REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202507161110
Roberto James Lima Leite1
RESUMO
O objetivo deste estudo foi verificar se a nomenclatura “bandeira branca” influencia no padrão de qualificação e no processo decisório do consumidor. A pesquisa é de natureza quantitativa, exploratória e descritiva, com aplicação de questionário online a uma amostra de 200 participantes. A média de idade foi de aproximadamente 40 anos, com predominância do gênero masculino. Os resultados demonstraram que a confiança média atribuída aos postos “bandeira branca” foi de 2,79 (DP = 1,57), enquanto os “bandeirados” receberam média de 5,34 (DP = 1,21). Além disso, 90,2% dos consumidores já evitaram abastecer em postos desconhecidos por não reconhecerem a marca. O teste do qui-quadrado de Pearson indicou tendência de associação entre o perfil do respondente e a percepção de que a nomenclatura é discriminatória (χ² = 2,74; p = 0,097). Conclui-se que a nomenclatura pode impactar negativamente a imagem dos postos independentes, sendo necessário repensar estratégias de posicionamento e comunicação.
PALAVRAS-CHAVE: bandeira branca, imagem de marca, postos de combustíveis, comportamento do consumidor, percepção.
ABSTRACT
This study aimed to verify whether the term “white flag” affects consumer perception and decision-making. A quantitative, exploratory, and descriptive survey was conducted with 200 respondents—133 consumers, 37 fuel retailers, and 30 fuel station employees. The average age was approximately 40 years, with a male majority. The findings showed that trust in “white-flag” stations was rated at an average of 2.79 (SD = 1.57), while “branded” stations received an average of 5.34 (SD = 1.21). Additionally, 90.2% of consumers admitted to avoiding unfamiliar fuel stations due to brand unfamiliarity. Pearson’s chi-square test indicated a tendency of association between respondent profile and the perception that the term is discriminatory (χ² = 2.74; p = 0.097). The results suggest that the “white flag” label may harm the image of independent stations, highlighting the need to revise branding and communication strategies.
KEYWORDS: white flag, brand image, fuel stations, consumer behavior, perception.
INTRODUÇÃO
Uma das grandes mudanças do mercado brasileiro foi quando posto revendedores foram autorizados a vender combustível sem precisar ter um contrato com alguma distribuidora fornecedora. Esse mercado de contratos de exclusividade colocava o poder da dinâmica de precificação centrada em apenas poucos agentes.
É importante ressaltar que a quantidade de acesso e opções de compra do produto a ser revendido, aumenta a concorrência e, assim, o mercado revendedor atende seu consumidor que busca mais competitividade por ser um indivíduo mais exigente. Se o cliente possui mais de uma opção de posto de gasolina próximo de sua residência, ele usufrui da vantagem de escolher o que melhor lhe atende, seja em qualquer um dos aspectos que façam parte do seu processo de decisão.
Sendo fundamental, em qualquer estrutura de estudo, entender o processo de escolha. A quantidade de postos de combustíveis, no Brasil, cresceu acima de 10% nos últimos 10 anos, o que mostra uma quantidade maior de pontos de vendas disponíveis para atender a quantidade de frota de veículos que também cresceu em proporção até maior. Esse aumento de oferta traz para o consumidor um leque maior de opções de escolhas e demonstra a importância de se entender os fatores determinantes desse processo decisório.
Existe hoje uma movimentação grande de postos de combustíveis sendo instalados, que aparecem a cada dia, formando uma cadeia de abastecimento maior e mais atrativa ao consumidor. Aumentando as opções de acesso ao consumidor vemos um aspecto inerente ao varejo, que deve ser destacado com atenção, quando se trata da localização do ponto de venda. Algumas empresas e setores do varejo dependem muito do fator de localização dos pontos de venda para poder tornarem-se atrativos aos olhos do consumidor.
Porém, existe uma linha de pensamento muito exposta por algumas partes dos setores envolvidos, que o surgimento de postos revendedores que não ostentem marca de nenhuma distribuidora conhecida, ou pertencente aqueles círculos, estariam desenvolvendo um mercado paralelo de sonegação, e produtos adulterados. Apesar de muito difundido, não se consegue delimitar exatamente quem ou quando essa campanha velada iniciou. Até mesmo na mídia é fácil de encontrar, em matérias de décadas passadas, esse tipo de informação difamatória, em que a reportagem de um importante periódico nacional, dá conselhos aos consumidores de como evitar combustível adulterado:
“O primeiro passo é evitar postos de bandeira branca, isto é, aqueles sem marca da distribuidora. Eles costumam ter altos níveis de irregularidades. Baixos preços, apesar de atrativos, podem ser sinal de perigo. Desconfie de valores muito abaixo dos praticados pelo mercado.”
Informações como essas vem circulando há décadas colocando uma exposição irregular sobre a opção de escolha de uma marca de distribuidora conhecida ou não ou como é conhecida a marca comercial de terceiros. Isso vem sempre lesando os revendedores que se propuseram a utilizar de sua própria marca e escolhendo o fornecedor que melhor condições comerciais tiver.
Em estudos recentes pode-se entender que a marca tem um processo importante no processo de decisão de escolha do consumidor, isso pode ter uma certa influência nesse processo de difamação daqueles postos revendedores que não ostentam marcas conhecidas ou estão apenas com marcas próprias, hoje conhecidas legalmente como bandeiras brancas.
Segundo Nasr e Santos:
“Os postos de bandeiras são aqueles que exibem a marca comercial de uma distribuidora de combustível, e por força de contrato, comercializam apenas combustíveis(gasolina) fornecidos pelo distribuidor, detentores das marcas comerciais exibidas. Estes postos podem pertencer às próprias distribuidoras, sob forma de operação terceirizada, já as distribuidoras não podem operar, diretamente, postos de revenda, ou serem franqueados a proprietários individuais. Os demais postos que não exibem a marca comercial do distribuidor, conhecido como postos de bandeira branca, não se apresentam com vínculo a nenhuma distribuidora, podendo adquirir combustíveis de qualquer empresa autorizada pela Anp.” .
Esta forma de ver o mercado pode ser um grande causador desse processo de entendimento do consumidor em não enxergar certa qualidade nos postos que não ostentam marcas conhecidas. Isso vem sendo induzido de forma sistemática por empresas e órgãos que defendem as grandes empresas do setor. Mas a realidade de adulteração e sonegação de impostos é inegável e não se pode deixar de lado. Segundo o Icl (Instituto combustível legal):
“O mercado de combustíveis é o primeiro em arrecadação na maioria dos estados, com R$ 81 bilhões gerados anualmente pelos tributos estaduais (Icms e Fundo Estadual de Combate à Pobreza e às Desigualdades Sociais) e R$ 49 bilhões em tributos federais (Pis/Cofins e Cide). É um setor que gera 600 mil empregos diretos e indiretos, por meio de 19 refinarias, três petroquímicas, 270 usinas de etanol, 51 produtores de biodiesel e 534 importadores de petróleo e derivados, entre outros números impressionantes. Fazem parte desse sistema cerca de 41 mil postos de combustíveis e 130 cidades com bases de distribuição, abastecidos por 157 distribuidoras. Considerado o oitavo maior mercado do mundo, o comércio brasileiro de combustíveis move e sustenta a economia, motores e milhões de vidas.”.
Um mercado tão grande assim não consegue ficar imune à sonegação. A questão é que durante anos esses pecados do mercado eram jogados sobre os ombros dos postos revendedores que não ostentavam marcas de distribuidoras conhecidas, ou marcas comerciais de terceiros, de uma forma implícita que denotava que se não tivesse uma marca conhecida por trás, de uma grande distribuidora, possivelmente esse produto estava adulterado.
Assim como a marca, a localização do empreendimento tem uma função importante no processo de atrair os consumidores para acessar o produto da empresa, como dito por Elias e Camargo Jr. (2008), cada vez mais as empresas buscam novas oportunidades de oferta, visando a aumento de atendimento aos clientes com novos pontos de vendas, novos canais e acessos à compra. Assim, ficam mais próximos de seus potenciais consumidores para manter e adentrar novos mercados, aumentando faturamento e resultados. São estratégias de facilidade em acessos aos locais de compra, de facilidade de financiamento ou de promoções criativas para atrair consumidores.
Entre estes pontos pode-se ressaltar que a utilização de marca comercial de terceiros ou própria, não emite prejuízos diretamente ao consumidor e que outros fatores são relevantes nessa qualificação. Mesmo a ANP (Agência Nacional do Petróleo) já desmistificou essa questão como visto na matéria:
“A Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) apontou que a gasolina de postos fidelizados, que carregam marcas das distribuidoras, tem qualidade similar aos postos sem bandeira. “No mês de referência, o percentual de amostras conformes em postos ‘bandeira branca’ foi de 97%; para os postos ‘bandeirados’, de 98%”, disse relatório da ANP referente a julho.”
Se a agência máxima e reguladora entende que ostentar ou não marca comercial de terceiros não é determinante para identificar a adulteração de combustíveis, fica claro que somar esse desgaste a quem opta por marca própria é danoso e prejudicial ao mercado como um todo, visto que os postos que ostentam marca própria têm a tendência de ter preços mais baixos e com isso regula o mercado para baixo.
OBJETIVO GERAL
Verificar se a nomenclatura bandeira branca causa impacto na decisão de compra do consumidor.
Objetivos específicos
• Identificar se o consumidor entende a diferença entre as nomenclaturas bandeira branca e bandeirado;
• Verificar se a utilização da nomenclatura Bandeira Branca reflete uma má reputação sobre a revenda optante;
• Descobrir qual outra opção de nomenclatura seria mais adequada ao mercado que não ostenta marca de distribuidora.
Esse artigo está estruturado em seções, no primeiro momento, é apresentada a Introdução, que reúne a contextualização do problema, a justificativa e relevância do estudo e os objetivos traçados.
Na segunda seção conta com o referencial teórico, no qual são demonstrados os conceitos e análises dos principais autores na área de comportamento do consumidor e mercado. É importante ressaltar que a evidenciação teórica complementa a estrutura da pesquisa prática ao se colher as informações dos consumidores, revendedores e profissionais do mercado. Ainda assim, a apresentação das mudanças no setor, sua importância no processo de formação do mercado e seu crescimento.
Na terceira seção é apresentado o tratamento metodológico do trabalho, em que é detalhado o tipo de estudo, os participantes, o procedimento de coleta e análise dos dados adotados para esta pesquisa.
Na quarta parte são apresentados os resultados do estudo e sua discussão. Por fim, a última seção, conta com a Conclusão do trabalho, sintetizando, assim, os achados, limitações e sugestões para futuras investigações na área.
REFERENCIAL TEÓRICO
O processo de identificação de uma marca conhecida leva o consumidor a ter mais segurança no processo de escolha e assim qualquer investimento nesse sentido pode trazer resultados de confiabilidade à empresa. (Nasr & Santos, 2007) mostrou isso claramente quando disse: “Os consumidores que procuram por qualidade do combustível estão dispostos a pagar um preço relativamente mais elevado ou premium quando comparado àqueles praticados pelos postos sem bandeira.” A identificação da marca agrega um valor de segurança para o consumidor que facilmente reconhece e se sente à vontade ao abastecer naquele estabelecimento.
Dentro dessa busca pela segurança o consumidor se depara com a expressão bandeira branca que parece ser qualquer coisa sem identificação, sem comparação tangível com algo que passe segurança, confiança ou estabilidade. Nos tempos de hoje pode-se fazer um paralelo a esse tipo de expressão que denota subentendimentos racistas na utilização da palavra branca dentro da nomenclatura indicativa dos postos que não ostentam marcas de terceiros.
Embora que, de forma inconsciente, o consumidor tende a fazer certas ligações com esse paradigma entre branco e preto no consumo em geral, a utilização desse tipo de expressões, antes tão utilizadas cotidianamente, hoje são evitadas como por exemplo as expressões: “amanhã é dia de branco”, “isso não é coisa de branco”, “preto de alma branca”, “inveja branca” entre outras. A simples utilização da expressão branca já remonta essa dualidade entre raças aqui no Brasil e a tendência é que o consumidor enxergue essa nomenclatura com ressalvas a cada nova geração.
Nesta luta de se tornar o indivíduo mais consciente das questões de igualdades a referência a expressões de cor pode prejudicar o entendimento e a aceitação dos consumidores, principalmente os mais jovens e engajados nas causas sociais. Como disse Eurico:
“Em última análise, o uso de terminologias diversas, conflitantes entre si, também cumpre o papel de reprodução do racismo institucional, à medida que seus interlocutores podem construir respostas falseadas para problemas reais. Preta e parda, entendidas como cores, correspondem às construções sociais, assim como as outras categorias, e o IBGE as adota para classificar a população negra no Brasil” (Eurico, 2018)
A utilização de nomenclatura com expressões que podem desencadear uma compreensão racista pode enfim trazer prejuízos de conceito e confiança junto às novas gerações e prejudicar mais ainda a popularização da independência de mercado dos revendedores de poder optar por qual marca comercial para seu estabelecimento usar.
Nos dias de hoje, não se tem como fugir disso. Dentro do processo de construção de confiança que o consumidor tem, em sua memória, utilizar a expressão bandeira branca pode além de não trazer benefícios, prejudicar aqueles revendedores que escolhem não contratar uma marca de terceiros para o seu negócio e estão fadados a serem taxados de algo não é bom, mesmo que não verbalmente, mas no resultado da escolha dos consumidores serão postos de lado.
Por isso é importante entender que uma simples expressão pode colocar o posto de combustíveis dentro de uma visão de negócios que não presta, que está associado a má qualidade, como no racismo e assim ser rechaçado pelo consumidor, mesmo que muitas vezes inconscientemente, decide por não consumir naquele posto por não se sentir bem com a nomenclatura.
A marca é importante nesse processo de construção de confiabilidade, como bem colocado por Tavira:
Para Barich e (Kotler, 1991), a imagem da marca é conceituada pelo modo como as pessoas percebem tal marca em relação a seus concorrentes, já a imagem do produto significa a soma de convicções, atitudes e impressões que uma pessoa ou grupo tem sobre um objeto (companhia, produto, lugar, pessoa).”
Toda a construção de confiabilidade é feita através da marca e de vários fatores que são agregados à memória do consumidor. Então, quando se coloca um grupo de postos revendedores de combustíveis, dentro de uma especificação desencontrada com a realidade de consumo do momento, isso prejudica a percepção de confiança detectada pelo consumidor, mesmo que de forma inconsciente, criando uma barreira subjetiva de forma a nem sequer colocar na balança julgadora a possibilidade de abastecer em um posto que não ostente marcas famosas.
A ideia de marca estabelece parâmetros dentro da mente do consumidor em que, quando relacionados, refletem confiança ou não, veja o que disse Silva:
“A atenção desempenha um papel importante na percepção e segundo (Kapferer, 1995), a atenção é a alocação de energia física na descodificação de parte de um campo visual. A visão parte do geral para o particular, da aproximação para a exatidão, do macro para o micro. De acordo com este autor, um consumidor com um nível de atenção médio descodifica visualmente a informação macro da embalagem, isto é, cores, formas, disposição gráfica e logotipos.”.
Quando o processo de escolha do consumidor está em ação a memória tenta balizar a decisão utilizando fatores conhecidos e os relacionando com os demais existentes. É como se tivéssemos uma votação interna em que as imagens se sobressaíssem numa tentativa de julgar se esse estabelecimento é ou não confiável. Por isso a importância de se ouvir o cliente, estar atento às demandas, como dito por Leite, é preciso entender a importância da marca, estabelecer parâmetros que possam ser julgados pelo consumidor e atender um mínimo de padrão para ter uma aceitação dentro do mercado. Sendo assim é importante ressaltar que a revenda de combustíveis tem um desafio enorme além da questão relacionada à nomenclatura bandeira branca e sim de constituição de uma marca própria e de construir o caminho de aceitação e confiabilidade sem ter o fantasma do termo bandeira branca nas costas.
Entender essa influência que a marca tem sobre o valor do produto, enxergado pelo consumidor, é fundamental nessa construção. Só que a participação dela no processo decisório vai além de agregar valor. Dentro do desenvolvimento da escolha do cliente, a marca traz muitos pontos que transcendem a sua “logomarca” e que transmitem segurança e confiabilidade ao cliente. Ao entender quais desses pontos impactam no posto de revendedor, o trabalho fundamental agora é desenvolver a escolha, definição, caracterização, criação e desenvolvimento de sua marca. Marcas como The Coca-Cola Company; Apple; Volkswagen do Brasil entre outras não são construídas apenas com suas logos e imagens. Tem muito mais por trás, que reforça o sentimento de confiança do cliente, do que simplesmente suas formas e cores.
Como desenvolver esse processo depende da forma como sua empresa ou negócio quer ser visto pelo cliente. Ao tentar entender quais pontos fundamentais são utilizados pelo consumidor no processo de decisão de compra, encontramos essa vertente importantíssima: A marca! Muitos pensam a marca como slogan ou a logomarca da empresa ou produto. Ela vai muito além disso. Pode-se usar os termos de conceito, identidade, proximidade, identificação e relacionamento de confiança. A maior parte do processo decisório é inconsciente, por isso explicado por alguns especialistas como “emocional”, e sendo assim o varejo precisa entender como sua marca – imagem impacta na memória do cliente.
A importância de uma marca no processo decisório do consumidor transcende a questão da identificação ou lealdade. Como dito por Silva:
“Entre os fatores que contribuem para a lealdade às marcas estão a percepção da adequação do desempenho da marca, a identificação social e emocional com a marca, o hábito de uma longa história de uso. Contrariamente, entre os fatores que impedem a lealdade às marcas estão a paridade de marcas, a atividade promocional da concorrência, a busca de variedade, o baixo envolvimento com o produto e a sensibilidade a preços (Sheth et al., 2001).”
Entende-se que a marca é essencial para que o consumidor enxergue qualquer valor ou tenha alguma percepção de confiança ao se deparar de forma repetida com aquelas cores, formas, padrões e processos. Quando utilizado expressões que denotam distinção entre produtos com marcas e produtos sem marcas, automaticamente o consumidor passa a rejeitar a segunda opção. Essa familiaridade é produzida através do relacionamento do cliente com o produto ou serviço por trás daquela marca.
Definir a relação do consumidor entre sua lealdade a marca traz a reflexão de que a possível indiferença percebida por ele ao ter enquadrado os postos revendedores que não ostentam marcas de terceiros, é fator fundamental de repulsa e de perda de confiança. Dentro desse posicionamento é claro que ao diferenciar marcas terceirizadas com marcas próprias o mercado direciona um processo de separação em que a expressão de ter bandeira é melhor que não ter. Sendo que todos os postos de revendedores que possuem sua marca ou marca de terceiros pode ser considerado como bandeirado. Por isso fica claro que essa distinção é prejudicial ao mercado, ao revendedor e ao consumidor.
Se entende que marca diferencia os produtos dos concorrentes como dito por:
“Uma marca é um nome e/ou símbolo distintivo (como um logotipo, marca registrada ou design de embalagem) destinado a identificar os bens ou serviços de um vendedor ou um grupo de vendedores, e diferenciar essas mercadorias ou serviços dos concorrentes. Assim, uma marca sinaliza para o cliente a origem do produto e protege tanto o cliente quanto o produtor de concorrentes que tentariam fornecer produtos que parecem ser idênticos.”
Quando o consumidor está nesse processo de relacionamento com a marca a percepção depende de como esta lhe é apresentada, isso influencia diretamente no posicionamento de importância para o cliente no momento de decisão. Sendo assim importante definir critérios de nomenclatura que não indiquem ausência dessa possibilidade de ligação entre o produto vendido é uma marca reconhecida mesmo que não seja marca de terceiros.
Dentro dessa expectativa do consumidor de encontrar uma marca e reconhecê-la como relevante e confiante para si mesmo, tem-se um enorme caminho de construção e valorização dessas marcas em que um trabalho massivo deve ser feito como forma de garantir exposição consistente ao processo de reconhecimento por parte do cliente. Por isso não se pode simplesmente alterar a nomenclatura, mas buscar um trabalho de reconhecimento dessa mudança.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa de viés quantitativo, exploratório, descritivo, em que se aplicou um questionário, a fim de verificar quais fatores são determinantes na escolha e consumo em postos de combustíveis. Toma-se como metodologia o caminho entre prática e pensamento que se manifesta na/para interpelação da realidade. Ou seja, a metodologia compreende simultaneamente o(s) método(s), as técnicas, os instrumentais e a criatividade do pesquisador (Minayo, 2012).
População/amostra da pesquisa
Participaram do estudo 200 respondentes, divididos em três perfis distintos: 133 consumidores de combustíveis (66,5%), 37 revendedores (18,5%) e 30 funcionários de postos de combustíveis (15%). A amostragem foi do tipo não probabilística por conveniência, realizada por meio de formulário eletrônico distribuído em canais digitais. A média de idade dos respondentes foi de aproximadamente 40 anos, com predominância do público masculino. Os participantes são oriundos de diferentes estados do Brasil, com destaque para o Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Santa Catarina. A diversidade da amostra permite análises comparativas entre os perfis e oferece indicativos relevantes sobre o comportamento do consumidor em relação à percepção do termo ‘Bandeira Branca’.
- Critério de inclusão: possuir carro próprio ou alugado, sendo principal responsável pelo abastecimento do veículo;
- Critério de exclusão: não possuir veículo automotor, ou não ser o responsável financeiro pelo abastecimento do mesmo.
Instrumento
Para a coleta de dados deste estudo, foi utilizado um questionário estruturado, elaborado pelo autor, com base em literatura sobre comportamento do consumidor, percepção de marca e estudos do setor de combustíveis. O instrumento teve como objetivo compreender a percepção dos respondentes sobre a nomenclatura “bandeira branca”, sua relação com a imagem dos postos revendedores e os fatores que influenciam a decisão de abastecimento.
O questionário foi dividido em quatro blocos principais:
- Bloco sociodemográfico: coleta de dados como idade, gênero, estado de residência e faixa de renda (questões de 1 a 6).
- Bloco de percepção e experiência de mercado: inclui perguntas direcionadas a revendedores e trabalhadores do setor, como percepção sobre perda de clientes e reclamações ligadas à bandeira branca (questões de 7 a 10).
- Bloco de conhecimento e confiança: investiga o grau de familiaridade com os termos “bandeira branca” e “bandeirado”, bem como a confiança atribuída a cada tipo de posto, usando escala de Likert de 1 a 7 (questões de 15 a 18).
- Bloco de comportamento do consumidor e imagem: aborda se o respondente já evitou algum posto por não reconhecer a marca, qual nomenclatura prefere utilizar e sugestões de nomes alternativos para postos sem bandeira (questões de 11, 19, 20 e 21).
A estrutura das questões foi pensada para colocar o participante diante de situações reais do cotidiano de consumo, favorecendo respostas que representem sua experiência prática. O questionário contou com perguntas fechadas (escolha única e múltipla) e perguntas abertas para expressão de opinião livre, totalizando 21 itens.
A construção do instrumento foi inspirada em modelos de estudos sobre comportamento de consumo, como o de Engel et al. (2000), e adaptada à realidade do mercado de combustíveis no Brasil. Além disso, foram observadas as recomendações metodológicas de Borsa & Seize (2017) e Carvalho & Ambiel (2017), respeitando tanto o construto investigado quanto às especificidades do público-alvo.
Procedimentos para coleta dos dados
Os participantes foram informados sobre o objetivo do estudo, os termos do acordo que ora se inicia, garantindo a ética e o sigilo dos participantes.
Neste documento o pesquisador informou ao pesquisado, de forma clara e objetiva, os atos e etapas da pesquisa, bem como, os possíveis riscos e benefícios decorrentes da participação da mesma. O pesquisado tinha que concordar em participar da pesquisa, por livre e espontânea vontade, assentindo com o objetivo do estudo, assim como, os riscos e benefícios que a participação poderia acarretar. O termo também elucidou que o participante tinha total autonomia em abandonar a pesquisa a qualquer momento, sem risco de sofrer prejuízos ou penalidades.
A coleta de dados ocorreu de forma contínua, no período dos anos de 2023 a 2025, através de um formulário eletrônico do Google Forms. O questionário foi divulgado e compartilhado via e-mail, facebook, linkedin e whatsapp. Empregou-se a técnica bola-de-neve, com intuito de angariar um quantitativo maior de participantes.
Procedimentos para análise dos dados
Os dados foram organizados e analisados com o auxílio dos softwares SPSS (v. 22.0) e Python, que permitiram a aplicação de procedimentos estatísticos adequados aos objetivos do estudo. Inicialmente, foram realizadas análises descritivas, envolvendo frequências absolutas e relativas, medidas de tendência central (média) e dispersão (desvio padrão), com o intuito de caracterizar a amostra e as percepções gerais dos respondentes.
Para verificar possíveis associações entre variáveis categóricas, como o perfil do participante (revendedor, funcionário ou consumidor) e a percepção sobre o termo “bandeira branca” (se é ou não discriminatório), foi aplicado o teste do qui-quadrado de Pearson. O resultado indicou uma tendência de associação (χ² = 2,74; p = 0,097), sinalizando que determinados grupos profissionais podem perceber o termo de maneira mais negativa que outros.
Também foram calculadas as médias de confiança atribuídas a postos “bandeira branca” e “bandeirados”, com base em escala de 1 a 7, apontando uma diferença perceptível na credibilidade percebida: os postos sem bandeira receberam média de 2,79 (DP = 1,57), enquanto os postos com bandeira receberam 5,34 (DP = 1,21).
Além disso, foi analisada a frequência de comportamentos associados à imagem de marca, como o dado de que 90,2% dos consumidores já evitaram abastecer em postos desconhecidos por não reconhecerem a marca. Por fim, realizou-se um cruzamento entre o perfil dos respondentes e as sugestões de nomenclatura alternativa para postos sem marca de distribuidora, revelando forte preferência por termos como “Marca Própria” e “Posto Independente”, em detrimento da expressão tradicional “bandeira branca”.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Adicionalmente, foi solicitado aos participantes que indicassem qual nomenclatura consideram mais apropriada para identificar os postos que não ostentam marca de distribuidora. A grande maioria dos entrevistados preferiu a expressão “Marca Própria”, evidenciando um movimento de valorização da identidade individual dos postos. Entre os revendedores, 81% optaram por essa terminologia, enquanto 66% dos funcionários de postos fizeram a mesma escolha. A expressão “Postos Independentes” também apareceu com relevância, enquanto a nomenclatura tradicional “Bandeira Branca” teve pouca adesão. Esses dados reforçam a percepção negativa que o termo ‘bandeira branca’ carrega, sugerindo a necessidade de reformulação terminológica para evitar estigmas e melhorar a aceitação entre consumidores e profissionais do setor.
A análise dos dados obtidos reforça a hipótese de que a nomenclatura “Bandeira Branca” pode ser prejudicial à imagem dos postos de combustíveis que não ostentam marca de distribuidora. Isso se evidencia pela percepção dos consumidores quanto à confiabilidade atribuída a esse tipo de estabelecimento.
Dentre os consumidores entrevistados, a média de confiança em postos “bandeira branca” foi de apenas 2,79 em uma escala de 1 a 7, enquanto a confiança em postos “bandeirados” atingiu 5,34, evidenciando uma diferença significativa na percepção de segurança e credibilidade.
Além disso, 90,2% dos consumidores afirmaram já ter evitado abastecer em um posto de gasolina por não reconhecer a marca, o que reforça a hipótese de que o fator visual, especialmente o uso de marcas conhecidas, impacta diretamente o comportamento de compra.
O teste do qui-quadrado de Pearson aplicado ao cruzamento entre o perfil do respondente e a percepção da nomenclatura “Bandeira Branca” como discriminatória demonstrou uma tendência de associação (χ² = 2,74; p = 0,097). Embora não tenha atingido significância estatística convencional (p < 0,05), o resultado sugere uma relação potencial entre o pertencimento ao setor (como revendedor) e a percepção negativa do termo.
Essa tendência é confirmada por dados percentuais: entre os revendedores, 75,7% consideram o termo “bandeira branca” discriminatório, enquanto entre funcionários de postos o percentual é de 53,3%, indicando uma sensibilidade particular de quem está diretamente associado à imagem da empresa.
Os dados reforçam o que já se observava empiricamente no mercado: a nomenclatura “bandeira branca” carrega um peso simbólico que pode afetar negativamente a decisão do consumidor, especialmente em contextos onde há múltiplas opções de abastecimento.
CONCLUSÕES
Este artigo buscou compreender se a nomenclatura “Bandeira Branca” influencia negativamente a imagem dos postos que optam por não ostentar marcas de distribuidoras. Através de uma amostra de 200 participantes, composta por consumidores, revendedores e profissionais do setor, foi possível identificar que há uma diferença perceptível na confiança atribuída a postos de combustíveis com e sem marca reconhecida.
Os dados indicam que a nomenclatura impacta não apenas a percepção de qualidade, mas também o comportamento prático de consumo. A baixa média de confiança atribuída aos postos “bandeira branca” e a elevada porcentagem de consumidores que evitam estabelecimentos desconhecidos sugerem que há um desafio de imagem e posicionamento que precisa ser enfrentado.
Adicionalmente, os próprios revendedores reconhecem o termo como prejudicial, reforçando a necessidade de repensar a comunicação institucional e comercial do setor. A nomenclatura pode estar reforçando estigmas injustos, como associação à baixa qualidade ou irregularidade, que não se sustentam segundo os próprios dados da ANP.
Dessa forma, o estudo reforça a importância de iniciativas que valorizem a marca própria dos postos independentes, promovam informação ao consumidor e evitem termos que carreguem conotações negativas. O uso estratégico da marca, aliado à confiança e à transparência, pode ser uma alternativa viável para romper com esse estigma e fortalecer a imagem desses estabelecimentos no mercado nacional.
Não se trata de apenas mudar a nomenclatura, mas assumir a identidade de uma marca própria, focando no visual atrativo, com uma história por trás que influencie não somente os clientes, mas os colaboradores também. O índice baixo de colaboradores que não se importavam com o termo “bandeira branca” justifica o entendimento de que se deve buscar um trabalho de endomarketing mais efetivo para valorizar a percepção e quem trabalha na empresa.
O caminho não é fácil, mas precisa de muito trabalho e envolvimento para criar um ambiente que reforce a mensagem da marca que se quer passar ao consumidor, dando ênfase aos valores da empresa e do serviço ou produto vendido.
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1Mestre em Psicologia Organizacional e do Trabalho. Universidade Potiguar – Laureate International Universities, Roberto Freire Campus. Av. Eng. Roberto Freire, 2184, Capim Macio, CEP: 59082-902 Natal, RN, Brasil.
