EVALUATION OF SINUSAL PROCESSES AS A CONSEQUENCE OF INFECTION IN THE APICAL PERIODONTIUM
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311235
Lívya Santos Brasil1
Antônio Henrique Braitt2
RESUMO
O artigo “Avaliação de processos sinusais como consequência de infecção no periodonto apical” analisa a relação entre infecções odontogênicas e o comprometimento do seio maxilar, com ênfase na sinusite maxilar odontogênica (SMO). O estudo destaca que as infecções no periodonto apical, quando não tratadas de forma adequada, podem se disseminar para o seio maxilar devido à proximidade anatômica entre as raízes dos dentes superiores e o assoalho sinusal. Essa disseminação pode ocorrer por mecanismos como reabsorção óssea, comunicações oroantrais e procedimentos odontológicos mal executados. A revisão de literatura demonstra que até 40% das sinusites maxilares crônicas têm origem odontogênica, ressaltando a importância do diagnóstico diferencial. Nesse contexto, a tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC) é apontada como o exame de imagem mais indicado, pois permite avaliar detalhadamente a relação entre os dentes e o seio maxilar. O artigo também aborda a relevância do tratamento precoce, que pode incluir terapia endodôntica, exodontia, apicectomia e, em casos mais complexos, a atuação conjunta entre cirurgião-dentista e otorrinolaringologista. A pesquisa reforça a importância de maior atenção a essas infecções dentro da prática odontológica, com o objetivo de prevenir complicações graves, como osteomielite e infecções faciais, além de promover uma melhor integração entre as especialidades envolvidas no diagnóstico e tratamento.
Palavras-chave: Sinusite odontogênica. Periodonto apical. Seio maxilar. Infecção periapical. Tomografia computadorizada de feixe cônico.
ABSTRACT
The article “Evaluation of Sinusal Processes as a Consequence of Infection in the Apical Periodontium” analyzes the relationship between odontogenic infections and maxillary sinus involvement, with emphasis on odontogenic maxillary sinusitis (OMS). The study highlights that infections in the apical periodontium, when not properly treated, can spread to the maxillary sinus due to the anatomical proximity between the roots of the upper teeth and the sinus floor. This spread may occur through mechanisms such as bone resorption, oroantral communications, and poorly performed dental procedures. The literature review shows that up to 40% of chronic maxillary sinusitis cases have an odontogenic origin, emphasizing the importance of differential diagnosis. In this context, cone-beam computed tomography (CBCT) is identified as the most appropriate imaging exam, as it allows for a detailed evaluation of the relationship between the teeth and the maxillary sinus. The article also emphasizes the relevance of early treatment, which may include endodontic therapy, tooth extraction, apicoectomy, and, in more complex cases, a collaborative approach between the dentist and the otolaryngologist. The research reinforces the need for greater attention to these infections in dental practice, aiming to prevent serious complications such as osteomyelitis and facial infections, as well as to promote better integration between the specialties involved in diagnosis and treatment.
Keywords: Odontogenic sinusitis. Apical periodontium. Maxillary sinus. Periapical infection. Cone-beam computed tomography.
INTRODUÇÃO
As infecções odontogênicas podem ter implicações significativas além do sistema dentário, atingindo estruturas adjacentes como o seio maxilar. A proximidade anatômica entre os dentes posteriores superiores e o seio maxilar favorece a disseminação de micro-organismos de lesões periapicais, podendo resultar em processos sinusais, como a Sinusite Maxilar Odontogênica (SMO)1. Estudos indicam que cerca de 40% das sinusites maxilares crônicas possuem origem odontogênica, o que torna essa relação um tema relevante para investigação clínica e científica2.
A infecção no periodonto apical pode se estender ao seio maxilar por diferentes mecanismos, como a reabsorção óssea progressiva, comunicações oroantrais e procedimentos odontológicos invasivos, incluindo extrações e tratamentos endodônticos mal conduzidos3. Além disso, a microbiota envolvida nas infecções periapicais é predominantemente anaeróbica, contendo espécies como Fusobacterium nucleatum e Porphyromonas gingivalis, que também são frequentemente isoladas em casos de sinusite odontogênica4.
A correta avaliação das alterações no seio maxilar decorrentes de infecções no periodonto apical é essencial para o diagnóstico preciso e para a escolha do tratamento mais adequado, prevenindo complicações graves como a osteomielite e a propagação da infecção para outras estruturas da face. Exames por imagem, especialmente a tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC), têm papel decisivo na distinção entre sinusite de origem odontogênica e rinogênica, favorecendo intervenções mais eficazes4.
As infecções no periodonto apical podem se espalhar para o seio maxilar devido à proximidade entre essas estruturas. Este estudo busca identificar os mecanismos fisiopatológicos que favorecem essa disseminação. Também avalia as principais complicações causadas pela falta de diagnóstico e tratamento adequados. Além disso, analisa os fatores etiológicos mais comuns das infecções periapicais que podem causar alterações no seio maxilar5.
REVISÃO DA LITERATURA
Segundo o Manual MSD (2023), “a sinusite é uma inflamação da mucosa que reveste os seios paranasais, podendo ser classificada de acordo com sua duração e etiologia”. Conforme a classificação proposta pela Academia Americana de Otorrinolaringologia, a sinusite pode ser categorizada em diferentes formas: aguda, quando os sintomas duram até quatro semanas, geralmente de origem viral; subaguda, com duração entre quatro e doze semanas; crônica, quando persiste por mais de doze semanas, podendo envolver infecções bacterianas persistentes ou alterações estruturais; e recorrente, caracterizada por quatro ou mais episódios agudos ao longo de um ano, com resolução completa entre as crises6.
A sinusite odontogênica, também conhecida como sinusite maxilar odontogênica (SMO), é uma forma específica da doença inflamatória dos seios paranasais que se origina a partir de focos infecciosos dentários. Estima-se que a SMO seja responsável por aproximadamente 10% a 40% dos casos de sinusite maxilar crônica. Sua importância clínica reside no fato de que, frequentemente, se apresenta de forma unilateral e com sintomas semelhantes àqueles da sinusite de origem rinogênica, o que pode dificultar tanto o diagnóstico quanto o manejo terapêutico adequado 2.
Diferente da sinusite tradicional, que se origina geralmente por infecções respiratórias, a SMO é causada por fatores como necrose pulpar, lesões periapicais, falhas em tratamentos endodônticos, extrações complicadas, inserção de corpos estranhos no seio maxilar ou comunicação oroantral 2.
O seio maxilar é a maior das cavidades paranasais, situado no interior do osso maxilar, com formato piramidal e dimensões que variam conforme a anatomia individual. Seu assoalho é constituído pela porção superior do processo alveolar, estando frequentemente em íntima relação com as raízes dos dentes pré-molares e molares superiores, o que pode favorecer a disseminação de infecções odontogênicas para o interior do seio2. Shankland7 destaca que, em aproximadamente 45% dos indivíduos, ao menos uma raiz de molar superior está intimamente relacionada ou mesmo protruida para o interior do seio maxilar, separada apenas pela fina membrana de Schneider. Essa íntima relação anatômica favorece a comunicação entre infecções dentárias e o seio, especialmente nos casos de reabsorção óssea periapical ou após procedimentos odontológicos invasivos.
A pneumatização do seio maxilar, que pode ocorrer com o envelhecimento ou após a extração dentária, leva à expansão da cavidade sinusal e à redução da espessura óssea entre os ápices radiculares e a mucosa do seio. Essa condição anatômica favorece a migração de agentes infecciosos, aumentando o risco de sinusites odontogênicas. Tais alterações são especialmente relevantes em procedimentos cirúrgicos como exodontias e implantes, nos quais a proximidade das raízes dentárias ao assoalho do seio pode causar complicações, como comunicação bucosinusal e deslocamento de fragmentos radiculares para o interior do seio8.
A infecção periapical tem origem, na maioria dos casos, na necrose da polpa dentária, o que favorece a migração de microrganismos e suas toxinas para a região periapical. Esse processo estimula uma resposta inflamatória que resulta em destruição dos tecidos adjacentes e reabsorção óssea. Quando não há uma contenção eficaz, a infecção pode ultrapassar os limites ósseos, rompendo a cortical do assoalho do seio maxilar e alcançando a mucosa sinusal, o que reforça a importância de um diagnóstico precoce e de intervenções adequadas para evitar complicações mais severas8.
Segundo Sharma et al3 os mecanismos que favorecem essa disseminação incluem: a reabsorção óssea progressiva pode romper a barreira anatômica que separa o ápice dental do assoalho do seio maxilar, facilitando a disseminação de processos infecciosos. Comunicações oroantrais, formadas naturalmente ou em decorrência de procedimentos cirúrgicos, também podem permitir a entrada direta de microrganismos na cavidade sinusal. Procedimentos odontológicos mal conduzidos, como a extrusão de material endodôntico ou fraturas radiculares, atuam como corpos estranhos e potenciais focos de infecção crônica. Além disso, canais acessórios e forames presentes na região apical possibilitam o trânsito de agentes infecciosos, reforçando a comunicação patológica entre o periodonto apical e o seio maxilar.
A microbiota envolvida é rica em bactérias anaeróbias obrigatórias, como Fusobacterium nucleatum, Prevotella intermedia e Porphyromonas gingivalis, espécies que também são detectadas em biópsias de mucosa sinusal em pacientes com SMO.
O diagnóstico da sinusite odontogênica exige uma investigação minuciosa, uma vez que os sintomas podem se sobrepor aos da sinusite de origem rinogênica. No entanto, sinais como dor facial unilateral, secreção nasal purulenta persistente, halitose, obstrução nasal e sensibilidade à percussão dos dentes posteriores superiores podem sugerir uma origem odontológica. A correlação entre esses sinais clínicos e o histórico odontológico do paciente é essencial para o correto diagnóstico e definição do tratamento mais apropriado10.
No entanto, somente o exame clínico não é suficiente. A tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC) é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico, pois permite observar:
– Espessamento da mucosa sinusal;
– Discreta descontinuidade no assoalho do seio;
– Relação das raízes dentárias com a cavidade sinusal4
A radiografia panorâmica e a periapical podem ser utilizadas como exames iniciais, mas apresentam limitações na avaliação tridimensional. O uso conjunto da TCFC com a avaliação clínica e anamnese direcionada aumenta significativamente a acurácia diagnóstica11 .
A terapia para a sinusite odontogênica deve ser voltada para a eliminação do foco infeccioso, o que pode envolver diferentes abordagens. Entre essas, destacam-se o tratamento endodôntico eficaz (retentivo ou retratamento), a exodontia quando há comprometimento da estrutura dental, e a cirurgia periapical (apicectomia) para a remoção de lesões persistentes. Nos casos de infecção aguda com acúmulo de exsudato, pode ser necessária a drenagem cirúrgica do seio maxilar. Adicionalmente, a administração de antibióticos sistêmicos é recomendada quando existem sinais sistêmicos de infecção, ajudando no controle mais abrangente do quadro infeccioso. Em casos mais avançados ou crônicos, a colaboração entre o cirurgião-dentista e o otorrinolaringologista é fundamental, especialmente quando há necessidade de sinusectomia ou tratamento cirúrgico da cavidade sinusal1.
O prognóstico é geralmente favorável quando o diagnóstico é precoce e o tratamento é corretamente indicado. No entanto, falhas terapêuticas podem resultar em complicações como celulite facial, osteomielite, abscessos orbitários e até infecção intracraniana12.
DISCUSSÃO
A coleta de dados foi realizada por meio da busca e seleção de materiais em bases científicas e repositórios acadêmicos, utilizando descritores como: “sinusite odontogênica”, “periodonto apical”, “infecção periapical”, “seio maxilar”, “tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC)”, entre outros. Foram incluídos apenas estudos que apresentem relação direta com o tema e que atendam aos critérios de qualidade científica. A análise dos dados foi feita por meio da leitura crítica e interpretação dos textos selecionados, relacionando os achados às categorias temáticas do estudo: etiopatogenia, diagnóstico, complicações e condutas clínicas.
Os dados coletados serão organizados por meio de fichamentos temáticos e tabelas-resumo, agrupando os conteúdos segundo os objetivos específicos da pesquisa. A análise foi de natureza qualitativa, buscando identificar padrões, conceitos recorrentes, divergências e lacunas nas publicações consultadas. A discussão foi fundamentada na comparação entre os autores, visando uma compreensão crítica dos processos sinusais associados às infecções no periodonto apical.
Os principais limites da pesquisa estão relacionados à ausência de coleta de dados empíricos, o que restringe a investigação à revisão de literatura. Além disso, a disponibilidade de materiais atualizados e específicos sobre a relação entre infecção apical e processos sinusais pode limitar o objetivo. Outro fator limitante foi a possibilidade de viés na interpretação dos textos selecionados, inerente à subjetividade da análise qualitativa.
As infecções no periodonto apical representam um problema clínico relevante, não apenas pela sua frequência na prática odontológica, mas também pelo seu potencial de causar alterações em estruturas anatômicas adjacentes, como o seio maxilar. A proximidade entre os ápices dos dentes posteriores superiores e o assoalho do seio maxilar favorece a disseminação de processos infecciosos, o que pode levar ao desenvolvimento de quadros de sinusite de origem odontogênica.
No entanto, muitos desses casos ainda passam despercebidos ou são tratados de forma inadequada, devido à dificuldade diagnóstica e à falta de reconhecimento da origem odontológica da infecção. Essa falha pode resultar em tratamentos ineficazes e no agravamento do quadro clínico do paciente. Compreender os mecanismos etiopatogênicos envolvidos, os fatores que favorecem essa disseminação, avaliar as complicações decorrentes da falta de diagnóstico e as abordagens clínicas mais adequadas é essencial para o diagnóstico preciso e para a escolha de uma conduta terapêutica eficaz.
Diante disso, este trabalho se justifica pela importância de se avaliar de forma detalhada os processos sinusais decorrentes de infecções no periodonto apical, contribuindo para o aprimoramento do conhecimento científico e clínico, além de reforçar a necessidade de atenção a esse tipo de condição dentro da prática odontológica. O estudo visa ainda colaborar para a prevenção de complicações e a melhoria da qualidade do atendimento ao paciente.
RESULTADOS ESPERADOS E APLICABILIDADES
Com a realização deste estudo, espera-se consolidar o conhecimento científico acerca da relação entre infecções no periodonto apical e os processos inflamatórios e infecciosos no seio maxilar, especialmente a sinusite maxilar odontogênica. Os resultados evidenciam os principais mecanismos fisiopatológicos que favorecem essa disseminação, as complicações decorrentes da falta de diagnóstico precoce e as abordagens clínicas mais eficazes para o manejo da condição.
Pretende-se, ainda, contribuir para o aprimoramento da prática clínica odontológica, oferecendo dados teóricos que possam auxiliar o cirurgião-dentista no diagnóstico diferencial das sinusites de origem odontogênica. A pesquisa poderia incrementar a adoção de condutas mais precisas e integradas entre as especialidades de endodontia, cirurgia bucomaxilofacial e otorrinolaringologia, promovendo um atendimento mais eficaz e seguro ao paciente.
Além disso, este trabalho poderá servir de base para futuras investigações, incentivando a realização de estudos clínicos e multidisciplinares sobre o tema, bem como reforçar a importância do uso de exames de imagem avançados, como a tomografia computadorizada de feixe cônico, como ferramenta essencial para a avaliação adequada de casos suspeitos de envolvimento sinusal odontogênico.
REFERÊNCIAS
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1Acadêmica do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI).
2Especialista e Mestre em Endodontia. Professor de Endodontia II do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI).
