RELAÇÃO ENTRE FIBRILAÇÃO ATRIAL SILENCIOSA E AVC CRIPTOGÊNICO

RELATIONSHIP BETWEEN SILENT ATRIAL FIBRILLATION AND CRYPTOGENIC STROKE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602271350


Igor Manoel Miranda Leal
Marcos Danilo Rodrigues Alves
Orientadora: Adélia Dalva da Silva Oliveira


RESUMO

A fibrilação atrial silenciosa representa uma importante condição clínica associada ao aumento do risco de acidente vascular cerebral criptogênico, sendo frequentemente subdiagnosticada devido à ausência de manifestações clínicas evidentes. Este estudo teve como objetivo analisar a relação entre fibrilação atrial silenciosa e AVC criptogênico, destacando aspectos epidemiológicos, diagnósticos e terapêuticos descritos na literatura científica. Trata-se de uma revisão integrativa conduzida a partir da busca em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, ScienceDirect e LILACS. Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2023, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem diretamente a associação entre as duas condições clínicas. Após aplicação dos critérios de elegibilidade e análise metodológica, foram selecionados 14 artigos para compor a amostra final. Os resultados evidenciaram que a fibrilação atrial silenciosa constitui importante fator etiológico do AVC criptogênico, sendo frequentemente identificada apenas após monitorização cardíaca prolongada. Os estudos analisados demonstraram que métodos diagnósticos baseados em monitoramento contínuo apresentam maior sensibilidade para detecção da arritmia, contribuindo para o diagnóstico precoce. Observou-se ainda que a introdução da terapia anticoagulante reduz significativamente a recorrência de eventos cerebrovasculares, embora exija avaliação individualizada quanto ao risco hemorrágico. Conclui-se que o rastreamento sistemático da fibrilação atrial silenciosa em pacientes com AVC criptogênico pode contribuir para estratégias preventivas mais eficazes, reduzindo a morbimortalidade associada. Além disso, destaca-se a necessidade de novos estudos que ampliem o conhecimento sobre mecanismos fisiopatológicos e estratégias terapêuticas relacionadas à arritmia.

Palavras-chave: Fibrilação atrial silenciosa; Acidente vascular cerebral criptogênico; Arritmias cardíacas; Monitoramento cardíaco; Anticoagulação.

ABSTRACT

Silent atrial fibrillation is an important clinical condition associated with an increased risk of cryptogenic stroke and is frequently underdiagnosed due to the absence of evident clinical symptoms. This study aimed to analyze the relationship between silent atrial fibrillation and cryptogenic stroke, highlighting epidemiological, diagnostic, and therapeutic aspects described in the scientific literature. This is an integrative review conducted through searches in national and international databases, including PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, ScienceDirect, and LILACS. Studies published between 2020 and 2023 in Portuguese, English, and Spanish that directly addressed the association between both clinical conditions were included. After applying eligibility criteria and methodological analysis, 14 articles were selected for the final sample. The results showed that silent atrial fibrillation is an important etiological factor of cryptogenic stroke and is often identified only after prolonged cardiac monitoring. The analyzed studies demonstrated that diagnostic methods based on continuous monitoring have greater sensitivity for arrhythmia detection, contributing to early diagnosis. It was also observed that anticoagulant therapy significantly reduces the recurrence of cerebrovascular events, although individualized assessment regarding bleeding risk is necessary. It is concluded that systematic screening for silent atrial fibrillation in patients with cryptogenic stroke may contribute to more effective preventive strategies, reducing associated morbidity and mortality. Furthermore, the need for further studies to expand knowledge about pathophysiological mechanisms and therapeutic strategies related to arrhythmia is highlighted.

Keywords: Silent atrial fibrillation; Cryptogenic stroke; Cardiac arrhythmias; Cardiac monitoring; Anticoagulation.

1   INTRODUÇÃO

A fibrilação atrial (FA) é a arritmia cardíaca sustentada mais prevalente em todo o mundo, caracterizada pela perda da contratilidade atrial eficaz e consequente predisposição à formação de trombos. Esse distúrbio do ritmo cardíaco representa um importante fator de risco para acidentes vasculares cerebrais, aumentando significativamente a morbimortalidade associada. A complexidade de sua fisiopatologia exige atenção especial no contexto clínico (CINTRA; FIGUEIREDO, 2021).

Estudos têm mostrado que muitos episódios de fibrilação atrial podem ocorrer de forma assintomática, configurando a chamada FA silenciosa. Essa condição dificulta a detecção precoce e, consequentemente, a adoção de medidas terapêuticas preventivas adequadas. O atraso no diagnóstico pode favorecer a ocorrência de eventos isquêmicos cerebrais de difícil associação etiológica (HALIMA et al., 2021).

O acidente vascular cerebral criptogênico, definido como aquele sem causa determinada após extensa investigação, constitui uma parcela relevante dos casos isquêmicos. A hipótese de que a fibrilação atrial silenciosa pode estar diretamente relacionada a esse subtipo de AVC tem se fortalecido na literatura científica, destacando a necessidade de rastreamento mais eficaz (GÜNDÜZ et al., 2022).

A epidemiologia da fibrilação atrial mostra crescimento expressivo, acompanhando o envelhecimento populacional e a prevalência crescente de fatores de risco cardiovasculares. Essa realidade amplia o impacto da arritmia na saúde pública, exigindo maior integração entre diagnóstico, prevenção e tratamento das complicações associadas (KORNEJ et al., 2020).

Outro aspecto relevante refere-se às desigualdades raciais e geográficas observadas na manifestação inicial da fibrilação atrial. Em algumas populações, o acidente vascular cerebral isquêmico aparece como primeira manifestação clínica da doença, revelando disparidades importantes no acesso a medidas preventivas e diagnósticas (GUO et al., 2021).

A relação entre fibrilação atrial e demência vascular também tem sido explorada, indicando que a presença da arritmia pode contribuir para processos neurodegenerativos. Esse dado reforça a gravidade da condição, uma vez que o comprometimento cognitivo pode ser associado tanto a eventos isquêmicos visíveis quanto a microembolias silenciosas (DE SOUSA et al., 2022).

Do ponto de vista terapêutico, estratégias anticoagulantes têm se mostrado fundamentais na redução do risco de AVC em pacientes com fibrilação atrial. No entanto, a adesão ao tratamento e o reconhecimento precoce dos fatores de risco permanecem como desafios na prática clínica, especialmente em cenários de baixa conscientização (HAJJ et al., 2020).

Pesquisas demonstram ainda que episódios de alta frequência atrial, mesmo quando breves, podem estar relacionados à ocorrência de eventos cerebrovasculares em diferentes populações. Esse achado evidencia a importância de monitoramento contínuo do ritmo cardíaco, sobretudo em pacientes com histórico de cardiopatias (FREITAS et al., 2020).

O registro GLORIA-AF, de caráter internacional, trouxe evidências robustas sobre a prevenção de AVC em pacientes com fibrilação atrial, confirmando a relevância de estratégias baseadas em estratificação de risco. Esses dados reforçam a necessidade de integrar evidências científicas à prática clínica, com vistas à redução da carga de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares (DUBNER et al., 2020).

A fibrilação atrial (FA) é a arritmia cardíaca sustentada mais comum na prática clínica, representando um importante fator de risco para eventos tromboembólicos, em especial o acidente vascular cerebral (AVC). No entanto, em muitos pacientes, essa condição pode permanecer assintomática, configurando a chamada fibrilação atrial silenciosa. Tal característica dificulta a identificação precoce e, consequentemente, a adoção de medidas preventivas adequadas (CINTRA; FIGUEIREDO, 2021).

O AVC, por sua vez, é uma das principais causas de morbidade e mortalidade no mundo. Dentre os subtipos, o AVC criptogênico é definido como aquele sem causa determinada após extensa investigação clínica e laboratorial. Estudos recentes têm apontado a fibrilação atrial silenciosa como um possível fator associado a esses casos, levantando a necessidade de melhor compreensão dessa relação (GÜNDÜZ et al., 2022).

A identificação de uma ligação consistente entre fibrilação atrial silenciosa e AVC criptogênico pode impactar diretamente a prática clínica, orientando estratégias de rastreamento em populações de risco e possibilitando a implementação de terapias anticoagulantes precoces. Isso contribuiria para a redução da incidência de eventos cerebrovasculares graves e para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes (HALIMA et al., 2021).

Apesar de sua relevância, a associação entre essas duas condições ainda é pouco explorada em determinados contextos clínicos, especialmente em populações com acesso limitado a tecnologias de monitoramento contínuo do ritmo cardíaco. A ausência de protocolos padronizados de rastreio e a falta de consenso entre diretrizes internacionais tornam essa investigação ainda mais necessária (KORNEJ et al., 2020).

Do ponto de vista científico, compreender a relação entre fibrilação atrial silenciosa e AVC criptogênico pode abrir espaço para novas linhas de pesquisa, envolvendo desde o desenvolvimento de dispositivos mais acessíveis de monitoramento cardíaco até a criação de algoritmos de predição baseados em inteligência artificial. Tais avanços podem transformar a abordagem da prevenção secundária do AVC (GUO et al., 2021).

Além disso, sob a perspectiva social e econômica, o impacto dos AVCs é extremamente significativo. As sequelas decorrentes geram altos custos aos sistemas de saúde e provocam incapacidades que afetam a vida do paciente e de sua família. Reduzir a ocorrência desses eventos, por meio de um melhor entendimento da sua relação com a fibrilação atrial silenciosa, representa não apenas um avanço científico, mas também uma contribuição relevante para a saúde pública (HAJJ et al., 2020).

Assim, este estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar a investigação sobre a associação entre fibrilação atrial silenciosa e AVC criptogênico, visando contribuir para estratégias mais eficazes de diagnóstico precoce, prevenção e tratamento (DUBNER et al., 2020).

O seguinte estudo tem como objetivo principal analisar a relação entre fibrilação atrial silenciosa e acidente vascular cerebral criptogênico, destacando a importância da identificação precoce dessa arritmia na prevenção de eventos cerebrovasculares. E como específicos: investigar a prevalência de fibrilação atrial silenciosa em pacientes com diagnóstico de AVC criptogênico; analisar os principais métodos de rastreamento utilizados para detecção da fibrilação atrial silenciosa; identificar os fatores de risco mais associados à coexistência de fibrilação atrial silenciosa e AVC criptogênico e discutir as implicações clínicas e preventivas da identificação precoce dessa arritmia em pacientes com histórico de AVC criptogênico.

2 METODOLOGIA

Tratou-se de uma revisão integrativa da literatura, método que possibilitou a síntese do conhecimento disponível sobre determinado tema a partir da análise sistemática e organizada de publicações científicas relevantes. A revisão integrativa mostrou-se adequada para este estudo, pois permitiu reunir, analisar e interpretar resultados de diferentes pesquisas que abordaram a relação entre fibrilação atrial silenciosa e acidente vascular cerebral criptogênico, proporcionando uma compreensão ampliada da temática e identificando lacunas capazes de orientar novas investigações.

A construção da revisão seguiu as etapas recomendadas para esse tipo de pesquisa, iniciando-se pela formulação da questão norteadora: “Qual a evidência científica disponível acerca da relação entre fibrilação atrial silenciosa e acidente vascular cerebral criptogênico?”. A elaboração dessa questão foi guiada pela estratégia PICo (População, Interesse e Contexto), que permitiu delimitar e organizar a busca de forma estruturada. Nesse modelo, a População (P) correspondeu a pacientes com diagnóstico de acidente vascular cerebral criptogênico; o Interesse (I) abrangeu a investigação da presença de fibrilação atrial silenciosa; e o Contexto (Co) referiu-se aos estudos clínicos e observacionais que analisaram a associação entre essas duas condições. Essa estruturação orientou a definição dos descritores e a seleção das bases de dados, garantindo maior precisão e relevância na obtenção das evidências.

Fluxograma PRISMA – Processo de Seleção dos Estudos

A partir dessa questão, foram definidos descritores controlados e não controlados que orientaram a estratégia de busca, selecionados a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH). Os principais termos utilizados foram “fibrilação atrial”, “fibrilação atrial subclínica”, “AVC criptogênico”, “acidente vascular cerebral” e suas correspondentes em inglês, combinados com operadores booleanos AND e OR, ampliando a sensibilidade da pesquisa.

A busca bibliográfica foi realizada em bases de dados nacionais e internacionais de ampla relevância para a área da saúde, incluindo PubMed/MEDLINE,Scopus,WebofScience,ScienceDirecteLILACS. Além disso, foram consultadas diretrizes internacionais de cardiologia e neurologia, com o objetivo de identificar publicações relevantes não indexadas em bases tradicionais. Para refinar a amostra, foram estabelecidos critérios de inclusão que contemplaram artigos publicados entre 2014 e 2024, disponíveis em português, inglês ou espanhol, que abordaram diretamente a relação entre fibrilação atrial silenciosa e acidente vascular cerebral criptogênico, incluindo estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas e metanálises. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, resumos de congressos, duplicatas e estudos que não apresentaram dados relevantes à questão norteadora.

Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, os estudos selecionados foram submetidos à leitura exploratória inicial, seguida de leitura analítica em texto completo. O processo de seleção foi realizado por dois revisores independentes, e eventuais discordâncias foram resolvidas por consenso ou com a participação de um terceiro avaliador. Para a organização dos dados, foi utilizada uma planilha padronizada contendo informações essenciais de cada estudo, como autores, ano de publicação, país, delineamento metodológico, tamanho da amostra, critérios diagnósticos utilizados, principais resultados e conclusões.

A avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos foi realizada de acordo com instrumentos validados apropriados ao tipo de estudo identificado. Para ensaios clínicos randomizados, foi utilizada a ferramenta Cochrane Risk of Bias; para estudos observacionais, empregou-se a escala Newcastle-Ottawa Scale (NOS); e para revisões sistemáticas, foram aplicados os critérios do AMSTAR-2. Essa etapa garantiu maior robustez e confiabilidade na análise dos resultados, permitindo a consideração crítica da consistência e relevância das evidências encontradas.

A síntese dos dados foi conduzida de forma narrativa e categorizada, agrupando os achados em eixos temáticos como prevalência de fibrilação atrial silenciosa em pacientes com AVC criptogênico, métodos de detecção utilizados (monitoramento ambulatorial de longo prazo, dispositivos implantáveis e eletrocardiograma prolongado), fatores de risco associados, tempo de detecção da arritmia após o evento neurológico e implicações terapêuticas relacionadas ao uso de anticoagulação. Essa organização possibilitou uma visão comparativa entre os estudos e destacou convergências e divergências nas evidências disponíveis.

3 RESULTADOS

A busca inicial nas bases de dados PubMed/MEDLINE,Scopus,Webof Science,ScienceDirecteLILACS resultou na identificação de 412 estudos potencialmente relevantes para a temática proposta. Além disso, foram identificados 18 estudos adicionais por meio da busca manual em referências bibliográficas e diretrizes clínicas relacionadas ao tema. Após a remoção de 96 artigos duplicados, permaneceram 334 estudos para análise.

Na etapa de triagem, realizada por meio da leitura dos títulos e resumos, foram excluídos 276 estudos por não atenderem aos critérios de elegibilidade estabelecidos, principalmente por não abordarem diretamente a relação entre fibrilação atrial silenciosa e acidente vascular cerebral criptogênico, por se tratarem de relatos de caso, editoriais ou resumos de eventos científicos. Dessa forma, 58 estudos foram selecionados para leitura na íntegra.

Durante a avaliação do texto completo, 44 artigos foram excluídos por não apresentarem dados específicos sobre fibrilação atrial silenciosa, por não analisarem pacientes com AVC criptogênico ou por não disponibilizarem resultados relevantes para a questão norteadora. Ao final do processo de seleção, 14 estudos (quadro 1) atenderam a todos os critérios de inclusão e foram incorporados à presente revisão integrativa.

Quadro 1 – Artigos selecionados para o estudo.

Autor/AnoObjetivoConclusão
Costa et al., 2021Avaliar o diagnóstico e manejo contemporâneo da fibrilação atrial no Brasil com base em dados do registro RECALL.A fibrilação atrial permanece como importante fator de risco para eventos tromboembólicos, destacando a necessidade de diagnóstico precoce e manejo adequado para prevenção do AVC.
Hindricks et al., 2021Apresentar diretrizes europeias atualizadas para diagnóstico e tratamento da fibrilação atrial.O monitoramento cardíaco prolongado aumenta a detecção de fibrilação atrial subclínica, sendo fundamental para prevenção de eventos cerebrovasculares.
Coelho et al., 2023Analisar a relação entre fibrilação atrial e acidente vascular cerebral e suas repercussões clínicas.A fibrilação atrial está diretamente associada ao aumento do risco de AVC e pior prognóstico clínico, reforçando a importância do rastreamento da arritmia.
Cintra e Figueiredo, 2021Descrever a fisiopatologia, fatores de risco e bases terapêuticas da fibrilação atrial.Alterações estruturais e elétricas atriais favorecem a formação de trombos, constituindo mecanismo central na ocorrência de eventos embólicos cerebrais.
De Sousa et al., 2022Investigar a associação entre fibrilação atrial e desenvolvimento de demência vascular.A fibrilação atrial está relacionada à ocorrência de eventos isquêmicos silenciosos e declínio cognitivo, reforçando a relevância da detecção precoce.
Gündüz et al., 2022Avaliar a fibrilação atrial paroxística como fator etiológico em pacientes com AVC isquêmico agudo.A monitorização cardíaca prolongada elevou significativamente a detecção da arritmia, modificando condutas terapêuticas e prevenção secundária do AVC.
Guo et al., 2021Analisar disparidades raciais e geográficas na ocorrência do AVC como primeira manifestação da fibrilação atrial.O AVC pode representar a manifestação inicial da fibrilação atrial, especialmente em populações com menor acesso ao diagnóstico precoce.
Halima et al., 2021Determinar a prevalência e fatores preditores de AVC silencioso em pacientes com fibrilação atrial.A elevada prevalência de eventos isquêmicos subclínicos evidencia a necessidade de investigação cardiológica em pacientes com fatores de risco.
Leite et al., 2022Avaliar fatores epidemiológicos e fatores de risco associados à fibrilação atrial.Idade avançada, hipertensão e diabetes estão fortemente associados à ocorrência da arritmia e ao aumento do risco de AVC.
Mwlia et al., 2021Investigar prevalência e preditores de fibrilação atrial em pacientes com AVC embólico de origem indeterminada.A fibrilação atrial foi frequentemente identificada após investigação complementar, sugerindo que muitos AVCs criptogênicos possuem origem cardioembólica.
Niaz et al., 2021Avaliar o impacto da anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial recém-diagnosticada.A anticoagulação reduziu taxas de AVC recorrente, porém exige avaliação individualizada do risco hemorrágico.
Scavasine et al., 2021Comparar características clínicas entre AVC criptogênico e AVC associado à fibrilação atrial.Os dois tipos de AVC apresentam semelhanças clínicas, sugerindo possível origem comum relacionada à arritmia subclínica.
Sun et al., 2021Avaliar o efeito do tirofiban na ocorrência de microhemorragias cerebrais após trombectomia mecânica.Intervenções farmacológicas podem influenciar eventos hemorrágicos, sendo necessária avaliação cuidadosa na terapêutica do AVC.
Zeitler e Piccini, 2021Investigar a relação entre pré-diabetes e risco de AVC em pacientes com fibrilação atrial.O pré-diabetes aumenta o risco de eventos cerebrovasculares, reforçando a importância do controle metabólico nesses pacientes.

Os estudos incluídos apresentaram diversidade metodológica, contemplando pesquisas observacionais, estudos prospectivos, análises retrospectivas, diretrizes clínicas e revisões científicas. Em relação ao período de publicação, os artigos foram publicados entre 2021 e 2023, evidenciando atualização e relevância científica da temática. Quanto à origem geográfica, observou-se predominância de estudos internacionais, embora também tenham sido incluídas produções nacionais, contribuindo para a contextualização dos achados na realidade brasileira.

A análise dos estudos permitiu identificar que a fibrilação atrial silenciosa representa importante fator associado ao acidente vascular cerebral criptogênico, sendo frequentemente diagnosticada após monitorização cardíaca prolongada. Os trabalhos destacaram elevada prevalência da arritmia em pacientes com AVC de etiologia indeterminada, reforçando sua relevância como causa potencial de eventos embólicos cerebrais.

Os resultados também evidenciaram que métodos diagnósticos baseados em monitoramento cardíaco contínuo e dispositivos implantáveis apresentam maior sensibilidade na detecção da fibrilação atrial subclínica quando comparados a exames convencionais, contribuindo para diagnóstico mais precoce e definição adequada da terapêutica.

Outro achado relevante refere-se às implicações clínicas da identificação da fibrilação atrial silenciosa, principalmente quanto à introdução da anticoagulação oral como estratégia de prevenção secundária do AVC, demonstrando redução significativa da recorrência de eventos isquêmicos. Entretanto, os estudos ressaltam a necessidade de avaliação individualizada do risco hemorrágico, considerando características clínicas e comorbidades associadas.

O fluxograma do processo de seleção dos estudos seguiu as recomendações do PRISMA, contemplando as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão, garantindo transparência e reprodutibilidade metodológica na condução da revisão.

4   DISCUSSÃO

pós a aplicação dos critérios de elegibilidade, foram incluídos 14 estudos que abordaram a relação entre fibrilação atrial silenciosa e acidente vascular cerebral criptogênico. A análise dos artigos permitiu a organização dos achados em três eixos temáticos: prevalência e associação clínica entre fibrilação atrial silenciosa e AVC criptogênico, métodos diagnósticos e estratégias de detecção da arritmia, e implicações prognósticas e terapêuticas da fibrilação atrial silenciosa.

4.1 Prevalência e associação clínica entre fibrilação atrial silenciosa e AVC criptogênico

A literatura evidencia que a fibrilação atrial silenciosa representa um importante fator etiológico para o acidente vascular cerebral criptogênico, sendo frequentemente identificada após investigações mais aprofundadas em pacientes inicialmente classificados como sem causa definida para o evento isquêmico. Estudos demonstram que a fibrilação atrial pode permanecer assintomática por longos períodos, favorecendo a formação de trombos e aumentando o risco de eventos embólicos cerebrais (HINDRICKS et al., 2021).

Investigações epidemiológicas indicam que o AVC pode ser a primeira manifestação clínica da fibrilação atrial, especialmente em populações com fatores de risco cardiovasculares não controlados. Dados populacionais apontam que a ausência de diagnóstico prévio da arritmia contribui para maior gravidade dos eventos neurológicos e pior prognóstico funcional (GUO et al., 2021).

Estudos clínicos prospectivos reforçam essa associação ao demonstrar alta prevalência de fibrilação atrial paroxística em pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico agudo, evidenciando que a identificação da arritmia após o evento neurológico modifica significativamente a condução terapêutica e o risco de recorrência do AVC (GÜNDÜZ et al., 2022).

Pesquisas envolvendo pacientes com acidente vascular cerebral embólico de origem indeterminada também apontam taxas relevantes de diagnóstico tardio de fibrilação atrial, sugerindo que muitos casos classificados como criptogênicos podem estar relacionados a episódios subclínicos da arritmia (MWLIA et al., 2021). Além disso, análises comparativas entre pacientes com AVC criptogênico e aqueles com fibrilação atrial estabelecida mostram semelhanças nos padrões clínicos e nos desfechos neurológicos, reforçando a hipótese de mecanismos fisiopatológicos compartilhados (SCAVASINE et al., 2021).

No contexto brasileiro, registros nacionais destacam a fibrilação atrial como uma das principais causas de eventos tromboembólicos, ressaltando a relevância da investigação ativa dessa arritmia em pacientes com AVC sem etiologia definida (COSTA et al., 2021). Revisões clínicas também confirmam que alterações estruturais e elétricas atriais favorecem a estase sanguínea e a formação de êmbolos, constituindo importante elo entre as duas condições (CINTRA; FIGUEIREDO, 2021).

4.2 Métodos diagnósticos e estratégias de detecção da fibrilação atrial silenciosa

A detecção da fibrilação atrial silenciosa constitui um desafio clínico, pois episódios paroxísticos frequentemente não são identificados por métodos diagnósticos convencionais. Diretrizes internacionais recomendam o uso de monitorização cardíaca prolongada em pacientes com AVC criptogênico, devido à maior sensibilidade desses métodos na identificação da arritmia (HINDRICKS et al., 2021).

Estudos observacionais demonstram que o monitoramento eletrocardiográfico contínuo, incluindo dispositivos implantáveis e monitorização ambulatorial prolongada, aumenta significativamente a taxa de detecção da fibrilação atrial subclínica, permitindo diagnóstico mais precoce e direcionamento terapêutico adequado (GÜNDÜZ et al., 2022).

Pesquisas também indicam que fatores clínicos e demográficos, como idade avançada, hipertensão arterial, diabetes mellitus e alterações estruturais cardíacas, estão associados a maior probabilidade de detecção da fibrilação atrial após o AVC, podendo auxiliar na seleção de pacientes candidatos a monitorização mais intensiva (LEITE et al., 2022).

Além disso, estudos sobre acidente vascular cerebral silencioso em pacientes com fibrilação atrial evidenciam que alterações isquêmicas subclínicas podem ocorrer mesmo na ausência de sintomas neurológicos evidentes, reforçando a necessidade de investigação cardiológica detalhada em indivíduos com fatores de risco cardiovasculares (HALIMA et al., 2021).

Revisões integrativas também destacam que a identificação precoce da fibrilação atrial pode contribuir para a prevenção de complicações neurológicas adicionais, incluindo declínio cognitivo e demência vascular, ampliando a relevância da triagem e do acompanhamento desses pacientes (DE SOUSA et al., 2022).

4.3 Implicações prognósticas e terapêuticas da fibrilação atrial silenciosa

A identificação da fibrilação atrial silenciosa possui impacto direto nas decisões terapêuticas, principalmente no que se refere ao uso de anticoagulação oral para prevenção secundária do AVC. Estudos demonstram que o início precoce da anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial recém-diagnosticada reduz significativamente a incidência de novos eventos isquêmicos, embora esteja associado a risco potencial de sangramento, exigindo avaliação individualizada do paciente (NIAZ et al., 2021).

Investigações relacionadas a fatores metabólicos indicam que condições como pré-diabetes podem aumentar o risco de eventos cerebrovasculares em pacientes com fibrilação atrial, sugerindo que o controle rigoroso de comorbidades contribui para melhores desfechos clínicos (ZEITLER; PICCINI, 2021).

Estudos que avaliaram intervenções terapêuticas em pacientes com AVC isquêmico demonstram que estratégias farmacológicas podem influenciar a ocorrência de micro-hemorragias cerebrais, destacando a necessidade de equilíbrio entre prevenção tromboembólica e segurança hemorrágica durante o tratamento (SUN et al., 2021).

Por fim, análises clínicas recentes apontam que o manejo adequado da fibrilação atrial, incluindo controle do ritmo e da frequência cardíaca, além da anticoagulação, reduz taxas de mortalidade e recorrência de eventos tromboembólicos, consolidando a relevância do diagnóstico precoce e da abordagem multidisciplinar no cuidado desses pacientes (COELHO et al., 2023).

5   CONCLUSÃO

A presente revisão integrativa evidenciou que a fibrilação atrial silenciosa representa um importante fator etiológico associado ao acidente vascular cerebral criptogênico, destacando-se como condição frequentemente subdiagnosticada devido à sua natureza assintomática e paroxística. Os estudos analisados demonstraram que uma parcela significativa dos eventos cerebrovasculares classificados inicialmente como de causa indeterminada pode estar relacionada à presença de episódios subclínicos da arritmia, reforçando a necessidade de investigação cardiológica ampliada nesses pacientes.

Observou-se que o avanço dos métodos diagnósticos, especialmente por meio da monitorização cardíaca prolongada e do uso de dispositivos implantáveis, tem contribuído significativamente para a detecção precoce da fibrilação atrial silenciosa. Essa identificação possibilita intervenções terapêuticas mais direcionadas, principalmente a introdução da anticoagulação oral, que se mostrou eficaz na redução da recorrência de eventos isquêmicos. Contudo, a literatura destaca a importância da avaliação individualizada do risco hemorrágico e das comorbidades associadas para definição segura da conduta terapêutica.

Dessa forma, os achados desta revisão reforçam a relevância do rastreamento sistemático da fibrilação atrial em pacientes com AVC criptogênico, bem como a necessidade de estratégias preventivas baseadas em diagnóstico precoce e manejo clínico adequado. Além disso, evidencia-se a importância do desenvolvimento de novos estudos que ampliem o conhecimento sobre a fisiopatologia, os fatores preditores e as melhores estratégias terapêuticas relacionadas à fibrilação atrial silenciosa, contribuindo para a redução da morbimortalidade associada aos eventos cerebrovasculares.

REFERÊNCIAS

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