A LITERATURA COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO DE CRIANÇAS, JOVENS E ADULTOS

LITERATURE AS A PEDAGOGICAL STRATEGY IN THE LITERACY PROCESS OF CHILDREN, YOUTH AND ADULTS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511281730


Geniffer Emanuele da Silva Jesus1; Manuella Castro Cordeiro2; Thaine Damasceno da Silva3; Thayná Emanuelle Santos Silva4; Maria Das Dores Brandão de Oliveira5


Resumo

O artigo visa discutir a utilização da literatura como uma estratégia pedagógica fundamental no processo de alfabetização que permeia a educação básica e a educação de jovens e adultos. Neste campo será abordado os principais impactos da literatura e quais benefícios ela traz consigo no processo de alfabetização e letramento, além de expor a relevância de livros que tratem da diversidade sociocultural. Como forma de atestar a veracidade das informações foi utilizado uma metodologia de pesquisa bibliográfica e documental. 

Palavras-chave: Alfabetização. Letramento. Literatura. Profissional Docente.

1. INTRODUÇÃO

Desde o começo da humanidade, a leitura tem sido umas das maiores conquistas que o ser humano pode ter alcançado. A leitura surgiu da necessidade de comunicação e de registro histórico, uma testemunha imortal dos acontecimentos dos séculos passados. O processo histórico da leitura e da escrita é marcado por descobertas e construções que com o passar do tempo evidenciou a alfabetização que hoje conhecemos. É importante entender que foi na Pré-história, o começo de tudo. Os símbolos que os primitivos utilizavam na época, já era um sentido de leitura, como também “ler” as expressões e gestos que era o meio de comunicação conhecido por eles.

O significado da leitura começou com as artes rupestres, quando o homem das cavernas espalhava mensagens em pedras, troncos e couro. Registrando sua capacidade de transmitir e obter informações visuais com base em sistema codificado e no entendimento do seu significado. O tempo foi passando e com ele chegando os avanços e a evolução da comunicação. Na Mesopotâmia por exemplo, a leitura existia   para decifrar a escrita de pontos e linhas, fichas que eram usadas como moedas para a mercadoria, segundo Fischer (2006, p.15) “Placas de argila eram usadas para contabilidade semelhante, valendo-se também de símbolos gráficos identificáveis para representar essas e outras coisas”. Foram adotadas outras formas de escrita, como pictogramas. E ao juntar sons a esses símbolos, criava-se dessa forma, sinais de um sistema de escrita, e consequentemente de leitura. “A leitura em sua forma verdadeira surgiu quando se começou a interpretar um sinal pelo seu valor sonoro isoladamente em um sistema padronizado de sinais limitados.” (FISHER, 2006, p.15), a leitura envolveu estágios sucessivos de amadurecimento social com o passar dos anos, ler é uma aptidão ativa e uma necessidade do homem na atualidade, a leitura está em todas as partes, lugares e espaços sociais, livros, placas, embalagens, documentos, imagens, desenhos, obras de arte… Nos anos atuais muitos desconhecem essas valiosas informações e o sentido da alfabetização na vida das pessoas é papel social e pedagógico da escola. A importância da leitura é nítida para se viver na sociedade. Ela é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento social e cultural, para ser indivíduos críticos e com entendimento do mundo ao seu redor, como pontua (FISCHER, 2006, p.8) “A escrita é expressão, a leitura é impressão. A escrita é pública, a leitura, privada. A escrita é limitada, a leitura, infinita. A escrita congela o momento. A leitura é para sempre”.

Assim pensando, o presente artigo traz relevantes discussões dessa importante ferramenta no trabalho pedagógico. Levando em consideração o contexto atual da educação tanto de crianças quanto de jovens e adultos que por alguma eventualidade acabaram não sendo alfabetizados quando crianças, pode-se imaginar os desafios enfrentados e dificuldades vividas uma vez que o “conhecimento liberta.” É importante que o processo de alfabetização leve em conta a realidade vivida por cada aluno e não apenas a do professor que está à frente da turma ou a versão de um livro didático que em sua maioria nada acrescenta à realidade vivida pelos estudantes. (FREIRE, 1989). O problema por muitas vezes está no seleto acervo literário que as escolas dispõem, que como já mencionado não valorizam e nem consideram a vivência do seu público, e em virtude disso muitos docentes que atuam no processo de alfabetização recorrem a um repertório reduzido de títulos, sem muita escolha e pouco acesso a literaturas novas e diversas, o que limita a representação cultural e social presente nas obras. Este cenário acaba por fortalecer estereótipos e a inviabilidade de algumas culturas que muitas vezes têm sua identidade retratada de forma distorcida e estereotipada nos materiais literários apresentados. Outro grande problema que se apresenta é a constatação de que muitos profissionais da área da educação não possuem formação acadêmica direcionada à diversidade. O que resulta na negligência do direito à educação para todos (BRASIL, 1988).

Sabendo que muitas literaturas que estão sendo empregadas não abrangem totalmente o público alvo e não desperta interesse dos educandos, surge um problema ainda maior, que é o aumento do índice de analfabetismo que permanece alto nos últimos anos. Esta pesquisa tem como principal objetivo evidenciar a relevância da literatura no processo de alfabetização, valorizando a diversidade cultural e abordando as diferentes realidades através da leitura. Além disso, busca-se ressaltar o papel do docente ao aproximar seus estudantes das obras literárias que trazem representatividade, respeito à diversidade e construção de identidade. Refletir sobre a importância de discutir sobre leitura e diversidade como ferramenta, dentro da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as práticas de alfabetização dos docentes com as literaturas, de acordo com a realidade dos alunos. A presente pesquisa traz essas discussões com base em autores de renome.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1 Alfabetização e a Literatura

A alfabetização é um dos maiores fundamentos da educação, ser alfabetizado, não é apenas aprender a ter o domínio das habilidades de ler e escrever, mas também é ser integrado em um universo de significados, valores e práticas sociais. Desse modo, é impossível não reconhecer que a alfabetização tem grande participação na construção de uma população com consciência crítica e reflexiva, que esteja ciente da importância da educação dentro da cidadania. A literatura, assume um papel essencial nesse processo, pois ele apresenta culturas, linguagens, expressões artísticas e  diversos contextos de vidas plurais abarcando possibilidades de entender o mundo de uma forma mais ampla,  a partir de vários olhares e realidades  diferentes. Cada uma em sua especificidade. 

A alfabetização é um processo que ultrapassa limites e a simples decodificação de signos linguísticos, constituindo-se como uma prática social, cultural e política. Para isso, Freire (2014) afirma que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra e que deve promover a consciência crítica e a libertação dos sujeitos pelo conhecimento ressignificado. Daí a necessidade de encarar a literatura como uma ferramenta capaz de possibilitar múltiplas leituras de mundo, um instrumento de emancipação, permitindo que o educando se reconheça como sujeito histórico e cultural construtor de ideias e mudanças significativas. Complementando essa visão, Soares (2004) diferencia alfabetização de letramento, destacando que o processo de aprender a ler e escrever não se limita ao domínio técnico do código escrito, mas envolve também a inserção do indivíduo nas práticas sociais de leitura de escrita e de vida. Para a autora, “o letramento implica a capacidade de usar a leitura e a escrita nas práticas sociais que as demandam” (SOARES, 2004, p. 15). Assim, o uso da literatura na alfabetização pode ser entendido como um bem incomensurável por contribuir para o desenvolvimento do letramento, dos seres educandos, por aproximar esses aprendizes de situações reais de leitura e por favorecer a criação e a imaginação.  

A leitura se revela como um ato de transformação e interpretação da realidade, Freire (1989) destaca que “A leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura de mundo, mas por uma certa forma de escrevê-lo ou de reescrevê-lo”, reforçando que ler não é uma simples prática, mas sim um ato de resistir, ser alfabetizado é um ato de resistência, a leitura não faz apenas o sujeito compreender o mundo, mas também ressignificar este mundo participando ativamente da sua transformação pelo conhecimento aprendido. Ao compreender a alfabetização e a leitura como exercício social e libertador, o professor traz a essencialidade da leitura para proporcionar uma educação significativa e de qualidade. A literatura, como ferramenta de linguagem e comunicação, ajuda a formar uma sociedade crítica e com senso de cidadania. Portanto, alfabetizar é muito além de ensinar a ler e escrever, é possibilitar que o sujeito leia, interprete e transforme a realidade ao seu redor.  

2.2 O envolvimento dos alunos com os textos literários

A relação dos estudantes com os textos literários podem sofrer variações, a  depender da maneira como o professor apresenta e conduz as atividades de leitura. Cosson (2014) destaca que o contato com a literatura favorece o desenvolvimento do letramento literário, isto é, a capacidade de compreender, apreciar e interpretar textos literários. Quando o estudante  é chamado a ler por prazer e não apenas por obrigação escolar, ele se torna um leitor ativo, participativo e crítico, porém é muito importante que nem sempre haverá a obrigatoriedade  de exigir uma atividade a ser realizada após a leitura ou  uma necessidade de cobrar  tarefas sobre  a leitura proposta. A leitura para deleite é leve, tranquila e naturalmente satisfatória. Ela é capaz de levar o educando para uma dimensão de imaginação, alegria e prazer. O professor que fizer da leitura uma atividade obrigatória nas séries iniciais, poderá afastar a criança dessa rica ferramenta ao invés de aproximá-la. É preciso bastante sensibilidade e empatia do mediador para que isso não aconteça. Freire (1989) reafirma essa prerrogativa quando diz que o ato de ler deve ser uma experiência significativa. Ao se envolver com os textos literários, o educando  vivencia emoções, descobre novos mundos e constrói sua identidade como leitor, infere, constrói e desconstrói pontos de vista. A literatura contribui para a construção de sentimentos, estimula a imaginação e permite múltiplas interpretações, favorecendo o aprendizado da leitura e da escrita de forma humanizada e criativa. O professor deve estar apto a interagir com as crianças e leitores de EJA, mediar essa estratégia pode ser mais primoroso do que se imagina já que o ato de ler é sempre uma grande aventura, em qualquer que seja a idade. O importante é que o professor esteja disposto a repetir a história quantas vezes forem possíveis, envolver as crianças com o que está   sendo lido, potencializar o processo de alfabetização para transformar os momentos de leitura em uma experiência prazerosa e formadora. O papel do educador deve ser o de oportunizar condições para que a aproximação da criança com o mundo da leitura, se configure como uma relação curiosidade, representatividade, prazer e descobertas. Assim, o gosto pela leitura e o reconhecimento da literatura como parte fundamental da vida e da aprendizagem dos educandos poderá ser garantida. 

2.3 Estratégias pedagógicas eficazes observadas no uso da literatura 

Discutir as práticas pedagógicas eficazes com literaturas, possibilita ampliar horizontes para ações exitosas em todas as salas de aula e não somente em salas de alfabetização. As literaturas devem criar situações de aprendizagem criativas e interativas. Meireles (1984), poetisa e educadora, enfatiza que a leitura literária desenvolve a sensibilidade, o pensamento e o senso estético da criança, sendo indispensável à formação do ser humano. Por isso, é tão importante contar histórias, dramatizar, ler em voz alta e promover rodas de leitura. Essas práticas se configuram como exitosas e estimulam o prazer pela leitura de forma lúdica. De acordo com Santaella (2001), o contato com textos literários diversificados contribui para a ampliação das habilidades de leitura e interpretação. Estratégias como a leitura compartilhada, o reconto, a ilustração de trechos e a produção de textos inspirados em histórias conhecidas são formas eficazes de envolver os alunos e fortalecer a alfabetização. Monteiro Lobato (2008) também destaca o poder da literatura em despertar a curiosidade e o prazer de aprender. Para ele, o livro deve ser visto como uma porta aberta à imaginação e ao conhecimento. Assim, a utilização da literatura como recurso pedagógico torna a alfabetização uma experiência lúdica e alegre, aproximando o aluno da leitura e da escrita de maneira natural e encantadora. As estratégias pedagógicas baseadas na literatura devem relacionar a vivência do texto com a vivência da criança como experiência estética, emocional e cognitiva. 

Quando o professor utiliza a literatura de forma planejada, com objetivos claros  e avaliação processual, de forma sensível e criativa, a ação deixa de ser apenas um conteúdo escolar e se transforma em um instrumento de aprendizagem e de formação humana. É fundamental que o educador trabalhe como mediador entre o texto e o leitor, criando situações que estimulem a atenção, escuta atenta e construção de novos conhecimentos. Nesse processo, a literatura possibilita que o aluno se reconheça como sujeito capaz de pensar, imaginar e se expressar por meio da palavra escrita. Além disso, trabalhar com literatura na alfabetização contribui para o fortalecimento dos vínculos afetivos entre professor e educando, despertando o prazer na vontade de aprender. A diversidade textual como, leitura de histórias, contos, poemas e narrativas de autores brasileiros aproxima o estudante da cultura escrita e de sua própria identidade cultural. 

2.4 O professor e seu papel no processo de alfabetização literária 

O letramento literário se configura como o ato de ler, entender, interpretar e  ressignificar o conhecimento apreendido relacionando-o a práticas de vida.  Ser professor, nesse processo de construção vai muito mais além de mediar conteúdos propostos pelos livros didáticos, ser professor é formar pessoas, incentivar sonhos e estimular a curiosidade dentro da sala de aula para que o letramento literário aconteça naturalmente em sala de aula. “O alfabetizador dá acesso ao maravilhoso mundo da escrita, dá acesso aos livros, à leitura, conduz à conquista do instrumento que lhe abre portas para todo o conhecimento, toda a cultura que vem sendo preservada pela escrita, ao longo dos séculos” (SOARES, 2006, p. 14). A autora mostra através de sua fala a força motriz que tem o educador mediador nesse processo. Como ser de poder e ação, o professor  em sua prática docente, ocupa um espaço essencial, ele não ensina apenas o ato de ler e escrever, ele também apresenta o mundo para seu estudante, um mundo que ao passar daquele momento, se enche de significado, e o convida a ter a sua própria autonomia no seu processo de ensino e aprendizagem. Como afirma Juliatto (2013, p. 37), “é preciso transferir aos estudantes mais que meras lições de ciências. É preciso dar-lhes lições de vida. Assim, os professores ajudam seus educandos a formarem personalidades”.   

A leitura, dentro da alfabetização literária, é uma forte e potente ferramenta de transformação e autonomia. É muito importante ainda, o professor expor diferentes obras que apresentem a representatividade e reflitam sobre identidade e realidade vivida pelos estudantes. Manusear as literaturas e falar sobre elas pode desenvolver a imaginação, a capacidade de interpretação e criticidade das crianças e também dos jovens e adultos. Como afirma Soares (2003), “só quem sabe ler e escrever é capaz de agir politicamente, de participar, de ser livre, responsável e consciente”, a autora evidencia que ler é também um ato de cidadania e de liberdade. Este ato só terá o impacto desejado quando os docentes manusearem a literatura de tal forma que os alunos possam tornar a leitura um instrumento de conhecimento. 

Tendo em vista que, o professor faz parte do desenvolvimento social, intelectual e formativo do aluno é de suma importância  considerar assim como Juliatto (2013) “Os professores são  em grande parte os responsáveis pelo progresso de qualquer nação, pela formação de profissionais, pelo nível de cidadão e pela formação voltada à realização das pessoas”  (JULIATTO, 2013, p.28). O docente, tem que ter a sabedoria, que tem uma função de extrema importância dentro da escola, pois ele participa do processo formativo de cidadãos e influencia diretamente no desenvolvimento educacional, social e emocional dos seus aprendentes. Sendo assim, o professor deve procurar incluir os contextos de vida de seus alunos promovendo respeito à pluralidade que eles têm dentro da sala de aula.  “A prática docente não pode ser fria, sem alma, sem que os sentimentos estejam envolvidos, deve-se permitir a utopia, os sonhos de mudança”. (FREIRE, 1987, p.145). Desse modo, é essencial frisar a importância da relação de aluno e professor, construída com diálogo, respeito e empatia, o professor não apenas media o conhecimento, mas também acompanha e orienta o desenvolvimento integral do aluno, contribuindo para a formação de sujeitos críticos, reflexivos e conscientes de seu papel na sociedade.

3. METODOLOGIA 

Para fundamentar esta pesquisa foi adotada uma metodologia de carácter investigativo e qualitativo, à pesquisa bibliográfica, que propicia uma análise detalhada da importância da literatura no processo de alfabetização. Este método possibilita a imersão dentro da literatura de pesquisadores e autores que discutem de forma crítica o uso da literatura como instrumento de alfabetização de crianças, jovens e adultos.  

Dentro da primeira etapa do artigo foi realizado um levantamento de dados e de autores com o intuito de selecionar e destacar estudos e livros que falem de modo pertinente sobre como a leitura influencia e ajuda os docentes e discentes à usufruir das literaturas infanto-juvenis como forma de trabalhar tanto o processo de alfabetização quanto para incentivar e destacar o respeito às mais variadas culturas presentes na sociedade brasileira. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022, havia no país 163 milhões de pessoas de 15 anos ou mais de idade, das quais 151,5 milhões sabiam ler e escrever um bilhete simples e 11,4 milhões não sabiam, ou seja, a taxa de alfabetização foi 93,0% e a taxa de analfabetismo foi 7,0% deste contingente populacional. Esses números não expressam apenas uma estatística, mas evidenciam desigualdades históricas, sociais e regionais que impactam diretamente o acesso e a permanência dos estudantes no processo de aprendizagem.

A partir dessa pesquisa pode-se observar que embora o Brasil apresente uma taxa alta de alfabetização, o processo formativo ainda enfrenta desafios associados à qualidade e à diversidade dos materiais literários disponibilizados aos estudantes. A escolha dos livros  em sala de aula desempenha papel fundamental nesse cenário, pois a literatura oferecida aos alunos pode favorecer ou limitar a construção das habilidades necessárias para a leitura e a escrita. É válido afirmar que muitos dos professores não passaram por esse processo com essas práticas e por isso acabam vivendo ações desafiadoras com seus estudantes em sala de aula já que não conseguem ser leitores. A partir dessa pesquisa pode-se observar que embora o Brasil apresente uma taxa alta de alfabetização, o processo formativo ainda enfrenta desafios associados à qualidade e à diversidade dos materiais literários disponibilizados aos estudantes. A escolha dos livros  em sala de aula desempenha papel fundamental nesse cenário, pois a literatura oferecida aos alunos pode favorecer ou limitar a construção das habilidades necessárias para a leitura e a escrita.

Quando os livros utilizados são pouco atrativos, com vocabulário distante da realidade dos estudantes ou com temáticas pouco significativas, o interesse pela leitura tende a diminuir. Essa falta de identificação impacta diretamente o engajamento e, consequentemente, o avanço no processo de alfabetização. Assim, fica evidente que a literatura não deve ser vista apenas como um recurso complementar, mas como instrumento essencial para potencializar a aprendizagem, humanizar o processo educativo e promover o desenvolvimento crítico dos estudantes de todas as etapas.

A leitura é uma prática de extrema importância no desenvolvimento social, intelectual e cultural de um indivíduo, o ato de ler exerce uma ampliação de conhecimentos e capacitações significativas na vida do leitor, além de ter a propriedade de fazer com que o leitor se identifique e se sinta representado dentro do seu contexto de vida. No entanto, o cenário que se encontra é preocupante, em 2024 o instituto Pró-Livro fez uma pesquisa que resultou na seguinte  afirmativa: somente 47% da população brasileira pode ser considerada leitora, revelando assim um déficit significativo no hábito de leitura.

A Fundação Abrinq (2025) evidencia dados que indicam que o maior público leitor no Brasil ainda é composto por crianças, entre 5 e 10 anos, a média registrada é de 7,27 livros por ano, entre 11 e 13 anos, a quantidade de obras lidas é em média 7,56, e entre adolescentes de 14 a 17 anos, o número cai para 6,20 obras anuais. Dessa forma, é notório que conforme a idade avança, há uma perda significativa no interesse e na prática da leitura. Além disso, a pesquisa também explica que durante o processo de alfabetização, existe uma maior preocupação em incentivar a criança no exercício da leitura, e com o passar do processo de ensino, existe um declínio nesse estímulo, tanto que a Fundação Abrinq afirma que no Ensino Médio, apenas 45% dos alunos têm a prática de ler e leem os livros indicados pelos professores.   

A queda no hábito de leitura ao longo da idade, não é o único fator que explica o déficit de leitores dentro da população brasileira, a desigualdade social tem grande responsabilidade quando se trata de índice de indivíduos ativos na leitura. Enquanto estudantes que pertencem a famílias com maior renda financeira tem a oportunidade de obter livros físicos, ter acesso a bibliotecas físicas bem estruturadas, aparelhos tecnológicos e acervos de livros virtuais que facilitam esse acesso, além de terem mais a probidade de dispor tempo para a manutenção do hábito de ler. Por outro lado, os estudantes que não têm as mesmas oportunidades sofrem com a carência e a falta de disponibilidade acerca da rotina das classes menos privilegiadas, esses por muitas vezes não possuem livros em casa, tem pouco acesso às bibliotecas, e frequentemente dependem exclusivamente da escola como o único acesso a materiais de leitura. Essa situação se agrava quando é observado nos estudos que somente 30% dos estudantes brasileiros encontram livros indicados pelos seus professores nas bibliotecas disponíveis, evidenciando a precariedade dos acervos, a falta de infraestrutura e equidade perante o acesso à literatura. 

Embora exista uma diversidade de opções de literatura, os achados da pesquisa mostram  que os cidadãos não se sentem estimulados a buscar a leitura. Estima-se que metade dos brasileiros não leia livros, dados da Fundação Abrinq (2022) ainda trazem que a proporção de não leitores chega a 53%, superando assim a leitores, que chega a 47% da população brasileira, considerando a perda de quase 7 milhões de leitores, são dados alarmantes que devem ser discutidos, questionando por quais motivos essa queda tão brusca e o que pode ser feito em detrimento dessa situação.

Em decorrência dessa circunstância, a análise dessas informações se torna imprescindível. Assim, é necessário entender os interesses dos educandos para que as aulas possam ofertar variados tipos de leituras, despertando o interesse de seus alunos, tornando leitores ávidos e críticos. Pode-se perceber a importância de oferecer diversos tipos de leituras no processo de alfabetização desde clássicos infantis como: João e Maria, Pinóquio, Alice no País das maravilhas, entre outros, à livros juvenis, poemas e de forma enfática livros que apoiem e que exemplificam a diversidade cultural que existe, como exemplo é possível mencionar: O que há de África em nós, de Walter Fraga, Wlamyra R. de Albuquerque que apresenta a criança como era o mundo antes da colonização e aspectos culturais dos africanos que foram passados de geração em geração; O povo Kambeba e a gota d’água, de  Márcia Kambeba, que traz de forma simples e rica em detalhes sobre um dos povos indígenas remanescentes os Omaguá/Kambeba e uma de suas lendas; O curumim Wirá e os encantados, também de Márcia Kambeba. Nele, além de falar sobre lendas indígenas, ainda contribui com a  autoconfiança na criança. Nino, o menino do Quilombo de Maria das Dores Brandão de Oliveira traz a representatividade da criança negra e sua cultura marcante na comunidade quilombola. Estes são apenas alguns exemplos de livros que o docente pode usar dentro de sala de aula para ampliar o acervo que o aluno tem acesso e mostrar a rica cultura nacional de modo que ele possa se identificar com os personagens ali descritos. Diversificar as leituras permite que o aluno se identifique com algum tipo de gênero, despertando nele o interesse constante pela leitura, tornando o ato de ler gostoso e expressivo. Cândido (1995) afirma:

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. (CÂNDIDO, 1995, p.174)

O autor  defende a cultura, a diversidade e é necessário implementar essa pluralidade dentro das escolas, a fim de mudar os dados apresentados, crescendo assim o números de leitores, dando um fim a essa regressão muito presente na sociedade brasileira. Levando em consideração essa pauta, é muito comentado sobre a importância do ato ler durante o processo de alfabetização, todavia pouco se discute sobre os efeitos positivos que boas leituras podem ter no desenvolvimento cognitivo de uma criança, que ainda está se conhecendo e descobrindo mais sobre a sua história e sobre onde ela vive. Por isso é fundamental trazer para dentro de sala de aula, livros que condizem com a realidade de quem está lendo, Machado (2002) afirma que: 

A leitura dos bons livros   de   literatura   traz   também   ao   leitor   o   outro   lado dessa   moeda:   o contentamento de descobrir em um personagem alguns elementos em que ele se reconhece plenamente.  Lendo uma história, de repente descobrimos nela umas pessoas que, de alguma forma, são tão idênticas a nós mesmos, que nos parece uma espécie de espelho.

Diante desta afirmação, fica evidente que a literatura tem um grande impacto e que a partir dela é possível que o indivíduo que está no processo de alfabetização se veja como parte da história e reconheça através dela elementos que muitas das vezes passam despercebidos dentro do seu cotidiano. Cada leitor, interpreta a história que está lendo de acordo com a sua vivência, e quando as expectativas são supridas dão ao leitor a oportunidade de sentir prazer na leitura, porém o contrário também é verídico e isso fica explícito quando Zylberman (2005) cita que:

(…) os leitores precisam se reconhecer nas personagens, há limites para mexer com a temporalidade, e a ação precisa ter um mínimo de coerência. Outra questão é crucial: o leitor também traz algum tipo de experiência, uma bagagem de conhecimentos que precisa ser respeitada, caso contrário se estabelece um choque entre quem escreve e quem lê, rompe-se a parceria que só dá certo se ambos se entendem.  Se o escritor contradisser demais as expectativas do leitor, esse rejeita a obra, que pode ficar à espera de outra oportunidade ou então desaparecer da história. (ZYLBERMAN:2005, p.13-14)

Quando o docente leva em conta esses pontos, ele consegue ver o quanto a literatura é crucial durante a alfabetização e na formação de cidadãos, por isso ele deve sempre buscar livros que tragam em suas nuances elementos que representem seus leitores e que adentrem às diversidades culturais que o Brasil possui, visto que o acervo literário que a literatura brasileira detém é rico e deve ser utilizado dentro de sala de aula, conforme afirma Zylberman (2005):

A  literatura  infantil  brasileira  oferta  ao  leitor  atual  um  acervo respeitável de boas obras, para serem lembradas por adeptos de várias gerações. Vale a pena recapitular sua trajetória, para entender as qualidades que exibe aos leitores contemporâneos de todas as idades. (ZYLBERMAN: 2005, p.11)

Apreciar uma boa leitura desde à infância é elogiável tanto para quem lê quanto para quem o ensinou a ler, e é a partir da leitura que cidadãos críticos e conscientes são formados, e este é o impacto mais positivo que a literatura traz quando usada de modo eficiente – leitores apaixonados pela leitura e críticos em relação à sociedade em que vivem e a escola tem um papel fundamental nesse processo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A alfabetização literária é incrível e o pedagogo que opta por  trabalhar com a literatura para o avanço no processo de alfabetização, favorece o estímulo à leitura e potencializa a realidade social e cultural do estudante em qualquer segmento. A pesquisa permitiu crucialmente enxergar a prática pedagógica docente como ação fundamental ao estímulo leitor. Alinhada às leis e aos documentos norteadores, especialmente à BNCC e a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), no que se refere à alfabetização e a formação de leitores ávidos e críticos, ela se torna uma ferramenta potente. Para que toda essa abordagem se concretize, ficou evidente e necessário que o professor promova no cotidiano escolar práticas que valorizem a diversidade por meio da leitura, tornando-se um agente transformador contribuindo na formação de sujeitos conscientes de sua identidade cultural desde a mais tenra idade.

Usar as literaturas considerando as experiências e a realidade de cada aluno, respeitando seu conhecimento prévio e suas vivências, potencializa o ensino da língua e da vida, fortalecendo a ideia de que para ensinar de forma significativa, o docente deve a compreensão da realidade do educando, e não apenas aplicar um método pronto. No entanto, foi visto que muitas escolas ainda contam com acervos literários limitados, que não refletem a diversidade cultural dos alunos e, muitas vezes, reforçam estereótipos. Vemos de forma agravante que ainda falta representatividade nas obras literárias e que isso pode afastar os estudantes da leitura, prejudicando o processo de alfabetização e dificultando uma educação verdadeiramente inclusiva.

A leitura, desde os primórdios da humanidade, sempre foi uma forma de comunicação e de registro da experiência humana. Roger (2006) explica que ler surgiu da necessidade de compreender o mundo e expressar ideias, sendo essencial para o desenvolvimento cultural e crítico do indivíduo. Hoje, documentos como a BNCC (BRASIL, 2018) e a Lei nº 11.645/2008 reforçam que a escola deve valorizar a diversidade e garantir que os alunos tenham acesso a produções literárias que representam diferentes identidades. Dessa forma, incentivar a leitura de obras diversas contribui para formar leitores críticos, conscientes e capazes de respeitar e compreender as diferenças culturais. Favorecer práticas exitosas nesse contexto configurará um ato de alfabetizar letrando literariamente uma vez que a sala de aula se transformará em um espaço de aprendizado criativo, dinâmico em prol do desenvolvimento de cada criança, de cada educando  em qualquer idade. 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Acesso em: 09 de outubro de 2025.

CÂNDIDO, Antônio. O direito à literatura. Vários escritos. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995. p. 169-191. Disponível em <https://culturaemarxismo.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/10/candido-antonio-o-direito-c3a0-literatura-in-vc3a1rios-escritos.pdf>. 

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2014.

DE, I. Biblioteca Virtual Universitária. Disponível em: <https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/127656/pdf/0>. Acesso em: 12 nov. 2025.

Disponível em: <https://www.fadc.org.br/noticias/leitura-infancia>. Acesso em: 21 nov. 2025.

FAILLA, Zoara. Retratos da leitura no brasil 3. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2020/07/4095.pdf#page=85>. Acesso em: 21 nov. 2025.

FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.

FERREIRO, Emilia. Reflexões sobre a alfabetização. 26. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

FISCHER, Steven Roger.  História da leitura. Trad. Cláudia Freire. São Paulo: Ed. Unesp, 2006.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo: Cortez, 1989.

______________. A pedagogia do Oprimido. Ed. Rio de Janeiro. 1987. 

FREIRE, Paulo; MACEDO, Donaldo. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra [recurso eletrônico]. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. ISBN 978-85-7753-215-5.

IBGE. Censo 2022: taxa de analfabetismo cai de 9,6% para 7,0% em 12 anos, mas desigualdades persistem. Agência de Notícias, 17 maio 2024. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/40098-censo-2022-taxa-de-analfabetismo-cai-de-9-6-para-7-0-em-12-anos-mas-desigualdades-persistem. Acesso em: 20 nov. 2025.

J‌ULIATTO, Clemente Ivo. De professor para professor: Falando de educação. Ed. Champagnat, 2013.

LOBATO, Monteiro. A menina do nariz arrebitado. São Paulo: Brasiliense, 2008.

LUSTED, David “Why Pedagogy?”. Screen, 27, setembro-outubro de 1986, pp. 4-5.

MACHADO,  Ana  Maria. Como  e  por  que  ler  os  clássicos  universais  desde  cedo. Rio  de Janeiro: Objetiva, 2002.

Mais da metade dos brasileiros não lê livros, aponta pesquisa – CBL – Câmara Brasileira do Livro. Disponível em: <https://cbl.org.br/2024/11/mais-da-metade-dos-brasileiros-nao-le-livros-aponta-pesquisa/>.

MEIRELES, Cecília. Problemas da literatura infantil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

MISGELD, Dieter “Education and Cultural Invasion: Critical Social Theory, Education as Instruction, and the ‘Pedagogy of the Oppressed’”, in John Forester (org.), Critical Theory and Public Life. Cambridge, Massachusetts: MIT, 1985, pp. 106-7.

RÁDIO SENADO. Pesquisa aponta que mais da metade dos brasileiros não lê livros. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2024/11/29/pesquisa-aponta-que-mais-da-metade-dos-brasileiros-nao-le-livros>. 

ROGER, Chartier. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Editora Unesp, 2006.

SANTAELLA, Lúcia. Leitura de imagens. São Paulo: Cortez, 2001.

SAWAYA, Sandra Maria. Alfabetização e fracasso escolar: problematizando alguns pressupostos da concepção construtivista. Educação & Sociedade, Campinas, v. 21, n. 70, p. 139-163, abr. 2000. DOI.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, n. 25, p. 5–17, abr. 2004.

_______________. Letramento: um tema em três gêneros. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

ZYLBERMAN,  Regina. Como  e  por  que  ler  a  literatura  brasileira. Rio  de Janeiro: Objetiva, 2005.


1Discente do Curso Superior de Pedagogia do Centro Universitário Ages Campus Senhor do Bonfim. e-mail: genifferemanuele@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Pedagogia do Centro Universitário Ages Campus Senhor do Bonfim. e-mail: manuellacastro1996@gmail.com
3Discente do Curso Superior de Pedagogia do Centro Universitário Ages Campus Senhor do Bonfim. e-mail: thainedamascenodasilva@gmail.com
4Discente do Curso Superior de Pedagogia do Centro Universitário Ages Campus Senhor do Bonfim. e-mail: thaynaemanuelle.ssilva@gmail.com
5Docente do Curso Superior de Pedagogia do Centro Universitário Ages Campus Senhor do Bonfim. Pedagoga- UNEB, especialista em Psicopedagogia, Mestra em Educação e Diversidade -MPED- Universidade do Estado da Bahia e-mail: dorinhalua2@gmail.com