THE PERCEPTION OF COMMUNITY HEALTH WORKERS REGARDING THE IMPORTANCE OF PHYSICAL THERAPY IN PRIMARY HEALTH CARE IN THE MUNICIPALITY OF ESPIGÃO DO OESTE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512221330
Fernanda Rodrigues da Silva¹
José Henrique Nascimento Souza Junior²
Joana Dalva Ferreira³
Resumo
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e demanda atuação multiprofissional para garantir cuidado integral. Nesse contexto, a inserção do fisioterapeuta tem se ampliado, embora ainda seja marcada por desafios relacionados ao reconhecimento de suas atribuições. Este estudo teve como objetivo avaliar a percepção dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) sobre o papel do fisioterapeuta na APS no município de Espigão do Oeste – RO. Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, com abordagem mista, realizada com 32 ACS (71,1% do total), utilizando questionário eletrônico semiestruturado. As questões fechadas foram analisadas por estatística descritiva e as abertas por meio da Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados mostraram predominância feminina (84,4%) e elevada experiência profissional (93,8% com mais de 11 anos de atuação). Apenas 50% dos participantes já haviam trabalhado com fisioterapeutas na Estratégia Saúde da Família. Observou-se que 62,5% reconhecem que o tratamento fisioterapêutico é privativo do fisioterapeuta, porém 75% apresentaram compreensão inadequada sobre sua autonomia, acreditando que o profissional deve seguir rigorosamente a prescrição médica. Embora 90,6% reconheçam que a Fisioterapia não se restringe a pacientes acamados e 100% considerem possível sua atuação em educação em saúde, ainda há baixo reconhecimento da atuação em condições crônicas e em grupos terapêuticos. A análise qualitativa revelou que a Fisioterapia é vista majoritariamente como prática de reabilitação, com pouca associação a ações preventivas e coletivas. Apesar disso, os ACS demonstraram alta receptividade à inserção do fisioterapeuta nas equipes, ressaltando benefícios clínicos, suporte às famílias e potencial para melhorar a resolutividade da APS. Conclui-se que, embora haja reconhecimento parcial sobre o papel da Fisioterapia, persistem lacunas importantes no entendimento do escopo profissional, destacando a necessidade de educação permanente, fortalecimento do trabalho interdisciplinar e ampliação da presença do fisioterapeuta na Atenção Básica.
Palavras-chave: Fisioterapia. Atenção Básica. Agente Comunitário de Saúde. Saúde da Família.
1 INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) é considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e um dos pilares para a organização dos serviços de saúde no Brasil.
Segundo a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), atualizada pelo Ministério da Saúde (2017), a APS deve promover o cuidado integral e resolutivo, valorizando a atuação multiprofissional e o vínculo com os usuários. Nesse contexto, a presença do fisioterapeuta nas equipes de saúde da família contribui para o fortalecimento do cuidado longitudinal, preventivo e reabilitador.
A atuação fisioterapêutica na APS tem se ampliado nas últimas décadas, incluindo não apenas ações curativas, mas também educativas, preventivas e coletivas. De acordo com Bim et al. (2021), as principais práticas realizadas pelos fisioterapeutas nesse nível de atenção envolvem atendimentos individuais, visitas domiciliares e atividades em grupo, sendo influenciadas por fatores como políticas públicas, gestão local, perfil profissional e características do território.
No entanto, apesar do reconhecimento crescente, ainda há desafios para a consolidação dessa atuação. Amorim e Pretto (2017) apontam que a inserção do fisioterapeuta na atenção básica é limitada por barreiras estruturais, falta de clareza sobre suas atribuições e formação ainda centrada em modelos hospitalocêntricos. Esses fatores dificultam a integração plena do fisioterapeuta às equipes multiprofissionais e à lógica da APS.
A percepção dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) sobre a Fisioterapia é um aspecto importante a ser considerado, visto que esses profissionais atuam como elo entre a comunidade e os serviços de saúde. Um estudo de Batiston et al. (2020) revelou que os ACS associam a Fisioterapia majoritariamente à reabilitação individual e ao atendimento domiciliar, demonstrando pouco conhecimento sobre suas competências em promoção da saúde e educação coletiva.
Com o intuito de compreender essa relação, Silva et al. (2024) desenvolveram e validaram um questionário para avaliar a percepção dos ACS sobre condições sensíveis à Fisioterapia na APS. Os resultados indicaram lacunas no reconhecimento da amplitude da atuação fisioterapêutica, reforçando a necessidade de estratégias de educação permanente e maior integração entre os membros da equipe.
Diante disso, torna-se evidente a importância de investigar a percepção dos ACS sobre o papel do fisioterapeuta na APS, a fim de identificar fragilidades no trabalho colaborativo e propor medidas que valorizem a atuação desse profissional como agente fundamental na promoção da saúde, prevenção de agravos e fortalecimento da integralidade do cuidado.
2 METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, realizada com abordagem mista (quantitativa e qualitativa) no município de Espigão do Oeste – RO. A pesquisa foi desenvolvida após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), respeitando os aspectos éticos previstos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.
O estudo teve como universo os 45 Agentes Comunitários de Saúde (ACS) que atuavam na Estratégia Saúde da Família (ESF) no referido município. A amostra foi composta por 32 ACS (taxa de resposta de 71,1%) que atenderam aos critérios de inclusão, que eram: estar em exercício profissional regular no período da coleta de dados e manifestar o consentimento por meio da assinatura digital do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), disponível no início do formulário. Os profissionais afastados por licenças foram excluídos.
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário eletrônico semiestruturado, elaborado com base em instrumentos já utilizados e validados na área. O formulário foi disponibilizado de forma remota, via Google Forms, durante o horário de expediente dos ACS e cada profissional respondeu de forma individual e anônima. O questionário abrangeu perguntas fechadas e abertas sobre dados sociodemográficos, experiências profissionais e percepções sobre a atuação fisioterapêutica na Atenção Básica, o tempo de resposta ao questionário foi de aproximadamente 15 minutos.
Os dados foram submetidos a diferentes técnicas de análise. As questões fechadas (dados sociodemográficos, tempo de atuação e conhecimento objetivo sobre o escopo profissional) foram analisadas por meio de estatística descritiva, utilizando frequência absoluta (n) e percentual (%). As questões abertas, que abordavam a percepção e as considerações finais sobre a atuação fisioterapêutica, foram analisadas seguindo as etapas da Análise de Conteúdo de Bardin, com foco na formação de categorias temáticas.
A pesquisa referente a este estudo respeitou a todos os critérios éticos, sendo aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa União Das Escolas Superiores De Ji-Paraná – Unijipa com o número de protocolo: 8.024.640 e todos os participantes assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando sua participação, conforme resolução CNS nº 466/2012.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise dos dados foi realizada com base em estatística descritiva (frequência absoluta e percentual) para as questões fechadas e na Análise de Conteúdo de Bardin para as questões abertas. Participaram do estudo 32 (71,1%) dos 45 Agentes Comunitários de Saúde (ACS) em serviço no município de Espigão do Oeste – RO.
Em relação às características sociodemográficas observou-se alta predominância feminina (84,4%) e profissionais experientes com mais de 11 anos de atuação em serviço (93,8%), em relação a ESF (50%) relatou nunca ter trabalhado com a presença de um fisioterapeuta na equipe, o detalhamento das variáveis sociodemográficas referente aos ACS, estão descritas na tabela 1.

Os ACS foram questionados sobre as atribuições do fisioterapeuta na atenção primária a saúde e os resultados demonstram que apenas (62,5%) possuem um conhecimento adequado de que o tratamento fisioterapêutico deve ser realizado exclusivamente por fisioterapeutas, não podendo ser executado por outros profissionais. Já na autonomia do fisioterapeuta observou-se que (75%) possuem um conhecimento inadequado de que o fisioterapeuta deve seguir rigorosamente a prescrição do profissional médico.
Entre os ACS entrevistados (90,6%) possuem um conhecimento adequado de que a fisioterapia na APS não se restringem a apenas pacientes acamados e (75%) acreditam que o fisioterapeuta pode atuar na atenção básica mesmo com falta de equipamentos podendo atuar também com educação em saúde como (100%) dos ACS afirmaram (tabela 2).
Ainda foi investigado sobre o conhecimento dos ACS sobre as situações nas quais a fisioterapia seria indicada e os resultados apontam que as situações que menos tem reconhecimento da atuação fisioterapêutica é os grupos terapêuticos (15,6%) e as doenças crônicas como a hipertensão arterial (28,1%) e a diabetes melittus (31,3%) (tabela 3)



Percebe-se que, na visão dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), o papel do fisioterapeuta na Atenção Primária à Saúde (APS) permanece fortemente associado às práticas de reabilitação, em detrimento das ações de promoção e prevenção em saúde. Essa compreensão se confirma na análise das respostas à pergunta aberta “Em sua visão, o que o fisioterapeuta faz na Atenção Básica?”. As falas evidenciam uma percepção restrita, centrada predominantemente no tratamento de sequelas e no atendimento domiciliar de casos complexos, o que reflete o histórico de atuação da Fisioterapia no âmbito do NASF e da assistência domiciliar.
“Ajuda os reabilitar os pacientes.” (ACS x)
“Ajuda na reabilitação e bem estar dos pacientes, como quem tem problema de locomoção.” (ACS Y)
“Faz falta por que não temos uma profissional nesta área principalmente para reabilitação” ACS Z)
Por outro lado, apenas uma parcela reduzida dos participantes reconhece o potencial do fisioterapeuta para desenvolver ações preventivas e de promoção da saúde, bem como sua integração às práticas coletivas da APS. Esse dado demonstra que o conhecimento sobre a atuação ampliada da Fisioterapia ainda está em construção entre os ACS.
“Atua na prevenção e promoção da saúde, e reabilitação. Trabalhando com a equipe da atenção básica para melhor atender os pacientes.” (ACS N)
“Ele atua orientando pacientes a como lidar com a reabilitação em certos casos. Promovendo saúde e bem estar para o dia a dia do paciente.” (ACS M)
Tal cenário torna-se compreensível quando se considera que a Fisioterapia é uma profissão relativamente recente no Brasil, regulamentada pelo Decreto nº 938/69, que estabeleceu suas atribuições e reconheceu o fisioterapeuta como profissional de nível superior, garantindo seus atos privativos.
No entanto, a autonomia profissional do fisioterapeuta ainda se apresenta pouco clara para grande parte dos ACS, que frequentemente vinculam a conduta fisioterapêutica à prescrição médica. Além disso, a exigência, por parte do SUS e de planos de saúde, de encaminhamento médico para acesso ao tratamento fisioterapêutico contribui para reforçar essa percepção limitada e interfere na compreensão social sobre o real escopo de atuação da categoria.
Grande parte do ACS concordam de forma assertiva de que o fisioterapeuta pode desenvolver ações de educação em saúde como visitas domiciliares compartilhadas, educação popular em saúde, ações de campanha com palestras e atuações multiprofissionais.

Foi observado possível que haja interferência na percepção que os outros trabalhadores possuem acerca de suas atribuições, assim como os ACS deste estudo, que possuem uma visão limitada sobre a gama de possibilidades de ações em que a Fisioterapia pode contribuir para a APS, reconhecendo, por exemplo, atendimentos individuais como principal forma de atuação neste âmbito de atenção, dando pouco destaque às ações coletivas a grupos específicos e de distintas faixas etárias. É bastante provável que a percepção que os ACS têm sobre a fisioterapia advenha do senso comum da sociedade e não de sua vivência profissional, uma vez que neste estudo, poucos relataram terem experenciado o trabalho em equipe na qual o fisioterapeuta estava inserido. A mesma limitação sobre as possibilidades de atuação do fisioterapeuta, aparentemente, é compartilhada pelos gestores, motivo pelo qual a inserção do fisioterapeuta na APS está aquém das necessidades da população.
A investigação sobre a receptividade dos ACS à inclusão do fisioterapeuta nas equipes de Saúde da Família revelou um elevado grau de aceitação da presença desse profissional. As respostas demonstraram reconhecimento da efetividade da Fisioterapia na melhoria dos indicadores de saúde e expressaram o desejo da ampliação dessa atuação no território. Observou-se que a inserção (mesmo que parcial) do fisioterapeuta já produz impacto positivo, favorecendo a confiança da categoria e evidenciando lacunas que poderiam ser supridas com maior participação desse profissional nas equipes. Além disso, destaca-se a valorização das contribuições da Fisioterapia para o cuidado domiciliar e para o suporte às famílias, elementos que dialogam diretamente com o trabalho cotidiano dos ACS e reforçam o potencial de uma prática articulada e interdisciplinar.
“Minha experiência em relação a fisioterapia é excelente pois sempre tem ótimas melhoras no quadro clínico dos pacientes. Com resultados maravilhosos.” (ACS H)
“Seria muito interessante ter uma fisioterapeuta em cada equipe.” (ACS P)
“Em visita domiciliar, vejo a importância de se conhecer o trabalho do fisioterapeuta.
É de grande importância, visando a recuperação dos pacientes e orientando os familiares.” (ACS Q)
Esta última citação sublinha o papel do fisioterapeuta na educação em saúde e no apoio à família, que é um ponto de interseção crucial com o trabalho do próprio ACS, indicando potencial para uma parceria interdisciplinar eficaz.
4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste estudo evidenciam que, embora os Agentes Comunitários de Saúde apresentem conhecimentos relevantes sobre alguns aspectos da atuação fisioterapêutica na Atenção Primária à Saúde, ainda persiste uma compreensão limitada sobre a amplitude e a complexidade do trabalho do fisioterapeuta nesse nível de atenção. A predominância da associação da Fisioterapia à reabilitação, observada tanto nas respostas fechadas quanto na análise qualitativa, demonstra que o imaginário profissional e social ainda está fortemente ancorado no modelo biomédico e nas práticas tradicionalmente vinculadas ao NASF e à assistência domiciliar.
A baixa identificação do fisioterapeuta como agente de promoção e prevenção em saúde, aliada ao desconhecimento acerca de sua autonomia profissional, evidencia lacunas na formação e na integração das equipes multiprofissionais. Essas lacunas também se refletem na limitada experiência dos ACS em trabalhar diretamente com fisioterapeutas, o que reforça percepções baseadas mais no senso comum do que na prática colaborativa. Além disso, a insuficiente presença desse profissional na APS (muitas vezes restrita ou inexistente no território) contribui para manter uma visão reduzida sobre o potencial da categoria.
Apesar disso, o estudo revela elevada receptividade dos ACS à inclusão do fisioterapeuta nas equipes de Saúde da Família, bem como reconhecimento de sua efetividade na melhoria dos quadros clínicos, no cuidado domiciliar e no apoio às famílias. Essa valorização indica que a ampliação da inserção do fisioterapeuta na APS pode fortalecer a resolutividade das equipes e qualificar o cuidado ofertado à população.
Diante desses achados, conclui-se que há necessidade de ampliar estratégias de educação permanente, fortalecer práticas interprofissionais e promover maior inserção do fisioterapeuta no cotidiano das equipes de Atenção Básica. Recomenda-se, ainda, que novos estudos investiguem a percepção de gestores, usuários e demais profissionais da saúde, de modo a contribuir para a consolidação do papel da Fisioterapia na APS e para a construção de modelos assistenciais mais integrados e resolutivos.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: MS, 2017.
BATISTON, A. P. et al. Atuação do fisioterapeuta na Atenção Primária à Saúde: o que sabem os Agentes Comunitários de Saúde? Cadernos de Educação, Saúde e Fisioterapia, v. 6, n. 12, 2020. DOI: 10.18310/2358-8306.v6n12.a13.
SILVA, G. B. M. et al. Construção e validação do questionário de percepção dos Agentes Comunitários de Saúde sobre condições sensíveis à fisioterapia na Atenção Primária. Fisioterapia em Movimento, v. 37, 2024. DOI: 10.1590/fm.2024.37101.0.
AMORIM, Juleimar Soares Coelho de; PRETTO, Alana. Revisão da literatura sobre a atuação do fisioterapeuta na Atenção Primária à Saúde: desafios, competências e experiências. Revista Movimenta, Cascavel, v. 10, n. 1, p. 94–107, 2017. ISSN 1984-4298.
BIM, Cíntia Raquel et al. Práticas fisioterapêuticas para a produção do cuidado na atenção primária à saúde. Fisioterapia em Movimento, v. 34, p. e34109, 2021.
¹Residente em Saúde da Família – Núcleo de Fisioterapia
Residência Multiprofissional em Saúde da Família de Espigão do Oeste
E-mail: fisio.fernandasilva00@gmail.com
²Mestre em Ciências da Saúde
Residência Multiprofissional em Saúde da Família de Espigão do Oeste
E-mail: Jr.fanorte@gmail.com
³Pós-graduada em Fisioterapia em Unidade de Terapia Intensiva
Residência Multiprofissional em Saúde da Família de Espigão do Oeste
E-mail: jdalvaf@gmail.com
