A ODONTOLOGIA LEGAL NA IDENTIFICAÇÃO POST MORTEM DE VÍTIMAS DE DESASTRES NATURAIS OU ACIDENTES: UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511251723


Anna Laysa Costa Vasconcelos1
Orientador(a): Profa. Dra. Laysa da Cunha Barros Marinoni


RESUMO 

A odontologia legal, também denominada odontologia forense, aplica conhecimentos  técnico-científicos da odontologia em interface com o direito, sendo fundamental na  identificação humana em situações nas quais métodos tradicionais, como impressões  digitais e DNA, são inviáveis. O presente trabalho tem como objetivo analisar a eficácia  da odontologia forense na identificação post mortem de vítimas de desastres naturais  e acidentes fatais, destacando seus fundamentos técnicos, métodos aplicados,  desafios e avanços tecnológicos. Trata-se de uma revisão de literatura narrativa, de  natureza descritiva e abordagem qualitativa, com busca de artigos científicos, livros e  manuais técnicos nas bases SciELO, PubMed, LILACS e BVS, publicados entre 2001  e 2025. Os resultados indicam que a análise dentária é um dos métodos mais  precisos, rápidos e economicamente viáveis para identificação humana, devido à  singularidade e resistência dos tecidos dentários, que resistem à carbonização e à  decomposição. A discussão revelou que a ausência de registros clínicos padronizados  e a escassez de bancos de dados odontológicos digitais ainda representam limitações  importantes para a perícia forense. Conclui-se que a Odontologia Legal, além de seu  valor técnico-científico, possui dimensão ética e humanitária, ao assegurar dignidade  e reconhecimento às vítimas, destacando-se como uma ferramenta indispensável à  ciência forense contemporânea e à promoção da justiça social. 

Palavras-chave: Odontologia legal. Identificação humana. Desastres.

ABSTRACT 

Forensic odontology, also known as legal dentistry, applies technical and scientific  knowledge from dentistry in interface with the law, playing a crucial role in human  identification when traditional methods, such as fingerprints and DNA, are not viable.  This study aims to analyze the effectiveness of forensic odontology in the post-mortem  identification of victims of natural disasters and fatal accidents, highlighting its technical  foundations, applied methods, challenges, and technological advances. It is a narrative  literature review, descriptive in nature and qualitative in approach, based on the search  for scientific articles, books, and technical manuals in the SciELO, PubMed, LILACS,  and BVS databases, published between 2001 and 2025. The results indicate that  dental analysis is among the most accurate, rapid, and cost-effective methods of  human identification, due to the uniqueness and durability of dental tissues, which  resist carbonization and decomposition. The discussion revealed that the lack of standardized clinical records and the scarcity of digital dental databases still constitute  significant limitations for forensic practice. It is concluded that Forensic Odontology, in  addition to its technical-scientific value, has an ethical and humanitarian dimension by  ensuring dignity and recognition to victims, standing out as an indispensable tool for  contemporary forensic science and the promotion of social justice. 

Keywords: Forensic odontology. Human identification. Disasters.

1. INTRODUÇÃO 

A odontologia legal, também denominada odontologia forense, constitui  especialidade que aplica conhecimentos técnico-científicos da odontologia em  interface com o direito, exercendo função central na identificação humana post  mortem. Em cenários de desastres naturais ou acidentes de grande magnitude, a  determinação da identidade das vítimas representa desafio pericial, pois métodos  tradicionais de reconhecimento — como impressões digitais e análises de DNA — podem tornar-se inviáveis diante de carbonização, decomposição avançada ou  fragmentação corporal (Fernandes et al., 2023). Nesses casos, a análise da arcada  dentária sobressai pela elevada resistência físico-química dos tecidos dentários,  permitindo a individualização por meio de características singulares, como  restaurações, implantes, próteses e variações anatômicas (Silva e Lima, 2020). 

A identificação odontológica possui relevância social e jurídica, assegurando às  famílias o direito ao reconhecimento formal dos entes falecidos e possibilitando a  realização de ritos fúnebres adequados. Essa atuação do cirurgião-dentista forense  também contribui para a agilidade das políticas públicas de resposta a emergências,  garantindo celeridade e segurança jurídica nos procedimentos de registro e liberação  de corpos (Pretty, 2007). Exige, ainda, preparo técnico e equilíbrio emocional, pois  envolve contato com situações de grande impacto coletivo e com familiares em luto  (Mendes e Silva, 2018). 

Os avanços tecnológicos fortalecem essa especialidade. Ferramentas como  radiografias digitais, escaneamento intraoral, impressão tridimensional e inteligência  artificial aumentam a exatidão e a rapidez das análises, favorecendo a comparação  ante mortem e post mortem (Fernandes et al., 2023). Apesar desses progressos,  persistem desafios, como a ausência de bancos de dados odontológicos integrados e a falta de registros clínicos atualizados, fatores que podem comprometer a  confiabilidade das perícias. 

O objetivo geral deste estudo é analisar a eficácia da odontologia forense na  identificação post mortem de vítimas de desastres naturais e acidentes fatais. A partir  desse propósito central, o trabalho busca compreender em que medida os métodos  odontológicos contribuem para a precisão e agilidade da identificação humana,  considerando seus fundamentos técnicos, aplicações práticas e limitações ainda  presentes na área. Essa abordagem permite evidenciar a relevância da odontologia  legal no contexto da ciência forense contemporânea e sua importância para a garantia  de dignidade e reconhecimento às vítimas.

2. METODOLOGIA 

Trata-se de uma revisão de literatura narrativa, de natureza descritiva,  destinada a examinar a eficácia da odontologia forense na identificação post mortem de vítimas de desastres naturais e acidentes fatais. A investigação foi realizada entre  março e setembro de 2025 e abrangeu as etapas de definição do tema, delimitação  do problema, levantamento preliminar da literatura, seleção criteriosa dos materiais,  leitura exploratória, fichamento, análise crítica e síntese interpretativa. 

A busca bibliográfica foi realizada nas bases SciELO, PubMed, LILACS, Google  Acadêmico e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando descritores em português,  inglês e espanhol, isolados e combinados por meio de conectivos booleanos para  maior precisão dos resultados. Foram aplicadas as seguintes expressões:  (“odontologia legal” OR “odontologia forense” OR “legal dentistry” OR “forensic  odontology”) AND (“identificação humana” OR “human identification”) AND (“desastres  em massa” OR “mass disasters” OR “acidentes fatais” OR “fatal accidents”) NOT  (“traumatologia odontológica” OR “responsabilidade civil”). As combinações  permitiram refinar a busca e eliminar publicações que não se relacionavam  diretamente com o objeto de estudo. Foram incluídas publicações em português,  inglês ou espanhol, constituídas por artigos científicos, livros, revisões sistemáticas  ou manuais técnicos que tratassem diretamente de metodologias de identificação  odontológica em desastres ou acidentes, publicadas entre 2015 e 2025. Excluíram-se  estudos sem relação direta com a identificação post mortem, aqueles baseados  apenas em opiniões sem fundamento empírico ou técnico e os que não estavam  disponíveis em texto completo.

3. REVISÃO DE LITERATURA 

3.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA E CONSOLIDAÇÃO DA ODONTOLOGIA LEGAL 

A odontologia legal, também conhecida como odontologia forense, é a  especialidade da odontologia que aplica seus conhecimentos técnico-científicos em  situações de interesse judicial e social, com destaque para a identificação humana, a  análise de lesões corporais, a avaliação de idade, a sexagem e a análise de marcas  de mordida (França, 2021; Silva e Lima, 2020). 

Desde a antiguidade, há registros da utilização de características dentárias  para reconhecimento de indivíduos. O filósofo grego Heródoto, em seus relatos  históricos, já mencionava a identificação de guerreiros por meio dos dentes. Na idade  média, relatos indicam que monges carbonizados foram reconhecidos por próteses  metálicas rudimentares. No entanto, a consolidação científica da odontologia forense  se deu apenas no século XIX, com o trabalho do cirurgião-dentista francês Oscar  Amoedo, considerado o “pai da odontologia legal” (França, 2021). 

Em 1897, Amoedo atuou na identificação das vítimas do incêndio do Bazar de  la Charité, em Paris, utilizando registros dentários ante e post mortem. Sua obra L’art  dentaire en médecine légale de 1898 é considerada o marco inicial da odontologia  forense moderna, estabelecendo princípios metodológicos e éticos para a atuação  pericial. A partir daí, o método odontológico passou a ser reconhecido como técnica  de alta confiabilidade na identificação de corpos em desastres e acidentes fatais (Silva e Lima, 2020). 

No Brasil, a odontologia legal começou a ganhar relevância no início do século  XX. Em 1930, a disciplina foi incluída nos currículos das escolas de odontologia, com  destaque para o professor Luiz Lustosa da Silva, pioneiro no ensino sistematizado da  área (Fernandes, Almeida e Tavares, 2023).

O reconhecimento oficial da especialidade ocorreu em 1964 e foi reafirmado  pela resolução nº 63/2005, que definiu as competências do cirurgião-dentista forense,  incluindo perícias de identificação humana, traumatologia odontológica, avaliação de  nexo causal e responsabilidade profissional (CFO, 2005). 

Atualmente, a odontologia legal é uma das 23 especialidades reconhecidas  pelo Conselho Federal de Odontologia e tem papel consolidado nas perícias criminais  e civis. Sua aplicação tornou-se indispensável em investigações policiais, processos  judiciais e na resposta a desastres de massa, reforçando o compromisso da  odontologia com a ciência e com os direitos humanos (Fernandes, Almeida e Tavares,  2023). 

3.2 PRINCÍPIOS CIENTÍFICOS E FUNDAMENTOS LEGAIS DA IDENTIFICAÇÃO  ODONTOLÓGICA 

A identificação humana é o processo destinado a estabelecer a individualidade  de um ser humano, vivo ou morto, com base em suas características físicas, biológicas  e artificiais. Na odontologia forense, esse processo se fundamenta na unicidade  dentária, segundo a qual cada indivíduo possui uma arcada dentária exclusiva,  resultante da combinação de fatores genéticos, ambientais e funcionais (Silva e Lima,  2020). 

Os dentes apresentam estrutura altamente resistente, composta por esmalte,  dentina e cemento, sendo o esmalte o tecido mais duro do corpo humano. Por isso,  os elementos dentários resistem à ação do fogo, da decomposição e da fragmentação,  preservando informações cruciais mesmo em contextos extremos, como incêndios e  explosões (Pretty, 2007; Sweet, 2010). 

O processo de identificação odontológica é realizado pela comparação entre  dados ante mortem e post mortem. Os registros ante mortem incluem prontuários  odontológicos, radiografias, modelos de gesso, fotografias intraorais e anotações clínicas. Já os dados post mortem são coletados a partir do exame odontolegal do  corpo ou de fragmentos dentários. A coincidência entre essas informações possibilita  o estabelecimento positivo da identidade (Silva, Lima e Souza, 2019). 

No Brasil, a atuação do cirurgião-dentista perito é respaldada pela Lei nº  5.081/1966, que regulamenta o exercício da odontologia e autoriza expressamente o  profissional a realizar perícias odontológicas (Brasil, 1966). O código de ética  odontológica reforça a obrigatoriedade da manutenção e guarda de prontuários e  radiografias por, no mínimo, vinte anos, reconhecendo o valor probatório desses  documentos (CFO, 2012). 

Além disso, existem protocolos padronizados para identificação odontológica  em desastres de massa, por meio do sistema Disaster Victim Identification, que  uniformiza fichas, terminologias e metodologias periciais em escala internacional.  Essa padronização permite a integração entre equipes de diferentes países e eleva a  confiabilidade das identificações em eventos de grande magnitude (INTERPOL,  2019). 

Dessa forma, a odontologia legal conjuga rigor científico e respaldo jurídico,  tornando-se instrumento essencial na administração da Justiça e na defesa da  dignidade humana (Silva, Lima e Souza, 2019). 

3.3 MÉTODOS E TÉCNICAS DE IDENTIFICAÇÃO POST MORTEM 

Os métodos utilizados na odontologia forense dividem-se em comparativos,  reconstrutivos e excludentes (França, 2021). Nos métodos comparativos, o perito  confronta os dados post mortem com os registros ante mortem do possível indivíduo.  A correspondência positiva entre dentes, restaurações, próteses, implantes, forma  radicular e características anatômicas permite confirmar a identidade. Esse método é considerado o mais seguro e econômico, sendo amplamente utilizado em desastres  (Silva e Lima, 2020). 

Nos métodos reconstrutivos, o perito utiliza características odontológicas para  estimar sexo, idade e ancestralidade da vítima, com base na morfologia dos dentes,  no desgaste oclusal e na cronologia eruptiva. Já os métodos excludentes são  aplicados quando as evidências demonstram que um corpo não corresponde a  determinado indivíduo (França, 2021). 

Entre as técnicas específicas destacam-se: radiografias periapicais e  panorâmicas que são fundamentais para observar forma radicular, tratamentos  endodônticos, restaurações e anomalias; a tomografia computadorizada de feixe  cônico que fornece reconstruções tridimensionais detalhadas da estrutura dentária e  óssea, permitindo comparações com radiografias ante mortem (Martins e Ramos,  2021). 

Ainda como técnicas específicas, temos: a rugoscopia palatina e queiloscopia que analisam os padrões das rugas do palato duro e dos sulcos labiais, estruturas  únicas e estáveis ao longo da vida (Santos, Moreira e Ferreira, 2020). Por fim, a  análise de DNA dentário, em casos de carbonização ou decomposição avançada,  extraído da polpa dentária e do cemento, oferecendo alternativa segura para  identificação (Sweet, 2010). 

O uso de softwares como o WinID e o DVI System padroniza e agiliza a  comparação de dados ante e post mortem, reduzindo o tempo necessário para  emissão de laudos (INTERPOL, 2019; Corte-real, Oliveira e Santos, 2022). 

Essas técnicas, quando aplicadas em conjunto, garantem muita precisão,  mesmo em contextos de difícil identificação (Martins e Ramos, 2021).

3.4 A ODONTOLOGIA FORENSE DE DESASTRES EM MASSA E OS DESAFIOS E  LIMITAÇÕES DA PRÁTICA PERICIAL 

A atuação da odontologia forense em desastres de massa é reconhecida  mundialmente por sua eficiência e baixo custo operacional. Nesses contextos, a  identificação por impressões digitais ou DNA é frequentemente inviável, restando os  dentes como principal elemento de individualização (Oliveira e Corte-real, 2017). 

A INTERPOL (2019) define quatro fases para a identificação de vítimas: (1)  recuperação dos corpos; (2) coleta de dados post mortem; (3) obtenção de  informações ante mortem; e (4) reconciliação. O cirurgião-dentista forense atua  principalmente nas fases de exame post mortem e reconciliação, realizando a análise  odontológica detalhada e o confronto dos dados (INTERPOL, 2019; França, 2021). 

Casos emblemáticos demonstram a relevância dessa atuação. No incêndio da  Boate Kiss, ocorrido na cidade de Santa Maria em 2013, as altas temperaturas  inviabilizaram o reconhecimento facial, sendo a análise dentária fundamental para a  identificação das vítimas (Ribeiro et al., 2014). Em desastres internacionais, como o  tsunami do Sudeste Asiático e o terremoto do Haiti, equipes de odontolegistas  atuaram com base nos protocolos da INTERPOL, obtendo resultados rápidos e  confiáveis (Pretty, 2007). 

Além da importância técnica, a odontologia forense desempenha papel ético e  humanitário, assegurando às famílias o direito ao reconhecimento dos entes falecidos  e colaborando com a regularização jurídica dos óbitos (Mendes e Silva, 2018). 

Apesar de sua relevância, a odontologia forense enfrenta desafios estruturais,  logísticos e emocionais. No Brasil, a ausência de bancos de dados odontológicos  integrados, a falta de padronização de prontuários clínicos e a carência de  profissionais especializados são fatores que comprometem a eficácia das perícias  (Fernandes, Almeida e Tavares, 2023).

Além disso, muitos consultórios odontológicos não mantêm registros  radiográficos atualizados, o que dificulta a obtenção de dados ante mortem. Segundo  Souza e Carvalho (2019), menos de 15% dos cirurgiões-dentistas brasileiros  digitalizam seus prontuários de forma completa, o que limita a colaboração com  investigações criminais. 

Outro ponto crítico é o impacto psicológico sobre os peritos que atuam em  tragédias. Estudos relatam altos índices de estresse, ansiedade e síndrome de  burnout entre profissionais expostos repetidamente a cenas de grande sofrimento  humano. A criação de programas de apoio emocional e capacitação humanizada é  essencial para mitigar esses efeitos (Mendes e Silva, 2018). 

A falta de investimento em infraestrutura laboratorial e em formação continuada  também se apresenta como entrave à consolidação da especialidade em todas as  regiões do país (França, 2021). 

3.5 AVANÇOS TECNOLÓGICOS, PERSPECTIVAS FUTURAS, CONTRIBUIÇÕES  ÉTICAS E HUMANITÁRIAS DA ODONTOLOGIA FORENSE 

Nos últimos anos, a odontologia forense tem experimentado expressivos  avanços tecnológicos. A introdução da Inteligência Artificial, da modelagem 3D e da  fotogrametria digital tem revolucionado os métodos de identificação humana  (Fernandes, Almeida e Tavares, 2023). 

Ferramentas de IA são capazes de reconhecer padrões em radiografias,  comparar estruturas dentárias e identificar restaurações com alto índice de precisão.  A tomografia computadorizada de feixe cônico, combinada à impressão 3D, possibilita  reconstruções craniofaciais detalhadas e contribui para reconstituições faciais em  investigações criminais (Martins e Ramos, 2021).

Em nível global, projetos como o Integrated Dental Data Network (IDDN) e o  Forensic Odontology Global Alliance buscam criar bancos de dados internacionais  interconectados, visando agilizar a identificação de vítimas em desastres  transnacionais (Who, 2022). No Brasil, o manual de perícias odontolegais recomenda  a digitalização dos registros clínicos e a criação de centros regionais de referência  odontolegal (Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2020). 

Essas inovações não substituem o julgamento técnico e ético do cirurgião dentista, mas o complementam, tornando o processo de identificação mais ágil,  preciso e humanizado (Mendes e Silva, 2018). 

A odontologia legal não se limita à técnica: ela carrega forte dimensão ética e  humanitária. A identificação de vítimas permite que famílias realizem ritos fúnebres e  encerrem o processo de luto de maneira digna. O perito odontolegista, ao trabalhar  para devolver nomes e histórias a corpos sem identidade, exerce um papel essencial  de respeito à memória e à dignidade humana (Mendes e Silva, 2018). 

A atuação ética também envolve a confidencialidade dos dados e o  cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados, que exige sigilo e responsabilidade  na manipulação de prontuários e radiografias (Lei nº 13.709/2018). O respeito à cadeia  de custódia e aos protocolos de segurança da informação é indispensável à  credibilidade pericial (Mendes e Silva, 2018).

4. DISCUSSÃO 

A literatura consultada indica concordância quanto ao uso da odontologia legal  na identificação post mortem, sobretudo quando impressões digitais e exames  genéticos não podem ser empregados por causa de carbonização, decomposição ou  danos severos (Pretty, 2007; Silva e Lima, 2020). Mesmo com essa concordância, os  autores apresentam diferenças ao tratar das condições necessárias para aplicação do  método e dos fatores que podem limitar sua eficácia. 

Pretty (2007) afirma que a individualidade das arcadas e a resistência dos  dentes permitem resultados precisos quando há prontuários completos. Silva e Lima  (2020) concordam ao destacar a preservação do esmalte em temperaturas elevadas.  França (2021) acrescenta que a estrutura química desse tecido mantém  características úteis à comparação mesmo após carbonização intensa. A diferença  entre esses autores está na ênfase: Pretty (2007) atribui à precisão à disponibilidade  de registros, enquanto França (2021) destaca as propriedades do tecido dentário  como fator central. 

A discussão sobre prontuários ante mortem também apresenta divergências.  Pretty (2007) considera que a existência de registros adequados é condição usual na  prática pericial. Já Fernandes, Almeida e Tavares (2023) observam que essa  realidade é incomum em muitos serviços, nos quais a documentação é incompleta,  pouco padronizada ou não digitalizada. Para esses autores, o principal desafio está  na organização institucional, e não na técnica em si. Dessa forma, distinguem-se duas  interpretações: uma foca a técnica, e outra, a estrutura necessária para que ela seja  aplicada de forma eficiente. 

No âmbito normativo, há convergência. O protocolo Disaster Victim  Identification da INTERPOL estabelece orientações para coleta e comparação de dados dentários em desastres de grande escala. O manual de perícias odontolegais segue diretrizes semelhantes, o que demonstra alinhamento entre práticas nacionais  e internacionais. No entanto, a existência dessas normas não elimina as limitações estruturais apontadas por Fernandes, Almeida e Tavares (2023). A comparação entre a identificação odontológica e os exames genéticos  também aparece na literatura. Testes baseados em DNA exigem laboratórios  especializados e prazos mais longos, enquanto a análise odontológica pode ser  concluída em menor intervalo quando há registros ante mortem (Fernandes, Almeida  e Tavares, 2023). Essa vantagem, porém, depende da existência de documentação  completa, condição destacada por Pretty (2007) e questionada pelos autores  brasileiros. 

As discussões igualmente abordam requisitos jurídicos e formação profissional.  A Lei Geral de Proteção de Dados exige cuidados específicos no armazenamento e  compartilhamento de informações clínicas. Souza e Carvalho (2019) observam que a  falta de formação especializada e de capacitação contínua compromete a  uniformização das práticas, dificultando a criação de sistemas integrados. 

Os estudos recentes mencionam novos recursos utilizados na área. Modelos  computacionais direcionados à comparação de imagens e o uso de tomografia de  feixe cônico têm sido relatados como auxiliares em análises odontológicas (Corte Real, Oliveira e Santos, 2022). A impressão tridimensional tem sido empregada em  estudos craniofaciais (Martins e Ramos, 2021). França (2021) observa que esses  recursos contribuem para a prática, mas não substituem a avaliação técnica realizada  pelo profissional.

Por fim, Mendes e Silva (2018) destacam que a identificação odontológica  atende também a necessidades sociais, ao restabelecer a identidade das vítimas e  oferecer suporte às famílias. 

Em síntese, as pesquisas convergem em três aspectos principais: (I) a  odontologia forense é um método de identificação de elevada eficácia e baixo custo;  (II) seu desempenho depende da qualidade dos registros ante mortem e da integração  entre instituições e (III) o avanço tecnológico e a formação contínua dos profissionais  são essenciais para aumentar a precisão e a dimensão humanitária das perícias (Corte-Real, Oliveira e Santos, 2022) 

Em conjunto, os estudos apontam que a odontologia legal apresenta boa  capacidade para identificação humana, mas sua aplicação depende de registros  adequados e de estrutura institucional organizada. Divergências surgem quanto aos  fatores que mais influenciam essa eficácia. Há também consenso quanto à  importância das normas internacionais e do papel do profissional diante dos novos  recursos tecnológicos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A odontologia legal se configura como um dos métodos mais seguros,  acessíveis e humanizados para a identificação de vítimas, especialmente em  contextos de grande complexidade pericial. A eficácia desse método decorre das  características individuais da arcada dentária e da atuação criteriosa do profissional  responsável pela perícia. Contudo, para que esse campo alcance todo o seu potencial,  faz-se indispensável o fortalecimento de políticas públicas que incentivem a  padronização de prontuários, a integração entre bancos de dados, a modernização  tecnológica e o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018).  Além disso, a formação continuada dos profissionais e o investimento em  infraestrutura pericial são elementos essenciais para garantir celeridade, precisão e  respeito à dignidade humana, assegurando às famílias o direito ao reconhecimento e  à memória de seus entes falecidos.

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1Elaborada por Arielle Priscila Silva Soares – CRB 13/811 VASCONCELOS, A. L. C. A Odontologia Legal na identificação post mortem de  vítimas de desastres naturais ou acidentes: uma revisão de literatura. Trabalho  de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Odontologia da Faculdade Edufor – Unidade São Luís/MA, como parte das exigências acadêmicas para a colação de grau  e obtenção do título de Cirurgiã-Dentista

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