REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512030936
Ruan Carlos dos Santos Sousa1
Gláucia Nascimento da Silva2
Andreza Corrêa de Souza3
Orientador: Gabrielle Sales de Medeiros4
RESUMO
A febre de Oropouche, causada pelo vírus Oropouche (OROV), tem emergido como um importante desafio de saúde pública nas Américas devido ao aumento expressivo no número de casos e à expansão contínua de sua área de circulação. Nas últimas décadas, o vírus, antes restrito a regiões específicas da Amazônia, passou a ser identificado em novos estados e países, demonstrando sua capacidade de dispersão e adaptação a diferentes ambientes. Esse avanço é potencializado por fatores como urbanização acelerada, desmatamento, alterações climáticas e pela ampla distribuição do vetor Culicoides paraensis, responsável pela transmissão da doença em humanos.
O crescente número de notificações evidencia a necessidade de maior atenção epidemiológica, já que os surtos tendem a ocorrer de forma abrupta, com rápida disseminação entre populações vulneráveis. Apesar de apresentar baixa letalidade, a febre de Oropouche provoca intenso impacto na qualidade de vida dos indivíduos infectados, devido a sintomas como febre alta, cefaleia intensa, mialgia, fotofobia e, em alguns casos, recorrência dos sinais clínicos dias após a melhora inicial. Isso torna a doença relevante não apenas do ponto de vista epidemiológico, mas também socioeconômico.
Diante desse cenário, torna-se fundamental aprimorar os sistemas de vigilância, ampliar estratégias de diagnóstico precoce e fortalecer ações de monitoramento vetorial. Além disso, há necessidade de investimento em pesquisas que permitam compreender melhor a dinâmica de transmissão do OROV, seus reservatórios, vetores alternativos e possíveis mudanças no comportamento epidemiológico. A combinação desses esforços é essencial para minimizar a propagação do vírus e preparar os sistemas de saúde para respostas rápidas e eficazes frente a novos surtos.
Palavras-chave: Febre oropouche, Orov, Arbovírus, Orthobunyavirus Oropouche, Doença transmitida por vetores.
1 INTRODUÇÃO
A febre Oropouche, provocada pelo vírus Oropouche (OROV), tem se tornado uma preocupação significativa de saúde pública nas Américas, devido ao crescimento expressivo no número de casos e à expansão de sua distribuição geográfica nos últimos anos. De acordo com informações recentes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), até o final de julho de 2024, foram reportados 8.078 casos confirmados em cinco países da região. Dentre esses, 7.284 ocorreram no Brasil, 356 na Bolívia, 74 na Colômbia, 74 em Cuba e 290 no Peru, resultando em duas mortes registradas no Brasil. O OROV, que antes era restrito à região amazônica, se espalhou para novas regiões, incluindo estados brasileiros fora da Amazônia e países como Bolívia e Cuba. Esse fenômeno é atribuído ao desmatamento, às alterações climáticas e à urbanização descontrolada (OMS, 2024).
O vírus Oropouche, pertencente à família Peribunyaviridae e ao gênero Orthobunyavirus, possui um genoma de RNA segmentado dividido em três segmentos: pequeno (S), médio (M) e grande (L). Essa configuração possibilita a ocorrência de eventos de rearranjo genético quando dois Orthobunyavirus relacionados co-infectam uma célula, o que pode resultar em progênies híbridas com características genômicas de ambas as cepas parentais. Esses rearranjos são considerados fatores significativos na diversidade viral, afetando diretamente a competência vetorial e a gravidade clínica da infecção (NUNES et al., 2019; ROMEU, 2025).
Estudos genômicos recentes ampliaram a compreensão sobre a evolução e dispersão do vírus Oropouche. Pesquisas conduzidas entre 2022 e 2024 revelaram que a Amazônia Ocidental brasileira vivenciou o maior surto confirmado laboratorialmente de OROV, com mais de 6.300 casos notificados nesse período (NAVECA et al., 2024). A análise de 382 genomas obtidos de amostras humanas provenientes dos estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima demonstrou a circulação de uma nova linhagem recombinante. Essa variante contém o segmento M de vírus identificados na Amazônia Oriental entre 2009 e 2018, e os segmentos L e S de vírus detectados no Peru, Colômbia e Equador entre 2008 e 2021. Acredita-se que essa linhagem tenha surgido no Amazonas entre 2010 e 2014 e se espalhado posteriormente por meio de eventos de dispersão de curto e longo alcance, indicando tanto a participação dos vetores quanto a mobilidade humana na propagação do vírus. Esses achados reforçam o papel da recombinação genética como um mecanismo determinante na adaptação e expansão geográfica do OROV, confirmando sua crescente complexidade evolutiva (NAVECA et al., 2024).
Na América do Sul, três variantes recombinantes relacionadas ao OROV já haviam sido previamente identificadas — os vírus Iquitos (IQTV), Madre de Dios (MDDV) e Perdões (PERDV) —, o que demonstra a complexidade evolutiva do agente causador (ROMEU, 2025). O vírus, identificado pela primeira vez em 1955 nas proximidades do rio Oropouche, em Trinidad, tem provocado uma série de surtos em países da América Central e do Sul. Desde sua descoberta, estima-se que mais de meio milhão de pessoas tenham sido infectadas (CDC, 2024; ROMEU, 2025).
A infecção pelo OROV normalmente resulta em quadro clínico com doença febril aguda autolimitada, apresentando sintomas como cefaleia, mialgia, artralgia, calafrios, náuseas, vômitos e fotofobia. No entanto, em casos menos comuns, podem surgir complicações mais sérias, como manifestações hemorrágicas, meningite e meningoencefalite (CDC, 2024; ROMEU, 2025). No ciclo urbano, o homem é considerado o principal hospedeiro vertebrado envolvido, sendo o vírus transmitido principalmente pelo Culicoides paraensis, conhecido popularmente como “maruim”. Este inseto, abundante em regiões tropicais e subtropicais com alta umidade e matéria orgânica, tem sido amplamente reconhecido como o vetor mais competente do OROV, embora estudos também tenham detectado RNA viral em Culex quinquefasciatus, sugerindo participação secundária desse mosquito na transmissão urbana (CARDOSO et al., 2017; ROMEU, 2025).
O Culicoides paraensis apresenta comportamento diurno, com maior atividade no crepúsculo, e suas larvas se desenvolvem em materiais orgânicos em decomposição, como cascas de frutos e troncos de bananeiras e coqueiros, o que favorece a proliferação do vetor durante períodos de intensa precipitação (PINHEIRO et al., 1981). Contudo, a baixa taxa de isolamento do OROV em amostras coletadas desse vetor durante epidemias permanece um ponto de debate na literatura, sugerindo a necessidade de mais estudos sobre sua competência vetorial e dinâmica de transmissão (ROMEU, 2025).
A dispersão atual do OROV tem se mostrado influenciada por fatores ecológicos e produtivos locais. Uma investigação genômica e epidemiológica de 2024 revelou que, fora da região amazônica, os casos foram quase quatro vezes mais frequentes em municípios de pequeno porte quando comparados a grandes centros urbanos (GRÄF et al., 2024). A correlação entre a ocorrência de casos e o cultivo de produtos agrícolas, especialmente banana e mandioca, foi estatisticamente significativa, sugerindo que o ambiente de produção agrícola favorece a presença do vetor. A análise filogeográfica também demonstrou múltiplas introduções virais da linhagem recombinante amazônica para outras regiões do Brasil entre janeiro e março de 2024, com as estimativas indicando que as introduções ocorreram de 50 a 100 dias antes da detecção dos surtos. Esse padrão indica que a transmissão do OROV tem se estabelecido em novos ecossistemas brasileiros, consolidando a infecção como uma arbovirose emergente de ampla dispersão territorial (GRÄF et al., 2024).
O diagnóstico da febre de Oropouche apresenta desafios significativos, principalmente pela semelhança clínica com outras arboviroses, como dengue, Zika e Chikungunya. O método diagnóstico de referência é a reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa em tempo real (RT-qPCR), que detecta o RNA viral durante a fase aguda da infecção, sendo o teste mais sensível e específico disponível (WEIDMANN et al., 2003; ROMEU, 2025; NAVECA et al., 2017). Estudos recentes demonstram que a RT-qPCR é capaz de detectar OROV em soro, plasma, urina, sangue total e líquido cefalorraquidiano (LCR), com resultados confiáveis até o 22º dia após o início dos sintomas. Em situações específicas, como suspeita de manifestações neurológicas, a análise de LCR pode ser fundamental para confirmar a infecção (ROMEU, 2025).
Avanços recentes também foram observados no campo do diagnóstico molecular. Um estudo descreveu um método de RT-qPCR multiplex em uma etapa capaz de detectar simultaneamente o vírus Oropouche, vírus Oropouche-like portadores do segmento S e o vírus Mayaro (NAVECA et al., 2017). Esse ensaio utiliza um plasmídeo quimérico contendo alvos específicos dos vírus e inclui o bacteriófago MS2 como controle interno, garantindo maior confiabilidade contra resultados falso-negativos. O método apresentou eficiência de amplificação superior a 98% e limite de detecção extremamente baixo, entre duas e vinte cópias por reação. Tais avanços representam um importante progresso no diagnóstico diferencial de arboviroses em regiões endêmicas, especialmente diante da semelhança clínica entre Oropouche, dengue, zika e chikungunya (NAVECA et al., 2017).
Para além dos métodos moleculares, o diagnóstico sorológico também desempenha papel complementar, sendo realizado por meio de ensaios ELISA IgM/IgG, imunofluorescência indireta e teste de neutralização por redução de placas (PRNT). Os anticorpos IgM geralmente tornam-se detectáveis por volta do quinto dia após o início dos sintomas, enquanto o aumento de quatro vezes nos títulos de IgG entre amostras pareadas confirma a infecção recente (ROMEU, 2025). Entretanto, o número limitado de kits comerciais e a necessidade de técnicas internas padronizadas restringem a aplicabilidade desses testes em larga escala, especialmente em países endêmicos (OMS, 2024; MDPI, 2025).
Ainda não há antivirais específicos nem vacinas aprovadas para o tratamento da febre de Oropouche. Assim, o manejo clínico baseia-se em medidas de suporte, como repouso, hidratação e o uso de analgésicos e antipiréticos. É importante ressaltar que pacientes com suspeita de dengue devem evitar medicamentos contendo ácido acetilsalicílico ou anti-inflamatórios não esteroides, em virtude do risco aumentado de sangramentos (CDC, 2024). A inexistência de terapias específicas reforça a importância da vigilância epidemiológica e do diagnóstico precoce como principais estratégias para conter a disseminação da doença.
Do ponto de vista ecológico, a expansão do OROV está fortemente associada a mudanças ambientais provocadas pela ação humana, como desmatamento, mineração e urbanização descontrolada. Essas atividades ampliam o contato entre humanos, vetores e animais silvestres, favorecendo a manutenção e disseminação do vírus em novos territórios (PAHO, 2024; ROMEU, 2025). Estudos realizados no Pará identificaram anticorpos para Oropouche, Mayaro e dengue em humanos e animais silvestres, confirmando a circulação simultânea de múltiplos arbovírus em regiões amazônicas (PAHO, 2012).
A disseminação recente do OROV para biomas não amazônicos, como o da Mata Atlântica, reforça seu potencial de adaptação ecológica. No Espírito Santo, por exemplo, foram confirmados 339 casos de OROV entre março e junho de 2024, caracterizando a primeira transmissão sustentada da linhagem amazônica fora do seu habitat tradicional (DELATORRE et al., 2025). A análise espacial desses casos evidenciou concentração em municípios com clima tropical e intensa atividade agrícola, sobretudo com o cultivo de cacau, café robusta, coco e pimenta. As cepas identificadas pertencem à linhagem amazônica 2022–2024, o que sugere dispersão contínua a partir da Amazônia e adaptação às condições locais do Sudeste brasileiro. Esse processo demonstra a crescente plasticidade ecológica do OROV, destacando a urgência de estratégias de vigilância e controle direcionadas a novos ambientes de risco.
A identificação de novas linhagens recombinantes e o registro de surtos em regiões antes não endêmicas ressaltam o potencial pandêmico dessa arbovirose, cuja dinâmica de transmissão se mostra cada vez mais complexa. O OROV, que por décadas esteve restrito à Amazônia, agora encontra condições ecológicas favoráveis em diferentes biomas brasileiros, especialmente em áreas agrícolas com elevada umidade e matéria orgânica. Tal cenário reforça a necessidade de integração entre vigilância entomológica, genômica e epidemiológica, de modo a antecipar novas introduções e conter a expansão do vírus no continente americano (NAVECA et al., 2024; GRÄF et al., 2024; DELATORRE et al., 2025).
Diante desse contexto, torna-se evidente a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a febre de Oropouche em suas dimensões virológicas, epidemiológicas, clínicas e diagnósticas. O aumento de casos, a ausência de vacinas e terapias antivirais e a expansão geográfica da infecção reforçam o caráter emergente dessa arbovirose e a urgência de políticas públicas de prevenção, monitoramento e educação em saúde. Portanto, este estudo tem como objetivo contribuir para a consolidação do conhecimento científico sobre o OROV, destacando sua relevância crescente como ameaça à saúde pública nas Américas.
2 OBJETIVOS
2.1 Objetivo geral:
Avaliar os aspectos epidemiológicos de monitoramento e de diagnóstico da febre Oropouche na Amazônia, visando subsidiar estratégias de vigilância e prevenção.
2.2 Objetivos específicos:
- Descrever a distribuição geográfica e a ocorrência de surtos de febre Oropouche entre 2020 e 2025.
- Identificar os principais vetores envolvidos na transmissão do vírus Oropouche. Discutir os desafios e estratégias de prevenção no contexto da saúde pública.
- Apresentar os métodos laboratoriais utilizados para o diagnóstico da doença.
- Comparar os métodos de diagnóstico do arbovírus oropouche, focando em métodos padrão ouro, de acordo com a literatura
3 METODOLOGIA
A pesquisa será conduzida a partir de uma abordagem documental e analítica, com foco em revisões de literatura científica publicadas, análise de boletins epidemiológicos e notas técnicas emitidas por instituições oficiais de saúde (Ministério da Saúde, OPAS, OMS, Fundação de Vigilância em Saúde – FVS etc.).
- Seleção de trabalhos publicados: serão incluídos artigos originais, revisões sistemáticas e relatos de surto disponíveis em bases de dados como PubMed, SciELO, OMS e LILACS, referentes ao período de 2010 a 2025.
- Análise de boletins epidemiológicos: boletins oficiais de vigilância serão examinados para identificar padrões de incidência, surtos recentes e áreas de expansão da febre Oropouche.
- Extração e sistematização de dados: informações epidemiológicas (distribuição geográfica, número de casos, vetores envolvidos) e laboratoriais (métodos de diagnóstico relatados) serão organizadas em tabelas e gráficos comparativos.
- Discussão crítica: os achados serão interpretados à luz do contexto de saúde pública, destacando tendências recentes, lacunas do conhecimento e desafios para vigilância e prevenção.
Essa metodologia permite sistematizar evidências já disponíveis, garantindo uma visão abrangente da febre Oropouche sem necessidade de coleta direta de dados em campo.
4 RESULTADOS e DISCUSSÃO
Após a seleção dos materiais científicos, seguindo rigorosamente os critérios de inclusão e exclusão definidos na metodologia, foram identificados inicialmente mais de sete mil registros nas bases propostas. Após a triagem, remoção de duplicatas e exclusão de estudos que não atendiam aos recortes temporal, metodológico ou temático, apenas uma parcela reduzida dos trabalhos apresentou informações consistentes e diretamente relacionadas à epidemiologia, diagnóstico e vigilância da febre Oropouche. Assim, foram selecionados os estudos mais completos e recentes, que permitiram construir uma análise sólida sobre a doença no período avaliado.
Os artigos incluídos reforçam que a febre Oropouche se consolidou como uma arbovirose emergente no Brasil, com rápida expansão territorial e impacto significativo nas regiões amazônicas e, mais recentemente, em áreas fora do bioma original. A distribuição geográfica identificada nos estudos demonstra que, entre 2020 e 2025, o vírus deixou de ser um problema restrito ao Norte e passou a ser detectado no Nordeste, Sudeste e até mesmo em países vizinhos. Esse padrão de dispersão se mostra coerente com os fatores ambientais discutidos na literatura, como desmatamento, crescimento urbano desorganizado e mudanças climáticas que ampliam a área de ocorrência do vetor.
No que se refere aos vetores, os estudos selecionados confirmam que o Culicoides paraensis permanece como o principal transmissor em ambientes urbanos. Entretanto, pesquisas mais recentes mostram indícios de participação de outras espécies na transmissão, principalmente em áreas agrícolas, o que ajuda a explicar a presença crescente de surtos em cidades pequenas e em regiões de intensa produção de banana, mandioca e cacau. Esses achados dialogam diretamente com um dos objetivos específicos da pesquisa, destacando a necessidade de reforçar a vigilância entomológica em ambientes rurais e periurbanos, não apenas em capitais ou grandes centros.
Sobre o diagnóstico laboratorial, os trabalhos demonstram um avanço significativo nos métodos moleculares ao longo dos últimos anos. A RT-qPCR permanece como o método de maior precisão e é apontada universalmente como o padrão ouro para a detecção do OROV na fase aguda. No entanto, muitos estudos mostram que o diagnóstico ainda acontece de forma tardia em diferentes regiões do país, principalmente pelo fato de que os sintomas são facilmente confundidos com dengue, zika ou chikungunya. Como consequência, muitos pacientes não são testados no período ideal, o que prejudica a confirmação da doença e influência no acompanhamento epidemiológico.
Os mesmos estudos também relatam que os testes sorológicos, apesar de úteis como ferramentas complementares, ainda encontram barreiras técnicas, como baixa disponibilidade de kits comerciais validados e dificuldades de padronização. Assim, embora representem uma alternativa importante para casos que já passaram da fase aguda, seu uso permanece restrito, o que reforça a necessidade de ampliação de métodos diagnósticos acessíveis, especialmente em regiões remotas da Amazônia.
A comparação entre os métodos diagnósticos demonstrou que, embora existam novos protocolos em desenvolvimento, como ensaios multiplex capazes de diferenciar Oropouche de outras arboviroses, a aplicabilidade em larga escala ainda é um desafio. Os estudos apontam para a necessidade de investimentos em capacitação profissional, expansão de laboratórios de biologia molecular e melhoria logística, sobretudo para municípios pequenos, onde a maioria dos casos recentes foi registrada.
Do ponto de vista epidemiológico, os achados analisados evidenciam que a febre de Oropouche apresenta um comportamento semelhante ao observado em outras arboviroses emergentes no Brasil: avança rapidamente, concentra surtos em locais com vulnerabilidade social e carece de estratégias estruturadas de prevenção. Além disso, a ausência de antivirais específicos e de vacinas torna a vigilância epidemiológica e o diagnóstico precoce fundamentais para evitar a ampliação da transmissão.
Outro ponto recorrente nos estudos incluídos é a necessidade de políticas públicas voltadas para o monitoramento ambiental e o controle vetorial, principalmente em áreas de expansão agrícola. A relação entre atividades produtivas e a manutenção do vetor demonstra que a abordagem para controle da doença precisa ser integrada, envolvendo saúde, meio ambiente, infraestrutura e educação em saúde.
Por fim, a análise sistematizada permitiu cumprir integralmente os objetivos estabelecidos, oferecendo uma visão clara da distribuição da doença, dos vetores envolvidos, dos métodos diagnósticos disponíveis e dos desafios enfrentados pela saúde pública. Os resultados indicam que, assim como outras arboviroses emergentes, a febre Oropouche exige ações estruturadas e contínuas, evitando que a infecção se estabilize como uma ameaça permanente em novas regiões do país.
5. CONCLUSÃO
Embora o presente estudo tenha evidenciado avanços importantes na compreensão epidemiológica e diagnóstica da febre Oropouche, os resultados demonstram que ainda existem desafios significativos que limitam a efetividade das ações de vigilância e controle. A rápida expansão territorial do vírus, sua capacidade de adaptação a novos ambientes e a circulação de linhagens recombinantes reforçam a complexidade da dinâmica de transmissão, especialmente em regiões caracterizadas por intensa atividade agrícola, desmatamento e vulnerabilidade socioambiental. Mesmo com a disponibilidade de métodos laboratoriais altamente sensíveis, como a RT-qPCR, as dificuldades de acesso a diagnóstico oportuno permanecem evidentes, sobretudo em municípios pequenos e áreas remotas da Amazônia, onde a maior parte dos casos recentes foi registrada.
Além disso, a semelhança clínica entre Oropouche, dengue, Zika e Chikungunya contribui para o subdiagnóstico e para a notificação tardia, comprometendo o monitoramento epidemiológico e a adoção de respostas rápidas. Os testes sorológicos, embora úteis como ferramentas complementares, ainda apresentam limitações estruturais, como escassez de kits padronizados e pouca disponibilidade em larga escala. Esses fatores indicam que, apesar dos progressos científicos e do aumento do número de estudos publicados, ainda persistem lacunas importantes na identificação precoce da doença e no acompanhamento da sua evolução.
Dessa forma, torna-se imprescindível fortalecer as ações integradas de vigilância entomológica, genômica e epidemiológica, além de ampliar o acesso a tecnologias diagnósticas nos municípios mais afetados. A ausência de antivirais específicos e de vacinas reforça a necessidade de estratégias contínuas que integrem saúde pública, meio ambiente e educação em saúde, especialmente nas regiões onde o vetor encontra maior facilidade para proliferação. Portanto, recomenda-se que estudos futuros aprofundem a investigação sobre a competência vetorial, os impactos das mudanças ambientais e as barreiras de acesso ao diagnóstico, visando subsidiar políticas públicas mais eficazes e capazes de conter a expansão da febre Oropouche no território brasileiro.
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1 Graduando do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. Email: ruaw9921@gmail.com. Orcid: 0009-0002-8453 3447
2 Graduanda do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. E Mail: glauciagnda@gmail.com. Orcid: 0009-0002-3279 4047
3 Graduanda do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. Email: correa.andreza@hotmail.com. Orcid: https: 0009 0004-9211-145X
4 Doutorado em Biologia da Interação Patógeno – Hospedeiro- PPGBIO INTERAÇÃO – Instituto Leônidas e Maria Deane – ILMD/Fiocruz Amazônia. Centro Universitário do Norte – UNINORTE. Orcid: 0009-0009-7321-0854
