REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601121326
Fabrício Ribeiro Pereira1
Orientadora: Fernanda Rodrigues Galve2
RESUMO
Este artigo investiga o Instagram como espaço de ensino e aprendizagem de conteúdos historiográficos, tomando como objeto de análise o perfil @fabriciopereiraa, voltado à divulgação da história da cidade de São Luís/MA na contemporaneidade. O objetivo é compreender como conteúdos históricos produzidos e circulados nas redes sociais podem ser utilizados como recursos pedagógicos por professores ou outros mediadores no ensino de História. A pesquisa possui abordagem qualitativa e exploratória e fundamenta-se na compreensão de cultura digital como um conjunto de práticas sociais mediadas pelas tecnologias digitais que reconfiguram as formas de produzir, compartilhar e aprender conhecimentos. O estudo dialoga com os conceitos de transposição didática, mediação pedagógica, escrita de si, metodologias ativas e com reflexões sobre o ensino de História.
Palavras-chave: história; ensino; cultura; Instagram.
ABSTRACT
This article investigates Instagram as a space for teaching and learning historiographical content, taking as its object of analysis the profile @fabriciopereiraa, dedicated to disseminating the history of São Luís/MA in contemporary times. The aim is to understand how historical content produced and circulated on social media can be used as pedagogical resources by teachers or other mediators in History education. The research adopts a qualitative and exploratory approach and is grounded in the understanding of digital culture as a set of social practices mediated by digital technologies that reshape the ways knowledge is produced, shared, and learned.The study dialogues with the concepts of didactic transposition, pedagogical mediation, writing of the self, active methodologies, and reflections on History teaching.
Keywords: history; teaching; culture; Instagram.
1. INTRODUÇÃO
Ainda nos primeiros anos de minha vida, por volta dos seis ou sete anos de idade, desenvolvi uma curiosidade constante em compreender fenômenos que, naquele momento, não eram evidentes para mim. Perguntas como por que o meu bairro se chamava “Parque Jair”, por que meu pai tinha horários específicos para pescar ou qual era o significado dos monumentos que eu observava espalhados pela cidade, despertavam meu interesse.
Meus pais, que possuem apenas o ensino fundamental completo, respondiam às minhas dúvidas a partir de um conhecimento construído pela experiência cotidiana. Lembro-me de perguntar ao meu pai por que ele pescava sempre no mesmo horário, e ele respondia: “É a hora que Iemanjá permite”. Essas respostas, embora carregadas de saberes populares e cosmologias próprias, não alcançavam questionamentos que demandavam outros tipos de explicação, saberes científicos que, por muito tempo, permaneceram restritos ao ambiente universitário.
Também fui criado, por um período, por minha avó paterna, que, com o ensino básico, me transmitiu outros conhecimentos importantes, como o uso de chás medicinais (de boldo, casca de laranja, entre outros) e relatos sobre a formação do bairro Liberdade, de onde ela veio. No entanto, perguntas como “Por que o bairro se chama Liberdade?” igualmente permaneciam sem resposta, pois ultrapassavam os limites do conhecimento que ela e meus pais podiam compartilhar.
Com o avanço no ensino básico, alguns desses questionamentos começaram a ser respondidos, mas muitos outros surgiram: Por que minha cidade possui tantos monumentos históricos? Por que meu pai não sabia que os horários de pesca também se relacionam com a maré e o tempo? Durante o ensino médio, especialmente em 2014, percebi uma inquietação crescente: por que determinadas informações chegavam até mim, mas não às pessoas ao meu redor? O que explicava essa diferença de acesso ao conhecimento? Naquele momento, eu ainda não sabia como transformar essa inquietação em ação, mas ela já se anunciava de forma clara.
Ao ingressar na universidade em 2020, no curso de Licenciatura em História, essas questões retornaram com ainda mais força. Perguntas como por que saberes que poderiam ser populares não chegam à maior parte da população? Por que meus pais, minha avó e tantas outras pessoas não têm acesso ao conhecimento sobre a própria história? e como transformar o que aprendo na universidade em algo acessível para minha família e para tantas pessoas que nunca terão a oportunidade de estar nesse espaço? passaram a orientar meu percurso formativo e acadêmico.
Essas perguntas se transformaram nas questões norteadoras deste artigo, que podem ser assim sintetizadas: Como o conhecimento histórico produzido na universidade pode ser traduzido para linguagens acessíveis ao público geral? De que forma a cultura digital, especialmente o Instagram, pode funcionar como espaço de ensino, aprendizagem e circulação de saberes históricos? Que possibilidades pedagógicas e comunicacionais surgem quando o historiador assume o papel de mediador entre o conhecimento acadêmico e os públicos geral?
Nesse percurso, compreendo minha trajetória como um exercício de “escrita de si”, no sentido dado por Foucault (1992) como uma prática reflexiva que transforma a experiência pessoal em construção de saber. Para Foucault, esse exercício pode ser entendido da seguinte forma:
A escrita como exercício pessoal praticado por si e para si é uma arte da verdade contrastiva; ou, mais precisamente, uma maneira reflectida de combinar a autoridade tradicional da coisa já dita com a singularidade da verdade que nela se afirma e a particularidade das circunstâncias que determinam o seu uso (Foucault,1992, p.133).
Ou seja, a presente pesquisa, portanto, nasce não apenas de um interesse teórico, mas de uma vivência concreta: a busca por traduzir o conhecimento histórico, tradicionalmente restrito aos espaços acadêmicos, em algo acessível, próximo e significativo.
Partindo dessa inquietação, passei a compreender meu próprio Instagram como um espaço potente de mediação entre o conhecimento histórico produzido na universidade e o público em geral. O perfil, denominado @fabriciopereiraa, foi criado inicialmente com fins pessoais, mas, ao longo do tempo, passou a assumir uma intencionalidade educativa e historiográfica, voltada à divulgação da história da cidade de São Luís/MA.
Por meio de vídeos curtos, narrativas visuais e textos acessíveis, o perfil busca simplificar conteúdos acadêmicos para linguagens compreensíveis a públicos que, assim como minha família e minha comunidade, historicamente estiveram distantes dos espaços formais de produção do conhecimento. Dessa forma, o Instagram deixa de ser apenas uma rede social de entretenimento e, passa a funcionar também, como um espaço de circulação de saberes históricos.
Essa pesquisa, que tem abordagem qualitativa e caráter exploratório e se inicia no ano vigente de 2025, se insere na linha do Ensino de História na cultura digital entendendo o Instagram como uma ferramenta de circulação e ensino do saber histórico. Para sustentar essa abordagem, apoio-me na ideia de escrita de si de Foucault (1992), que permite compreender minha trajetória como parte do processo investigativo. A discussão sobre o percurso histórico do Ensino de História é fundamentada em Bittencourt (2008), enquanto Baratto e Crespo (2013) contribuem para compreender a cultura digital como construção social. Já as metodologias ativas, baseadas em autoras como Bárbara e Maura, orientam a compreensão do uso pedagógico das redes sociais como práticas participativas e formativas. Dessa forma, esses referenciais articulam-se para sustentar o uso do Instagram como ferramenta de divulgação histórica, ensino e formação crítica na cultura digital.
2. DO ENSINO TRADICIONAL ÀS NOVAS FORMAS DE APRENDER E ENSINAR
Desde o século XIX, a disciplina de história passou de uma narrativa centrada nos “grandes heróis” e na moral patriótica para perspectivas mais plurais e críticas, influenciadas pela Nova História e pelas mudanças trazidas pela redemocratização do país. Leis como a LDB nº LDB nº 9.394/1996 e, mais tarde, as leis 10.639/03 e 11.645/08, ampliaram o compromisso do ensino com a diversidade cultural e com a valorização de outras vozes históricas (BRASIL, 1996).
Esse processo de transformações no ensino de História, marcado por mudanças teóricas, metodológicas e socioculturais ao longo do tempo, permitiu que a disciplina se aproximasse cada vez mais das realidades cotidianas e das novas formas de comunicação. Como aponta Bittencourt (2008), a escola precisa dialogar com a “cultura das mídias”, reconhecendo que as novas gerações aprendem por meio de linguagens audiovisuais e interativas.
[…] O segundo pressuposto é que os atuais métodos de ensino têm de se articular às novas tecnologias para que a escola possa se identificar com as novas gerações, pertencentes à “cultura das mídias”. As transformações tecnológicas têm afetado todas as formas de comunicação e introduzido novos referenciais para a produção do conhecimento, e tal constatação interfere em qualquer proposta de mudança dos métodos de ensino (Bittencourt, 2008, p.107).
É nesse contexto de transformações tecnológicas que as redes sociais se apresentam como espaços pedagógicos potenciais, caracterizados pela circulação rápida de ideias, imagens e informações, possibilitando que alunos e o público em geral aprendam de forma mais interativa. A experimentação de novas metodologias e de recursos educacionais na contemporaneidade tem se tornado uma demanda recorrente na educação, especialmente em razão das mudanças nas formas de ensinar e aprender.
Para alguns autores do campo do ensino, como Camargo e Daros (2018), inovar é uma das ações que podem auxiliar no processo de transformação da educação docente. Para que essas modernizações metodológicas possam ser concretizadas é necessário que sejam buscados novas formas de ensino e de acordo com Oliveira e Silva (2022, p.14).
Assim, a inovação pode se apresentar de diferentes formas: seja pela adoção de novos artefatos e mídias que impactam nas relações entre sujeitos ou entre o sujeito e o objeto de conhecimento; seja relacionada aos métodos e técnicas de ensino incorporados na prática docente (Oliveira; Silva, 2022, p.14).
Portanto, a trajetória pessoal e o movimento histórico do ensino de História se encontram: ambos revelam o esforço de romper barreiras e democratizar o saber. Se antes o conhecimento ficava restrito aos livros e salas de aula, hoje ele pode ser acessado na palma da mão, por meio de vídeos curtos e narrativas digitais que despertam a curiosidade e o senso crítico por diferentes meios como celulares, tablets, tvs e etc.
Essa transição marca o ponto de chegada desta pesquisa: compreender o Instagram tanto como espaço de ensino quanto como ferramenta pedagógica de aprendizagem no que se refere à circulação e ao trabalho com conteúdos historiográficos na cultura digital, na qual a História passa a assumir novas formas de ser ensinada, narrada, vivenciada e compartilhada.
Nesse sentido, o trabalho desenvolvido por meio do meu perfil @fabricioperee, voltado para a divulgação da história de São Luís/MA, evidencia como as redes sociais podem operar como extensões dos espaços educativos formais. O processo ocorre a partir da transposição didática dos conteúdos históricos (Chevallard, 1991), em que narrativas acadêmicas são reelaboradas para formatos mais acessíveis, como vídeos curtos, microtextos e recortes visuais, adequados à lógica algorítmica de plataformas como Instagram.
Ao produzir esses materiais, mobilizo o princípio da mediação pedagógica, entendida como a maneira pela qual o professor apresenta e conduz os conteúdos, auxiliando o estudante na compreensão das informações e na sua transformação em conhecimento aplicado à própria realidade (Cruz, 2018).
Com isso, Cruz (2018) afirma que nesse processo, discursos e materiais historiográficos produzidos no âmbito acadêmico são adaptados para linguagens contemporâneas, valorizando a recepção do público e as formas pelas quais os sujeitos constroem sentido a partir dessas narrativas.
Além disso, o uso de rede social Instagram como espaço educativo dialoga com as reflexões de Valente (2018) sobre metodologias ativas.
As metodologias ativas constituem alternativas pedagógicas que colocam o foco do processo de ensino e de aprendizagem no aprendiz, envolvendo-o na aprendizagem por descoberta, investigação ou resolução de problemas. Essas metodologias contrastam com a abordagem pedagógica do ensino tradicional centrado no professor, que é quem transmite a informação aos alunos (Valente, 2018, p. 27).
A Rede social Instagram se encaixa perfeitamente como uma um tipo de metodologia ativa, pois como foi pontuado, uma vez que os seguidores assim como alunos, não apenas consomem conteúdo, mas também interagem, comentam, reinterpretam e compartilham, contribuindo para a circulação e reconstrução da história que está sendo exposta, eles não estão apenas consumindo o conteúdo, mas também participando ativamente para a construção dele.
Assim, a partir da combinação entre transposição didática, mediação cultural e metodologias ativas, o perfil promove a aproximação da História com o cotidiano do público. Esses aspectos podem ser observados por meio dos indicadores de engajamento, como número de visualizações, curtidas e comentários de cada publicação, conforme evidenciado na Figura 1, expostas no perfil @fabriciopereiraa, em 2025, apresentada a seguir.
Figura 1 –Captura de tela da publicação do perfil @fabriciopereiraa com indicadores de engajamento (visualizações, curtidas e comentários).

Fonte: Próprio do autor (2026).
A expressiva interação obtida com as postagens, que somam mais de 200 mil visualizações, mais de 20 mil curtidas e centenas de comentários, compartilhamentos e salvamentos, evidencia o interesse do público por narrativas históricas relacionadas à cidade de São Luís. Esse alto engajamento revela que conteúdos curtos, produzidos em linguagem acessível e vinculados a lugares reconhecíveis do cotidiano ludovicense, possuem grande potencial de mobilizar a curiosidade e o senso de pertencimento dos seguidores.
2.1 O Instagram como espaço de e ensino e aprendizagem de conteúdos historiográficos na cultura digital
O desenvolvimento da cultura digital, que ganha força entre as décadas de 1980 e 1990 com a expansão dos computadores pessoais e das redes digitais, inaugura novos ambientes socioculturais e transforma profundamente as formas de produzir, acessar e compartilhar informações (Kenski, 2018). Essa transformação não ocorreu apenas no campo tecnológico: ela modificou a maneira como aprendemos, nos comunicamos e nos relacionamos com o conhecimento. É dentro desse cenário, marcado pela cultura digital, que minha trajetória como estudante de História e produtor de conteúdos passa a ganhar sentido.
Partindo do entendimento de que toda cultura resulta das ações humanas e do contexto histórico em que se produz, torna-se possível compreender a cultura digital como um desdobramento direto dessas transformações sociais. É nessa perspectiva que Baratto e Crespo (2013, p. 17) afirmam que:
[…] se a cultura é um reflexo da ação humana, a cultura se constitui de ação do homem, na sociedade; criando formas, objetos, dando vida e significação a tudo o que o cerca, é essa ação humana que permitiu o surgimento do computador e, por conseguinte, o surgimento da cultura digital (Baratto; Crespo, 2013, p. 17).
Vivenciando a expansão dessa nova cultura, muitos espaços educacionais têm incorporado, nas últimas décadas, práticas que dialogam com as linguagens e dinâmicas da era digital. Corrêa e Boll (2019) observam que:
Os novos meios de informação e comunicação em conexões e em rede possibilitam outras formas de criar e compartilhar conhecimento. A velocidade com que a informação alcança os quatro cantos do planeta acaba por mantêla próxima ao espaço escolar e, se não chegar via instituição, ela chega por meio dos estudantes (Corrêa; Boll, 2019, p.11).
Nesse cenário, as redes sociais, como o Instagram, se encaixam perfeitamente nesses novos meios de comunicação, pois possibilitam formas diversas de criação, compartilhamento e circulação. O Instagram opera dentro da dinâmica dos microconteúdos, que facilitam a transposição didática de temas complexos para formatos mais acessíveis (Chevallard, 1991).
Segundo Garcia (2017), o Instagram, pertencente à Meta, foi criado em 2010 pelo norte-americano Kevin Systrom e pelo brasileiro Mike Krieger, com o objetivo inicial de gerar compartilhamento de fotos, vídeos e informações visuais entre diferentes círculos sociais. Em 2025, porém, o Instagram já não se limita à função de compartilhamento fotográfico. De acordo com pesquisa online de 2025, cujo autor é Carvalho (2025), “Hoje, o Instagram não só dita tendências culturais, como também influencia comportamento político, consumo e até a forma como nos relacionamos com a verdade”. Assim, a plataforma consolida-se como uma comunidade visual capaz de influenciar o consumo cotidiano de um grande público na contemporaneidade.
Além disso, o Instagram tornou-se uma ferramenta essencial tanto para usuários que buscam entretenimento quanto para aqueles que desejam aprender de forma acessível. Segundo o Jornal Carvalho (2025), os brasileiros elegeram o Instagram como principal fonte de informação nos dias atuais. O relatório Desigualdades Informativas: Entendendo os caminhos informativos dos brasileiros na internet 2024, produzido pelo Aláfia Lab, confirma essa tendência:
Segundo o relatório Desigualdades Informativas: Entendendo os caminhos informativos dos brasileiros na internet 2024, produzido pelo Aláfia Lab, o Instagram liderou como a rede social mais utilizada pelos brasileiros para se informar em 2024. A pesquisa revelou que 68,8% dos participantes indicaram a plataforma como preferida na busca por informações. YouTube e Facebook aparecem na sequência, com 55,9% e 43,7%, respectivamente” (Carvalho, 2025, Online).
Sendo assim, a rede social supracitada pode ser vista como um instrumento pedagógico, com potencial para integrar práticas de ensino dentro e fora das salas de aula, especialmente porque, segundo a pesquisa mencionada, ela faz parte da rotina informativa de 68,8% da população brasileira.
O trabalho desenvolvido no meu perfil @fabriciopereiraa, iniciado em 26 de abril de 2023, nasce da necessidade de repensar os espaços onde a História é produzida, ensinada e compartilhada. No ambiente digital, a narrativa histórica ultrapassa os muros acadêmicos e assume novas formas de circulação e recepção. Isso pode ser observado em diversos conteúdos que são feitos em quadros interativos e didáticos publicados no perfil, como o quadro “São Luís e a História apagada pela hegemonia europeia” publicados na página no dia 28 de agosto de 2024.
O quadro surgiu de uma parceria com o Sesc e integrou o projeto Territórios de Memória e Patrimônio, com a proposta de apresentar narrativas históricas pouco visibilizadas pelos discursos tradicionais. A figura a seguir exemplifica os materiais produzidos nesse trabalho (Figura 2).
Figura 2 – Conteúdos digitais do quadro “São Luís e a História apagada pela hegemonia europeia”, publicados no perfil do Instagram @fabriciopereiraa, desenvolvidos no âmbito do projeto Territórios de Memória e Patrimônio, em parceria com o Sesc.

Fonte: Próprio do autor (2026).
Para a produção desse quadro foram utilizados documentos acadêmicos, entre eles o trabalho de conclusão de curso de Gonçalves (2022), intitulado “RESISTÊNCIA EM TERRITÓRIOS OPRESSORES: Um estudo sobre a Maranhense Maria José Camargo Aragão (1935-1950)”. A incorporação desse tipo de material evidencia como o conteúdo produzido no perfil se ancora em pesquisas acadêmicas e as transforma em narrativas acessíveis, possibilitando que esse conhecimento ultrapasse os limites da universidade e alcance públicos mais amplos.
A didática empregada que envolve vídeo, legenda, imagens e comentários transforma cada publicação em uma oportunidade de aprendizado, encontro e troca. Trata-se de um processo educativo que se estrutura na prática do ensino de história, se realiza por meio de metodologias ativas, utiliza a transposição didática e encontra, na cultura digital, um terreno fértil para sua atuação.
Ao propor um diálogo sobre a história de São Luís nas redes sociais, a experiência construída no Instagram rompe com a lógica tradicional do ensino de História. O público, antes espectador, torna-se coautor das narrativas, opinando, comentando, enviando relatos, memórias e registros que reconstroem coletivamente a história da cidade. Essa troca constante faz parte de uma aprendizagem ativa dentro da rede social.
Dessa forma, o Instagram configura-se como um espaço fértil para a produção e difusão de conteúdos históricos originados na academia, mas voltados a públicos que geralmente não têm acesso direto a esses espaços. Além disso, os vídeos produzidos podem ser utilizados como ferramentas de ensino e aprendizagem por professores em instituições de diferentes níveis, especialmente porque, segundo Bittencourt (2008), jovens, adolescentes e crianças vivem imersos em um “oceano de imagens”. Para a autora, é fundamental que educadores deixem de lado preconceitos em relação às novas configurações culturais emergentes e busquem compreender as maneiras mais efetivas de dialogar com elas.
Como afirma Bittencourt (2008, p. 108):
As mudanças culturais provocadas pelos meios audiovisuais e pelos computadores são inevitáveis, pois geram sujeitos com novas habilidades e diferentes capacidades de entender o mundo. Para analisar essas mudanças, há a exigência de novas interpretações aos atuais meios de comunicação que ultrapassem aquelas que os consideram degenerescência ou involução. Interpretações permeadas de preconceitos não possibilitam um entendimento das configurações culturais emergentes e, portanto, dificultam todo diálogo com nossos alunos. Por outro lado, e este é o mais importante desafio para os professores, não se pode também ser ingênuo em relação a essa nova cultura (Bittencourt, 2008, p. 108).
Essa dinâmica de “tirar” o conteúdo historiográfico do ambiente acadêmico, por meio do processo de transposição didática (Chevallard, 1991), e transformá-lo em um material acessível dentro de uma rede social, permite que um público que normalmente não teria acesso a esses conteúdos possa se aproximar da produção de conhecimento histórico. No caso deste trabalho, o perfil @fabricioperee configura-se justamente como esse espaço de mediação pedagógica (Cruz, 2018): nele, o seguidor não apenas consome o conteúdo, mas também participa de sua produção simbólica. Quando alguém comenta sobre um casarão mostrado no vídeo, complementa com um fato vivido ou compartilha lembranças do bairro, está exercendo o papel ativo que as metodologias ativas propõem no processo educativo. Assim, o processo pedagógico não se encerra na edição do vídeo, mas se estende até sua recepção, circulação e repercussão na rede social, evidenciando a construção coletiva do conhecimento histórico no ambiente digital.
3. PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA
A pesquisa desenvolvida adota abordagem qualitativa e caráter exploratório, uma vez que busca compreender processos, significados e relações em profundidade, sem a pretensão de generalizar seus resultados para todo o conjunto de perfis e práticas presentes nas redes sociais. Em consonância com Gil (2019), compreende-se que, na pesquisa qualitativa, o vínculo entre o pesquisador e o mundo investigado é indissociável, e que a interpretação não se realiza à margem das experiências humanas. Assim, a subjetividade não é tratada como um desvio metodológico, mas como dimensão constitutiva da produção de conhecimento, sobretudo quando se investiga fenômenos emergentes na cultura digital, nos quais o sujeito que pesquisa é, simultaneamente, usuário, produtor e leitor das práticas analisadas.
O percurso metodológico desta pesquisa também foi pensado como um caminho possível de construção e uso pedagógico dos conteúdos do Instagram, podendo servir de referência para professores interessados em utilizar perfis já existentes como recursos didáticos em suas práticas de ensino. Tal percurso fundamenta-se, principalmente, nas contribuições de Chevallard (1991), no que se refere ao conceito de transposição didática, e de Valente (2018), acerca das metodologias ativas.
A seguir, descrevem-se as etapas que compõem esse percurso metodológico, explicitando o percurso para a construção dos conteúdos do Instagram quanto suas possibilidades de aplicação no ensino de História como ferramenta pedagógica:
a) Levantamento e seleção das fontes históricas
O primeiro passo da pesquisa consistiu no levantamento de materiais bibliográficos, documentais, orais e iconográficos relacionados à história de São Luís/MA e às temáticas abordadas nos vídeos publicados no perfil @fabriciopereiraa. Para isso, foram consultados livros, artigos acadêmicos, monografias, acervos digitais e registros orais coletados com moradores da cidade. Cada tema investigado resultou na organização de uma pasta de pesquisa, contendo referências bibliográficas, fichamentos, imagens históricas e trechos selecionados para posterior transposição didática;
b) Entrevistas e coleta de memórias locais
Em alguns vídeos, a pesquisa foi complementada com entrevistas semiestruturadas realizadas com moradores, trabalhadores culturais, pesquisadores locais e agentes comunitários. As entrevistas, feitas em áudio ou vídeo, buscaram registrar memórias, interpretações e sentidos atribuídos aos lugares, práticas e acontecimentos. O processo foi conduzido com consentimento e autorização dos participantes;
c) Transposição didática dos conteúdos históricos
A partir das leituras e entrevistas, foi realizada a transposição didática (Chevallard, 1991), transformando conteúdos acadêmicos em narrativas acessíveis ao público geral. Essa etapa envolve três operações centrais: simplificação sem perda de rigor, adequação da linguagem para o formato audiovisual curto, seleção de um “núcleo explicativo” por vídeo (uma pergunta ou problema central).
Essa operação fundamenta a passagem do saber acadêmico para o saber escolar e popular, no caso desta pesquisa, para o saber digital, ajustado às particularidades do Instagram;
d) Roteirização e produção audiovisual
Cada conteúdo gerado passa por uma etapa de roteirização curta (30–60 segundos), composta por: gancho inicial, explicação histórica principal, curiosidade ou exemplo ilustrativo, conclusão e convite à interação.
Os vídeos são gravados com smartphone, microfone e iluminação natural. A edição é feita em softwares acessíveis como CapCut, priorizando clareza, legibilidade das legendas e ritmo dinâmico;
e) Publicação, engajamento e interação
Após a edição, os vídeos são publicados no perfil @fabriciopereiraa em datas e horários definidos com base na observação das métricas da plataforma. A etapa de engajamento envolve: respostas aos comentários, registro das interações, coleta de relatos e memórias enviadas pelos seguidores, identificação de correções ou complementações feitas pelo público.
Essa dinâmica dialógica insere o público como agente ativo no processo de produção e reconstrução do conhecimento, alinhando-se às metodologias ativas (Valente, 2018);
f) Aplicação didática e elaboração de planos de aula
Os vídeos produzidos foram posteriormente utilizados como recursos pedagógicos em oficinas e aulas ministradas para adolescentes e jovens. A metodologia adotada segue uma sequência didática organizada em três momentos: exibição do vídeo como elemento disparador, discussão guiada sobre o conteúdo histórico apresentado e realização de uma atividade prática relacionada ao tema abordado. As aulas tiveram duração média de 50 minutos e utilizaram os vídeos como ponto de partida para o processo de aprendizagem dos estudantes. Os participantes desta etapa da pesquisa eram alunos das instituições SESI e do C.E. Prof. Fernando Perdigão, o que possibilitou observar a aplicação dos conteúdos digitais em diferentes contextos educacionais formais;
g) Análise dos dados
A análise dos resultados ocorre de forma qualitativa a partir de métricas da plataforma (alcance, compartilhamentos, curtidas, salvamentos); análise dos comentários, respostas dos alunos nas oficinas, memórias compartilhadas e reelaborações produzidas pelo público.
Essa combinação permite observar tanto o alcance quanto a recepção e os sentidos atribuídos aos conteúdos, identificando como o Instagram pode operar como espaço educativo e de circulação do saber histórico.
Sendo assim, as etapas metodológicas desenvolvidas nesta pesquisa evidenciam que o Instagram pode ser utilizado também como recurso pedagógico de apoio ao ensino de História, especialmente no trabalho docente. O levantamento de fontes, a transposição didática assim com outras etapas evidencia que os vídeos possibilitam ao professor uma nova forma de ensinar.
Utilizados como disparadores de discussão e reflexão, esses materiais favorecem a participação ativa dos alunos. Assim, o Instagram não substitui a sala de aula formal, mas amplia as possibilidades de ensino e aprendizagem histórica na cultura digital.
4. HISTÓRIAS PUBLICADAS: ANÁLISE DAS POSTAGENS
O perfil @fabricioperee foi criado em 25 de julho de 2018, inicialmente com a finalidade de registrar momentos pessoais e cotidianos. Somente em 26 de abril de 2023 ocorre a primeira postagem de caráter educativo, com um vídeo sobre a Balaiada. Até então, a página reunia pouco mais de 2.500 seguidores, majoritariamente formados por amigos, familiares e conhecidos. Entretanto, a partir da consolidação dos quadros históricos e da regularidade das postagens educativas, o perfil passou a atingir um público cada vez mais amplo, alcançando atualmente mais de 47 mil seguidores.
O crescimento do perfil está diretamente relacionado ao modo como ele constrói o conteúdo e difunde uma narrativa histórica contra-hegemônica da cidade de São Luís. Os conteúdos valorizam personagens, espaços e experiências frequentemente silenciadas ou marginalizadas pela historiografia tradicional, em especial trajetórias negras, indígenas, femininas e populares. Ao reposicionar esses sujeitos como protagonistas da história ludovicense e fazer com que o público interaja com o assunto abordado, percebe-se a criação de novas narrativas e formas de ensino e aprendizagem na contemporaneidade.
A postagem a ser analisada, foi publicada no dia 28 de outubro de 2025 no quadro “Upaon-açu e uma história que talvez te assuste”.
A figura a seguir refere-se ao quadro supracitado que foi criado no dia 15 de outubro de 2025, porém só veio a ser publicado no dia 28; é um quadro especial que foi feito em alusão ao halloween (Figura 3).
Figura 3 – Quadro educativo sobre espaços de memória.

Fonte: Próprio do autor (2026).
Essa postagem exemplifica a forma como o perfil @fabriciopereiraa articula narrativa histórica, cultura digital e participação do público para construir conhecimento histórico de forma colaborativa. O vídeo, que apresenta uma história marcada pelo imaginário popular ludovicense e pela memória de trabalhadores do Arquivo Público do Maranhão, demonstra o uso consciente da metodologia de transposição didática (Chevallard, 1991), ao transformar um estudo acadêmico, a pesquisa de Gonçalves (2019), em conteúdo acessível, dinâmico e visualmente atraente para o público das redes sociais.
Ao apresentar a história da vigilante Joana e os relatos de fenômenos ocorridos no casarão que hoje é o Arquivo Público, mas no passado, segundo Gonçalves (2019), foi uma casa de prostituição muito famosa conhecida como “Pensão Chicó” o vídeo combina oralidade, elementos visuais, performance e referências documentais. Logo na legenda, a referência bibliográfica é explicitada: “Entre visagens e casarões: considerações sobre formas de vulnerabilidade a partir dos vigilantes do Centro Histórico de São Luís” (Gonçalves, 2019).
A repercussão nos comentários evidencia como o público se reconhece no que se é apresentado e assim participa ativamente da construção do conteúdo. Comentários como o da própria autora da pesquisa “Que esse vídeo reverbere o que as visagens contam sobre nossa cidade e seus vestígios históricos” revelam um diálogo direto entre produção acadêmica e circulação pública do conhecimento.
Outros comentários reforçam a dimensão colaborativa (Figura 4).
Figura 4 – Comentários da postagem, reunindo falas da autora da pesquisa e de seguidores sobre suas experiências.

Fonte: Próprio do autor (2026).
Os seguidores não apenas consomem o conteúdo, mas o expandem ao complementar a história, citar obras literárias, mencionar pesquisas relacionadas e compartilhar vivências pessoais, como memórias de ruas, casarões e histórias ouvidas na infância. Essa participação ativa evidencia que o público integra o processo de construção do conhecimento apresentado. Como aponta Valente (2018), isso caracteriza o uso de metodologias ativas, nas quais o sujeito aprende ao interagir, problematizar e contribuir.
Além disso, a postagem mobiliza elementos característicos da cultura digital discutida por Baratto e Crespo (2013), ao utilizar recursos audiovisuais curtos, legendas, estética própria dos Reels e interações em tempo real. O elevado engajamento, com milhares de visualizações, curtidas e mais de cinquenta comentários, revela como os algoritmos potencializam a circulação dessas narrativas históricas e ampliam seu alcance. Para Bittencourt (2008), é fundamental que educadores compreendam essas transformações, pois a cultura digital redefine as formas de produzir e consumir conhecimento, tornando redes como o Instagram ambientes potentes para práticas educativas.
A análise dessa postagem demonstra que o quadro “Upaon-açu e uma história que talvez te assuste” assim como outros do Instagram @fabricioperee cumpre um duplo papel. De um lado, democratiza o acesso às pesquisas acadêmicas, aproximando temas e referências que antes circulavam apenas dentro da universidade. De outro, ativa processos educativos colaborativos, nos quais a história de São Luís se transforma em um patrimônio compartilhado, vivo e constantemente atualizado no contexto da cultura digital.
Desse modo, o Instagram configura-se, na contemporaneidade, como uma plataforma digital com grande potencial pedagógico para o ensino de História. Conforme destaca Bittencourt (2008), as propostas curriculares mais recentes têm buscado deslocar o foco exclusivo do ensino para a relação entre ensino e aprendizagem, reconhecendo o estudante como sujeito ativo do processo educativo. Nesse sentido, o uso de plataformas digitais na cultura digital, ainda que possa parecer destoante de modelos mais conservadores de ensino, torna-se viável e necessário no contexto atual. Como aponta a autora, não é possível ignorar as transformações tecnológicas que atravessam a sociedade e impactam diretamente as formas de produzir, acessar e aprender conhecimentos históricos.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa teve como objetivo compreender a partir da leitura de autores como Baratto e Crespo (2013), Kenski (2018), Chevallard (1991), Chartier (1990), Foucault (1992), Valente (2018) e Bittencourt (2008), bem como outros, de que maneira conteúdos históricos produzidos e circulados no Instagram podem ser utilizados como recursos pedagógicos no ensino de História, a partir da análise do perfil @fabriciopereiraa, de autoria do próprio pesquisador.
Ao longo do trabalho, buscou-se articular a trajetória pessoal de produção de conteúdos historiográficos em redes sociais com referenciais teóricos do campo do Ensino de História e da cultura digital, investigando possibilidades, limites e impactos dessa prática.
No que diz respeito aos resultados positivos, a pesquisa evidenciou que o Instagram pode operar como um espaço significativo de mediação do conhecimento histórico quando utilizado de forma planejada e fundamentada teoricamente. A aplicação dos princípios da transposição didática (Chevallard, 1991) mostrou-se eficaz na adaptação de conteúdos acadêmicos para linguagens acessíveis, como vídeos curtos, microtextos e narrativas visuais, sem a perda do rigor histórico. Além disso, a mobilização da mediação cultural (Chartier, 1990) permitiu aproximar a História da vida cotidiana do público, favorecendo o engajamento, a identificação e a construção de sentidos sobre o passado, especialmente no que se refere à memória e à história da cidade de São Luís/MA.
Outro aspecto relevante foi a possibilidade de compreender o Instagram como um ambiente que dialoga com as metodologias ativas (Valente, 2018), uma vez que os seguidores não se limitam a consumir os conteúdos, mas interagem, comentam, compartilham e, em alguns casos, complementam ou tensionam as narrativas apresentadas. Esse movimento reforça a ideia de aprendizagem como processo participativo, no qual o público assume papel ativo na circulação e reconstrução do conhecimento histórico.
Entretanto, a pesquisa também revelou limites e desafios. Um dos principais diz respeito ao tempo de cada vídeo. Para ter uma boa entrega os materiais precisam ter seu tempo reduzido para no máximo um minuto e meio, o que impõe restrições à profundidade das abordagens, exigindo escolhas constantes sobre o que destacar e o que silenciar. Tendo em vista isso entende-se que a plataforma, é para ser usada como ferramenta complementar às práticas educativas “formais”, e não como substituto da escola ou da sala de aula.
Como perspectiva de continuidade, a pesquisa aponta para a ampliação do estudo em diferentes direções. Pretende-se aprofundar a análise da recepção dos conteúdos por parte dos estudantes, investigando de forma mais sistemática os impactos do uso de redes sociais na aprendizagem histórica. Além disso, abre-se a possibilidade de desenvolver materiais formativos voltados a professores, com orientações práticas sobre como utilizar perfis existentes do Instagram como apoio às aulas de História, fortalecendo a mediação didática na cultura digital. Por fim, a continuidade da produção de conteúdos no perfil analisado permite acompanhar, ao longo do tempo, as transformações das práticas educativas em redes sociais e suas contribuições para a democratização do conhecimento histórico.
REFERÊNCIAS
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1Graduando em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA – e-mail: fabricioribeiropereiraa@gmail.com
2Orientadora. Docente do curso de História na Universidade Federal do Maranhão – UFMA – e-mail: fernanda.galve@ufma.com
