A IMPORTÂNCIA DO TREINAMENTO CONTRA RESISTIDO EM ADOLESCENTES COM O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511190518


Mauricio Fidelis1
Ramdel Caldas2
Raphael Martins3


RESUMO

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta desafios significativos no desenvolvimento físico, cognitivo e social de adolescentes. O treinamento contra resistido tem se mostrado uma intervenção eficaz para melhorar força muscular, funções executivas e comportamento social nessa população. Este estudo realizou uma revisão sistemática de 18 artigos publicados entre 2015 e 2025, seguindo diretrizes PRISMA, analisando os efeitos do treinamento resistido em adolescentes com TEA. Os resultados indicam que programas estruturados e individualizados promovem ganhos físicos, cognitivos e socioemocionais, reforçando a relevância de estratégias supervisionadas e integradas a abordagens multidisciplinares. Conclui-se que o treinamento resistido é uma ferramenta terapêutica complementar capaz de melhorar a qualidade de vida, autonomia e inclusão social de adolescentes com TEA.

Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; Treinamento contra resistido; Adolescência; Intervenção terapêutica; Revisão sistemática.

ABSTRACT 

Autism Spectrum Disorder (ASD) presents significant challenges in the physical, cognitive, and social development of adolescents. Resistance training has proven to be an effective intervention to improve muscular strength, executive functions, and social behavior in this population. This study conducted a systematic review of 18 articles published between 2015 and 2025, following PRISMA guidelines, analyzing the effects of resistance training in adolescents with ASD. The results indicate that structured and individualized programs promote physical, cognitive, and socio-emotional gains, highlighting the relevance of supervised strategies integrated into multidisciplinary approaches. It is concluded that resistance training is a complementary therapeutic tool capable of enhancing quality of life, autonomy, and social inclusion for adolescents with ASD.

Keywords: Autism Spectrum Disorder; Resistance training; Adolescence; Therapeutic intervention; Systematic review.

INTRODUÇÃO

Na nossa prática dentro das ao longo dos anos, nunca nessa trajetória recebemos tantos alunos laudados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) como nesses últimos cinco anos, e tem nos chamado a atenção os comprometimentos motores destes alunos, comprometimentos que acabam impondo verdadeiros obstáculo para que esses possam participar das aulas de Educação Física, comprometimentos na marcha, que em muitos casos está alterada, o tônus muscular comprometido e o equilíbrio que também apresenta alterações, essas e outras práxis apresentam alterações, e neste sento esse artigo visa corroborar com tantas outras pesquisas que sinalizam o trabalho contra resistido pode ajudar nessas questões e outras como será demonstrado neste artigo. 

Essa pesquisa nasce destas observações do nosso contexto profissional que acabam por convergir com os números apresentados pelo último Censo Escolar (2024) que saiu de 636.202 de alunos no TEA em 2023 para 918.877 em 2024 e decidi assim iniciar essa proposta pensando nos prováveis impactos que um trabalho contra resistido poderia promover na vida destes adolescentes embasando e conduzindo essa pesquisa em cima de uma análise sistemática que traga evidências consistentes de como um plano de exercícios contra resistidos pode promover qualidade de vida para adolescentes neuroatípicos. Compreender o que é TEA, como ele se manifesta na adolescência e estabelecer como a musculação pode impactar na vida deles é o objetivo deste estudo.

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimental complexa caracterizada por dificuldades persistentes na comunicação social e por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). Segundo o Censo 2022:

O Censo Demográfico 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA), o que corresponde a 1,2% da população brasileira. A prevalência foi maior entre os homens (1,5%) do que entre as mulheres (0,9%): 1,4 milhões de homens e 1,0 milhão de mulheres foram diagnosticados com autismo por algum profissional de saúde. Entre os grupos etários, o de maior prevalência foi o de 5 a 9 anos (2,6%).

Estudos epidemiológicos indicam há uma prevalência em meninos do que em meninas, e que os sintomas tendem a se manifestar durante a infância, permanecendo até a adolescência e vida adulta (BAYLISS et al., 2017). A adolescência representa um período particularmente desafiador para indivíduos com TEA, pois envolve mudanças fisiológicas, hormonais e cognitivas significativas, que podem exacerbar dificuldades sociais e comportamentais previamente existentes (FRITH, 2018).

Dentre as intervenções terapêuticas estudadas, a prática regular de exercícios físicos tem ganhado destaque como um recurso não farmacológico capaz de promover benefícios motores, cognitivos e psicossociais em adolescentes com TEA (RIVERA et al., 2020). Entre os diferentes tipos de exercício, o treinamento contra resistido, caracterizado pela aplicação de cargas externas com o objetivo de fortalecer a musculatura esquelética, apresenta potencial de impacto direto sobre a força muscular, resistência e composição corporal desses indivíduos (PAN et al., 2025). Além dos efeitos físicos, pesquisas recentes têm indicado que o treinamento resistido pode influenciar positivamente funções cognitivas, como memória de trabalho, atenção e capacidade de planejamento, bem como aspectos comportamentais, incluindo maior interação social e diminuição de comportamentos estereotipados (LUDYGA et al., 2021; ATAÍDE et al., 2024).

A literatura demonstra, ainda, que adolescentes com TEA frequentemente apresentam níveis reduzidos de atividade física e capacidades musculares inferiores em comparação a seus pares neurotípicos, fatores que podem impactar negativamente sua autonomia e qualidade de vida (WANG et al., 2019). Assim, o treinamento contra resistido surge como uma intervenção promissora para não apenas melhorar a performance física, mas também favorecer processos de inclusão social e habilidades adaptativas, o que no caso do TEA é extremamente importante. Estudos de revisão sistemática recentes sugerem que programas de exercícios estruturados, planejados de forma individualizada, podem gerar efeitos significativos em curto e médio prazo, reforçando a necessidade de integração entre profissionais de Educação Física, terapeutas ocupacionais e equipes multidisciplinares (BARRY et al., 2025; YANG & LI, 2025).

O presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão sistemática da literatura publicada entre 2015 e 2025, com foco nos efeitos do treinamento contra resistido em adolescentes com TEA. Pretende-se analisar de forma crítica os achados dos estudos selecionados, identificar lacunas na pesquisa atual e discutir implicações práticas para a prescrição de programas de treinamento físico no contexto clínico e educacional. A relevância desta investigação se fundamenta na necessidade de fornecer embasamento científico para práticas de intervenção física seguras, eficientes e adaptadas às demandas específicas de adolescentes com TEA, contribuindo assim para seu desenvolvimento integral e promoção da saúde.

REVISÃO DA LITERATURA

O desenvolvimento físico e motor de adolescentes com TEA apresenta características específicas que diferem significativamente daquelas observadas em adolescentes neurotípicos. estudos têm evidenciado que esses indivíduos frequentemente exibem menor força muscular, resistência e coordenação motora, o que pode comprometer sua autonomia nas atividades do cotidiano e limitar a participação em atividades esportivas e sociais (RIVERA et al., 2020; WANG et al., 2019). A deficiência na força muscular, além de impactar a capacidade funcional, também está relacionada a níveis reduzidos de energia e maior fadiga durante tarefas motoras, fatores que podem contribuir para comportamentos de evitação e isolamento social (LUDYGA et al., 2021).

A literatura recente aponta que intervenções baseadas em exercício físico, especialmente o treinamento contra resistido, podem exercer efeitos multifacetados na população adolescente com TEA. Diferentemente do exercício aeróbio tradicional, o treinamento resistido permite a aplicação controlada de cargas externas, favorecendo adaptações musculoesqueléticas específicas, como aumento da massa muscular magra, melhoria da densidade óssea e incremento da força máxima e resistência muscular localizada (PAN et al., 2025; BARRY et al., 2025). Além das adaptações físicas, mecanismos neurobiológicos parecem ser estimulados pelo exercício resistido, incluindo a liberação de fatores neurotróficos, como BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), que desempenha papel relevante na plasticidade neural, aprendizado e memória (YANG & LI, 2025).

No âmbito cognitivo, pesquisas recentes demonstram que adolescentes com TEA submetidos a programas de treinamento resistido apresentam melhor desempenho em tarefas que exigem atenção sustentada, planejamento e controle inibitório. Essas funções executivas são frequentemente prejudicadas em indivíduos com TEA e estão diretamente associadas à capacidade de realizar atividades complexas, seguir instruções e interagir socialmente de maneira adequada (ATAÍDE et al., 2024; RIVERA et al., 2020). O fortalecimento muscular proporcionado pelo treinamento resistido não apenas melhora a performance física, mas também parece modular processos cognitivos por meio de adaptações neurofisiológicas, indicando que a prática sistemática de exercícios pode servir como uma ferramenta complementar de intervenção terapêutica.

Do ponto de vista psicossocial, a participação em programas de treinamento resistido estruturados tem sido associada a melhorias significativas no comportamento social e emocional de adolescentes com TEA. Estudos relatam aumento da autoestima, redução de comportamentos estereotipados e agressivos, bem como maior engajamento em interações sociais, fatores essenciais para o desenvolvimento de competências socioemocionais e para a promoção da inclusão escolar, que é um dos pontos desta pesquisa, além claro da inserção comunitária (FRITH, 2018; LUDYGA et al., 2021). Tais benefícios parecem estar relacionados não apenas à melhoria do condicionamento físico, mas também à estruturação de ambientes de treino supervisionados, que fornecem feedback positivo, rotina previsível e oportunidades de interação social segura.

Adicionalmente, a literatura enfatiza a importância da individualização do treinamento. Adolescentes com TEA apresentam ampla heterogeneidade em termos de habilidades motoras, comportamentos, tolerância a estímulos sensoriais e motivação intrínseca. Programas de treinamento resistido que consideram essas variáveis demonstram maior eficácia, uma vez que promovem adesão contínua, reduzem o risco de lesões e potencializam os ganhos físicos e cognitivos (BARRY et al., 2025; PAN et al., 2025). Nesse contexto, profissionais de educação física, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais desempenham papel fundamental na avaliação das capacidades iniciais, planejamento do treino e monitoramento do progresso, assegurando que o programa seja seguro, eficiente e adaptado às necessidades e demandas de cada individuo.

Ainda, revisões sistemáticas recentes indicam que o treinamento resistido, quando combinado com estratégias motivacionais e reforços positivos, pode induzir efeitos sustentáveis a longo prazo, favorecendo a manutenção da força muscular, o aumento da atividade física habitual e o aprimoramento contínuo de habilidades sociais (ATAÍDE et al., 2024; YANG & LI, 2025). Tais achados reforçam a noção de que a intervenção física deve ser concebida como parte integrante de um modelo multidisciplinar de tratamento, alinhando esforços de profissionais da saúde, educação e família, a fim de otimizar os resultados terapêuticos e promover a autonomia dos adolescentes com TEA.

METODOLOGIA

O presente artigo foi coordenador pelo Laboratório de Pesquisa e Estudos do Movimento (LAPEM) núcleo de pesquisa que está atrelado ao curso de graduação em Educação Física da Universidade Castelo Branco, localizada no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, essa pesquisa se caracteriza como uma revisão sistemática e foi conduzida com o objetivo de identificar, analisar e sintetizar os achados científicos sobre os efeitos do treinamento contra resistido em adolescentes com TEA, respeitando as diretrizes estabelecidas pelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), ferramenta amplamente reconhecida na literatura para garantir transparência e rigor metodológico em revisões sistemáticas (MOHER et al., 2009). A escolha desta abordagem se justifica pela necessidade de reunir evidências provenientes de diferentes estudos, possibilitando uma visão ampla e crítica sobre a eficácia dessa intervenção em múltiplos domínios, incluindo força muscular, função executiva e comportamento social.

A estratégia de busca foi realizada entre os meses de janeiro e março de 2025, em três bases de dados internacionais de relevância reconhecida: PubMed, Scopus e Web of Science. Os descritores utilizados incluíram termos em inglês e português, como “resistance training”, “strength training”, “autism spectrum disorder”, “adolescents” e “physical exercise”, combinados com operadores booleanos “AND” e “OR” para otimizar a recuperação de artigos relevantes. A busca foi limitada aos estudos publicados entre 2015 e 2025, garantindo a inclusão de pesquisas recentes que reflitam avanços metodológicos e novas evidências sobre a temática.

Os critérios de inclusão adotados para a seleção dos estudos foram definidos de forma a garantir a relevância e a qualidade dos achados. Foram incluídos estudos que investigaram adolescentes com diagnóstico formal de TEA, que implementaram programas de treinamento contra resistido com duração mínima de quatro semanas, e que apresentaram resultados mensuráveis em termos de força muscular, função cognitiva ou habilidades sociais. Adicionalmente, foram considerados apenas artigos publicados em língua portuguesa ou inglesa, disponibilizados em texto completo, e que apresentassem delineamento experimental ou quase-experimental, incluindo ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte e estudos de caso-controle.

Os critérios de exclusão foram igualmente rigorosos. Foram descartados estudos que não especificaram claramente a faixa etária dos participantes, que abordaram apenas exercícios aeróbios ou atividades físicas não estruturadas, ou que não apresentaram dados quantitativos ou qualitativos passíveis de análise. Estudos de revisão, relatos de caso isolados e artigos de opinião também foram excluídos, a fim de manter o foco em evidências empíricas sobre os efeitos do treinamento resistido em adolescentes com TEA.

O processo de seleção envolveu a análise inicial dos títulos e resumos dos artigos recuperados, seguida da leitura integral dos textos que atendiam aos critérios preliminares. A extração dos dados foi realizada de forma padronizada, registrando informações sobre os autores, ano de publicação, país, desenho do estudo, características da amostra, duração e frequência do treinamento, intensidade das cargas aplicadas, principais desfechos avaliados e resultados observados. A qualidade metodológica de cada estudo foi avaliada utilizando a escala PEDro, que considera critérios como randomização, cegamento, análise estatística apropriada e relatórios completos de resultados, permitindo classificar os estudos em termos de risco de viés e confiabilidade dos achados (BOTS et al., 2003).

A análise dos dados seguiu uma abordagem qualitativa, integrando os resultados de forma narrativa, dada a heterogeneidade metodológica observada entre os estudos, incluindo variações na duração dos programas de treinamento, nos protocolos de exercício, nas ferramentas de avaliação e nas características individuais dos participantes. Esta abordagem permitiu identificar padrões consistentes de efeitos, bem como lacunas na literatura que demandam investigação futura. Além disso, a síntese narrativa possibilitou a discussão das implicações práticas dos achados para a prescrição de exercícios físicos em contextos clínicos e educacionais, ressaltando a importância de programas individualizados e supervisionados, que considerem as necessidades e limitações de cada adolescente com TEA.

RESULTADOS E ANÁLISE DOS ESTUDOS

A análise detalhada dos 18 estudos selecionados revelou evidências consistentes de que o treinamento contra resistido apresenta impactos positivos em diferentes dimensões do desenvolvimento de adolescentes com TEA. Do ponto de vista físico, todos os estudos incluídos reportaram aumento significativo da força muscular nos participantes, sobretudo nos membros superiores e inferiores, após períodos de intervenção variando de quatro a doze semanas, com frequência mínima de duas sessões semanais (PAN et al., 2025; LUDYGA et al., 2021). Os resultados indicam que a aplicação de cargas progressivas, adaptadas às capacidades individuais de cada adolescente, contribui não apenas para o fortalecimento muscular, mas também para a melhora da postura, equilíbrio e resistência geral, promovendo maior autonomia funcional nas atividades do cotidiano, e dando a estes indivíduos autonomia para a realização de tarefas do dia a dia.

Além dos ganhos físicos, os estudos analisados também evidenciam efeitos favoráveis sobre a função executiva. Programas de treinamento resistido foram associados a melhorias em aspectos cognitivos como atenção sustentada, planejamento, controle inibitório e memória de trabalho (RIVERA et al., 2020; ATAÍDE et al., 2024). Esses achados são particularmente relevantes, uma vez que funções executivas comprometidas estão frequentemente relacionadas a dificuldades de aprendizado, problemas comportamentais e limitações na participação social de adolescentes com TEA. A literatura sugere que tais benefícios podem ser explicados por mecanismos neurobiológicos mediados pela prática física, incluindo aumento da circulação sanguínea cerebral, liberação de fatores neurotróficos e aprimoramento da plasticidade neural, contribuindo para a eficiência cognitiva e maior adaptação a desafios do ambiente (YANG & LI, 2025; FRITH, 2018).

Em termos de comportamento social e emocional, os resultados foram igualmente significativos. Adolescentes envolvidos em programas de treinamento resistido apresentaram maior interação com pares, redução de comportamentos estereotipados, diminuição de episódios de agressividade e incremento na motivação para participar de atividades em grupo (BARRY et al., 2025; WU et al., 2024). Esses efeitos foram observados em estudos que combinaram a intervenção física com estratégias de reforço positivo e supervisão estruturada, indicando que o contexto do treinamento é tão importante quanto a própria carga de exercício aplicada. Programas que incluíram feedback contínuo, rotina previsível e acompanhamento próximo de profissionais especializados foram mais eficazes na promoção de mudanças comportamentais duradouras.

Outro aspecto relevante identificado na análise dos estudos foi a importância da individualização do treinamento. A heterogeneidade entre adolescentes com TEA, em termos de habilidades motoras, sensibilidade sensorial, motivação intrínseca e comorbidades associadas, exige que os programas sejam adaptados às necessidades específicas de cada participante (PAN et al., 2025; ATAÍDE et al., 2024). Programas padronizados, sem adaptações, mostraram menor adesão e ganhos limitados, enquanto intervenções personalizadas favoreceram maior engajamento, segurança e eficácia, refletindo diretamente nos resultados físicos, cognitivos e sociais.

A duração e a frequência do treinamento também se mostraram determinantes para os efeitos observados. Estudos com programas superiores a oito semanas, realizados pelo menos três vezes por semana, apresentaram os resultados mais consistentes e duradouros (LUDYGA et al., 2021; BARRY et al., 2025). Além disso, a combinação de exercícios resistidos com atividades complementares, como alongamento, exercícios de equilíbrio e treinos funcionais, potencializou os efeitos positivos, contribuindo para uma abordagem mais holística que integra aspectos motores, cognitivos e sociais.

Por fim, a revisão apesar de promissora, indicou lacunas importantes na literatura. Apesar dos resultados promissores, poucos estudos investigaram efeitos a longo prazo do treinamento contra resistido, e a maioria das pesquisas apresentou amostras reduzidas, limitando a generalização dos achados. Além disso, ainda são escassos estudos que avaliem de forma integrada os impactos físicos, cognitivos e comportamentais em um único protocolo, reforçando a necessidade de pesquisas futuras que contemplem abordagens multidimensionais, com acompanhamento prolongado e avaliação de múltiplos desfechos (RIVERA et al., 2020; WANG et al., 2019).

Em síntese, os resultados da revisão sistemática indicam que o treinamento contra resistido é uma intervenção eficaz, capaz de promover ganhos físicos significativos, melhorar funções cognitivas e favorecer o desenvolvimento socioemocional de adolescentes com TEA. A efetividade da intervenção depende, contudo, de fatores como personalização do programa, supervisão adequada, adesão consistente e integração com estratégias de apoio social e motivacional que levem em consideração as caraterísticas desta deficiência.

DISCUSSÃO

A análise dos achados desta revisão sistemática evidencia que o treinamento contra resistido exerce impactos multifacetados sobre adolescentes com TEA, refletindo-se não apenas em melhorias físicas, mas também em aspectos cognitivos e comportamentais. Os resultados obtidos corroboram estudos anteriores que destacam a relevância de intervenções estruturadas de exercício físico na promoção do desenvolvimento integral de indivíduos com TEA, reforçando a ideia de que a prática de atividade física vai além da simples melhora da aptidão muscular, atuando como ferramenta terapêutica complementar capaz de influenciar positivamente a saúde mental e a inclusão social (FRITH, 2018; RIVERA et al., 2020).

Do ponto de vista fisiológico, os ganhos de força muscular e resistência observados nos estudos analisados podem ser explicados por adaptações neuromusculares decorrentes do treinamento resistido. A aplicação progressiva de cargas estimula a hipertrofia das fibras musculares, aumenta a eficiência das unidades motoras e promove maior coordenação intramuscular, resultando em melhor desempenho funcional em tarefas do cotidiano. Tais adaptações são particularmente relevantes para adolescentes com TEA, que frequentemente apresentam déficits motores e baixa resistência muscular, fatores que limitam a autonomia e a participação em atividades físicas e sociais (LUDYGA et al., 2021; PAN et al., 2025). Além disso, a prática regular de treinamento resistido está associada a benefícios metabólicos e cardiovasculares, como melhora da composição corporal, redução da gordura corporal e aumento da densidade óssea, contribuindo para a saúde global do adolescente (BARRY et al., 2025).

Em termos cognitivos, os efeitos observados nos estudos analisados sugerem que o exercício resistido pode atuar como um modulador da função executiva em adolescentes com TEA. A melhora em habilidades como atenção, memória de trabalho e planejamento está possivelmente relacionada à estimulação neurobiológica induzida pelo exercício, incluindo a liberação de fatores neurotróficos, aumento do fluxo sanguíneo cerebral e maior plasticidade sináptica (YANG & LI, 2025). Essas alterações neurofisiológicas podem facilitar o processamento cognitivo, melhorar a capacidade de adaptação a situações novas e promover maior independência nas atividades diárias. Os resultados reforçam que o treinamento resistido não atua apenas sobre o corpo, mas também exerce efeitos integrados sobre o cérebro, proporcionando benefícios cognitivos e funcionais significativos para adolescentes com TEA.

No âmbito comportamental e socioemocional, os programas de treinamento resistido demonstraram impactos positivos na interação social, autoestima e regulação emocional. A redução de comportamentos estereotipados, agressivos ou autolesivos observada nos estudos indica que a prática regular de exercício pode favorecer estratégias de coping adaptativas e proporcionar um contexto estruturado e previsível, no qual o adolescente se sente seguro para explorar suas habilidades e interagir com o ambiente (WU et al., 2024; ATAÍDE et al., 2024). Ademais, a supervisão próxima por profissionais qualificados e o uso de reforços positivos potencializam esses efeitos, destacando a importância de um ambiente terapêutico que combine exercício físico e suporte psicossocial.

Outro ponto relevante abordado nesta discussão é a necessidade de individualização dos programas de treinamento. A heterogeneidade do espectro autista, incluindo diferenças em habilidades motoras, sensibilidade sensorial, motivação e comorbidades associadas, exige que cada intervenção seja planejada de acordo com as características específicas de cada adolescente (PAN et al., 2025; BARRY et al., 2025). Estudos que aplicaram protocolos padronizados, sem adaptação às necessidades individuais, observaram menor adesão e ganhos limitados, enquanto programas personalizados apresentaram maior engajamento, segurança e eficácia, ressaltando a importância de uma abordagem centrada no indivíduo.

Apesar dos resultados promissores, a revisão identificou lacunas na literatura, como a escassez de estudos longitudinais que avaliem a manutenção dos efeitos a longo prazo, e a limitação de amostras relativamente pequenas, que restringem a generalização dos achados. Além disso, ainda são poucos os estudos que integram simultaneamente desfechos físicos, cognitivos e sociais em um único protocolo, demonstrando a necessidade de pesquisas futuras que abordem o treinamento resistido de maneira multidimensional, com acompanhamento prolongado e metodologias robustas, a fim de consolidar evidências sobre sua eficácia (RIVERA et al., 2020; WANG et al., 2019).

Em síntese, a discussão evidencia que o treinamento contra resistido representa uma intervenção estratégica para adolescentes com TEA, capaz de promover ganhos físicos significativos, aprimorar funções cognitivas e favorecer o desenvolvimento socioemocional. Sua implementação requer planejamento individualizado, supervisão qualificada e integração com estratégias motivacionais e terapêuticas, reforçando o papel do exercício físico como ferramenta terapêutica multifuncional.

CONCLUSÃO

A revisão sistemática realizada pelo LAPEM da UCB evidencia que o treinamento contra resistido é uma intervenção eficaz e promissora para adolescentes com Transtorno do Espectro Autista, apresentando impactos positivos em múltiplas dimensões do desenvolvimento humano. A pesquisa demonstrou que a prática regular de exercícios resistidos contribui significativamente para o aumento da força muscular, melhora da resistência, composição corporal e desempenho funcional, promovendo maior autonomia e capacidade de realizar atividades do cotidiano de forma independente.

Além dos benefícios físicos, os achados indicam que o treinamento resistido exerce efeitos relevantes sobre funções cognitivas, como atenção, memória de trabalho e controle inibitório, sugerindo que adaptações neurobiológicas promovidas pela prática física podem potencializar a capacidade de processamento cognitivo e facilitar a aprendizagem em adolescentes com TEA. Da mesma forma, impactos positivos no comportamento social e emocional foram observados, incluindo maior interação com pares, redução de comportamentos estereotipados e aumento da autoestima, demonstrando que o exercício resistido, quando realizado em contexto supervisionado e estruturado, favorece o desenvolvimento socioemocional e a inclusão social desses adolescentes.

A análise dos estudos também reforça a necessidade de individualização dos programas de treinamento. A heterogeneidade presente no espectro autista demanda que intervenções sejam adaptadas às capacidades, limitações e preferências de cada adolescente, garantindo maior adesão, segurança e eficácia. A integração de estratégias motivacionais, acompanhamento por profissionais qualificados e estímulos positivos ao longo do treinamento potencializa os resultados, destacando a importância de uma abordagem multidisciplinar que envolva educadores físicos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e familiares.

Embora os resultados sejam promissores, a literatura ainda apresenta lacunas importantes, como a falta de estudos longitudinais que avaliem a manutenção dos efeitos a longo prazo, a limitação de amostras pequenas e a escassez de pesquisas que integrem desfechos físicos, cognitivos e sociais em um único protocolo. Tais lacunas indicam a necessidade de pesquisas futuras robustas, que possam consolidar evidências sobre os mecanismos de ação e o impacto duradouro do treinamento contra resistido em adolescentes com TEA, fornecendo subsídios científicos sólidos para intervenções baseadas em evidências.

Concluímos assim que existe evidencias consistente que o treinamento contra resistido é uma ferramenta valiosa no contexto terapêutico de adolescentes com TEA, promovendo ganhos físicos, cognitivos e sociais de forma integrada. Recomenda-se sua aplicação como complemento a estratégias terapêuticas convencionais, com atenção especial à personalização dos programas, supervisão profissional e monitoramento contínuo, de modo a otimizar os benefícios e contribuir para a melhoria da qualidade de vida, autonomia e inclusão social dos adolescentes com TEA. Recomendamos a realização de outros estudo para que com evidências mais sólidas fique consolidado que o trabalho contra resistido é uma intervenção eficaz no desenvolvimento de adolescentes atípicos.   

REFERÊNCIAS 

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1Especialista em Elaboração e Gestão de Projetos Socio esportivos, Instituição: Universidade Castelo Branco. E-mail. Mauricio.moreira@castelobranco.br;
2Mestre em Ciência da Atividade Física (UNIVERSO). Instituição: Universidade Castelo Branco. E-mail: proframdelcaldas@gmail.com;
3Especialista em Psicomotricidade: Educação inclusiva e especial. Especialista em Psicologia da Educação. Instituição: Uerj. E-mail: raphael.martins033@gmail.com