THE INCIDENCE OF THYROID CANCER IN BRAZIL
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511261448
Fernanda Cunha1; Ackley Garcia1; Israel Cabral1; Anna Pereira1; Miliane Gomes1; Luciano de Oliveira Tourinho1
RESUMO
Introdução: O câncer de tireoide é atualmente a neoplasia endócrina mais frequente no mundo, apresentando elevação expressiva de incidência nas últimas décadas, inclusive no Brasil. Esse aumento pode refletir tanto o avanço dos métodos diagnósticos quanto a ampliação das estratégias de rastreamento populacional, o que suscita questionamentos sobre o real crescimento da doença e a possibilidade de sobrediagnóstico. Objetivo: Analisar a incidência do câncer de tireoide no Brasil, considerando as evidências científicas mais recentes, a fim de compreender seus determinantes e implicações para o sistema de saúde. Metodologia: Realizou-se uma revisão narrativa da literatura, com levantamento de artigos publicados entre 2011 e 2025 nas bases SciELO, LILACS e PubMed. Foram incluídos estudos descritivos, epidemiológicos e revisões que abordaram a evolução da incidência e da mortalidade no país. Resultados e Discussão: Identificou-se tendência de crescimento progressivo da incidência, sobretudo entre mulheres e nas regiões Sudeste e Sul, enquanto as taxas de mortalidade permanecem estáveis ou discretamente reduzidas. Esses achados indicam que parcela considerável dos diagnósticos envolve tumores de comportamento indolente, possivelmente decorrentes do maior acesso a exames de imagem e da ampliação dos programas de rastreamento. Tal cenário reforça o debate sobre o sobrediagnóstico e seus impactos clínicos, éticos e econômicos. Conclusão: O aumento da incidência do câncer de tireoide no Brasil demanda vigilância epidemiológica qualificada e revisão das condutas clínicas, com o objetivo de evitar intervenções desnecessárias e otimizar o uso dos recursos públicos em saúde. Palavras-chave: Câncer de tireoide; Epidemiologia; Incidência.
ABSTRACT
Introduction: Thyroid cancer is currently the most frequent endocrine neoplasm worldwide and has shown a marked increase in incidence over recent decades, including in Brazil. This trend may reflect both improvements in diagnostic technologies and expanded population screening, raising questions about whether the increase represents a true rise in cases or the effect of overdiagnosis. Objective: To analyze the incidence of thyroid cancer in Brazil according to recent scientific evidence, aiming to identify its determinants and implications for the healthcare system. Methodology: A narrative literature review was conducted, including articles published between 2011 and 2025 retrieved from the SciELO, LILACS, and PubMed databases. Descriptive, epidemiological, and review studies addressing incidence and mortality trends were considered. Results and Discussion: The evidence demonstrates a continuous increase in thyroid cancer incidence, particularly among women and in the Southeast and South regions, while mortality remains stable or slightly decreasing. These findings suggest that many diagnosed cases correspond to indolent tumors, largely influenced by improved diagnostic access and widespread imaging use. This pattern reinforces discussions on overdiagnosis and its clinical, ethical, and economic consequences. Conclusion: The rising incidence of thyroid cancer in Brazil highlights the need for robust epidemiological surveillance and revision of clinical protocols to prevent unnecessary interventions and ensure rational allocation of healthcare resources.
Keywords: Thyroid cancer; Epidemiology; Incidence.
Introdução
O câncer de tireoide representa atualmente a neoplasia endócrina mais comum no mundo, correspondendo a mais de 90% dos tumores malignos da glândula tireoide 4,5. Nas últimas décadas, sua incidência tem crescido de forma consistente, tanto em países desenvolvidos quanto em nações emergentes, fenômeno que também se observa no Brasil 7,9,14. Diversas hipóteses têm sido levantadas para explicar esse aumento, incluindo avanços tecnológicos, maior acesso aos serviços de diagnóstico, aprimoramento dos registros epidemiológicos e possíveis mudanças ambientais 1,6,10.
Parte expressiva da literatura sugere, contudo, que esse crescimento está intimamente ligado ao superdiagnóstico, conceito que descreve a identificação de tumores de comportamento indolente, de pequena dimensão e baixo potencial maligno, que dificilmente evoluiriam para formas clinicamente relevantes 3,8,13. Esse processo decorre, em grande parte, do uso ampliado de métodos de imagem de alta sensibilidade, como a ultrassonografia cervical e a punção aspirativa por agulha fina (PAAF), empregados de maneira cada vez mais frequente em exames de rotina 4,12 .
Estudos realizados em diferentes regiões do Brasil confirmam a tendência de crescimento da incidência, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, onde há maior disponibilidade de tecnologia diagnóstica e infraestrutura hospitalar 7,15,17. Segundo Jardim et al. 17, o país acompanha a mesma direção observada em outras partes do mundo, com taxas ascendentes de detecção, ainda que as de mortalidade permaneçam estáveis 9,16. Essa estabilidade sugere que o aumento de casos reflete, em grande medida, o aprimoramento da vigilância epidemiológica e a maior sensibilidade dos exames, e não um incremento real da doença 2,6,14.
Outro aspecto relevante é a desigualdade social e regional que permeia o cenário brasileiro. Pesquisas como a de Ferreira et al. 1 demonstram que o risco de diagnóstico e mortalidade por neoplasias, incluindo o câncer de tireoide, varia conforme o nível socioeconômico e a região geográfica, refletindo disparidades de acesso à atenção primária, rastreamento e tratamento especializado. Enquanto o Sudeste concentra a maior parte dos diagnósticos, o Norte e o Nordeste permanecem sub-representados nos registros nacionais 1,9,15.
A literatura também discute fatores etiológicos complementares. Estudos sugerem a possível influência de exposições ambientais, como radiação ionizante e alterações hormonais, além de fatores genéticos e nutricionais 5,11,13. No entanto, as evidências nacionais sobre tais associações ainda são incipientes. Em contrapartida, análises internacionais apontam uma contribuição relevante do estilo de vida e da obesidade no aumento da incidência, fatores que também demandam atenção crescente no contexto brasileiro 3,10.
Nesse cenário multifatorial, compreender a evolução do câncer de tireoide no Brasil exige uma análise integrada das condições diagnósticas, socioeconômicas e regionais. O presente estudo tem como objetivo examinar a incidência dessa neoplasia no país com base nas evidências científicas mais recentes, discutindo tendências, determinantes e implicações para a vigilância em saúde pública.
Material e Métodos
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura cujo propósito foi analisar a evolução da incidência do câncer de tireoide no Brasil e os fatores que contribuem para seu crescimento nas últimas décadas. A busca bibliográfica foi conduzida nas bases SciELO, LILACS e PubMed. O levantamento abrangeu o período de 2011 a 2025, utilizando combinações dos termos “Câncer de Tireoide”, “Neoplasias da Glândula Tireoide”, “Carcinoma Papilífero da Tireoide”, “Thyroid Cancer”, “Thyroid Neoplasms”, “Incidência”, “Epidemiologia” e “Exposição à Radiação”, aliados aos descritores “Brasil” e “Brazil”.
Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas e estudos epidemiológicos disponíveis na íntegra, publicados em português ou inglês, que abordassem a incidência do câncer de tireoide no Brasil. Foram excluídos estudos duplicados, publicações sem revisão por pares, textos com foco exclusivamente terapêutico ou laboratorial e trabalhos experimentais sem aplicação direta à população brasileira.
A triagem inicial foi conduzida por cinco pesquisadores, que analisaram 58 publicações identificadas nas bases de dados. Após a leitura dos títulos e resumos, 17 estudos atenderam integralmente aos critérios de inclusão previamente estabelecidos.
A análise dos dados foi realizada de forma qualitativa e descritiva, fundamentada em leitura minuciosa e interpretação crítica das fontes selecionadas. O processo analítico envolveu categorização temática colaborativa, conduzida pelos mesmos cinco pesquisadores, a partir da identificação de eixos centrais de discussão: evolução temporal da incidência, fatores de risco associados, desigualdades regionais, aspectos diagnósticos e repercussões do superdiagnóstico.
Resultados e Discussão
A revisão narrativa realizada nas bases SciELO, LILACS e PubMed identificou, após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, um total de 17 estudos que abordam a incidência do câncer de tireoide no Brasil e os fatores possivelmente relacionados ao seu crescimento nas últimas décadas ( Tabela 01 ). As publicações analisadas, datadas entre 2011 e 2024, incluem estudos descritivos, epidemiológicos, revisões narrativas e relatórios institucionais, permitindo uma compreensão ampla e crítica do panorama atual da doença no país. As categorias temáticas abordadas nos estudos incluídos foram: impacto das políticas de rastreamento, desigualdades regionais, superdiagnóstico, aspectos diagnósticos, fatores de risco ( radiação ) e evolução temporal da doença.
Tabela 01 – Síntese dos estudos incluídos na revisão
| Autor/Ano | Base de dados | Tipo de estudo | Principais Achados |
| Ferreira MC et al., 2022 | SciELO | Estudo epidemiológico transversal | Analisou desigualdades sociais na incidência e mortalidade por neoplasias em mulheres; mostrou que regiões com maior vulnerabilidade socioeconômica têm menor acesso ao diagnóstico e piores desfechos. |
| Souza BSN de et al., 2022 | LILACS | Estudo ecológico de tendência temporal | Identificou aumento das taxas de incidência dos principais cânceres, incluindo o de tireoide, com estabilização da mortalidade no período de 2000–2016. |
| Borges AKM et al., 2020 | SciELO | Estudo descritivo de registros hospitalares | Demonstrou aumento progressivo dos casos de câncer de tireoide no Brasil entre 2000–2016, especialmente em mulheres e nas regiões Sul e Sudeste. |
| Drumond EF & Drummond MCF, 2021 | SciELO | Estudo analítico de registros hospitalares | Mostrou discrepância entre aumento da incidência e estabilidade da mortalidade, sugerindo superdiagnóstico e excesso de intervenções. |
| Fernandes FCGM et al., 2021 | PubMed | Estudo multicêntrico | Apontou crescimento de incidência e estabilização da mortalidade em países da América Latina; destacou papel do diagnóstico precoce. |
| Dedivitis RA et al., 2020 | LILACS | Estudo clínico retrospectivo | Investigou recidiva cervical em carcinoma papilífero da tireoide, associando fatores anatômicos e histológicos à recorrência local. |
| Jardim BC et al., 2024 | SciELO | Relatório epidemiológico nacional | Apresentou estimativas atualizadas da incidência de câncer no Brasil; confirmou elevação de casos de tireoide, sobretudo em mulheres. |
| Olmos RD, 2021 | SciELO | Ensaio teórico/reflexão | Discutiu o impacto ético e clínico do sobrediagnóstico em saúde, enfatizando riscos de tratamentos desnecessários. |
| Reis RS et al., 2020 | PubMed | Relatório de registros populacionais | Analisou dados de 11 registros populacionais no Brasil; mostrou heterogeneidade regional e subnotificação em áreas menos desenvolvidas. |
| Hoff AO et al., 2024 | PubMed | Revisão narrativa | Revisou condutas clínicas no carcinoma diferenciado da tireoide; ressaltou necessidade de manejo individualizado e diagnóstico racional. |
| Guimarães RM et al., 2013 | LILACS | Estudo ecológico retrospectivo | Avaliou evolução da mortalidade por câncer de tireoide em adultos no Brasil; encontrou estabilidade das taxas em duas décadas. |
| Bolfi F et al., 2013 | PubMed | Estudo observacional transversal | Investigou prevalência de neoplasias em pacientes acromegálicos; identificou maior frequência de tumores tireoidianos. |
| Cordeiro EAK & Martini JG, 2013 | SciELO | Estudo descritivo | Caracterizou perfil clínico de pacientes com câncer de tireoide submetidos à radioiodoterapia em hospital de referência. |
| Brito AS et al., 2011 | SciELO | Estudo estatístico de modelagem | Estimou a incidência do câncer de tireoide no Brasil com modelos polinomiais, mostrando tendência de crescimento contínuo. |
| Rezende RB et al., 2023 | PubMed | Estudo descritivo | Analisou casos de câncer de tireoide entre 2018–2021, reforçando concentração de diagnósticos em regiões mais desenvolvidas. |
| Mota Borges AK et al., 2018 | PubMed | Estudo comparativo observacional | Comparou tendências de incidência de câncer de tireoide em países da América do Sul, destacando aumento expressivo no Brasil. |
A revisão da literatura revelou padrão de crescimento consistente da incidência do câncer de tireoide no Brasil, acompanhando uma tendência global descrita desde o início dos anos 2000 7,9,17. Estudos descritivos baseados em registros hospitalares e populacionais apontam aumento expressivo nas taxas de detecção, principalmente entre mulheres adultas e nas regiões Sudeste e Sul 3,5,10. Segundo Borges et al. 3, entre 2000 e 2016 houve elevação sustentada de casos notificados nos registros hospitalares de câncer, especialmente em centros urbanos com maior cobertura diagnóstica.
Esses achados corroboram as análises de Jardim et al. 17, que identificaram crescimento anual médio nas estimativas de incidência, refletindo não apenas o aprimoramento dos métodos diagnósticos, mas também o aumento da vigilância médica e do rastreamento oportunístico. O estudo de Ferreira et al. 1 complementa essa observação ao demonstrar que a distribuição do câncer de tireoide está fortemente associada às desigualdades sociais e econômicas, evidenciando que as populações mais vulneráveis têm menor acesso a exames preventivos e, consequentemente, menores taxas de detecção.
O aperfeiçoamento das técnicas de imagem é um dos fatores mais fortemente relacionados ao aumento da incidência. O uso ampliado da ultrassonografia de alta resolução e da punção aspirativa por agulha fina (PAAF) tem permitido a identificação de microcarcinomas papilíferos, muitas vezes clinicamente irrelevantes 4,8,12. Conforme Olmos 8 discute, o fenômeno do superdiagnóstico representa uma consequência direta dessa maior sensibilidade diagnóstica: tumores pequenos e de comportamento indolente são identificados e tratados de forma invasiva, mesmo sem impacto comprovado sobre a mortalidade.
Drumond e Drummond 4 analisaram registros hospitalares e verificaram que o número de cirurgias e terapias associadas ao câncer de tireoide cresceu em ritmo proporcional à detecção de novos casos, sem redução equivalente nas taxas de óbito. Esse descompasso reforça a hipótese de supertratamento e evidencia o desafio ético e econômico que envolve o manejo da doença. Guimarães et al. 11 já haviam apontado, em estudo anterior, que a mortalidade por câncer de tireoide se mantém estável ao longo de duas décadas, sugerindo que parte do aumento de casos se deve à detecção precoce de lesões sem significado clínico relevante.
A sobreposição entre diagnóstico precoce e sobrediagnóstico levanta um debate importante sobre a racionalidade do rastreamento. Segundo Olmos 8, a ideia de que detectar mais cedo é sempre melhor deve ser relativizada quando o tratamento implica riscos e custos desnecessários. Em consonância, Brito et al. 14 ressaltam que, no Brasil, os modelos matemáticos de tendência de incidência indicam crescimento mais acentuado do que o esperado com base na evolução demográfica, reforçando o papel dos fatores diagnósticos e não apenas epidemiológicos.
As disparidades regionais na distribuição do câncer de tireoide são evidentes. Ferreira et al. 1 destacam que as regiões Sul e Sudeste apresentam maior incidência devido à concentração de centros de diagnóstico, enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam limitações estruturais, subnotificação e menor acesso a exames especializados. Essa desigualdade compromete a representatividade dos dados nacionais e pode mascarar tendências locais.
Borges et al. 3 e Reis et al. 9 observaram que a maioria dos casos notificados provém de hospitais de referência situados em grandes capitais, o que indica concentração da vigilância e do diagnóstico. Essa centralização também sugere que parte da população brasileira permanece fora das estatísticas oficiais, principalmente em áreas rurais ou de menor desenvolvimento socioeconômico.
Do ponto de vista social, Ferreira et al. 1 reforçam que o risco de mortalidade por neoplasias, inclusive o câncer de tireoide, está ligado à renda, escolaridade e acesso a políticas públicas de saúde. Esse panorama reflete o contexto mais amplo das desigualdades sociais em saúde no Brasil, onde a detecção precoce e o tratamento adequado permanecem concentrados em segmentos populacionais mais favorecidos.
Embora o diagnóstico ampliado seja o principal responsável pelo crescimento observado, fatores etiológicos complementares também devem ser considerados. Estudos sugerem que a exposição à radiação ionizante é um dos fatores de risco mais bem estabelecidos para o desenvolvimento do câncer de tireoide, especialmente em populações expostas durante a infância 5,11,14. O estudo de Dedivitis et al. 6 também destacou a importância de fatores anatômicos e clínicos, como recidivas cervicais em carcinomas papilíferos, no prognóstico da doença.
Além disso, Guimarães et al. 11 e Bolfi et al. 12 discutem o papel de doenças endócrinas concomitantes, como acromegalia e distúrbios hormonais, que podem aumentar o risco de neoplasias tireoidianas. Cordeiro e Martini 13 , ao analisarem o perfil de pacientes submetidos à radioiodoterapia, reforçam que o manejo clínico adequado deve levar em conta tanto os riscos relacionados ao tratamento quanto os fatores ambientais e genéticos que podem predispor à doença.
A análise temporal das publicações mostra que, entre 2000 e 2024, a incidência do câncer de tireoide no Brasil cresceu de forma linear e progressiva 3,9,17. Entretanto, a estabilidade das taxas de mortalidade, demonstrada em estudos de Souza et al. 2 e Guimarães et al. 11, indica que o aumento de casos não se traduz em agravamento clínico populacional. Esse contraste é típico de doenças sujeitas ao superdiagnóstico e demanda uma abordagem mais criteriosa dos protocolos clínicos.
Ferreira et al. 1 e Drumond e Drummond 4 ressaltam que o fenômeno impõe desafios importantes para o Sistema Único de Saúde (SUS). O aumento de cirurgias, exames e acompanhamentos oncológicos eleva os custos e redireciona recursos que poderiam ser aplicados em condições de maior letalidade. Assim, a discussão sobre o câncer de tireoide ultrapassa o campo médico, alcançando dimensões éticas, econômicas e de gestão pública.
Além disso, a literatura evidencia uma lacuna quanto a estudos multicêntricos e longitudinalmente estruturados, capazes de esclarecer a contribuição real dos fatores de risco e ambientais na etiologia da doença 10,13,17. O incentivo à padronização dos registros e à integração entre bases de dados nacionais e regionais é essencial para a construção de políticas baseadas em evidências.
Em síntese, os resultados indicam que o aumento da incidência do câncer de tireoide no Brasil é multifatorial, resultando da interação entre melhorias diagnósticas, desigualdades regionais e possivelmente fatores biológicos e ambientais. A constância das taxas de mortalidade, entretanto, sugere que o impacto clínico real da doença permanece estável, reforçando a necessidade de protocolos que priorizem o rastreamento racional e a avaliação criteriosa dos casos suspeitos.
Conclusão
A análise crítica da literatura demonstra que o aumento da incidência do câncer de tireoide no Brasil é um fenômeno real, multifatorial e fortemente influenciado pelos avanços tecnológicos nas últimas décadas. As melhorias nos métodos diagnósticos, especialmente com a disseminação da ultrassonografia e da punção aspirativa por agulha fina, resultaram na detecção de um número crescente de tumores pequenos, muitos deles clinicamente indolentes e de baixo potencial de malignidade 4,8,12. Esse processo caracteriza o superdiagnóstico, que, embora reflita maior eficiência técnica, não representa necessariamente um aumento verdadeiro da doença na população 3,4,9,11 .
O panorama epidemiológico brasileiro acompanha a tendência internacional, mas com acentuadas desigualdades regionais e sociais. As regiões Sul e Sudeste, que concentram maior infraestrutura médica e laboratorial, apresentam índices de incidência superiores aos observados no Norte e Nordeste, onde a limitação de recursos ainda compromete o diagnóstico precoce e o registro sistemático de casos 1,3,9,15. Essas disparidades reforçam a necessidade de políticas públicas que ampliem o acesso à atenção primária e aos serviços de diagnóstico, garantindo equidade e vigilância epidemiológica efetiva.
Outro ponto de destaque refere-se à estabilidade das taxas de mortalidade, observada em diferentes estudos de base populacional e hospitalar 2,,4,11,17. Essa constância indica que o aumento da incidência não está associado a piora clínica ou a maior agressividade tumoral, mas, sim, à maior sensibilidade diagnóstica. Assim, o desafio contemporâneo é diferenciar o diagnóstico precoce benéfico do excesso de detecção, que leva a intervenções cirúrgicas e terapêuticas desnecessárias, expondo pacientes a riscos evitáveis e sobrecarga financeira ao sistema de saúde 8,10,14.
Além dos fatores diagnósticos, alguns estudos indicam a influência de determinantes ambientais, genéticos e ocupacionais, como a exposição à radiação ionizante e distúrbios hormonais 5,11,13. Embora as evidências nacionais ainda sejam limitadas, essas variáveis devem ser consideradas na formulação de estratégias de vigilância e prevenção, especialmente entre grupos vulneráveis, como mulheres jovens e populações expostas a procedimentos radiológicos frequentes 6,10,13.
Do ponto de vista das políticas públicas, a priorização do rastreamento seletivo e da estratificação de risco é essencial. Protocolos clínicos baseados em evidências devem orientar a conduta médica, equilibrando os benefícios do diagnóstico precoce com os riscos do supertratamento 4,8,12. Ademais, é imperativo fortalecer o Sistema Único de Saúde na coleta e integração de dados epidemiológicos, promovendo uma vigilância nacional padronizada e multicêntrica, capaz de gerar informações mais consistentes sobre a realidade do câncer de tireoide no país 9,15,17.
Em síntese, o crescimento da incidência do câncer de tireoide no Brasil reflete, sobretudo, o impacto do progresso diagnóstico e da ampliação do acesso aos serviços de saúde, e não um aumento real da doença. O enfrentamento desse cenário requer abordagens clínicas mais criteriosas, vigilância epidemiológica qualificada e redução das desigualdades regionais. Dessa forma, será possível garantir o uso racional dos recursos públicos, minimizar intervenções desnecessárias e assegurar maior qualidade de vida aos pacientes diagnosticados com essa neoplasia.
Referências
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1Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna, Afya, Itabuna, BA, Brasil.
Autor correspondente: Ackley Garcia Garcia Pastor de Oliveira – ackleyggpo@gmail.com
