsubo cardiomyopathy and acute apical-anterior myocardial infarction in postmenopausal women. European Heart Journal: Acute Cardiovascular Care, v. 5, n. 4, p. 298–307, 11 maio 2015.
1Acadêmica do curso de Medicina do Centro Universitário de Mineiros (Unifimes), Mineiros, GO, Brasil. mariaelisaschulz@academico.unifimes.edu.br
2Docente do curso de Medicina da Faculdade Morgana Potrich (FAMP), Mineiros, GO. Mestre em Ciências da Saúde (UFTM) e doutorando (PPGCAS/UFJ)
3Docente do curso de Medicina do Centro Universitário de Mineiros (Unifimes), Mineiros, GO. Mestre em Ciências Aplicadas à Saúde (PPGCAS/UFJ). vanessabridi@unifimes.edu.br
