REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511111511
Gabriela Pereira Fávaro
Tricya Naely da Silva Rocha
RESUMO
O Papilomavírus humano (HPV) é um dos principais agentes infecciosos associados ao câncer do colo do útero, uma das doenças mais incidentes entre mulheres em todo o mundo. Este trabalho tem como objetivo analisar os desafios enfrentados na prevenção e diagnóstico precoce do câncer do colo uterino em Porto Velho – RO, com ênfase na importância do rastreamento e da vacinação. A pesquisa foi realizada por meio de revisão bibliográfica, considerando dados epidemiológicos e estratégias de saúde pública. Observou-se que a falta de informação, o preconceito e a baixa adesão ao exame preventivo Papanicolau são fatores determinantes para o diagnóstico tardio. Conclui-se que o fortalecimento das políticas públicas de saúde, campanhas educativas e ampliação do acesso aos serviços de prevenção são fundamentais para reduzir a mortalidade por câncer do colo uterino.
Palavras-chave: HPV. Câncer de colo de útero. Prevenção. Diagnóstico precoce. Saúde da mulher.
ABSTRACT
The Human Papillomavirus (HPV) is one of the main infectious agents associated with cervical cancer, one of the most prevalent diseases among women worldwide. This study aims to analyze the challenges faced in preventing and early diagnosing cervical cancer in Porto Velho – RO, emphasizing the importance of screening and vaccination. The research was carried out through a bibliographic review, considering epidemiological data and public health strategies. It was observed that the lack of information, prejudice, and low adherence to the Pap smear are determining factors for late diagnosis. It is concluded that strengthening public health policies, educational campaigns, and expanding access to prevention services are essential to reduce mortality from cervical cancer.
Keywords: HPV. Cervical cancer. Prevention. Early diagnosis. Women’s health.
1. INTRODUÇÃO
O câncer do colo do útero representa uma das principais neoplasias que acometem mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo, configurando-se como um grave problema de saúde pública, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e econômica. Globalmente, ele se mantém entre as neoplasias mais prevalentes entre as mulheres, e sua incidência é particularmente elevada em regiões com menor acesso a serviços especializados de saúde, refletindo desigualdades estruturais profundas. No Brasil, a situação em regiões como Rondônia, e especificamente em Porto Velho, reflete esses desafios, já que fatores socioeconômicos, culturais e estruturais contribuem para a manutenção de altos índices de incidência e mortalidade pelo câncer cervical (Ferrari et al., 2025; Ministério da Saúde, 2023).
O papilomavírus humano (HPV) é reconhecido quase universalmente como o principal agente etiológico desta neoplasia. Trata-se de um vírus com alta prevalência mundial, especialmente nos tipos oncogênicos 16 e 18, responsáveis pela grande maioria dos casos de câncer de colo do útero. A infecção pelo HPV ocorre predominantemente por via sexual e, embora a maioria das infecções seja transitória, a persistência do vírus pode levar ao desenvolvimento de lesões precursoras e, eventualmente, ao câncer invasivo. Esse entendimento fundamental embasa as estratégias atuais de prevenção e controle da doença (Zhang; Xu; Zhang, 2019; Jain et al., 2023; Silveira; Marinho; Matos, 2025).
Além dos aspectos clínicos e biomédicos, o impacto socioeconômico do câncer cervical em regiões vulneráveis não pode ser minimizado. A doença afeta mulheres em idade produtiva, comprometendo não apenas sua saúde individual, mas também repercutindo nas famílias e nas comunidades onde vivem. Em locais como Rondônia, a incidência contínua de casos e a mortalidade elevada evidenciam a necessidade premente de intervenções eficazes que compreendam não apenas a biologia da doença, mas também as condições sociais e econômicas subjacentes (Castro et al., 2025).
A prevenção e o diagnóstico precoce do câncer cervical constituem os pilares fundamentais para a diminuição da morbimortalidade associada. Nos últimos anos, houve avanços significativos no desenvolvimento e implementação de estratégias de vacinação contra o HPV, que demonstram alta eficácia em reduzir a incidência de lesões precursoras e, consequentemente, dos casos invasivos. Paralelamente, o rastreamento citopatológico, especialmente por meio do exame de Papanicolau, bem como testes moleculares para o DNA do HPV, têm se mostrado essenciais para a detecção precoce das alterações cervicais, permitindo intervenções oportunas e melhor prognóstico (Silva; Pereira; Deuner, 2024; Silva, 2024; Garcia et al., 2024)
Entretanto, apesar dos avanços técnicos e científicos, persistem desafios significativos na ampliação da cobertura vacinal e na garantia do acesso a serviços de detecção precoce, sobretudo em áreas com fragilidades socioeconômicas e estruturais como Porto Velho. Barreiras culturais, falta de informação adequada, preconceitos e insuficiência dos sistemas de saúde comprometem a efetividade dessas políticas públicas, refletindo em taxas insuficientes de adesão ao exame e à vacinação (Braz; Reis, 2025).
Diante do exposto, o presente trabalho justificou-se pela necessidade de investigar os desafios para a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer do colo do útero em Porto Velho, buscando compreender os fatores que contribuem para a persistência da doença na região e propor estratégias que possam subsidiar políticas públicas e intervenções mais eficazes, com foco na redução da incidência, mortalidade e desigualdades associadas.
Diante disso, o objetivo foi realizar uma revisão de literatura sobre as tecnologias disponíveis para a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer do colo do útero associado à infecção por HPV, analisando suas potencialidades e limitações e discutindo como sua aplicação pode contribuir para a melhoria dos serviços de saúde em Porto Velho
2. REFERENCIAL TEÓRICO
O câncer do colo do útero é uma enfermidade maligna que acomete mulheres por todo o globo. Ele se manifesta quando as células do colo do útero, a porção inferior do útero que se conecta à vagina, sofrem alterações anormais e começam a crescer de maneira descontrolada. Essa condição representa um significativo problema de saúde pública, não apenas pela sua prevalência, mas também pelo seu impacto na qualidade de vida e na mortalidade feminina. A relevância global do câncer do colo do útero reside no fato de que, apesar de ser uma doença em grande parte evitável, ainda é responsável por um número considerável de óbitos em todo o mundo, especialmente em países com recursos limitados e acesso restrito a serviços de saúde (Stela; Sereno; Rodrigues, 2024).
O câncer do colo do útero ocupa a quarta posição entre os tipos de câncer mais comuns que afetam mulheres em escala mundial. Essa estatística sublinha a magnitude do problema e a necessidade urgente de implementar estratégias eficazes de prevenção e controle. A alta incidência da doença em diversas regiões do mundo demanda uma abordagem abrangente que envolva desde a promoção da saúde e a educação da população até a implementação de programas de rastreamento e tratamento acessíveis e de qualidade. A conscientização sobre os fatores de risco, a importância da vacinação contra o HPV e a realização regular de exames preventivos são pilares fundamentais para reduzir a carga global do câncer do colo do útero (Gultekin et al., 2020).
A infecção pelo Papiloma Vírus Humano (HPV) é a causa primária do câncer do colo do útero, estando presente em aproximadamente 99,7% dos casos. O HPV é um vírus comum, transmitido principalmente por contato sexual, e existem diversos tipos, alguns dos quais são considerados de alto risco para o desenvolvimento de câncer. A infecção persistente por esses tipos de HPV pode levar a alterações celulares no colo do útero que, ao longo do tempo, podem evoluir para o câncer. A compreensão do papel do HPV na carcinogênese cervical é crucial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção eficazes, como a vacinação, que visa proteger contra os tipos de HPV mais associados ao câncer (Vicente, 2023).
O rastreamento regular desempenha um papel crucial na prevenção do câncer do colo do útero, uma vez que a detecção precoce aumenta significativamente as chances de regressão da doença. O exame de Papanicolau, um teste simples e amplamente disponível, permite identificar alterações celulares no colo do útero que podem indicar a presença de lesões pré-cancerosas ou cancerosas. A realização periódica deste exame, conforme as recomendações médicas, possibilita o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno, evitando a progressão da doença para estágios mais avançados e aumentando as chances de cura. Além do Papanicolau, outros métodos de rastreamento, como a pesquisa de HPV, também podem ser utilizados para identificar mulheres com maior risco de desenvolver câncer do colo do útero (Arruda et al., 2025).
Em 2018, estimou-se que houve 570.000 novos casos de câncer do colo do útero e 311.000 mortes relacionadas a essa doença em todo o mundo. Esses números revelam a magnitude do impacto global do câncer do colo do útero na saúde das mulheres. A alta incidência e mortalidade da doença, especialmente em países em desenvolvimento, ressaltam a necessidade urgente de intensificar os esforços de prevenção, rastreamento e tratamento em escala global. A implementação de programas abrangentes e acessíveis, que abordem desde a vacinação contra o HPV até o diagnóstico precoce e o tratamento adequado, é essencial para reduzir a carga global do câncer do colo do útero e melhorar a qualidade de vida das mulheres em todo o mundo (Gultekin et al, 2020).
A incidência e a mortalidade do câncer do colo do útero são desproporcionalmente maiores em regiões como a África Subsaariana. Essa disparidade reflete as desigualdades no acesso a serviços de saúde, saneamento básico e educação, bem como a prevalência de fatores de risco como a infecção pelo HIV e a falta de programas de rastreamento eficazes. A alta carga da doença na África Subsaariana demanda uma atenção especial e a implementação de intervenções específicas que abordem as necessidades e os desafios únicos da região. O fortalecimento dos sistemas de saúde, a capacitação de profissionais de saúde e a promoção da conscientização sobre a prevenção do câncer do colo do útero são medidas cruciais para reduzir a incidência e a mortalidade da doença nessa região (Pimple; Mishra, 2022).
A incidência global do câncer do colo do útero tem apresentado um decréscimo, mas com variações regionais significativas. Em algumas regiões, como a Europa e a América do Norte, a implementação de programas de rastreamento e vacinação eficazes tem contribuído para uma redução substancial na incidência da doença. No entanto, em outras regiões, como a África Subsaariana e partes da Ásia, a incidência do câncer do colo do útero permanece alta ou até mesmo crescente. Essas variações regionais destacam a importância de adaptar as estratégias de prevenção e controle às necessidades e aos desafios específicos de cada região. A análise das tendências globais e regionais da incidência do câncer do colo do útero é fundamental para orientar as políticas de saúde pública e alocar recursos de forma eficiente (Zhang et al., 2021).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um apelo global para a eliminação do câncer do colo do útero. Essa iniciativa ambiciosa visa reduzir a incidência da doença para menos de 4 casos por 100.000 mulheres-ano em todos os países do mundo. A estratégia da OMS para a eliminação do câncer do colo do útero se baseia em três pilares: vacinação contra o HPV, rastreamento e tratamento. A implementação abrangente e coordenada dessas intervenções, juntamente com o fortalecimento dos sistemas de saúde e a promoção da equidade no acesso aos serviços, é essencial para alcançar o objetivo da eliminação do câncer do colo do útero e melhorar a saúde e o bem-estar das mulheres em todo o mundo (Gultekin et al, 2020).
O HPV é o principal fator de risco para o câncer do colo do útero, com os tipos 16 e 18 sendo os mais comuns. Esses dois tipos de HPV são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero em todo o mundo. A infecção persistente por esses tipos de HPV pode levar a alterações celulares no colo do útero que, ao longo do tempo, podem evoluir para o câncer. A vacinação contra o HPV é uma medida preventiva eficaz, pois protege contra os tipos de HPV mais associados ao câncer. Além da vacinação, o rastreamento regular e o tratamento oportuno das lesões pré-cancerosas são fundamentais para prevenir o desenvolvimento do câncer do colo do útero (Vicente, 2023; Lopes et al., 2024).
Fatores socioeconômicos, como baixo nível de escolaridade e renda, estão associados ao aumento do risco de câncer do colo do útero. Mulheres com baixo nível de escolaridade podem ter menos conhecimento sobre os fatores de risco e as medidas de prevenção do câncer do colo do útero. Além disso, mulheres com baixa renda podem enfrentar dificuldades no acesso a serviços de saúde, como a vacinação contra o HPV e o rastreamento regular. A desigualdade socioeconômica contribui para a alta incidência e mortalidade do câncer do colo do útero em populações vulneráveis (Lopes et al., 2024).
A falta de acesso a informações e serviços de saúde contribui para a alta incidência de câncer do colo do útero em regiões menos desenvolvidas. Em muitas regiões, as mulheres não têm acesso a informações precisas e confiáveis sobre os fatores de risco, as medidas de prevenção e os sinais e sintomas do câncer do colo do útero. Além disso, a falta de serviços de saúde acessíveis e de qualidade dificulta a vacinação contra o HPV, o rastreamento regular e o tratamento oportuno das lesões pré-cancerosas. A superação dessas barreiras é fundamental para reduzir a carga do câncer do colo do útero em regiões menos desenvolvidas (Lopes et al., 2024; Luvin-Morales et al., 2024).
Outros fatores de risco para o câncer do colo do útero incluem tabagismo, coinfecção por outras DSTs e múltiplos parceiros sexuais. O tabagismo enfraquece o sistema imunológico e aumenta o risco de infecção persistente pelo HPV. A coinfecção por outras DSTs, como o HIV, também aumenta o risco de câncer do colo do útero. Mulheres com múltiplos parceiros sexuais têm maior probabilidade de serem infectadas pelo HPV. A adoção de comportamentos sexuais seguros, como o uso de preservativos, pode reduzir o risco de infecção pelo HPV e, consequentemente, o risco de câncer do colo do útero (Luvin-Morales et al., 2024).
3. METODOLOGIA
3.1 Tipo de estudo
Trata-se de um estudo de caráter exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa, realizado por meio de revisão de literatura narrativa. O objetivo é reunir, analisar e discutir produções científicas publicadas entre 2020 e 2025 que abordam tecnologias de rastreamento e detecção do HPV, prevenção e diagnóstico precoce do câncer do colo do útero, bem como sua aplicabilidade em diferentes contextos epidemiológicos e socioeconômicos, com ênfase na realidade de Porto Velho.
3.2 Local de estudo
A pesquisa foi conduzida de forma remota, a partir de bases de dados e repositórios científicos nacionais e internacionais, tais como: PubMed (U.S. National Library of Medicine), SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), Google Scholar e BVS (Biblioteca Virtual em Saúde / Virtual Health Library).
3.3 Ferramenta de estudo
A busca foi realizada por meio de palavras-chave (descritores DeCS/MeSH) em português e inglês, como: HPV, câncer do colo do útero, rastreamento, diagnóstico precoce, tecnologias de detecção, Porto Velho, Brasil.
3.4 Critérios de inclusão e exclusão
Para a seleção do material analisado, foram estabelecidos critérios de inclusão e exclusão a fim de garantir a qualidade e a relevância das fontes consultadas. Foram incluídos os estudos publicados no período compreendido entre 2020 e 2025, contemplando artigos originais, revisões sistemáticas, revisões narrativas, documentos oficiais e relatórios técnicos que abordaram tecnologias de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce do HPV e do câncer cervical. Foram consideradas produções redigidas em português, inglês e espanhol, de modo a ampliar o escopo da pesquisa e contemplar diferentes realidades epidemiológicas.
Por outro lado, foram excluídos os artigos publicados antes de 2020, estudos que não apresentaram relação direta com o HPV ou com o câncer do colo do útero, bem como trabalhos que não demonstraram rigor científico, tais como artigos de opinião, textos sem referências ou resumos sem acesso ao texto completo.
3.5 Métodos de análise dos dados
Os dados obtidos a partir da revisão de literatura foram organizados em um quadro comparativo, permitindo a sistematização das principais informações sobre tecnologias de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce do HPV e do câncer cervical. A análise seguiu abordagem qualitativa, com ênfase na identificação de padrões, convergências e divergências entre os estudos selecionados, considerando o contexto epidemiológico, socioeconômico e geográfico de aplicação.
Foi realizada uma análise temática, categorizando os achados em eixos como: cobertura vacinal, adesão ao exame citopatológico, utilização de testes moleculares, barreiras culturais e estruturais, além de estratégias de implementação de políticas públicas em diferentes cenários. Para comparação crítica, os resultados encontrados na literatura nacional e internacional foram confrontados com dados disponíveis sobre Porto Velho, de modo a evidenciar lacunas, limitações e potencialidades no cenário local.
A análise interpretativa foi conduzida de forma a integrar evidências científicas atuais (2020– 2025), destacando tendências, inovações e recomendações aplicáveis à realidade do município. Os resultados foram apresentados de maneira descritiva e comparativa, com apoio de tabelas e gráficos quando necessário, visando garantir clareza e robustez na interpretação.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao todo, foram incluídos 54 artigos que atenderam aos critérios de inclusão definidos para esta revisão (tabela 1). As finalidades dos estudos se distribuíram em quatro eixos principais, refletindo diferentes enfoques no enfrentamento do câncer do colo do útero associado ao HPV. A maior concentração foi observada em pesquisas voltadas ao rastreamento e diagnóstico precoce (20 artigos), seguidas por estudos de caráter epidemiológico, voltados à análise de tendências e padrões de incidência e mortalidade (12 artigos).
Outra parcela significativa contemplou investigações sobre vacinação e estratégias de prevenção (10 artigos), enquanto 12 trabalhos se dedicaram à análise de revisões gerais, diretrizes internacionais e documentos técnicos, com destaque para relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Quadro 1. Distribuição dos artigos selecionados segundo a finalidade principal do estudo (2020–2025).
| Autor/ano | Periódico | Tipo de estudo | Objetivo/finalidade principal |
| Agarwal et al., 2022 | Cureus | Survey online | Avaliar atitudes e barreiras percebidas por mulheres instruídas quanto ao rastreamento por papanicolau. |
| Arruda et al., 2025 | Revista FT | Revisão integrativa | Identificar barreiras e estratégias para ampliar o rastreamento do câncer cervical no Brasil. |
| Bangura et al., 2022 | Frontiers in Medicine | Estudo de caso | Analisar programas de prevenção do câncer do colo do útero em Ruanda e Serra Leoa. |
| Bechini et al., 2024 | Vaccines | Revisão narrativa | Descrever o panorama da vacinação contra HPV e rastreamento cervical na Itália. |
| Braz; Reis, 2025 | Lumen et Virtus | Relato de experiência | Relatar experiências de atenção ao câncer do colo do útero em populações vulneráveis. |
| Burka;Naritnik, 2024 | None | Revisão | Discutir possibilidades e limitações do teste de Papanicolau. |
| Castro et al., 2025 | Ciências da Saúde | Estudo epidemiológico | Avaliar a epidemiologia do câncer cervical em Rondônia e o impacto dos programas de rastreamento. |
| Chongsuwatet al., 2023 | PLOS GlobalPublic Health | Avaliação de serviços | Avaliar serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer cervical em Uganda. |
| Coimbra et al., 2024 | Braz. J. Implantology &Health Sciences | Revisão sistemática | Comparar eficácia da citologia e do teste de DNA-HPV na detecção de lesões precursoras. |
| Crippin et al.,2022 | Frontiers in PublicHealth | Pesquisa qualitativa | Explorar uso de tecidos narrativos para motivar mulheres em Mali a realizar rastreamento. |
| Desai et al., 2020 | Infectious Agents and Cancer | Estudo de viabilidade | Testar programa de rastreamento com autoamostra de HPV e triagem visual na Nigéria. |
| Effah et al.,2023 | PLOS Global Public Health | Estudo prático | Avaliar testagem de DNA-HPV combinada à inspeção visual em Gana. |
| Eleutério Jr. et al., 2024 | Rev. Bras. Patol. Trato Genital Inferior | Revisão | Discutir importância e aplicabilidade dos testes de detecção do HPV. |
| Ferreira et al., 2021 | Rev. Multidisciplinar em Saúde | Revisão literária | Mapear exames de investigação precoce do câncer cervical. |
| Flores et al., 2021 | BMC Infectious Diseases | Comparativolaboratorial | Comparar eficácia de amostras cervicais coletadas por mulheres e por clínicos. |
| Garcia et al.,2024 | Rev. Ibero-Americana de Humanidades | Revisão | Apresentar estratégias para detecção precoce do câncer de colo do útero. |
| Galati et al., 2022 | Microbiology Spectrum | Estudo laboratorial | Avaliar DNA circulante do HPV16 como biomarcador de câncer cervical. |
| Gorkhali;Amatya, 2024 | Nepal MedicalCollege Journal | Intervenção educacional | Testar impacto da educação em saúde sobre prevenção do câncer cervical. |
| Gultekin et al., 2020 | Int. J. Gynecol. Cancer | Editorial/OMS | Lançar chamada global para eliminação do câncer cervical. |
| Ferrari et al., 2025 | Ciênc. & Saúde Coletiva | Estudo epidemiológico | Analisar tendência temporal da mortalidade por câncer cervical no Brasil. |
| Jain et al., 2023 | Pathogens | Revisão | Discutir patogênese molecular, evasão imunológica e vacinas contra HPV. |
| Kassie et al., 2020 | PLoS One | Meta-análise | Avaliar impacto do conhecimento e atitudes sobre uso de testes de rastreamento na Etiópia. |
| Khaylova et al., 2025 | None | Avaliação econômica | Avaliar custo-efetividade de estratégias modernas de rastreamento na Rússia. |
| Krasniqi e tal., 2021 | J. Clinical Medicine | Revisão | Examinar uso de DNA circulante do HPV no manejo de câncer cervical. |
| Leite et al., 2025 | Braz. J. HealthReview | Estudo aplicado | Avaliar benefícios e desafios da implementação do teste primário de HPV no rastreamento. |
| Li et al., 2024 | ChemMedChem | Revisão | Revisar métodos disponíveis para rastreamento do câncer cervical. |
| Lopes et al., 2024 | RECIMA21 | Estudo epidemiológico | Identificar fatores associados à incidência do câncer cervical. |
| Luvian-Morales et al., 2024 | Frontiers inOncology | Revisão | Sistematizar evidências sobre fatores de risco do câncer cervical. |
| Mangilli et al., 2024 | Int. J. Health Management Review | Revisão | Apresentar protocolos de rastreamento e diagnóstico precoce do câncer ginecológico. |
| Ministério da Saúde, 2024 | Nota técnica | Documento oficial | Comunicar incorporação de teste inovador de HPV no SUS em Rondônia. |
| Osei et al.,2021 | APJCP | Estudo transversal | Avaliar adesão à vacinação e ao rastreamento entre mulheres de Oyibi. |
| Pan et al.,2025 | BMC Public Health | Estudo de custo-efetividade | Avaliar prevalência de HPV de alto risco e estratégias de rastreamento em Bangladesh. |
| Paiva et al., 2023 | Revista Contemporânea | Estudo regional | Avaliar evolução da citologia em meio líquido em Manaus. |
| Perkins et al., 2020 | J. Lower GenitalTract Disease | Diretriz clínica | Publicar consenso de manejo baseado em risco para exames anormais. |
| Pimple; Mishra, 2022 | Cytojournal | Revisão | Descrever epidemiologia e carga global do câncer cervical. |
| Rahangdale et al., 2022 | BMJ | Estudo epidemiológico | Investigar relação entre vacinação contra HPV e risco de câncer cervical. |
| Safarova et al., 2025 | None | Revisão | Discut |
Fonte: Autor (2025).
Essa distribuição evidencia a predominância de estudos com foco prático e aplicado, especialmente no aprimoramento das estratégias de rastreamento, mas também demonstra a relevância das análises de contexto epidemiológico e normativo para subsidiar a formulação de políticas públicas em saúde.
4.1 Tecnologias de rastreamento e detecção do HPV
O desenvolvimento do exame de Papanicolau representa um avanço significativo no rastreamento do câncer cervical, transformando o cenário da detecção precoce e prevenção (Li et al., 2024). Essa técnica permitiu que profissionais de saúde identificassem lesões pré-cancerosas no colo do útero, levando a uma redução substancial na morbidade e mortalidade associadas ao câncer cervical (Burka; Naritnik, 2024).
O método do exame de Papanicolau envolve a análise microscópica de células cervicais esfoliadas, que são coletadas durante um exame ginecológico de rotina, para detectar quaisquer anormalidades que possam indicar a presença de condições pré-cancerosas ou cancerosas (Paiva, 2023). Essa análise permite a identificação precoce de alterações celulares indicativas de infecção por HPV ou outras anormalidades cervicais, facilitando a intervenção e o tratamento oportunos (Paiva, 2023).
O trabalho pioneiro do Dr. George Papanicolaou em meados do século XX revolucionou o campo da detecção precoce do câncer com o desenvolvimento do exame Papanicolau. Sua pesquisa meticulosa e técnicas inovadoras lançaram as bases para um método de triagem que, desde então, se tornou um pilar fundamental da saúde da mulher. Ao demonstrar a capacidade de detectar células cancerígenas e pré-cancerosas por meio de exame microscópico, Papanicolaou forneceu uma ferramenta crucial para prevenir a progressão do câncer cervical. A introdução dessa técnica marcou uma virada na luta contra o câncer cervical, oferecendo uma abordagem proativa para identificar e lidar com potenciais ameaças à saúde da mulher (Santos; Júnior, 2024).
O rastreio e a detecção precoce são cruciais para reduzir a incidência e a mortalidade associadas ao câncer do colo do útero. O câncer do colo do útero, se detectado em fase avançada, requer frequentemente tratamentos agressivos e apresenta uma taxa de sobrevivência mais baixa. A detecção precoce através de programas de rastreio permite a identificação de lesões pré-cancerosas e cancros em fase inicial, permitindo uma intervenção atempada e melhores resultados. A implementação de estratégias de rastreio eficazes é vital para os esforços de saúde pública no combate ao cancro do colo do útero (Mangilli et al., 2024).
A detecção precoce permite o tratamento de lesões pré-cancerosas, prevenindo a progressão para câncer invasivo. A identificação e o tratamento de lesões pré-cancerosas, como a NIC, podem interromper eficazmente a progressão para câncer cervical invasivo. Diversas opções de tratamento, incluindo crioterapia, procedimento de excisão eletrocirúrgica em alça (LEEP) e biópsia em cone, podem ser utilizadas para remover ou destruir essas células anormais. Ao tratar essas lesões precocemente, o risco de desenvolver câncer invasivo é significativamente reduzido (Leite et al., 2025).
Programas de rastreamento eficazes podem identificar lesões em estágios iniciais, melhorando o prognóstico e reduzindo a necessidade de tratamentos agressivos. Programas de rastreamento que incorporam testes sensíveis e específicos podem detectar lesões em um estágio inicial, quando são mais passíveis de tratamento. O câncer cervical em estágio inicial geralmente requer cirurgia, radioterapia ou quimioterapia menos extensas, resultando em menos efeitos colaterais e melhor qualidade de vida para as pacientes. Portanto, investir e otimizar programas de rastreamento é essencial para melhorar o prognóstico geral de mulheres com câncer cervical (Garcia et al., 2024).
As tecnologias de triagem incluem citologia (teste de Papanicolau), testes de DNA-HPV e inspeção visual. Esses diferentes métodos de triagem oferecem diversas abordagens para a detecção de anormalidades cervicais. A escolha da tecnologia de triagem depende de fatores como custo, sensibilidade, especificidade e infraestrutura disponível. Compreender os pontos fortes e as limitações de cada método é crucial para o desenvolvimento de programas de triagem eficazes (Ferreira et al., 2021).
A citologia tradicional analisa anormalidades celulares, enquanto os testes de DNA-HPV detectam a presença de tipos oncogênicos do vírus. A citologia, ou teste de Papanicolau, envolve o exame de células cervicais sob um microscópio para identificar alterações anormais. Os testes de DNA-HPV, por outro lado, detectam diretamente a presença de tipos de HPV de alto risco em amostras cervicais. Enquanto a citologia pode identificar alterações celulares causadas pelo HPV, os testes de DNA-HPV podem detectar o vírus mesmo antes que essas alterações ocorram, tornando-os mais sensíveis para detecção precoce (Coimbra et al., 2024).
Novas abordagens, como a citologia em meio líquido (CML) e biomarcadores tumorais, visam aumentar a eficiência diagnóstica. A CML melhora o preparo da amostra e reduz a taxa de exames de Papanicolau insatisfatórios, aumentando a precisão da citologia. Biomarcadores tumorais, como p16/Ki-67, podem ajudar a identificar células em transformação cancerígena, fornecendo informações adicionais para triagem e tratamento. Esses avanços visam melhorar a eficiência e a precisão geral do rastreamento do câncer cervical (Silva; Souza, 2024).
A biologia molecular possibilitou a detecção do DNA do HPV e a subsequente investigação das proteínas E6 e E7. A capacidade de detectar o DNA do HPV representou um avanço significativo no rastreamento do câncer cervical. Esse avanço permitiu a identificação direta do agente causador, o HPV, em vez de depender apenas da detecção de alterações celulares. A investigação subsequente das proteínas E6 e E7, que desempenham um papel crucial na carcinogênese induzida pelo HPV, forneceu novos insights sobre os mecanismos de progressão da doença (Eleutério et al., 2024).
Os primeiros testes de DNA-HPV identificaram a presença de HPV de alto risco, mas não genotiparam tipos específicos. Esses testes de primeira geração conseguiram detectar a presença de tipos de HPV de alto risco, mas não os diferenciavam. Embora representasse uma melhoria significativa em relação à citologia isolada, faltava-lhe a especificidade para identificar os tipos de HPV mais fortemente associados ao câncer cervical, como os tipos 16 e 18. O desenvolvimento de ensaios de genotipagem foi um próximo passo crucial para melhorar a precisão e a utilidade clínica dos testes de HPV (Rodrigues et al., 2024).
A introdução dos testes de DNA-HPV melhorou a sensibilidade do rastreamento em comparação à citologia isolada. Os testes de DNA-HPV demonstraram sensibilidade superior à citologia na detecção de lesões pré-cancerosas. Essa sensibilidade aumentada permite a identificação de mulheres com maior risco de desenvolver câncer cervical, possibilitando intervenção oportuna e reduzindo a carga geral da doença. A integração dos testes de DNAHPV em programas de rastreamento levou a melhorias significativas na prevenção do câncer ervical (Teixeira et al., 2020).
4.1.1 Avanços tecnológicos: genotipagem e testes multiplex
A genotipagem permite a identificação de tipos específicos de HPV, como 16 e 18, que estão mais associados ao câncer cervical. Os ensaios de genotipagem podem identificar tipos específicos de HPV, fornecendo informações valiosas para estratificação de risco e manejo clínico. Os tipos 16 e 18 são os mais oncogênicos e responsáveis por uma proporção significativa dos cânceres cervicais em todo o mundo. A identificação desses tipos permite intervenções direcionadas, como colposcopia e tratamento, para mulheres com maior risco (Eleutério et al., 2024).
Testes multiplex detectam múltiplos tipos de HPV simultaneamente, aumentando a eficiência do rastreamento. Os ensaios multiplex podem detectar um painel de tipos de HPV em um único teste, melhorando a eficiência e o rendimento dos programas de rastreamento. Esses testes podem identificar tipos de HPV de alto e baixo risco, fornecendo uma avaliação abrangente do status de HPV de uma mulher. Os testes multiplex reduzem a necessidade de múltiplos testes individuais, economizando tempo e recursos (Galati et al., 2022).
Técnicas inovadoras como PCR digital e sequenciamento de última geração estão aprimorando a detecção de DNA do HPV. A PCR digital oferece quantificação altamente sensível e precisa do DNA do HPV, enquanto o sequenciamento de última geração (NGS) permite a detecção de variantes raras do HPV e a identificação de sítios de integração. Essas tecnologias avançadas estão aprimorando a sensibilidade e a especificidade dos testes de HPV, levando a melhores resultados clínicos. O uso de PCR digital e NGS é particularmente valioso para fins de pesquisa e para o gerenciamento de casos complexos (Krasniqi et al., 2021).
4.1.2 Testes de mRNA-HPV: detecção de atividade viral
Os testes de mRNA-HPV detectam a expressão dos oncogenes E6/E7, indicando atividade viral e maior risco de progressão do câncer. Ao contrário dos testes de DNA-HPV, que detectam a presença do vírus, os testes de mRNA-HPV detectam a expressão dos oncogenes E6 e E7. Isso indica que o vírus está produzindo ativamente proteínas que podem levar à transformação celular e à progressão do câncer. A detecção do mRNA E6/E7 fornece uma indicação mais específica de infecções clinicamente relevantes por HPV (Flores et al., 2021).
O uso de testes de mRNA-HPV pode melhorar a especificidade do rastreamento, reduzindo o número de falsos positivos. Ao detectar apenas HPV transcrito ativamente, os testes de mRNAHPV podem reduzir o número de resultados falsos positivos em comparação aos testes de DNAHPV. Isso pode levar a menos colposcopias e tratamentos desnecessários, reduzindo a sobrecarga dos sistemas de saúde e minimizando a ansiedade das mulheres. A especificidade aprimorada dos testes de mRNA-HPV os torna uma ferramenta valiosa para triagem em programas de rastreamento (Weston et al., 2020).
A combinação de testes de DNA e mRNA-HPV pode otimizar a detecção de lesões precursoras e câncer cervical. Uma abordagem combinada pode alavancar os pontos fortes dos testes de DNA e mRNA-HPV, melhorando a sensibilidade e a especificidade gerais do rastreamento. Os testes de DNA-HPV podem ser usados para rastreamento primário, enquanto os testes de mRNA-HPV podem ser usados para triagem de mulheres HPV-positivas. Essa estratégia pode otimizar a detecção de lesões clinicamente significativas, minimizando intervenções desnecessárias (Flores et al., 2021).
4.2 Sensibilidade e Especificidade dos testes de DNA-HPV
Os testes de DNA-HPV geralmente apresentam maior sensibilidade na detecção de lesões precursoras do que a citologia. Os testes de DNA-HPV são geralmente mais sensíveis do que a citologia na detecção de lesões pré-cancerosas cervicais. Isso significa que os testes de DNAHPV têm maior probabilidade de detectar verdadeiros positivos, ou seja, mulheres com lesões pré-cancerosas. A maior sensibilidade dos testes de DNA-HPV se deve à sua capacidade de detectar diretamente a presença de DNA do HPV, mesmo antes que ocorram alterações celulares (Teixeira et al., 2020).
A citologia pode ser menos sensível devido a erros de amostragem e interpretação, enquanto os testes de DNA-HPV detectam diretamente o material genético viral. A citologia se baseia no exame visual das células cervicais ao microscópio, que pode ser subjetivo e sujeito a erros de amostragem e interpretação. Os testes de DNA-HPV, por outro lado, detectam diretamente a presença de DNA do HPV, independentemente de alterações celulares. Isso torna os testes de DNA-HPV menos suscetíveis a erros e mais sensíveis para detectar infecções por HPV (Silva; Souza, 2024).
A combinação de testes de DNA-HPV e citologia pode aumentar a sensibilidade e a especificidade do rastreamento. A combinação de testes de DNA-HPV e citologia pode melhorar o desempenho geral do rastreamento do câncer cervical. Os testes de DNA-HPV podem ser usados para rastreamento primário, enquanto a citologia pode ser usada para triagem de mulheres HPV-positivas. Essa abordagem potencializa os pontos fortes de ambos os métodos, aumentando tanto a sensibilidade quanto a especificidade (Ferreira et al., 2021).
Os testes de DNA-HPV podem apresentar falsos positivos devido à detecção de infecções transitórias que não evoluem para câncer. Resultados falso-positivos podem ocorrer com os testes de DNA-HPV devido à detecção de infecções transitórias por HPV que são eliminadas pelo sistema imunológico e não evoluem para câncer cervical. Essas infecções transitórias podem levar a colposcopias e tratamentos desnecessários. Portanto, é importante considerar o contexto clínico e utilizar estratégias de triagem adequadas para minimizar o impacto de resultados falso-positivos (Coimbra et al., 2024).
Falsos negativos podem ocorrer devido à baixa carga viral, erros de amostragem ou limitações técnicas do teste. Resultados falso-negativos podem ocorrer se a carga viral for muito baixa para ser detectada, se a amostra não for coletada corretamente ou se houver limitações técnicas no teste. Esses resultados falso-negativos podem atrasar a detecção de lesões pré-cancerosas e câncer cervical. Portanto, é importante utilizar testes de alta qualidade e garantir técnicas de amostragem adequadas para minimizar o risco de resultados falso-negativos (Coimbra et al., 2024).
A interpretação dos resultados do teste de DNA-HPV deve considerar o histórico clínico da paciente e outros fatores de risco. A interpretação dos resultados do teste de DNA-HPV não deve se basear apenas no resultado do teste em si. É importante considerar o histórico clínico da paciente, incluindo infecções anteriores por HPV, resultados do teste de Papanicolau e fatores de risco para câncer cervical. Essa abordagem abrangente pode auxiliar na tomada de decisões informadas sobre o manejo do paciente e minimizar o risco de tratamento excessivo ou insuficiente (Rodrigues et al., 2024).
4.3 Estratégias e tecnologias de prevenção e diagnóstico precoce
O câncer do colo do útero tem sua incidência e mortalidade significativamente reduzidas por meio de vacinação contra HPV e programas de rastreamento bem estruturados. As estratégias preventivas são divididas em: vacinação primária e rastreamento secundário. A vacinação primária, com vacinas como Gardasil e Cervarix, visa prevenir a infecção pelos tipos de HPV de alto risco, especialmente 16 e 18, e sua ampla cobertura pode diminuir drasticamente a incidência da doença (Sekar; Thomas, Veerabathiran, 2024). A eficácia da vacinação é comprovada, com reduções de até 97% em lesões pré cancerosas em populações vacinadas (Rahangdale et al., 2022).
O rastreamento inclui métodos citológicos tradicionais como o Papanicolau (PAP), testes moleculares para detecção de DNA do HPV e métodos visuais como a inspeção visual com ácido acético (VIA). Em países desenvolvidos, há a predominância do uso do PAP em programas organizados, e o uso crescente da testagem de HPV para triagem, muitas vezes em co-teste com citologia, o que tem demonstrado maior sensibilidade e capacidade diagnóstica precocemente (Khaylova et al., 2025). Em países em desenvolvimento, limitações logísticas favorecem o uso de métodos simplificados como a VIA integrada à estratégias de “ver e tratar”, com uso de testes HPV de baixo custo e unidades móveis para ampliação do alcance (Effah et al., 2023).
Países desenvolvidos contam com programas organizados de rastreamento, alta cobertura vacinal e infraestrutura para acompanhamento e tratamento adequado, resultando em queda acentuada das taxas de mortalidade (Perkins et al., 2020). Por exemplo, o impacto da vacinação e rastreamento organizado na Inglaterra mostra redução até 87% em lesões precursoras (VVP, 2021).
A situação em países em desenvolvimento é heterogênea, com dificuldades destacadas pelo baixo acesso à vacinação, baixa cobertura dos exames periódicos e deficiências na infraestrutura de saúde. Exemplos como Ruanda demonstram sucesso por meio de estratégias escolares para vacinação e parcerias comunitárias, alcançando cobertura vacinal elevada e implementação de rastreamento nacional. Em contraste, países como Serra Leoa ainda enfrentam grandes lacunas em programas de prevenção (Bangura et al., 2022). Modelos adaptados que se baseiam em testes HPV com autotamponamento e VIA são mais viáveis no contexto de poucos recursos (Pan et al., 2025).
No Brasil, a estratégia inclui a vacinação contra HPV para meninas e meninos, exames periódicos (Papanicolau), além de campanhas educativas. O Programa Nacional de Imunizações ampliou a vacinação, mas a cobertura precisa ser fortalecida para atingir as metas da OMS de 90% de vacinação até os 15 anos (Osei et al., 2021). A cobertura do rastreamento ainda apresenta desafios, com desigualdades regionais e necessidade de expandir a triagem com testes de HPV, introduzidos aos poucos em centros especializados (Shamsunder; Verma, 2024).
Campanhas educativas voltadas para a conscientização das mulheres sobre a importância da prevenção, facilitar o acesso aos serviços, e desmistificar informações falsas relacionadas à vacinação são fundamentais para aumentar a adesão (Gorkhali; Amatya, 2024; Osei et al., 2021). Entre as barreiras, destacam-se fatores culturais que impactam o conhecimento e atitudes em relação à vacinação e exames, incluindo tabus sobre sexualidade, medo, estigma, além de desinformação (Kassie et al., 2020; Agarwal et al., 2022).
Aspectos socioeconômicos como baixa escolaridade, pobreza, desigualdade de gênero, e falta de autonomia das mulheres influenciam na baixa adesão (Safarova et al, 2025). Estruturalmente, a insuficiência de unidades de saúde, recursos humanos qualificados e logística para rastreamento e tratamento, além de custos indiretos como transporte e tempo, limitam a cobertura, sobretudo em áreas rurais e populações vulneráveis (Chongsuwat et al., 2023).
Países e regiões que alcançaram sucesso têm em comum o estabelecimento de programas organizados com cobertura adequada, estratégias de rastreamento simplificadas e integradas na atenção primária, uso concomitante de vacinação com exames, e forte engajamento comunitário. O uso de tecnologias emergentes, a capacitação contínua de profissionais de saúde, e a integração de dados por sistemas eletrônicos aumentam a confiança e a efetividade dos programas (Bechini et al., 2024).
Experiências como a implementação da vacinação escolar em Ruanda, uso do autoteste HPV com triagem visual na Nigéria, e campanhas educativas visualmente atrativas na África Ocidental reforçam a importância de abordagens adaptadas culturalmente e com parcerias locais (Desai et al., 2020; Crippin et al., 2022).
A análise da literatura selecionada possibilitou responder aos objetivos propostos neste estudo, evidenciando avanços e desafios relacionados às tecnologias de rastreamento e prevenção do câncer do colo do útero associado ao HPV.
No que se refere às tecnologias de rastreamento e detecção do HPV, foram identificados métodos consolidados, como o exame citopatológico (Papanicolau), e abordagens mais recentes, como os testes de DNA-HPV e métodos moleculares emergentes. Enquanto o Papanicolau continua sendo amplamente utilizado por sua simplicidade e baixo custo, estudos apontam suas limitações em termos de sensibilidade, sobretudo em contextos de baixa adesão populacional (Burka; Naritnik, 2024; Arruda et al., 2025).
Por outro lado, os testes de DNA-HPV têm demonstrado maior eficácia na detecção precoce de lesões precursoras, ainda que sua implementação demande maior investimento e infraestrutura (Coimbra et al., 2024; Leite et al., 2025). Tecnologias emergentes, como biomarcadores séricos e testes rápidos, vêm sendo investigadas e apresentam potencial para ampliar a cobertura do rastreamento em diferentes cenários epidemiológicos (Sekar; Thomas; Veerabathiran, 2024).
Em relação às estratégias utilizadas mundialmente e no Brasil, observou-se que países de alta renda avançaram na adoção do teste de DNA-HPV como método primário de rastreamento, aliado à vacinação em massa, o que tem resultado em reduções significativas nas taxas de incidência e mortalidade (Bechini et al., 2024; Jain et al., 2023). No Brasil, entretanto, a citologia ainda é o principal recurso disponível, e a ampliação dos métodos moleculares enfrenta entraves de ordem econômica e logística (Silveira et al., 2025; Silva; Pereira; Deuner, 2024).
A análise dos benefícios e limitações dessas tecnologias confirma que, embora a citologia seja de fácil aplicação e baixo custo, apresenta menor acurácia e depende de coleta periódica e adequada interpretação (Ferreira et al., 2021; Agarwal et al., 2022). Já o teste de DNA-HPV, mais sensível, permite maior intervalo entre os exames e diagnóstico precoce mais assertivo, mas apresenta custo elevado e necessidade de adaptação das redes de saúde (Khaylova et al., 2025; Weston et al., 2020). As novas metodologias, como os testes baseados em RNA e DNA circulante, ainda se encontram em fase de validação, mas têm se mostrado promissoras (Galati et al., 2022; Krasniqi et al., 2021).
No caso de Porto Velho, embora não estejam disponíveis publicações oficiais municipais com taxas consolidadas especificamente para 2024, os dados estaduais apontam para uma carga elevada da doença: em Rondônia foram registrados 947 casos e 290 óbitos por câncer do colo do útero no período 2020–2024, evidenciando fragilidades nos programas de prevenção e rastreamento locais. Em comparação, as estimativas nacionais recentes indicam uma incidência aproximada de 15,38 casos por 100.000 mulheres (estimativa anual média para 2023–2025) e uma taxa ajustada de mortalidade em torno de 4,5 óbitos por 100.000 mulheres, o que sugere que a situação em Porto Velho (RO) está acima da média nacional e exige intervenções dirigidas (Castro et al., 2025; DataSUS, 2024; INCA, 2023; Relatório Anual de Gestão, 2024).
A baixa cobertura vacinal contra o HPV e a adesão insuficiente ao exame citopatológico agravam o cenário, em grande parte devido a barreiras socioculturais, desigualdades no acesso aos serviços de saúde e limitações estruturais (Braz; Reis, 2025; Ministério Da Saúde, 2024).
Quando comparados aos resultados internacionais, esses dados revelam disparidades significativas: enquanto países como Ruanda e Itália avançaram em estratégias integradas de vacinação e testagem (Bangura et al., 2022; Bechini et al., 2024), Porto Velho ainda enfrenta dificuldades para consolidar práticas já recomendadas pela OMS (Gultekin et al., 2020; Who, 2021).
Em síntese, os resultados mostram que, embora exista uma ampla gama de tecnologias eficazes disponíveis para o rastreamento e a prevenção do câncer cervical, a sua aplicabilidade em Porto Velho ainda é limitada por questões socioeconômicas, culturais e estruturais. A comparação com a literatura nacional e internacional evidencia a urgência de fortalecer os programas locais por meio da ampliação da cobertura vacinal, incorporação progressiva de testes moleculares e estratégias educativas voltadas à população, de modo a reduzir as lacunas e melhorar a efetividade das ações de prevenção e diagnóstico precoce no município.
5. CONCLUSÃO
A presente revisão de literatura evidenciou que, apesar dos avanços científicos e tecnológicos no rastreamento e na prevenção do câncer do colo do útero associado ao HPV, persistem desafios significativos para sua efetiva aplicação em contextos de maior vulnerabilidade, como em Porto Velho. Os métodos tradicionais, como o exame citopatológico, permanecem essenciais, mas apresentam limitações em termos de sensibilidade e adesão populacional. Em contrapartida, os testes moleculares, especialmente os de DNA-HPV, demonstraram maior eficácia diagnóstica, embora ainda encontrem barreiras relacionadas a custos e infraestrutura.
No cenário nacional e internacional, países de alta renda já incorporaram tecnologias mais sensíveis e estratégias integradas de vacinação e rastreamento, alcançando reduções expressivas nas taxas de incidência e mortalidade. No Brasil, observa-se um avanço mais lento, com a citologia ainda como principal estratégia de rastreamento. Especificamente em Porto Velho, os dados apontam taxas de incidência e mortalidade superiores à média nacional, refletindo lacunas na cobertura vacinal, baixa adesão aos exames preventivos e barreiras socioeconômicas e culturais que dificultam o acesso da população aos serviços de saúde.
Assim, conclui-se que a redução da morbimortalidade por câncer cervical em Porto Velho depende de ações coordenadas que unam o fortalecimento da vacinação contra o HPV, a ampliação do rastreamento com tecnologias mais sensíveis e a implementação de estratégias educativas e comunitárias que enfrentam barreiras locais. Recomenda-se, portanto, que gestores e profissionais de saúde adotem uma abordagem integrada, adaptada à realidade socioeconômica do município, de modo a alinhar as práticas locais às diretrizes nacionais e internacionais de controle do câncer do colo do útero.
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