A IMPORTÂNCIA DO ENSINO PRÁTICO EM UNIDADES DE SAÚDE DA FAMÍLIA PARA OS ALUNOS DO 1° PERÍODO DE MEDICINA: FORMAÇÃO COMO FUTUROS MÉDICOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202602281553


Caio Feldberg Porto1
Sofia Bezerra Sobral2
Camila Távora Botelho de Oliveira3
Bruno Sales Brancalhão4


Resumo  

A Prática de Interação em Saúde na Comunidade é um módulo curricular do curso de Medicina do Centro Universitário Fametro e tem como objetivo possibilitar aos estudantes uma inserção nas Unidades Saúde da Família (USF) que lhes permita compreender os determinantes do processo saúde-doença, a importância das medidas de promoção e prevenção e da USF como espaço do cuidado. As atividades são desenvolvidas nos dois primeiros meses do curso, em módulo de cerca de 40 horas, por meio de conteúdos construídos mediante mapas conceituais que abrangem desde o conhecimento do território até atividades médicas da atenção básica. Os resultados mais evidentes são: a diversificação dos cenários de ensino-aprendizagem, a inserção precoce dos estudantes na rede básica e o desenvolvimento de habilidades voltadas à humanização do atendimento e ao cuidado centrado no paciente.

Palavras-chave: Educação Médica. Metodologia Ativa. Ensino Prático. Atenção Primária à Saúde. Unidades de Saúde da Família.

Abstract

The Community Health Interaction Practice is a curricular module of the Medical School at Centro Universitário Fametro. It aims to provide students with an immersive experience within Family Health Units (USF), enabling them to understand the determinants of the health-disease process, the significance of health promotion and prevention measures, and the role of the USF as a space for care. Activities are carried out during the first two months of the program in a module of approximately 40 hours. The content is structured through conceptual maps that cover everything from territorial recognition to primary care medical activities. The most prominent results include: the diversification of teaching-learning scenarios, the early integration of students into the primary healthcare network, and the development of skills focused on humanized service and patient-centered care.

Keywords: Medical Education. Active Methodology. Practical Teaching. Primary Health Care. Family Health Units.

1. Introdução 

O curso de graduação em Medicina caracteriza-se pela interpretação e classificação de fenômenos relacionados à saúde e seleção de intervenções para a resolução dos agravos ou problemas de saúde-doença. Desta forma, os seus conteúdos essenciais devem estar relacionados a todo processo saúde-doença do cidadão, da família e da comunidade, integrado à realidade epidemiológica e profissional, proporcionando a integralidade das ações do cuidar em medicina (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2014). 

Para alcançar esse fim, a Resolução nº 3, de 20 de junho de 2014 (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2014), que instituiu novas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina, estabeleceu que o referido curso deve utilizar metodologias que privilegiem a participação ativa do estudante na construção do conhecimento e na integração entre os conteúdos, acolhendo, assim, a relevância de métodos que estimulem a participação efetiva do aluno. 

Segundo Morán (2015), a formação de alunos proativos requer metodologias ativas, com graus crescentes de complexidade associados a tomadas de decisão com o suporte de materiais pertinentemente orientados pelo docente. 

Uma das formas para implementar a participação ativa foi através da introdução do aluno de medicina na atenção primária à saúde, que é a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde. Isso permite que o discente obtenha conhecimentos sobre um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, abrangendo a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde da coletividade (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017). 

As vivências experimentadas pelos alunos na atenção primária envolvem a participação no acolhimento do paciente, o acompanhamento do histórico de cada pessoa que passa pelo atendimento e triagem como forma de possibilitar o acesso às informações das doenças que afetam as pessoas de determinadas localidades. Além disso, todos os processos realizados pelos discentes são acompanhados e supervisionados por um preceptor, o que colabora para o treinamento dos estudantes e evidencia a responsabilidade para com os pacientes. 

Nesse contexto, este relato de experiência tem como objetivo demonstrar a importância do ensino prático em Unidades de Saúde da Família para os alunos do 1° período de Medicina e na sua formação como futuros médicos. 

2. Metodologia  

Trata-se de um relato de experiência acerca da importância do ensino prático em uma Unidade de Saúde da Família para os alunos do primeiro período de Medicina. A prática foi realizada na USF São Francisco, localizada na Rua Rodolfo Vale, S/N, bairro São Francisco, CEP: 69.079-440, Manaus/Amazonas. Teve seu início em 19 de fevereiro de 2024 e término em 15 de abril de 2024.  

3. Resultados  

Em 19 de fevereiro de 2024, os alunos iniciaram o módulo Interação em Saúde na Comunidade I, com carga horária de 40 horas. Seu objetivo é promover uma inserção nas Unidades Saúde da Família (USF), de modo a se compreender os determinantes do processo saúde-doença, a importância das medidas de promoção e prevenção e da USF como espaço do cuidado. 

Neste primeiro contato os discentes sentiram que estavam atrapalhando as atividades da USF São Francisco. Isso porque não possuíam conhecimentos, habilidades e atitudes que lhes permitisse assumir procedimentos relacionados ao cuidado e diante da demanda existente na referida USF. 

No entanto, considerando a excelente capacitação técnica e conhecimento da metodologia ativa por parte da preceptora, logo foram estimulados a sair da zona de conforto e incentivados a participar das atividades práticas que estavam acompanhando, bem como discutir e refletir acerca das condutas tomadas. 

A USF São Francisco conta com uma equipe multidisciplinar de profissionais de saúde para atender às necessidades da população e os alunos acompanharam todos esses especialistas, com exceção da equipe de odontologistas e dos agentes comunitários de saúde, que realizam visitas domiciliares. 

Tiveram a oportunidade de participar ativamente junto aos enfermeiros e técnicos de enfermagem da USF, onde aprenderam a realizar a triagem do paciente, como aferir corretamente a sua pressão, verificar sua glicemia, o seu peso e altura e perímetro cefálico, em caso de se tratar de bebê. Aprenderam a técnica correta de preparo e de administração de vacinas, a realizar teste rápido de doenças sexualmente transmissíveis, a realizar a limpeza e curativo em pé diabético, bem como a proceder com o devido descarte de materiais utilizados. 

Junto aos farmacêuticos aprenderam a realizar a dispensação de medicamentos e passaram a conhecer para quais tratamentos eles são destinados. Quanto aos nutricionistas, puderam participar do processo de orientação sobre alimentação saudável e cuidados nutricionais específicos.  

Também atuaram em conjunto com os técnicos de administração, onde tiveram a oportunidade de recepcionar o paciente e de realizar o seu cadastro junto ao sistema SIAB (Sistema de Informação da Atenção Básica) e de solicitação de exames e procedimentos através do SisREG (Sistema Nacional de Regulação). 

Já o acompanhamento junto aos médicos ocorreu de forma mais passiva e observacional, contudo, ainda assim, de extrema valia, pois viabilizou o primeiro contato com os diferentes cenários de saúde, permitindo aprender a fazer uma correta anamnese, bem como lhes proporcionou a oportunidade de desenvolver habilidades médicas humanizadas. 

4. Considerações finais 

Sabendo que a USF é uma porta de entrada para o sistema público de saúde, é inequívoco que essa participação foi positiva para os discentes. Ela permitiu a compreensão dos determinantes do processo saúde-doença, da importância das medidas de promoção, prevenção, tratamento e redução de danos ou sofrimentos que possam comprometer as possibilidades de viver de modo saudável. Além disso, contribuiu para aguçar o olhar dos alunos sobre o contexto teórico e prático dentro das unidades, considerando o paciente em sua singularidade, complexidade, integralidade e inserção sociocultural. 

Imperioso destacar, ainda, que as atividades práticas desempenhadas convergiram de forma sinérgica na consolidação dos conhecimentos e desenvolvimento das habilidades médicas estudadas nos módulos teóricos ao longo do período. Aguçou, ainda, a curiosidade pela busca de mais informações acerca dos atendimentos e enfermidades que se depararam. 

O referido ensino prático durou apenas oitos semanas, e, na opinião dos discentes, uma experiência mais duradoura, na hipótese de o módulo contar com uma carga horária maior, certamente lhes traria mais aprendizados acerca da comunicação com pacientes e comunidade; trabalho em equipe; ética geral e profissional; promoção de saúde e prevenção de doenças; raciocínio clínico; e educação em saúde. 

Assim, foi unânime a percepção de que a inserção precoce dos discentes nos cenários de saúde bem como o desenvolvimento de ações de promoção de saúde ou de prevenção de agravos foi uma experiência exitosa e que está de acordo com o proposto pelas novas Diretrizes para o curso de medicina. 

5. Referências 

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. 2014. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Art. 23 da Resolução CNE/CES Nº 3, de junho de 2014. D.O.U 23/06/2014. Brasil. https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-eprogramas/pnsp/legislacao/resolucoes/rces003_14.pdf/view. Acesso em 20.03.2024. 

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.2014. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Art. 29 da Resolução CNE/CES 3, de junho de 2014. D.O.U 23/06/2014. Brasil.  https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-eprogramas/pnsp/legislacao/resolucoes/rces003_14.pdf/view. Acesso em 20.03.2024. 

MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2017. Política Nacional da Atenção Primária. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/o-que-e-atencao-primaria.  Acesso em 20.03.2024. MORÁN, J. Mudando a educação com metodologias ativas. PROEX/UEPG, 2015.


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