A EFICÁCIA DA ATENÇÃO PRIMÁRIA NA PREVENÇÃO DA SOBRECARGA DOS HOSPITAIS: UMA AVALIAÇÃO CRÍTICA

THE EFFECTIVENESS OF PRIMARY CARE IN PREVENTING HOSPITAL OVERLOAD: A CRITICAL EVALUATION

LA EFICACIA DE LA ATENCIÓN PRIMARIA EN LA PREVENCIÓN DE LA SOBRECARGA HOSPITALARIA: UNA EVALUACIÓN CRÍTICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202512222330


José Alfredo Do Nascimento Junior1
Susinaiara Vilela Avelar Rosa2


RESUMO:

Introdução: O Sistema de Saúde, instituído pela Constituição Federal de 1.988, organiza-se em três níveis de atenção: primário, secundário e terciário. A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de entrada do sistema e tem como função coordenar o cuidado, promover a saúde, prevenir doenças e acompanhar os pacientes de forma contínua. Objetivo: Analisar a eficácia da APS na prevenção da sobrecarga hospitalar em um município de pequeno porte do sul do Estado de Minas Gerais, identificando se a população utiliza adequadamente os serviços de saúde disponíveis. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva e transversal, com coleta de dados por meio de um questionário aplicado à população do município. Os dados foram organizados em planilhas e analisados estatisticamente para identificar padrões de comportamento, nível de conhecimento sobre os serviços de saúde e frequência de uso indevido do pronto atendimento. Resultados e Discussão: Na pesquisa observou-se que mais da metade dos entrevistados não está cadastrada na Estratégia Saúde da Família (ESF), o que evidencia fragilidades no vínculo com a Atenção Primária, e mostraram que o principal motivo para a procura direta pelo hospital é a percepção de maior resolutividade. As queixas predominantes que levaram a essa busca foram casos simples e a frequência mais comum de procura hospitalar foi de ao menos uma vez por mês. Mesmo diante da preferência pelo hospital, os participantes avaliaram que as unidades de ESF de suas regiões funcionam adequadamente, com estrutura e profissionais presentes, e que, quando procuradas, apresentam boa resolutividade dos problemas de saúde Starfield (2002). Conclusão: A pesquisa identificou importantes fragilidades na relação entre a população e os serviços de atenção básica (ESF), e à percepção de que o hospital possui maior capacidade de resolução. Conclui-se que a sobrecarga hospitalar está associada a fatores estruturais, organizacionais, culturais e informacionais. Recomenda-se o fortalecimento das ações de educação em saúde, a melhoria da comunicação entre equipes e comunidade, a fim de reduzir a procura inadequada pelo pronto atendimento e aumentar a efetividade da APS.

Palavras-chave: Atenção Primaria, Sobrecarga Hospitalar, Estratégia Saúde da Família, Uso Inadequado do Pronto Atendimento, Condições Sensíveis à Atenção Primaria.

RESUMO EM INGLÊS

Introduction: The Health System, established by the Federal Constitution of 1988, is organized into three levels of care: primary, secondary, and tertiary. Primary Health Care (PHC) is the gateway to the system and is responsible for coordinating care, promoting health, preventing diseases, and providing continuous patient follow-up. Objective: To analyze the effectiveness of PHC in preventing hospital overload in a small municipality in the southern region of the state of Minas Gerais, identifying whether the population appropriately uses the available health services. Methodology: This is a quantitative, descriptive, and cross-sectional study, with data collection carried out through a questionnaire applied to the municipality’s population. The data were organized into spreadsheets and statistically analyzed to identify behavior patterns, level of knowledge about health services, and frequency of inappropriate use of emergency care services. Results and Discussion: The research showed that more than half of the respondents are not registered in the Family Health Strategy (FHS), which highlights weaknesses in the bond with Primary Health Care. The main reason for direct hospital visits was the perception of greater problem-solving capacity. The predominant complaints leading to this demand were simple cases, and the most common frequency of hospital visits was at least once a month. Despite the preference for hospital services, participants reported that the FHS units in their regions function adequately, with proper structure and available professionals, and that when accessed, they demonstrate good problem-solving capacity in addressing health issues (Starfield, 2002). Conclusion: The study identified significant weaknesses in the relationship between the population and primary care services (FHS), as well as the perception that hospitals have a greater capacity for resolution. It is concluded that hospital overload is associated with structural, organizational, cultural, and informational factors. Strengthening health education actions and improving communication between health teams and the community are recommended in order to reduce inappropriate demand for emergency services and increase the effectiveness of PHC.

Keywords: Primary Health Care, Hospital Overload, Family Health Strategy, Inappropriate Use of Emergency Services, Ambulatory Care Sensitive Conditions.

RESUMO EM ESPANHOL

Introducción: El Sistema de Salud, instituido por la Constitución Federal de 1988, se organiza en tres niveles de atención: primario, secundario y terciario. La Atención Primaria de Salud (APS) es la puerta de entrada al sistema y tiene como función coordinar la atención, promover la salud, prevenir enfermedades y acompañar a los pacientes de manera continua. Objetivo: Analizar la eficacia de la APS en la prevención de la sobrecarga hospitalaria en un municipio de pequeño porte del sur del estado de Minas Gerais, identificando si la población utiliza adecuadamente los servicios de salud disponibles. Metodología: Se trata de un estudio cuantitativo, descriptivo y transversal, con recolección de datos mediante un cuestionario aplicado a la población del municipio. Los datos fueron organizados en planillas y analizados estadísticamente para identificar patrones de comportamiento, nivel de conocimiento sobre los servicios de salud y frecuencia de uso inadecuado de los servicios de urgencias. Resultados y Discusión: La investigación evidenció que más de la mitad de los entrevistados no está registrada en la Estrategia de Salud de la Familia (ESF), lo que pone de manifiesto debilidades en el vínculo con la Atención Primaria. El principal motivo de la búsqueda directa del hospital fue la percepción de una mayor capacidad de resolución. Las quejas predominantes que motivaron esta demanda fueron casos simples, y la frecuencia más común de búsqueda hospitalaria fue al menos una vez al mes. A pesar de la preferencia por el hospital, los participantes evaluaron que las unidades de ESF de sus regiones funcionan adecuadamente, con estructura y profesionales disponibles, y que, cuando son utilizadas, presentan buena capacidad de resolución de los problemas de salud (Starfield, 2002). Conclusión: El estudio identificó importantes debilidades en la relación entre la población y los servicios de atención primaria (ESF), así como la percepción de que el hospital posee una mayor capacidad de resolución. Se concluye que la sobrecarga hospitalaria está asociada a factores estructurales, organizativos, culturales e informativos. Se recomienda fortalecer las acciones de educación en salud y mejorar la comunicación entre los equipos de salud y la comunidad, con el fin de reducir la demanda inadecuada de los servicios de urgencias y aumentar la efectividad de la APS.

Palabras clave: Atención Primaria de Salud, Sobrecarga Hospitalaria, Estrategia Salud de la Familia, Uso Inadecuado del Servicio de Urgencias, Condiciones Sensibles a la Atención Primaria;

INTRODUÇÃO

O Sistema Único de Saúde (SUS), instituído pela Constituição Federal de 1988, é estruturado em três níveis de atenção: primário, secundário e terciário. A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a base do sistema, sendo responsável pela maior parte dos atendimentos, bem como pelas ações de promoção da saúde, prevenção de doenças e acompanhamento contínuo dos usuários. Esse cuidado é prestado principalmente por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e da Estratégia Saúde da Família (ESF) (Brasil, 1990; Brasil, 2017).

Apesar de sua relevância, há um descompasso entre as atribuições atribuídas à APS e sua efetividade prática. Dados do Ministério da Saúde (2023) apontam que aproximadamente 40% das internações hospitalares no SUS continuam relacionadas a condições sensíveis à atenção primária (CSAP), evidenciando falhas na resolutividade do primeiro nível de atenção (BRASIL, 2023; Boing et al., 2022). Esse cenário contribui para a sobrecarga dos hospitais, que passam a absorver demandas que deveriam ser resolvidas no nível primário, comprometendo a agilidade e a qualidade do atendimento a casos mais complexos (Mendes, 2011; Almeida et al., 2018).

Este fenômeno compromete a eficiência do sistema, uma vez que os hospitais acabam absorvendo uma demanda que deveria ser resolvida na atenção primária, levando ao uso desnecessário de recursos e aumento no tempo de espera para pacientes com quadros graves (Starfield,1998). 

De acordo com Starfield (2002), um sistema de saúde eficaz depende de uma atenção primária resolutiva, capaz de atender à maioria das necessidades da população e reduzir a demanda desnecessária por serviços especializados. No entanto, diversos fatores podem estar associados à busca inadequada pelo atendimento hospitalar, como a percepção de baixa resolutividade das UBS, dificuldades de acesso, tempo de espera e desconhecimento sobre a organização do sistema de saúde (CONASS, 2015). 

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de um estudo quantitativo, transversal e descritivo, envolvendo seres humanos com aplicação de questionário. Segundo Fonseca (2002), os resultados da pesquisa quantitativa podem ser quantificados. Como as amostras são grandes, tornam-se um retrato bem real da população estudada, centrando-se na objetividade. 

O projeto de pesquisa teve o objetivo de avaliar a eficácia da Atenção Primária à Saúde (APS) na prevenção da sobrecarga dos serviços hospitalares, identificando a frequência de atendimentos por condições sensíveis à atenção primária.

LOCAL DA PESQUISA

A pesquisa foi realizada em um município de pequeno porte localizado no sul do estado de Minas Gerais, Brasil. O município dispõe de unidades básicas de saúde na zona urbana e rural, além de um hospital com pronto atendimento que atende à população local, sem necessidade de deslocamento para cidades vizinhas. O local foi escolhido por representar uma realidade típica de municípios do interior brasileiro, com desafios relacionados à eficiência da atenção primária e sobrecarga hospitalar.

CRITÉRIOS DE INCLUSÃO

Participaram do estudo os usuários que são atendidos no Pronto Atendimento do Hospital, que estavam aguardando atendimento no momento da entrevista, maiores de 18 anos. 

AMOSTRAGEM

A amostra foi composta por usuários do Sistema Único de Saúde que foram atendidos no Pronto Atendimento nos meses de setembro a outubro de 2025, totalizando 65 usuários.

INSTRUMENTOS E TÉCNICAS PARA COLETA DE DADOS

A coleta dos dados foi por meio de um questionário, sendo confeccionado pelos autores, dividido em dados sociodemográficos e específicos ao tema, com oito perguntas predominantemente de respostas fechadas (“sim”, “não”, múltipla escolha), abordando a avaliação dos serviços da ESF e do pronto atendimento local, os motivos para buscar atendimento hospitalar, percepção da sobrecarga dos serviços e resolução dos problemas apresentados. 

ANÁLISE DOS DADOS

Os dados foram tabulados pelos autores da pesquisa, sendo utilizados as ferramentas do Excel e descritos em forma de tabelas e gráficos, facilitando assim a visualização dos resultados. 

ÉTICA NA PESQUISA

A presente pesquisa foi conduzida em conformidade com a Lei 14.874/2024(Brasil, 2024) que estabelece o Sistema Nacional de Ética e as Resoluções Nº 466/12 (Brasil, 2013) e a Resolução 510/2016 (Brasil, 2016) de anonimato, privacidade e sigilo profissional. A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética da UninCor, sob o parecer n. 7.743.521 e CAAE n. 90486625.8.0000.0295

RESULTADOS

O estudo foi realizado com 65 participantes residentes em um município de pequeno porte do Sul de Minas Gerais. 

As características sociodemográficas demonstraram predominância do sexo feminino (69,8%). A faixa etária mais representada foi de 18 a 30 anos (54,7%). Quanto ao nível de escolaridade, observou-se que a maioria dos participantes possuía ensino superior completo (33,8%) ou superior incompleto (21,5%). Em relação à ocupação, verificou-se grande diversidade profissional, sendo que a categoria “Do Lar” representou a maior parcela (12,3%). No que se refere ao vínculo com a Atenção Primária, observou-se que mais da metade dos participantes não estava cadastrada na Estratégia Saúde da Família (ESF), revelando baixa adesão aos serviços de atenção básica no município. Essa ausência de cadastro compromete o acompanhamento contínuo pela equipe de saúde e pode influenciar diretamente o padrão de busca por atendimento. 

Ao investigar os motivos que levam a população a procurar diretamente o hospital, constatou-se que o fator predominante apontado pelos participantes foi a percepção de “maior resolutividade” dos serviços hospitalares em comparação à APS. Entre os motivos de saúde que desencadearam essa busca, destacou-se a queixa de “dor de cabeça”, seguida por sintomas igualmente simples, que poderiam ser potencialmente resolvidos na atenção primária.

A frequência com que os usuários procuraram o hospital também se mostrou significativa: a maioria relatou buscar o atendimento hospitalar pelo menos uma vez por mês. Esse dado evidencia a utilização recorrente do pronto atendimento para situações que, muitas vezes, não possuem caráter de urgência.

Embora haja preferência pelo hospital, a avaliação sobre o funcionamento das unidades de ESF foi majoritariamente positiva. A maior parte dos entrevistados relatou que as unidades de suas respectivas áreas funcionam de maneira adequada, com estrutura física satisfatória, presença dos profissionais e oferta regular de atendimento.

Quanto à percepção de sobrecarga, tanto a Atenção Primária quanto o ambiente hospitalar apresentaram padrões semelhantes. Os participantes relataram tempo de espera prolongado, formação de filas e demora no atendimento como principais problemas vivenciados nos dois níveis de atenção. Esses achados demonstram que a sobrecarga é percebida de maneira transversal, afetando diferentes pontos da rede de serviços.

Os resultados indicam que, apesar do adequado funcionamento e da resolutividade das unidades de APS, a baixa taxa de cadastro, somada à percepção da população sobre a superioridade resolutiva do ambiente hospitalar, contribui para a manutenção do fluxo excessivo de atendimentos no pronto atendimento. Além disso, queixas simples permanecem sendo motivo frequente de procura hospitalar, reforçando o uso inadequado dos serviços de urgência.

Tabela 1 – Características sociodemográficas, n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que o sexo feminino foi predominante, e a faixa etária de 18 a 30 anos, com isso foi revelado que a maior porcentagem dos participantes possui o ensino superior completo e a classe de trabalhador que mais se destacou é a Do Lar.   

Gráfico 1 – Pacientes cadastrados no programa de estratégia de saúde da família, n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que mais da metade dos participantes não estão cadastrados no Sistema de Estratégia de Saúde da Família.

Gráfico 2 – Motivo porque se procura o atendimento diretamente no hospital, n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que o motivo predominante que causa a procura pelo atendimento diretamente no hospital invés do posto de saúde é a “Maior Resolutividade”.

Gráfico 3 – Motivo de saúde que fizeram a procura diretamente no hospital, n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que o motivo de saúde que mais se destacou fazendo com que os participantes procurarem o atendimento diretamente no hospital foi “Dor de Cabeça”.

Gráfico 4 – Frequência que usuários procuram o Hospital, n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que a frequência predominante que os usuários procuram o atendimento hospitalar pelos motivos citados no gráfico anterior é de pelo menos “1 vez por mês”. 

Gráfico 5 – Local de procura para atendimento médico,n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que quando os usuários precisam de atendimento médico procuram primeiro o serviço hospitalar invés do atendimento primário no ESF.

Gráfico 6 – Funcionamento da ESF da região específica de cada usuário,n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que o ESF de cada região específica dos usuários funciona de forma correta, com profissionais presentes, estrutura adequada e atendimento regular.

Gráfico 7 – Resolutividade da ESF de cada região específica de cada usuário,n.65,  Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que a porcentagem que predominou dos usuários utilizando a ESF apontam que o problema de saúde foi resolvido.

Gráfico 8 – Sobrecarga da atenção primaria,n.65,  Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que quando os usuários procuraram a atenção primária para atendimento o tempo de espera, fila e demora no atendimento se destacaram.

Gráfico 9 – Sobrecarga Hospitalar,n.65, Minas Gerais, Brasil, 2025.

Fonte: Autores da pesquisa, 2025.

A pesquisa revelou que quando os usuários procuraram o hospital para atendimento o tempo de espera, fila e demora no atendimento se destacaram.

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo evidenciam um conjunto de fatores que influenciam diretamente na procura dos usuários pelo serviço hospitalar em detrimento da Atenção Primária à Saúde (APS). A predominância do sexo feminino entre os participantes corrobora achados nacionais que apontam maior utilização dos serviços de saúde pelas mulheres, seja por questões biológicas, comportamentais ou pela maior adesão às práticas preventivas (Fonseca, 2025; Silva; Santos, 2021) 

A faixa etária de 18 a 30 anos, mais expressiva no estudo, também se alinha a pesquisas recentes que indicam que adultos jovens têm recorrido com frequência ao pronto atendimento para agravos leves, muitas vezes por percepções distorcidas sobre a resolutividade e rapidez desses serviços (Vilela, 2024) 

A baixa proporção de usuários cadastrados na Estratégia Saúde da Família (ESF) é um achado relevante. A literatura destaca que o vínculo e a continuidade do cuidado são pilares fundamentais da APS e, quando fragilizados, favorecem o uso inadequado dos serviços de urgência (Starfield, 2002; Almeida et al., 2018). 

A falta de cadastro demonstra não apenas um distanciamento entre a população e a APS, mas também potenciais falhas na busca ativa, territorialização e organização das equipes de saúde.

Outro dado significativo refere-se ao motivo predominante que leva os usuários a procurarem diretamente o hospital: a percepção de “maior resolutividade”. Esse achado está em consonância com estudos que apontam que a APS, apesar de estruturada, ainda enfrenta dificuldades de imagem social, sendo frequentemente vista como um serviço lento, burocrático e de menor capacidade técnica (Silva et al., 2017; CONASS, 2015). 

Essa percepção, mesmo quando não condizente com a realidade, direciona o comportamento dos usuários e sobrecarrega o sistema hospitalar, a predominância de queixas simples como dor de cabeça entre os motivos que levam ao pronto atendimento reforça a hipótese do uso inadequado dos serviços de urgência para problemas considerados condições sensíveis à APS (Boing et al., 2022).

Essa prática gera impactos diretos na sobrecarga hospitalar, conforme demonstrado também em estudo de Souza et al. (2023), que associa a baixa resolutividade percebida da APS ao aumento das internações evitáveis.

Apesar dessa procura frequente pelo hospital muitas vezes mensal, os participantes relataram que suas unidades de ESF funcionam adequadamente, com estrutura física e profissionais presentes. Esse dado evidencia uma contradição importante: a infraestrutura adequada não garante, por si só, o uso apropriado da APS. Elementos subjetivos, como acolhimento, vínculo, confiança e comunicação, podem ser determinantes na escolha do usuário, conforme destaca (Mendes 2011).

No que diz respeito à resolutividade, a maioria dos usuários que utilizaram a APS relataram que seus problemas foram solucionados, o que confirma sua efetividade técnica. No entanto, tanto na APS quanto no hospital, fila, demora e tempo de espera se destacaram como fatores negativos, indicando um problema sistêmico relacionado ao processo de trabalho e ao dimensionamento das equipes. Esses achados se articulam com a literatura que aponta que a demora no atendimento é um dos principais fatores que levam à evasão da APS e à busca direta pelos serviços de maior complexidade (Silva; Santos, 2021).

Assim, observa-se que a sobrecarga hospitalar identificada no município estudado não está relacionada apenas à organização estrutural da APS, mas também à percepção dos usuários, à falta de vínculo e a um entendimento insuficiente sobre o funcionamento do sistema de saúde. A fragilidade nas ações educativas e na comunicação entre ESF e comunidade parece ser um dos pilares que sustentam o uso inadequado do pronto atendimento.

LIMITAÇÕES DO ESTUDO

O estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A primeira refere-se ao tamanho reduzido da amostra, o que pode limitar a generalização dos achados para outras populações ou contextos. Além disso, houve dificuldades de acesso ao público-alvo, especialmente no que se refere à disponibilidade e à participação dos usuários, o que pode ter influenciado a representatividade dos dados coletados.

CONCLUSÃO

O presente estudo permitiu avaliar a eficácia da Atenção Primária à Saúde na prevenção da sobrecarga hospitalar em um município do sul de Minas Gerais, revelando importantes fragilidades na relação entre população e APS. Embora as unidades de ESF apresentem funcionamento adequado e boa resolutividade para os usuários que as utilizam, a baixa taxa de cadastro e a percepção de que o hospital é mais resolutivo direcionam a população para um caminho de uso inadequado dos serviços de urgência e emergência.

Os resultados mostraram que queixas simples, potencialmente resolutíveis na APS, continuam sendo motivo frequente para a procura direta pelo hospital. Esse comportamento impacta negativamente o sistema, aumentando filas, tempo de espera e reduzindo a capacidade hospitalar de atender casos realmente graves.

Conclui-se que a sobrecarga hospitalar está associada não apenas a fatores estruturais, mas também culturais, informacionais e organizacionais. Nesse sentido, recomenda-se o fortalecimento das ações de educação em saúde, a intensificação da busca ativa e do cadastro na ESF, a melhoria da comunicação entre equipes e comunidade, as ações que reforcem o papel da APS como porta de entrada e coordenadora do cuidado.

Tais medidas podem contribuir para reduzir o uso inadequado do pronto atendimento e aprimorar a efetividade da APS, promovendo melhor organização da rede de atenção e maior eficiência do sistema de saúde como um todo.

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1Orcid: 0009-0002-6984-1740
2Orcid: 0000-0001-9665-3134