REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512292017
Zuleide Ramos Gomes1
RESUMO
A Educação Física Escolar nos anos iniciais do Ensino Fundamental configura-se como componente curricular essencial ao desenvolvimento integral da criança, ao articular aspectos motores, cognitivos, afetivos e sociais. Entretanto, em muitos contextos escolares, esse componente ainda é tratado de maneira secundária, limitado a práticas recreativas e pouco sistematizadas. Diante desta realidade emerge a questão-problema: de que maneira a Educação Física Escolar, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, contribui para o desenvolvimento integral da criança e para a formação global dos estudantes? O objetivo visa analisar a importância da Educação Física nos anos iniciais, discutindo suas contribuições pedagógicas à luz de referenciais teóricos contemporâneos. Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, do tipo revisão bibliográfica, fundamentado em autores clássicos e atuais da área. Os resultados evidenciam que a prática pedagógica sistematizada da Educação Física favorece o desenvolvimento motor, a socialização, a construção da autonomia e a ampliação das experiências corporais, contribuindo significativamente para a formação cidadã desde a infância.
Palavras-chave: Educação Física Escolar; Anos iniciais; Desenvolvimento integral; Prática pedagógica.
ABSTRACT
School Physical Education in the early years of Elementary Education is configured as an essential curricular component for the integral development of the child, as it articulates motor, cognitive, affective, and social aspects. However, in many school contexts, this component is still treated in a secondary manner, being limited to recreational and poorly systematized practices. In light of this reality, the following research question emerges: in what way does School Physical Education, in the early years of Elementary Education, contribute to the child’s integral development and to the global formation of students? The objective of this study is to analyze the importance of Physical Education in the early years, discussing its pedagogical contributions in the light of contemporary theoretical frameworks. This is a qualitative study, characterized as a bibliographic review, grounded in classical and current authors in the field. The results show that a systematized pedagogical practice in Physical Education promotes motor development, socialization, the construction of autonomy, and the expansion of bodily experiences, contributing significantly to citizenship formation from early childhood.
Keywords: School Physical Education; Early years; Integral development; Pedagogical practice.
1 INTRODUÇÃO
A Educação Física Escolar ocupa lugar de destaque no currículo da Educação Básica, especialmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, etapa caracterizada por intensos processos de desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social.
Nessa fase da escolarização, a criança encontra-se em constante construção de sua identidade, de suas relações sociais e de sua compreensão de mundo, sendo o corpo e o movimento elementos centrais desse processo. A corporeidade, portanto, configura-se como linguagem primordial da infância, por meio da qual a criança se expressa, interage, experimenta e produz sentidos acerca de si e do meio em que está inserida.
Sob essa perspectiva, a Educação Física Escolar ultrapassa a concepção historicamente atribuída de prática meramente recreativa ou compensatória, assumindo um papel pedagógico fundamental na formação integral do educando. Ao trabalhar com as diferentes manifestações da cultura corporal do movimento, como jogos, brincadeiras, danças, esportes, lutas e ginásticas, a Educação Física possibilita experiências educativas que contribuem para o desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social, favorecendo aprendizagens significativas desde a infância.
A Base Nacional Comum Curricular reconhece a Educação Física como componente integrante da área de Linguagens, compreendendo o corpo e o movimento como formas de expressão, comunicação e produção cultural (Brasil, 2018). Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, essa compreensão torna-se ainda mais relevante, uma vez que as vivências corporais oportunizam à criança o desenvolvimento das habilidades motoras básicas, a ampliação do repertório de movimentos e a construção de valores como cooperação, respeito, solidariedade, autonomia e convivência democrática, elementos essenciais à formação cidadã.
Entretanto, apesar de sua relevância pedagógica amplamente reconhecida nos documentos normativos e na literatura científica, a Educação Física Escolar, em muitos contextos educacionais, ainda é tratada de maneira secundária, restrita a práticas descontextualizadas, pouco sistematizadas e desvinculadas de intencionalidade educativa. Tal cenário evidencia fragilidades na compreensão de seu papel formativo, especialmente nos anos iniciais, período decisivo para o desenvolvimento integral da criança.
Diante dessa realidade, emerge a seguinte questão-problema: de que maneira a Educação Física Escolar, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, contribui para o desenvolvimento integral da criança e para a formação global dos estudantes? A formulação dessa problemática justifica-se pela necessidade de aprofundar o debate acerca da função pedagógica da Educação Física nesse nível de ensino, bem como de reafirmar sua importância no contexto do currículo escolar.
Nesse sentido, o presente artigo tem como objetivo geral analisar o papel da Educação Física Escolar nos anos iniciais do Ensino Fundamental, destacando sua importância para o desenvolvimento integral da criança. Como objetivos específicos, busca-se discutir os fundamentos teóricos que sustentam a Educação Física Escolar nessa etapa de ensino, analisar suas contribuições pedagógicas para o desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social dos estudantes, e refletir sobre a necessidade de práticas pedagógicas intencionais e sistematizadas, integradas ao projeto pedagógico da escola.
Ao propor essa discussão, o estudo pretende contribuir para o fortalecimento da Educação Física Escolar nos anos iniciais, evidenciando seu potencial formativo e sua relevância para a construção de uma educação comprometida com o desenvolvimento pleno e integral das crianças.
2 A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NOS ANOS INICIAIS
A Educação Física Escolar, enquanto componente curricular obrigatório da Educação Básica, possui como finalidade assegurar o acesso dos estudantes às manifestações da cultura corporal do movimento, compreendidas como construções históricas, sociais e culturais produzidas pela humanidade. Essa compreensão amplia o sentido da área, afastando-a de concepções reducionistas centradas apenas no exercício físico ou na recreação, e reafirma seu papel educativo no contexto escolar (Bracht, 2019).
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a Educação Física assume relevância singular, pois se insere em uma etapa marcada pela intensa exploração do corpo e do movimento como formas primárias de interação com o mundo. Nesse período, a criança aprende por meio da ação, da experimentação e da vivência corporal, o que torna o movimento um elemento estruturante do processo de aprendizagem (Freire, 2011).
A cultura corporal do movimento, conforme defendida por Betti (2013), constitui-se como objeto de estudo da Educação Física Escolar, englobando jogos, brincadeiras, esportes, danças, lutas e ginásticas. Esses conteúdos, quando abordados de forma pedagógica e contextualizada, possibilitam às crianças compreenderem o movimento como expressão cultural, comunicação e produção de sentidos, e não apenas como execução técnica.
Nos anos iniciais, é fundamental que essas manifestações sejam trabalhadas de maneira lúdica e significativa, respeitando as características do desenvolvimento infantil. O lúdico, nesse contexto, não se limita ao brincar espontâneo, mas configura-se como estratégia pedagógica que favorece a criatividade, a imaginação, a socialização e a construção do conhecimento corporal (Kishimoto, 2017).
Kunz (2014, p. 36) afirma que “a Educação Física escolar deve proporcionar experiências significativas que permitam à criança compreender o movimento como forma de expressão e interação social”. Essa perspectiva rompe com práticas tradicionais centradas na repetição mecânica de movimentos e propõe uma abordagem que valoriza a reflexão, a autonomia e a participação ativa dos estudantes.
A compreensão do movimento como linguagem corporal permite que a criança atribua significados às suas ações, desenvolvendo consciência corporal e senso crítico sobre as práticas corporais vivenciadas. Dessa forma, a Educação Física contribui para a formação de sujeitos que compreendem o corpo como parte constitutiva de sua identidade e de sua inserção social (Bracht, 2019).
Os anos iniciais representam etapa decisiva para o desenvolvimento das habilidades motoras fundamentais, tais como correr, saltar, arremessar, equilibrar-se e manipular objetos. Enquanto, Gallahue, Ozmun e Goodway (2013) destacam que essas habilidades constituem a base para a aprendizagem de movimentos mais complexos ao longo da vida, influenciando diretamente a participação em atividades físicas futuras.
Além do desenvolvimento motor, a Educação Física nos anos iniciais contribui para a organização perceptiva e psicomotora da criança, favorecendo a construção das noções de espaço, tempo, lateralidade e ritmo. Le Boulch (2008) ressalta que a educação psicomotora desempenha papel essencial na prevenção de dificuldades de aprendizagem, especialmente nos primeiros anos escolares.
Outro aspecto relevante refere-se à construção da identidade corporal e da autoestima. Ao vivenciar diferentes práticas corporais, a criança passa a reconhecer suas potencialidades e limites, desenvolvendo uma relação mais positiva com o próprio corpo. Essa vivência contribui para a formação de sujeitos mais seguros, autônomos e confiantes (Betti, 2013).
Além do mais, a Educação Física Escolar também se configura como espaço privilegiado para a valorização da diversidade corporal e cultural. Ao reconhecer diferentes formas de movimento, ritmos e expressões corporais, a prática pedagógica favorece o respeito às diferenças e combate estigmatizações relacionadas ao corpo e ao desempenho físico (Daolio, 2015).
Nesse sentido, torna-se imprescindível que a Educação Física nos anos iniciais seja planejada de forma sistematizada, articulada ao projeto pedagógico da escola e fundamentada teoricamente. A ausência de planejamento e de intencionalidade educativa compromete o potencial formativo desse componente curricular.
Assim, a Educação Física Escolar nos anos iniciais deve ser compreendida como prática educativa essencial à formação integral da criança, capaz de articular corpo, movimento, cultura e educação, contribuindo para a construção de sujeitos críticos, participativos e socialmente inseridos.
3 CONTRIBUIÇÕES PEDAGÓGICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA PARA O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL
A Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental contribui de maneira significativa para o desenvolvimento integral da criança ao articular, de forma indissociável, dimensões motoras, cognitivas, afetivas, sociais e culturais. Essa concepção integral fundamenta-se na compreensão de que o desenvolvimento humano ocorre por meio da interação entre corpo, mente e meio social (Vygotski, 2022).
No âmbito motor, as práticas corporais favorecem o aprimoramento das habilidades motoras fundamentais, essenciais para a autonomia e a segurança corporal. Gallahue, Ozmun e Goodway (2013) ressaltam que a consolidação dessas habilidades nos primeiros anos escolares é determinante para a participação ativa em diferentes contextos sociais e esportivos ao longo da vida.
O desenvolvimento motor adequado também influencia positivamente a aprendizagem escolar, uma vez que está relacionado à organização espacial, à coordenação visomotora e ao controle postural. Le Boulch (2008) destaca que dificuldades motoras podem repercutir negativamente no desempenho acadêmico, especialmente nos processos de leitura e escrita.
No campo cognitivo, a Educação Física contribui para o desenvolvimento do pensamento lógico, da atenção, da memória e da resolução de problemas. Jogos e brincadeiras estruturadas exigem que a criança compreenda regras, elabore estratégias e tome decisões, favorecendo a construção do raciocínio e da autonomia intelectual (Piaget, 2011).
Piaget (2011) afirma que a inteligência se constrói a partir da ação do sujeito sobre o meio, sendo o movimento um elemento central nesse processo. Dessa forma, a Educação Física atua como mediadora da aprendizagem, possibilitando que a criança construa conhecimentos por meio da experiência corporal.
No âmbito afetivo, as aulas de Educação Física possibilitam a expressão de sentimentos, emoções e vivências subjetivas, contribuindo para o equilíbrio emocional e o desenvolvimento da autoestima. A vivência de desafios corporais, quando mediada pedagogicamente, favorece a superação de medos, a autoconfiança e a persistência.
No campo social, as práticas corporais coletivas promovem a interação, a cooperação, o respeito às regras e o reconhecimento do outro. Vygotski (2022, p. 98) destaca que “o desenvolvimento humano ocorre nas interações sociais mediadas culturalmente”, evidenciando o papel das experiências compartilhadas no processo educativo.
A Educação Física também contribui para o desenvolvimento de competências socioemocionais, como empatia, solidariedade, respeito mútuo e resolução de conflitos. Essas competências são fundamentais para a convivência democrática e para a formação cidadã desde a infância (Brasil, 2018).
Outro aspecto relevante refere-se à inclusão. A Educação Física, quando orientada por princípios inclusivos, possibilita a participação de todos os estudantes, respeitando suas singularidades e promovendo igualdade de oportunidades. Daolio (2015) enfatiza que a valorização da diversidade corporal deve ser eixo central da prática pedagógica.
Além disso, a Educação Física favorece a construção de hábitos de vida ativa e saudável, contribuindo para a promoção da saúde e a prevenção de doenças. A vivência positiva com o movimento na infância influencia a adoção de práticas corporais ao longo da vida (Nahás, 2017).
A articulação entre saúde, educação e cultura amplia o alcance pedagógico da Educação Física, reforçando sua função social e educativa. Nesse sentido, o componente curricular contribui para a formação de sujeitos conscientes de seu corpo e de sua responsabilidade social.
Portanto, as contribuições pedagógicas da Educação Física nos anos iniciais extrapolam o desenvolvimento físico, alcançando dimensões cognitivas, afetivas, sociais e éticas, essenciais para a formação integral da criança.
4 O PAPEL DO PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA NOS ANOS INICIAIS
O professor de Educação Física desempenha papel central na efetivação de uma prática pedagógica significativa nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Sua atuação exige domínio teórico, sensibilidade pedagógica e compreensão das especificidades do desenvolvimento infantil, elementos fundamentais para a mediação das experiências corporais.
Nos anos iniciais, o professor atua como mediador do conhecimento, organizando situações de aprendizagem que possibilitem à criança explorar, experimentar, refletir e atribuir significados ao movimento. Freire (2011) destaca que ensinar exige intencionalidade pedagógica e compromisso com a formação integral do educando.
O planejamento das aulas constitui elemento essencial da prática docente, pois orienta a seleção dos conteúdos, das metodologias e das estratégias de avaliação. A ausência de planejamento compromete a qualidade do ensino e reduz a Educação Física a práticas improvisadas e desarticuladas do currículo escolar (Darido; Rangel, 2015).
A intencionalidade educativa diferencia a prática pedagógica de uma simples atividade recreativa. Kunz (2014) afirma que o professor deve promover situações que estimulem a reflexão crítica dos alunos sobre as práticas corporais, favorecendo a construção de autonomia e consciência corporal.
A avaliação na Educação Física dos anos iniciais deve assumir caráter processual e formativo, considerando o desenvolvimento global da criança e respeitando seu ritmo de aprendizagem. Avaliar não significa medir desempenho, mas acompanhar processos, identificar avanços e orientar intervenções pedagógicas (Darido; Rangel, 2015).
Outro aspecto relevante refere-se à postura ética e inclusiva do professor. A Educação Física deve ser espaço de acolhimento, respeito e valorização das diferenças, combatendo práticas discriminatórias relacionadas ao corpo, ao gênero, à habilidade motora ou à condição física dos estudantes (Daolio, 2015).
A formação inicial do professor de Educação Física deve proporcionar fundamentos teóricos sólidos e experiências práticas que o preparem para atuar nos anos iniciais. No entanto, a formação continuada torna-se indispensável diante das transformações sociais, educacionais e curriculares que impactam a prática docente.
Segundo Taffarel e Escobar (2014), a formação crítica do professor é condição fundamental para a construção de práticas pedagógicas comprometidas com a transformação social e com a emancipação dos sujeitos.
O professor também desempenha papel fundamental na articulação da Educação Física com o projeto pedagógico da escola, dialogando com outros componentes curriculares e contribuindo para uma abordagem interdisciplinar do conhecimento.
Além disso, a atuação docente envolve o compromisso com a promoção da saúde, da cidadania e da qualidade de vida, aspectos que devem estar integrados às práticas pedagógicas desde os anos iniciais.
A valorização profissional do professor de Educação Física constitui desafio permanente, especialmente em redes de ensino que ainda desconsideram a especificidade e a importância da área nos primeiros anos escolares.
Assim, o papel do professor de Educação Física nos anos iniciais vai além da condução das aulas, configurando-se como agente formador, mediador cultural e sujeito político comprometido com a formação integral das crianças.
5 METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica, cujo objetivo central consiste em analisar a Educação Física Escolar nos anos iniciais do Ensino Fundamental, enfatizando suas contribuições pedagógicas para o desenvolvimento integral da criança. A opção pela abordagem qualitativa justifica-se pela possibilidade de compreensão aprofundada dos fenômenos educacionais, considerando seus significados, contextos e interpretações construídas socialmente.
A pesquisa bibliográfica constitui-se como procedimento metodológico fundamental, uma vez que permite o levantamento, a sistematização e a análise crítica de produções científicas já consolidadas sobre o tema. Segundo Gil (2019), esse tipo de pesquisa possibilita ao pesquisador dialogar com diferentes perspectivas teóricas, identificar consensos e divergências e construir uma análise fundamentada a partir do conhecimento já produzido.
O corpus da pesquisa foi composto por livros, artigos científicos, documentos oficiais e produções acadêmicas que abordam a Educação Física Escolar, o desenvolvimento infantil e as práticas pedagógicas nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Foram priorizadas obras clássicas e contemporâneas de autores reconhecidos na área, como Bracht, Betti, Kunz, Darido, Gallahue, Piaget, Vygotski, Freire, Daolio e Le Boulch, além de documentos normativos como a Base Nacional Comum Curricular.
A seleção das fontes ocorreu a partir de critérios de relevância temática, credibilidade acadêmica e coerência com os objetivos do estudo. Buscou-se contemplar produções que dialogassem diretamente com a Educação Física Escolar nos anos iniciais, evitando abordagens genéricas ou desvinculadas do contexto educacional brasileiro.
A análise dos dados foi realizada por meio de leitura exploratória, analítica e interpretativa das obras selecionadas, conforme orienta Minayo (2014). Inicialmente, procedeu-se à leitura exploratória, com o intuito de identificar os principais conceitos e categorias relacionadas ao objeto de estudo. Em seguida, realizou-se a leitura analítica, visando compreender os argumentos centrais dos autores e suas contribuições teóricas. Por fim, a leitura interpretativa possibilitou a articulação entre os diferentes referenciais, permitindo a construção de uma análise crítica e reflexiva.
As categorias analíticas emergiram a partir do diálogo entre os objetivos da pesquisa e os referenciais teóricos, sendo organizadas em torno dos seguintes eixos: Educação Física Escolar nos anos iniciais, desenvolvimento integral da criança, contribuições pedagógicas da cultura corporal do movimento e papel do professor de Educação Física. Essas categorias orientaram a discussão e a análise dos resultados apresentados na seção subsequente.
Destaca-se que, por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, não houve envolvimento direto com sujeitos humanos, o que dispensa a submissão a comitê de ética. Contudo, foram respeitados os princípios éticos da pesquisa científica, especialmente no que se refere à fidedignidade das informações, ao uso de fontes verdadeiras e à adequada referenciação das obras consultadas.
6 DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
A análise da literatura evidencia que a Educação Física Escolar nos anos iniciais do Ensino Fundamental é amplamente reconhecida como componente curricular fundamental para o desenvolvimento integral da criança. Os estudos analisados convergem ao afirmar que o corpo e o movimento constituem elementos centrais no processo de aprendizagem, especialmente na infância, período em que a criança aprende predominantemente por meio da ação e da experimentação (Freire, 2011).
Os resultados indicam que a Educação Física, quando desenvolvida de forma sistematizada e intencional, contribui significativamente para o desenvolvimento motor das crianças, favorecendo a consolidação das habilidades motoras fundamentais. Gallahue, Ozmun e Goodway (2013) demonstram que crianças que vivenciam experiências motoras diversificadas nos primeiros anos escolares apresentam maior autonomia, coordenação e segurança corporal, aspectos que influenciam positivamente sua participação em atividades físicas futuras.
No âmbito cognitivo, a literatura analisada aponta que as práticas corporais favorecem o desenvolvimento do raciocínio lógico, da atenção e da capacidade de resolução de problemas. Piaget (2011) destaca que a construção do conhecimento ocorre a partir da interação do sujeito com o meio, sendo o movimento elemento mediador desse processo. Assim, as atividades propostas nas aulas de Educação Física estimulam a criança a refletir sobre suas ações, tomar decisões e compreender regras, ampliando suas capacidades cognitivas.
A análise dos estudos também revela que a Educação Física Escolar exerce papel relevante no desenvolvimento afetivo das crianças. As experiências corporais possibilitam a expressão de emoções, o enfrentamento de desafios e a construção da autoestima. Betti (2013) ressalta que a vivência positiva com o movimento contribui para a formação de uma relação saudável com o próprio corpo, aspecto fundamental para o equilíbrio emocional na infância.
No que se refere ao desenvolvimento social, os resultados evidenciam que as aulas de Educação Física constituem espaço privilegiado para a socialização e a construção de valores. As práticas corporais coletivas favorecem a cooperação, o respeito às regras, o diálogo e o reconhecimento do outro. Conforme Vygotski (2022, p. 98), “o desenvolvimento humano ocorre nas interações sociais mediadas culturalmente”, o que reforça a importância das experiências compartilhadas no contexto escolar.
Outro aspecto recorrente na literatura diz respeito à valorização da cultura corporal do movimento como elemento constitutivo da Educação Física Escolar. Bracht (2019) e Daolio (2015) defendem que o ensino da Educação Física deve considerar o movimento como fenômeno cultural, reconhecendo as diferentes formas de expressão corporal presentes na sociedade. Essa abordagem contribui para o respeito à diversidade e para a formação de sujeitos críticos e conscientes.
A análise também evidencia que a ausência de planejamento e de intencionalidade pedagógica compromete o potencial formativo da Educação Física nos anos iniciais. Estudos de Darido e Rangel (2015) apontam que, em muitos contextos escolares, a área ainda é marcada por práticas improvisadas, desarticuladas do currículo e centradas apenas na ocupação do tempo, o que reforça sua desvalorização no ambiente escolar.
No que tange ao papel do professor, os resultados da revisão indicam que a atuação docente é determinante para a qualidade da Educação Física Escolar. Professores com formação teórica consistente e postura reflexiva tendem a desenvolver práticas pedagógicas mais inclusivas, críticas e alinhadas aos objetivos educacionais (Kunz, 2014).
A formação inicial e continuada do professor emerge como fator essencial para a consolidação de uma Educação Física comprometida com o desenvolvimento integral da criança. Taffarel e Escobar (2014) destacam que a formação crítica do docente possibilita a superação de práticas tradicionais e a construção de propostas pedagógicas emancipatórias.
A análise dos resultados também aponta a necessidade de integração da Educação Física ao projeto pedagógico da escola. Quando articulada aos demais componentes curriculares, a Educação Física amplia seu alcance educativo e contribui para uma abordagem interdisciplinar do conhecimento, conforme preconiza a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018).
Por fim, os resultados evidenciam que a Educação Física Escolar nos anos iniciais possui potencial significativo para contribuir com a formação cidadã, ao promover valores éticos, inclusão social e hábitos de vida ativa. Entretanto, para que esse potencial se concretize, faz-se necessário o reconhecimento da área, o investimento na formação docente e o fortalecimento de práticas pedagógicas fundamentadas cientificamente.
Dessa forma, a discussão e análise dos resultados reafirmam que a Educação Física Escolar, quando compreendida como prática educativa intencional e sistematizada, desempenha papel central na formação integral da criança, corroborando os objetivos propostos neste estudo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo analisar a Educação Física Escolar nos anos iniciais do Ensino Fundamental, destacando suas contribuições pedagógicas para o desenvolvimento integral da criança. A partir da revisão bibliográfica realizada, foi possível evidenciar que a Educação Física, quando compreendida como prática educativa intencional e sistematizada, desempenha papel fundamental na formação motora, cognitiva, afetiva, social e ética dos estudantes, especialmente na infância, etapa decisiva do processo de escolarização.
A análise da literatura permitiu constatar que a Educação Física Escolar vai além da dimensão meramente recreativa, constituindo-se como componente curricular essencial à promoção de aprendizagens significativas. Ao trabalhar com as diferentes manifestações da cultura corporal do movimento, esse componente possibilita às crianças ampliar seu repertório motor, desenvolver autonomia, fortalecer a autoestima e estabelecer relações sociais pautadas no respeito, na cooperação e na convivência democrática.
Os resultados discutidos indicam que as experiências corporais vivenciadas nos anos iniciais exercem influência direta sobre o desenvolvimento global da criança, repercutindo não apenas na aprendizagem escolar, mas também na construção de hábitos de vida ativa e saudável. Nesse sentido, a Educação Física assume função social relevante, ao contribuir para a formação de sujeitos críticos, conscientes de seu corpo e de sua inserção no contexto social e cultural.
Outro aspecto evidenciado refere-se ao papel do professor de Educação Física, cuja atuação mostra-se determinante para a efetivação de práticas pedagógicas qualificadas. O planejamento, a intencionalidade educativa, a avaliação processual e a postura inclusiva configuram-se como elementos essenciais para que a Educação Física cumpra sua função formativa nos anos iniciais. A formação inicial e continuada do docente, portanto, revela-se condição indispensável para o fortalecimento da área no contexto escolar.
A discussão também apontou que, apesar do reconhecimento legal e teórico da importância da Educação Física Escolar, ainda persistem desafios relacionados à sua valorização institucional, à compreensão de seus objetivos pedagógicos e à integração efetiva ao projeto pedagógico da escola. Superar essas fragilidades requer investimentos em políticas educacionais, formação docente e conscientização da comunidade escolar acerca da relevância desse componente curricular.
Diante disso, conclui-se que a Educação Física Escolar nos anos iniciais do Ensino Fundamental deve ser concebida como prática pedagógica estruturante, articulada ao currículo e orientada por fundamentos teórico-metodológicos consistentes. Ao assegurar experiências corporais significativas desde a infância, a Educação Física contribui de maneira decisiva para o desenvolvimento integral da criança e para a construção de uma educação comprometida com a formação humana, crítica e cidadã.
Por fim, destaca-se a necessidade de futuras pesquisas que investiguem empiricamente as práticas pedagógicas da Educação Física nos anos iniciais, considerando diferentes contextos escolares e realidades educacionais. Tais estudos poderão aprofundar a compreensão acerca dos desafios e das potencialidades da área, subsidiando a elaboração de propostas pedagógicas cada vez mais qualificadas e socialmente relevantes.
REFERÊNCIAS
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1Graduada em Educação Física pela Universidade de Brasília(2012), graduação em Administração pela Faculdade de Rondônia(2006) e especialização em Gestão Escolar pela Universidade Federal de Rondônia(2007). Atualmente é Professora de Educação Física da Prefeitura Municipal de Porto Velho. Tem experiência na área de Educação.
