NURSING CARE IN POSTPARTUM DEPRESSION IN PRIMARY CARE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511201302
Rafaela Santos Goes1
Joana Quitéria Messias Miranda2
RESUMO
O estudo aborda a assistência da enfermagem na depressão pós-parto na Atenção Primária à Saúde, reconhecendo-a como um problema de saúde pública de alta prevalência e impacto social. O trabalho delimita como problema central a fragilidade na identificação e manejo dessa condição pelos enfermeiros da atenção básica, definindo como objetivo compreender a importância de sua atuação na detecção precoce e no cuidado integral às puérperas. A pesquisa, de natureza qualitativa, configura-se como revisão bibliográfica, com abordagem descritivo-analítica, sustentada em artigos científicos obtidos nas bases PubMed, Medline, Lilacs e Periódicos CAPES, selecionados conforme critérios de temporalidade, idioma e relevância temática. A análise dos quinze estudos incluídos evidenciou que práticas de enfermagem baseadas em acolhimento, escuta ativa e uso de protocolos de rastreamento potencializam o diagnóstico precoce e o suporte psicossocial. Verificou-se ainda que intervenções não farmacológicas, como terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e visitas domiciliares, reduzem significativamente os sintomas depressivos e fortalecem o vínculo materno-infantil. Contudo, persistem limitações relacionadas à escassez de capacitação técnica, à ausência de protocolos sistematizados e à heterogeneidade metodológica dos estudos revisados. Conclui-se que o fortalecimento da enfermagem na atenção primária é essencial para consolidar uma assistência humanizada e eficaz, ampliando a equidade e a integralidade do cuidado em saúde mental materna. O estudo contribui, assim, para a ampliação teórica e prática sobre o papel da enfermagem na gestão da depressão pós-parto.
Palavras-chave: Enfermagem. Depressão pós-parto. Atenção primária à saúde. Saúde mental materna. Cuidado humanizado.
ABSTRACT
The study addresses nursing care in postpartum depression within Primary Health Care, recognizing it as a high-prevalence public health issue with significant social impact. The research defines as its central problem the fragility in identifying and managing this condition by primary care nurses, with the objective of understanding the importance of their role in early detection and comprehensive care for postpartum women. The study, qualitative in nature, is configured as a bibliographic review with a descriptive-analytical approach, based on scientific articles retrieved from PubMed, Medline, Lilacs, and CAPES Journals, selected according to criteria of temporality, language, and thematic relevance. The analysis of the fifteen included studies showed that nursing practices grounded in welcoming, active listening, and the use of screening protocols enhance early diagnosis and psychosocial support. It was also found that non-pharmacological interventions, such as cognitive-behavioral therapy, mindfulness, and home visits, significantly reduce depressive symptoms and strengthen the mother-infant bond. However, limitations persist, including the lack of technical training, absence of systematic protocols, and methodological heterogeneity among the reviewed studies. It is concluded that strengthening nursing within primary care is essential to consolidate humanized and effective assistance, expanding equity and comprehensiveness in maternal mental health care. Thus, the study contributes to both theoretical and practical advancement regarding the role of nursing in managing postpartum depression.
Keywords: Nursing. Postpartum depression. Primary health care. Maternal mental health. Humanized care.
1 INTRODUÇÃO
A depressão pós-parto é descrita como a condição psiquiátrica mais comum e incapacitante durante o puerpério, sendo considerada um problema de saúde pública, com prevalência mundial estimada entre 10% e 20%. Entretanto, no Brasil, essa taxa é aproximadamente 26% mais elevada do que a média dos países de baixa renda, atingindo 25% das puérperas entre seis e 18 meses após o parto (Machado et al. 2022).
Desse modo, a Atenção Primária à Saúde figura como porta de entrada estratégica para o acompanhamento do ciclo gravídico-puerperal, na qual o enfermeiro assume papel essencial na identificação precoce de sintomas e na condução de cuidados integrais e humanizados. Além disso, a literatura evidencia barreiras enfrentadas por esses profissionais na detecção e manejo da depressão pós-parto, reforçando a necessidade de capacitação permanente (Machado et al, 2022).
Ainda, a depressão pós-parto representa um transtorno mental severo que pode atingir até 56% das mulheres latinas, com impacto direto sobre a saúde materna e o desenvolvimento infantil. Além disso, os autores evidenciam que o risco de depressão se manifesta de modo mais acentuado em países em desenvolvimento, onde a prevalência chega a ser três vezes maior, especialmente quando associada a condições socioeconômicas desfavoráveis (Barrera-Mondragón; Camarillo-Nava; García-Rivera, 2024).
Desse modo, a análise realizada em um centro de atenção primária identificou que 46,8% das puérperas apresentaram alto risco para depressão, com maior associação a fatores de vulnerabilidade econômica em 94,6% dos casos. a depressão pós-parto, além de afetar profundamente o bem-estar da mãe, repercute no núcleo familiar, agravando situações de vulnerabilidade social e emocional (Barrera-Mondragón; Camarillo-Nava; García-Rivera, 2024).
Sendo assim, verifica-se que a relevância do presente trabalho consiste em preencher lacunas teóricas acerca da assistência da enfermagem na depressão pós-parto na atenção primária, tendo em vista que ainda há despreparo dos profissionais da Estratégia Saúde da Família e ausência de capacitação específica. Assim, destaca-se que a pesquisa proposta contribuirá para atualização dos debates, ao propor aprofundamentos conceituais sobre práticas educativas e fortalecimento da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (Gonçalves et al., 2020).
Ainda, observa-se que a justificativa acadêmica para este estudo se fundamenta na escassez de investigações que conectem o reconhecimento da necessidade de capacitações ao efetivo preparo técnico e científico dos profissionais. Portanto, verifica-se que a pesquisa se mostra relevante ao promover avanços conceituais sobre o papel da enfermagem na identificação e intervenção da depressão pós-parto (Gonçalves et al., 2020).
Sob essa ótica, constata-se que a relevância acadêmica do presente trabalho está em evidenciar como a assistência da enfermagem na depressão pós-parto na atenção primária poderá contribuir para suprir a escassez de estudos sobre detecção precoce, já que a literatura registra taxas reduzidas de reconhecimento da condição pelos profissionais de saúde. Portanto, o estudo contribuirá para preencher lacunas teóricas e favorecer a atualização dos debates científicos na área da saúde coletiva (Oladeji et al., 2025).
Além disso, observa-se que a pesquisa acadêmica aqui proposta se articula ao esforço de sistematizar o papel da enfermagem, aproximando referenciais já discutidos sobre rastreamento e suporte clínico, os quais permanecem pouco explorados nos cenários de atenção básica. Logo, a contribuição deste TCC incidirá no aprofundamento conceitual da assistência da enfermagem, ao relacionar práticas de triagem, supervisão e acompanhamento, e ao propor conexão crítica entre autores que investigam saúde mental perinatal (Oladeji et al., 2025).
Ademais, a depressão pós-parto é descrita como um problema de saúde pública que afeta não apenas a mulher, mas também famílias e crianças, trazendo implicações sociais e coletivas que demandam atenção do Estado e de políticas públicas específicas. Além disso, o estudo enfatiza que a Atenção Primária à Saúde deve assegurar assistência humanizada e integral, garantindo o direito das mulheres a cuidados de qualidade (Silva et al., 2022).
Por conseguinte, a assistência de enfermagem à mulher com indicativos de depressão pós-parto possui relevância social ao garantir direitos fundamentais à saúde mental no período puerperal. Ademais, o fortalecimento do vínculo entre profissionais de saúde, puérperas e familiares amplia a efetividade das práticas de cuidado, evidenciando que a enfermagem, ao atuar na detecção precoce e no suporte às mulheres, contribui para avanços nas políticas públicas de saúde materna (Silva et al., 2022).
Sob essa ótica, destaca-se que a depressão no período gestacional e pós-gestacional é reconhecida como uma condição de elevada complexidade, com repercussões que se estendem para além da saúde individual da mulher, envolvendo diretamente a família, a criança e a sociedade como um todo. Além disso, o estudo evidencia que a ausência de tratamento adequado está relacionada a complicações obstétricas, dificuldades de vínculo materno-infantil e impactos coletivos que exigem políticas públicas específicas (Dooley; McAloon, 2025).
Sendo assim, a relevância social da assistência de enfermagem na depressão pós-parto reside no fortalecimento de práticas de cuidado que assegurem direitos fundamentais à saúde mental da mulher no período puerperal. Ademais, a ampliação do acesso a estratégias não farmacológicas, como intervenções psicossociais baseadas em evidências, fortalece o papel da Atenção Primária à Saúde em promover integralidade e equidade, contribuindo diretamente para avanços nas políticas públicas materno-infantis (Dooley; McAloon, 2025).
Nesse sentido, o problema de pesquisa que orienta este estudo é: Como o enfermeiro pode contribuir para a identificação e manejo da depressão pós-parto na assistência primária? Para responder a essa questão, definiu-se como objetivo geral compreender a importância da assistência da enfermagem na identificação e manejo da depressão pós-parto na atenção primária à saúde.
A partir desse direcionamento, estabeleceram-se três objetivos específicos que detalham os caminhos da investigação: entender os principais sinais e sintomas da depressão pós-parto e sua relevância na atuação da enfermagem na atenção primária; analisar as abordagens e práticas utilizadas pelos profissionais de enfermagem para a identificação e manejo da depressão pós-parto na atenção primária; comparar diferentes modelos de assistência da enfermagem na gestão da depressão pós-parto, visando evidenciar sua eficácia na atenção primária à saúde.
2 METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de revisão de literatura, conforme a classificação proposta por Gil (2008), que a define como um procedimento essencial para a análise de produções acadêmicas já existentes, possibilitando a sistematização e a ampliação do conhecimento sobre determinado objeto de estudo. Segundo Marconi e Lakatos (2017), a revisão de literatura configura-se em uma modalidade de pesquisa bibliográfica, já que se fundamenta em materiais publicados, tais como artigos, livros e periódicos, que abordam direta ou indiretamente o tema delimitado.
Para a identificação das produções, foram consultadas as bases PubMed, Medline e Lilacs e Periódicos CAPES, com a utilização de descritores controlados e não controlados relacionados à temática central da revisão. Os critérios de inclusão consideraram publicações: (a) dos últimos dez anos; (b) nos idiomas português e inglês; (c) de acesso gratuito; (d) que abordassem a assistência da enfermagem no recorte temático delimitado; (e) publicadas em periódicos revisados por pares. Os critérios de exclusão contemplaram estudos: (a) em duplicidade entre bases; (b) que não correspondessem ao desenho metodológico exigido; (c) que não abordassem diretamente a enfermagem no contexto investigado.
No processo de identificação, localizaram-se 6.366 artigos, distribuídos entre PubMed (n = 4.052), Medline/Lilacs (n = 2.247) e Periódicos CAPES (n = 67). Antes da triagem inicial, aplicaram-se filtros referentes a idioma, recorte temporal dos últimos cinco anos, tipo de estudo, disponibilidade de texto completo e publicação em periódicos revisados por pares, o que resultou na exclusão de 5.554 artigos (PubMed = 3.710; Medline/Lilacs = 1.790; CAPES = 54). Na etapa de triagem, foram considerados 812 artigos provenientes das três bases, dos quais 131 foram eliminados por não apresentarem acesso gratuito.
Assim, 681 artigos tiveram seus títulos e resumos lidos, avançando para a fase de seleção dos materiais. No processo de elegibilidade, 227 artigos foram avaliados em texto completo, sendo 212 excluídos por três motivos principais: (1) ênfase excessiva em aspectos farmacológicos ou médicos, sem considerar o papel da enfermagem; (2) ausência de evidências empíricas que sustentassem as recomendações apresentadas; e (3) omissão de critérios de amostragem ou de procedimentos analíticos. Dessa forma, 15 estudos compuseram a revisão final.
3 RESULTADO E DISCUSSÃO
3.1 PRINCIPAIS SINAIS E SINTOMAS DA DEPRESSÃO PÓS-PARTO E SUA RELEVÂNCIA NA ATUAÇÃO DA ENFERMAGEM NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
A depressão pós-parto representa um relevante problema de saúde pública, caracterizado por alterações emocionais, cognitivas e comportamentais que comprometem o bem-estar materno, o vínculo mãe-bebê e o equilíbrio familiar. Sua identificação precoce e manejo adequado na atenção primária demandam atuação qualificada da enfermagem, capaz de reconhecer sinais e sintomas, aplicar protocolos de rastreamento e promover intervenções psicossociais integradas que favoreçam a recuperação e previnam desfechos negativos para mãe e criança (Lewis et al., 2021; Smythe; Petersen; Schartau, 2022; Dooley; McAloon, 2025; Oladeji et al., 2025; Qi et al., 2025).
Evidências quantitativas relevantes mostram que 2,4% das participantes apresentaram DPP após seis meses e 3,6% após nove meses, sendo os sintomas significativamente menores no grupo que recebeu intervenção de bem-estar. O exercício e o suporte emocional reduziram o estresse percebido, sugerindo que intervenções de baixo custo e acessíveis podem prevenir sintomas depressivos e fortalecer o cuidado pós-natal (Lewis et al., 2021).
Por sua vez, amplia-se a análise ao incluir ambos os pais em sua meta-análise, revelando que até 3,18% dos casais vivenciam simultaneamente depressão pós-parto, com maior prevalência entre três e doze meses após o parto. Essa abordagem familiar indica que o sofrimento psíquico materno e paterno são interdependentes e exigem modelos de cuidado centrados na família, o que reforça o papel da enfermagem na detecção e orientação de ambos os genitores (Smythe; Petersen; Schartau, 2022).
De modo convergente, outro estudo destaca a eficácia da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) aplicada ainda no período gestacional, com efeitos significativos na redução dos sintomas depressivos tanto durante quanto após a gestação. O estudo, com meta-análise de 12 ensaios, mostra que o tratamento antenatal tem maior impacto em mulheres multiparas e com idade mais avançada, e que o modo de aplicação, presencial ou remoto, não altera a eficácia, o que é crucial para estratégias de enfermagem comunitária em contextos de difícil acesso (Dooley; McAloon, 2025).
Entretanto, há um outro problema estrutural: a baixa detecção da DPP por profissionais de saúde da atenção primária. Em seu estudo, a taxa de identificação por agentes de saúde não médicos foi de apenas 4,6% sem triagem sistemática e 11% com uso do PHQ-2, alcançando 40% após supervisão e reforço de treinamento. Esses achados quantitativos revelam a importância da capacitação contínua e da inserção de protocolos de rastreamento nas rotinas da enfermagem, especialmente em países de baixa e média renda (Oladeji et al., 2025).
Por outro lado, há um enfoque inovador ao aplicar modelos de aprendizado de máquina (machine learning) para prever risco de DPP com base em fatores biopsicossociais, atingindo AUCs de até 0,858 com modelos logísticos e de redes neurais. As variáveis preditoras incluem histórico de doença mental, suporte familiar e qualidade do sono, consolidando a relevância de fatores psicossociais, domínios em que a enfermagem tem papel central na escuta, monitoramento e intervenção (Qi et al., 2025).
Em aproximação, os estudos de Lewis et al. (2021) e Dooley e McAloon (2025) convergem ao enfatizar intervenções não farmacológicas, como exercício e TCC, como estratégias eficazes de prevenção e manejo. Ambas as abordagens reduzem sintomas depressivos e fortalecem a autonomia das mulheres no autocuidado, articulando-se à função educativa da enfermagem na atenção primária.
Por outro lado, há distanciamento entre Smythe, Petersen e Schartau (2022) e Oladeji et al. (2025) quanto ao foco: o primeiro amplia a análise para o casal, enquanto o segundo evidencia falhas institucionais na detecção individual. Essa diferença sugere que, embora a literatura reconheça o caráter sistêmico da DPP, a prática ainda carece de instrumentos para operacionalizar esse cuidado integrado, especialmente nas redes básicas de saúde.
Além disso, há um diferencial ao propor ferramentas tecnológicas que permitem antecipar o risco de DPP antes do aparecimento dos sintomas clínicos, superando limitações observadas em estudos baseados em autorrelato. No entanto, essas tecnologias ainda carecem de validação em contextos de baixa complexidade, o que limita sua aplicação imediata na atenção primária, onde o enfermeiro atua como principal agente de triagem (Qi et al., 2025).
Em contraponto, demonstra-se que mesmo instrumentos simples, como o PHQ-2, quando aplicados rotineiramente, podem multiplicar a capacidade de detecção e o encaminhamento precoce. Essa evidência reforça que a efetividade das intervenções não depende apenas de inovação tecnológica, mas da integração prática do rastreamento com o vínculo clínico-assistencial (Oladeji et al., 2025).
Em síntese, há a constatação de que a DPP é subdiagnosticada e multifatorial, envolvendo dimensões biológicas, psicológicas e sociais que exigem a atuação interdisciplinar e sensível da enfermagem. Divergem, porém, quanto aos métodos de enfrentamento, variando entre abordagens psicoterapêuticas, tecnológicas e organizacionais, e deixam lacunas importantes sobre a continuidade do cuidado e o impacto longitudinal das intervenções (Lewis et al., 2021; Smythe; Petersen; Schartau, 2022; Dooley; McAloon, 2025; Oladeji et al., 2025; Qi et al., 2025)..
Conclui-se, portanto, que a literatura analisada reforça a necessidade de protocolos sistemáticos de rastreamento, educação em saúde e suporte psicossocial contínuo conduzidos pela enfermagem. A integração de tecnologias preditivas, práticas de autocuidado e intervenções cognitivas emergem como caminhos complementares para aprimorar a identificação e o manejo dos principais sinais e sintomas da depressão pós-parto na atenção primária.
3.2 ABORDAGENS E PRÁTICAS UTILIZADAS PELOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM PARA A IDENTIFICAÇÃO E MANEJO DA DEPRESSÃO PÓS-PARTO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
Evidencia-se a importância da atuação da enfermagem na identificação precoce e no manejo da depressão pós-parto (DPP), destacando práticas que vão desde o acolhimento até a implementação de estratégias terapêuticas integradas. As pesquisas demonstram que a qualificação profissional e a sensibilização da equipe são determinantes para uma assistência efetiva e humanizada (Machado et al., 2022).
De forma convergente, identifica-se fragilidades na capacitação técnica e científica dos profissionais da Estratégia Saúde da Família, que reconhecem a necessidade de educação permanente como via de qualificação da assistência e de fortalecimento da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Essa lacuna formativa reforça a urgência de programas voltados ao treinamento contínuo sobre saúde mental matern (Gonçalves et al., 2020).
Além disso, enfermeiros da Atenção Primária percebem os sintomas da DPP associados à dificuldade de amamentar, ao medo e à insegurança no cuidado com o recém-nascido, mas ainda se sentem inseguros e despreparados para intervir adequadamente. Essa percepção confirma a necessidade de protocolos assistenciais claros que orientem o reconhecimento e o encaminhamento dos casos (Silva et al., 2022).
Por outro lado, há o modelo inovador de cuidado baseado na combinação entre intervenções digitais de mindfulness e sessões presenciais de coaching, demonstrando redução significativa dos sintomas de depressão e ansiedade, com efeito estatístico relevante (η²=0.020; P=.01). Essa abordagem blended care amplia o escopo da enfermagem ao integrar ferramentas digitais à atenção direta, aproximando-se das demandas contemporâneas da saúde pública (Hassdenteufel et al., 2025).
Em consonância, estratégias de cuidado, como visitas domiciliares, consultas de enfermagem e apoio matricial, são práticas fundamentais para promover o vínculo com a puérpera e favorecer o diagnóstico precoce. Essas ações reforçam o caráter preventivo da atuação da enfermagem e sua capacidade de humanizar o cuidado (Machado et al., 2022).
Mas, distanciando-se desse enfoque ampliado, a análise quantitativa dos fatores de risco evidenciou que 46,8% das puérperas apresentavam alto risco para DPP e que o nível socioeconômico foi o principal determinante (94,6%). O estudo, embora relevante, não aprofunda a dimensão das práticas de cuidado, limitando-se à identificação de vulnerabilidades (Barrera-Mondragón; Camarillo-Nava; García-Rivera, 2024).
Entretanto, ao dialogar com esses achados, Gonçalves et al. (2020) enfatizaram que o despreparo profissional agrava o subdiagnóstico da DPP e compromete a continuidade do cuidado, sugerindo que a ausência de capacitação técnica impede a consolidação da integralidade e do acolhimento na Atenção Primária. Essa lacuna é ampliada pela falta de integração interprofissional entre médicos, psicólogos e enfermeiros.
Em proximidade teórica, a atuação do enfermeiro deve ser pautada por uma visão holística, atenta aos aspectos emocionais e sociais das puérperas, e não apenas às dimensões biológicas do puerpério. Essa concepção amplia a responsabilidade do enfermeiro como agente de escuta, prevenção e apoio psicoafetivo (Silva et al., 2022; Machado et al., 2022). Contudo, distanciando-se das práticas tecnológicas de Hassdenteufel et al. (2025), os estudos brasileiros indicam que, na realidade da Atenção Primária, os recursos ainda são limitados e a sobrecarga de trabalho restringe o tempo destinado à escuta e acompanhamento individualizado.
Ainda, os resultados convergem quanto ao papel estratégico da educação permanente e do apoio multiprofissional na efetividade do cuidado. As práticas colaborativas entre enfermeiros, psicólogos e agentes comunitários podem potencializar a identificação precoce e o manejo integral da DPP (Gonçalves et al., 2020; Silva et al., 2022).
Em síntese, as abordagens de identificação e manejo da depressão pós-parto na atenção primária exigem integração entre preparo técnico, sensibilidade clínica e inovação tecnológica. Apesar dos avanços em práticas humanizadas e do potencial das intervenções digitais, persistem lacunas estruturais e formativas. A efetividade do cuidado depende da educação permanente, do trabalho multiprofissional e do fortalecimento de políticas públicas voltadas à saúde mental materna (Machado et al., 2022; Hassdenteufel et al., 2025).
3.3 DIFERENTES MODELOS DE ASSISTÊNCIA DA ENFERMAGEM NA GESTÃO DA DEPRESSÃO PÓS-PARTO
A análise dos estudos evidencia que os modelos de assistência de enfermagem voltados à depressão pós-parto se estruturam em três eixos principais: o cuidado humanizado, o suporte educativo e o uso de tecnologias terapêuticas e digitais. A atuação do enfermeiro deve ser pautada na integralidade do cuidado, com escuta ativa, empoderamento e educação continuada. Tal abordagem busca não apenas identificar sintomas, mas também fortalecer a autonomia da puérpera frente ao processo de recuperação emocional (Marçal et al., 2023).
De modo aproximativo, ressalta-se a importância da capacitação profissional como elemento central dos modelos assistenciais. As autoras destacam que o acompanhamento longitudinal e a formação permanente da equipe de enfermagem são decisivos para garantir intervenções precoces e eficazes no manejo da depressão pós-parto. Em sua revisão, identificaram que o déficit de preparo técnico compromete o reconhecimento de sinais precoces da doença e fragiliza a continuidade do cuidado (Salgueiro et al., 2023).
De forma convergente, constatou-se que intervenções baseadas em mindfulness podem atuar como modelo de assistência complementar eficaz. Em sua amostra de 34 mulheres, o grupo experimental apresentou reduções significativas em depressão, ansiedade e estresse, além de ganhos em autoeficácia e ajustamento, após oito semanas de práticas mediadas por aplicativo móvel. Essa proposta amplia o escopo da enfermagem para modelos híbridos, que integram cuidado emocional e suporte tecnológico (İnam; Satılmış, 2025).
Por outro lado, reforça-se o potencial da assistência de enfermagem de suporte em contextos críticos, como a internação neonatal. Um estudo em metanálise envolvendo 18 ensaios revelou que intervenções de suporte reduziram significativamente os níveis de depressão (SMD = −0,24) e ansiedade (SMD = −0,61) entre mães de recém-nascidos internados. Esse modelo, centrado no vínculo e no acolhimento informativo, reafirma a importância da presença ativa do enfermeiro na mitigação do sofrimento emocional no pós-parto (Zhu; Fan, 2025).
Ainda em convergência, Clapp et al. (2024) apresentaram um modelo de assistência ancorado em economia comportamental, que associou mensagens personalizadas e agendamento automático de consultas de seguimento com aumento de 18,7 pontos percentuais nas visitas de acompanhamento pós-parto. O estudo mostrou que estratégias organizacionais simples, aliadas à comunicação empática, podem otimizar a adesão ao cuidado contínuo e reduzir as lacunas no acompanhamento clínico de mulheres vulneráveis.
Distanciando-se parcialmente dessas abordagens tecnológicas, enfatiza-se a primazia do cuidado humanizado e presencial, em que o vínculo terapêutico direto permanece insubstituível. Para os autores, a empatia e a escuta qualificada ainda constituem os pilares da detecção e manejo da DPP, principalmente nas unidades básicas de saúde, onde os recursos digitais são limitados (Marçal et al., 2023).
Mas, por outro lado, a inserção de ferramentas digitais não substitui, mas complementa, o cuidado relacional. O uso do aplicativo de mindfulness não eliminou a necessidade do acompanhamento de enfermagem, mas proporcionou às mulheres suporte contínuo e autonomia emocional, revelando-se compatível com modelos híbridos de assistência (İnam; Satılmış, 2025).
Contudo, aponta-se uma lacuna persistente, que é a ausência de protocolos estruturados para a triagem da DPP na atenção primária. Essa deficiência compromete a uniformidade das práticas e gera variações regionais significativas no reconhecimento e tratamento dos casos. As autoras sugerem que a padronização de instrumentos diagnósticos poderia integrar diferentes modelos de assistência em um sistema articulado (Salgueiro et al., 2023).
De forma similar, há heterogeneidade nas intervenções analisadas, com destaque para a baixa qualidade metodológica em parte dos ensaios e a carência de padronização das medidas de desfecho. Assim, ainda que o efeito global da assistência de enfermagem seja positivo, há necessidade de uniformizar metodologias para assegurar evidências mais robustas sobre os modelos aplicados (Zhu; Fan, 2025).
Nesse mesmo sentido, surge outra lacuna relevante: o impacto desigual das intervenções em diferentes contextos socioeconômicos. A efetividade das mensagens e do agendamento automático mostrou-se menor entre mulheres sem acesso digital ou com menor vínculo prévio com a atenção primária, o que demonstra a necessidade de estratégias inclusivas para populações em vulnerabilidade (Clapp et al., 2024).
Por fim, observa-se que, apesar das distintas abordagens, os estudos convergem em afirmar o papel estratégico da enfermagem como articuladora entre o cuidado físico e o emocional no pós-parto. Contudo, persistem lacunas quanto à padronização dos modelos, à formação continuada dos profissionais e à integração entre práticas presenciais e digitais, o que constitui campo fértil para novas investigações.
4 CONCLUSÃO
A pesquisa teve como ponto central compreender como a enfermagem pode contribuir para a identificação e manejo da depressão pós-parto na Atenção Primária à Saúde, partindo da constatação de que o subdiagnóstico e a ausência de protocolos sistematizados comprometem a integralidade do cuidado. Os achados revelaram que o preparo técnico-científico dos enfermeiros, associado à escuta qualificada e ao vínculo terapêutico, constitui elemento decisivo para a prevenção e mitigação da doença.
Além disso, verificou-se que intervenções psicossociais, como a Terapia Cognitivo-Comportamental e o mindfulness, reduziram de modo significativo os sintomas depressivos, enquanto práticas educativas, visitas domiciliares e apoio multiprofissional ampliaram a efetividade do cuidado. Tais resultados reforçam que a enfermagem, ao atuar de forma humanizada e interdisciplinar, assume papel essencial na promoção da saúde mental materna e na consolidação de políticas públicas equitativas.
Com base nesses resultados, os objetivos propostos foram integralmente alcançados. O objetivo geral, de compreender a importância da assistência de enfermagem na DPP, foi atendido pela identificação de sua atuação como eixo central do rastreamento e acompanhamento. Os objetivos específicos também foram contemplados, ao demonstrar os sinais e sintomas mais prevalentes, as práticas profissionais empregadas e os diferentes modelos de assistência que se mostraram eficazes na gestão da depressão pós-parto.
Todavia, reconhece-se como limitação a restrição metodológica inerente à revisão de literatura, que impossibilita a coleta de dados empíricos e a análise de contextos específicos. Ademais, a heterogeneidade das metodologias e a ausência de padronização dos instrumentos utilizados nas pesquisas analisadas dificultam comparações diretas entre modelos de assistência. Essa limitação reforça a necessidade de estudos experimentais e de campo que consolidem evidências aplicáveis à prática clínica.
Por conseguinte, recomenda-se que pesquisas futuras explorem intervenções mistas que integrem tecnologias digitais, suporte presencial e ações educativas em rede, voltadas à realidade dos serviços básicos de saúde. Investigações comparativas sobre o impacto da capacitação permanente e da aplicação de protocolos de rastreamento também são necessárias. Assim, reafirma-se que o fortalecimento da enfermagem na atenção primária constitui não apenas um imperativo técnico, mas um compromisso ético com a saúde mental materna e familiar.
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1Discente do Curso de Enfermagem da Faculdade de Ilhéus, Centro de Ensino Superior, Ilhéus, Bahia. E-mail: raffagoes20@gmail.com
2Docente do Curso de Enfermagem da Faculdade de Ilhéus, Centro de Ensino Superior, Ilhéus, Bahia. E-mail: joanaquiteria2012@yahoo.com.br
