REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601152131
Raimunda Vandilza Ferreira Alves1
Sandra Karina Barbosa Mendes2
RESUMO
Este estudo tem como objetivo analisar a atuação da gestão escolar no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem no contexto da educação especial e inclusiva. Busca-se identificar práticas e estratégias capazes de construir um ambiente escolar equitativo, acolhedor e adaptado às necessidades específicas dos alunos do campo. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa (Minayo, 2007) e bibliográfica (Mioto; Lima, 2007), fundamentada nas contribuições de autores como Mantoan (2001), Freire (1996), Luria (1986) e Hoffmann (2005), que destacam a importância de uma gestão escolar comprometida com os princípios da inclusão e equidade. Os resultados demonstram que as dificuldades de aprendizagem são fruto de múltiplos fatores, incluindo aspectos cognitivos, emocionais, metodológicos e institucionais. Foram identificados desafios como a falta de formação adequada dos educadores, a escassez de recursos pedagógicos adaptados e a ausência de articulação entre a escola, a família e os serviços de apoio. Nesse sentido, a pesquisa aponta que a formação continuada dos professores, a adaptação curricular, a implementação de tecnologias assistivas e o fortalecimento de redes colaborativas entre os atores educacionais são medidas fundamentais para promover a inclusão e o desenvolvimento integral dos estudantes. Conclui-se que a gestão escolar desempenha um papel essencial na implementação de políticas inclusivas, atuando como articuladora de práticas pedagógicas que garantem equidade e acessibilidade no ensino. Por meio de uma liderança democrática e pedagógica, a escola pode transformar-se em um espaço verdadeiramente inclusivo, no qual as singularidades e potencialidades de todos os alunos são valorizadas e desenvolvidas.
Palavras-chave: gestão escolar; educação inclusiva; dificuldades de aprendizagem; adaptação curricular; formação continuada.
1. INTRODUÇÃO
A educação especial é fundamental para garantir o direito à aprendizagem e a inclusão de alunos com necessidades educacionais específicas. Nesse contexto, a gestão escolar desempenha um papel central na implementação de práticas inclusivas e no desenvolvimento de estratégias que buscam minimizar as dificuldades de aprendizagem enfrentadas por esses estudantes. A gestão escolar não se limita apenas a organizar os recursos institucionais; ela também promove a articulação entre políticas públicas, práticas pedagógicas e a construção de um ambiente escolar acolhedor, adaptado às necessidades individuais dos alunos.
Atualmente, nós que fazemos parte do cotidiano das escolas públicas, sabemos que são muitos os desafios no campo da educação especial, como a falta de capacitação adequada dos profissionais envolvidos, a escassez de recursos materiais e pedagógicos e a persistência de barreiras físicas e metodológicas que comprometem o desenvolvimento pleno dos estudantes. Diante desse cenário, acreditamos que cabe à gestão escolar não apenas reconhecer esses obstáculos, mas também intervir de maneira planejada, estratégica e comprometida, com foco na inclusão e na melhoria da qualidade do ensino direcionado aos alunos da educação especial.
A partir desse panorama, emergiu a seguinte questão: como a gestão escolar pode atuar diante das dificuldades de aprendizagem dos alunos da educação especial? Esse questionamento reflete a necessidade urgente de investigar o papel da gestão escolar na promoção de práticas que atendam às especificidades de aprendizagem desses alunos. Além disso, buscamos identificar ações efetivas que possam ser adotadas pelas instituições educacionais para enfrentar tais desafios. Assim, este artigo tem como objetivo analisar como a gestão escolar pode atuar diante das dificuldades de aprendizagem dos alunos da educação especial.
A relevância desta pesquisa está na necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a atuação da gestão escolar como estimuladora no processo de superação das dificuldades de aprendizagem enfrentadas no contexto da educação especial. Essa investigação é de grande importância tanto para os educadores, que atuam diretamente com esses alunos, quanto para os gestores escolares, que têm a responsabilidade de implementar ações de inclusão. Da mesma forma, este estudo se apresenta como um recurso valioso para pesquisadores interessados em aprimorar práticas pedagógicas e a formação continuada dos profissionais da educação.
A metodologia adotada nesta pesquisa é qualitativa, adequada para analisar, interpretar e aprofundar o conhecimento sobre o papel da gestão escolar no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem no contexto da educação especial e inclusiva. A pesquisa qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender o fenômeno estudado de forma descritiva e interpretativa, enfocando os processos e significados atribuídos ao papel da gestão escolar na educação inclusiva.
De acordo com Minayo (2007), a pesquisa qualitativa é essencial para investigar realidades complexas, como a educação especial, pois permite uma análise reflexiva e aprofundada das práticas existentes. Essa abordagem possibilita a interpretação dos dados coletados a partir de materiais acadêmicos, evidenciando as relações entre gestão escolar, dificuldades de aprendizagem e inclusão.
A proposta de pesquisa bibliográfica apresentada por Mioto e Lima (2007) caracteriza a investigação como um procedimento metodológico estruturado, destinado à busca sistemática de soluções para um problema de pesquisa a partir de fontes essencialmente escritas. As autoras destacam que a pesquisa bibliográfica não deve ser confundida com revisão de literatura, pois esta é apenas uma etapa preliminar comum a todos os estudos, enquanto aquela constitui um método completo, com objetivos próprios, etapas definidas e rigor científico.
A pesquisa bibliográfica é defendida pelas autoras como uma possibilidade metodológica particularmente relevante em estudos exploratórios ou quando o objeto é pouco investigado, permitindo que o pesquisador construa aproximações sucessivas e flexíveis com o objeto, revisitando fontes, redefinindo recortes e ajustando o percurso analítico. Nesse sentido, a escolha do método, especialmente quando fundamentada em uma perspectiva dialética, orienta a análise crítica das produções existentes, possibilitando a compreensão do objeto em sua historicidade, complexidade e contradições.
Além disso, Mioto e Lima (2007) enfatizam que a pesquisa bibliográfica exige clareza na definição dos critérios de seleção das obras, rigor na leitura e na sistematização dos dados, além da construção de um roteiro de análise que permita examinar minuciosamente cada documento. O percurso metodológico inclui fases como elaboração do objetivo da pesquisa, levantamento e seleção do material, análise explicativa e síntese integradora, todas orientadas por vigilância epistemológica constante.
A leitura, realizada em diferentes níveis, de reconhecimento, exploratória, seletiva, reflexiva e interpretativa, constitui a técnica central do processo, permitindo ao pesquisador identificar conceitos, relações e lacunas presentes na produção científica sobre o tema. Ao final, a pesquisa bibliográfica possibilita não apenas a compreensão crítica do estado do conhecimento, mas também a formulação de hipóteses, interpretações e novas perguntas que contribuem para o avanço científico e fundamentam futuras investigações empíricas.
Os materiais consultados foram obras de autores amplamente reconhecidos nas áreas de gestão escolar, dificuldades de aprendizagem e educação especial e inclusiva, Libâneo (2012), Mantoan (2011), Freire (1996), Lück (2011), Gatti (2013) e Luria (1986), dentre outros. A análise foi realizada de maneira interpretativa e crítica, com o objetivo de identificar as principais contribuições, conceitos e práticas que orientam a atuação da gestão escolar no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem. A pesquisa buscou correlacionar as abordagens teóricas com a realidade da educação especial e inclusiva, propondo reflexões e recomendações que possam subsidiar práticas pedagógicas mais inclusivas no ambiente escolar.
Dessa forma, a metodologia adotada assegura uma abordagem reflexiva e rigorosa, fundamentada em aportes teóricos sólidos. A escolha metodológica visa permitir uma compreensão ampla e detalhada do problema de pesquisa e garantir o alcance dos objetivos propostos, oferecendo subsídios teóricos e práticos que contribuam para uma educação, de fato, inclusiva.
Após a seleção das obras, realizamos uma análise crítica e interpretativa dos conteúdos, com a finalidade de identificar práticas de gestão bem-sucedidas no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem. Ao final, os dados foram sistematizados em uma síntese teórica tendo em vista oferecer reflexões e recomendações aplicáveis ao contexto educacional.
Por meio dessa pesquisa, o estudo busca contribuir para a ampliação das discussões sobre o papel fundamental da gestão escolar como mediadora e promotora do processo educacional inclusivo. Ressaltamos, portanto, a importância de ações estratégicas que assegurem a aprendizagem e o desenvolvimento pleno dos alunos da educação especial, promovendo um ambiente escolar mais justo, equitativo e preparado para acolher a diversidade de necessidades educacionais.
2. GESTÃO ESCOLAR E INCLUSÃO
A gestão escolar é um campo essencial para o desenvolvimento de práticas pedagógicas exitosas, especialmente no contexto da educação inclusiva. O conceito de gestão escolar vai além da administração de recursos materiais e financeiros, incorporando dimensões pedagógicas, sociais e organizacionais que buscam garantir a qualidade da educação e a inclusão de todos os alunos, inclusive aqueles da educação especial.
Libâneo (2012) destaca que a gestão escolar deve ser entendida como uma prática democrática, envolvendo a participação ativa de todos os membros da comunidade escolar, isto é, gestores, professores, alunos e famílias. Para o autor, a gestão pedagógica integra as atividades escolares com o objetivo de favorecer a aprendizagem e o desenvolvimento dos estudantes. Esse processo requer planejamento, coordenação e avaliação constantes, sempre voltados à criação de um ambiente acolhedor e inclusivo, capaz de atender às necessidades específicas dos alunos.
A gestão escolar não pode limitar-se a uma simples tarefa administrativa, mas precisa incorporar dimensões pedagógicas e participativas. Uma escola verdadeiramente democrática promove o diálogo e a colaboração entre todos os envolvidos, criando condições para a aprendizagem significativa e inclusiva. Para isso, é fundamental que os gestores estejam preparados para enfrentar os desafios educacionais, especialmente no que diz respeito à diversidade dos alunos, suas necessidades e contextos (Libâneo, 2012, p. 45).
Libâneo (2012) destaca a necessidade de superar a visão tradicional de gestão escolar como uma função meramente administrativa. Ele reforça a importância de uma abordagem democrática e colaborativa, envolvendo todos os agentes da escola. No contexto da educação inclusiva, essa perspectiva se torna indispensável, pois a diversidade dos alunos exige soluções flexíveis e criativas. Assim, a gestão escolar precisa atuar de maneira a garantir igualdade de oportunidades e respeito aos diferentes ritmos e necessidades educacionais, inclusive em contextos específicos, como as áreas rurais e a educação especial.
Além de Libâneo, outros autores estabelecem importantes relações entre a gestão escolar e a educação inclusiva, especialmente no contexto da educação do campo. Por exemplo, Fernandes (2018) defende que a gestão escolar em contextos rurais deve considerar as particularidades socioculturais das comunidades atendidas. Ele ressalta que a educação inclusiva nesses ambientes demanda adaptações físicas e metodológicas, bem como a capacitação contínua de gestores e educadores para lidar com as dificuldades de aprendizagem.
Gatti (2013), por sua vez, aponta que uma gestão escolar deve investir na formação continuada de professores, garantindo que os educadores estejam preparados para atender às necessidades dos alunos da educação especial. Segundo Gatti, a formação docente é uma das principais estratégias que a gestão pode utilizar para enfrentar as dificuldades educacionais.
A formação docente contínua é um elemento estratégico da gestão escolar, pois é por meio dela que os educadores podem adquirir as competências necessárias para atender à diversidade presente nas salas de aula. Além disso, a capacitação constante deve ser acompanhada de políticas de suporte, como recursos pedagógicos adaptados e assessoria técnica, de modo a assegurar que a inclusão escolar não seja apenas teórica, mas efetiva (Gatti, 2013, p. 78).
Neste ponto, Gatti (2013) enfatiza que a formação docente é um pilar fundamental da gestão escolar inclusiva. O investimento contínuo em capacitação garante que os professores estejam aptos a lidar com as complexidades da inclusão, adaptando suas práticas pedagógicas às necessidades dos alunos. A autora destaca, ainda, a necessidade de políticas de apoio que complementem a formação, como a oferta de recursos tecnológicos, metodologias diversificadas e assessoria técnica.
Lück (2011) também traz uma contribuição importante para o debate, ela ressalta a importância da liderança pedagógica no processo de gestão escolar. Para a autora, a gestão deve ir além das funções administrativas e atuar como promotora de um ambiente pedagógico favorável ao desenvolvimento educacional inclusivo. No contexto da educação do campo, Lück defende que a gestão precisa ser adaptada às demandas locais e promover a inclusão como parte central do processo educativo.
Coll (2010) vem discutir a necessidade de uma gestão escolar orientada para a personalização do ensino, considerando os diferentes ritmos e necessidades de aprendizagem dos alunos. Coll destaca que, no contexto da educação inclusiva, a gestão escolar deve fomentar o uso de metodologias diversificadas, oferecendo suporte pedagógico contínuo para garantir o progresso de todos os estudantes.
A partir das contribuições desses autores, percebemos que a gestão escolar desempenha um papel central na promoção de práticas inclusivas, especialmente quando articulada às demandas específicas da educação do campo e da educação especial. Para isso, é necessário que a gestão escolar adote uma postura democrática, participativa e inovadora, buscando soluções que respeitem a diversidade dos estudantes e garantam oportunidades efetivas de aprendizagem para todos.
2.1 Dificuldades de Aprendizagem
As dificuldades de aprendizagem são desafios enfrentados por alunos no processo de aquisição de conhecimentos e habilidades. Esses obstáculos podem estar relacionados a fatores neurológicos, pedagógicos, sociais ou emocionais. No contexto da educação especial, tais dificuldades tendem a se intensificar devido à necessidade de adaptações específicas que garantam a inclusão e a aprendizagem efetiva de alunos com necessidades educacionais especiais.
Luria (1986) é uma referência central nos estudos sobre as dificuldades de aprendizagem. Ao investigar as relações entre o funcionamento cerebral e os processos cognitivos, Luria destacou que as dificuldades de aprendizagem geralmente decorrem de alterações nas funções neuropsicológicas, como memória, percepção e linguagem. Seu trabalho trouxe uma compreensão essencial de que esses desafios não são intransponíveis, desde que sejam aplicados métodos pedagógicos específicos e adaptados às particularidades de cada aluno.
As dificuldades de aprendizagem, embora frequentemente associadas a fatores neurológicos ou cognitivos, não podem ser tratadas como barreiras intransponíveis. O desenvolvimento de estratégias pedagógicas específicas, baseadas na compreensão das funções cerebrais e das particularidades de cada aluno, torna-se essencial para garantir o sucesso educacional. Esse enfoque requer uma abordagem individualizada e contínua, com adaptações metodológicas precisas (Luria, 1986, p. 112).
Luria (1986) mostra, em suas palavras, a importância de entender as funções neuropsicológicas para superar as dificuldades de aprendizagem. Luria reforça que o problema não deve ser tratado como uma limitação definitiva, mas como uma oportunidade de intervenção por meio de metodologias adaptadas às necessidades específicas dos alunos. Tal perspectiva se torna ainda mais relevante no contexto da educação especial, onde os ritmos e particularidades de aprendizagem exigem uma atuação pedagógica diferenciada e individualizada.
Além de Luria, outros autores oferecem reflexões importantes e complementares sobre as dificuldades de aprendizagem no contexto da educação especial, tal como Gardner (1994), que por meio da teoria das inteligências múltiplas, argumenta que as dificuldades de aprendizagem podem ser agravadas por abordagens pedagógicas tradicionais que priorizam apenas algumas formas de inteligência, como a linguística e a lógico-matemática. Para Gardner, a escola deve adotar práticas pedagógicas diversificadas, que valorizem as diferentes inteligências e modos de aprendizagem, garantindo um ensino mais inclusivo e adaptado às necessidades dos alunos.
Alarcão (2001) apresenta uma crítica à falta de articulação entre escola, família e serviços especializados no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem. Segundo a autora, o sucesso do processo de inclusão depende da construção de uma rede de apoio que envolva a escola e todos os agentes responsáveis pelo desenvolvimento do aluno, proporcionando um atendimento integral e colaborativo.
O processo de aprendizagem do aluno não ocorre isoladamente; ele depende de um sistema integrado de suporte, envolvendo escola, família e comunidade. Quando essa rede falha, as dificuldades de aprendizagem tendem a se intensificar, criando barreiras adicionais para o desenvolvimento educacional. A articulação entre os diferentes atores é, portanto, fundamental para um processo inclusivo e eficaz (Alarcão, 2001, p. 89).
Essa reflexão de Alarcão (2001) amplia a compreensão sobre as dificuldades de aprendizagem ao destacar a necessidade de cooperação entre os diferentes atores envolvidos. A ausência de diálogo entre escola, família e especialistas pode agravar os desafios, tornando essencial que a gestão escolar promova a construção de um sistema integrado de apoio que fortaleça a inclusão e atenda às demandas específicas dos alunos.
Hoffmann (2005) aborda as dificuldades de aprendizagem a partir de uma perspectiva avaliativa, criticando os modelos tradicionais de avaliação, que frequentemente reforçam as dificuldades ao invés de solucioná-las. Para Hoffmann, é necessário implementar uma avaliação mediadora e reflexiva, que permita identificar as reais necessidades dos alunos e forneça subsídios para intervenções pedagógicas personalizadas e eficazes.
Por sua vez, Mantoan (2011) enfatiza que as dificuldades de aprendizagem não devem ser vistas como limitações definitivas, mas como desafios que podem ser superados mediante adaptações curriculares e metodologias inclusivas. A autora defende que a escola deve respeitar os ritmos e particularidades de cada aluno, adotando práticas pedagógicas que favoreçam o desenvolvimento cognitivo e social em um ambiente verdadeiramente inclusivo.
A partir das reflexões desses autores, fica evidente que as dificuldades de aprendizagem no contexto da educação especial exigem uma abordagem integrada e adaptada. A gestão escolar desempenha um papel central nesse processo ao articular práticas pedagógicas inclusivas, investir na formação continuada dos educadores e promover políticas que garantam os recursos necessários para atender às especificidades dos alunos.
A articulação entre escola, família e serviços especializados também é essencial para a construção de uma rede de apoio eficaz, capaz de minimizar as barreiras de aprendizagem. Dessa forma, é possível construir um ambiente escolar inclusivo e equitativo, onde todos os alunos têm a oportunidade de desenvolver plenamente suas potencialidades.
2.2 Educação Especial e Inclusiva
A educação especial e inclusiva é um campo que busca garantir o direito à educação de qualidade para todos os estudantes, independentemente de suas condições físicas, cognitivas ou sensoriais. Seu principal objetivo é a inclusão, propondo práticas pedagógicas que respeitem as diferenças e promovam a equidade no ambiente escolar.
Mantoan (2011) é uma das maiores referências na área da educação inclusiva no Brasil. Mantoan argumenta que a educação inclusiva vai além de um espaço físico adaptado, se trata de uma mudança estrutural e pedagógica no ambiente escolar. Ela enfatiza que a escola precisa reinventar-se para acolher a diversidade, abandonando práticas excludentes e adotando um currículo flexível e adaptado às necessidades dos alunos. Para Mantoan, a inclusão é um processo contínuo que demanda o comprometimento de gestores, educadores e de toda a comunidade escolar.
A educação inclusiva não é apenas a inserção física de alunos com deficiência em escolas comuns. Ela exige uma transformação radical no sistema educacional, envolvendo uma mudança de mentalidade e práticas pedagógicas. A escola inclusiva deve ser um ambiente aberto à diversidade, onde cada aluno é respeitado em suas singularidades e potencialidades. Trata-se de garantir a equidade no acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento humano (Mantoan, 2011, p. 56).
Mantoan (2011) destaca que a inclusão ultrapassa as adaptações físicas e exige mudanças profundas no sistema educacional. Essas mudanças incluem práticas pedagógicas inclusivas, formação docente contínua, reformulação curricular e a criação de um ambiente acolhedor, no qual as diferenças são valorizadas como parte essencial do processo de aprendizagem.
Além de Mantoan, outros autores oferecem contribuições relevantes sobre a educação inclusiva e o papel da gestão escolar, Paulo Freire é um deles. Embora não tenha tratado do tema da educação especial, Freire (1996) abordou, indiretamente, princípios importantes da educação inclusiva ao enfatizar que a educação deve ser um ato libertador, voltado para a transformação social. Ele destaca a importância de uma gestão democrática e participativa, que reconheça os alunos como sujeitos ativos no processo de aprendizagem. Para Freire, a inclusão está na essência de uma educação crítica e emancipadora, que oferece voz e espaço a todos os estudantes, independentemente de suas dificuldades.
Santos (2007), ao propor uma crítica ao modelo educacional tradicional e defender uma epistemologia inclusiva que valorize os saberes diversos, especialmente em contextos marginalizados, também traz elementos relevantes para uma educação que se quer inclusiva. Para ele, a inclusão deve ir além das adaptações físicas, envolvendo a implementação de práticas pedagógicas que respeitem as diferenças culturais, sociais e cognitivas.
A inclusão não pode ser uma resposta limitada a políticas de acessibilidade ou integração física. Ela precisa transformar-se em um projeto político-pedagógico que reconheça e valorize os saberes populares e culturais. Isso implica romper com práticas educacionais excludentes e construir uma escola que dialogue com a diversidade, promovendo uma educação equitativa e plural (Santos, 2007, p. 102).
Santos (2007) amplia o conceito de educação inclusiva ao propor uma transformação profunda no projeto político-pedagógico das escolas. O autor questiona as práticas tradicionais e defende a inclusão como um caminho para a justiça social e para a democratização do ensino, integrando os saberes diversos e respeitando a pluralidade cultural e cognitiva.
Fundamentada na teorização vygotskyana, Oliveira (2004) destaca o papel do contexto social no desenvolvimento da aprendizagem. Ela defende que a educação inclusiva deve priorizar a mediação pedagógica como estratégia central, adaptando práticas educativas às necessidades específicas dos alunos. A autora também ressalta o papel da gestão escolar na implementação de programas de formação contínua para educadores, a fim de qualificá-los para lidar com as demandas da inclusão.
Davis (2015) aborda a importância das políticas públicas de inclusão e a necessidade de uma gestão escolar preparada para enfrentar os desafios da educação especial. Ela argumenta que a inclusão depende de um esforço coletivo, no qual gestores, professores e famílias atuam em conjunto para construir uma escola inclusiva. Davis destaca ainda a necessidade de investimento em formação profissional e na disponibilização de recursos pedagógicos acessíveis que subsidiem práticas inclusivas.
A partir das reflexões desses autores, concluímos que a educação especial e inclusiva exige uma transformação estrutural e cultural no funcionamento das escolas. A gestão escolar desempenha um papel central nesse processo ao articular políticas inclusivas, promover a formação continuada dos educadores, garantir os recursos necessários e fomentar práticas pedagógicas que respeitem a diversidade dos alunos.
Mais do que assegurar a integração física de estudantes com deficiência, a educação inclusiva propõe um ensino democrático e equitativo, adaptado às necessidades individuais de cada estudante. Essa abordagem transforma a escola em um ambiente acolhedor, onde as diferenças são reconhecidas como potencialidades, e não como obstáculos, promovendo assim o desenvolvimento pleno de todos os envolvidos no processo educativo.
Os estudos sobre gestão escolar, dificuldades de aprendizagem e educação inclusiva abrangem um conjunto amplo de abordagens teóricas e práticas que têm como objetivo promover o acesso, a permanência e o sucesso escolar de todos os alunos, especialmente aqueles com necessidades educacionais específicas. No campo da gestão escolar, Libâneo (2012) ressalta a importância de uma gestão democrática, fundamentada no diálogo e na participação ativa da comunidade escolar. Para o autor, a gestão pedagógica eficiente deve articular recursos humanos, materiais e metodológicos, criando um ambiente escolar inclusivo que favoreça o desenvolvimento integral dos estudantes.
Sob essa perspectiva, a gestão escolar precisa considerar as particularidades socioculturais dos contextos em que atua. Conforme enfatiza Fernandes (2018), em realidades complexas, como na educação do campo ou no atendimento à educação especial, a gestão deve adaptar suas práticas às demandas locais, promovendo equidade no acesso ao ensino. Isso inclui a valorização do contexto social e das necessidades individuais dos alunos, cabendo à liderança escolar o papel de mediadora dessas adaptações. Gatti (2013) complementa essa visão ao destacar que a formação continuada dos professores é indispensável para enfrentar as dificuldades educacionais, qualificando os educadores a desenvolverem práticas inclusivas e sensíveis à diversidade.
A liderança pedagógica, como ressalta Lück (2011), é um dos pilares de uma gestão escolar eficaz. Lück defende que a liderança não deve restringir-se às questões administrativas, mas envolver-se diretamente com o processo de ensino-aprendizagem. A gestão precisa criar oportunidades de desenvolvimento profissional que capacitem os professores a aplicarem metodologias pedagógicas adaptadas e inovadoras. Nessa linha, Coll (2010) destaca a importância da personalização do ensino como estratégia para superar as dificuldades de aprendizagem. A gestão deve fomentar práticas pedagógicas que respeitem os ritmos e estilos individuais dos estudantes, garantindo uma educação verdadeiramente inclusiva.
No campo das dificuldades de aprendizagem, Luria (1986) contribui com a compreensão das relações entre o desenvolvimento cognitivo e os processos neuropsicológicos. Segundo o autor, essas dificuldades podem surgir devido a alterações em funções cerebrais, como memória, linguagem e percepção. Nesse sentido, torna-se essencial que a gestão escolar promova intervenções pedagógicas específicas, adaptando práticas e recursos que facilitem o desenvolvimento cognitivo dos alunos.
A teoria das inteligências múltiplas, desenvolvida por Gardner (1994), amplia essa compreensão ao afirmar que os métodos tradicionais tendem a valorizar apenas habilidades lógico-matemáticas e linguísticas, negligenciando outras formas de inteligência. Para Gardner, cabe à gestão escolar diversificar as práticas pedagógicas, criando oportunidades para que cada aluno desenvolva suas potencialidades. Rosa Alarcão (2001) complementa essa visão ao defender a construção de uma rede colaborativa entre escola, família e profissionais especializados. Para Alarcão, o enfrentamento das dificuldades de aprendizagem depende da articulação entre os diferentes atores do processo educacional.
Nesse contexto, Jussara Hoffmann (2005) critica a rigidez das avaliações tradicionais, que muitas vezes reforçam as dificuldades de aprendizagem ao invés de solucioná-las. A autora propõe a avaliação mediadora, uma abordagem que busca identificar as potencialidades dos alunos e fornecer subsídios para intervenções pedagógicas personalizadas. Já Maria Teresa Mantoan (2011) enfatiza a necessidade de adaptação curricular e do uso de metodologias inclusivas. Para Mantoan, a escola deve flexibilizar seus conteúdos e práticas a fim de atender às necessidades específicas dos alunos, garantindo seu desenvolvimento pleno.
No campo da educação inclusiva, Mantoan (2011) é referência ao afirmar que a inclusão vai além da mera integração física dos alunos. Para ela, a educação inclusiva exige uma transformação estrutural e pedagógica que valorize a diversidade como princípio central. A escola deve estar preparada para acolher os alunos com necessidades específicas, respeitando seus ritmos de aprendizagem e oferecendo os recursos necessários para seu desenvolvimento.
Sob a perspectiva de Freire (1996), a inclusão deve ser compreendida como um ato democrático e libertador. Freire ressalta que cabe à gestão escolar assegurar um ambiente em que os alunos sejam respeitados como sujeitos ativos do processo educativo. Essa visão é reforçada por Santos (2007), que propõe a valorização dos saberes diversos como forma de promover a justiça social no contexto escolar. Para Santos, a educação inclusiva não deve apenas adaptar o ensino, mas transformar a escola em um espaço de convivência e respeito às diferenças.
Além disso, Oliveira (2004) e Davis (2015) enfatizam a importância da mediação pedagógica e das políticas públicas na promoção da educação inclusiva. Oliveira, fundamentada em Vygotsky, ressalta que o desenvolvimento dos alunos ocorre por meio da interação social e da mediação de educadores preparados. Já Davis destaca a responsabilidade da gestão escolar em articular a relação entre escola, educadores e família, garantindo a implementação efetiva das políticas inclusivas.
Assim, entendemos que a atuação da gestão escolar, embasada em práticas democráticas e inclusivas, é essencial para o enfrentamento das dificuldades de aprendizagem e para a promoção de uma educação equitativa. Ao integrar as contribuições teóricas e práticas dos autores mencionados, a gestão escolar torna-se o eixo articulador na construção de uma escola capaz de acolher, respeitar e promover o desenvolvimento pleno de todos os alunos.
3. CONCLUSÃO
A presente pesquisa teve como objetivo analisar a atuação da gestão escolar no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem dos alunos da educação especial, com destaque para a importância de práticas inclusivas adaptadas ao contexto educacional. Ao longo do estudo, verificamos que a gestão escolar exerce um papel fundamental na construção de uma escola inclusiva, articulando recursos, metodologias e políticas educacionais que favoreçam o desenvolvimento integral dos estudantes.
Por meio de ações como a formação continuada dos educadores, a adaptação curricular e a implementação de tecnologias assistivas, a gestão escolar pode promover melhorias significativas nos processos de ensino-aprendizagem, garantindo um ambiente equitativo e acolhedor para todos os alunos.
Entre os principais resultados observados, constatou-se que as dificuldades de aprendizagem enfrentadas pelos alunos decorrem de múltiplos fatores, incluindo aspectos cognitivos, emocionais, metodológicos e institucionais. Destacam-se desafios como a falta de capacitação docente, a escassez de recursos pedagógicos adaptados e a ausência de articulação entre escola, família e comunidade, fatores que comprometem o atendimento às necessidades específicas dos estudantes. Além disso, a análise evidenciou que a educação inclusiva transcende a simples integração física dos alunos, demandando transformações estruturais e pedagógicas que valorizem as particularidades e os ritmos de aprendizagem de cada indivíduo.
Como reflexões finais, propõe-se uma série de melhorias na atuação da gestão escolar para enfrentar as dificuldades de aprendizagem no contexto da educação especial. Em primeiro lugar, torna-se essencial o investimento na formação continuada dos educadores, capacitando-os para desenvolver metodologias diversificadas, práticas pedagógicas inclusivas e avaliações mediadoras, respeitando as necessidades específicas dos alunos. Em paralelo, a gestão escolar deve coordenar a adaptação curricular e viabilizar a implementação de tecnologias assistivas, proporcionando acesso efetivo ao conhecimento e permanência dos estudantes com dificuldades de aprendizagem no ambiente escolar.
Outro ponto crucial é a fortalecida articulação entre escola, família e profissionais especializados. A construção de uma rede de apoio colaborativa possibilita um acompanhamento integral, oferecendo suporte acadêmico, emocional e social para favorecer o desenvolvimento pleno dos alunos.
Por fim, sugerimos que futuros estudos concentrem-se na aplicação prática das políticas públicas e estratégias de gestão voltadas à educação inclusiva. Investigar a eficácia das ações implementadas em diferentes contextos escolares pode fornecer insights valiosos sobre boas práticas, contribuindo para a formulação de políticas mais eficientes e acessíveis. Além disso, pesquisas que explorem a percepção dos alunos, famílias e educadores sobre as práticas inclusivas podem trazer novas perspectivas e aprimorar a atuação da gestão escolar.
Dessa forma, concluímos que a educação inclusiva é um processo contínuo e desafiador, que exige o comprometimento ativo da gestão escolar na articulação de ações que garantam a equidade e a qualidade no ensino. Por meio de práticas eficazes, sensibilidade às diferenças e uma liderança pedagógica democrática, a gestão escolar se torna o alicerce para a construção de uma escola verdadeiramente inclusiva, na qual todos os alunos, independentemente de suas dificuldades, tenham a oportunidade de aprender, crescer e se desenvolver plenamente.
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1Graduada em Pedagogia. Professora da Rede Municipal de Ensino de Cametá. Email: raimundavandilze@gmail.com.
2Doutora em Educação. Professora da Universidade Federal do Pará. Email: mendeskarina37@gmail.com.
