THE IMPORTANCE OF PHYSIOTHERAPY IN PREVENTING MEDIAL TIBIAL STRESS SYNDROME (SHIN SPLINTS) IN AMATEUR RUNNERS OVER 40 YEARS OLD.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511261340
Camila Martins de Araújo
Diego Batista da Silva
Fernanda da Silva Silveira
Monique Offrede Barros
Vinícius Ferreira Barros
Prof. M.Sc. Bruno Pereira da Silva
Resumo
O artigo aborda a relevância da fisioterapia na prevenção da Síndrome do Estresse Tibial Medial em corredores amadores acima de quarenta anos, analisando a produção científica recente para compreender fatores de risco, aspectos biomecânicos e intervenções preventivas aplicáveis a essa população. A pesquisa realiza uma revisão bibliográfica estruturada com identificação, seleção, extração e síntese de estudos publicados nos últimos cinco anos na base PubMed, utilizando descritores específicos e critérios rigorosos de elegibilidade. A busca inicial encontra cento e oitenta estudos, dos quais apenas três atendem integralmente aos requisitos da investigação. Esses trabalhos indicam que exercícios voltados ao fortalecimento muscular, sobretudo dos abdutores do quadril, melhoram parâmetros biomecânicos relacionados ao valgo dinâmico e ao controle pélvico, enquanto programas multimodais de força e propriocepção favorecem ganhos funcionais e percepção positiva de recuperação. Outro estudo mostra que estratégias de retreinamento da corrida apresentam potencial para reduzir a sobrecarga tibial ao promover ajustes técnicos que redistribuem as cargas durante a passada. A análise conjunta evidencia que intervenções fisioterapêuticas preventivas oferecem benefícios consistentes ao aprimorar controle neuromuscular, padrões de movimento e eficiência funcional, contribuindo para minimizar riscos de lesão em corredores maduros. O estudo conclui que há necessidade de ampliar ensaios clínicos com amostras maiores e acompanhamento prolongado, a fim de consolidar recomendações específicas e baseadas em evidências para essa faixa etária em crescimento no cenário da corrida recreacional.
Palavras-chave: Fisioterapia. Corrida. Lesões esportivas. Prevenção. SETM.
This article addresses the relevance of physiotherapy in preventing Medial Tibial Stress Syndrome in amateur runners over the age of forty, analyzing recent scientific literature to understand risk factors, biomechanical aspects, and preventive interventions applicable to this population. The study conducts a structured literature review involving the identification, selection, extraction, and synthesis of studies published in the last five years in the PubMed database, using specific descriptors and rigorous eligibility criteria. The initial search yields one hundred and eighty studies, of which only three fully satisfy the requirements of the investigation. These studies indicate that strengthening exercises, particularly those targeting the hip abductors, improve biomechanical parameters related to dynamic valgus and pelvic control, while multimodal strength and proprioception programs promote functional gains and positive recovery perception. Another study shows that running retraining strategies have the potential to reduce tibial loading by promoting technical adjustments that redistribute forces during the stride. The combined analysis demonstrates that preventive physiotherapy interventions provide consistent benefits by enhancing neuromuscular control, movement patterns, and functional efficiency, contributing to reducing injury risk in mature runners. The study concludes that larger clinical trials with extended follow-up are needed to strengthen evidence-based recommendations for this increasingly growing age group within recreational running.
Keywords: Physiotherapy. Running. Sports injuries. Prevention. MTSS.
1 INTRODUÇÃO
A paixão pela corrida de rua tem conquistado e aumentado o número de adeptos, pois é uma modalidade esportiva que arrebata corações, sua dinâmica é muito motivadora, que frequentemente se torna um desafio pessoal, querer quebrar e avançar marcas pessoais. Essa motivação pessoal pode ser usada para impulsionar o volume de atividades físicas realizadas, o que está diretamente ligado a melhores prognósticos de saúde e bem-estar (NADERI et al., 2025).
Contudo, o excesso do entusiasmo, muitas vezes leva corredores amadores a exigirem mais do seu próprio corpo, expondo-o a altas cargas de treinamento sem a devida orientação de dosagem o que, consequentemente configura um fator de risco para o desenvolvimento de lesões musculoesqueléticas (DESHMUKH e PHANSOPKAR, 2022; BONFIM et al., 2021; MENÉNDEZ et al., 2020). Tais quadros lesivos têm a probabilidade de surgir devido ao esforço repetitivo e excessivo, sem o repouso necessário, o que prejudica tanto o desempenho na rotina de treino quanto na qualidade de vida dos praticantes de corrida (MARQUES et al., 2025; BONFIM et al., 2021; KAKOURIS et al., 2021).
Uma das lesões desenvolvidas por corredores recreacionais é a Síndrome do Estresse Tibial Medial (SETM), conhecida como canelite. Esta condição patológica afeta um percentual considerável de corredores, apresentando dor ou incômodo na região medial da tíbia (MARQUES et al., 2025; SAAD et al., 2025, RAMTEKE e JAISWAL, 2024; CLURE e OH, 2023) DESHMUKH e PHANSOPKAR, 2022). A SETM é uma condição patológica caracterizada pela sobrecarga estrutural com etiologias multifatoriais, envolvendo fatores intrínsecos e extrínsecos. Estes incluem padrões de movimentos com disfunções musculares originadas por desequilíbrio de força, volume e a intensidade mais altas que a capacidade dos mesmos, e calçados inadequados ao terreno da corrida (MARQUES et al., 2025; ANDERSON et al., 2024; JUNGMANN, 2021).
Nesta correlação complexa entre fatores intrínsecos e extrínsecos em corredores, que reside um cenário indispensável para a atuação do fisioterapeuta, principalmente na prevenção de lesões (SACCO et al., 2023; VICENTE et al., 2022). Isto ocorre porque entendemos que a prática vai para além do tratamento do quadro lesivo instaurado, ela abrange a identificação precoce de riscos, a educação sobre como gerenciar a carga de treinamento de forma inteligente e aprimorar a técnica de corrida e, claro, a implementação de programas de exercícios que visam especificamente à prevenção (SACCO et al., 2023; VICENTE et al., 2022). Sendo assim, ao adotar o “modelo biopsicossocial da dor”, a fisioterapia consegue olhar o corredor de forma integral, considerando não só os aspectos físicos da lesão, mas também como fatores psicológicos e sociais podem influenciar na percepção da dor e na progressão da recuperação e prevenção (CARVALHO NETO, 2022).
A partir da exposição deste panorama, a presente pesquisa visa descrever e analisar a produção científica, para sintetizar as características dos achados acadêmicos que abordam as intervenções e recomendações fisioterapêuticas preventivas sobre a SETM em corredores amadores com idade igual ou superior a 40 anos. Desse modo, a análise tem foco direcionado para as perspectivas epidemiológicas, de distúrbios biomecânicos e de fatores de risco, que influenciam o desenvolvimento da condição clínica patológica, com objetivo de elaborar um plano estratégico de prevenção adequada.
Nesta revisão bibliográfica buscamos preencher esta lacuna, pois há poucas investigações que proponham a estratificação de pessoas por faixa etária quando o assunto é a prevenção de SETM em corredores amadores. Esta ausência limita a formulação de recomendações clínicas direcionadas e baseadas em evidências mais assertivas para esse público, que demonstra e necessita de cuidados particulares.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Corrida de Rua e Popularização entre Adultos
A corrida de rua tem se destacado como uma das práticas esportivas mais acessíveis e difundidas entre adultos, sobretudo por seus benefícios fisiológicos e motivacionais. O aumento da participação nessa modalidade tem sido acompanhado por relatos de maior bem-estar, superação pessoal e busca pela melhora da saúde geral (NADERI et al., 2025). Entretanto, o engajamento crescente de praticantes amadores, muitas vezes sem acompanhamento profissional adequado, eleva o risco de lesões musculoesqueléticas, principalmente aquelas decorrentes de sobrecarga e repetição de movimentos típicos da corrida (DESHMUKH; PHANSOPKAR, 2022; BONFIM et al., 2021). Esses quadros podem comprometer o desempenho e a qualidade de vida dos corredores (MARQUES et al., 2025; KAKOURIS et al., 2021).
2.2 Síndrome do Estresse Tibial Medial em Corredores
Entre as lesões comuns em corredores recreacionais, a Síndrome do Estresse Tibial Medial (SETM), ou canelite, destaca-se pela alta prevalência e impacto funcional. A condição decorre de um conjunto multifatorial de fatores intrínsecos e extrínsecos, envolvendo características anatômicas, desequilíbrios musculares, técnica inadequada de corrida, sobrecarga mecânica e uso incorreto de calçados (MARQUES et al., 2025; ANDERSON et al., 2024). A interação desses fatores resulta em estresse repetitivo na borda medial da tíbia e desencadeia o quadro doloroso típico da síndrome. Assim, a SETM demanda uma abordagem profissional especializada, especialmente do fisioterapeuta, cujo papel preventivo tem ganhado expressiva relevância nos últimos anos (SACCO et al., 2023; VICENTE et al., 2022).
2.3 Perspectiva Fisioterapêutica e Modelo Biopsicossocial
A atuação fisioterapêutica contemporânea apoia-se em uma compreensão ampliada da dor e da funcionalidade humana, fundamentada no modelo biopsicossocial. Essa abordagem considera fatores físicos, psicológicos e sociais na origem e manutenção de lesões, destacando a importância de estratégias preventivas que incluam educação, autogerenciamento da carga de treino e intervenção precoce nos fatores de risco (CARVALHO NETO, 2022). A prevenção, portanto, vai além da correção de alterações estruturais, incorporando elementos comportamentais e funcionais que influenciam diretamente a prática esportiva.
2.4 Biomecânica da SETM e Relação com o Movimento
A pesquisa biomecânica tem contribuído para compreender mais profundamente os mecanismos envolvidos na SETM. Estudos tridimensionais identificam que corredores com essa condição apresentam maior eversão do tornozelo durante a fase de apoio, movimento associado ao aumento da tensão sobre estruturas tibiais e musculares (OHMI et al., 2023). Ademais, padrões como valgo dinâmico do joelho e queda pélvica estão associados ao controle inadequado da musculatura do quadril, especialmente abdutores e estabilizadores, reforçando a relevância do fortalecimento desses grupos para prevenção da síndrome (LASHEIN et al., 2024).
2.5 Intervenções Preventivas e Fisioterapia Aplicada à SETM
As estratégias preventivas voltadas à SETM incluem exercícios de fortalecimento, melhora da propriocepção e correção biomecânica. Programas direcionados aos abdutores do quadril demonstram potencial para melhorar o controle postural e reduzir padrões de movimento que favorecem o estresse tibial (NADERI et al., 2025). Além disso, intervenções que combinam força, estabilidade e técnica de corrida apresentaram resultados positivos na melhora da dor e funcionalidade em corredores recreacionais (LASHEIN et al., 2024). Abordagens de retreinamento da corrida têm ganhado destaque ao demonstrar capacidade de reduzir cargas tibiais por meio de ajustes como aumento da cadência e modificação do comprimento da passada (ANDERSON et al., 2024; DOYLE et al., 2022).
2.6 Lacunas na Literatura e Relevância da População Acima de 40 Anos
Apesar dos avanços no conhecimento sobre a SETM, ainda existe escassez de estudos focados especificamente em corredores amadores acima de 40 anos, faixa etária em expansão no cenário da corrida recreacional. Alterações fisiológicas naturais do envelhecimento, como redução de força muscular, perda de massa magra e maior susceptibilidade ao estresse musculoesquelético, evidenciam a necessidade de investigações direcionadas. A ausência de recomendações específicas para esse grupo limita a atuação clínica e destaca a importância de ampliar pesquisas voltadas a essa população.
2.7 Síntese do Estado da Arte
O conjunto de evidências indica que a fisioterapia exerce papel essencial na prevenção da SETM ao integrar análises biomecânicas, fortalecimento muscular, reeducação do movimento e estratégias de controle de carga. Para corredores amadores acima de 40 anos, essa abordagem torna-se ainda mais relevante, contribuindo para redução de riscos, maior segurança durante treinos e prolongamento da permanência na prática esportiva.
3 METODOLOGIA
3.1 Desenho do Estudo:
estrutura proposta na Revisão Bibliográfica apresenta as seguintes fases que são: identificação dos artigos potencialmente relevantes, seleção dos artigos elegíveis, organização e extração dos dados dos estudos e, por fim, síntese dos resultados encontrados (ARKSEY e O’MALLEY, 2005).
3.2 Pesquisa Bibliográfica:
estratégia de busca inclui a base de dados da PubMed, para a realização da busca narrativa das evidências científicas, sendo definidos estudos realizados nos últimos 5 anos de publicação. Além disso, foram utilizados operadores booleanos e termos MESH, para otimizar a busca na base de dados. Os termos da pesquisa usados foram: síndrome do estresse tibial medial (medial tibial stress syndrome), canelite (shin splint), modalidades de fisioterapia (physical therapy modalities), fisioterapia (physiotherapy), prevenção de lesão (injury prevention), prevenção (prevention), adultos (adults) e corrida (running), combinados com os operadores booleanos AND e OR.
3.3 Seleção dos Artigos:
A proposta para a seleção dos artigos visa ampliar e maximizar a captação do maior número possível de estudos na temática investigada. A elegibilidade foi determinada pelos critérios de exclusão e inclusão. Este processo conta com a avaliação de dois revisores distintos, seguindo a seguinte sequência de triagem inicial, com títulos, resumos e palavras-chave. Após a identificação do lote de arquivos, os resumos são minuciosamente analisados para saber se os critérios de inclusão e exclusão são respeitados. Concluída essa etapa, os estudos são lidos em sua íntegra e a extração e tabulação de informações importantes foram realizadas. Os estudos duplicados foram eliminados da lista (ARKSEY e O’MALLEY, 2005).
3.4 Critérios de Elegibilidade dos Artigos:
Foram incluídas investigações publicadas nos últimos 5 anos, que tivessem relação com intervenções preventivas, ou fatores de risco associados à SETM, que incluíssem em sua amostra corredores amadores, com faixa etária igual ou superior a 40 anos. Os critérios de exclusão ocorreram para estudos em atletas profissionais ou militares, ou população com alguma patologia clínica associada à SETM, arquivos que apresentavam relato de caso, ou opiniões de especialista, resumo de congressos que não apresentavam acesso ao texto completo.
3.4 Extração e Síntese de dados:
extração dos dados dos estudos foi realizada por meio de planilhas, incluindo as metodologias desenvolvidas, objetivos, cenários, descrição das amostras, tamanho das amostras estudadas, resultados, conclusões (PETERS et al., 2020).
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
O resultado da busca na base de dados da PubMed/MEDLINE encontrou um total de 180 estudos. Após análise de título e resumos, restaram 25 trabalhos que passaram por essa etapa da triagem. Contudo, quando foram considerados os critérios de inclusão, os quais estabelecem o foco em corredores amadores com diagnóstico de SETM, possibilidade de intervenção fisioterapêutica, seguida de publicação nos últimos 5 anos, restaram 8 artigos para análise integral do material. Após a análise do conteúdo dos 8 artigos, ficou constatado que alguns não apresentavam intervenção ou descrição da sua amostra com foco em corredores amadores; por isso, foram excluídos (RHIM et al., 2024; OHMI et al., 2023; WU et al., 2022; DESHMUKH et al., 2022; MENDEZ-REBOLLEDO et al., 2021). A partir disso, ficamos com 3 estudos para análise minuciosa do material, a fim de, propor os pontos a serem debatidos (NADERI et al., 2025; ANDERSON et al., 2024; LASHEIN et al., 2024).
Segue abaixo, tabela com a extração de dados onde constam: Autor e ano / objetivo / Métodos Usados / Achados / Conclusão, segundo Arksey e O’MALLEY (2005).


4.1 Discussão:
A maioria das amostras era composta por participantes de ambos os gêneros, com homens e mulheres que praticavam a corrida de forma recreacional e que possuíam a patologia de SETM diagnosticada há pelo menos 1 mês (NADERI et al., 2025; ANDERSON et al., 2024; LASHEIN et al., 2024). NADERI et al., (2025), em sua investigação, apresentou uma amostra de 40 corredores que foram divididos em 2 grupos, o de intervenção e o controle, distribuídos por uma randomização para proporcionar um número de homens e mulheres semelhantes em cada grupo, enquanto ANDERSON et al., (2024) e LASHEIN et al., (2024) também utilizaram à randomização das amostras para o foco em corredores e não impondo vieses acadêmicos.
Contudo, há diferenças com relação à faixa etária dos participantes, não existindo uniformidade neste quesito, com uma faixa etária total que variou de 18 a 45 anos ao se agrupar os trabalhos que utilizaram esse parâmetro como critério de inclusão e exclusão. ANDERSON et al., (2024) obteve a maior amostra de todos, pois seu trabalho teve como parâmetro para cálculo o Índice de Recuperação e Lesões de Corrida, que propõe um cálculo amostral para esse trabalho de 30 participantes para que traga precisão e consistência aos dados.
Em relação aos resultados apresentados pelas intervenções propostas nos estudos selecionados, o grupo submetido à intervenção no trabalho de NADERI et al., (2025), apresentou melhora significativa em relação aos domínios do questionário de qualidade de vida denominado de SF 36, além disso, na 12ª semana 55% do grupo de intervenção descreveu estar sem nenhum quadro de dor, e que estavam totalmente recuperados, um percentual de 40% maior, quando comparado com o grupo controle. Não foram descritas diferenças significativas no grupo de corredores entre a 6ª e a 12ª semana.
Em contrapartida, os achados de LASHEIN et al., (2024) expõem que após 8 semanas de aplicabilidade do protocolo experimental de treino foi encontrada uma redução estatisticamente significativa para o ângulo de projeção no plano frontal, o que está intimamente ligada à atenuação ao quadro do valgo dinâmico do joelho, a significância deste achado foi encontrada para o grupo de intervenção (p < 0,05), quando comparado com o grupo controle, além da evolução descrita dentro do próprio grupo, quando ocorre a comparação do momento basal com 8 semanas depois (p < 0,001). Outro dado interessante foi a redução do ângulo de queda pélvica (drop pélvico), que obteve valores significativos (p < 0,001). Isso está relacionado à comparação aos grupos controle e intervenção depois do tratamento, e vale ressaltar que os grupos intervenção (49,85%) e o grupo controle (19,42%) apresentaram variações de melhora dentro do próprio grupo. Tais resultados são indicadores que o treinamento funcional específico para o grupamento abdutor do quadril associado ao tratamento conservador fisioterápico, apresenta dados substanciais, para melhorar efetivamente o quadro de corredores recreacionais que têm SETM, no tocante do valgo dinâmico e drop pélvico.
No último trabalho proposto por ANDERSON et al., (2024), os dados referentes aos resultados não foram publicados, sendo descrito no trabalho que podem ser acessados mediante pedidos ao autor, e isso demonstra que a publicação tem uma proposta de ser base para um estudo maior.
A partir dos resultados analisados foi possível entender que existe a possibilidade de realizar um eixo de intervenções fisioterápicas preventivas e abordagens inovadoras em prevenção e tratamento.
Os estudos analisados nesta revisão sugerem dois eixos temáticos extremamente importantes, os quais indicam a possibilidade de atuação do fisioterapeuta para o manejo da patologia SETM que acomete alguns perfis de corredores recreacionais.
4.2 Intervenções Fisioterápicas Preventivas:
Na atuação fisioterápica as ações preventivas estão ganhando espaço no entendimento da população, e isso tem sido apoiado com o aumento das evidências científicas em diversos campos do conhecimento, o que muito enriquece em possibilidades aplicáveis, as ferramentas que podem ser usadas pelo profissional, especialmente no tratamento específico da SETM em corredores recreacionais em determinada faixa etária. Neste cruzamento de informações dos estudos, os detalhes relatados por NADERI et al., (2025), expõe que a adoção e adesão ao programa de exercícios que envolvam o treinamento da força muscular, flexibilidade, e propriocepção do tornozelo, neste contexto, têm-se apresentado como parâmetros que demonstram melhorar padrões funcionais e posturais em corredores recreacionais, mesmo que não tenha sido observadas melhoras significativas no quadro de dor a curto prazo. Tais achados são sustentados pelo trabalho de MENDEZ-REBOLLEDO et al., (2021), no qual evidenciou que o treinamento de força diminui a probabilidade do aparecimento da SETM em atletas jovens, o que nos remete a pensar que programas de exercícios físicos preventivos podem ser uma boa estratégia para direcionar os fatores de risco. Embora este estudo de MENDEZREBOLLEDO et al., (2021) tenha sido realizado com uma população jovem, tais achados orientam, para informações, que quanto mais cedo ocorrer a admissão ao programa de exercícios físicos, possivelmente serão menores os riscos quando o indivíduo chegar na faixa etária alvo da presente pesquisa.
O fortalecimento do grupamento muscular abdutores do quadril proposto pelo treinamento físico funcional e recorrente foi suficiente para promover melhoras significativas na redução do ângulo de queda pélvica (drop pélvico) e do valgo dinâmico. Estes fatores desempenham papel fundamental no controle da tíbia na corrida, e, consequentemente, impactam nas variáveis biomecânicas do membro inferior, que estão diretamente relacionadas com a gênese da SETM. Visto que, o desalinhamento dinâmico tem correlação com o controle muscular insuficiente do tronco, pelve, quadril, joelho e pé durante a corrida no plano frontal e transverso (LASHEIN et al., (2024). Seguindo essa linha de pensamento, tais achados reforçam que correções biomecânicas são uma excelente estratégia de prevenção ao aparecimento do quadro da SETM e devem ser utilizadas como intervenção fisioterápica.
Isto é reforçado por OHMI et al., (2023) que realizou profundas análises biomecânicas tridimensionais com corredores de longas distâncias e diagnosticou por parâmetros cinéticos e cinemáticos, que o comportamento do movimento da corrida apresenta uma maior eversão na articulação do tornozelo durante a fase de apoio em corredores com SETM. As alterações neste movimento estão diretamente ligadas à gênese do mecanismo fisiopatológico da SETM, que é oriundo da reação do estresse ósseo causado pelo impacto repetitivo da corrida, no córtex tibial. O movimento de eversão é induzido quando ocorre a tensão na fáscia tibial pelo aumento do estresse de tração nos músculos tibial posterior, sóleo e flexor longo dos dedos que estão alongados e gerando esse momento de força. Tais variáveis cinéticas e cinemáticas são de extrema importância para estimar a carga que ocorre sobre as articulações e músculos, com o intuito de compreender os fenômenos e fatores envolvidos na origem da SETM.
A partir disso, o nosso segundo eixo temático são novas abordagens que surgem como recurso de tratamento na investigação da SETM.
4.3 Novas Abordagens:
Por outro lado, dentre todos os estudos selecionados, a proposta de reeducação ou retreinamento de ANDERSON et al., (2024), mesmo que os resultados não tenham sido publicados, a presente investigação aponta o protocolo como hipótese de que o retreinamento da corrida pode reduzir o estresse e sobrecarga tibial, a partir da realização de uma passada com um comprimento menor, o que diminui o número de ciclos de esforços repetitivos, e, consequentemente, atenua do quadro de lesão por estresse na tíbia. Tal encurtamento da passada configura um padrão de movimento seguro por redistribuir as cargas vetoriais do movimento, pelas articulações do quadril, joelho e tornozelo mais harmoniosamente. Nesta linha de raciocínio, a adoção de um padrão de corrida que priorize a cadência confortável e mais lenta, em detrimento da magnitude da aceleração e da amplitude do movimento, possibilita uma abordagem que otimiza a aprendizagem motora. Este padrão é mais eficiente e benéfico para a reabilitação de corredores em quadra patológico ou em fase de readaptação, visando a aquisição de movimentos funcionais e seguros (ANDERSON et al., 2024; DOYLE et al., 2022).
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em síntese, o papel do profissional de fisioterapia consolida sua relevância e credibilidade não apenas no tratamento de lesões, mas também na prevenção. Seja realizando fortalecimento muscular, mobilidade e avaliações biomecânicas, para orientar a modificação de padrões de movimento com o intuito de reduzir a prevalência e incidência da SETM em corredores. Embora a literatura descreva em alguns trabalhos sobre a prevenção, tratamento e possíveis terapêuticas em corredores, muitos deles têm como alvo jovens corredores e atletas de elite que buscam o desempenho esportivo máximo, e poucos ou quase nenhum se concentram especificamente em corredores amadores com mais de 40 anos. A realização de um levantamento bibliográfico sobre essa faixa etária, faz todo sentido, já que estamos vivendo um momento no qual há popularização das corridas de rua no Estado do Rio de Janeiro, com um calendário extremamente agitado e completo.
Logo, essa classe de corredores está em constante evolução, tanto na participação em eventos, quanto em número de praticantes, por isso o entendimento de uma patologia tão recorrente em corredores recreativos é relevante para ser investigado. O envelhecimento do corredor com mais de 40 anos ocorre com alterações fisiológicas, associado a mudanças na composição corporal, principalmente no tocante da composição da massa magra, massa óssea (sarcopenia), redução da força muscular, maior fadiga, e outros processos degenerativos inerentes a senescência, que favorecem o surgimento da SETM.
No entanto, os achados dos trabalhos desse escopo de revisão sugerem que sejam combinados o fortalecimento muscular, a correções dos padrões biomecânicos da corrida, retreinamento da corrida, para ajuste da técnica, com o intuito de reduzir a recorrência e incidência da SETM. Apesar dos resultados serem muito interessantes, algumas limitações precisam ser abordadas, como o número de ensaios controlados sobre a temática ser bem reduzido, bem como o quantitativo das amostras dos estudos expostas aos protocolos experimentais, que são muito pequenas, além da predominância de participantes do pessoas do sexo masculino, contrariando a maior incidência da SETM descrita na literatura em mulheres. Outro ponto limitante são os curtos períodos de exposição à intervenção, portanto, achados com longos tempos de acompanhamento são mais consistentes. Vale ressaltar, que a presente pesquisa foi realizada apenas na base de dados da PubMed, o que poderia ter deixado outras evidências de fora, por estar publicado em outras bases de dados relevantes.
Em síntese, a fisioterapia se consolida como componente essencial na prevenção e no tratamento da SETM em corredores amadores. As evidências disponíveis reforçam que intervenções baseadas em fortalecimento muscular específico, controle neuromuscular e reeducação do padrão de corrida são muito eficazes, quando o intuito é reduzir possíveis sobrecargas na tíbia e otimizar o desempenho funcional desses corredores. Portanto, recomenda-se o desenvolvimento de novos estudos clínicos controlados, com amostras maiores e delineamento longitudinal, a fim de consolidar protocolos padronizados de prevenção e manejo fisioterapêutico para essa população em franco na prática esportiva.
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