PROFESSIONALS’ PERCEPTION OF HEALTH EDUCATION PRACTICES AIMED AT ADOLESCENTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510260634
Lorena Viana Vieira
Cristina Portela da Mota
Jorge Luiz Lima da Silva
Kathelin Rayani Carvalho de Souza
Gabriel Manhães de Carvalho
Daiana Alves dos Santos
RESUMO
Objetivo: Este estudo tem como objetivo explorar a relevância da educação em saúde para adolescentes e identificar a percepção dos profissionais sobre essas práticas. Método: trata-se de um estudo qualitativo, descritivo. O instrumento de coleta de dados foi um roteiro de entrevista semiestruturada, com perguntas abertas e fechadas, aplicadas a seis profissionais de saúde que atuam interdisciplinarmente em práticas educativas em uma instituição pública do município do Rio de Janeiro. Resultados: a análise dos dados enfatizou a necessidade de uma abordagem integral de educação em saúde, que vá além da resolução de doenças, visando também à formação cidadã dos jovens. Considerações finais: a integração multiprofissional permite uma compreensão mais abrangente das demandas dos adolescentes, promovendo inovações no trabalho em saúde e aumentando a eficácia das intervenções. No entanto, os profissionais de saúde precisam estar continuamente capacitados e atualizados, não apenas em relação ao conteúdo, mas também às particularidades das pessoas envolvidas nas práticas educativas.
Palavras-chave: Adolescente. Educação em Saúde.
ABSTRACT
Objective: this study aims to explore the relevance of health education for adolescents and identify professionals’ perceptions of these practices. Method: this is a qualitative, descriptive study. The data collection instrument was a semi-structured interview script, with open and closed questions, applied to six health professionals who work interdisciplinary in educational practices in a public institution in the city of Rio de Janeiro. Results: data analysis emphasized the need for a comprehensive approach to health education, which goes beyond solving diseases, also aiming to develop young people as citizens. Final considerations: multidisciplinary integration allows for a more comprehensive understanding of adolescents’ demands, promoting innovations in health work and increasing the effectiveness of interventions. However, health professionals need to be continually trained and updated, not only in relation to the content, but also to the particularities of the people involved in educational practices.
Key-words: Adolescent. Health Education.
INTRODUÇÃO
A educação em saúde é um pilar fundamental para a promoção do bem-estar individual e coletivo, especialmente em fases críticas do desenvolvimento humano, como a adolescência. Nessa etapa da vida, marcada por intensas transformações biopsicossociais, a educação em saúde assume um papel essencial na promoção da autonomia, prevenção de comportamentos de risco e fortalecimento de hábitos saudáveis (Anjos et al., 2022). Ao integrar práticas educativas que consideram as particularidades dos adolescentes, os profissionais de saúde podem contribuir para a construção de um desenvolvimento mais seguro e consciente, superando barreiras de acesso e desinformação.
No momento da transição da adolescência, ou seja, na puberdade, o corpo torna-se o espaço onde se atualizam questões de identidade e novas sensações. As intensas transformações biológicas, com mudanças físicas e hormonais, impõem a perda definitiva do corpo infantil, exigindo do adolescente a elaboração de um luto simbólico, que envolve tanto a perda do corpo da infância quanto a modificação das relações com os pais (Silva, 2022).
Este processo resulta em desafios significativos, já que a adolescência é marcada por ambivalências e conflitos, sendo o maior deles o esforço para encontrar um lugar de pertencimento no mundo. Mudanças orgânicas, cognitivas, sociais e afetivas interferem nas relações interpessoais, sejam elas familiares, escolares ou sociais, influenciando diretamente o desenvolvimento e o amadurecimento pessoal (Dourado et al., 2021).
Além das transformações biopsicossociais, surge o desejo de autonomia e independência, embora os adolescentes ainda não estejam totalmente preparados para lidar sozinhos com essas novas demandas. Nesse contexto, os grupos de pares desempenham um papel fundamental, oferecendo suporte emocional, espaço para reflexão e validação de experiências comuns, o que contribui para a construção da identidade (Pascual, 2022).
O processo de construção da identidade também torna os adolescentes mais vulneráveis a comportamentos de risco, especialmente quando não possuem acesso adequado a informações de qualidade. Apesar da importância dos serviços de saúde, muitos adolescentes enfrentam barreiras relacionadas ao estigma, ao medo do julgamento e à falta de confidencialidade. Frequentemente, recorrem aos amigos como principal fonte de informação, o que pode perpetuar mitos e desinformação.
Nesse sentido, destaca-se o papel da educação em saúde como uma estratégia fundamental para promover o acesso a informações confiáveis, fortalecendo a autonomia dos adolescentes na tomada de decisões sobre sua saúde e bem-estar. As ações educativas desenvolvidas por profissionais de saúde são essenciais para criar espaços de diálogo, promover comportamentos saudáveis e reduzir vulnerabilidades (Franco et al., 2020).
Além disso, a acessibilidade aos serviços de saúde é um aspecto central, não se limitando à presença de recursos, mas abrangendo fatores que facilitam ou dificultam o uso efetivo desses serviços pela população. Em educação em saúde, é fundamental compreender como essas barreiras impactam o acesso dos adolescentes e o desenvolvimento de práticas educativas eficazes (Ó et al., 2022).
Diante desse cenário, este estudo tem como objeto de investigação— o discurso coletivo sobre as práticas educativas dos profissionais de saúde com adolescentes. Considerando as reflexões apresentadas, formulou-se a seguinte questão norteadora: como se manifestam as práticas educativas dos profissionais de saúde direcionadas aos adolescentes?
PERCURSO METODOLÓGICO
Trata-se de um estudo descritivo, exploratório e de natureza qualitativa. A coleta de dados foi feita por meio de um formulário de entrevista semiestruturada com perguntas abertas e fechadas. O cenário da pesquisa foi o Adolescentro Paulo Freire, localizado no bairro de São Conrado, Rio de Janeiro. Este projeto, criado em 28 de junho de 2004 pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-RJ) e coordenado por Dilma Medeiros, reúne adolescentes e jovens para planejar, discutir, executar e avaliar ações de promoção da saúde do adolescente. A instituição investe na formação dos adolescentes, valorizando a diversidade e o protagonismo juvenil.
O Adolescentro conta com uma equipe multiprofissional, incluindo enfermeiros, médicos, assistentes sociais, psicólogos, professores de educação física e teatro. Além disso, adolescentes e jovens atuam como multiplicadores de saúde, recebendo remuneração. Esse envolvimento promove aprendizado mútuo entre os adolescentes, que trazem as especificidades da comunidade, e os profissionais, que podem repensar suas práticas. O Adolescentro oferece atendimento médico-ginecológico, pré-natal, planejamento familiar, atividades educativas e grupos de saúde e teatro. Seu principal objetivo é contribuir para a criação de uma rede de atenção integral à saúde dos adolescentes e promover políticas públicas que fomentem espaços de sociabilidade, fortalecendo a autoestima e autonomia dos jovens.
Os objetivos específicos são capacitar adolescentes, jovens e outros atores sociais para se tornarem multiplicadores de informações em educação em saúde. Além disso, busca-se incentivar o exercício da cidadania e criar estratégias de comunicação que dialoguem com a linguagem dos jovens, promovendo espaços de discussões, bem como também desenvolver metodologias que estimulem a participação ativa e a autonomia dos jovens, fortalecendo seu papel como protagonistas em ações de educação em saúde.
A pesquisa foi delineada como um estudo de caso, com foco nas práticas educativas com adolescentes e jovens. Foram entrevistados (6) profissionais da equipe multiprofissional, com a participação de (5) mulheres e (1) homem. Seguindo as normas da Resolução 196/96, todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Inicialmente, os profissionais foram convidados por meio de uma carta-convite, detalhando os objetivos do estudo, a identificação da pesquisadora e orientadora, e a disposição para participar da pesquisa, em conformidade com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos– Resolução 466/12 do CNS.
As entrevistas foram realizadas nas salas de atendimento dos profissionais no 12º andar do Adolescentro Paulo Freire, gravadas em mp3 e imediatamente transcritas. A análise dos dados seguiu o método de Análise de Conteúdo, definido como um conjunto de técnicas que descrevem de forma sistemática e objetiva o conteúdo das mensagens (Paiva, 2021). A análise visa interferir no conhecimento das condições de produção dos conteúdos, gerando saberes de natureza psicológica, sociológica, histórica e econômica.
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Os dados coletados serão apresentados de forma didática para garantir uma compreensão clara da análise, embasada no referencial teórico. Para preservar o anonimato dos participantes, os profissionais de saúde foram identificados por pseudônimos inspirados em nomes de comunidades do Rio de Janeiro, já que a pesquisa ocorreu em uma Instituição Pública Municipal da cidade, localizada em frente à Rocinha, que atende adolescentes dessa comunidade. Essa escolha reflete a conexão com o contexto da pesquisa e o ambiente, que é favorável para estudos sobre saúde e sociedade, destacando as dificuldades sociais e os desafios da Saúde Pública no Brasil.
Caracterização dos profissionais de saúde
A amostra deste estudo foi composta por seis profissionais de saúde, cujas características são descritas a seguir.
A primeira participante, identificada pelo pseudônimo Santa Marta, é formada em Medicina com especialização em Dermatologia pela Unirio. Com 21 anos de formação, Santa Marta acumula o mesmo tempo de experiência na área de Dermatologia.
A segunda participante, Mangueira, é enfermeira formada pela Universidade Federal Fluminense. Com oito anos de formação, Mangueira possui especialização em Saúde Mental e cinco anos de atuação na área.
Vidigal, a terceira participante, é uma profissional com dupla formação. Psicóloga e Professora de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental graduada pela UFRJ. Com 29 anos de formação, Vidigal especializou-se em Educação de Jovens e Adultos e possui o mesmo tempo de experiência profissional.
A quarta participante Rocinha é uma profissional com formação em Enfermagem e Psicologia tendo se graduado pela Uerj e PUC. Com 25 anos de formação, Rocinha especializou-se em Saúde Pública e Psicossomática, acumulando dez anos de experiência na área.
Borel, o quinto participante, é formado em Serviço Social pela UERJ. Borel possui sete anos de formação e especialização em Saúde Pública, com cinco anos de atuação na área.
Por fim, a sexta participante, Jacarezinho, é uma médica formada em Pediatria pela Faculdade de Medicina em Vassouras Com 32 anos de formação, Jacarezinho possui especializações em Cardiologia, Medicina do Esporte e Fisiologia do Exercício além de dois anos de experiência na área.
Os dados revelam uma equipe diversificada de profissionais atuando na saúde do adolescente, com predominância de mulheres. O tempo de formação dos profissionais varia entre 7 e 32 anos. Embora nenhum dos entrevistados tenha uma especialização específica em Saúde do Adolescente, todos abordaram esse tema em suas formações, tanto de maneira teórica quanto prática. O tempo de experiência na área de saúde do adolescente também varia significativamente, entre 2 e 29 anos.
Embora os profissionais demonstram uma visão integrada da saúde do adolescente, a ausência de especializações específicas nessa área sugere uma lacuna na formação profissional. Como argumentam Mattioni et al. (2022), a promoção da saúde exige não apenas intenção, mas também capacitação contínua e articulação intersetorial. Além disso, a fragmentação dos serviços de saúde, citada por Tédde et al. (2024), pode dificultar a efetivação da integralidade, já que muitos adolescentes dependem de redes desarticuladas entre atenção básica, escolas e programas sociais.
Posto que, a promoção de saúde do adolescente está para além da prevenção de comportamentos de risco, satisfação pessoal, desenvolvimento de competências sociais, proteção contra violência, acesso às condições básicas de vida, moradia, educação, lazer, saúde, dentre outras.
Não obstante políticas públicas para o avanço das condições de saúde dos adolescentes nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisas demonstram feitos fragmentados, firmadas no modelo biomédico, que não condecora as proporções biopsicossociais no cuidado e são pouco rumadas às particularidades dos adolescentes (Silva e Engstrom, 2020).
Tais premissas, mencionadas por Silva e Engstrom, 2020, precisam ser detalhadas, a partir do conhecimento das práxis dos profissionais de saúde, levando em consideração que essas devem traduzir um modelo de saúde ampliado, que inclui modos de cuidar cercados de valores, conhecimentos e comportamentos que instiguem diretamente nas práticas de saúde.
Definição de Educação em Saúde pelos profissionais de saúde
A seguir, no quadro 1, foram descritas as falas das participantes da pesquisa sobre suas percepções quanto ao que seria educação em saúde.
Quadro 1 – descrição das falas dos profissionais de saúde sobre significado/ definição de educação em saúde, Rio de Janeiro, 2004.
| Pseudônimo | Categorização profissional | Falas dos Entrevistados |
| Santa Marta | Médica – Ginecologista | “Eu não consigo ver a saúde sem a educação, elas estão interligadas. A educação tem que ser levada para todas as instâncias, a nível assistencial e da promoção da saúde”. |
| Mangueira | Enfermeira | “A educação em saúde é uma ferramenta de intervenção na sociedade. São estratégias de prevenção para o adoecimento, ou para o aumento da sua qualidade de vida, de modo a promover a saúde”. |
| Vidigal | Psicóloga e Professora | “Educar implica envolver o adolescente na proteção do corpo dele e da coletividade. Nesse processo tem uma coisa muito importante que é o respeito ao saber e à cultura do outro. |
| Rocinha | Enfermeira e Psicóloga | “Educação em saúde teria dois vieses, um individual, e um fundamental que é no coletivo, onde o indivíduo se vê em grupo, e deve perceber que muitos dos seus hábitos, muito de suas ações estão implicadas na coletividade para promover a saúde”. |
| Borel | Assistente Social | “A educação em saúde não é só individual, ela se dá nas relações sociais”. |
| Jacarezinho | Médica – Pediatra | “É você transmitir um conhecimento, pautado na promoção da saúde através de uma comunicação clara”. |
A PROMOÇÃO DA SAÚDE VERSUS PREVENÇÃO DE DOENÇAS: OS ALICERCES DA EDUCAÇÃO EM SAÚDE
A partir dos dados coletados, podemos perceber que dos seis (06) profissionais de saúde entrevistados, dois (02) deles relacionam claramente a educação em saúde com promoção da saúde, o que leva a autonomia do indivíduo envolvido, e o torna ativo e transformador da sua própria vida.
“Eu não consigo ver a saúde sem a educação, elas estão interligadas. A educação tem que ser levada para todas as instâncias, a nível assistencial e da promoção da saúde”. (Santa Marta)
“É você transmitir um conhecimento, pautado na promoção da saúde através de uma comunicação clara”. (Jacarezinho)
A educação em saúde se apresenta como uma estratégia imprescindível que pode ser aplicada em qualquer ambiente onde ocorrem ações voltadas ao cuidado, sendo uma ferramenta potente de promoção da saúde e estímulo de autocuidado. Ao favorecer o desenvolvimento de habilidades pessoais, capacita o indivíduo a adotar práticas mais saudáveis, promovendo a autonomia e fortalecendo o bem-estar coletivo (Fernandes, 2020).
A promoção da saúde, por sua vez, visa melhorar as condições de vida da população por meio de decisões conscientes e coletivas que valorizem a qualidade de vida. Trata-se de um processo que considera as dimensões políticas, culturais e socioeconômicas, sendo principalmente intersetorial. Nesse contexto, a participação dos jovens é relevante, tanto como forma de expressão da liberdade quanto como estratégia eficaz para transformação social (Buss, 2020).
A educação em saúde, nesse cenário, vai além da simples transmissão de informações. Ela parte da escuta, da reflexão e da vivência cotidiana, permitindo que o conhecimento adquirido seja aplicado de forma crítica e adaptada às realidades individuais. Esse processo deve ser transformador, contribuindo para que os sujeitos se tornem protagonistas de suas escolhas e trajetórias (Gomes, 2024).
As declarações dos profissionais de saúde destacam a importância de abordar a saúde dos adolescentes tanto na condição individual quanto no coletivo. Ter essa abordagem integrada proporciona maior autonomia e fortalece o exercício da cidadania, preparando os jovens para lidar com os desafios sociais.
A promoção da saúde, portanto, não se limita ao controle de doenças, mas busca ampliar a capacidade de escolha dos indivíduos, reconhecendo suas singularidades e respeitando seus contextos (Mattioni et al., 2022). Diante da ampla oferta de informações – muitas vezes desencontradas ou equivocadas – torna-se ainda mais necessário que a educação em saúde esteja presente em múltiplos espaços: no lar, na escola, no trabalho e na comunidade.
“A educação em saúde não é só individual, ela se dá nas relações sociais”. (Borel)
“Educação em saúde teria dois vieses, um individual, e um fundamental que é no coletivo, onde o indivíduo se vê em grupo, e deve perceber que muitos dos seus hábitos, muito de suas ações estão implicadas na coletividade para promover a saúde”. (Rocinha)
A falta de preparo da família, da escola, dos serviços de saúde e da comunidade para fornecer informações e orientações adequadas durante a vulnerabilidade do adolescente pode contribuir para comportamentos de risco. Isso pode elevar os índices de morbimortalidade, especialmente por causas externas como homicídios, acidentes e suicídios (Silva, 2019).
Além disso, ao refletir sobre o conceito de educação em saúde, observamos que o termo “prevenção” é mencionado por Mangueira. Ela argumenta que a prevenção é uma parte essencial da educação em saúde, complementando a promoção da saúde. Ambas são ferramentas importantes para melhorar a qualidade de vida do indivíduo.
“A educação em saúde é uma ferramenta de intervenção na sociedade. São estratégias de prevenção para o adoecimento, ou para o aumento da sua qualidade de vida, de modo a promover a saúde”. (Mangueira)
A prevenção de doenças concentra-se na identificação, controle e redução de fatores de risco relacionados a enfermidades específicas. Diferente da promoção da saúde, seu foco está voltado diretamente para a doença e suas causas (Buss, 2020). Apesar de limitada ao enfrentamento de problemas já existentes ou iminentes, a prevenção mantém um papel importante no processo saúde-doença e contribui significativamente para o bem-estar da população.
Contudo, quando se trata do cuidado à saúde de adolescentes, é necessário ir além da prevenção isolada. É preciso um olhar ampliado, que reconheça as múltiplas dimensões do sujeito, incluindo aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Nesse sentido, a integralidade do cuidado se mostra um princípio crucial. Ela enfrenta desafios como a fragmentação dos serviços e a dificuldade de articulação entre os diferentes níveis de atenção. Superar esses obstáculos requer educação permanente dos profissionais de saúde, fortalecimento da comunicação entre equipes e construção de vínculos com os usuários, principalmente adolescentes (Tédde et al, 2024).
A efetivação da integralidade passa por práticas que valorizem a escuta, a interdisciplinaridade e o reconhecimento das singularidades. Para isso, exige a inovação na organização do trabalho em saúde, conectando ações planejadas e demandas espontâneas, focando em atender às reais necessidades da população.
Assim, os serviços devem acolher os adolescentes como sujeitos integrais, levando em consideração suas vivências, vulnerabilidades e contextos de vida, trazendo a combinação entre promoção da saúde e prevenção de doenças. O cuidado não pode se restringir à doença; deve contemplar o indivíduo em sua totalidade. As políticas públicas brasileiras, ao incorporarem a educação em saúde nos programas voltados para esse público, representam avanços na aplicação do princípio da integralidade, promovendo um cuidado mais sensível e eficiente (Traba et al, 2024)
RESPEITANDO OS SABERES DOS EDUCANDOS NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE
Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos e, Vidigal enfoca a importância do respeito ao saber e à cultura do outro no processo de educação em saúde.
“Educar implica envolver o adolescente na proteção do corpo dele e da coletividade. Nesse processo tem uma coisa muito importante que é o respeito ao saber e à cultura do outro.” (Vidigal)
O educador deve não apenas valorizar os conhecimentos que os estudantes, especialmente os de origem popular, trazem consigo para a escola — saberes estes construídos no contexto de suas vivências comunitárias —, mas também debater com eles a fundamentação e a relevância desses saberes em relação aos conteúdos abordados no processo de ensino (Freire, 2019)
No cotidiano, a população desenvolve um saber popular significativo, que, apesar de não ser sistematizado coletivamente, possui grande validez e importância. Esse saber não deve ser confundido com ignorância ou desconsiderado como superstição. Pelo contrário, ele serve como ponto de partida para a educação. Com o suporte do saber técnico-científico, esse conhecimento popular pode se transformar em um processo educativo eficaz, ajudando a organizar a população para defender seus próprios interesses (Guarnieri, 2021).
Em relação ao respeito à cultura do outro, que deve estar envolvida no processo de educação em saúde, apenas um profissional (Vidigal) mencionou esta questão diretamente.
A menção de Vidigal ao ‘respeito ao saber e à cultura do outro’ ecoa Freire (2019), mas falta discutir como esses saberes são operacionalizados. Guarnieri (2021) alerta que, sem uma escuta genuína, o diálogo entre saber técnico e popular pode ser apenas simbólico. Por exemplo: como os profissionais trabalham crenças locais sobre corpo e saúde? Há espaço para narrativas dos adolescentes sobre suas experiências? A fala de Rocinha (‘o indivíduo se vê em grupo’) sugere uma abertura, mas os dados não detalham se há metodologias (ex.: teatro, narrativas orais que concretizem essa valorização.
Porém, apesar dos outros profissionais de saúde não relatarem em suas falas, no decorrer das entrevistas, percebemos que esses profissionais envolvem esta questão em seus discursos.
Na literatura tem-se o conceito de cultura como sendo “um conjunto de comportamentos, saber e fazer característico de um grupo humano, características essas, adquiridas através de um processo de aprendizado e transmitidas aos demais membros do grupo” (Martini, 2022).
Apesar da ênfase no protagonismo juvenil, é revelado que os adolescentes não foram incluídos como participantes ativos da pesquisa, contradizendo, em parte, o princípio freiriano de que a educação deve ser construída “com” e não “para” os educandos (Freire, 2019). A integralidade no cuidado ao adolescente exige uma abordagem dialógica, onde esse jovem seja co-autor das ações em saúde, e não apenas receptor. Se, por um lado, os profissionais valorizam a comunicação participativa (Borel, Vidigal), por outro lado, a prática ainda parece ser centrada no saber técnico, sem a efetiva horizontalidade na construção do conhecimento (Guarnieri, 2021).
A atividade educativa deve ser mais do que simplesmente fazer com que as pessoas aceitem informações sem questionar. Muitas vezes, na prática, a educação em saúde é vista apenas como a transmissão de conhecimentos de maneira isolada, sem levar em conta a realidade e as necessidades reais dos indivíduos ou comunidades.
Nesse contexto, é fundamental respeitar o saber e a cultura do adolescente, reconhecendo que todos têm um conhecimento e uma história que não devem ser desconsiderados ao se confrontarem com o saber científico. O saber popular desempenha um papel importante na educação em saúde, pois contribui para a construção de uma relação de confiança, ao demonstrar respeito pelo adolescente como indivíduo com um conhecimento valioso.
A percepção dos profissionais sobre as práticas educativas em saúde voltadas para adolescentes
No quadro 2, a seguir, foram descritos os depoimentos dos participantes do estudo sobre práticas educativas com adolescentes.
Quadro 2 – descrição dos depoimentos das entrevistadas, Rio de Janeiro, 2004.
| Pseudônimo | Categorização profissional | Falas dos Entrevistados |
| Santa Marta | Médica – Ginecologista | “Não cabe a nós fazermos julgamentos, e se você julgar um adolescente ele nunca mais vai voltar para a atividade educativa.” |
| Mangueira | Enfermeira | “Temos que valorizar as coisas que eles trazem de suas vidas, coisas que aprenderam durante anos, escutar e trabalhar com eles o que poderia ser mudado”. |
| Vidigal | Psicóloga e Professora | “Deve-se trabalhar com o protagonismo do adolescente, com o seu potencial. Fortalecer a sua identidade de grupo, sua identidade comunitária, e colocá-lo também inserido neste mundo globalizado. A prática educativa em saúde é a relação do profissional com o paciente, que deve ser uma relação acolhedora. Nesse processo tem uma coisa muito importante que é a questão da comunicação”. |
| Rocinha | Enfermeira e Psicóloga | “A educação em saúde é uma coisa séria e a gente ainda vê como uma atividade complementar nos serviços de saúde. O profissional pode ajudar na prática educativa sendo bem treinado. Diz respeito a entender com clareza a prática educativa que ele está inserido, e para isso, ele deve se informar, não somente em relação ao conteúdo, mas em relação às pessoas que estão incluídas naquela prática educativa”. |
| Borel | Assistente Social | “A educação em saúde deve ter um contexto facilitador para que o adolescente se expresse nos momentos das atividades individuais e em grupos. A comunicação é fundamental no processo de educação em saúde. Ela tem que ter interatividade com o educando, percebendo o contexto que ele vive.” |
| Jacarezinho | Médica – Pediatra | “Não devemos priorizar os temas sozinhos, temos que ouvi-los para saber quais as necessidades deles. |
O PROTAGONISMO DO SUJEITO
O conceito de percepção, no sentido mais amplo, é caracterizado por um processo de cognição em que os procedimentos mentais se realizam mediante o interesse ou a necessidade de estruturar a nossa interface com a realidade e o mundo, selecionando as informações percebidas, armazenando-as e conferindo-lhes significado (Saes, 2024).
Durante a realização das entrevistas, percebemos que o discurso dos profissionais de saúde entre os adolescentes, frequentemente, se relaciona com a importância de se trabalhar com o protagonismo dos adolescentes. Vidigal, em sua fala abaixo, afirma que é necessário trabalhar com o potencial do adolescente.
“Deve-se trabalhar com o protagonismo do adolescente, com o seu potencial. Fortalecer a sua identidade de grupo, sua identidade comunitária, e colocá-lo também inserido neste mundo globalizado.” (Vidigal)
Indivíduos que têm a capacidade de se projetar para o futuro, como um projeto pessoal, profissional e/ou familiar são os que conseguem organizar melhor sua situação de vida presente (Lescura, 2022).
Borel e Vidigal destacam o papel da comunicação no processo de educação em saúde. No ato de comunicar, o adolescente ou o grupo traz seu repertório de ideias, conhecimentos, experiências e emoções que deseja tornar comum.
“A comunicação é fundamental no processo de educação em saúde. Ela tem que ter interatividade com o educando, percebendo o contexto que ele vive.” (Borel)
“Nesse processo tem uma coisa muito importante que é a questão da comunicação”. (Vidigal)
A comunicação dialógica e participativa é uma estratégia fundamental para a educação em saúde voltada para adolescentes. Esse modelo de comunicação promove o diálogo horizontal, onde todos os participantes são considerados ativos no processo de construção do conhecimento. Essa abordagem valoriza o contexto sociocultural dos adolescentes, permitindo que eles se reconheçam como agentes transformadores de sua própria realidade (Antonelli, et al, 2023).
A declaração de Borel e Vidigal sobre a importância da comunicação dialógica se alinha ao modelo participativo de educação em saúde (Figura 2), mas questiona-se se essa abordagem é realmente aplicada. Como é observado, muitas práticas ainda reproduzem um modelo vertical, onde o profissional dispõe o conhecimento e o adolescente é um ouvinte passivo. A declaração de Santa Marta “não cabe a nós fazermos julgamentos” indica uma postura aberta, entretanto, é necessário investigar se há estratégias institucionais que garantam esse não-julgamento (Antonelli et al., 2023).
Como aponta Lescura (2022), a percepção dos profissionais – ainda que valiosa – é insuficiente para avaliar o impacto real das práticas educativas, já que os adolescentes, principais destinatários, não foram ouvidos. Além disso, a predominância de mulheres na amostra (5/6) pode enviesar as falas, considerando que gênero influencia abordagens em saúde (Saes, 2024). Futuros estudos poderiam adotar métodos participativos, como os propostos por Antonelli et al. (2023), para captar perspectivas plurais.
Figura 2: Modelo participativo ou circular da comunicação

Fonte: Educação em Saúde – Planejando as Ações educativas (Teoria e Prática) NES/PROG. HANS – CVE, 2001.
A comunicação eficaz exige uma disposição genuína para se conectar com os outros e cultivar a vontade de dialogar com nossos interlocutores. É essencial que os adolescentes tenham a oportunidade de expressar suas emoções, ideias, temores e expectativas, e se vincular a grupos por meio de relações afetivas.
Nesse contexto, a educação em saúde deve ser um processo baseado no diálogo, indagação, reflexão, questionamento e ação compartilhada. O objetivo é capacitar os adolescentes a pensar de forma crítica e buscar alternativas que conduzam a uma melhor qualidade de vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa destaca a importância da educação em saúde para adolescentes, evidenciada através dos discursos dos profissionais de saúde que atuam de forma interdisciplinar. Eles ressaltam a necessidade de uma abordagem integral, que vá além da simples resolução de problemas de saúde, focando na formação cidadã dos adolescentes. Essa integração multiprofissional permite uma compreensão mais ampla das necessidades dos jovens, inovando o processo de trabalho em saúde e ampliando a eficácia das intervenções.
A integralidade nos cuidados de saúde proporciona um modelo de atenção que organiza o trabalho de forma a melhor atender às necessidades de um grupo populacional específico, como os adolescentes, por meio de ações coordenadas e de respostas às demandas espontâneas. No entanto, os profissionais de saúde precisam estar continuamente capacitados e atualizados, não apenas em relação ao conteúdo, mas também às particularidades das pessoas envolvidas nas práticas educativas.
Assim, embora o estudo revela avanços nas concepções dos profissionais sobre educação em saúde, ele também evidencia desafios não resolvidos: a necessidade de maior protagonismo adolescente, a superação de modelos comunicacionais verticais e a efetiva integração entre promoção da saúde e prevenção. Como sugerem Gomes (2024) e Tédde et al. (2024), isso exige não apenas mudanças individuais, mas transformações institucionais que priorizem a voz dos jovens e a intersetorialidade.
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