APOIO PSICOLÓGICO NA TERMINALIDADE: REFLEXÕES ACERCA DA ELABORAÇÃO DO LUTO EM UMA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA DE UM HOSPITAL GERAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202508121913


Leci Maria Soriano Bobsin Corrêa1


RESUMO

A elaboração do luto, diante do diagnóstico da terminalidade, é permeada por diversos significados podendo variar de acordo com a cultura local e o contexto em que ocorre. Desde o início da humanidade, a morte traz inquietude e é um assunto temido sendo frequentemente um tema evitado. Referente ao contexto hospitalar, em que a finitude se mostra presente, a figura do psicólogo tornou-se importante e quando se fala em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), os medos, temores e as fantasias se intensificam. Diante do exposto, este artigo tem como objetivo refletir sobre o ambiente de uma UTI, como espaço de atuação também do psicólogo e, sobretudo, do manejo com pacientes e familiares em situações de luto. É comum que pacientes e familiares se desorganizem emocionalmente em uma UTI; assim, o psicólogo age com fins específicos, como no auxílio da elaboração do processo de terminalidade, exercendo a escuta empática e ativa e intervindo em benefício dos pacientes. Desta forma, este estudo se desenvolveu a partir do relato de experiência em Psicologia Clínica, em uma Unidade de Terapia Intensiva Adulto de um Hospital Geral, no Estado do RS. Como resultados, percebeu-se o quão frequente se manifestam mecanismos de defesa nesse ambiente, principalmente a negação e a racionalização. A compreensão da utilização destes mecanismos, por parte do profissional, faz-se necessária para melhor planejar as intervenções a serem trabalhadas, visando contribuir para uma elaboração adaptativa do luto e, consequentemente, um melhor enfrentamento das situações de terminalidade e de difícil manejo.

Palavras chave: Luto. Terminalidade. Hospital. UTI

ABSTRACT

The bereavement process in the face of a terminal diagnosis encompasses multiple layers of meaning, which may vary according to local culture and context. Since antiquity, death has provoked anxiety and remains a feared, often avoided subject. In a hospital setting where finitude is manifest the role of the psychologist has become essential; within an Intensive Care Unit (ICU), fears, anxieties, and fantasies are intensified. This article aims to reflect on the ICU as a workspace for psychologists, focusing particularly on intervention with patients and families in situations of grief. Commonly, both patients and relatives experience considerable emotional disorganization within the ICU; thus, the psychologist acts with specific objectives assisting in processing terminality, exercising active, empathetic listening, and intervening in the service of patients. This study is grounded in an Experience Report in Clinical Psychology conducted in an adult ICU of a general hospital in Rio Grande do Sul, Brazil. Findings reveal frequent use of defense mechanisms in this environment, primarily denial and rationalization. For the psychologist, understanding these mechanisms is essential to plan proper interventions aimed at supporting adaptive bereavement processing and thus facilitating better coping with terminal situations that are often difficult to manage.

Keywords: Grief. Terminality. Hospital. ICU

INTRODUÇÃO

Desde o início dos tempos, o homem busca a imortalidade combatendo a possibilidade de finitude, de maneira a evitar a morte, tendo-a como uma oponente e inimiga. De acordo com Soavinsky (2009), a morte lança uma sombra assustadora sobre os indivíduos, porque somos completamente impotentes diante dela. Nossas representações sobre a mortalidade são interpretadas por crenças e valores advindos da cultura, proliferando e perpetuando comportamentos, de geração em geração.

De acordo com Pinto (2003), o grande progresso tecnológico dos últimos anos, beneficiou enormemente as especialidades médicas, que hoje se encontram mais preparadas para enfrentar os desafios representados pela ampla prevalência de diferentes doenças. Em contrapartida, Esslinger (2004) enfatiza que o homem contemporâneo adia e nega a morte, utilizando as tecnologias com o objetivo de prolongar a vida. Ainda, aborda este autor que o ser humano é o único ser mortal que tem consciência de sua finitude, utilizando mecanismos de defesa com o intuito de negá-la. Dentro desse contexto, cada indivíduo pode vivenciar de formas variadas a elaboração do luto, frente ao diagnóstico da terminalidade, utilizando mecanismos de maneira a minimizar e se proteger de um sofrimento quase sempre avaliado como intenso e ameaçador, podendo desencadear desorganização, tanto individual, quanto coletiva.

No ambiente hospitalar, a Psicologia deve ser entendida dentro do campo da Psicologia da Saúde, visando à promoção e manutenção da saúde física e mental, a prevenção e tratamento de doenças, podendo se estender do Hospital Geral ao Hospital Psiquiátrico (BAPTISTA e DIAS, 2003).  Em um Hospital Geral, as Unidades de Terapia ou Tratamento Intensivo exercem o papel fundamental na chance de sobrevida de pacientes gravemente enfermos e a atuação do psicólogo, neste ínterim, pode ser o diferencial para a elaboração do luto dos pacientes e familiares.

Sendo assim, este artigo se desenvolveu a partir do Relato de Experiência em Psicologia Clínica, em uma Unidade de Terapia Intensiva de um Hospital Geral no Estado do Rio Grande do Sul. Os atendimentos foram realizados aos pacientes e familiares por meio de busca ativa na unidade, bem como por encaminhamentos da equipe assistencial multiprofissional. Quando os pacientes se encontravam impossibilitados de se comunicar, sedados, entubados ou em coma, os atendimentos foram realizados aos familiares.

O AMBIENTE HOSPITALAR E O ESPAÇO DO PSICÓLOGO

Segundo o Ministério da Saúde e de acordo com Campos (1995), o hospital é parte integrante de uma organização social e médica que possui a função básica de proporcionar à população, a assistência médico-sanitária, tanto curativa como preventiva e sob quaisquer regimes de atendimento, incluindo o domiciliar.

O conceito de saúde no ambiente hospitalar foi sendo reformulado com o decorrer dos anos, a partir da inserção não somente de médicos, mas também de outros profissionais. Historicamente, o médico é a figura da autoridade maior, sendo considerado como o principal responsável pela condução dos casos acompanhados no contexto hospitalar. Este conceito não é diferente nos dias de hoje, sendo aquele que detém o saber, entendido como quem irá curar o paciente (FOUCALT, 2004). 

Segundo Simonetti (2004), a relação paciente/médico acontece na dimensão real a partir do momento em que o paciente se queixa de dor e busca no médico a solução para a sua aflição, sendo a comunicação, fator de extrema importância para a confiança do paciente no tratamento, fatores estes que influenciam no processo de enfrentamento da doença.

Os profissionais das diversas equipes multiprofissionais, por meio do conhecimento específico, promovem a assistência à saúde de usuários que poderão ser particulares, conveniados ou do Sistema Único de Saúde (SUS). Dentre estes, o psicólogo pode exercer o papel de minimizar a dor psíquica do paciente, bem como de equilibrar aspectos vulneráveis, como por exemplo, os sentimentos de solidão despertados quando privados de ver seus familiares. Neste sentido, é importante que o psicólogo verifique as dificuldades e desequilíbrios causados pelo adoecimento e afastamento do familiar, oferecendo sua assistência (ISMAEL, 2005).

O psicólogo deve trabalhar em prol do paciente, rendendo esforços na focalização deste como pessoa, auxiliando e direcionando o trabalho de acordo com as suas necessidades, identificando “características de funcionamento psíquico-normal ou patológico na vigência de uma doença e quais as intervenções pertinentes a qualquer uma destas condições” (ISMAEL, 2005, p. 44). Aborda este autor que os familiares também podem sentir-se desorganizados psicologicamente e emocionalmente frente à hospitalização ou diagnóstico de terminalidade, sendo compreendida pela necessidade de obter informações sobre o estado de saúde do paciente.

Campos (1995, p. 42) afirma que:

A doença física é acompanhada de uma manifestação na esfera psíquica, ocasionando também alterações na interação social. A doença provoca, precipita ou agrava desequilíbrios psicológicos, quer no paciente, quer na família.

Desta forma, o psicólogo no hospital pode colaborar para minimizar a dor manifestada inicialmente em nível físico e intensificada pelos níveis psíquicos, emocionais e sociais, visto que o paciente hospitalar é um ser vulnerável e que se encontra com restrições físicas podendo criar uma imagem negativa e debilitada de si. O profissional psicólogo pode ser solicitado a intervir de forma a agir na dimensão imaginária e simbólica do paciente, áreas estas, não acessadas pelos médicos e outros profissionais da saúde.

O PROCESSO DE LUTO E SUAS FASES

 O luto é um processo de elaboração e resolução de uma perda real ou fantasiosa presente na vida do indivíduo em diversas etapas da vida. Bolwby (1999) enfatiza que o enlutamento é a ação psicológica que está relacionada à perda de um objeto amado, que comumente leva à renúncia deste objeto. O processo de luto implica na transformação do vínculo com a pessoa falecida, de maneira a promover o desligamento do mesmo e a possibilidade de envolver-se com novos vínculos. A reação à perda e a duração do luto varia entre diferentes culturas, sendo mais marcante nos primeiros seis meses, dependendo dos diversos fatores que a determinam (BOWLBY, 1999).

Entende-se que o luto pode ser percebido a partir de múltiplos contextos e vivências. Dentre eles, destaca-se a experiência de transição psicossocial, experiência de crescimento, doença, crise, experiência simbólica, dentre outros. Frente a uma perda significativa inicia-se o processo de elaboração do luto, que de acordo com Bowlby (1999), pode ser definido a partir das seguintes fases. Entorpecimento busca e saudade, caracterizado inicialmente pelo choque e preocupação com a pessoa perdida, podendo durar meses ou até anos. Desorganização e desespero, caracterizado por inquietação e falta de objetivos, podendo acontecer revivência repetida de recordações. Reorganização, onde há o estabelecimento de novos padrões, metas e objetivos. Nesta fase ocorre a identificação sadia com a pessoa falecida. Ainda, para Worden (1998), as tarefas do luto podem ser descritas como: aceitar a realidade da morte; vivenciar o pesar; ajustar-se a um meio no qual o falecido não mais se encontra; retirar energia emocional e reinvesti-la em outra relação.

Stroebe, Stroebe e Hansson (1993) abordam que o fenômeno do luto é complexo e possui cinco dimensões. São elas: 1- Dimensão intelectual do luto – compreende desorganização, confusão, falta de concentração, intelectualização, desorientação e negação. 2 – Dimensão emocional do luto – nesta dimensão, inclui-se o choque, entorpecimento, a raiva, culpa, depressão, alívio, irritabilidade, solidão, saudades, tristeza, descrença, ansiedade, confusão, medo e, ainda, negação. 3 – Dimensão física do luto – nesta etapa há alterações de apetite, visão turva, alterações do sono, inquietação, dispneia, palpitações cardíacas, boca seca, exaustão, perda do interesse sexual, dores de cabeça, alterações no peso, mudanças no funcionamento intestinal e choro. 4 – Dimensão espiritual do luto – nesta dimensão inclui-se as impressões, sonhos, perda ou aumento da fé, dor espiritual, raiva de Deus, questionamento de valores, sentir-se traído por Deus, desapontamento com membros da igreja. 5 – Dimensão social do luto – inclui isolamento, perda da identidade, afastamento, falta de interação e perda da habilidade de relacionarse socialmente. Vale ressaltar que o luto não é estudado somente pela Psicologia. Este fenômeno se presta a diversos olhares e saberes, tornando-se objeto de pesquisa também da Psiquiatria, Sociologia, Antropologia, dentre outras ciências. 

O luto é um processo que permite revisões na identidade, nas relações sociais, nas relações com o próprio morto e no sistema de crenças e valores (NEIMEYER, 2001).

UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA: ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO

Com o decorrer dos anos os hospitais criaram ambientes voltados para o atendimento de pacientes críticos, com tecnologias de ponta e profissionais especializados para lidar com as mais diversas situações de doença. Dentro desse contexto, encontram-se as Unidades de Terapia Intensiva ou Tratamento Intensivo – UTIs. Este espaço é destinado aos pacientes em estado grave, com chances de sobrevida e que requerem monitoramento constante (24 horas) e cuidados bem mais complexos que o de outros pacientes (ISMAEL, 2005).

As angústias e os medos vividos frente à iminência da terminalidade em um ambiente de UTI podem provocar estresse emocional e desorganização, sendo necessários recursos para enfrentamento da dor psíquica.

Ismael (2005) aborda que apesar de todos os avanços tecnológicos e científicos para possibilitar o restabelecimento da saúde de pacientes graves, as UTIs continuam sendo consideradas a “ante-sala da morte”. A internação em uma Unidade de Terapia Intensiva é associada, pela maior parte das pessoas, à finitude e com poucas chances de sobrevivência.

O psicólogo, no contexto de uma UTI, deve atuar como um canal facilitador que envolve tanto paciente como familiares e equipe. O estresse frente à possibilidade iminente da morte pode provocar ansiedade e angústia, tanto de pacientes, como de familiares e equipe, onde o trabalho do profissional psicólogo é de estabelecer um atendimento focado para o acolhimento das emoções provenientes da possibilidade de morte (HABERKORN, 2004).

As Unidades de Tratamento Intensivo – UTIs são setores hospitalares que funcionam em condições de isolamento devido às circunstâncias especiais que os cuidados intensivos exigem. A utilização de tecnologia sofisticada tem propiciado o atendimento de pacientes graves, aumentando cada vez mais as possibilidades de sobrevida (FIGUEIREDO, SILVA e SILVA, 2008, p. 26).

Conforme Fogaça, Carvalho, Cítero e Martins (2008), estes são locais onde os profissionais atuam sob forte pressão, podendo qualquer negligência levar o paciente à morte. Furtado e Souza (2010) enfatizam ainda que, em um ambiente de UTI, as decisões precisam ser rápidas podendo acarretar, aos profissionais, estresse e adoecimento. Referente a essa questão, Regis e Porto (2006, p. 18) afirmam que “de maneira geral o hospital é reconhecido como um recinto insalubre, penoso e perigoso para os que ali trabalham sendo considerado como um local privilegiado para o adoecimento”. Ainda, para Fogaça et al. (2008), a relação entre estresse ocupacional e saúde mental dos trabalhadores tem sido um dos principais assuntos abordados em estudos no setor da saúde devido ao número alarmante de doenças, absenteísmos, aposentadorias precoces e riscos à saúde de profissionais que trabalham em UTIs.

Martins e Faria (2002) reforçam que em uma Unidade de Terapia Intensiva ocorrem manifestações de sofrimento e desprazer que emergem da dor física do sujeito hospitalizado, do sofrimento dos familiares e da falta ou escassez de materiais. Para os profissionais que trabalham com pacientes terminais, há um desgaste emocional muito grande, podendo desencadear sentimentos de culpa, tristeza, ansiedade, raiva e impotência (MARTINS e FARIA, 2002).

O apoio psicossocial, dessa forma, deve ser dado, tanto para a equipe como para os pacientes e familiares, pois diante da terminalidade onde a morte é permeada de preconceitos e estigmas, uma série de elementos ameaçadores aterroriza o ser humano.

Os comportamentos de pacientes internados nessas unidades, variam desde o medo da morte, insegurança, ansiedade, impaciência, agressividade, dentre outros. Aborda Ismael (2005) que a internação em uma Unidade de Tratamento Intensivo despoja o indivíduo de tudo que o identifica, como de sua família, roupas e pertences, ficando restrito ao leito e ao manejo dos profissionais da saúde. O estresse emocional somado as características do ambiente, são as principais causas dos distúrbios de comportamento e humor mais frequentes nestes ambientes.

Pacientes internados nessas unidades muitas vezes encontram-se em situação de difícil comunicação, podendo estar inconscientes, entubados ou traqueostomizados.

Como consequência, tornam-se ansiosos, estressados, agitados e com medo de se sentirem incompreendidos. Desta forma, Rezende (2000) afirma que o paciente pode comunicar-se por meio de falas “confusas” e mensagens não interpretadas literalmente, devendo ser compreendidas pelo profissional a fim de facilitar o processo de busca de sentidos e elaboração de sentimentos. Para Callanan e Kelly (1994), o importante é não desqualificar a fala e as mensagens transmitidas, pois a proximidade com a morte faz com que pacientes utilizem, frequentemente, uma linguagem simbólica para evocar suas experiências de vida com a iminência da finitude. Neste sentido, a compreensão do psicólogo deve ser empática implicando em poder “entrar” em contato com os sentimentos do outro, a partir dos olhos da pessoa e de como provavelmente o outro o olharia, com intervenções breves e focais, podendo se utilizar de gestos, figuras e do recurso da escrita. Diante da complexidade do atendimento, poderão ser observados os gestos, o olhar, o corpo, o murmúrio do paciente, utilizando-se não somente a comunicação verbal, mas a não verbal.

Segundo Kovács (2005), o medo é a resposta psicológica mais comum diante da morte. Uma das formas de amenizar essa experiência dolorosa é falar das experiências e sentimentos vividos, auxiliando assim o processo de elaboração e enfrentamento.

Tanto pacientes como familiares passam por fases de adaptação quando da hospitalização em uma UTI, caracterizadas por confusões, busca de informações e acompanhamento da evolução do paciente. A internação desencadeia sintomas de ansiedade e estresse, sendo necessária a mobilização de recursos para enfrentamento da crise. A atuação do psicólogo, neste contexto, deve ser no sentido de conhecer as demandas e intervir de forma clara e com ingerências pontuais (ISMAEL, 2005).

Dentre algumas dificuldades que profissionais da área da saúde enfrentam em situações de terminalidade, cita-se a de ouvir sem se deixar impactar diante da complexidade envolvida. Nesse momento, é essencial que o profissional da área da Psicologia tenha uma postura de desprendimento em relação aos seus próprios valores e crenças, sob pena de impor ao outro a sua própria perspectiva. Como por exemplo, podese mencionar a apreensão do profissional em querer que o paciente ou familiar receba alívio imediato do seu sofrimento emocional. 

Menezes (2005) enfatiza sobre a importância da humanização hospitalar, ressaltando que o ambiente de uma UTI é árido por lidar com pessoas em sofrimento. Afirma o autor que o equilíbrio na comunicação, na construção do diálogo entre paciente e equipe são premissas fundamentais para se alcançar os objetivos da humanização em Unidades de Terapia Intensiva.

A PRÁTICA EM PSICOLOGIA CLÍNICA

 A experiência em Psicologia Clínica em um hospital geral, ocorreu por meio da inserção da profissional no Setor de UTI Emergência Adulto do referido hospital. O presente relato de experiência aqui explanado se deu na unidade, a partir de pacientes internados bem como de seus familiares em situações de luto e terminalidade. Durante o período de dois anos, foi possível observar diversos processos de luto, entre eles, vivências de óbitos de pacientes.

Dos pacientes internados e atendidos, os casos mais comuns de óbito foram decorrentes de AVC – Acidente Vascular Cerebral, Diabetes e complicações cardíacas.

As notícias médicas passadas aos familiares normalmente ocorriam com a presença da psicóloga que, muitas vezes, era contatada pela equipe a fazer-se presente neste momento com objetivo de acolhimento e apoio emocional. As reações emocionais mais comuns dos familiares diante de uma possibilidade de óbito foram: revolta, negação, desespero, culpa, medo e racionalização. Muitas vezes o papel da profissional era somente de desenvolver a escuta, estimular expressão, auxiliando na organização do pensamento e no acesso a realidade, bem como disponibilizar um espaço de apoio e acolhimento. 

Durante os dois anos de atuação da profissional de Psicologia, a maior parte dos atendimentos foi feito aos familiares dos pacientes internados na UTI Emergência Adulto, pelo fato destes, boa parte das vezes, estarem sedados e inconscientes.

Não se pode afirmar um padrão de reações psicológicas e emocionais dos familiares diante a possibilidade de morte do paciente internado, devendo se levar em conta “sua história de vida, o seu apoio social e familiar, sua estrutura psicológica, a sua qualidade de vida no momento, entre outros inúmeros fatores” (BAPTISTA & DIAS, 2003, p. 76).

Simonetti (2004) afirma que a negação é uma defesa psicológica que deve ser analisada de acordo com as razões e o ponto de vista do psiquismo do paciente. Negação é um mecanismo inconsciente de defesa descrito por Freud; é um recurso da natureza humana contra sofrimentos insuportáveis e está presente na primeira fase do luto, em que se nega a morte da pessoa amada, como se a qualquer momento ela pudesse voltar (BERGERET, 2006). Referente a este mecanismo de defesa, percebeu-se que a maior parte dos familiares se utilizou desta estratégia para lidar com os seus sentimentos.

Afirma Simonetti (2004, p. 119), que a intervenção psicológica nessas situações, não deve ser de convencer o paciente ou familiar, forçando-o a concordar com o diagnóstico ou prognóstico futuro. O psicólogo deve esperar que o paciente ou familiar “fale de si, da doença, do que quiser; quando o paciente pode falar livremente, a negação, não raro se desvanece”.

Houve alguns familiares que se utilizaram do mecanismo de racionalização, como forma de lidar com suas emoções. A racionalização nada mais é do que a autoproteção onde se procura encontrar fundamentos racionais para atitudes e comportamentos com objetivo do conforto psíquico (ALMEIDA, 1996). Percebeu-se, em alguns familiares, a utilização deste mecanismo como estratégia de não enfrentamento do sofrimento vivido. Nestes casos, as emoções não eram exteriorizadas e sim, manifestações de defesa como não falar sobre a doença ou demonstrar-se forte perante a situação, não entrando em contato com seus sentimentos, evitando, desta forma, o sofrimento.

Quanto ao aspecto da espiritualidade, destaca-se que muitos pacientes e familiares atendidos tinham suas crenças espirituais, na maior parte das vezes, evangélicos e espíritas. A religião pode ser caracterizada pela maneira como o indivíduo segue suas próprias crenças e filosofias, ligando-se ao sagrado. A espiritualidade influencia a maneira de enfrentar e lidar com o luto, servindo para se compreender e aceitar a morte, suportando de uma melhor forma a terminalidade, tornando-a menos penosa e árdua (ARNTZ, CHASSE e VICENTE, 2005). Abordam os autores que é comum o comportamento de busca espiritual de tratamentos quando não se acham respostas concretas no campo médico.

Ressalta-se ainda que para enfrentar a morte, determinados profissionais, como por exemplo, os médicos, tendem muitas vezes a adquirir uma certa “distância” dos pacientes e familiares. Entende-se que tal postura pode ser uma estratégia de defesa para se manter afastado, evitando, desta forma, um sofrimento psíquico futuro. Quintana, Kegler, Santos e Lima (2006) enfatizam que a dificuldade na comunicação entre médico e paciente terminal pode estar relacionada ao temor do profissional de que os pacientes e familiares dirijam sua raiva para ele, podendo ser esta originária de uma falha do profissional ou de alguma projeção de culpa.

Pacientes internados em UTIs, bem como seus familiares, geralmente encontramse fragilizados e inseguros frente à terminalidade, tornando-se, muitas vezes, de difícil manejo. Nestes casos, o profissional da Psicologia pode fazer-se presente no momento em que o médico transmite a notícia, a fim de que sejam garantidos o acolhimento e apoio emocional nessa hora, bem como o acompanhamento durante o período de internação para que suas defesas desadaptativas possam ser manejadas, flexibilizadas na adesão ao tratamento, e em alguns casos, a refletir sobre a mudança de hábitos de vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em ambiente hospitalar, mais especificamente em uma Unidade de Terapia Intensiva ou Tratamento Intensivo e no que tange à realidade experenciada em Psicologia Clínica, em que pacientes terminais e familiares encontram-se fragilizados emocionalmente, percebeu-se o quão frequente se manifestavam mecanismos de defesa, principalmente a negação e a racionalização.

A compreensão disso, por parte do profissional de Psicologia, faz-se necessária para benefício do paciente e seus familiares, a fim de que haja, dessa forma, a elaboração do luto e, consequentemente, um melhor enfrentamento das situações de terminalidade e de difícil manejo.

Assim, pode-se inferir que é necessário para o Psicólogo, o desenvolvimento de habilidades de escuta, percepção e interpretação do silêncio dos pacientes e familiares em situações de luto. Diante do exposto, entende-se que é por meio da expressão (verbal e não-verbal) que pode emergir a subjetividade, não se limitando à realidade biológica ou ao campo do real, mas simbolizando o que é sentido, por meio das dores e sofrimentos vividos.

Nessa direção, o atendimento psicológico pode ser um espaço de encontro com a significação e ressignificação dos sentimentos, necessário para que se complete o ciclo vital, ante ao enigma e enfrentamento da morte.

Os desafios enfrentados no desenvolvimento deste trabalho, permearam desde a melhor forma de intervir junto a pacientes e familiares enlutados, bem como, a multiplicidade de sentimentos vivenciados pelos profissionais de uma Unidade de Terapia Intensiva, expondo a fragilidade de seus medos, dúvidas, ambiguidades e angústias.

Entende-se que estes aspectos podem ser desenvolvidos e trabalhados em estudos futuros, com a presença efetiva de psicólogos atuando em Unidades de Terapia Intensiva, desenvolvendo um trabalho ativo na implementação de espaços de apoio emocional também aos profissionais da área da saúde.

REFERÊNCIAS

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1Bacharel em Psicologia e Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica do RS. Pós-graduada em Saúde Mental pela UCDB – Universidade Católica Dom Bosco. Pós-Graduada em Psicanálise pela UNISINOS. Pós-graduada em Gestão Empresarial pela Pontifícia Universidade Católica do RS. Formação Psicanalítica pela ABRAFP – Associação Brasileira de Filosofia e Psicanálise. Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Atuou como Docente das Faculdades Integradas São Judas Tadeu – POA / RS. Atuou como Psicóloga Clínica no Centro Clínico do Hospital São Lucas da PUCRS. Atualmente trabalha como Psicóloga Clínica na Cidade de Gramado / RS, no Centro Clínico do Hospital São Miguel Arcanjo. E-mail: lecisbc@gmail.com