ANÁLISE DOS EFEITOS DO USO DE PALMILHAS COM ELEMENTO INFRACAPITAL MEDIAL DE 2MM EM MULHERES PRATICANTES DE ATIVIDADE FÍSICA (MUSCULAÇÃO)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510311228


Juliano Ferreira Mendes
Gabriel Nogueira Manso
Lucas Jordão David Silva


RESUMO:

Introdução: A musculação é prática comum para promoção da saúde, mas pode gerar alterações biomecânicas como o valgo dinâmico, associado à fraqueza do glúteo médio. Palmilhas com cunha medial surgem como estratégia para melhorar o alinhamento dos membros inferiores. Objetivo: Avaliar os efeitos de palmilhas com elemento infracapital medial de 2 mm sobre a força do glúteo médio e a distribuição da pressão plantar em mulheres praticantes de musculação. Métodos: Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, com oito mulheres (18–30 anos). O grupo controle utilizou palmilhas neutras (n=4) e o grupo intervenção, palmilhas com cunha medial (n=4) durante quatro semanas. Foram realizadas avaliações por dinamometria e baropodometria, analisadas com testes t (p<0,05). Resultados: Houve aumento significativo na força do glúteo médio direito no grupo intervenção (p=0,04), sem alterações relevantes na pressão plantar. Conclusão: O uso de palmilhas com cunha medial de 2 mm promove discreto ganho de força no glúteo médio, sem impacto expressivo na distribuição plantar em curto prazo.

Palavras-chave: musculação; palmilhas; glúteo médio; pressão plantar; biomecânica; valgo dinâmico

ABSTRACT:

Background: Resistance training is widely practiced for health promotion, but may cause biomechanical alterations such as dynamic knee valgus, often linked to gluteus medius weakness. Medial wedge insoles are proposed to improve lower-limb alignment. Objective: To evaluate the effects of 2 mm medial infracapital wedge insoles on gluteus medius strength and plantar pressure distribution in women engaged in resistance training. Methods: A randomized, double-blind trial was conducted with eight women (18–30 years). The control group used neutral insoles (n=4), and the intervention group used medial wedge insoles (n=4) for four weeks. Assessments included handheld dynamometry and baropodometry. Data were analyzed with t-tests (p<0.05). Results: The intervention group showed a significant increase in right gluteus medius strength (p=0.04), with no relevant changes in plantar pressure. Conclusion: Medial wedge insoles with a 2 mm element promoted a slight improvement in gluteus medius strength without significantly affecting plantar pressure in the short term.

Keywords: resistance training; insoles; gluteus medius; plantar pressure; biomechanics.

INTRODUÇÃO:  

 O treinamento resistido é amplamente reconhecido como uma ferramenta essencial para promoção da saúde, melhora da aptidão física e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, sendo fortemente recomendado para diferentes faixas etárias, incluindo adultos jovens e idosos (WHO, 2020). A prática regular está associada a benefícios cardiovasculares, neuromusculares e metabólicos, além de contribuir para a redução do risco de quedas, melhora do desempenho funcional e aumento da qualidade de vida. Apesar desses benefícios, o treinamento resistido também pode expor os praticantes a sobrecargas musculoesqueléticas, principalmente quando há desequilíbrios posturais ou déficits de força em músculos estabilizadores importantes, como o glúteo médio.

O glúteo médio é considerado um dos principais músculos responsáveis pela estabilidade pélvica durante atividades em cadeia cinética fechada, como agachamentos, corridas e saltos. Sua fraqueza está diretamente associada ao aumento do valgo dinâmico de joelho, uma condição caracterizada pela adução e rotação medial do fêmur, que pode gerar sobrecargas em estruturas como ligamento cruzado anterior, cartilagem patelofemoral e meniscos (NEUMANN, 2010; BALDON et al., 2011). Mulheres, em especial, apresentam maior predisposição a alterações no alinhamento dos membros inferiores devido a fatores anatômicos, hormonais e biomecânicos, como maior largura da pelve, ângulo Q aumentado e menor rigidez ligamentar (ALZAHRANI et al., 2021). Estudos apontam que essas diferenças biomecânicas explicam a maior incidência de lesões no joelho entre mulheres praticantes de atividades esportivas e de academia, reforçando a importância do fortalecimento e da estabilização do quadril (DE CAMARGO et al., 2023).

Nesse cenário, diferentes recursos fisioterapêuticos têm sido investigados para minimizar desequilíbrios e melhorar o desempenho motor. Entre eles, destacam-se as palmilhas com elementos corretivos, utilizadas como forma de modificar a distribuição da pressão plantar e influenciar a cadeia cinética dos membros inferiores. Estudos prévios demonstram que inserções mediais ou laterais podem alterar a cinemática subtalar, reduzir a sobrecarga articular no joelho e no quadril, além de potencialmente auxiliar no controle do valgo dinâmico (ALSHAWABKA et al., 2014; BRAGA et al., 2019). Contudo, a maior parte das pesquisas concentrou-se em populações específicas, como corredores com pronação excessiva ou indivíduos com deformidades estruturais, utilizando palmilhas com espessuras entre 4 e 6 mm, geralmente aplicadas no retropé (COSTA et al., 2021; THONG-ON et al., 2023).

Apesar dos avanços, observa-se ainda uma lacuna na literatura científica no que se refere ao uso de palmilhas de baixa espessura, aplicadas em indivíduos jovens, saudáveis e praticantes de musculação. O ambiente da academia é um dos espaços onde mais se observa a prática de exercícios que exigem estabilidade pélvica e controle do quadril, como o agachamento e o levantamento terra, movimentos diretamente influenciados pelo equilíbrio entre a musculatura abdutora e adutora do quadril. Entretanto, há escassez de estudos que investiguem se modificações sutis na base de apoio, como o uso de elementos infracapitais mediais de apenas 2 mm, podem induzir adaptações neuromusculares suficientes para impactar o desempenho e a prevenção de lesões.

Além disso, poucos trabalhos avaliaram simultaneamente a força do glúteo médio e a distribuição da pressão plantar, dois parâmetros biomecânicos interdependentes que fornecem uma visão mais ampla sobre o efeito das palmilhas no alinhamento e no controle motor. Pesquisas com esse delineamento podem trazer implicações clínicas relevantes, oferecendo um recurso simples, acessível e de baixo custo para fisioterapeutas e profissionais da saúde que atuam na prevenção de lesões e no suporte a praticantes de musculação.

Dessa forma, este estudo justifica-se pela necessidade de preencher essa lacuna, investigando os efeitos do uso de palmilhas com elemento infracapital medial de 2 mm sobre a força do glúteo médio e a distribuição da pressão plantar em mulheres praticantes de musculação. Ao explorar essa temática, busca-se fornecer evidências preliminares sobre a aplicabilidade clínica dessa intervenção e abrir novas perspectivas para estratégias de prevenção e suporte biomecânico em ambientes esportivos e de treinamento resistido.

REFERENCIAL TEÓRICO

Treinamento resistido e suas implicações biomecânicas

O treinamento resistido tem sido amplamente reconhecido como uma ferramenta essencial para a promoção da saúde, melhora da aptidão física e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, sendo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020) para diferentes faixas etárias. A prática regular está associada a benefícios musculoesqueléticos, cardiovasculares e metabólicos, contribuindo para o aumento da força, da densidade mineral óssea e da capacidade funcional.

Apesar desses efeitos positivos, a prática de musculação pode expor praticantes a sobrecargas mecânicas que, em determinadas condições, favorecem o desenvolvimento de desequilíbrios musculoesqueléticos e lesões. Estudos indicam que lesões em praticantes de musculação estão frequentemente relacionadas a técnicas inadequadas, cargas excessivas ou a déficits prévios de força e estabilidade (SOUZA; MOREIRA; CAMPOS, 2015). Entre os segmentos corporais mais afetados, destacam-se joelhos e quadris, regiões nas quais o alinhamento e a estabilidade dependem fortemente da interação entre musculatura proximal e distal.

Nesse contexto, compreender a relação entre treinamento resistido e possíveis compensações biomecânicas é fundamental para o desenvolvimento de estratégias preventivas. Uma dessas estratégias envolve o estudo da função do glúteo médio e sua relação com o valgo dinâmico de joelho, condição comum em mulheres jovens praticantes de musculação.

O glúteo médio e o controle do valgo dinâmico

O glúteo médio é um músculo localizado na face lateral do quadril, desempenhando papel central na abdução e rotação do quadril, além de atuar como estabilizador pélvico durante atividades em cadeia cinética fechada, como marcha, corrida e exercícios resistidos (NEUMANN, 2010). Sua principal função é evitar a queda contralateral da pelve, distribuindo de forma equilibrada as cargas que incidem sobre quadris e joelhos.

A fraqueza desse músculo tem sido fortemente associada ao aumento do valgo dinâmico de joelho, caracterizado pela combinação de adução e rotação medial do fêmur durante atividades funcionais. Essa alteração biomecânica é considerada fator de risco para diversas lesões, como a síndrome da dor patelofemoral, rupturas ligamentares (especialmente do ligamento cruzado anterior) e sobrecargas articulares crônicas (BALDON et al., 2011).

Mulheres apresentam maior predisposição ao valgo dinâmico devido a características anatômicas e biomecânicas, como a pelve mais larga, o ângulo Q aumentado e menor rigidez ligamentar (ALZAHRANI et al., 2021). Um estudo recente de De Camargo et al. (2023) reforça que a incidência de valgo dinâmico é mais frequente em pessoas sedentárias, mas pode se manifestar também em praticantes de musculação, especialmente quando há desequilíbrio entre musculatura abdutora e adutora do quadril.

Portanto, o glúteo médio tem sido apontado como alvo prioritário em programas de prevenção e reabilitação, e intervenções que favoreçam sua ativação e fortalecimento apresentam grande potencial clínico. Uma dessas intervenções é o uso de palmilhas corretivas, capazes de modificar a base de apoio e, consequentemente, influenciar o recrutamento da musculatura proximal.

Baropodometria e distribuição da pressão plantar

A baropodometria é um recurso amplamente utilizado na prática clínica e na pesquisa científica para avaliar a distribuição da pressão plantar, tanto em condições estáticas quanto dinâmicas. Esse método consiste na análise da interação entre o pé e a superfície de apoio, permitindo identificar padrões de sobrecarga e assimetrias posturais que podem estar relacionados a dores, instabilidades ou risco de lesões (DUARTE; FREITAS, 2010).

Em condições estáticas, a baropodometria fornece informações sobre o equilíbrio corporal e a distribuição simétrica de cargas entre os pés. Já em condições dinâmicas, como marcha ou corrida, o exame é capaz de captar alterações complexas na progressão do centro de pressão, fornecendo dados relevantes para a compreensão da biomecânica dos membros inferiores (DUARTE; FREITAS, 2010).

Apesar de sua importância, a análise baropodométrica apresenta limitações quando utilizada apenas em ortostatismo. Estudos indicam que pequenas alterações na base de apoio podem não ser detectadas em avaliações estáticas, uma vez que o corpo tende a compensar de maneira automática, redistribuindo as cargas de forma eficiente (COSTA et al., 2021). Isso reforça a necessidade de complementar as avaliações com análises dinâmicas, capazes de identificar de forma mais sensível os efeitos de intervenções como o uso de palmilhas corretivas.

Palmilhas corretivas e adaptações neuromusculares

As palmilhas corretivas têm sido objeto de crescente interesse científico devido à sua capacidade de modificar a distribuição da pressão plantar e influenciar a cadeia cinética dos membros inferiores. Cunhas mediais ou laterais, por exemplo, são frequentemente utilizadas para controlar excessos de pronação ou supinação, reduzir sobrecargas articulares e auxiliar na prevenção de lesões (ALSHAWABKA et al., 2014; BRAGA et al., 2019).

Estudos mostram que palmilhas com cunha medial podem alterar a cinemática subtalar, impactando diretamente o alinhamento do joelho e o recrutamento muscular proximal. Braga et al. (2019), ao avaliarem corredores com pronação excessiva, observaram que o uso de palmilhas medialisadas reduziu significativamente o estresse no joelho e promoveu adaptações biomecânicas benéficas. Alshawabka et al. (2014) identificaram resultados semelhantes em indivíduos com deformidades estruturais, reforçando a aplicabilidade clínica dessas intervenções.

Contudo, grande parte desses estudos emprega palmilhas com espessuras mais elevadas, geralmente entre 4 e 6 mm, aplicadas principalmente no retropé (COSTA et al., 2021; THONGON et al., 2023). Ainda são escassas as pesquisas que investigam o impacto de palmilhas com elementos de baixa espessura, como os 2 mm utilizados no presente estudo, especialmente em contextos de musculação. Kristanto et al. (2021), em um estudo com agricultores com pé pronado, sugerem que mesmo pequenas modificações na base de apoio podem alterar a ativação muscular e o alinhamento dos membros inferiores, apontando para a possibilidade de adaptações neuromusculares mesmo em intervenções discretas.

Outro ponto pouco explorado na literatura é a avaliação simultânea da força do glúteo médio e da distribuição plantar. Enquanto alguns trabalhos analisam exclusivamente parâmetros de descarga plantar, outros focam em desempenho muscular isolado. O cruzamento dessas variáveis, no entanto, pode fornecer uma visão mais ampla sobre a influência das palmilhas corretivas no controle motor, aspecto ainda pouco investigado.

OBJETIVO:  

Objetivo geral:

Investigar os efeitos do uso de palmilhas com elemento infracapital medial de 2 mm sobre a força do músculo glúteo médio e a distribuição da pressão plantar em mulheres praticantes de musculação.

Objetivos específicos:

De forma complementar, buscou-se: verificar se o uso das palmilhas influencia a força do glúteo médio direito e esquerdo; analisar possíveis modificações na distribuição da pressão plantar em ortostatismo após quatro semanas de intervenção; e comparar os resultados entre o grupo intervenção e o grupo controle, a fim de gerar evidências preliminares sobre a aplicabilidade clínica desse recurso em contexto preventivo e esportivo.

METODOLOGIA:

Delineamento do estudo

Trata-se de um ensaio clínico piloto, randomizado, duplo-cego e controlado, realizado no Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS). A escolha do delineamento piloto deve-se ao número reduzido de participantes, o que permitiu avaliar a viabilidade do protocolo, testar instrumentos de coleta e gerar evidências preliminares para estudos futuros com amostras maiores.

Participantes

A amostra foi composta por oito mulheres com idades entre 18 e 30 anos, praticantes regulares de musculação há pelo menos seis meses, com frequência mínima de três treinos semanais, conforme recomendações internacionais de atividade física (WHO, 2020). Foram incluídas apenas voluntárias sem histórico de lesões musculoesqueléticas nos últimos seis meses e que não utilizassem palmilhas corretivas previamente. Foram excluídas participantes com lesões dermatológicas nos pés, condições ortopédicas ou neurológicas relevantes e aquelas que não aceitaram assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Randomização e grupos

As participantes foram alocadas por randomização simples em dois grupos:

– Grupo Controle (n = 4): utilizou palmilhas neutras durante quatro semanas;

– Grupo Intervenção (n = 4): utilizou palmilhas com elemento infracapital medial de 2 mm, confeccionadas em poliuretano e EVA (Podaly®), também durante quatro semanas.

Todas as palmilhas foram adaptadas diretamente nos calçados habituais de treino das voluntárias. Tanto as participantes quanto os avaliadores permaneceram cegos quanto à condição experimental, caracterizando o estudo como duplo-cego (MIOT, 2017). Instrumentos

Para a coleta de dados, foram utilizados os seguintes instrumentos:

1. Questionário sociodemográfico e clínico, elaborado pelos autores, para registro de informações pessoais, frequência de treino, histórico de saúde e características antropométricas;

2. Dinamometria isométrica manual (Hand-Held Dynamometer – HHD) para avaliação da força do glúteo médio, seguindo protocolo descrito por Stark et al. (2011);

3. Baropodometria computadorizada, utilizada para a análise da distribuição da pressão plantar em ortostatismo, de acordo com as recomendações de Duarte e Freitas (2010).

Procedimentos

Inicialmente, cada participante respondeu ao questionário clínico e sociodemográfico. Em seguida, foi realizada a avaliação da força do glúteo médio. Para tal, a voluntária foi posicionada em decúbito lateral, com quadril em posição neutra e joelho estendido. O dinamômetro foi colocado na face lateral da coxa, logo acima do joelho, registrando-se a maior medida entre três tentativas de contração máxima voluntária.

Na sequência, foi realizada a avaliação da pressão plantar em ortostatismo. As participantes permaneceram descalças, com pés paralelos e afastados 10 cm entre os maléolos mediais. Foram realizadas três medições de 30 segundos, considerando-se a média dos registros para análise final.

Intervenção

O período de intervenção teve duração de quatro semanas, nas quais as participantes foram orientadas a utilizar as palmilhas designadas durante todos os treinos de musculação. Nenhuma restrição adicional foi feita quanto ao tipo de exercício realizado, buscando manter a rotina habitual das voluntárias e maior proximidade com a realidade prática.

Análise estatística

A análise dos dados foi realizada no software SPSS 20.0 (SPSS Inc., Chicago, EUA). A normalidade foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk. Para as comparações intragrupos (pré e pós-intervenção) foi utilizado o teste t pareado, enquanto para as comparações intergrupos empregou-se o teste t independente. O tamanho do efeito (d de Cohen) foi calculado no software G*Power 3.1.9.2, considerando-se valores de 0,2–0,49 como pequeno, 0,5–0,79 como médio e ≥0,8 como grande (COHEN, 1988). O nível de significância adotado foi p < 0,05.

Aspectos éticos

Este estudo respeitou as normas éticas da pesquisa em seres humanos, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todas as voluntárias assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da participação. Os riscos potenciais estiveram relacionados a desconfortos durante o uso da palmilha ou incômodo na realização dos testes, sendo minimizados por meio de orientações claras e acompanhamento individual. Como benefícios, as participantes receberam uma avaliação fisioterapêutica detalhada e contribuíram para o avanço do conhecimento científico sobre recursos biomecânicos aplicados à prática esportiva.

RESULTADOS

A amostra final foi composta por oito mulheres jovens praticantes de musculação, divididas igualmente entre grupo controle (G1, n=4) e grupo intervenção (G2, n=4). As características antropométricas mostraram-se homogêneas entre os grupos, sem diferenças estatisticamente significativas quanto ao peso corporal, altura e número do calçado (p > 0,05), assegurando comparabilidade entre as participantes e maior confiabilidade dos desfechos analisados.

Tabela 1 – Caracterização da amostra

VariáveisGrupo Controle (G1, n=4)Grupo Intervenção (G2, n=4)Valor de p
Peso (kg)62,75 ± 8,77 (48,79–76,70)63,75 ± 13,37 (42,46–85,03)0,90
Altura (cm)160,25 ± 4,11 (153,70– 166,79)165,50 ± 3,87 (159,33– 171,66)0,11
Número do calçado36,25 ± 0,95 (34,72–34,77)37,50 ± 1,91 (34,45–40,54)0,28
Fonte: Autores (2025). Dados expressos em média ± desvio padrão (DP) e intervalo de confiança (IC 95%).

Na análise da distribuição da pressão plantar por baropodometria, observou-se que não houve alterações relevantes entre os momentos pré e pós-intervenção, tanto no grupo controle quanto no grupo intervenção. Para o pé direito, o G1 apresentou média de 53,00 ± 2,16% no pré-teste e 53,25 ± 2,06% no pós-teste, enquanto o G2 variou de 54,00 ± 4,08% para 53,75 ± 2,06%. Para o pé esquerdo, os valores foram 47,00 ± 2,16% e 46,75 ± 2,06% no G1, contra 46,00 ± 4,08% e 46,25 ± 2,06% no G2. Nenhuma dessas comparações atingiu significância estatística (p > 0,05), sugerindo que o uso da palmilha com cunha medial de 2 mm, em curto prazo, não promoveu modificações substanciais no padrão estático de apoio plantar. Esses achados reforçam a ideia de que a baropodometria em ortostatismo pode não ser suficientemente sensível para captar microajustes induzidos por elementos corretivos discretos, corroborando observações de Duarte e Freitas (2010).

Tabela 2 – Comparação intragrupo e intergrupo da distribuição da pressão plantar (baropodometria)

VariáveisGrupo Controle (G1, n=4) PréGrupo Controle (G1) PósGrupo Intervenção (G2, n=4) PréGrupo Intervenção (G2) PósValor de p (intergrupo)
Pé direito (%)53,00 ± 2,1653,25 ± 2,0654,00 ± 4,0853,75 ± 2,060,74
Pé esquerdo (%)47,00 ± 2,1646,75 ± 2,0646,00 ± 4,0846,25 ± 2,060,74
Fonte: Autores (2025). Dados expressos em média ± DP. Teste t pareado (intragrupos) e teste t independente (intergrupos). Nível de significância: p < 0,05.

Em contrapartida, os resultados da dinamometria isométrica do glúteo médio revelaram diferenças mais expressivas. O grupo controle apresentou valores médios de 10,55 ± 1,10 kgf no pré-teste e 10,06 ± 1,35 kgf no pós-teste para o glúteo médio direito, indicando uma discreta redução não significativa (p > 0,05). Já o grupo intervenção partiu de 10,19 ± 3,21 kgf no pré-teste e alcançou 12,23 ± 2,38 kgf no pós-teste, resultado que demonstrou aumento significativo da força muscular (p = 0,04), com tamanho de efeito classificado como moderado. Para o glúteo médio esquerdo, tanto o grupo controle quanto a intervenção não apresentaram diferenças significativas (p > 0,05).

Tabela 3 – Comparação intragrupo e intergrupo da força do glúteo médio (dinamometria)

VariáveisGrupo Controle (G1, n=4) PréGrupo Controle (G1) PósGrupo Intervenção (G2, n=4) PréGrupo Intervenção (G2) PósValor de p (intergrupo)
Glúteo médio direito (kgf)10,55 ± 1,1010,06 ± 1,3510,19 ± 3,2112,23 ± 2,380,04*
Glúteo médio esquerdo (kgf)10,83 ± 0,5310,53 ± 2,028,58 ± 2,3910,57 ± 2,130,06
Fonte: Autores (2025). Dados expressos em média ± DP. Diferença significativa (p < 0,05). Teste t pareado (intragrupos) e teste t independente (intergrupos).

De modo geral, os achados indicam que a intervenção com palmilhas contendo elemento infracapital medial de 2 mm foi capaz de promover um ganho discreto, porém significativo, na força do glúteo médio direito, sem, contudo, provocar alterações relevantes na distribuição da pressão plantar. Esses resultados sugerem que o efeito da palmilha se manifesta de forma localizada, influenciando mais diretamente a musculatura estabilizadora do quadril do que o padrão global de apoio plantar. Tal evidência dialoga com estudos prévios que apontam a possibilidade de adaptações neuromusculares mesmo diante de mudanças sutis na base de apoio (KRISTANTO et al., 2021; THONG-ON et al., 2023)

DISCUSSÃO

O presente estudo teve como objetivo analisar os efeitos do uso de palmilhas com elemento infracapital medial de 2 mm sobre a força do músculo glúteo médio e a distribuição da pressão plantar em mulheres praticantes de musculação. De forma geral, os resultados indicaram que o grupo intervenção apresentou aumento discreto, mas estatisticamente significativo, na força do glúteo médio direito após quatro semanas de uso da palmilha, enquanto não foram observadas mudanças relevantes na distribuição da pressão plantar em ortostatismo. Esses achados oferecem contribuições iniciais importantes para a compreensão da aplicabilidade clínica de palmilhas corretivas em populações jovens e saudáveis, bem como para o delineamento de novos estudos na área.

Do ponto de vista da força muscular, a melhora observada no glúteo médio direito sugere que mesmo pequenas modificações na base de apoio podem ser capazes de induzir ajustes neuromusculares proximais. Estudos anteriores já apontavam que alterações na interface pé–solo podem modificar vetores de força e padrões de ativação muscular em cadeia cinética fechada (KRISTANTO et al., 2021). A função do glúteo médio como estabilizador pélvico é amplamente reconhecida, sendo essencial na contenção do valgo dinâmico e na manutenção da estabilidade do quadril durante movimentos de carga como agachamentos e corridas (NEUMANN, 2010; ALZAHRANI et al., 2021). Nesse sentido, o ganho observado, ainda que unilateral, pode ser interpretado como resultado de ajustes neurais iniciais decorrentes da presença da cunha medial, favorecendo um maior recrutamento dessa musculatura durante atividades cotidianas e de treino.

Estudos prévios corroboram parcialmente esse achado. Alshawabka et al. (2014), ao avaliarem os efeitos de palmilhas com cunha medial em indivíduos com pronação excessiva, observaram modificações significativas na cinemática subtalar e redução do estresse no joelho, sugerindo repercussões funcionais proximais. De modo semelhante, Braga et al. (2019) identificaram que a utilização de palmilhas medialisadas em corredores com excesso de pronação promoveu ajustes biomecânicos que auxiliaram na redução da sobrecarga em estruturas do joelho. Embora o presente estudo não tenha replicado essas alterações no padrão plantar estático, o aumento da força do glúteo médio indica que mesmo elementos de baixa espessura, como os 2 mm aqui utilizados, podem induzir efeitos adaptativos importantes.

A ausência de modificações significativas na distribuição da pressão plantar pode ser explicada por diferentes fatores. Primeiramente, o protocolo utilizou avaliação em ortostatismo, condição estática que pode não ser suficientemente sensível para captar microajustes decorrentes da intervenção. Trabalhos que reportaram alterações significativas geralmente avaliaram tarefas dinâmicas, como marcha e corrida, onde a demanda postural e as forças de reação do solo são mais complexas e passíveis de ajustes perceptíveis (THONG-ON et al., 2023). Além disso, a literatura mostra que palmilhas com espessura superior a 4 mm têm maior capacidade de alterar a descarga plantar (COSTA et al., 2021), ao passo que elementos mais discretos, como os aplicados neste estudo, parecem produzir efeitos mais localizados e sutis, possivelmente insuficientes para impactar medidas baropodométricas em repouso.

Outro ponto a ser considerado é a unilateralidade do ganho de força, com significância estatística apenas para o glúteo médio direito. Esse achado pode estar relacionado à dominância lateral das participantes, à existência de assimetrias posturais prévias ou mesmo à sensibilidade limitada da amostra reduzida. Estudos com maior número de participantes poderiam esclarecer se esse efeito é consistente ou apenas um achado pontual decorrente da variabilidade individual. Ainda assim, mesmo esse resultado isolado tem relevância clínica, pois reforça a hipótese de que ajustes sutis na base de apoio podem induzir adaptações neuromusculares localizadas.

Em termos de implicações clínicas, os resultados deste estudo sugerem que palmilhas com elemento medial de baixa espessura pode ser consideradas como estratégia complementar no fortalecimento do glúteo médio, especialmente em programas de musculação voltados para mulheres. A literatura aponta que a maior predisposição feminina ao valgo dinâmico está associada a maior incidência de lesões como síndrome da dor patelofemoral e ruptura do ligamento cruzado anterior (BALDON et al., 2011; DE CAMARGO et al., 2023). Portanto, a utilização de recursos simples, de baixo custo e fácil aplicação, como as palmilhas corretivas, pode ter valor preventivo importante quando associada a exercícios resistidos.

É válido ressaltar que o tempo de intervenção de quatro semanas pode ter sido insuficiente para gerar adaptações mais robustas. Pesquisas anteriores apontam que períodos superiores a oito semanas são geralmente necessários para observar mudanças significativas tanto na força muscular quanto na biomecânica plantar (BRAGA et al., 2019; THONG-ON et al., 2023). Dessa forma, é plausível supor que, em estudos futuros com maior duração, os efeitos aqui identificados poderiam se consolidar e se estender também para parâmetros de descarga plantar e controle postural dinâmico.

Do ponto de vista metodológico, o presente trabalho deve ser interpretado como um estudo piloto, característica justificada pelo reduzido tamanho da amostra. Embora essa limitação impeça a generalização ampla dos resultados, ela não invalida os achados, que são relevantes como evidência preliminar e como base para o planejamento de investigações futuras. Além disso, o caráter piloto permite avaliar a viabilidade do protocolo, testar os instrumentos utilizados e identificar potenciais pontos de ajuste metodológico.

Para pesquisas subsequentes, recomenda-se ampliar a amostra e incluir análises dinâmicas, como marcha, corrida e exercícios funcionais (agachamento, avanço, levantamento terra), em que o papel do glúteo médio e o alinhamento do quadril são ainda mais críticos. O uso de métodos complementares, como a eletromiografia de superfície, poderia fornecer dados mais detalhados sobre o padrão de ativação muscular em diferentes condições, contribuindo para a compreensão dos mecanismos neuromusculares subjacentes às adaptações observadas.

Em síntese, os achados deste estudo estão em consonância parcial com a literatura internacional: confirmam a importância da musculatura abdutora do quadril para a estabilidade pélvica e sugerem que palmilhas com elementos infracapitais discretos podem induzir adaptações neuromusculares localizadas, mesmo sem alterar de forma significativa a pressão plantar em ortostatismo. Embora os resultados devam ser interpretados com cautela devido às limitações do desenho piloto, eles reforçam a relevância de investigações na área e abrem caminho para o desenvolvimento de estratégias preventivas simples e acessíveis no contexto da musculação e da fisioterapia esportiva.

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo indicam que o uso de palmilhas com elemento infracapital medial de 2 mm, durante quatro semanas, promoveu um discreto, porém significativo, aumento da força do músculo glúteo médio direito em mulheres praticantes de musculação, sem, contudo, provocar alterações relevantes na distribuição da pressão plantar em ortostatismo. Esses achados sugerem que a intervenção pode favorecer ajustes neuromusculares localizados, principalmente na musculatura estabilizadora do quadril, ainda que não se traduzam em modificações mensuráveis no padrão global de apoio plantar em curto prazo.

Do ponto de vista clínico, as palmilhas de cunha medial podem ser consideradas um recurso complementar de baixo custo e fácil aplicação, especialmente quando associadas a programas de fortalecimento resistido, visando à prevenção de desequilíbrios posturais e ao controle do valgo dinâmico do joelho em mulheres jovens. Ainda assim, deve-se ter cautela na generalização dos resultados devido ao pequeno tamanho da amostra, ao curto período de acompanhamento e à avaliação restrita a condições estáticas.

Futuros estudos, com amostras mais robustas, protocolos de intervenção prolongados e avaliação em tarefas dinâmicas como marcha, corrida e exercícios funcionais, bem como o uso de ferramentas adicionais como a eletromiografia de superfície, poderão ampliar a compreensão sobre os efeitos das palmilhas na biomecânica do quadril e dos membros inferiores. Assim, este trabalho oferece evidências iniciais que reforçam a importância do glúteo médio no controle postural e abre perspectivas para novas investigações sobre estratégias preventivas e de suporte ao treinamento em praticantes de musculação.

REFERÊNCIAS

ALZAHRANI, A. M. et al. Is hip muscle strength associated with dynamic knee valgus in a healthy adult population? International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 18, n. 14, p. 7669, 2021. DOI: https://doi.org/10.3390/ijerph18147669.

ALSHAWABKA, M. et al. Effects of medial wedge insoles on subtalar and knee joint kinematics during walking. Journal of Foot and Ankle Research, v. 7, n. 1, p. 1-8, 2014. DOI: https://doi.org/10.1186/1757-1146-7-18.

BALDON, R. M. et al. Diferenças biomecânicas entre os gêneros e sua importância nas lesões do joelho. Fisioterapia em Movimento, v. 24, n. 1, p. 157–166, 2011. DOI: https://doi.org/10.1590/S0103-51502011000100018.

BRAGA, U. M. et al. Effects of medially wedged insoles on the biomechanics of the lower limbs of runners with excessive foot pronation and foot varus alignment. Gait & Posture, v. 74, p. 242–249, 2019. DOI: https://doi.org/10.1016/j.gaitpost.2019.09.008.

CASTRO, A. A. M. et al. Percepção de lesões musculares em praticantes de musculação em academias com e sem supervisão de fisioterapeuta: uma análise custo-efetividade. Life Style Journal, v. 1, n. 1, p. 11–22, 2015. DOI: https://doi.org/10.19141/22373756/lifestyle.v1.n1.p11-22.

COHEN, J. Statistical power analysis for the behavioral sciences. 2. ed. Hillsdale: Lawrence Erlbaum Associates, 1988.

COSTA, B. L. et al. Is there a dose-response of medial wedge insoles on lower limb biomechanics? University of Central Lancashire (UCLan) Repository, 2021. Disponível em: https://clok.uclan.ac.uk/id/eprint/41677. Acesso em: 27 out. 2025.

DE CAMARGO, C. L. S. et al. Incidência do valgo dinâmico em pessoas sedentárias. Revista CPAQV – Centro de Pesquisas Avançadas em Qualidade de Vida, v. 15, n. 2, p. 2-10, 2023. DOI: https://doi.org/10.36692/v15n2-02.

DUARTE, M.; FREITAS, S. M. F. Revisão sobre posturografia baseada em plataforma de força para avaliação do equilíbrio. Revista Brasileira de Fisioterapia, v. 14, n. 3, p. 183–192, 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S1413-35552010000300003.

KENDALL, F. P. Músculos: provas e funções, postura e dor. 5. ed. São Paulo: Manole, 2007.

KRISTANTO, A. et al. Effects of corrective insole on leg muscle activation and lower extremity alignment in rice farmers with pronated foot: a preliminary report. The Foot, v. 46, p. 101771, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.foot.2020.101771.

MIOT, H. A. Tamanho da amostra em estudos clínicos e experimentais. Jornal Vascular Brasileiro, v. 16, n. 4, p. 295–301, 2017. DOI: https://doi.org/10.1590/1677-5449.0062.

NEUMANN, D. A. Cinesiologia do aparelho musculoesquelético: fundamentos para reabilitação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

SOUZA, G. L.; MOREIRA, N. B.; CAMPOS, W. Ocorrência e características de lesões entre praticantes de musculação. Saúde e Pesquisa, v. 8, n. 3, p. 469–477, 2015. DOI: https://doi.org/10.17765/2176-9206.2015v8n3p469-477.

STARK, T. et al. Hand-held dynamometry correlation with the gold standard isokinetic dynamometry: a systematic review. Physical Medicine and Rehabilitation, v. 3, n. 5, p. 472– 479, 2011. DOI: https://doi.org/10.1016/j.pmrj.2010.10.025.

THONG-ON, S. et al. Effects of customized insoles with medial wedges on lower limb kinematics and kinetics. Journal of Foot and Ankle Research, v. 16, n. 1, p. 1–10, 2023. DOI: https://doi.org/10.1186/s13047-023-00624-7.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: World Health Organization, 2020. DOI: https://doi.org/10.56619/9789240015128.