CORRELAÇÃO ENTRE NÍVEL DE ATIVIDADE FÍSICA, HISTÓRICO DE EXERCÍCIOS E IMPACTO FUNCIONAL DA DOR LOMBAR EM GESTANTES DE ALTA VULNERABILIDADE

CORRELATION BETWEEN LEVEL OF PHYSICAL ACTIVITY, EXERCISE HISTORY AND FUNCTIONAL IMPACT OF LOW BACK PAIN IN PREGNANT WOMEN OF HIGH VULNERABILITY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511160004


Beatriz Bernardes Ribeiro1
Lívia Maria Ribeiro Rosário2
Jéssica Amâncio2
Cíntia Aline Martins2


RESUMO

A dor lombar (DL) é um sintoma musculoesquelético comum na gestação, com alta prevalência e impacto significativo na funcionalidade e qualidade de vida das mulheres. O objetivo deste estudo transversal foi correlacionar a intensidade da DL, o nível e histórico de atividade física (AF), e a interferência da dor nas Atividades de Vida Diária (AVDs) em gestantes de alta vulnerabilidade. A amostra foi composta por 29 gestantes, com idade média de 26,13 ± 8,02 anos e semana gestacional média de 31,03 ± 2,85. A intensidade média da dor, avaliada pela EVA, foi de 4,44±2,77. A amostra apresentou um baixo nível de AF (1078, 06 ± 1447,40) MET-min/semana), com a maioria classificada como insuficientemente ativa ou sedentária. O teste Tau-b de Kendall revelou que não houve correlação significativa entre o nível de AF atual e a intensidade da dor (p=0,614). Contudo, foi identificada uma correlação forte e altamente significativa entre a intensidade da dor e a interferência nas AVDs (p=0,00), além de uma correlação fraca com o peso corporal. Um achado de relevância clínica foi a correlação moderada entre a prática de AF antes da gestação e a menor propensão a desenvolver restrições para AF atuais (p=0,02). Conclui-se que a DL tem um impacto funcional direto e forte em gestantes de alta vulnerabilidade, sendo o histórico de exercícios um fator protetor contra as restrições. Tais achados sublinham a necessidade de intervenções preventivas e educativas no pré-natal focadas na promoção de atividade física adaptada e no manejo da dor para preservar a funcionalidade.

Palavras-chave: Gestantes. Dor Lombar. Atividade Física.

1 INTRODUÇÃO

A gestação é um período fisiológico complexo e dinâmico, marcado por profundas alterações anatômicas, fisiológicas, hormonais e emocionais no corpo da mulher, que visam garantir o desenvolvimento fetal, a manutenção da gravidez e a preparação para o parto e o puerpério (TAN, TAN & LOY, 2013; JUSTINO & PEREIRA, 2016). 

Essas mudanças afetam diversos sistemas do organismo, como o cardiovascular, respiratório, hematológico, gastrointestinal, renal e endócrino, provocando adaptações que, embora naturais, podem causar desconfortos e sintomas físicos, especialmente relacionados ao sistema musculoesquelético (SANTOS-ROCHA & SZUMILEWICZ, 2022).

Dentre os sintomas mais frequentes no período gestacional, destaca-se a dor lombar, que acomete entre 45% e 75% das gestantes em algum momento da gravidez. Esse quadro doloroso é ocasionado, principalmente, pelo crescimento uterino, aumento do volume abdominal, modificação do centro de gravidade e sobrecarga das estruturas da coluna vertebral, especialmente na região lombossacral (RODRIGUES, 2011). 

Além disso, alterações hormonais, como o aumento da relaxina e da progesterona, promovem frouxidão ligamentar e retenção hídrica, o que contribui para maior instabilidade articular e risco de lesões (SANTOS-ROCHA & SZUMILEWICZ, 2022).

Paralelamente às mudanças físicas, a gestação é um período de intensas alterações emocionais e comportamentais, o que pode interferir na disposição e adesão à prática de atividade física. Entretanto, a literatura científica tem demonstrado que a prática regular e orientada de atividade física durante a gestação traz diversos benefícios para a saúde da mulher e do bebê, incluindo a prevenção de doenças metabólicas como diabetes gestacional, distúrbios hipertensivos, depressão e ansiedade, além da melhora da qualidade do sono, do condicionamento cardiorrespiratório e da funcionalidade geral (DIPIETRO et al., 2019; MOTTOLA et al., 2018; ÖZKAN et al., 2020).

Com base nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde, gestantes saudáveis devem realizar, no mínimo, 150 minutos de atividade física moderada por semana, distribuídos ao longo de vários dias, com o objetivo de garantir benefícios à saúde física e mental (BRASIL, 2017).

No entanto, dados da Pesquisa Nacional de Saúde apontam que apenas 37,2% das gestantes brasileiras praticam alguma atividade física, o que evidencia uma baixa adesão às recomendações e um importante desafio em saúde pública (IBGE, 2019; CAMPOS et al., 2021).

A baixa prática de exercícios nesse período pode ser atribuída a diversos fatores, como medo de prejudicar o bebê, falta de conhecimento, barreiras sociais, culturais e ausência de orientação adequada por parte dos profissionais de saúde (COLL et al., 2017; OKAFOR & GOON, 2020; MCKEOUGH, BLANCHARD & PICCINI 2022).

É essencial, portanto, que as gestantes recebam informações baseadas em evidências sobre os tipos de exercícios seguros e os impactos positivos da prática regular, considerando-se ainda a individualidade de cada mulher, seu histórico clínico e as particularidades da gravidez. Diante disso, torna-se relevante compreender a influência da atividade física sobre as alterações musculoesqueléticas mais comuns na gestação, como a dor lombar, que compromete significativamente a qualidade de vida e a funcionalidade das mulheres. 

Diante do exposto, este estudo tem como objetivo principal analisar a correlação entre o nível de atividade física e a prevalência de dor lombar em gestantes, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade, buscando contribuir com evidências que subsidiem estratégias de prevenção e promoção da saúde no período pré-natal.

2 METODOLOGIA 
2.1 Tipo de Estudo

Estudo transversal, observacional e correlacional, de abordagem quantitativa.

2.2 População e Amostra

O estudo foi realizado na Associação Afeto do município de Varginha/MG que oferece suporte a gestantes em vulnerabilidade mediante assinatura do termo de consentimento institucional. A participação foi voluntária e formalizada mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram incluídas gestantes que atenderam aos seguintes critérios: Gestantes a partir do segundo trimestre de gestação e concordar em participar do estudo e assinar o TCLE. Foram excluídas gestantes com restrição médica para a prática de atividade física ou dificuldade de comunicação.

2.3 Coleta de Dados

Os dados foram coletados entre maio e julho, por meio de um questionário estruturado contendo:

  • Dados sociodemográficos;
  • Avaliação do nível de atividade física por meio do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ) (MATSUDO et al., 2001);
  • Avaliação da dor lombar por meio da Escala Visual Analógica (EVA) (HUSKISSON, 1974).

O IPAQ obtém informações sobre a prática de atividades físicas nos últimos sete dias, divididas em três categorias principais:

  1. Atividades vigorosas (e.g., corrida, musculação intensa, esportes competitivos);
  2. Atividades moderadas (e.g., caminhada rápida, ciclismo em ritmo moderado, tarefas domésticas intensas);
  3. Caminhadas (independentemente da finalidade, como deslocamento ou lazer).

Para a estimativa do dispêndio energético, utiliza-se a multiplicação do tempo gasto em cada atividade pela frequência semanal e pelo valor de MET correspondente:

  • Atividades vigorosas = 8 METs
  • Atividades moderadas = 4 METs
  • Caminhadas = 3,3 METs

A equação utilizada para o cálculo do escore do IPAQ é dada por: Escore IPAQ=(MET da atividade)×(minutos/dia)×(dias/semana). Por exemplo, um indivíduo que realiza 30 minutos de caminhada cinco vezes por semana teria um escore de: 3,3×30×5=495 MET-min. Com base no escore total obtido, os indivíduos são categorizados da seguinte forma:

  • Sedentário: < 600 MET-min/semana
  • Insuficientemente ativo: 600 a 1.499 MET-min/semana
  • Ativo: 1.500 a 2.999 MET-min/semana
  • Muito ativo: ≥ 3.000 MET-min/semana
2.4 Análise dos Dados

Os dados foram coletados, inseridos em planilhas do Excel do Windows®, office 2019. Utilizou-se programa no Statistical Package for the Social Sciences, versão 20.0 (SPSS Inc., Chicago, IL, USA). Para elaboração dos gráficos de correlação foi utilizado o software GraphPad Prism, versão 5.0 (GraphPad Software Inc., La Jolla, California, USA). 

Para as variáveis descritivas, foram coletadas: média, desvio padrão, porcentagem e frequência absoluta. Inicialmente, aplicou-se o teste de Shapiro Wilk e Kolmogorv-Smirnov em todos os dados coletados. Em seguida, para as análises de correlação foi aplicada correlação de Tau b de Kendall. O nível de significância adotado para este estudo foi de p<0,05. 

2.5 Aspectos Éticos

O estudo seguirá as diretrizes da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde e será submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Plataforma Brasil. As gestantes assinarão o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A Tabela 01 apresenta as características sociodemográficas e clínicas das participantes. A média de idade das gestantes foi de 26,13 ± 8,02, com peso médio de 74,66 ± 14,95, e a média da semana gestacional foi de 31,03 ± 2,85. A maioria das participantes possuía Ensino Médio Completo (44,8%, n=13). A profissão “Dona de Casa” predominou, sendo relatada por 86,2% (n=25) da amostra.

A intensidade média da dor lombar, avaliada pela Escala Visual Analógica (EVA), foi de 4,44±2,77. A dor interferiu nas Atividades de Vida Diária (AVDs) para grande parte das gestantes: 31,0% (n=9) relataram interferência moderada, 13,8% (n=4) relataram muita interferência, e 3,3% (n=1) relataram que a dor impede totalmente as AVDs. Apenas 41,4% (n=12) das participantes relataram que a dor não interfere nas AVDs.

O Nível de Atividade Física (IPAQ) médio foi de 1078, 06 ± 1447,40 MET-min/semana. A maioria das participantes (86,2%, n=25) relatou não apresentar restrição para atividade física. Apenas 13,8% (n=4) das gestantes praticavam atividade física antes da gestação.

Fonte: Autoras (2025). Legenda: As variáveis descritivas foram apresentadas conforme a Média, Desvio padrão (M±DPM) e porcentagem (%). 

Na Tabela 02 podemos observar que houve uma correlação forte e altamente significativa entre a Interferência da Dor nas AVDs e a Intensidade da dor (EVA) (p=0,00). O Gráfico 01 ilustra essa associação positiva entre a intensidade da dor e o impacto nas Atividades de Vida Diária. Foi observada uma correlação moderada e significativa entre a prática de Atividade Física antes da Gestação e a Restrição para Atividade Física atual (p=0,02). O Peso corporal (kg) apresentou uma correlação fraca, mas significativa, com a Interferência da Dor nas AVDs (p=0,01). Não houve correlação significativa entre a IPAQ e a EVA (p=0,614).

Fonte: Autoras (2025). Legenda: IPAQ= Questionário Internacional de Atividade Física; AVDs= Atividades de Vida Diária. Foi aplicado o teste Tau-b de Kendall para correlação de dados não paramétricos. 
 Fonte: Autoras (2025). 

A dor lombar é um sintoma comum durante a gestação, acometendo grande parte das gestantes e impactando significativamente a funcionalidade e a qualidade de vida (COUTINHO et al., 2014; GANDOLFI et al., 2019). Neste estudo, a intensidade média da dor lombar relatada pelas gestantes foi de 4,44 ± 2,77 na EVA, indicando uma dor de intensidade moderada, que, em alguns casos, interfere nas atividades de vida diária (AVDs), como evidenciado por 31% das participantes que relataram interferência moderada e 13,8% que relataram interferência significativa. Esses achados corroboram estudos prévios que descrevem a dor lombar como uma queixa relevante durante o período gestacional (SANTOS-ROCHA & SZUMILEWICZ, 2022).

Quanto à atividade física, a amostra apresentou um escore médio de 1078,06 ± 1447,40 MET-min/semana, indicando que a maioria das gestantes se enquadra como insuficientemente ativa ou sedentária, evidenciando a baixa adesão à prática regular de exercícios durante a gestação, conforme observado em pesquisas nacionais (IBGE, 2019; CAMPOS et al., 2021). 

Apenas 13,8% das participantes relataram ter praticado atividade física antes da gestação, o que pode ter influenciado o nível atual de condicionamento físico e a percepção de dor lombar.

A análise de correlação entre o nível de atividade física e a intensidade da dor lombar não apresentou associação significativa (τb = 0,073; p = 0,614), sugerindo que, na amostra estudada, a prática de atividade física atual não se relacionou diretamente com a redução da dor lombar. Esse resultado pode ser explicado pelo baixo nível de atividade física relatado, pela diversidade nas modalidades de exercícios praticados ou pela variabilidade individual na percepção de dor, o que é consistente com estudos que apontam que a intensidade, frequência e tipo de exercício influenciam a efetividade na prevenção da dor lombar (DIPIETRO et al., 2019; MOTTOLA et al., 2018).

No entanto, observou-se correlação moderada entre a prática de atividade física antes da gestação e a presença de restrição para atividades físicas atuais (τb = 0,420; p = 0,02), indicando que mulheres que eram ativas previamente apresentaram menor propensão a desenvolver limitações para exercícios durante a gestação. Além disso, a intensidade da dor lombar mostrou correlação forte com a interferência nas AVDs (τb = 0,640; p = 0,00), reforçando que a dor lombar tem impacto direto sobre a funcionalidade diária, o que pode comprometer o bem-estar físico e emocional das gestantes. Estudos evidenciam que a dor lombar durante a gestação está associada à redução da capacidade funcional, dificuldade para realizar atividades de autocuidado, trabalho e sono, impactando significativamente na qualidade de vida (OLIVEIRA et al., 2020; KOVACS et al., 2022).

Outro achado relevante foi a correlação fraca, mas significativa, entre o peso corporal e a interferência da dor lombar nas AVDs (τb = 0,350; p = 0,01), sugerindo que o aumento de peso durante a gestação contribui para maior sobrecarga na coluna lombossacral e potencializa a limitação funcional, alinhando-se às evidências que destacam a influência do ganho ponderal sobre a dor lombar gestacional (GANDOLFI et al., 2019; SANTOS-ROCHA & SZUMILEWICZ, 2022).

Esses resultados reforçam a importância de programas de orientação e promoção de atividade física adaptada durante a gestação, considerando a individualidade de cada gestante, seu histórico prévio de atividade física, limitações clínicas e impactos funcionais da dor lombar. Segundo   Kovacs et al. (2022), estratégias fisioterapêuticas direcionadas ao fortalecimento muscular, melhora da postura e técnicas de manejo da dor podem contribuir para a manutenção da funcionalidade e qualidade de vida dessa população.

É importante reconhecer as limitações metodológicas deste estudo. Por ser um delineamento transversal, não é possível estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis; os achados indicam apenas associações no momento da coleta de dados. O baixo nível de atividade física da amostra e sua reduzida representatividade de gestantes ativas antes da gravidez também podem ter influenciado o resultado de não associação entre a atividade física atual e a intensidade da dor. Sugerem-se estudos futuros de natureza longitudinal para avaliar a causalidade e a eficácia de intervenções específicas ao longo da gestação. 

Em síntese, embora o nível atual de atividade física não tenha se mostrado correlacionado com a intensidade da dor lombar nesta amostra, os achados indicam que gestantes com histórico de prática regular de exercícios apresentam menores restrições para atividade física e que a dor lombar está fortemente associada à limitação funcional, destacando a necessidade de intervenções preventivas e educativas durante o pré-natal.

4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo transversal revelou a alta prevalência e o impacto da dor lombar na funcionalidade de gestantes em alta vulnerabilidade., sendo a intensidade média da dor classificada como moderada. Os achados demonstraram que a dor lombar está fortemente associada à limitação funcional, evidenciada pela correlação forte e significativa entre sua intensidade e a interferência nas Atividades de Vida Diária (AVDs). Adicionalmente, o aumento do peso corporal também contribuiu, de forma fraca, mas significativa, para essa limitação funcional. 

Embora a maioria da amostra se enquadre como insuficientemente ativa ou sedentária e o nível de atividade física atual não tenha se correlacionado significativamente com a intensidade da dor, o histórico de exercícios demonstrou ser um fator protetor: a prática de atividade física antes da gestação mostrou correlação moderada com a menor propensão a desenvolver restrições para atividades físicas durante a gravidez. 

Em síntese, estes resultados sublinham a necessidade de intervenções preventivas e educativas no acompanhamento pré-natal, focadas na orientação ativa das gestantes sobre a importância da atividade física adaptada, do controle ponderal e de estratégias fisioterapêuticas, visando mitigar o impacto funcional da dor lombar e promover sua qualidade de vida.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de Fisioterapia do Grupo Unis e-mail: beatriz.ribeiro2@alunos.unis.edu.br

2Docentes do Curso Superior de Fisioterapia do Grupo Unis. Mestre em Ciência da Reabilitação. e-mail: fisioterapia.unis.edu.br

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