A PRODUÇÃO DE VÍDEOS CURTOS NAS AULAS DE QUÍMICA: DIALOGANDO COM OS ODS E PROMOVENDO APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510091216


Mônica de Jesus Dias¹


RESUMO

O presente relato de experiência descreve uma prática pedagógica inovadora desenvolvida em seis turmas do 3º ano do ensino médio de uma escola estadual em Tanque Novo, Bahia. A atividade, foi realizada no âmbito do componente curricular Química e do Projeto Estruturante PROVE (Produção de Vídeos Estudantis), buscou conectar objetos de conhecimento da Química, como agroquímicos e substâncias químicas, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. A metodologia, fundamentada no Sociointeracionismo e na Teoria dos Multiletramentos, consistiu na produção de vídeos curtos, produzidos em grupo de até cinco participantes, com ênfase na roteirização, gravação e edição. Observou-se um significativo engajamento dos estudantes e o desenvolvimento de habilidades de planejamento, trabalho em equipe e pensamento crítico. Os resultados demonstram que a proposta foi eficaz na promoção de uma aprendizagem contextualizada e reflexiva, mesmo diante de desafios como a resistência inicial à fase de roteirização. A experiência reforça a relevância de utilizar recursos digitais para aproximar o ensino da realidade dos jovens.

Palavras-chave: Ensino de Química; Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; Produção de Vídeos.

INTRODUÇÃO

A tarefa de aproximar os conteúdos curriculares da realidade dos alunos é um desafio constante na prática docente, especialmente em componentes curriculares como a Química, que muitas vezes é percebida como abstrata. Com o intuito de superar essa barreira, o presente relato tem o objetivo de socializar uma experiência pedagógica vivenciada no segundo semestre de 2024 em uma escola estadual do município de Tanque Novo, no interior da Bahia. A busca por um ensino de Química mais relevante e contextualizado é uma necessidade amplamente discutida na literatura da área (VASCONCELOS; NASCIMENTO, 2018).

A atividade foi concebida no contexto do Projeto Estruturante PROVE – Produção de Vídeos Estudantis, uma política da Secretaria da Educação do Estado da Bahia que utiliza a produção audiovisual como ferramenta para o desenvolvimento da educação, da arte e da cultura. O PROVE estimula o desenvolvimento de múltiplas aprendizagens e da criatividade por meio da filmagem, roteirização e edição de vídeos em grupo, utilizando recursos tecnológicos. A proposta pedagógica buscou aliar o PROVE ao estudo de conteúdos específicos da Química, como agroquímicos, drogas lícitas e ilícitas e substâncias químicas do cotidiano, integrando-os à Agenda 2030 da ONU.  

Desse modo, a atividade permitiu que os estudantes relacionassem conceitos científicos aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), metas globais para o desenvolvimento social, econômico e ambiental, promovendo uma aprendizagem contextualizada, reflexiva e alinhada às competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em particular no que se refere ao uso crítico das tecnologias digitais (BRASIL, 2017). Embora o PROVE tenha sido implementado em várias turmas da escola por diversos professores, o presente relato foca especificamente em minha experiência e nos resultados obtidos com as seis turmas de 3º ano.

METODOLOGIA DA PRÁTICA

A proposta foi concebida na Jornada Pedagógica, durante a qual a área de Ciências da Natureza e Matemática ficou responsável por desenvolver o PROVE na escola. A atividade foi aplicada em seis turmas de 3º ano, sendo três do turno matutino e três do vespertino.

A prática pedagógica foi estruturada como uma atividade avaliativa para a segunda unidade, desenvolvida em grupos de até cinco estudantes, conforme as diretrizes do projeto PROVE. Cada grupo deveria seguir as seguintes etapas:

  • Escolher um tema relacionado aos conteúdos estudados na disciplina de Química;
  • Relacionar o tema a pelo menos um dos ODS da Agenda 2030;
  • Elaborar um roteiro para o vídeo, detalhando cenas, falas e informações a serem apresentadas;
  • Produzir um vídeo com duração entre 3 e 5 minutos, atendendo aos critérios de clareza, objetividade, originalidade, relação com os ODS e qualidade técnica.

Todo o processo foi acompanhado por mim, desde a orientação para a construção dos roteiros, com correções e feedbacks, até a fase de gravação e edição dos vídeos. Na época, o uso de celulares ainda era permitido na escola, o que facilitou a gravação tanto no ambiente escolar quanto em espaços externos.

Durante o desenvolvimento da prática, observei um grande engajamento dos estudantes, principalmente na etapa de gravação. Entretanto, a roteirização representou um desafio significativo; muitos relutaram em realizá-la, alegando que “já sabiam o que iriam fazer”. Foi necessário um trabalho de conscientização sobre a importância do planejamento, explicando que o roteiro garantiria organização, qualidade e eficiência.

Nesse ponto, a insistência na fase de roteirização encontra seu alicerce na Teoria dos Multiletramentos de Roxane Rojo (2012) e no Sociointeracionismo de Lev Vygotsky. A aprendizagem, sob a ótica de Vygotsky (2007), é um processo social e cultural, construído na interação e na mediação. A roteirização, nesse contexto, foi uma ferramenta de mediação do conhecimento. Ao trabalharem em grupo, os alunos discutiram, negociaram significados e construíram, coletivamente, um novo entendimento sobre os conteúdos de Química. Além disso, a produção de vídeos é uma prática de multiletramento (ROJO, 2012), que exige a mobilização de diversas linguagens (verbal, visual, sonora), capacitando os estudantes a se comunicarem de forma crítica e criativa em um mundo cada vez mais digital.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A proposta demonstrou ser altamente significativa, confirmando as premissas do sociointeracionismo. Os resultados alcançados evidenciaram o sucesso da aplicação da metodologia.

Foram produzidos mais de 30 vídeos. Entre os temas abordados destacaram-se:

  • A importância das abelhas para o ecossistema e os impactos dos agroquímicos (ODS 15 – Vida terrestre e ODS 12 – Consumo e produção responsáveis);
  • O uso de drogas em festas e seus impactos na saúde dos jovens (ODS 3 – Saúde e bem-estar);
  • O uso de anabolizantes e seus riscos;
  • Agroquímicos na cultura do maracujá e seus impactos sociais e ambientais; • O uso de medicamentos por caminhoneiros para suportar longas jornadas (relacionando saúde, trabalho digno e bem-estar).

Após a produção, realizamos uma pré-seletiva, conduzida pela coordenação pedagógica.

Foram selecionados os 12 melhores vídeos, aqueles que cumpriram rigorosamente os critérios do PROVE, para apresentação na culminância, que ocorreu no dia 14 de agosto, em comemoração ao Dia do Estudante. O vídeo vencedor na etapa escolar foi “Drogas em festas: como se proteger?”, que representou a escola na etapa territorial do NTE (Núcleo Territorial de Educação – Sertão Produtivo). Embora não tenha sido premiado nessa etapa, a experiência foi extremamente enriquecedora para todos os envolvidos.

A avaliação foi formativa, contínua e somativa, considerando a entrega e a qualidade do roteiro, a produção e apresentação do vídeo e a participação no processo. O aprendizado e o esforço empenhado foram valorizados, independentemente de os grupos terem conseguido cumprir todos os critérios técnicos. A proposta resultou em maior engajamento dos alunos e no desenvolvimento de habilidades de planejamento, trabalho em equipe, comunicação e pensamento crítico. Os estudantes relataram que a atividade foi diferente e que os ajudou a compreender melhor tanto os conteúdos de Química quanto os desafios sociais e ambientais do nosso tempo. Esse resultado reforça a tese de que a educação, para ser transformadora, deve dialogar com a realidade dos estudantes (FREIRE, 1996).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A produção de vídeos como recurso pedagógico revelou-se uma estratégia potente para promover uma aprendizagem significativa, contextualizada e interdisciplinar. Essa abordagem está em consonância com estudos que defendem o potencial dos vídeos para o ensino de Ciências, promovendo maior engajamento e apropriação do conhecimento (PEREIRA; ROCHA, 2020). Além de aproximar os conteúdos escolares do universo digital dos jovens, a proposta possibilitou trabalhar de forma concreta temas contemporâneos, desenvolvendo a consciência crítica dos alunos.

A experiência reforça que quando o ensino dialoga com a realidade dos estudantes, ele se torna mais significativo, reflexivo e transformador. Ressalto, contudo, que atualmente, com a restrição do uso de celulares nas escolas estaduais da Bahia, é necessário pensar em alternativas, como o uso de filmadoras portáteis e laboratórios de informática para filmagem e edição, garantindo que propostas como esta continuem acontecendo, uma vez que a formação digital é uma das competências previstas na BNCC. A literatura pedagógica aponta que o celular, quando bem utilizado, pode se tornar uma ferramenta valiosa no processo de ensino-aprendizagem (OLIVEIRA, 2015).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2017.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 79. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

OLIVEIRA, D. A. O uso do celular como ferramenta didática na educação básica. Revista de Educação, v. 18, n. 25, p. 1-12, 2015.

PEREIRA, L. F. P.; ROCHA, C. F. A produção de vídeos como ferramenta pedagógica no ensino de Ciências. Revista Brasileira de Educação em Ciências e Educação Matemática, v. 4, n. 1, p. 101-115, 2020.

ROJO, R. H. R. Gêneros de discurso e multiletramentos. In: ROJO, R. H. R.; MOURA, E. (Orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. p. 11-30.

ONU (Organização das Nações Unidas). Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, 2015. Disponível em: https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/crime/embaixadores-da-juventude/a-agenda-2030-para-odesenvolvimento-sustentavel.html. Acesso em: 05 abril. 2024.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

VASCONCELOS, S. L. A.; NASCIMENTO, L. B. O ensino de química contextualizado: uma análise da produção acadêmica. Química Nova na Escola, v. 40, n. 2, p. 173-180, 2018.


¹Professora de Matemática e Química no Colégio Estadual de Tempo Integral de Tanque Novo, Bahia.
E-mail: monica.dias4@enova.educacao.ba.gov.br
Tanque Novo, Bahia, 2025