REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601121955
Thaylla Stephany da Silva1
Nilton Luiz Souto2
Resumo:
Este estudo teve como objetivo analisar as diferenças e as contribuições do Estágio Obrigatório e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) na formação inicial dos estudantes do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas (IFSULDEMINAS), Campus Inconfidentes. A abordagem metodológica amparou-se na perspectiva qualitativa. Trata-se de um relato de experiência da autora sobre as vivências no Estágio Supervisionado Obrigatório e no PIBID, desenvolvidas entre os anos 2023 e 2025 na Escola Estadual Felipe dos Santos, localizada no município de Inconfidentes – MG. As reflexões revelam que o Estágio Supervisionado Obrigatório se caracterizou como uma prática mais formal e estruturada, com ênfase no planejamento e na avaliação pedagógica. O PIBID, por sua vez, destacou-se pela flexibilidade, pelo trabalho colaborativo e pelo estímulo à criatividade pedagógica. Os resultados indicam que ambas as experiências se mostram complementares e essenciais para o desenvolvimento de uma prática docente crítica, reflexiva e contextualizada com a realidade da escola pública.
Palavras-chave: Formação inicial de professores. Práticas de ensino. Ciências Biológicas.
1. Introdução
O debate sobre a formação de professores tem sido constante nas últimas quatro décadas (Roldão, 2017). Dentre as modalidades que contribuem significativamente para esse processo, destacam-se o Estágio Supervisionado Obrigatório e o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID).
O Estágio Supervisionado, exigido na maioria dos cursos de licenciatura, tem como finalidade o desenvolvimento de competências próprias da atividade docente e a contextualização curricular, visando à formação integral do educando para o exercício da cidadania e do trabalho (Brasil, 2008). No curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas (IFSULDEMINAS) – Campus Inconfidentes, o Estágio Obrigatório é dividido em quatro disciplinas a partir do 5º período do curso, totalizando 400 horas, sendo 200 horas no Ensino Fundamental e 200 horas no Ensino Médio (IFSULDEMINAS, 2020).
O PIBID é um Programa criado pelo Ministério da Educação, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), com a Portaria Normativa nº 38, de 12 de dezembro de 2007, durante o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Programa objetiva valorizar o magistério e apoiar estudantes de licenciatura (Pimenta; Lima, 2019).
No município de Inconfidentes – MG, o IFSULDEMINAS assume o PIBID, em seis edições (2011, 2013, 2015, 2018, 2022 e 2024). Atualmente, a Portaria CAPES nº 90/2024 regulamenta o programa, com o objetivo de integrar a formação inicial dos licenciandos à realidade das escolas públicas, estimulando práticas docentes inovadoras (Brasil, 2024).
Embora ambas as modalidades sejam fundamentais para a formação docente, apresentam diferenças significativas em suas práticas e impactos na preparação dos futuros professores. Assim, este relato de experiência busca analisar as diferenças e as contribuições do Estágio Obrigatório e do PIBID na formação inicial dos estudantes do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas.
2. Materiais e Métodos
Este trabalho caracteriza-se como um relato de experiência de natureza qualitativa, fundamentado nas vivências da autora durante o curso de Licenciatura em Ciências Biológicas. Aceitando a experiência como ponto de partida para a aprendizagem, manuscrito do tipo relato de experiência permite a apresentação crítica de práticas e/ou intervenções científicas e/ou profissionais (Mussi, Flores e Almeida, 2021). Neste sentido, as reflexões aconteceram a partir das observações, sentimentos da graduanda, relatórios e registros no diário de campo. As vivências ocorreram entre os anos 2023 e 2025 na Escola Estadual Felipe dos Santos, uma das escolas de Inconfidentes – MG que recebe estagiários das licenciaturas e participantes do PIBID.
O Estágio Supervisionado realizado durante o primeiro e segundo semestres de 2023, ocorreu junto as turmas de 9º Ano do Ensino Fundamental e 1º Ano do Ensino Médio. As atividades de estágio se caracterizaram por meio de observações das práticas desenvolvidas pela professora supervisora, do planejamento e do desenvolvimento de regências, além da elaboração, aplicação e correção de exercícios de fixação e de avaliações escritas.
A participação no PIBID ocorreu no primeiro semestre de 2025, junto as turmas de 9º Ano do Ensino Fundamental e 3º Ano do Ensino Médio. Entre as atividades realizadas, destacam-se o planejamento e a execução de oficinas, experimentos e projetos interdisciplinares.
O instrumento para a análise das vivências foram os registros feitos no diário de campo. De acordo com Zabalza (2003), os diários são um instrumento magnífico para identificar quais questões são dilemas para cada professor e como ele vai enfrentá-los. Assim, a análise seguiu uma abordagem descritiva e reflexiva, comparando as duas modalidades (vivências no Estágio Supervisionado e no PIBID), quanto às suas contribuições e desafios para a formação docente em Ciências Biológicas.
3. Resultados e Discussão
A análise das experiências vivenciadas no Estágio Supervisionado e no PIBID evidencia que, embora ambas as modalidades integrem a formação inicial docente, elas apresentam diferenças estruturais e pedagógicas que influenciam a aprendizagem da docência. Essas diferenças podem ser compreendidas à luz dos referenciais teóricos que discutem a formação de professores e a articulação entre universidade e escola.
Em relação à carga horária, os dados indicam que o Estágio Supervisionado e o PIBID não apresentam a mesma organização temporal. O Estágio possui carga horária delimitada e obrigatória, totalizando 400 horas distribuídas ao longo de dois anos, conforme as normativas curriculares. Já o PIBID, caracteriza-se por uma carga horária mensal de 40 horas, sem um limite fixo previamente estabelecido, uma vez que a participação no programa pode se estender por vários meses ou anos. O Edital atual do Programa, por exemplo, estabelece duração de até 24 meses, o que possibilita uma permanência prolongada do licenciando no contexto escolar. Essa característica reforça o argumento de Felício (2014), ao afirmar que a continuidade da inserção na escola favorece uma formação docente mais consistente e significativa.
No que se refere às observações do contexto escolar, estas ocorrem em ambas as modalidades formativas. Contudo, os resultados evidenciam que, no Estágio Supervisionado, a observação assume papel central e prioritário, constituindo-se como etapa fundamental do processo formativo. No PIBID, embora a observação também esteja presente, ela ocorre de maneira articulada ao planejamento e à intervenção pedagógica, assumindo um caráter mais investigativo e reflexivo. Essa diferença corrobora o posicionamento de Silveira (2016), ao afirmar que o PIBID se diferencia substancialmente do estágio ao propor experiências formativas mais integradas à prática docente.
Quanto ao planejamento e à execução das regências, os dados indicam que essas etapas não ocorrem da mesma forma nas duas modalidades. No Estágio Supervisionado, a atuação do licenciando apresenta menor autonomia, uma vez que a professora supervisora tende a estabelecer limites mais rígidos para a execução das atividades, resultando em práticas mais controladas e formais. Em contraste, no PIBID, o licenciando dispõe de maior liberdade para planejar e executar intervenções pedagógicas, em um contexto mais colaborativo e próximo da realidade escolar. Essa característica aproxima o PIBID do que Zeichner (2010) e Felício (2014) denominam de “terceiro espaço de formação”, no qual há maior integração entre teoria e prática.
No que se refere ao contato com a escola e com a professora supervisora, as experiências vivenciadas revelam que essa relação ocorreu de maneira semelhante em ambas as modalidades. Tal fato se justifica por se tratar da mesma escola onde foram desenvolvidos o Estágio Supervisionado e o PIBID, além de ser a instituição na qual a licencianda cursou sua educação básica. Esse vínculo prévio favoreceu maior proximidade, confiança e liberdade no desenvolvimento das atividades, evidenciando a importância do contexto e das relações estabelecidas no processo formativo.
Entretanto, ao analisar as reuniões com a professora supervisora, observa-se uma diferença significativa entre as modalidades. No Estágio Supervisionado, as reuniões foram pouco frequentes, chegando, em alguns casos, a ocorrer apenas uma vez durante todo o período. No PIBID, por outro lado, as reuniões com a supervisora aconteceram de forma sistemática e regular, constituindo-se como espaços de orientação, acompanhamento e reflexão sobre a prática pedagógica. Esse dado reforça a análise de Felício (2014), ao destacar o diálogo constante entre licenciando, supervisor e coordenador como elemento central do PIBID.
No que diz respeito às socializações e trocas de experiências com os colegas, os resultados indicam que essas ocorreram em ambas as modalidades. No Estágio Supervisionado, as socializações foram estimuladas principalmente no âmbito da disciplina de Estágio, em que o professor responsável solicitava momentos de compartilhamento das experiências vivenciadas nas escolas. Contudo, no PIBID, essas trocas ocorreram com maior intensidade, uma vez que o programa envolve licenciandos de diferentes períodos do curso e um número maior de participantes, favorecendo a diversidade de experiências e a construção coletiva de saberes docentes.
Além das contribuições evidenciadas em ambas as modalidades formativas, os dados também revelam limitações específicas. No Estágio Supervisionado, destacam-se a burocratização do processo formativo e a supervisão, por vezes, distante, o que pode restringir a autonomia do licenciando e limitar experiências pedagógicas mais inovadoras. No âmbito do PIBID, embora se observe maior liberdade e dinamismo nas práticas, mas de acordo com (Costa; Silva,2023) foram identificados entraves relacionados à infraestrutura precária de algumas escolas e a falta de material didático.
Apesar dessas limitações, os resultados indicam que o Estágio Supervisionado e o PIBID não devem ser compreendidos como experiências concorrentes, mas complementares. Como sugerido por (Moraes; Guzzi; Sá, 2019), a interação entre ambos segmentos pode fortalecer a motivação dos futuros professores, além de contribuir para uma formação mais ampla e significativa. Enquanto o Estágio contribui para a sistematização de saberes relacionados à organização do trabalho docente, o PIBID favorece a reflexão crítica, a autonomia e a articulação entre teoria e prática. Dessa forma, a complementaridade entre essas experiências mostra-se essencial para a constituição de uma formação docente mais crítica, reflexiva e contextualizada, corroborando as análises de Silveira (2016), Felício (2014), Zeichner (2010), Pimenta e Lima (2017) e Imbernón (1998).
4. Conclusão
Conclui-se que tanto o Estágio Supervisionado Obrigatório quanto o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) são fundamentais para a formação inicial de professores de Ciências Biológicas, uma vez que contribuem de maneira distinta e complementar para o desenvolvimento da prática pedagógica.
O Estágio Supervisionado oferece uma base sólida e estruturada, favorecendo a compreensão da organização escolar, do planejamento e dos processos avaliativos. O PIBID, por sua vez, possibilita maior flexibilidade, criatividade e reflexão crítica sobre o ensino, promovendo uma inserção mais dinâmica e colaborativa no contexto da escola pública. A articulação entre essas duas modalidades permite integrar teoria e prática, tradição e inovação, consolidando uma formação mais completa e contextualizada com os desafios do ensino público.
Conforme apontam Moraes, Guzzi e Sá (2019), consideramos que a complementaridade entre o Estágio Supervisionado e o PIBID fortalece a motivação e o compromisso social dos licenciandos, contribuindo para a constituição de uma prática docente mais crítica, engajada e significativa.
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2E-mail: nilton.souto@ifsuldeminas.edu.br
