REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511172216
Juliana Bezerra da Silva Jansen¹
Kauan Ramalho Anunciação¹
William Pinheiro Silva dos Santos¹
Orientadora: Silvana Flora de Melo²
Coorientador: Lucas de Moraes³
Jamila Fabiana Costa4
RESUMO
Introdução: O cateterismo vesical é um procedimento invasivo e amplamente utilizado na assistência de enfermagem, com a finalidade de esvaziar a bexiga, monitorar o débito urinário ou auxiliar em situações cirúrgicas. Apesar da sua importância, a prática inadequada desse procedimento pode ocasionar diversas complicações, sobretudo levar as infecções do trato urinário, lesões uretrais e obstruções. Assim, a atuação do enfermeiro é essencial tanto na execução técnica, que faz parte da sua exclusiva atribuição, quanto na garantia da segurança do paciente e prevenção de intercorrências e complicações. Objetivo: Analisar as principais medidas adotadas e delegadas pelo enfermeiro na prevenção de complicações relacionadas à inserção do cateter vesical de demora. Materiais e métodos: O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa, a partir da análise de publicações científicas que abordam o cateterismo vesical e a atuação da enfermagem diante das complicações e cuidados relacionados ao procedimento. A coleta de dados foi realizada em artigos publicados de 2015 à 2025. Por meio de bases de dados eletrônicas como SciELO, PubMed, LILACS, COCHRANE e BVS. Resultados: Observou-se que a aplicação de técnicas assépticas, a higienização adequada das mãos, a escolha correta do tipo de cateter, o monitoramento contínuo do sistema de drenagem e a orientação ao paciente são medidas fundamentais para reduzir complicações. Logo, percebe-se que a educação permanente e a capacitação profissional são determinantes para aprimorar a qualidade do cuidado de enfermagem. Conclusão: Constatou-se a relevância da atuação do enfermeiro no procedimento de cateterismo vesical, e nos seus cuidados para a prevenção de complicações e promoção de um cuidado seguro, ético e humanizado.
Descritores: Enfermagem, Cuidados de Enfermagem, Cateterismo Vesical, Infecções relacionadas a cateteres, Infecções do trato urinário, IRAS e ITU-AC.
1. INTRODUÇÃO
O cateterismo vesical de demora (CVD), também denominado sonda vesical de demora ou sonda de Foley, constitui um procedimento amplamente utilizado em âmbito hospitalares, principalmente em unidades de terapia intensiva, para monitorização do débito urinário, alívio de retenção urinária, cirurgias urológicas ou em situações que exigem controle rigoroso da função renal e manejo de diferentes condições clínicas. Apesar de sua importância, trata-se de um procedimento invasivo que está diretamente associado a complicações, logo o uso prolongado ou inadequado do cateter vesical gera danos graves ao paciente tais como: infecções no trato urinário (ITU) e à ocorrência de sepse, especialmente quando não são seguidas as diretrizes e protocolos recomendados quanto à higienização e técnica asséptica (NOGUEIRA et al., 2017).
É imprescindível que a adoção de práticas como: à higienização adequada das mãos e do material, aliada à realização correta das técnicas de inserção e manutenção do cateter, sejam essenciais para prevenir complicações infecciosas. Nesse caso, a atuação do enfermeiro é decisiva nesse contexto, visto que é responsável por grande parte da assistência direta e envolvimento no manuseio, monitoramento, e manutenção do CVD. Dados da literatura apontam, que de 16 a 25% dos pacientes internados em terapia intensiva são submetidos a esse procedimento, e que entre 35 a 45% desses podem desenvolver infecção do Trato Urinário associada ao Cateter, fatores como o tempo de permanência do dispositivo, falhas na técnica de inserção, manutenção inadequada e manuseio incorreto aumentam o risco dessas infecções. Por tanto, a utilização de práticas baseadas em evidências, o conhecimento das indicações precisas para a passagem do cateter e a vigilância constante para identificar sinais precoces de complicações, como febre, alteração do nível de consciência, hipotensão e turvação da urina, são fundamentais para a segurança do paciente (SAKAI et al., 2020).
Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras entidades sanitárias recomendam a implementação de protocolos institucionais que contemplem medidas preventivas, visando à redução de indicadores de infecção, mortalidade e à melhoria da qualidade da assistência. (BARBOSA et al., 2019).
O enfermeiro desempenha papel essencial nesse processo, uma vez que a inserção do cateter vesical é privativa do mesmo, enquanto a manutenção cotidiana do dispositivo é realizada sob sua supervisão. Cabe a esse profissional avaliar a real necessidade do procedimento, garantir a inserção asséptica, monitorar o sistema de drenagem, orientar a equipe multiprofissional e promover práticas de cuidado seguras e baseadas em evidências. Nesse contexto, a atuação da enfermagem é fundamental para que medidas como a higienização adequada das mãos, uso rigoroso da técnica asséptica, cuidados na manipulação do sistema coletor, avaliação periódica da necessidade de permanência do cateter e retirada precoce quando possível são consideradas fundamentais para a prevenção de complicações (BATISTA et al., 2022).
A adoção de protocolos assistenciais estruturados, como bundles de prevenção (conjunto de medidas) e programas de educação continuada, tem se mostrado uma estratégia eficaz na redução das taxas de Infecção do Trato Urinário Associada ao Cateter (ITU-AC) e no tempo de permanência da sonda vesical de demora, pois contribui para a padronização das condutas, aumenta a adesão da equipe multiprofissional às medidas de segurança e garante um cuidado fundamentado em evidências científicas atualizadas. Assim, a enfermagem assume papel determinante, uma vez que atua diretamente na inserção e na manutenção do cateter, aplicando técnicas assépticas, monitorando sinais de complicações e orientando pacientes e familiares sobre medidas preventivas, além de identificar precocemente fatores de risco, como tempo prolongado de uso, higienização inadequada ou manipulação incorreta do dispositivo. (ROCHA et al., 2023; SILVA et al., 2019).
Dessa forma, a presente pesquisa tem como objetivo discutir e analisar a atuação da enfermagem frente às complicações relacionadas ao cateterismo vesical, destacando a importância da adoção de medidas preventivas, identificação precoce de sinais de infecção e promoção de cuidados seguros e humanizados.
2. OBJETIVO
Analisar as principais medidas de intervenção pelo enfermeiro na prevenção de complicações relacionadas à inserção do cateter vesical de demora.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, cujas etapas realizadas, a saber: formulação do problema, seguida pela coleta de dados, avaliação dos dados, análise dos dados e categorização dos dados e apresentação dos resultados. Esse método permite reunir e sintetizar resultados de pesquisas já realizadas sobre o tema, de forma sistemática e ordenada, proporcionando a análise crítica e a incorporação das evidências disponíveis na prática profissional (DANTAS et al., 2022). Com base na estratégia PICO, a pesquisa tem como foco pacientes submetidos ao uso de cateter vesical, seja de demora ou de alívio, com o objetivo de analisar a relevância da assistência de enfermagem no contexto do cateterismo vesical. A intervenção compreende a implementação de cuidados especializados, incluindo a adoção de técnica asséptica, higienização adequada, manutenção apropriada do dispositivo e medidas preventivas voltadas à redução do risco de infecções do trato urinário. Para fins de comparação, considera-se a ausência ou inadequação da assistência de enfermagem, bem como a avaliação comparativa entre diferentes protocolos e práticas assistenciais adotadas. Espera-se, como desfecho, a diminuição da ocorrência de complicações, com ênfase na prevenção de infecções urinárias associadas ao uso do cateter.
Assim sendo, formulou-se a seguinte questão norteadora: “Qual o papel do enfermeiro nos cuidados relacionados à sonda vesical de demora para a prevenção de infecções e complicações do trato urinário associada a um cateter (ITU-AC)?”
As buscas bibliográficas (Melhorar as palavras de contexto) foram realizadas no período de julho a setembro de 2025, utilizando-se as bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), National Library of Medicine and National Institutes of Health (PubMed), Literatura Latino-Americana e do Caribe em ciências da Saúde (LILACS), Cochrane Library (COCHRANE) e a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Para a definição da estratégia de pesquisa, empregaram-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e seus correspondentes em língua portuguesa e inglesa: “Cateterismo Vesical” (Urinary Catheterization), “Infecções do Trato Urinário” (Urinary Tract Infections) e “Cuidados de Enfermagem” (Nursing Care). Entre as combinações utilizadas, destacam-se: “Cateterismo Vesical AND Infecções do Trato Urinário” e “Infecções do Trato Urinário AND Cuidados de Enfermagem”. A busca foi conduzida por meio da combinação dos descritores com o auxílio dos operadores booleanos AND e OR, de modo a ampliar e refinar os resultados.
Como critérios de exclusão, eliminaram-se estudos duplicados, publicações que não abordavam especificamente os cuidados de enfermagem relacionados ao cateterismo vesical, além de teses, dissertações, resumos de eventos e outras revisões científicas. A amostra preliminar foi composta por 47 artigos e para a análise inicial, a leitura dos estudos foi organizada em três fases e caso os artigos não respondessem à pergunta norteadora da revisão ou não atendessem aos critérios de inclusão, eram excluídos da etapa seguinte. Na primeira fase, a avaliação concentrou se no título e no resumo dos trabalhos; na segunda, deu-se atenção aos métodos, resultados e discussões; e, finalmente, na terceira etapa, realizou-se a leitura integral dos artigos. Após a conclusão dessa etapa, a amostra definitiva passou a ser composta por onze artigos.
Para a análise dos dados, foi elaborado um quadro pelos próprios autores, contendo informações sobre a identificação do artigo (autor, ano e periódico), características da pesquisa (tipo de estudo) e objetivos e resultados das intervenções, com destaque para as principais complicações pós-procedimento. Os dados extraídos das pesquisas analisadas e seus respectivos resultados serão apresentados e discutidos a seguir.
4. RESULTADOS
Após análise dentre os artigos remanescentes, 11 atenderam aos critérios de inclusão, compondo a amostra final desta revisão e o processo de seleção dos estudos foi conduzido nas etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos analisados. De modo geral, os estudos incluídos apresentaram convergência em relação aos principais achados, reforçando a relevância do tema e a necessidade de aprofundamento científico sobre a atuação da enfermagem e suas implicações clínicas e gerenciais no contexto analisado. O quadro 1 a seguir apresenta de forma consolidada as principais características como títulos, objetivos, métodos e conclusões dos estudos, proporcionando uma visão organizada e abrangente das evidências disponíveis sobre o tema.
Quadro 1: Dados dos artigos utilizados para revisão.
| Título | Autores e Ano de publicação | Objetivo | Metodologia | Conclusão |
| Infecção do trato urinário associada ao cateter vesical em uma unidade de terapia intensiva | BARBOSA et al., 2019 | Determinar a prevalência e fatores relacionados à ITU-RC na UTI. | Estudo quantitativo | O tempo de internação e permanência do CVD está diretamente relacionado à ocorrência de ITURC, direcionando para o compromisso dos profissionais da saúde no monitoramento da permanência, avaliação contínua e indicação estrita do uso do CVD. |
| Educação permanente em cateterismo vesical para prevenção de infecção do trato urinário | SILVA et al., 2019 | Analisar o impacto da educação permanente na prevenção e no controle da infecção do trato urinário em pacientes submetidos ao procedimento de cateterismo vesical de demora. | Estudo experimental | A intervenção educacional aumentou significativamente o conhecimento dos profissionais de saúde sobre o procedimento de cateterismo vesical de demora e colaborou para a redução da taxa de infecção das ITUs na instituição, bem como uma evolução no patamar de conhecimento. |
| Incidência de infecção do trato urinário em unidade de terapia intensiva: implementação de um checklist assistencial | ROCHA et al., 2023 | Avaliar a efetividade do checklist reconstruído por uma equipe interdisciplinar, como estratégia de redução de incidência de infecção do trato urinário e do tempo de permanência do uso do cateter vesical de demora em uma UTI adulto. | Estudo quantitativo, retrospectivo e observacional | As ações desenvolvidas pelos profissionais de saúde trazem resultados atenuantes na redução de infecções relacionadas à assistência à saúde. |
| A atuação da enfermagem frente ao paciente em uso de sondagem vesical de demora na prevenção de infecções do trato urinário | BATISTA et al., 2022 | Descrever a atuação do enfermeiro frente ao uso de sonda vesical de demora (SVD) na prevenção das infecções do trato urinário (ITUs). | Estudo Qualitativo | O estudo destaca a importância da atuação do enfermeiro na prevenção de infecções urinárias em pacientes com sonda vesical, ressaltando a necessidade de educação permanente para garantir uma assistência segura e de qualidade. |
| Conhecimento de profissionais intensivistas sobre o bundle para a prevenção de infecção do trato urinário associada ao uso de sondas | NOGUEIRA et al., 2017 | Verificar o conhecimento do bundle de infecção do trato urinário associado ao uso de sondas por profissionais de unidade de terapia intensiva. | Estudo quantitativo e transversal | Medidas de prevenção e controle de infecções causadas pelo uso de sonda vesical, devem ser adotadas pelos profissionais envolvidos no cuidado, baseado nos conhecimentos teóricos e técnicos e na experiência prática, a fim de qualificar a assistência e minimizar o risco de iatrogenias. |
| Infecção do trato urinário associada ao cateter: fatores associados e mortalidade | SAKAI et al., 2020 | Identificar os fatores associados ao desenvolvimento de infecção do trato urinário associada ao cateter (ITU-AC) e mortalidade entre pacientes com cateter vesical. | Estudo de coorte, prospectivo, quantitativo. | Frequência da inserção do dispositivo urinário, períodos prolongados de hospitalização e de permanência com o cateter contribuíram para o desenvolvimento de TU-AC, e as chances de mortalidade foram aumentadas entre pacientes com essa infecção. |
| Prevenção de infecção urinária: indicadores de qualidade da assistência de enfermagem em idosos | ARRAIS et al., 2017 | Analisar a assistência de enfermagem, a partir de indicadores, com foco na prevenção da infecção urinária. | Estudo prospectivo e quantitativo. | O processo de cuidado relacionado à prevenção de infecção do trato urinário necessita de maior atenção, investindo-se em educação continuada, com à prática do cuidado baseada em evidências, com vistas a uma assistência segura e livre de danos. |
| Análise microbiológica e microestrutural dos cateteres vesicais de demora e prevenção de infecção do trato urinário | SOUSA et al., 2022 | Analisar a parte microbiológica e microestrutural de cateteres vesicais de demora e sua associação com a prevenção da infecção do trato urinário. | Estudo observacional transversal | As análises contribuíram para a prática clínica, pois reforçam o desenvolvimento de estratégias eficazes e monitoradas sobre culturas e prevenção de infecção do trato urinário associada a cateteres urinários de demora. |
| Perfil das infecções relacionadas à assistência à saúde na unidade de terapia intensiva de um hospital de referência na mesorregião oeste do Rio Grande do Norte | FREITAS et al., 2024 | Descrever as IRAS relacionando os agentes etiológicos e o tratamento antimicrobiano em uma UTI de um hospital de referência. | Estudo descritivo, retrospectivo e transversal de abordagem quantitativa. | Conclui-se que há elevados níveis de tempo de permanência na UTI e uso de dispositivos invasivos, assim como DI de IRAS alta com identificação microbiológica de bactérias importantes, especialmente por seu perfil de resistência acentuado com destaque para antibióticos da classe dos carbapenêmicos e cefalosporinas de 3ª e 4ª geração. Destaca-se também a presença de não conformidades na administração de antibióticos que podem contribuir para a seleção de bactérias multirresistentes. |
| Infecções relacionadas à assistência à saúde em unidade de terapia intensiva durante a pandemia de COVID-19 | ZIMMERMANN, et al., 2025 | Descrever a ocorrência de infecções relacionadas à assistência em saúde nas primeira e segunda ondas da pandemia da COVID-19 e analisar suas relações com os indicadores gerenciais em uma unidade de terapia intensiva. | Estudo documental retrospectivo | Aumentaram as infecções e uso de dispositivos invasivos da primeira para a segunda ondas da COVID-19 com elevação na ocorrência de eventos adversos relacionados à assistência entre os períodos observados. O aumento nos números de leitos, internações e ocupação também mostrou um impacto positivo no aumento das infecções na unidade. |
| Adesão ao protocolo de prevenção de infecção do trato urinário | ANGHINONI et al., 2018 | Identificar a adesão ao protocolo de prevenção de infecção do trato urinário de acordo com as condições de higiene, identificação, fixação e localização da sonda vesical de demora. | Estudo quantitativo de campo, analítico, explicativo e transversal. | Verificou-se alta adesão da equipe de enfermagem ao protocolo de prevenção de ITUs, com baixo índice de infecção e alto nível de conformidades em relação a higiene, identificação, fixação e localização da SVD. |
5. DISCUSSÃO
A análise das publicações demonstra a importância crucial da atuação do enfermeiro no cateterismo vesical, especialmente na prevenção das Infecções do Trato Urinário Associadas ao Cateter (ITU-AC) e suas complicações. Observou-se que o treinamento contínuo da equipe de enfermagem e a adesão a protocolos institucionais desempenham um papel significativo na redução dos riscos de infecções.
No que refere sobre adesão aos protocolos de higienização das mãos, o estudo de Anghinoni et al., (2018) afirma que uso de técnica estéril durante a inserção do cateter e a manutenção adequada como higienização do meato urinário, fixação correta do cateter, o posicionamento da bolsa coletora abaixo da região pélvica, implementação de bundles (medidas) de prevenção e a avaliação diária para identificar alterações como presença de secreção, alteração da coloração da diurese e a possibilidade de retirada precoce do cateter, são medidas essenciais para a redução dos índices de infecção. Que ressaltam a importância de assegurar o conforto e a privacidade do paciente por meio de uma comunicação empática. Além disso, o registro detalhado das intervenções e das respostas dos pacientes é vital para garantir a continuidade da assistência, conforme recomendado pelas diretrizes em saúde (SILVA et al., 2019).
Bem como, destaca-se que a educação permanente em saúde e o aperfeiçoamento das práticas assistenciais tem papel determinante na diminuição das infecções. Estudos como o de Arrais et al., (2017) apontam que capacitações regulares e auditorias de procedimentos contribuem significativamente para a melhoria da qualidade do cuidado e da segurança do paciente. Em contrapartida, autores como Rocha et al., (2023) e Batista et al., (2022) ressaltam que, apesar das evidências disponíveis, ainda há falhas na adesão às recomendações, muitas vezes relacionadas à sobrecarga de trabalho e à carência de recursos materiais.
Diante disso, pontos relevantes nas publicações referem-se à identificação precoce de sinais de complicações, especialmente de sepse urinária, condição frequentemente associada à permanência prolongada do cateter. Segundo Sousa et al., (2022), o reconhecimento de sintomas como febre, hipotensão, alteração do nível de consciência e turvação da urina deve ser imediato, com atuação rápida da equipe de enfermagem para evitar desfechos graves
Para além das considerações técnicas, a humanização da assistência é um aspecto indispensável, pois o cateterismo pode causar desconforto e ansiedade nos pacientes. Logo, intervindo com sensibilidade e empatia, o enfermeiro garante que o paciente se sinta respeitado e apoiado durante o procedimento. Assim, a equipe de enfermagem precisa estar apta para a identificação de intercorrências que poderão ocorrer com o paciente durante o repouso no pós-procedimento, assumindo a conduta necessária para atuar com eficiência e organização de forma que assistência seja oferecida com qualidade (OLIVEIRA et al., 2021).
As intervenções de enfermagem relacionadas ao cateterismo vesical devem ser fundamentadas em evidências científicas e em protocolos institucionais voltados à segurança do paciente e à prevenção de complicações, de acordo com Sakai et al. (2020), a adoção de práticas baseadas em evidências reduz significativamente o risco de infecções relacionadas à assistência à saúde. O planejamento do cuidado deve abranger a identificação de fatores de risco individuais, como idade, sexo, presença de comorbidades, estado imunológico e hábitos de higiene, além do monitoramento contínuo das condições gerais e da integridade do trato urinário.
Durante a inserção do cateter, torna-se imprescindível o uso de técnica asséptica rigorosa, como higienização correta das mãos, utilização de materiais estéreis e preparo adequado do ambiente, conforme orienta Barbosa et al., (2019). O enfermeiro deve assegurar a privacidade e o conforto do paciente, promovendo comunicação empática e esclarecendo todas as etapas do procedimento, a fim de reduzir o desconforto e a ansiedade. Além disso, o registro das ações executadas e das respostas do paciente deve ser realizado de forma sistemática, garantindo rastreabilidade e continuidade do cuidado.
Segundo Nogueira et al., (2017), a consolidação de uma cultura de segurança e o fortalecimento da educação permanente são estratégias fundamentais para a redução das infecções relacionadas à assistência. A capacitação contínua da equipe de enfermagem deve contemplar a atualização sobre técnicas de inserção, manutenção e retirada do cateter, promovendo adesão às práticas seguras e padronizadas. O enfermeiro deve avaliar diariamente a necessidade de permanência do cateter e promover sua retirada precoce sempre que possível, reduzindo o tempo de exposição e, consequentemente, o risco de infecção (ZIMMERMANN et al., 2025 & FREITAS et al., 2024).
De acordo com Rocha et al., (2023) o estudo teve predominância do sexo masculino entre os pacientes hospitalizados, com maior prevalência de infecção do trato urinário relacionada a cateter (ITU-RC) em pacientes com menos de 60 anos. A taxa de ITU-AC foi de 16,6%, associada principalmente ao tempo de internação e à permanência do cateter vesical de demora (CVD). A prevenção das ITU-AC pode ser otimizada com protocolos institucionais, manutenção adequada e remoção precoce do cateter, destacando-se o papel essencial do enfermeiro na avaliação e cuidado dos pacientes.
Já na pesquisa de Barbosa et al., (2019) os bundles estão sendo implementados em instituições hospitalares como estratégia preventiva para infecções relacionadas a dispositivos, seguindo metodologias normatizadas, conforme preconizado pela Portaria 2.616/98 do Ministério da Saúde. Essas intervenções incluem capacitações e educação continuada dos profissionais de saúde, mostrando resultados positivos na redução de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS). Esse estudo aponta uma redução da densidade de incidência de ITU de 13,85% para 9,88% após implementação de protocolos, embora o tempo médio de uso do cateter tenha sofrido pequena variação devido à complexidade dos pacientes.
A redução do risco de infecções relacionadas à sondagem vesical depende da consolidação de uma cultura de segurança na equipe de enfermagem, baseada em conhecimento sobre fatores de risco e práticas assistenciais seguras. O estudo de Nogueira et al., (2017) também revelou bom conhecimento sobre inserção e revisão diária do cateter, mas lacunas quanto às indicações, manutenção e desconhecimento do termo “bundle”, comprovam que a educação permanente é essencial para qualificar o cuidado, reduzir iatrogenias e promover segurança do paciente.
Conforme a literatura, o risco de infecção relacionada ao cateter aumenta cerca de 5% a cada dia subsequente em que o cateter permanece inserido no paciente, podendo alcançar índices de 35% a 70% após sete e catorze dias de cateterismo de demora, respectivamente. Aproximadamente 50% dos pacientes com cateteres de demora por 15 dias desenvolvem infecção do trato urinário (ITU), e quase 100% dos pacientes apresentam a infecção após cerca de um mês de uso (BARBOSA et al., 2019).
Dessa forma, Sousa et al. (2022) explica que as complicações das infecções do trato urinário associadas aos cateteres incluem uretrite supurativa, divertículo uretral, fístula uretral, e estenose uretral, além de infecção local e irritação por produtos químicos na superfície externa do cateter.
As ITU’s associadas a cateteres estão relacionadas à alta taxa de custo de internação hospitalar e morbidade. Quando não tratadas, essas infecções podem evoluir para complicações graves, como pielite e pielonefrite, podendo ainda levar ao óbito. Estima-se que a taxa de mortalidade associada à ITU relacionada ao cateter seja de aproximadamente 10%. Além disso, o manejo da bexiga com CVD pode ser dificultado por várias condições, como danos uretrais e formação de cálculos vesicais (SAKAI et al., 2020).
Em suma, a literatura evidencia que a qualificação do enfermeiro, a atualização de protocolos e a integralização de práticas assistenciais fundamentadas em evidências são determinantes para a prevenção de complicações, afirmando o papel essencial do enfermeiro na promoção da segurança do paciente e na qualidade da assistência. A ênfase em protocolos atualizados e na abordagem humanizada ressoa como uma estratégia eficaz para enfrentar os desafios associados ao cateterismo vesical. A enfermagem, como protagonista no processo de cuidado, deve integrar o conhecimento técnico-científico às práticas de segurança, desenvolvendo ações que unam prevenção, educação e assistência qualificada (ARRAIS et al., 2017).
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS/CONCLUSÃO
O presente estudo evidenciou que a atuação da enfermagem no cateterismo vesical é fundamental para a prevenção de complicações, especialmente as Infecções do Trato Urinário Associadas ao Cateter (ITU-AC). Observou-se que o cuidado prestado pela equipe de enfermagem vai além da execução técnica do procedimento, abrangendo a capacitação contínua, a implementação de protocolos institucionais e a adoção de estratégias baseadas em evidências. Tais medidas contribuem para a redução de riscos e danos ao paciente, a minimização de intercorrências, a promoção de um ambiente seguro e a diminuição do tempo de internação, assegurando assistência qualificada e humanizada. Nesse contexto, o enfermeiro desempenha papel central tanto na aplicação de técnicas assépticas quanto no monitoramento e avaliação constante do paciente, oferecendo suporte, acolhimento e garantindo que o procedimento seja realizado com ética, respeito, sensibilidade e segurança.
Dessa forma, conclui-se que a assistência de enfermagem no cateterismo vesical requer integração entre conhecimento técnico, protocolos assistenciais bem definidos e vigilância contínua, a fim de prevenir complicações e promover a segurança do paciente. A presença ativa do enfermeiro na identificação precoce de intercorrências, no manejo adequado das situações adversas e na educação permanente da equipe contribui significativamente para reduzir infecções e outros agravos, fortalecendo a qualidade assistencial e a cultura de segurança. Assim, torna-se evidente que o papel da enfermagem é indispensável na promoção da saúde e no bem-estar do paciente hospitalizado, assegurando cuidado humanizado e eficiente durante todo o processo de cateterismo vesical.
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¹Discente do Curso de Enfermagem na Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, Brasil
²Docente da Universidade Anhembi Morumbi
³Co orientador e Preceptor do Curso de Enfermagem, Universidade Anhembi Morumbi
4Coordenadora Geral da Área da Saúde da Universidade Anhembi Morumbi
