REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510091731
Glazielle Ferreira da Silva Gonçalves
Maria Zilda Gomes Colares
Orientador: Landerson Laífe Gutiérrez
Resumo
Este artigo aborda a importância da enfermagem na promoção do atendimento humanizado nos serviços de urgência e emergência. A pesquisa, de natureza qualitativa e descritiva, baseou-se em um levantamento bibliográfico que evidenciou a complexidade desses ambientes, onde a alta demanda e a sobrecarga de trabalho podem comprometer a qualidade do acolhimento. A humanização, fundamentada em políticas como o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) e a Política Nacional de Humanização (PNH), destaca o enfermeiro como um profissional-chave. Ele é responsável pelo acolhimento com classificação de risco (AACR), pela escuta qualificada e por uma visão holística do paciente, superando a perspectiva biologicista. O estudo demonstra que, apesar dos desafios, a atuação do enfermeiro é crucial para garantir a dignidade e a integralidade do cuidado, fortalecendo os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).
Palavras-chave: Enfermagem. Humanização. Urgência e Emergência. Acolhimento.
Abstract
Abstract This article addresses the importance of nursing in promoting humanized care in urgency and emergency services. The research, of a qualitative and descriptive nature, was based on a literature review that highlighted the complexity of these environments, where high demand and work overload can compromise the quality of care. Humanization, based on policies such as the National Program for Humanization of Hospital Care (PNHAH) and the National Humanization Policy (PNH), highlights the nurse as a key professional. Nurses are responsible for welcoming with risk classification (AACR), for qualified listening, and for a holistic view of the patient, going beyond the biomedical perspective. The study demonstrates that, despite the challenges, the nurse’s role is crucial to ensuring the dignity and integrality of care, strengthening the principles of the Unified Health System (SUS).
Keywords: Nursing. Humanization. Urgency and Emergency. Welcoming.
1. Introdução
A urgência e a emergência são áreas da saúde destinadas ao suporte à vida e caracterizadas pelo atendimento a pacientes que se encontram em situações agudas, com dor intensa e/ou risco iminente de morte. A urgência é um agravo à saúde de forma imprevista, que pode ou não envolver risco de vida, mas que demanda assistência médica imediata. A emergência, por sua vez, é um agravo à saúde que implica em risco iminente à vida ou em intenso sofrimento do paciente, exigindo cuidados imediatos (Resolução CFM n° 1.451/95). Esses termos, frequentemente confundidos, têm como principal diferença o tempo de atendimento: a urgência exige assistência rápida para evitar complicações, enquanto a emergência demanda atendimento imediato devido ao risco de morte ou lesão permanente. O atendimento a esses casos remonta ao século XVIII, período napoleônico, quando os soldados feridos em campo de batalha eram transportados para serem atendidos por médicos, longe dos conflitos (FORTES, 2010).
O acolhimento em serviços de urgência e emergência, sejam eles móveis ou hospitalares, é uma ação que requer habilidade e preparo por parte de toda a equipe multiprofissional. No Brasil, os serviços de urgência e emergência são regidos pela Política Nacional de Atenção às Urgências (PNAU), que tem como finalidade atender tanto usuários em estado grave quanto casos não urgentes que devem ser encaminhados a serviços ambulatoriais ou especializados da rede de saúde (BRASIL, 2006). A dinâmica intensa desses setores, que demandam agilidade, pode levar os profissionais a adotar uma postura impessoal, dificultando a atuação humanizada. A superlotação e a sobrecarga de trabalho são problemas graves que afetam os serviços de urgência e emergência e reforçam a necessidade de um atendimento mais digno ao paciente. Para reverter esse quadro, o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) e a Política Nacional de Humanização (PNH) surgiram como diretrizes para promover um atendimento que valorize o diálogo, o respeito e a solidariedade. A PNH destaca o acolhimento como uma estratégia central para reestruturar os processos de trabalho e melhorar o acesso dos usuários ao sistema de saúde. O acolhimento humanizado vai além da triagem, sendo uma postura ética que busca entender o paciente de forma integral, identificando suas necessidades e orientando-o adequadamente (PAULA; RIBEIRO; WERNECK, 2019). O enfermeiro é o primeiro profissional com quem o paciente tem contato, e é por meio da sua atuação que a humanização se torna possível (ANGUITA et al., 2019).
Neste contexto, o objetivo deste trabalho é identificar as práticas do profissional de enfermagem no atendimento prestado em serviços de urgência e emergência. Para tanto, busca-se descrever as práticas realizadas pelo enfermeiro, destacar as vantagens da assistência humanizada, elencar os fatores que contribuem para a humanização do atendimento e listar as dificuldades enfrentadas pelos profissionais para prestarem um atendimento humanizado.
2. Metodologia
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de levantamento de dados, com abordagem qualitativa e descritiva. A pesquisa qualitativa trabalha com dados que buscam seu significado e não podem ser quantificados, tendo como base a percepção do fenômeno dentro de seu contexto (ALMEIDA, 2021). A pesquisa descritiva, por sua vez, tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno, ou o estabelecimento de relações entre variáveis (TAKO; KAMEO, 2023).
O instrumento de coleta de dados utilizado foi a revisão bibliográfica, realizada em bases de dados eletrônicas como Google Acadêmico, Scielo, LILACS e revistas de enfermagem eletrônicas. Segundo Carvalho et al. (2019), essa pesquisa utiliza fontes bibliográficas ou material já elaborado, como livros, publicações periódicas, artigos científicos e textos extraídos da internet. Os descritores utilizados para a busca foram: “enfermagem”, “humanização”, “atendimento”, “urgência”, “emergência” e “acolhimento”.
Os critérios de inclusão para a pesquisa foram: artigos em português, publicados entre os anos de 2020 a 2025. Já o critério de exclusão foi: artigos em língua estrangeira ou com mais de cinco anos de publicação. A seleção dos materiais seguiu a relevância do conteúdo para os objetivos da pesquisa, garantindo uma base teórica consistente para a discussão do tema.
3. Resultados da Revisão Bibliográfica
A análise dos artigos selecionados permitiu aprofundar a compreensão sobre o papel do enfermeiro no atendimento de urgência e emergência, bem como os desafios e as estratégias para a humanização do cuidado.
3.1 O acolhimento e a classificação de risco como ferramentas de humanização
Os estudos de Guedes, Henriques e Lima (2013) e Paula, Ribeiro e Werneck (2019) reforçam a ideia de que o acolhimento é o ponto de partida para a humanização. O acolhimento, como uma postura ética, não se limita a um local ou a um profissional, mas sim à forma como a equipe interage com o paciente. A implementação do Acolhimento com Classificação de Risco (AACR), como estratégia da PNH, mostrou-se uma ferramenta eficaz para organizar o fluxo de pacientes, ao mesmo tempo em que humaniza o atendimento. A classificação de risco, ao definir a gravidade do caso por meio de cores (vermelho para emergência, amarelo para urgência, verde para menor urgência e azul para não urgência), permite que o enfermeiro aplique o acolhimento, escute as queixas dos usuários e resolva seus problemas.
A PNH destaca que o acolhimento, quando bem implementado, garante os direitos dos usuários e resgata os princípios do SUS de universalidade, integralidade e equidade da assistência. O estudo de Costa et al. (2018) sobre a percepção de enfermeiros em uma unidade de urgência e emergência mostrou que a aplicação do AACR melhora a organização do serviço e a percepção do paciente sobre o tempo de espera, minimizando a ansiedade e a frustração.
3.2 O papel multifacetado do enfermeiro
O enfermeiro é um profissional-chave na unidade de emergência. Além de ser o primeiro contato do paciente, ele desempenha um papel multifacetado que inclui o exame clínico e físico, o planejamento do cuidado e a criação de uma relação de confiança (SANTANA et al., 2021). O enfermeiro deve assumir uma postura de liderança, gerenciando o serviço, treinando a equipe, classificando os riscos e providenciando os recursos materiais. Freire et al. (2019) reforçam a importância da liderança do enfermeiro para a qualidade do serviço, já que ele é o responsável por coordenar a equipe e garantir que os protocolos de humanização sejam seguidos.
A empatia do enfermeiro é primordial, sendo reconhecida nos estudos de qualidade de serviço e satisfação do cliente (SCOLARI et al., 2020). Guedes, Henriques e Lima (2013) mostram que os usuários valorizam o tempo de escuta e a atenção que o enfermeiro dedica a eles, pois isso gera um sentimento de acolhimento e segurança.
3.3 Desafios para a humanização
Apesar dos protocolos de acolhimento existentes, a humanização ainda enfrenta desafios significativos. Estudos como o de Dourado e Lima (2020) e Guedes, Henriques e Lima (2013) relatam a insatisfação de usuários que se queixam da falta de paciência, sensibilidade e empatia da equipe de enfermagem. Esses problemas podem ser atribuídos a diversos fatores, como a alta demanda, a sobrecarga de trabalho, a falta de profissionais e a carência de recursos materiais.
Anguita et al. (2019) e Santana et al. (2021) apontam que os profissionais de enfermagem enfrentam estresse e exaustão, o que dificulta a implementação de um cuidado humanizado. No entanto, é responsabilidade dos profissionais de saúde que atuam no SUS garantir a humanização da assistência, pois este é um dos princípios do sistema. Lopes et al. (2019) destacam que a formação continuada e a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) são vitais para capacitar os profissionais a lidar com esses desafios e a oferecer um cuidado mais humano e acolhedor.
4. Discussão
A humanização do cuidado em urgência e emergência não é apenas uma diretriz teórica, mas uma necessidade prática para garantir a qualidade da assistência. O enfermeiro, por ser a porta de entrada do paciente no sistema de saúde, detém a chave para essa transformação. A aplicação do AACR, por exemplo, não é apenas um método de triagem, mas uma oportunidade para o enfermeiro estabelecer o primeiro contato humano, validando as queixas do paciente e garantindo que ele seja atendido de forma equitativa.
A discussão sobre o papel do enfermeiro não pode se limitar à sua capacidade técnica. É preciso considerar a sua habilidade em liderar e motivar a equipe, garantindo que a cultura da humanização seja disseminada. Perboni, Silva e Oliveira (2019) enfatizam que, mesmo em ambientes caóticos como as emergências, o enfermeiro tem o potencial de criar um ambiente mais acolhedor e respeitoso. Isso exige que o profissional reflita sobre suas práticas e busque aperfeiçoamento contínuo.
Os desafios, como a sobrecarga e a falta de recursos, são reais e precisam ser enfrentados por meio de políticas de saúde que valorizem e invistam na enfermagem. A PNH e a PNEPS são instrumentos importantes, mas a sua eficácia depende da sua implementação no nível local. É crucial que as instituições de saúde invistam em educação permanente e em um ambiente de trabalho que promova o bem-estar dos profissionais, para que eles possam, por sua vez, oferecer um cuidado de excelência aos pacientes.
O presente estudo, baseado em uma revisão bibliográfica, reforça a necessidade de mais pesquisas que investiguem a percepção dos pacientes e dos profissionais sobre a humanização, para que se possa traçar um panorama mais completo e propor soluções eficazes. A lacuna de estudos sobre o tema, especialmente no contexto brasileiro e de diferentes regiões do país, abre espaço para novas pesquisas que possam aprofundar a discussão e contribuir para a melhoria dos serviços de saúde.
5. Conclusão
A pesquisa bibliográfica demonstrou que o enfermeiro tem um papel essencial e multifacetado na humanização dos serviços de urgência e emergência. Por meio do acolhimento com classificação de risco, ele é o principal elo entre o paciente e o sistema de saúde, garantindo um atendimento equitativo e assertivo. A humanização do cuidado vai além da técnica, exigindo uma visão holística e a capacidade de criar um vínculo de confiança com o paciente.
Embora desafios como a sobrecarga de trabalho, a falta de recursos e a percepção negativa dos usuários persistam, a atuação do enfermeiro é crucial para transformar o ambiente de atendimento, tornando-o mais acolhedor, digno e respeitoso. O sucesso do acolhimento humanizado, conforme as diretrizes da PNH, depende da conscientização, do preparo e da reflexão constante dos profissionais sobre suas práticas diárias. O estudo reforça a necessidade de valorizar e capacitar a enfermagem para que ela continue a ser o pilar fundamental do cuidado humanizado nos serviços de urgência e emergência.
Referências
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