DESAFIOS DA ENFERMAGEM NA ASSISTÊNCIA AO DEPENDENTE QUÍMICO: UM ENFOQUE SOBRE DROGAS ILÍCITAS

CHALLENGES OF NURSING IN ASSISTANCE TO THE CHEMICAL DEPENDENT: A FOCUS ON ILLEGAL DRUGS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202506301135


Anderson Junio Dias Gomes1
Arthur Eustaquio Souza1
Berenice da Conceição Apolinário1
Brenda Shaiane Santos de Oliveira1
Eduarda Vitória Pereira Silva1
Ítalo Luz Leoncio Fortuna1
Thaynara Alves da Silva1
Hyorrana Priscila Pereira Pinto2


Resumo 

O presente artigo aborda os desafios enfrentados pela enfermagem na assistência a pessoas com dependência química, com foco no uso de drogas ilícitas. A dependência química é uma condição crônica e recorrente, que impacta significativamente a saúde pública e o convívio social. Diante da complexidade do cuidado ao dependente químico, o papel do enfermeiro é essencial, tanto em aspectos assistenciais quanto gerenciais. Este estudo, de natureza qualitativa e com base em revisão bibliográfica, discute os principais conceitos relacionados à dependência química, apresenta dados epidemiológicos nacionais e analisa o fluxo de assistência da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Destaca-se a importância da humanização no atendimento, da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e da qualificação profissional como meios para a melhoria da qualidade do cuidado. Conclui-se que é imprescindível o fortalecimento de políticas públicas, o combate ao estigma e o investimento em formação continuada dos profissionais de enfermagem. 

Palavras-chave: Dependência química. Enfermagem. Drogas ilícitas. Humanização. RAPS. 

1. INTRODUÇÃO 

O consumo de drogas ilícitas é um problema complexo que afeta diretamente a saúde pública e o convívio social, trazendo consequências físicas, psicológicas e sociais tanto para os usuários quanto para suas famílias e comunidades. Essas substâncias, cuja produção, comercialização e uso são ilegais, contribuem significativamente para o aumento da violência, marginalização e sobrecarga dos serviços de saúde. De acordo com Carlini (2006), “o uso indevido de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, é um dos mais sérios problemas de saúde pública enfrentados pela sociedade moderna, devido às consequências físicas, psicológicas e sociais que acarreta”. 

Diante dessa realidade, a enfermagem desempenha um papel importante no cuidado e na assistência ao dependente químico. Entretanto, o processo de acolhimento e tratamento desse paciente ainda é cercado por inúmeros desafios, que vão desde o preconceito social até a falta de recursos e capacitação adequada dos profissionais. 

Oferecer um atendimento humanizado, ético e livre de julgamentos exige da equipe de enfermagem não apenas conhecimento técnico, mas também habilidades emocionais para lidar com situações de vulnerabilidade, recaídas e resistência ao tratamento (Silva et al., 2018). Sendo assim, qualificar o cuidado prestado ao dependente químico torna-se uma necessidade constante e desafiadora no contexto da saúde.  

Diante disso, o objetivo deste artigo é analisar a atuação da enfermagem no cuidado a pessoas com dependência química, destacando os principais desafios enfrentados, os fluxos de assistência existentes na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a importância da humanização e da sistematização da assistência na qualificação do cuidado prestado a essa população. 

2. REVISÃO DA LITERATURA 

A dependência química é reconhecida como uma doença crônica e recorrente, caracterizada por um conjunto de sintomas comportamentais, cognitivos e fisiológicos. O indivíduo continua a utilizar determinada substância, apesar das consequências adversas significativas associadas ao seu uso. Essa condição envolve a necessidade de consumo contínuo para alcançar efeitos desejados, desenvolvimento de tolerância e sintomas de abstinência quando o uso é interrompido (DIEHL et al., 2011).  

O dependente químico é o indivíduo que desenvolve essa relação de dependência com substâncias psicoativas, incluindo drogas ilícitas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dependência química é um estado psíquico e, às vezes, físico, resultante da interação entre um organismo vivo e uma substância, caracterizado por respostas comportamentais e outras que sempre incluem a compulsão para consumir a substância de forma contínua ou periódica, visando experimentar seus efeitos psíquicos e, às vezes, evitar o desconforto da sua ausência (GARCIA, 2014).  

A assistência de enfermagem para esses pacientes é de extrema importância no processo de recuperação e reintegração social desses indivíduos. Os profissionais de enfermagem atuam na identificação precoce dos sinais de dependência, no acolhimento humanizado e no suporte psicossocial. Além disso, atuam na educação em saúde, promovendo a conscientização sobre os riscos do uso de substâncias e incentivando práticas de vida saudáveis (GARCIA, 2014).  

A dependência química é um dos problemas mais comuns no Brasil, podendo afetar diversas classes sociais e faixas etárias. Alguns dados revelam que 3,2% dos brasileiros usaram substâncias nos últimos 12 meses anteriores à pesquisa, o que equivale a aproximadamente 4,9 milhões de pessoas. Geralmente, os homens e jovens adultos possuem mais tendência à dependência química, sendo ela uma taxa de 5% a mais para os homens e 7,4% de jovens adultos de 18 a 24 anos (FIOCRUZ, 2019).  

O álcool é a droga ilícita mais consumida no Brasil, com 74,6% da população relatando o seu uso. Logo em sequência vem o tabaco, que possui uma taxa de 44% no seu consumo, a maconha com 8,8% e a cocaína, com 2,9%. Infelizmente com a chegada da pandemia, houve um grande aumento nesse consumo e nas porcentagens (FIOCRUZ, 2019).  

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), instituída pela Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017, configura-se como uma rede prioritária para a constituição das regiões de saúde. Trata-se de um conjunto articulado de serviços e ações territoriais que visa atender às necessidades das pessoas com transtornos mentais e/ou com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas, bem como de seus familiares (BRASIL, 2017).  

A RAPS está estruturada em seis eixos principais: Atenção Primária em Saúde, Atenção Especializada, Atenção Hospitalar, Atenção às Urgências e Emergências, Atenção Residencial de Caráter Transitório e Estratégias de Desinstitucionalização e Reabilitação. Cada eixo possui serviços específicos, como UBS, CAPS, hospitais gerais e psiquiátricos, UPAs, Unidades de Acolhimento, Comunidades Terapêuticas, SRTs e o Programa De Volta Para Casa (BRASIL, 2017).  

A dependência química demanda uma abordagem multiprofissional, e o enfermeiro tem papel essencial tanto no nível assistencial quanto gerencial. No nível assistencial, atua diretamente com os pacientes por meio da escuta qualificada, administração de medicamentos, acolhimento e acompanhamento dos sinais de abstinência, além de desenvolver intervenções educativas (LIMA; SILVA; QUINTILIO, 2020). A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é fundamental nesse processo (SILVA et al., 2015).  

Contudo, há entraves como a carência de preparo específico durante a formação profissional. Estudantes sentem-se inseguros diante de situações clínicas envolvendo dependência química (SOUZA et al., 2020). A atuação gerencial do enfermeiro envolve a coordenação da equipe, gestão de recursos e implementação de políticas, com a SAE sendo também estratégica nesse contexto (SILVA et al., 2015).  

Desafios como sobrecarga de trabalho, resistência da equipe e limitações orçamentárias afetam a qualidade da assistência. O estigma social, a dificuldade de reinserção social e problemas estruturais nas redes de atenção também interferem negativamente (KOHLER; DIAS, 2018). Superar tais barreiras requer capacitação permanente, articulação em rede e políticas públicas efetivas.  

A Política Nacional de Humanização (PNH) busca tornar o atendimento no SUS mais acolhedor e eficiente, pautando-se na escuta, no respeito às necessidades individuais, na participação ativa dos usuários e na criação de ambientes agradáveis. A PNH visa garantir uma saúde pública mais acessível, respeitosa e de qualidade.  

3. METODOLOGIA  

Este artigo constitui-se em uma revisão bibliográfica narrativa com abordagem qualitativa, baseada em fontes científicas e institucionais que tratam da dependência química e da atuação da enfermagem nesse contexto. Optamos por esse tipo de estudo por compreender que ele permite uma análise crítica e reflexiva acerca dos principais conceitos, práticas assistenciais e desafios enfrentados pelos profissionais de enfermagem no cuidado a pessoas em situação de dependência de substâncias psicoativas. 

Para a construção desta revisão, utilizamos exclusivamente os materiais listados nas referências ao final deste trabalho. A seleção das fontes considerou publicações disponíveis em português, com acesso aberto, publicadas entre os anos de 2006 e 2021, que abordam de forma direta temas como dependência química, saúde mental, Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), Política Nacional de Humanização (PNH) e a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE). 

Entre os materiais utilizados estão artigos científicos publicados em revistas acadêmicas nacionais, como os de Carlini (2006), Garcia (2014), Diehl et al. (2011), Silva et al. (2015; 2018), Souza et al. (2020), Kohler e Dias (2018), Lima, Silva e Quintilio (2020), além de documentos oficiais publicados pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2014; 2017) e dados divulgados pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ, 2019). Esses materiais foram fundamentais para subsidiar a análise crítica e o embasamento teórico do presente trabalho, permitindo uma reflexão ampla e fundamentada sobre a realidade da assistência de enfermagem aos dependentes químicos no Sistema Único de Saúde (SUS). 

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES  

A análise da atuação da enfermagem frente à dependência química, com ênfase no uso de drogas ilícitas, revelou um cenário complexo e desafiador. A dependência química é um problema de grande relevância social e de saúde pública, atingindo indivíduos de diferentes idades, gêneros e contextos socioeconômicos. O papel do enfermeiro nesse cenário é fundamental, tanto na linha de frente do cuidado quanto na gestão de redes de apoio e serviços especializados.  

Apesar dos avanços na estruturação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e das diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH), o cuidado ao dependente químico ainda enfrenta obstáculos como o estigma social, a fragmentação dos serviços, a escassez de recursos e falhas na formação profissional.  

A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é essencial para garantir um cuidado integral, mas sua implementação encontra barreiras como a sobrecarga de trabalho e o planejamento institucional insuficiente. A humanização, proposta pela PNH, deve ser aplicada na prática diária, valorizando a escuta qualificada, a empatia e o respeito à individualidade dos usuários.  

Assim, destaca-se a importância de políticas públicas que assegurem investimentos na capacitação dos profissionais e no fortalecimento da rede de saúde mental, promovendo uma assistência mais eficaz, ética e humanizada.  

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A enfermagem tem papel estratégico na assistência a pessoas com dependência química, atuando em contextos que exigem preparo técnico, sensibilidade e compromisso ético. Para que a atuação seja eficaz, é necessário enfrentar desafios como a estigmatização, a fragmentação dos serviços e a insuficiência de recursos.  

A SAE e a PNH são aliadas no cuidado humanizado e qualificado, mas demandam esforço institucional para sua plena efetivação. Investir na formação contínua, na valorização da equipe de enfermagem e na articulação entre os serviços de saúde mental é essencial para avançar na qualidade da atenção ao dependente químico.  

Conclui-se que a consolidação de uma assistência integral requer não apenas políticas públicas bem estruturadas, mas também enfermeiros comprometidos com a transformação das práticas em saúde mental e com a promoção da dignidade humana.  

REFERÊNCIAS 

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Instrutivo técnico: Rede de Atenção Psicossocial – RAPS no âmbito do SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/instrutivo_tecnico_raps_sus.pdf. Acesso em: 5 maio. 2025.  

CARLINI, E. L. A. O uso indevido de substâncias psicoativas: um dos mais sérios problemas da sociedade moderna. Revista USP, São Paulo, n. 68, p. 14–27, dez. 2006. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13439. Acesso em: 2 maio. 2025.  

DIEHL, A. et al. Dependência química: prevenção, tratamento e políticas públicas. Porto Alegre: Artmed, 2011.  

FIOCRUZ. Pesquisa revela dados sobre o consumo de drogas no Brasil. Portal Fiocruz, 20 ago. 2019. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/2019/08/pesquisa-revela-dados-sobre-oconsumo-de-drogas-no-brasil. Acesso em: 28 abr. 2025.  

GARCIA, F. D. (Org.). Manual de abordagem de dependências químicas. Belo Horizonte: Utopika Editorial, 2014.  

KOHLER, G.; DIAS, S. M. O profissional Enfermeiro na assistência ao dependente químico: revisão integrativa de literatura. Unoesc & Ciência – ACBS, Joaçaba, v. 9, n. 2, p. 171–176, 2018. Disponível em: https://periodicos.unoesc.edu.br/acbs/article/view/16647. Acesso em: 2 maio. 2025.  

LIMA, J. A.; SILVA, H. C. O.; QUINTILIO, M. S. V. Enfermagem na saúde mental: assistência da enfermagem frente à pessoa com dependência química. Revista JRG de Estudos Acadêmicos, v. 3, n. 1, p. 45-52, 2020. Disponível em: https://revistajrg.com/index.php/jrg/article/view/85. Acesso em: 20 abr. 2025.

MARQUES, J. S. et al. A atuação da enfermagem frente à dependência química. Revista Científica da Faculdade Quirinópolis, v. 3, n. 11, 2021. Disponível em: https://recifaqui.faqui.edu.br/index.php/recifaqui/article/view/132. Acesso em: 10 maio. 2025.

SILVA, A. T. et al. Sistematização da assistência de enfermagem: facilidades e desafios do enfermeiro na gerência da assistência. Revista Enfermagem UERJ, Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, p. 40-45, jan./fev. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ean/a/ghYPrPYCdg68TBW5yxrGqbq. Acesso em: 10 maio. 2025.

SOUZA, J. et al. Cuidar de dependentes de substâncias psicoativas: percepções dos estudantes de enfermagem. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 54, e03644, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/swXVT5Nr6KgLwt3vhTKgXkM. Acesso em: 9 maio. 2025.


1Discente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Centro Universitário de Belo Horizonte UniBH Campus Cristiano Machado e-mail: anderson54673@gmail.com
2Docente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Instituto Centro Universitário de Belo Horizonte UniBH Campus Cristiano Machado. Doutora em neurociência. e-mail: hyorranapp@gmail.com