REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512101317
Brenda Viegas Soares1
Miguel Santana Braga2
Julia Beatriz Mendes Gomes3
Karen Larissa Pinto4
Loreny Emanoelle Ribeiro5
Debora Cristina Ribeiro6
Hellen Sâmya Oliveira Costa7
Orientador: José Carlito Ferreira8
Resumo
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae e permanece um importante problema de saúde pública no Brasil, país que figura entre os que apresentam maior número de casos novos no cenário mundial. Este estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico da hanseníase no estado do Maranhão, entre os anos de 2020 e 2024. Trata-se de uma pesquisa descritiva, transversal e quantitativa, utilizando dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram avaliadas as variáveis raça/cor, sexo, faixa etária, forma clínica e escolaridade. Os resultados evidenciaram predominância de casos em indivíduos pardos, seguidos de pretos, além de maior ocorrência de formas clínicas multibacilares, sobretudo a virchowiana e a dimorfa. Observou-se também maior proporção de casos no sexo masculino (62,35%), achado epidemiológico relevante para o entendimento do perfil da doença. A maioria das notificações ocorreu em pessoas com ensino fundamental incompleto, o que reforça a influência de fatores socioeconômicos e educacionais na manutenção da cadeia de transmissão. Os achados mostram que a hanseníase permanece endêmica no Maranhão, associada a baixa escolaridade e vulnerabilidade social. Torna-se essencial o fortalecimento das ações de vigilância, educação em saúde e diagnóstico precoce, visando reduzir a transmissão e minimizar as incapacidades físicas decorrentes da doença.
Palavras-chave: Hanseníase; Epidemiologia; Maranhão; Desigualdades em Saúde; Fatores Socioeconômicos.
Abstract/Resumen/Résumé
Leprosy is a chronic infectious disease caused by Mycobacterium leprae and remains a serious public health issue in Brazil. This study aimed to analyze the epidemiological profile of leprosy in the municipality of Pinheiro, Maranhão, between 2020 and 2024. It is a descriptive, cross-sectional, and quantitative study using secondary data from the Notifiable Diseases Information System (SINAN/DATASUS). The variables analyzed were race/color, clinical form, and education level. Results showed a predominance of cases among individuals classified as brown, followed by black, and a higher prevalence of multibacillary forms, mainly virchowian and dimorph. Most cases occurred among people with incomplete elementary education, highlighting the influence of socioeconomic and educational factors. It is concluded that leprosy remains endemic in the region, closely related to low education levels and social vulnerability. Strengthening surveillance, health education, and early diagnosis actions is essential to reduce disease transmission and prevent physical disabilities.
Keywords/Palabra clave/Mot-clé: Leprosy; Epidemiology; Maranhão; Public health; Social inequa.
INTRODUÇÃO
A hanseníase é uma enfermidade infecciosa de evolução lenta, provocada pelo Mycobacterium leprae. Mesmo sendo uma das doenças mais antigas conhecidas pela humanidade, ainda representa um importante problema de saúde pública em diversas regiões do mundo (Reibel et al., 2019). A patologia manifesta-se, principalmente, por meio de alterações cutâneas e comprometimento dos nervos periféricos, podendo ocasionar incapacidades físicas permanentes quando não identificada e tratada de forma precoce (Bahia et al., 2024). Apesar dos avanços obtidos no campo diagnóstico e terapêutico, a hanseníase ainda enfrenta obstáculos significativos no Brasil, especialmente relacionados ao estigma, à desinformação e à baixa detecção. Esses fatores contribuem para a manutenção da transmissão e dificultam a recuperação e o retorno pleno das pessoas acometidas, que frequentemente experimentam impactos psicossociais e limitações funcionais quando o diagnóstico é tardio (Brasil, 2021).
As manifestações da hanseníase podem variar conforme a forma da doença que o indivíduo possui. Os tipos de hanseníase são: tuberculoide, virchowiana, dimorfa e indeterminada. (Silva; Ornelas; Corrêa et al., 2021). De modo geral, a doença se caracteriza por alterações dermatoneurológicas, com presença de lesões de pele associadas a comprometimento sensitivo e neural. A gravidade das manifestações depende do tipo clínico apresentado, podendo evoluir para incapacidades físicas quando não tratada oportunamente. (Brito et al., 2015; Ribeiro; Silva; Oliveira, 2018).
De acordo com Barbosa et al. (2024), citando dados da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023), do total de 174.087 casos novos de hanseníase detectados em 182 países no ano de 2022, apenas três países Índia, Brasil e Indonésia concentraram 78,1% dessas notificações. O Brasil permanece como o segundo país do mundo com o maior número de casos novos registrados anualmente, ficando atrás apenas da Índia. Assim, a hanseníase é considerada uma enfermidade endêmica no país e configura um importante problema de saúde pública. O estado do Maranhão insere-se de forma expressiva no cenário epidemiológico da hanseníase no Brasil, apresentando uma taxa de prevalência de 3,76 casos por 10.000 habitantes e uma taxa de detecção de 51,19 casos por 100.000 habitantes.
Esses indicadores colocam o estado na terceira posição nacional em prevalência, inferior apenas aos estados de Mato Grosso e Tocantins, o que o caracteriza como uma área hiperendêmica para a doença. Em 2022, o Brasil registrou 14.962 novos casos de hanseníase, com destaque para a ocorrência da doença em menores de 15 anos. No cenário nacional, o Maranhão apresentou o maior quantitativo de notificações, totalizando 1.860 casos, o que reforça a expressiva relevância epidemiológica do estado. (Brasil, 2022).
Assim, este estudo tem como objetivo analisar o perfil epidemiológico da hanseníase no estado do Maranhão no período de 2020 a 2024. Considerando que se trata de um importante problema de saúde pública e que ainda existem lacunas referentes ao comportamento da doença no período pós-pandemia, a pesquisa se torna relevante por evidenciar as características e a distribuição da doença, com ênfase nos determinantes sociais como raça e escolaridade que influenciam a manutenção da endemia. Além disso, o estudo contribui para o desenvolvimento e a aplicação de estratégias voltadas ao enfrentamento da doença, bem como para subsidiar a criação de novos critérios de intervenção conforme o perfil identificado a partir dos dados obtidos no DATASUS.
METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como descritivo e transversal, com abordagem quantitativa, fundamentado na análise de dados secundários. O delineamento descritivo-transversal foi selecionado por ser adequado à investigação do perfil epidemiológico dos casos de hanseníase notificados em um período específico, permitindo descrever a distribuição e as características da doença na população estudada sem a necessidade de acompanhamento longitudinal dos indivíduos.
O estudo foi conduzido com base nos registros de todo o estado do Maranhão, uma das 27 unidades federativas do Brasil. O estado está localizado na Região Nordeste e é historicamente reconhecido como uma área de elevada endemicidade para a hanseníase, apresentando taxas de detecção que o mantém como prioridade para as ações de vigilância e controle da doença no cenário nacional.
A população de estudo foi constituída por todos os casos novos de hanseníase notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e residentes no estado do Maranhão, no período de 2020- 2024.
Os dados foram obtidos a partir da plataforma DataSUS (DATASUS, 2025), o portal de dados abertos do Sistema Único de Saúde (SUS), que disponibiliza publicamente as bases de dados do SINAN. A extração dos microdados foi realizada considerando o agravo “Hanseníase” e o período de notificação de 2020 a 2024 para o estado do Maranhão. As variáveis de interesse selecionadas para o estudo foram: Sexo: classificado como masculino ou feminino. Faixa Etária: agrupada em onze categorias (1- 4 anos, 5- 9 anos, 10- 14 anos, 15- 19 anos, 20- 29 anos, 30- 39 anos, 40- 49 anos, 50- 59 anos, 60- 69 anos, 70- 79 anos e ≥80 anos). Raça/Cor: autodeclarada: branca, preta, parda, amarela e indígena. Escolaridade: categorizada em níveis de instrução (analfabeto, ensino fundamental incompleto/completo, ensino médio incompleto/completo e ensino superior incompleto/completo). Forma Clínica: em indeterminada, tuberculoide, dimorfa e virchowiana.
Após a extração, os dados foram organizados e tabulados em planilhas eletrônicas no software Microsoft Excel. Foi realizada uma análise descritiva das variáveis, com o cálculo de frequências absolutas (n). Os resultados foram consolidados e apresentados em gráficos para facilitar a visualização e a interpretação do perfil epidemiológico dos casos.
Entre as limitações deste estudo, destacam-se a dependência da qualidade dos dados secundários, que podem conter subnotificações, erros de preenchimento ou inconsistências. Por fim, o delineamento transversal não permite estabelecer relações de causalidade nem analisar a evolução clínica individual dos casos ao longo do tempo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos casos de hanseníase notificados no Maranhão entre 2020 e 2024 revelou um total de 13.959 registros no período. Verificou-se que, nos anos de 2020 e 2021 coincidentes com o auge da pandemia de COVID-19 o número de casos notificados manteve-se relativamente reduzido, em torno de 2.400 casos anuais. Esse comportamento pode refletir a diminuição das atividades de vigilância epidemiológica, a redução da procura espontânea pelos serviços de saúde e a interrupção de ações rotineiras de detecção. A partir de 2022, observou-se um incremento progressivo nas notificações, com pico em 2023 (3.085 casos), seguido de discreta redução em 2024. Esse padrão ascendente no período pós-pandêmico sugere a retomada das ações de vigilância e da busca ativa de casos anteriormente subdiagnosticados, não necessariamente representando um aumento real da incidência. (Brasil et al., 2025).
Gráfico 1: Distribuição de Casos Novos de Hanseníase por Ano (2020-2024) no Maranhão.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), 2025.
Hanseníase por sexo
O perfil epidemiológico dos casos revela características predominantes na população maranhense. A distribuição por sexo, apresentada no Gráfico 2, demonstrou uma clara predominância no sexo masculino, que representou 62,35% (8.703 casos) do total, enquanto o sexo feminino correspondeu a 37,65% (5.256 casos). A predominância de casos no sexo masculino é um padrão epidemiológico clássico da hanseníase no Brasil, associada à maior exposição social e ocupacional e à menor busca por serviços de saúde na fase inicial da doença (Sczmanski et al., 2025).
No cenário específico do Maranhão, essa predominância pode ser compreendida à luz das atividades econômicas predominantes no estado, que concentram majoritariamente mão de obra masculina. Ocupações como agricultura familiar e de subsistência, pesca artesanal, extração vegetal e madeireira, bem como a construção civil, apresentam condições laborais de maior vulnerabilidade, com forte mobilidade geográfica, longas jornadas, exposição prolongada a ambientes insalubres e acesso limitado aos serviços de saúde. Esses fatores dificultam o diagnóstico precoce e a adesão ao acompanhamento clínico, contribuindo para o maior risco de adoecimento entre os homens maranhenses (Leal, 2023).
De acordo com Dias et al. (2017), homens e mulheres vivenciam de maneiras distintas o processo saúde/doença, apresentando respostas diferentes às alterações causadas por esse fenômeno. No caso da hanseníase, o impacto ocorre de forma desigual entre os sexos, refletindo as desigualdades existentes nos contextos sociais. Essas diferenças estão relacionadas a fatores como estilo de vida, costumes, hábitos e comportamentos, o que influencia diretamente os padrões de adoecimento e o surgimento de incapacidades, conforme apontam Souza et al. (2018).
Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (2010) ressalta a importância de coletar e analisar dados de hanseníase de acordo com o sexo, a fim de compreender a magnitude dessas disparidades e conscientizar os profissionais de saúde sobre a necessidade de promover igualdade de gênero nos programas de saúde, garantindo 36assim maior equidade no acesso aos serviços e contribuindo para a redução dessas diferenças.
Gráfico 2: Distribuição dos casos de hanseníase segundo sexo no estado do Maranhão, 2020-2024.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), 2025. casos).
Hanseníase por raça
A análise da distribuição dos casos de hanseníase segundo raça/cor evidencia um predomínio expressivo entre pessoas pardas, seguidas pelos grupos pretos e brancos, conforme demonstrado no gráfico deste estudo. Esse padrão está alinhado com o perfil demográfico brasileiro, onde a população parda representa o maior contingente racial do país, correspondendo a 45,3% da população, enquanto 43,5% se autodeclaram brancas, segundo dados do Censo de 2022 (Brasil, 2022). Assim, a estrutura racial da população contribui para explicar parte da maior frequência de casos em pardos.
No entanto, apenas a distribuição populacional não explica sozinha a magnitude da diferença observada no gráfico. A literatura demonstra que a população parda apresenta maiores índices de hanseníase devido à associação com baixo nível de escolaridade, precariedade habitacional, ausência de serviços básicos e condições socioeconômicas desfavoráveis, fatores que ampliam a vulnerabilidade ao adoecimento e dificultam o diagnóstico oportuno (Damasceno et al., 2023). Esses determinantes sociais atuam diretamente na manutenção da transmissão e na concentração dos casos nesse grupo.
O padrão elevado de hanseníase entre pardos e pretos reforça, ainda, o impacto das desigualdades raciais históricas. A análise demonstra que essas populações carregam um legado de discriminação e estigma, sendo mais expostas a contextos de pobreza, invisibilidade estatística e acesso limitado aos serviços de saúde. Tais fatores estruturais resultam em riscos desiguais de adoecimento, contribuindo para a persistência das iniquidades em saúde (Romero; Maia; Muzy, 2019). A distribuição apresentada no gráfico, portanto, não apenas descreve diferenças numéricas, mas reflete um fenômeno profundamente influenciado por desigualdades sociais e raciais.
Outro aspecto relevante é a influência da idade na gravidade da hanseníase. Embora o gráfico trate exclusivamente da variável raça/cor, estudos apontam que adultos entre 40 e 79 anos possuem maior probabilidade de desenvolver sequelas devido ao declínio fisiológico e imunológico e ao aumento das comorbidades (Ferreira et al., 2019). Esse fator, quando associado a condições sociais precárias mais frequentes em grupos racialmente marginalizados, intensifica ainda mais o impacto da doença nessas populações.
Dessa forma, a distribuição apresentada no gráfico confirma que a hanseníase é um agravo fortemente determinado por fatores sociais, econômicos, raciais e demográficos. O predomínio entre pessoas pardas e pretas evidencia que o enfrentamento da hanseníase exige não apenas ações biomédicas, mas políticas de saúde pública que considerem equidade racial, combate às desigualdades sociais, fortalecimento da atenção primária e vigilância ativa em territórios vulneráveis.
Gráfico 3: Distribuição dos casos de hanseníase segundo raça/cor no estado do Maranhão, 2020-2024.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), 2025.
Hanseníase por forma clínica.
1. Hanseníase Indeterminada (HI).
As manifestações da hanseníase indeterminada surgem após um período de incubação que geralmente varia entre dois e cinco anos. Caracteriza-se pelo aparecimento de manchas hipocrômicas com alteração de sensibilidade, podendo também ocorrer apenas áreas de hipoestesia cutânea. As lesões são pouco numerosas e podem aparecer em qualquer região do corpo. Frequentemente, observa-se apenas comprometimento da sensibilidade térmica. Nessa forma clínica, não há envolvimento de troncos nervosos, apenas de pequenos ramos nervosos cutâneos. A HI é considerada a forma inicial da hanseníase e pode evoluir, ao longo de meses ou anos, tanto para a cura espontânea quanto para outras formas clínicas da doença (Araújo, 2003).
2. Hanseníase tuberculóide (HT).
A forma tuberculóide caracteriza-se pela presença de lesões bem delimitadas, em pequeno número, geralmente anestésicas e com distribuição assimétrica. Essas lesões podem se apresentar em placas ou em formato anular, com bordas elevadas e áreas eritematosas ou hipocrômicas. Seu crescimento centrífugo e lento leva, frequentemente, à atrofia central e descamação nas bordas. São descritas ainda a forma infantil e a forma neural pura. A primeira ocorre em crianças em contato com portadores de formas bacilíferas e costuma localizar-se na face, apresentando-se como nódulos, placas ou lesões semelhantes às sarcoídicas. Já na forma neural pura, não há lesões cutâneas, mas ocorre espessamento e dano precoce dos troncos nervosos, principalmente dos nervos sensitivo-motores. A baciloscopia é negativa. A HT, junto com a HI, compõe o grupo das formas paucibacilares da hanseníase. Embora possa haver cura espontânea, o tratamento é indicado para reduzir o tempo de evolução e prevenir danos neurais (Araújo, 2003).
3. Hanseníase virchowiana (HV).
A hanseníase virchowiana representa a forma multibacilar e está associada à baixa resistência imunológica ao Mycobacterium leprae. Pode evoluir a partir da forma indeterminada ou manifestar-se diretamente como HV. Trata-se de uma forma crônica e de evolução lenta, caracterizada por infiltração difusa da pele, mucosas das vias aéreas superiores, olhos, testículos, nervos e, em casos mais avançados, linfonodos, fígado e baço (Araújo, 2003).
Na pele, são observadas pápulas, nódulos e máculas, predominando a infiltração em face e membros. A pele adquire aspecto brilhante, seco, com tonalidade acobreada e rarefação dos pelos. A perda de cílios e supercílios é denominada madarose. A infiltração facial e dos pavilhões auriculares, associada à madarose e à preservação dos cabelos, confere o aspecto denominado fácies leoninas (Araújo, 2003).
O comprometimento nervoso é progressivo, atingindo tanto os pequenos ramos quanto os troncos nervosos, resultando em déficits funcionais e sequelas tardias. Entre os sinais precoces, destacam-se obstrução nasal, rinorreia serossanguinolenta e edema de membros inferiores. A baciloscopia é fortemente positiva, tornando a HV um importante foco infeccioso entre os casos não tratados (Silva, 2015).
4. Hanseníase dimorfo (HD)
O grupo dimorfo, de natureza multibacilar, caracteriza-se pela presença de múltiplas lesões cutâneas, geralmente em forma de manchas eritematosas ou hipocrômicas, com bordas elevadas e irregulares. Essas lesões podem ser isoladas ou múltiplas, apresentando semelhança com as do tipo tuberculoide, embora suas bordas externas sejam menos definidas (Mesquita et al., 2024). Observa-se perda parcial ou total da sensibilidade local, acompanhada de comprometimento das funções autonômicas, como a sudorese. Essa forma clínica é considerada a mais comum da hanseníase, manifestando-se, em geral, após um longo período de incubação que pode ultrapassar uma década devido à lenta multiplicação do Mycobacterium leprae. A baciloscopia realizada na borda infiltrada das lesões (diferentemente dos lóbulos das orelhas e cotovelos) tende a apresentar resultado positivo quando o material é adequadamente coletado e corado. No entanto, quando o diagnóstico clínico é preciso, a necessidade de exames laboratoriais pode ser reduzida (Propécio et al., 2021).
A análise dos casos de hanseníase por forma clínica, no período de 2020 a 2024, evidenciou variações expressivas entre as categorias avaliadas. Observou-se que a forma virchowiana apresentou o maior número de casos em todos os anos analisados, destacando-se como a mais prevalente. As formas dimorfa e tuberculoide apresentaram frequências intermediárias, mantendo relativa estabilidade ao longo do período.
A forma indeterminada e os casos não classificados representaram uma proporção menor do total, demonstrando baixa incidência em comparação às demais categorias clínicas. O somatório total dos casos, representado pela barra final do gráfico, indica um acúmulo expressivo de registros, com tendência de aumento gradual ao longo dos anos analisados.
Esses achados sugerem a predominância das formas multibacilares (dimorfa e virchowiana) no perfil epidemiológico da hanseníase, reforçando a necessidade de estratégias voltadas para diagnóstico precoce e interrupção da cadeia de transmissão.
Gráfico 4: Distribuição dos casos de hanseníase segundo a forma clínica no estado do Maranhão, 2020-2024.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), 2025.
Hanseníase por escolaridade
O Gráfico 5 ilustra a distribuição por Escolaridade, onde a maior frequência de casos se concentrou em indivíduos com baixa escolaridade. A categoria 1ª a 4ª série incompleta do EF foi a mais expressiva, com 19,59% (2.734 casos). A soma das categorias de baixa escolaridade (Analfabeto, 1ª a 4ª série incompleta e 5ª a 8ª série incompleta) totaliza 45,75% dos casos. A alta proporção de casos em indivíduos de raça/cor Parda e Preta, somando mais de 84% dos casos, e a concentração em categorias de baixa escolaridade reforçam o caráter da hanseníase como uma doença fortemente associada a determinantes sociais da saúde.
A distribuição dos casos de hanseníase segundo a escolaridade, no período de 2020 a 2024, revelou maior concentração entre indivíduos com ensino fundamental incompleto (1ª a 4ª série e 5ª a 8ª série), seguidos pelos que possuem ensino médio completo. Verificou-se também número expressivo de registros entre os analfabetos e em casos em que a variável foi ignorada ou em branco, indicando possível limitação na coleta ou no preenchimento dos dados.
As categorias correspondentes ao ensino superior completo e incompleto apresentaram os menores números de casos, evidenciando uma tendência inversamente proporcional entre o nível de escolaridade e a ocorrência da hanseníase. O total de registros apresentou aumento gradativo ao longo dos anos, com destaque para o somatório final que demonstra a relevância da variável educacional como indicador social associado à doença.
Percebe-se que a variável escolaridade pode ser um fator de risco para a doença, pois é um indicador indireto das condições socioeconômicas e pode influenciar na adesão ao tratamento. Tendo em vista que o itinerário terapêutico dos pacientes infectados, tanto na rede pública quanto na privada, é marcado por um longo caminho, é crucial o papel dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) para o cumprimento das atividades de educação em saúde e detecção de casos suspeitos (Lanza et al., 2022).
Segundo Azevedo (2018) quanto menor o grau de escolaridade, maior a probabilidade de ocorrência e reativação da hanseníase. Visto que, essa classe mostra pouco conhecimento e dificuldade de compreensão das orientações referentes ao tratamento, prevenção e autocuidado relacionado ao diagnóstico e entendimento e princípio da doença. Condições sociais, vulnerabilidade a respeito da educação, a hanseníase está associada a situações precárias de higiene, pobreza e baixo nível socioeconômico.
Gráfico 5: Distribuição dos casos de hanseníase por escolaridade no estado do Maranhão, 2020 – 2024.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), 2025.
Hanseníase por faixa etária
O Gráfico 5, que apresenta a distribuição dos casos de hanseníase por faixa etária no estado do Maranhão entre os anos de 2020 e 2024, evidencia que as faixas de 30 a 39, 40 a 49 e 50 a 59 anos concentram o maior número de registros da doença, com variações entre 400 e 600 casos ao longo do período analisado. Essa predominância em adultos de meia-idade indica que a hanseníase afeta, principalmente, indivíduos em fase economicamente ativa, o que gera impactos sociais e produtivos relevantes.
Nas faixas etárias mais jovens, especialmente de 1 a 4, 5 a 9 e 10 a 14 anos, observa-se um número reduzido de notificações, embora a presença de casos nessa população seja um indicador epidemiológico importante de transmissão recente, uma vez que a infecção em menores de 15 anos reflete a continuidade da cadeia de contágio. Essa situação reforça a necessidade de intensificação das ações de vigilância e de diagnóstico precoce entre contatos domiciliares (Souza & Santos, 2025).
Já entre os idosos (70 anos ou mais), os números são menores, possivelmente em decorrência da menor exposição social, do diagnóstico tardio ou até mesmo da subnotificação nessa faixa etária. Ainda assim, a ocorrência de casos nesse grupo demanda atenção, pois o envelhecimento populacional pode agravar as incapacidades físicas decorrentes da doença.
Esses resultados estão em consonância com achados de outros estudos realizados no Nordeste, os quais também destacam o predomínio de casos nas faixas de 30 a 59 anos, refletindo a persistência da hanseníase como um problema de saúde pública. (Cavalcante et al., 2020). A presença de casos em menores de 15 anos, observada mesmo em proporção reduzida, confirma que o Maranhão ainda apresenta transmissão ativa, exigindo estratégias contínuas de controle e educação em saúde (Sousa et al., 2020).
Em síntese, o gráfico demonstra que, apesar de avanços no diagnóstico e tratamento, a hanseníase continua a afetar predominantemente adultos em idade produtiva, sem que haja eliminação completa da transmissão entre jovens. Portanto, o fortalecimento das ações de vigilância, o acompanhamento dos contatos e a ampliação do acesso aos serviços de saúde são medidas essenciais para reduzir o número de novos casos e evitar incapacidades físicas associadas à hanseníase.
Gráfico 5: Distribuição dos casos de hanseníase por faixa etária no estado do Maranhão, 2020 – 2024.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), 2025.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise epidemiológica da hanseníase no Maranhão, no período de 2020 a 2024, aponta para a persistência da doença, com predominância da forma virchowiana e maior incidência em indivíduos de raça parda e com baixo nível educacional. Estes achados ressaltam a necessidade de estratégias direcionadas para o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e a interrupção da cadeia de transmissão.
Políticas públicas que considerem os determinantes sociais, como escolaridade e cor/raça, são essenciais para o controle efetivo da hanseníase e para a promoção da equidade em saúde. Além disso, a capacitação continuada dos profissionais de saúde e o fortalecimento dos sistemas de informação são fundamentais para a monitorização e a eficiência das ações de controle.
Enfatiza-se a urgência de investimento em educação em saúde destinada às populações vulneráveis, visando aumentar a adesão ao tratamento e reduzir os prejuízos decorrentes da doença, contribuindo assim para a eliminação da hanseníase como problema de saúde pública no Maranhão.
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1Graduando em Enfermagem 4º período na FACSUR. Brenda.enf30@gmail.com
2Graduando em Enfermagem 4º período na FACSUR. miguelsb690@gmail.com
3Graduando em Enfermagem 4º período na FACSUR. jullyam019@gmail.com
4Graduando em Enfermagem 4º período na FACSUR. karenlara2022@icloud.com
5Graduando em Enfermagem 4º período na FACSUR. lorenyemanoelle@gmail.com
6Graduando em Enfermagem 4º período na FACSUR. deboracrismar@gmail.com
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8Professor na faculdade Supremo Redentor FACSUR
