BURNOUT SYNDROME IN PHYSICIANS: ASSOCIATED FACTORS, CLINICAL CONSEQUENCES, AND COPING STRATEGIES
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602252004
Lara Fiorino1
Pedro Paulo Coutinho Toribio2
Resumo
Os transtornos do humor constituem um relevante problema de saúde pública e apresentam maior prevalência em mulheres, especialmente durante períodos do ciclo vital marcados por intensas flutuações hormonais. Evidências indicam que fases como o período pré-menstrual, o ciclo gravídico-puerperal e a transição perimenopausal estão associadas a maior vulnerabilidade emocional, sugerindo que a sensibilidade individual às variações hormonais, mais do que os níveis hormonais absolutos, desempenha papel central na expressão clínica desses transtornos. O presente estudo teve como objetivo analisar criticamente a literatura psiquiátrica acerca da relação entre flutuações hormonais e transtornos do humor ao longo do ciclo vital feminino. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo e analítico, realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, PsycINFO e SciELO, contemplando publicações entre 2015 e 2025. Foram incluídos 30 estudos que abordaram transtorno disfórico pré-menstrual, depressão perinatal, transtornos do humor associados à perimenopausa e mecanismos neurobiológicos da sensibilidade hormonal. Os resultados indicaram associação consistente entre flutuações hormonais e aumento da prevalência de sintomas depressivos, ansiosos e de instabilidade do humor, especialmente em mulheres com histórico psiquiátrico prévio. Os estudos destacaram a modulação dos sistemas serotoninérgico, dopaminérgico, noradrenérgico e GABAérgico pelos hormônios sexuais, além da interação com fatores psicossociais, como estresse, privação de sono e suporte social. Observou-se ainda heterogeneidade quanto à eficácia da terapia hormonal, enquanto antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, demonstraram eficácia consistente. Conclui-se que os transtornos do humor relacionados a hormônios são condições multifatoriais, exigindo abordagem biopsicossocial e estratégias terapêuticas individualizadas no cuidado em saúde mental da mulher.
Palavras-chave: Transtornos do humor; Flutuações hormonais; Saúde mental da mulher; Estrogênio; Progesterona.
1 INTRODUÇÃO
Os transtornos do humor representam um importante problema de saúde pública, sendo responsáveis por elevada morbidade, prejuízo funcional e impacto significativo na qualidade de vida dos indivíduos acometidos. No contexto da saúde mental feminina, observa-se que determinadas fases do ciclo vital da mulher são marcadas por maior vulnerabilidade emocional, coincidindo com períodos de intensas flutuações hormonais, como a puberdade, o período pré-menstrual, o ciclo gravídico-puerperal e a transição menopausal (SOARES; ZITEK, 2008; FREEMAN, 2010).
Evidências crescentes sugerem que os hormônios sexuais, especialmente o estrogênio e a progesterona, exercem papel modulador relevante sobre sistemas neurobiológicos envolvidos na regulação do humor, incluindo os sistemas serotoninérgico, dopaminérgico e noradrenérgico (KULKARNI et al., 2012; GORDON; RUBINOW; EISENLOHR-MOUL, 2016). Alterações abruptas ou cíclicas nesses hormônios podem interferir na neurotransmissão, na neuroplasticidade e na resposta ao estresse, contribuindo para o surgimento ou agravamento de sintomas depressivos e ansiosos.
Nesse contexto, condições clínicas como o transtorno disfórico pré-menstrual, a depressão perinatal e os transtornos do humor associados à perimenopausa têm sido reconhecidas como entidades clínicas nas quais a sensibilidade hormonal parece desempenhar papel central (APA, 2022; SOARES, 2014). Tais quadros reforçam a noção de que, em um subgrupo de mulheres, existe uma vulnerabilidade neurobiológica específica às flutuações hormonais, mais do que aos níveis absolutos dos hormônios sexuais.
Estudos epidemiológicos indicam que mulheres apresentam maior prevalência de transtornos depressivos ao longo da vida quando comparadas aos homens, diferença que se torna mais evidente a partir da puberdade e persiste até o climatério (BROMBERGER et al., 2007; AVIS; CRAWFORD; GREEN, 2018). Essa distribuição temporal reforça a hipótese de que os hormônios gonadais influenciam a expressão clínica dos transtornos do humor, interagindo com fatores genéticos, ambientais e psicossociais.
Além dos mecanismos biológicos, fatores psicossociais associados às fases hormonais da vida feminina, como demandas reprodutivas, expectativas socioculturais, experiências de maternidade, infertilidade e envelhecimento, podem potencializar o sofrimento psíquico e modular a apresentação clínica dos transtornos do humor (HUNTER; RENDELL, 2013). Dessa forma, a compreensão dos transtornos do humor relacionados a hormônios exige uma abordagem integrada, que considere simultaneamente aspectos neuroendócrinos e contextuais.
Apesar do crescente interesse científico pelo tema, a literatura apresenta resultados heterogêneos quanto à magnitude da influência hormonal sobre os transtornos do humor, bem como quanto à eficácia de intervenções específicas, como a terapia hormonal e abordagens psicofarmacológicas e psicoterapêuticas direcionadas (SOARES; FREY, 2010; GIBBS; LEE; KULKARNI, 2012). Essa heterogeneidade dificulta a aplicação prática dos achados na rotina clínica psiquiátrica.
Diante desse cenário, torna-se relevante integrar criticamente as evidências disponíveis a fim de esclarecer os principais mecanismos envolvidos na relação entre hormônios e transtornos do humor, bem como identificar fatores de risco, manifestações clínicas predominantes e implicações terapêuticas. Nesse sentido, a revisão narrativa da literatura configura-se como um desenho de pesquisa adequado, por permitir a síntese de estudos com diferentes delineamentos metodológicos e a construção de uma visão abrangente e interpretativa sobre o tema (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008).
O problema de pesquisa que orienta o presente estudo consiste em compreender de que forma as flutuações hormonais ao longo do ciclo vital feminino influenciam o desenvolvimento, a expressão clínica e a evolução dos transtornos do humor, segundo a literatura psiquiátrica contemporânea. Essa questão é particularmente relevante para a prática clínica, uma vez que o reconhecimento da sensibilidade hormonal pode impactar estratégias diagnósticas e terapêuticas.
Parte-se da hipótese de que as flutuações hormonais, mais do que os níveis hormonais absolutos, estão associadas a maior vulnerabilidade aos transtornos do humor em mulheres suscetíveis, atuando em interação com fatores psicossociais e história psiquiátrica prévia. Assume-se ainda que essa vulnerabilidade se manifesta de forma mais evidente em períodos de transição hormonal, como o período pré-menstrual, o puerpério e a perimenopausa.
Assim, o objetivo desta revisão narrativa é analisar criticamente a literatura médica e psiquiátrica acerca dos transtornos do humor relacionados a hormônios, explorando seus fundamentos neurobiológicos, manifestações clínicas e implicações para a prática psiquiátrica, contribuindo para uma compreensão mais integrada e individualizada do cuidado em saúde mental da mulher.
2 METODOLOGIA
O presente estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo e analítico, cujo objetivo foi sintetizar e discutir criticamente as evidências científicas acerca da relação entre flutuações hormonais e transtornos do humor, com enfoque psiquiátrico. A escolha da revisão narrativa justifica-se pela natureza multifatorial do tema, que envolve aspectos neuroendócrinos, psicológicos e psicossociais, bem como pela heterogeneidade metodológica dos estudos disponíveis, permitindo uma abordagem integrativa e interpretativa dos achados.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, PsycINFO e SciELO, selecionadas por sua relevância na indexação de literatura médica e psiquiátrica. Foram utilizados descritores controlados e termos livres, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, incluindo os seguintes termos em inglês e português: “mood disorders”, “depressive disorders”, “hormones”, “sex hormones”, “estrogen”, “progesterone”, “menstrual cycle”, “perimenopause”, “postpartum”, “transtornos do humor”, “hormônios sexuais”, “estrogênio”, “progesterona” e “saúde mental”.
Os descritores foram adaptados conforme as especificidades de cada base de dados. Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas inglês, português ou espanhol, disponíveis na íntegra, que abordassem de forma explícita a associação entre flutuações hormonais ao longo do ciclo vital feminino e manifestações clínicas de transtornos do humor. Foram considerados elegíveis estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas, meta-análises e revisões narrativas. Foram excluídos relatos de caso isolados, editoriais, cartas ao editor, estudos duplicados e publicações que abordassem exclusivamente aspectos endocrinológicos sem correlação com desfechos psiquiátricos.
A seleção dos estudos ocorreu em etapas sucessivas, iniciando-se pela leitura dos títulos e resumos para identificação da pertinência temática, seguida da leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis, sendo incluídos apenas aqueles que apresentaram contribuição relevante para os objetivos da revisão. Ao final do processo de busca e seleção, foram incluídos 30 artigos, contemplando estudos que abordaram transtorno disfórico pré-menstrual, depressão perinatal, transtornos do humor associados à perimenopausa e mecanismos neurobiológicos da sensibilidade hormonal.
A extração dos dados foi realizada de forma manual e padronizada, contemplando informações referentes aos autores, ano de publicação, país de origem, delineamento do estudo, população avaliada e principais desfechos relacionados ao humor. A análise dos dados seguiu uma abordagem qualitativa e interpretativa, característica das revisões narrativas, com leitura crítica dos estudos selecionados, identificação de padrões recorrentes, divergências nos resultados e fatores de risco associados à vulnerabilidade aos transtornos do humor em contextos de flutuação hormonal. Os achados foram organizados de maneira descritiva e integrativa, possibilitando a construção de eixos temáticos relacionados aos mecanismos neuroendócrinos, manifestações clínicas e implicações terapêuticas para a prática psiquiátrica.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise dos 30 artigos selecionados evidenciou associação consistente entre flutuações hormonais ao longo do ciclo vital feminino e a ocorrência de transtornos do humor, embora com variabilidade quanto à intensidade dos sintomas e aos mecanismos envolvidos. De forma geral, os estudos indicaram que períodos caracterizados por alterações hormonais abruptas ou cíclicas — como a fase pré-menstrual, o período gestacional e puerperal e a transição perimenopausal — estão associados a maior prevalência de sintomas depressivos, ansiosos e de instabilidade do humor, especialmente em mulheres com vulnerabilidade prévia.
Os estudos que abordaram o transtorno disfórico pré-menstrual demonstraram que mulheres acometidas por esse quadro apresentam sensibilidade exacerbada às flutuações normais de estrogênio e progesterona, sem necessariamente apresentarem níveis hormonais anormais. Os resultados indicaram associação entre alterações hormonais cíclicas e disfunção nos sistemas serotoninérgico e GABAérgico, o que contribui para sintomas como irritabilidade, labilidade emocional, humor deprimido e ansiedade no período lúteo do ciclo menstrual. Esses achados reforçam a noção de que a variabilidade hormonal, e não o déficit hormonal isolado, desempenha papel central na fisiopatologia do transtorno.
Em relação ao ciclo gravídico-puerperal, os estudos incluídos apontaram aumento significativo da incidência de episódios depressivos no período pós-parto, particularmente nas primeiras semanas após o nascimento, período marcado por queda abrupta dos níveis de estrogênio e progesterona. Observou-se que mulheres com histórico prévio de transtornos do humor apresentaram risco aumentado de recorrência nesse período, sugerindo interação entre sensibilidade hormonal e predisposição psiquiátrica. Os estudos também indicaram que alterações do sono, estresse psicossocial e demandas associadas à maternidade atuam como fatores moduladores da expressão clínica dos sintomas.
Os artigos que investigaram a transição perimenopausal evidenciaram aumento da prevalência de sintomas depressivos e ansiosos em comparação à pós-menopausa tardia, reforçando a relevância da instabilidade hormonal nesse período. Os resultados indicaram associação entre sintomas vasomotores intensos, distúrbios do sono e maior gravidade dos sintomas do humor, sugerindo que o desconforto físico e a privação de sono contribuem para o sofrimento emocional. Além disso, estudos longitudinais demonstraram que mulheres com histórico de depressão apresentam maior risco de recorrência durante a perimenopausa.
Quanto aos mecanismos neurobiológicos, os estudos analisados indicaram que as flutuações hormonais influenciam a neurotransmissão serotoninérgica, dopaminérgica e noradrenérgica, bem como processos de neuroplasticidade e regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Evidenciou-se que o estrogênio exerce efeito modulador sobre a expressão de receptores de serotonina e sobre a resposta ao estresse, enquanto a progesterona e seus metabólitos afetam a neurotransmissão GABAérgica, influenciando sintomas de ansiedade e humor deprimido. Esses mecanismos foram descritos de forma consistente nos estudos experimentais e clínicos incluídos.
Os fatores psicossociais emergiram como elementos relevantes na modulação dos transtornos do humor relacionados a hormônios. Os estudos indicaram que eventos estressores, baixo suporte social, conflitos interpessoais, expectativas socioculturais e experiências reprodutivas adversas podem amplificar a vulnerabilidade emocional durante períodos de flutuação hormonal. Em contrapartida, maior suporte emocional, acesso à informação e estratégias adaptativas estiveram associados a menor gravidade dos sintomas.
Em relação às intervenções terapêuticas, os estudos apresentaram resultados heterogêneos quanto ao impacto da terapia hormonal sobre os transtornos do humor. Alguns trabalhos sugeriram benefícios em subgrupos específicos, especialmente em mulheres com sintomas vasomotores intensos durante a perimenopausa, enquanto outros não demonstraram efeito significativo sobre sintomas depressivos isolados. Os antidepressivos, particularmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, mostraram eficácia consistente no manejo dos sintomas do humor associados a flutuações hormonais, especialmente no transtorno disfórico pré-menstrual e na depressão perinatal.
De modo geral, os resultados desta revisão narrativa indicam que os transtornos do humor relacionados a hormônios não se manifestam de forma homogênea em todas as mulheres, mas acometem predominantemente aquelas com maior sensibilidade neurobiológica às flutuações hormonais, associada a fatores psicossociais e histórico psiquiátrico prévio. A literatura analisada reforça a importância do reconhecimento clínico desses quadros e da adoção de abordagens terapêuticas individualizadas no contexto da prática psiquiátrica.
4 DISCUSSÃO
Os achados desta revisão narrativa reforçam a compreensão de que os transtornos do humor relacionados a hormônios constituem entidades clínicas relevantes e multifatoriais, nas quais a interação entre flutuações hormonais, vulnerabilidade neurobiológica individual e fatores psicossociais desempenha papel central. A análise da literatura evidencia que períodos de transição hormonal ao longo do ciclo vital feminino representam janelas de maior risco para o surgimento ou agravamento de sintomas depressivos e ansiosos, corroborando a hipótese de que a sensibilidade às variações hormonais, mais do que os níveis hormonais absolutos, está associada à expressão dos transtornos do humor.
Os resultados relacionados ao transtorno disfórico pré-menstrual sustentam a noção de que mulheres acometidas por esse quadro apresentam resposta cerebral diferenciada às flutuações fisiológicas de estrogênio e progesterona. A literatura sugere que alterações nos sistemas serotoninérgico e GABAérgico, modulados pelos hormônios sexuais, contribuem para a labilidade emocional, irritabilidade e humor deprimido observados nesse período. Esses achados reforçam a importância de reconhecer o transtorno disfórico pré-menstrual como uma condição psiquiátrica distinta, evitando sua banalização como manifestação emocional transitória do ciclo menstrual.
No contexto do ciclo gravídico-puerperal, os estudos analisados apontam que a queda abrupta dos níveis hormonais no pós-parto pode atuar como fator desencadeante de episódios depressivos em mulheres vulneráveis. A associação consistente entre histórico prévio de transtornos do humor e maior risco de depressão pós-parto sugere que a flutuação hormonal atua como gatilho sobre uma predisposição psiquiátrica preexistente. Além disso, fatores psicossociais, como privação de sono, estresse e demandas associadas à maternidade, emergem como elementos amplificadores do sofrimento emocional, evidenciando a natureza multifatorial desses quadros.
A transição perimenopausal destaca-se como outro período crítico para a saúde mental feminina, conforme demonstrado pelos estudos incluídos. A maior prevalência de sintomas depressivos e ansiosos durante essa fase, em comparação à pós-menopausa tardia, reforça o papel da instabilidade hormonal na gênese dos sintomas. A associação entre sintomas vasomotores intensos, distúrbios do sono e alterações do humor sugere que o desconforto físico e a fragmentação do sono contribuem significativamente para o comprometimento emocional, devendo ser considerados no manejo clínico.
Do ponto de vista neurobiológico, a literatura revisada sustenta que o estrogênio exerce efeitos moduladores sobre a neurotransmissão e a neuroplasticidade, influenciando a regulação do humor e a resposta ao estresse. A progesterona e seus metabólitos, por sua vez, afetam a neurotransmissão GABAérgica, com impacto sobre sintomas ansiosos e de instabilidade emocional. Esses mecanismos ajudam a explicar por que determinadas mulheres apresentam maior sensibilidade às flutuações hormonais, reforçando a importância de abordagens terapêuticas individualizadas.
A análise dos fatores psicossociais evidencia que o contexto no qual ocorrem as transições hormonais influencia significativamente a expressão clínica dos transtornos do humor. Eventos estressores, baixa rede de apoio, expectativas socioculturais e experiências reprodutivas adversas podem intensificar o sofrimento psíquico, enquanto estratégias adaptativas, suporte social adequado e acesso à informação podem exercer efeito protetor. Esses achados ressaltam a necessidade de uma abordagem biopsicossocial na avaliação e no tratamento dos transtornos do humor sensíveis a hormônios.
Em relação às estratégias terapêuticas, a literatura aponta que os antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, apresentam eficácia consistente no manejo desses quadros, particularmente no transtorno disfórico pré-menstrual e na depressão perinatal. A terapia hormonal, por sua vez, apresenta resultados heterogêneos, com possíveis benefícios restritos a subgrupos específicos, como mulheres na perimenopausa com sintomas vasomotores intensos. Esses dados reforçam que a terapia hormonal não deve ser considerada tratamento psiquiátrico de primeira linha, mas sim parte de uma estratégia integrada e individualizada.
Por fim, esta revisão evidencia lacunas importantes na literatura, incluindo a escassez de estudos longitudinais de longo prazo e a necessidade de maior investigação sobre intervenções psicoterapêuticas específicas para mulheres com sensibilidade hormonal. A compreensão aprofundada dos transtornos do humor relacionados a hormônios é fundamental para o aprimoramento do cuidado em saúde mental da mulher, destacando a importância da integração entre psiquiatria, ginecologia e atenção primária. O reconhecimento dessas condições como entidades clínicas legítimas pode contribuir para diagnóstico precoce, tratamento adequado e redução do impacto funcional e emocional associado a esses transtornos.
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta revisão narrativa evidencia que os transtornos do humor relacionados a hormônios representam um conjunto de condições clínicas de elevada relevância para a psiquiatria, especialmente no contexto da saúde mental da mulher. As evidências analisadas demonstram que as flutuações hormonais ao longo do ciclo vital — incluindo o ciclo menstrual, o período gestacional e puerperal, bem como a transição perimenopausal — atuam como importantes moduladores do humor, podendo precipitar ou agravar quadros depressivos e ansiosos em indivíduos suscetíveis.
Os achados reforçam que a vulnerabilidade aos transtornos do humor não está diretamente relacionada aos níveis hormonais absolutos, mas à sensibilidade individual às variações hormonais, mediada por mecanismos neurobiológicos complexos que envolvem sistemas neurotransmissores, neuroplasticidade e resposta ao estresse. Nesse sentido, o estrogênio e a progesterona exercem papel fundamental na modulação do humor, influenciando circuitos cerebrais associados à regulação emocional.
Além dos aspectos biológicos, esta revisão destaca a importância dos fatores psicossociais na expressão clínica dos transtornos do humor sensíveis a hormônios. Eventos estressores, privação de sono, demandas reprodutivas, contexto sociocultural e suporte social insuficiente emergem como elementos que podem intensificar o sofrimento psíquico, reforçando a necessidade de uma abordagem biopsicossocial no cuidado dessas pacientes.
Do ponto de vista terapêutico, os dados sugerem que o manejo mais eficaz dos transtornos do humor relacionados a hormônios envolve estratégias integradas, com destaque para o uso de antidepressivos, particularmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, aliados a intervenções psicoterapêuticas. A terapia hormonal pode apresentar benefícios em contextos específicos, como na perimenopausa, porém não deve ser considerada tratamento psiquiátrico isolado, devendo ser cuidadosamente individualizada.
Por fim, esta revisão ressalta a necessidade de maior integração entre psiquiatria, ginecologia e atenção primária à saúde, bem como o desenvolvimento de estudos longitudinais que aprofundem a compreensão dos mecanismos envolvidos e das estratégias terapêuticas mais eficazes. O reconhecimento precoce e o manejo adequado dos transtornos do humor relacionados a hormônios são fundamentais para reduzir o impacto funcional, emocional e social dessas condições, contribuindo para a promoção da saúde mental ao longo do ciclo de vida feminino.
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1Discente do Curso Superior de Medicina da UNESC Campus colatina
2Docente do Curso Superior de Psicologia da Multivix Campus Vitória. Mestre em Psicologia Social (PPGPS/UERJ).
