ENRIQUECIMENTO AMBIENTAL PARA ANIMAIS PROVENIENTES DE ADOÇÃO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511201419


Gustavo Tenório Gomes


RESUMO 

O presente Trabalho de Conclusão de Curso teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão de literatura, a relevância e a aplicabilidade das práticas de enriquecimento ambiental na promoção do bem-estar físico e psicológico de cães e gatos provenientes de adoção. A pesquisa foi estruturada qualitativamente, com base em diretrizes internacionais da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA, 2018) e em estudos nacionais que abordam guarda responsável, abandono e necessidades comportamentais. Os resultados evidenciam que animais adotados frequentemente apresentam históricos de estresse, medo e privação ambiental, o que os torna mais suscetíveis ao desenvolvimento de desvios comportamentais, como estereotipias, agressividade e dificuldades de adaptação. 

As práticas de enriquecimento — sensorial, físico, alimentar, social e cognitivo — mostraram-se eficazes na redução do estresse, na promoção do equilíbrio emocional e na melhoria da adaptação ao novo lar, conforme demonstrado por diferentes autores. Evidencia-se, ainda, que estratégias acessíveis e de baixo custo podem ser implementadas tanto por tutores quanto por instituições de acolhimento, favorecendo o processo de reabilitação e fortalecendo o vínculo humano-animal. Conclui-se que o enriquecimento ambiental é uma ferramenta essencial para a promoção do bem-estar e prevenção de devoluções pós-adoção, reforçando a importância de políticas de conscientização sobre guarda responsável. Recomenda-se que estudos futuros realizem pesquisas de campo que avaliem a efetividade prática das estratégias abordadas, ampliando as evidências científicas disponíveis. 

Palavras-chave: enriquecimento ambiental; adoção de animais; bem-estar animal; comportamento; guarda responsável. 

ABSTRACT 

This study aimed to analyze, through a literature review, the relevance and applicability of environmental enrichment practices in promoting the physical and psychological well-being of adopted dogs and cats. The research was conducted qualitatively, based on international guidelines from the World Small Animal Veterinary Association (WSAVA, 2018) and national studies addressing responsible guardianship, abandonment, and behavioral needs. The findings indicate that adopted animals often present histories of stress, fear, and environmental deprivation, making them more susceptible to behavioral disorders such as stereotypies, aggression, and adaptation difficulties.  

Environmental enrichment practices—sensory, physical, feeding, social, and cognitive—proved effective in reducing stress, promoting emotional balance, and improving adaptation to new homes, as demonstrated by different authors. Furthermore, accessible and low-cost strategies can be implemented by both tutors and shelter institutions, supporting rehabilitation and strengthening the human-animal bond. It is concluded that environmental enrichment is an essential tool for promoting well-being and preventing post-adoption returns, reinforcing the importance of responsible guardianship awareness policies. Future research should include field studies to assess the practical effectiveness of the strategies discussed, expanding the available scientific evidence. 

Keywords: environmental enrichment; animal adoption; animal welfare; behavior; responsible guardianship. 

1.INTRODUÇÃO 

O bem-estar animal é um conceito cada vez mais debatido no campo da medicina veterinária e da sociedade em geral (Faraco, 2021; Ricci; Titto; Sousa, 2017). Segundo a Associação Mundial de Veterinária de Pequenos Animais (2018 WSAVA), o bem-estar refere-se a um estado em que o animal está livre de doenças, em ambiente confortável, bem nutrido, seguro, capaz de expressar comportamentos naturais e não sofre de dor, medo ou angústia. Esse entendimento amplia a responsabilidade de tutores, instituições e profissionais, ressaltando que os animais não são apenas seres de companhia, mas indivíduos sencientes com necessidades físicas e emocionais (Galdioli et al., 2021; Faraco, 2021). 

No Brasil, a realidade do abandono e da adoção de cães e gatos revela uma problemática persistente (Thomé et al., 2022). Estima-se que milhões de animais estejam em situação de vulnerabilidade, expostos a riscos de maus-tratos, fome e doenças, sendo posteriormente resgatados por organizações ou adotados por famílias (Galdioli et al., 2021). Contudo, ao chegarem aos lares adotivos, esses animais frequentemente carregam históricos de estresse, medo e privações ambientais, o que pode comprometer sua adaptação e integração ao novo contexto familiar (Teixeira, 2009; Faraco, 2021). 

Nesse cenário, práticas de enriquecimento ambiental têm se mostrado estratégias fundamentais para a promoção do bem-estar, auxiliando na redução de comportamentos estereotipados e no estímulo a respostas positivas (Ricci; Titto; Sousa, 2017; WSAVA, 2018). Diante disso, o objetivo desse trabalho é realizar uma revisão de literatura referente a relevância e a aplicabilidade de práticas de enriquecimento ambiental como estratégia de promoção do bem-estar físico e psicológico de animais provenientes de adoção. 

2.OBJETIVO GERAL 

Investigar a relevância e a aplicabilidade de práticas de enriquecimento ambiental como estratégia de promoção do bem-estar físico e psicológico de animais provenientes de adoção, considerando as diretrizes internacionais da WSAVA. 

2.1 OBJETIVO ESPECÍFICO 

  • Revisar a literatura científica sobre bem-estar animal, com destaque para diretrizes da WSAVA (2018) e estudos nacionais sobre guarda responsável e abandono; 
  • Identificar as principais técnicas de enriquecimento ambiental voltadas a cães e gatos em contextos de adoção; 
  • Analisar os impactos dessas técnicas no comportamento, na saúde e na adaptação de animais adotados; 
  • Propor estratégias de enriquecimento acessíveis e de baixo custo, passíveis de implementação por tutores e instituições de acolhimento; 
  • Relacionar o uso do enriquecimento ambiental com a redução de estresse, prevenção de devoluções e fortalecimento do vínculo humano-animal. 

3. METODOLOGIA 

A presente pesquisa será desenvolvida como uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, exploratório e descritivo. A busca bibliográfica será realizada em bases digitais como Google Acadêmico, SciELO e PubMed, utilizando descritores como “bem-estar animal”, “enriquecimento ambiental”, “adoção de cães e gatos”, “adestramento positivo” e “desvios comportamentais”. Serão priorizadas publicações entre 2000 e 2024, com enfoque em trabalhos voltados para cães e gatos em situação de resgate e adoção. 

O processo metodológico será organizado em quatro etapas principais: 

  1. Levantamento bibliográfico – identificação de materiais científicos, técnicos e institucionais relevantes para o tema; 
  2. Seleção e fichamento – organização das fontes em categorias temáticas, como bem-estar animal, enriquecimento ambiental, comportamento, adoção e adestramento positivo; 
  3. Análise crítica – interpretação e comparação das informações coletadas, destacando convergências e divergências entre diferentes autores e documentos; 
  4. Síntese integrativa – elaboração da discussão final, relacionando os conceitos da literatura com a problemática da adaptação de animais adotados. 

A análise será conduzida de forma qualitativa e interpretativa, buscando compreender como as práticas de enriquecimento ambiental podem auxiliar na promoção do bem-estar, na reabilitação e na adaptação de cães e gatos adotados. 

Como limitações do estudo, destaca-se a ausência de coleta de dados primários, visto que a pesquisa se restringirá à análise de literatura disponível.  

4 RESULTADO E DISCUSSÕES

4.1 Bem-estar animal 

O enriquecimento ambiental exerce papel fundamental na redução do estresse pós-adoção, na prevenção de comportamentos indesejados e no fortalecimento do vínculo humano-animal (Teixeira, 2009; Faraco, 2021; Ricci; Titto; Sousa, 2017). As diretrizes internacionais, como as da WSAVA (2018), reforçam que o bem-estar animal deve ser avaliado de maneira multidimensional, considerando aspectos físicos, emocionais e comportamentais. O documento destaca que práticas de manejo adequadas, incluindo enriquecimento ambiental, são essenciais para a manutenção da saúde e prevenção do sofrimento (WSAVA, 2018; Linhares et al., 2018). 

No contexto nacional, estudos como Bem-estar animal: conceitos e práticas aplicadas (Galdioli et al., 2021) apontam que cães e gatos provenientes de abandono apresentam necessidades específicas de adaptação, sendo mais vulneráveis a estresse e distúrbios comportamentais. Thomé et al. (2022) e Galdioli et al. (2021) destacam a relevância da guarda responsável e da implementação de medidas que assegurem estímulos ambientais adequados. 

4.2 Identificação das principais técnicas de enriquecimento ambiental 

Técnicas de baixo custo e fácil implementação, tais como enriquecimento sensorial, alimentar, físico, social e cognitivo, podem ser aplicadas tanto por tutores quanto por instituições de acolhimento (Ricci; Titto; Sousa, 2017; Faraco, 2021; Linhares et al., 2018). Segundo WSAVA (2018), Ricci; Titto; Sousa, 2017) e Faraco (2021), as técnicas de enriquecimento aplicáveis a cães e gatos podem ser classificadas em cinco categorias principais: 

  • Enriquecimento sensorial – odores, sons e texturas que estimulam a percepção; 
  • Enriquecimento alimentar – brinquedos dispensadores de ração, variação de dietas e atividades de busca; 
  • Enriquecimento físico – arranhadores, brinquedos interativos, obstáculos e espaços adequados para movimentação; 
  • Enriquecimento social – interações positivas com humanos e outros animais; 
  • Enriquecimento cognitivo – treino com reforço positivo e desafios que estimulam a resolução de problemas. 

4.3 Impactos das práticas de enriquecimento no comportamento e saúde 

Os resultados mostram que a ausência de estímulos adequados pode levar a desvios comportamentais, como agressividade, automutilação, vocalização excessiva e comportamentos estereotipados (Teixeira, 2009; Faraco, 2021; Linhares et al., 2018). Em contrapartida, a aplicação de enriquecimento ambiental reduz índices de estresse, melhora a adaptação a novos lares e promove maior equilíbrio emocional (Ricci; Titto; Sousa, 2017; WSAVA, 2018). 

Além disso, o uso do adestramento positivo como forma de enriquecimento cognitivo apresenta impactos significativos na reabilitação de cães com histórico de abandono, fortalecendo o vínculo com os tutores e facilitando a socialização (Linhares et al., 2018). 

4.4 Propostas de estratégias acessíveis e de baixo custo 

Diversas estratégias de enriquecimento podem ser implementadas com materiais simples e de fácil acesso (Ricci; Titto; Sousa, 2017; Linhares et al., 2018). Brinquedos confeccionados com garrafas plásticas, caixas de papelão ou tecidos reutilizados são exemplos viáveis para tutores e instituições de acolhimento (Galdioli et al., 2021; Faraco, 2021). Além disso, rotinas de interação diária, caminhadas e treinamentos curtos podem substituir, de forma acessível, práticas mais sofisticadas descritas em centros de pesquisa (Thomé et al., 2022; Ricci; Titto; Sousa, 2017). 

4.5 Relação entre enriquecimento ambiental, redução de estresse e vínculo humano-animal 

Os estudos analisados convergem ao apontar que o enriquecimento ambiental contribui para a diminuição do estresse e para a prevenção de devoluções pós-adoção (Galdioli et al., 2021; Teixeira, 2009; Faraco, 2021). Animais que recebem estímulos adequados apresentam maior adaptabilidade ao lar, melhor desempenho social e desenvolvimento de comportamentos positivos, fortalecendo o vínculo com seus tutores (WSAVA, 2018; Silva, 2020). 

As análises indicam que a falta de estímulos ambientais adequados favorece o surgimento de desvios comportamentais e prejuízos à saúde física e emocional, reforçando a necessidade de políticas públicas e de conscientização sobre guarda responsável (Thomé et al., 2022; Linhares et al., 2018; Teixeira, 2009). Assim, o enriquecimento ambiental não apenas promove saúde e qualidade de vida, mas também desempenha papel estratégico na consolidação da adoção responsável.  

5 CONCLUSÃO 

Conclui-se, portanto, que o enriquecimento ambiental é um instrumento acessível e imprescindível para a promoção do bem-estar animal, contribuindo para a redução do estresse, para a prevenção de devoluções pós-adoção e para a consolidação da guarda responsável, em consonância com as diretrizes internacionais e com a literatura nacional sobre bem-estar animal.  Além disso, o adestramento positivo se configura como ferramenta eficaz no enriquecimento cognitivo e no favorecimento da socialização. Recomenda-se que pesquisas futuras realizem estudos de campo para avaliar a eficácia prática das estratégias propostas, ampliando as evidências científicas e auxiliando na formulação de protocolos específicos para diferentes contextos. 

6 BIBLIOGRAFIA 

FARACÓ, Ceres Berger. Bem-estar dos cães e gatos e medicina comportamental. [S.l.]: APAMVET, 2021. Publicações. Disponível em: https://publicacoes.apamvet.com.br/PDFs/Publicacoes/7.pdf.  Acesso em: 1 set 2025. 

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