OPPOSITIONAL DEFIANT DISORDER: PSYCHOPATHOLOGICAL IMPLICATIONS, ASSOCIATED FACTORS, AND CHALLENGES IN CLINICAL MANAGEMENT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602251954
Lara Fiorino
Pedro Paulo Coutinho Toribio
RESUMO
O Transtorno Opositor Desafiador (TOD) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrão persistente de irritabilidade, comportamento desafiador, negativista e hostilidade direcionada a figuras de autoridade, com prejuízo significativo no funcionamento social, familiar e acadêmico. Embora frequentemente confundido com manifestações comportamentais transitórias do desenvolvimento infantil, evidências recentes indicam que o TOD constitui um quadro psicopatológico complexo, associado a desregulação emocional persistente, elevada taxa de comorbidades psiquiátricas e influência marcante de fatores familiares e ambientais.
O presente estudo teve como objetivo analisar, por meio de revisão narrativa da literatura, os principais fatores psicopatológicos e psicossociais associados ao Transtorno Opositor Desafiador, bem como suas implicações para o diagnóstico e o manejo clínico. A busca foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, PsycINFO, Scopus, Web of Science e SciELO, contemplando publicações entre 2013 e 2025, com ênfase em estudos alinhados aos critérios diagnósticos do DSM-5 e DSM-5-TR.
Os achados evidenciam que a desregulação emocional, especialmente a irritabilidade crônica e a baixa tolerância à frustração, constitui elemento central na psicopatologia do transtorno. Observou-se elevada comorbidade com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, transtornos de ansiedade, transtornos depressivos e Transtorno de Conduta, o que impacta negativamente o prognóstico e dificulta o manejo clínico. Fatores familiares, como práticas parentais inconsistentes e ambientes coercitivos, bem como adversidades precoces e vulnerabilidades sociais, mostraram-se fortemente associados à gravidade dos sintomas.
Conclui-se que o TOD resulta da interação entre vulnerabilidades neurobiológicas e contextos ambientais adversos, exigindo abordagem diagnóstica abrangente e intervenções multimodais que integrem estratégias psicoterápicas, treinamento parental e tratamento das comorbidades. O reconhecimento precoce do transtorno é fundamental para a modificação de trajetórias psicopatológicas desfavoráveis e para a promoção de melhores desfechos clínicos na infância e adolescência.
Palavras-chave: Transtorno Opositor Desafiador; Psicopatologia; Desregulação Emocional; Comorbidade Psiquiátrica; Psiquiatria da Infância e Adolescência; Manejo Clínico.
1. INTRODUÇÃO
O Transtorno Opositor Desafiador (TOD) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por um padrão persistente de humor irritável, comportamento desafiador, negativista e hostil, direcionado principalmente a figuras de autoridade. Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5-TR, o transtorno manifesta-se predominantemente na infância e adolescência, com impacto significativo no funcionamento social, familiar e acadêmico do indivíduo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022).
Estudos epidemiológicos estimam que a prevalência do TOD varie entre 1% e 11% na população pediátrica, dependendo do contexto sociocultural, dos critérios diagnósticos utilizados e da faixa etária avaliada. Observa-se maior prevalência no sexo masculino durante a infância, com redução dessa diferença na adolescência, sugerindo influência de fatores biológicos, ambientais e desenvolvimentais na expressão do transtorno (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; NIGG, 2017).
O TOD apresenta elevada taxa de comorbidade com outros transtornos psiquiátricos, especialmente o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtornos de Ansiedade, Transtornos Depressivos e Transtorno de Conduta. Essa sobreposição diagnóstica dificulta o reconhecimento clínico isolado do transtorno e contribui para atrasos no diagnóstico e no início de intervenções adequadas (FRICK; VILLODO, 2021).
Do ponto de vista psicopatológico, o TOD tem sido progressivamente compreendido como um transtorno que vai além de comportamentos opositores transitórios do desenvolvimento infantil. Evidências recentes apontam que alterações na regulação emocional, impulsividade, déficits nas habilidades sociais e padrões disfuncionais de interação familiar desempenham papel central na gênese e manutenção do transtorno (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014).
Além disso, fatores psicossociais como exposição a ambientes familiares coercitivos, práticas parentais inconsistentes, adversidades precoces e contextos de vulnerabilidade social estão fortemente associados ao desenvolvimento e à gravidade do TOD. Esses fatores reforçam a necessidade de uma abordagem biopsicossocial para compreensão do transtorno, em oposição a interpretações exclusivamente comportamentais ou disciplinares (EVANS et al., 2020).
A relevância clínica do TOD reside não apenas em seus impactos imediatos, mas também em seu potencial de evolução para quadros psiquiátricos mais graves na adolescência e vida adulta, como transtorno de conduta, transtornos de personalidade e maior risco de envolvimento com comportamentos antissociais. Assim, o reconhecimento precoce e o manejo adequado do transtorno são fundamentais para a modificação de trajetórias psicopatológicas desfavoráveis (ODGERS et al., 2018).
Apesar dos avanços na compreensão teórica e clínica do TOD, persistem lacunas na literatura quanto à integração dos fatores emocionais, psicopatológicos e contextuais no diagnóstico e tratamento do transtorno, especialmente em contextos de prática clínica real. A heterogeneidade dos estudos e a variabilidade nos critérios diagnósticos dificultam a padronização de condutas baseadas em evidências.
Diante desse contexto, a pergunta de pesquisa que orienta o presente estudo é: quais são os principais fatores psicopatológicos e psicossociais associados ao Transtorno Opositor Desafiador e quais implicações esses fatores exercem sobre o diagnóstico e o manejo clínico do transtorno?
A hipótese formulada é que o Transtorno Opositor Desafiador resulta da interação complexa entre vulnerabilidades neurobiológicas e fatores ambientais adversos, estando fortemente associado a dificuldades de regulação emocional e a comorbidades psiquiátricas, o que impacta negativamente o prognóstico quando não reconhecido e tratado precocemente.
Com base nessa hipótese, este artigo propõe uma análise narrativa da literatura científica recente, com o objetivo de sintetizar os principais achados relacionados à psicopatologia, aos fatores associados e aos desafios clínicos envolvidos no manejo do Transtorno Opositor Desafiador.
2. MÉTODOS
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de natureza descritivo-analítica, conduzida com o objetivo de sintetizar criticamente as evidências científicas atuais sobre o Transtorno Opositor Desafiador, enfatizando seus aspectos psicopatológicos centrais, fatores etiológicos associados, comorbidades psiquiátricas e implicações clínicas para o manejo terapêutico. Optou-se pelo delineamento narrativo em virtude da heterogeneidade metodológica dos estudos disponíveis e da complexidade biopsicossocial envolvida na compreensão do transtorno. A busca foi realizada de forma sistematizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, PsycINFO, Scopus, Web of Science e SciELO, selecionadas por sua relevância e abrangência nas áreas de psiquiatria, psicologia do desenvolvimento e saúde mental infantojuvenil. O período de busca compreendeu publicações entre janeiro de 2013 e dezembro de 2025, a fim de contemplar estudos alinhados aos critérios diagnósticos do DSM-5 e DSM-5-TR. Foram utilizados descritores controlados dos Medical Subject Headings (MeSH) e dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados com termos livres, utilizando os operadores booleanos AND e OR. A estratégia principal incluiu os seguintes termos:
“Oppositional Defiant Disorder” AND (“Psychopathology” OR “Emotional Dysregulation” OR “Comorbidity” OR “Parenting” OR “Treatment”). Em português, foram empregados os descritores equivalentes: “Transtorno Opositor Desafiador”, “Psicopatologia”, “Desregulação Emocional” e “Comorbidade Psiquiátrica”. As estratégias de busca foram ajustadas conforme as especificidades de cada base, com o objetivo de maximizar a sensibilidade e reduzir perdas de estudos relevantes. Foram incluídos estudos que atendessem simultaneamente aos seguintes critérios: (1) artigos originais, revisões sistemáticas ou meta-análises; (2) amostras compostas por crianças e/ou adolescentes diagnosticados com Transtorno Opositor Desafiador com base em critérios do DSM-5 ou DSM-5-TR; (3) investigações que abordassem aspectos psicopatológicos, fatores etiológicos, comorbidades psiquiátricas, funcionamento emocional ou estratégias de manejo clínico; e (4) publicações em língua portuguesa, inglesa ou espanhola. Foram excluídos relatos de caso isolados, editoriais, cartas ao editor, estudos com amostras exclusivamente adultas, pesquisas com modelos animais e estudos cujo foco principal estivesse restrito a intervenções educacionais ou disciplinares sem correlação com a psicopatologia do transtorno.
O processo de seleção ocorreu em três etapas sequenciais. Inicialmente, realizou-se a triagem dos títulos e resumos para exclusão de publicações claramente irrelevantes ou duplicadas. Na segunda etapa, os textos completos dos estudos potencialmente elegíveis foram avaliados quanto à aderência aos critérios de inclusão e à relevância temática. Por fim, os estudos selecionados foram analisados quanto à consistência metodológica, clareza dos critérios diagnósticos e contribuição para a compreensão clínica do Transtorno Opositor Desafiador. Embora não se trate de uma revisão sistemática, o processo de seleção seguiu princípios de transparência e reprodutibilidade, visando minimizar vieses de seleção. A extração dos dados foi realizada de forma estruturada, contemplando: autores, ano de publicação, país de origem, delineamento do estudo, características da amostra, critérios diagnósticos utilizados, instrumentos de avaliação psicopatológica, principais comorbidades identificadas, fatores etiológicos associados e implicações clínicas descritas. Especial atenção foi dedicada à identificação de dados relacionados à desregulação emocional, padrões de interação familiar e trajetórias evolutivas do transtorn
Os dados extraídos foram analisados por meio de análise qualitativa temática, permitindo a identificação de eixos conceituais recorrentes e a integração dos achados sob uma perspectiva psicopatológica. A síntese foi organizada em categorias analíticas, incluindo: (1) características psicopatológicas centrais do TOD; (2) comorbidades psiquiátricas; (3) fatores familiares e ambientais; e (4) implicações para o diagnóstico e manejo clínico.
Essa abordagem possibilitou uma compreensão ampliada do Transtorno Opositor Desafiador, respeitando sua complexidade clínica e favorecendo a articulação entre evidências empíricas e prática assistencial.
3. RESULTADOS
A análise dos estudos incluídos nesta revisão narrativa evidenciou que o Transtorno Opositor Desafiador constitui um quadro psicopatológico complexo, marcado por desregulação emocional persistente, elevada taxa de comorbidades psiquiátricas e forte influência de fatores familiares e ambientais, em consonância com achados prévios da literatura internacional (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014; EVANS et al., 2020).
No que se refere às características psicopatológicas centrais, os estudos analisados demonstraram que o núcleo do Transtorno Opositor Desafiador vai além de comportamentos opositores isolados, envolvendo principalmente irritabilidade crônica, baixa tolerância à frustração, impulsividade e dificuldades de regulação emocional. Esses sintomas apresentam caráter persistente e exercem impacto significativo no funcionamento social, familiar e acadêmico de crianças e adolescentes acometidos (STRINGARIS; TAYLOR, 2015; WAKSCHLAG et al., 2015).
A irritabilidade foi descrita como um dos sintomas mais estáveis ao longo do tempo, estando associada a maior gravidade clínica e pior prognóstico. Estudos longitudinais indicaram que crianças com altos níveis de irritabilidade apresentam maior risco de evolução para transtornos do humor e transtornos de ansiedade na adolescência, reforçando a relevância desse sintoma como marcador psicopatológico precoce (STRINGARIS; TAYLOR, 2015; ODGERS et al., 2018).
A elevada taxa de comorbidade psiquiátrica foi um dos achados mais consistentes da literatura revisada. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade destacou-se como a comorbidade mais frequentemente associada ao Transtorno Opositor Desafiador, contribuindo para maior impulsividade, dificuldades acadêmicas e maior sobrecarga familiar (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; FRICK; VILLODO, 2021). A coexistência desses transtornos foi relacionada a quadros clínicos mais graves e a maior persistência dos sintomas opositores.
Além do TDAH, observou-se associação relevante com transtornos de ansiedade, transtornos depressivos e, em menor proporção, com o Transtorno de Conduta. Estudos apontaram que a presença de múltiplas comorbidades está relacionada a pior funcionamento global e menor resposta às intervenções terapêuticas convencionais, dificultando o manejo clínico e o prognóstico (EVANS et al., 2020; FRICK; VILLODO, 2021).
A sobreposição sintomatológica entre o Transtorno Opositor Desafiador e outros transtornos psiquiátricos foi frequentemente destacada como um fator complicador do diagnóstico diferencial, especialmente em contextos clínicos com acesso limitado à avaliação especializada, favorecendo diagnósticos tardios ou incompletos (NIGG, 2017; EVANS et al., 2020).
A desregulação emocional emergiu como eixo central nos estudos analisados. Crianças e adolescentes com Transtorno Opositor Desafiador apresentaram maior dificuldade em identificar, expressar e modular emoções negativas, particularmente raiva e frustração, o que se associou a padrões disfuncionais de interação social, conflitos frequentes com figuras de autoridade e dificuldades na manutenção de vínculos interpessoais (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014; WAKSCHLAG et al., 2015).
Os estudos indicaram ainda que a desregulação emocional atua como mediadora entre fatores ambientais adversos e a manifestação dos comportamentos opositores, sugerindo que intervenções focadas no desenvolvimento de habilidades emocionais podem exercer impacto positivo no curso do transtorno (STRINGARIS; TAYLOR, 2015).
No que se refere aos fatores familiares e ambientais, os resultados evidenciaram forte associação entre o Transtorno Opositor Desafiador e práticas parentais inconsistentes, estilos educativos coercitivos, baixa responsividade emocional e elevados níveis de estresse familiar. Ambientes familiares marcados por conflitos frequentes e comunicação disfuncional foram descritos como contextos que favorecem a manutenção dos sintomas opositores (SHAW; BELL; GILLIOM, 2000; LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009).
Além disso, adversidades precoces, como exposição à violência, negligência emocional e instabilidade socioeconômica, mostraram-se associadas a maior gravidade clínica e pior evolução do transtorno, reforçando a relevância dos determinantes sociais na expressão psicopatológica do TOD (EVANS et al., 2020; ODGERS et al., 2018).
Quanto às implicações para o manejo clínico, os estudos analisados indicaram que abordagens terapêuticas isoladas apresentam eficácia limitada, sobretudo em casos com múltiplas comorbidades. Intervenções multimodais, envolvendo treinamento parental, psicoterapia cognitivo-comportamental e, quando indicado, tratamento farmacológico das comorbidades, demonstraram melhores desfechos clínicos (FRICK; VILLODO, 2021; EVANS et al., 2020).
De forma geral, os resultados indicaram que o Transtorno Opositor Desafiador é um transtorno heterogêneo e multifatorial, caracterizado por desregulação emocional persistente, elevada carga de comorbidades psiquiátricas e forte influência de fatores familiares e ambientais, os quais interagem de maneira dinâmica, impactando o diagnóstico, o manejo clínico e o prognóstico dos indivíduos acometidos (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014; ODGERS et al., 2018).
4. DISCUSSÃO
Os achados desta revisão narrativa corroboram a compreensão contemporânea de que o Transtorno Opositor Desafiador constitui um quadro psicopatológico complexo, que não pode ser reduzido a comportamentos opositores transitórios ou a dificuldades disciplinares isoladas. A literatura analisada evidencia que o TOD envolve alterações persistentes na regulação emocional, elevada carga de comorbidades psiquiátricas e forte influência de fatores familiares e ambientais, configurando um transtorno de natureza multifatorial (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014; EVANS et al., 2020).
A desregulação emocional, especialmente expressa por irritabilidade crônica e baixa tolerância à frustração, emergiu como elemento central na psicopatologia do TOD. Estudos longitudinais indicam que a irritabilidade persistente na infância não apenas prediz a manutenção dos comportamentos opositores, mas também se associa a maior risco de transtornos do humor e de ansiedade na adolescência, o que reforça sua relevância como marcador clínico e prognóstico (STRINGARIS; TAYLOR, 2015; ODGERS et al., 2018).
A elevada taxa de comorbidade, particularmente com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, representa um desafio significativo para o diagnóstico e o manejo clínico do TOD. A sobreposição sintomatológica entre esses transtornos contribui para dificuldades no diagnóstico diferencial e pode levar à subvalorização dos aspectos emocionais do comportamento opositor (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; NIGG, 2017). Evidências indicam que a presença de comorbidades está associada a maior gravidade clínica, pior funcionamento global e menor resposta a intervenções terapêuticas isoladas (FRICK; VILLODO, 2021).
Os fatores familiares e ambientais desempenham papel fundamental na expressão e manutenção do Transtorno Opositor Desafiador. Práticas parentais inconsistentes, ambientes coercitivos e elevados níveis de estresse familiar foram consistentemente associados à gravidade dos sintomas opositores, sustentando modelos teóricos baseados em interações bidirecionais entre a criança e o ambiente (SHAW; BELL; GILLIOM, 2000; EVANS et al., 2020).
Adicionalmente, adversidades precoces, como exposição à violência e negligência emocional, mostraram-se associadas a trajetórias psicopatológicas mais desfavoráveis e a maior risco de progressão para transtornos mais graves, como o Transtorno de Conduta, reforçando a importância dos determinantes sociais no desenvolvimento do TOD (ODGERS et al., 2018).
No que se refere ao manejo clínico, os achados discutidos indicam que abordagens terapêuticas multimodais apresentam maior eficácia quando comparadas a intervenções isoladas. Programas de treinamento parental, psicoterapia focada em habilidades de regulação emocional e tratamento farmacológico direcionado às comorbidades demonstram melhores desfechos clínicos e funcionais (FRICK; VILLODO, 2021; EVANS et al., 2020).
Outro aspecto relevante diz respeito às implicações prognósticas do diagnóstico tardio. A ausência de intervenção precoce está associada à persistência dos sintomas e ao desenvolvimento de padrões comportamentais mais rígidos ao longo do desenvolvimento, aumentando o risco de prejuízos sociais, acadêmicos e emocionais na adolescência e vida adulta (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; ODGERS et al., 2018).
Apesar da consistência dos achados, esta revisão apresenta limitações inerentes ao delineamento narrativo, como a heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos e a variabilidade nos critérios diagnósticos e instrumentos de avaliação utilizados, o que limita comparações diretas entre os estudos (EVANS et al., 2020).
Em síntese, a discussão dos achados sustenta a hipótese inicial de que o Transtorno Opositor Desafiador resulta da interação entre vulnerabilidades neurobiológicas, dificuldades persistentes de regulação emocional e contextos ambientais adversos. O reconhecimento dessa complexidade é fundamental para o desenvolvimento de estratégias diagnósticas e terapêuticas mais eficazes, integrando intervenções clínicas, familiares e psicossociais baseadas em evidências (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014; FRICK; VILLODO, 2021).
5. CONCLUSÃO
O Transtorno Opositor Desafiador configura-se como um transtorno psicopatológico complexo, cuja compreensão exige uma abordagem que ultrapasse interpretações comportamentais simplificadas. As evidências analisadas nesta revisão narrativa demonstram que o TOD está fortemente associado à desregulação emocional persistente, elevada carga de comorbidades psiquiátricas e influência significativa de fatores familiares e ambientais, impactando de forma expressiva o funcionamento global de crianças e adolescentes.
Os achados sustentam que a irritabilidade crônica e as dificuldades de regulação emocional constituem elementos centrais do transtorno, com importantes implicações prognósticas, especialmente no risco de evolução para outros transtornos psiquiátricos na adolescência e vida adulta. A alta frequência de comorbidades, particularmente com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, reforça a necessidade de avaliações clínicas abrangentes e cuidadosas.
Diante desse cenário, o manejo clínico do Transtorno Opositor Desafiador deve ser multidimensional e individualizado, integrando intervenções psicoterápicas, treinamento parental e, quando indicado, tratamento farmacológico das comorbidades. O reconhecimento precoce do transtorno e a intervenção em seus determinantes emocionais e contextuais mostram-se fundamentais para a modificação de trajetórias psicopatológicas desfavoráveis.
Por fim, destaca-se a necessidade de futuras pesquisas longitudinais e metodologicamente robustas que aprofundem a compreensão dos mecanismos psicopatológicos envolvidos no TOD e avaliem estratégias terapêuticas integradas, contribuindo para práticas clínicas mais eficazes e baseadas em evidências na psiquiatria da infância e adolescência.
REFERÊNCIAS
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