AUSÊNCIA CONGÊNITA UNILATERAL DE DUCTO DEFERENTE: ACHADO ACIDENTAL NA VASECTOMIA E SUAS IMPLICAÇÕES PRÁTICAS PARA UROLOGISTAS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602082212


Dr. Daniel Ramirez1


RESUMO

A ausência congênita unilateral do ducto deferente (ACUDD) é uma entidade clinicamente rara. Um ducto deferente ausente foi encontrado uma vez em cada 480 homens submetidos a vasectomia. Devido ao fato de o sistema urinário e genital possuírem a mesma origem, alterações no desenvolvimento embrionário do ducto mesonéfrico podem resultar em agenesia unilateral de ducto deferente combinada com agenesia renal, embora o rim também tenha participação do blastema mesonéfrico em sua formação. As características clínicas dos portadores dessa associação são muito variáveis podendo ser assintomáticos por toda a vida. O diagnóstico geralmente é acidental, por meio de exames de imagem ou procedimentos urológicos, como a vasectomia. Apresentamos um caso de um homem de 47 anos de idade, 2 filhos vivos, vem em consulta para realizar vasectomia. Portador de agenesia renal à direita, descoberta durante a anamnese e ao exame físico dificuldade de determinar se tinha ducto deferente a direita.

Apresentação do caso

Homem de 47 anos de idade, sem histórico médico ou cirúrgico significativo, compareceu a nossa unidade clínica ambulatorial, para realizar o pré-operatório de vasectomia. Após anamnese descobriu-se que apresentava agenesia renal congênita a direita e durante o exame físico difícil determinar se tinha ducto deferente a direita, foi submetido a vasectomia bilateral a princípio.

Discussão 

A ausência congênita unilateral do ducto deferente é uma entidade muito rara na população masculina, com uma incidência de 0,5-1,0%. Um ducto deferente ausente é encontrado uma vez em aproximadamente 480 homens submetidos a vasectomia. Geralmente descoberta durante avaliação de infertilidade ou procedimentos cirúrgicos da região urogenital. A ausência congênita unilateral do ducto deferente está mais associada à agenesia renal (73,3%) em comparação com a forma bilateral (11,8%). A ausência congênita dos ductos deferentes é responsável por 1-2% da infertilidade masculina.

Conclusão

A ausência congênita do ducto deferente é uma entidade única e rara, com grande variedade de anormalidades urogenitais. Um ducto deferente ausente é encontrado uma vez em aproximadamente 480 homens submetidos a vasectomia. Este caso enfatiza a importância de uma boa anamnese e exame físico de rotina para reduzir o diagnóstico tardio desta anormalidade e suas comorbidades associadas, assim como a importância do planejamento cirúrgico em casos difíceis de vasectomia.

Palavras-chave: Ducto deferente, relato de caso, vasectomia, anomalia congênita, agenesia renal, achado acidental.

INTRODUÇÃO

A ausência congênita unilateral do ducto deferente (ACUDD) é uma anomalia rara. A incidência é de 0,06 a 1% em homens saudáveis (1). Foi descoberta pela primeira vez por um cirurgião escocês em 1737 chamado John Hunter (2). Por si só, tem pouca significância clínica além de uma incidência associada de 79% de agenesia renal ipsilateral (3).

APRESENTAÇÃO DO CASO

Um homem de 47 anos de idade sem histórico de tabagismo, abuso de drogas ou doenças sistêmicas, apresentou-se na nossa unidade clinica ambulatorial, para realizar o pré-operatório de vasectomia. Na anamnese descobriu-se agenesia congênita renal a direita e ao exame físico difícil a palpação do ducto deferente do mesmo lado. Decidiu-se realizar vasectomia bilateral a princípio. Durante o procedimento, o paciente foi submetido a anestesia com sedação endovenosa após ficar em decúbito dorsal, assepsia e antissepsia da região escrotal, colocação de campos estéreis e com anestesia local com lidocaína 2% sem vasoconstritor realizou-se vasectomia a esquerda pela técnica de Schimdt (4) sem intercorrências.  Do lado direito após a incisão e não conseguindo localizar o diferente, optou-se pela abertura maior da incisão e após uma revisão do cordão espermático e não encontrando-se o ducto deferente, encerrou-se a cirurgia com diagnóstico de ausência congênita do ducto deferente do lado direito. 

DISCUSSÃO

A ausência congênita unilateral do ducto deferente (ACUDD) é uma anomalia rara. A incidência é de 0,06 a 1% em homens saudáveis (1), geralmente descoberta durante a avaliação de infertilidade ou procedimentos cirúrgicos da região urogenital. O canal deferente é o menos comumente palpado durante o exame físico de rotina e é mais comumente atacado na cirurgia. (5). Pode estar ausente em um ou ambos os lados, no todo ou em parte, e neste último caso pode não estabelecer comunicação com o epidídimo (6). Oitenta por cento dos pacientes com fibrose cística apresentam anomalias bilaterais ou ausência do ducto deferente (7). A ACUDD do lado esquerdo ocorre duas vezes mais do que a ACUDD do lado direito. A ausência congênita unilateral do ducto deferente está mais associada à agenesia renal (73,3%), em comparação a forma bilateral (11,8%) (8). Anomalias da região inguinal, como hérnia inguinal também foram relatadas (9). Defeitos intrínsecos do ducto de Wolff podem resultar na falha do desenvolvimento do ducto deferente, uma condição que pode ocorrer isoladamente ou combinada com agenesia renal ou malformações. Um ducto ausente, ou seja, ausência unilateral do ducto deferente, embora relativamente incomum, pode ser encontrado por urologistas que realizam vasectomias ou avaliam homens com problemas de fertilidade (10,11). A ACUDD tem sido associada a outras anomalias renais, como rim ectópico, rim multicístico, rim em ferradura e má rotação do rim solitário (12), e anomalias dos ductos ejaculatórios, criptorquidia e vesículas seminais. Com raros casos de obstrução uretrovesical e refluxo vesico ureteral no rim contralateral também. 

A ACUDD é responsável por 1-2% da infertilidade masculina (8), geralmente causada por ACBDD e um pequeno número causado por ACUDD devido a obstrução no ducto deferente contralateral.

A ACDD pode ser diagnosticado por exame físico na ausência do ducto deferente de consistência firme e elástica, em continuação com o epidídimo ou durante a cirurgia de vasectomia como achado acidental.  O diagnóstico geralmente é acidental, por meio de exames de imagem ou procedimentos urológicos, como a vasectomia (13). O exame físico de rotina em todos os pacientes do sexo masculino deve incluir palpação bilateral do ducto deferente (14). O atraso no diagnóstico da ACDD pode levar ao aumento das taxas de mortalidade e morbidade associadas a essa anomalia devido a anormalidades associadas da área urogenital, conforme indicado por Weiss (11), por isso deve ser feito o exame de rotina de pacientes do sexo masculino. Pacientes diagnosticados com ACDD devem ser submetidos à ultrassonografia obrigatória da pelve abdominal para detectar outras anomalias urogenitais e pacientes com agenesia renal devem ser submetidos à exploração do escroto para detectar a ausência do ducto deferente (15).

CONCLUSÕES

A ausência congênita unilateral do ducto deferente (ACUDD) é uma entidade clinicamente rara. Um ducto deferente ausente (ACUDD) é encontrado uma vez em aproximadamente 480 homens submetidos a vasectomia. A palpação do ducto deferente é essencial e deve ser incluída como parte do exame físico de rotina em todos os homens que buscam vasectomia ou fertilidade. A descoberta de um ducto deferente ausente pode estar associada à agenesia renal/anormalidades e/ou mutações genéticas com riscos potenciais para a prole. As características clínicas dos portadores dessa associação são muito variáveis, podendo ser assintomáticos por toda a vida. A apresentação deste caso de ACUDD e um rim ectópico ipsilateral descoberto acidentalmente numa avaliação de vasectomia, enfatiza a importância de incluir o exame escrotal no exame físico de rotina para reduzir o diagnóstico tardio desta anormalidade e suas comorbidades associadas.

ASPECTOS ÉTICOS

O paciente foi devidamente informado sobre os objetivos da divulgação científica de seu caso clínico, a natureza confidencial das informações e a garantia de sigilo quanto à sua identidade. Após esclarecimentos, foi obtido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado, autorizando a utilização de seus dados clínicos para fins de publicação científica. Seguindo os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que trata das diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Todas as informações foram apresentadas de forma a preservar o anonimato do paciente, sem qualquer identificação direta ou indireta. O relato de caso foi apreciado pelo Comitê de Ética e Pesquisa e aprovado através do CAAE: 92267525.3.0000.0086.

Finalizando; o paciente evoluiu satisfatoriamente no pós-operatório sem intercorrências e encontra-se em acompanhamento e pesquisa de clínica genética para detectar fibrose cística.

REFERÊNCIAS

  1. Klapporth Hl, Young10. Vasectomy, vas ligationand vasocclusion. Urology 1973;1: 292-300
  1. Hunter J. On the glands called vesiculae seminales. In: Palmer JF, editor. vol. 4. Longman, Reese, Orm, Brown, Green e Longman; Londres: 1737. p. 23. 
  1. Schmidt SS. Techniques and complications of elective vasectomy. FertilSteriI 1966;17:467-82
  1. SCHMIDT SS.: Vasectomy by section, luminal fulguration and fascial interposition: results from 6248 cases. Br J Urol 1995; 76: 373-375
  1. Donohue RE, Fauver HE. Unilateral absence of the vas deferens A useful clinicalsign.lAMA 1989;261:180-2.
  1. Kushwaha SS, PendseAK.Congenital bilateralabsenceof vasdeferens-an uncommon cause of male infertility. Surg 1 N India 1996;12:144.
  1. Holsclaw OS. Cysticfibrosis and fertility. Br Med1 1969;3:356
  1. Weiske WH, Sälzler N., Schroeder-Printzen I., Weidner W. Clinical findings in congenital absence of the vasa deferentia. Andrologia. 2000;32(1):13–18.
  1. Kolettis PN, Sandlow J.I. Clinical and genetic features of patients with congenital unilateral absence of the vas deferens. Urology.2002;60(6):1073–1076. doi: 10.1016/s0090-4295(02)01973-8.
  1. Mo B, Garla V, Wyner LM. A case of congenital unilateral absence of the vas deferens. Int Med Case Rep J. 2013;6:21–23. doi: 10.2147/IMCRJ.S40611
  1. Esteves SC. Editorial – A missing vas deferens: practical implications for urologists performing vasectomies and managing infertile men. Int Braz J Urol. 2016 Sep-Oct;42(5):872-875. doi: 10.1590/S1677-5538.IBJU.2016.05.03. PMID: 27716455; PMCID: PMC5066881.
  1. Khan ZA, Novell J.R. A missing vas. J.R. Soc. Med. 2001;94(11):582–583. doi: 10.1177/014107680109401108.
  1. MAGNUSSON, Gabriel Peteno; ANJOS, Amanda Alencar dos; GOMES, Eduardo. Agenesia Renal Combinada a Agenesia de Ducto Deferente: Achado acidental em Vasectomia. In: VI Congresso Médico do Oeste do Paraná – Cascavel – Paraná (modalidade virtual), 2021. Disponível em: <https://doity.com.br/anais/vicomop/trabalho/161464>.
  1. S CHAWLA, Congenital Unilateral Absence of the vas deferens. Medical Journal Armed Forces India, Volume 55, Issue 4, 1999, Page 375, ISSN 0377-1237. doi:10.1016/S0377-1237(17)30530-0.
  2. Salwan A, Abdelrahman A. Congenital absence of vas deferens and ectopic kidney. Int J Surg Case Rep. 2017; 34:90-92. doi: 10.1016/j.ijscr.2017.03.019. Epub 2017 Mar 18. PMID: 28376421; PMCID: PMC5379864.

1Pesquisador Dr. Daniel Ramirez Claros CRM 148656
Email: danielramirezclaros@hotmail.com
Urologista do Hospital Dia São Mateus Dr. Henrique C. Gonçalves
Endereço: R. Augusto Ferreira Ramos, 9 – Jardim Tiete, São Paulo – SP, 03947-030

Rolar para cima