RHABDOMYOLYSIS: A LITERATURE REVIEW OF CAUSE, SYMPTOMS AND TREATMENTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202506301212
Hadassa Moriggi Hertt1
João Augusto Xavier Padilha2
Maísa Eduarda Redmerski3
Patricia Farias4
RESUMO
Esta revisão integrativa explora as causas, diagnóstico, fisiopatologia, tratamento e o papel do enfermeiro no manejo da rabdomiólise, uma síndrome grave caracterizada pela destruição das fibras musculares esqueléticas, com liberação de mioglobina e outros componentes intracelulares na corrente sanguínea. A pesquisa foi conduzida em bases como Scientific Electronic Library Online – SciELO, National Library of Medicine – PubMed e Google Scholar, incluindo artigos de 2016 a 2025. As etiologias abrangem traumas, exercícios intensos, medicamentos, infecções, distúrbios metabólicos e fatores genéticos, com destaque para a predisposição genética identificada pela sigla “RHABDO”. O diagnóstico baseia-se na elevação da creatina quinase (CK) sérica (>5 vezes o limite normal) e mioglobinúria, complementado por exames de eletrólitos e função renal. A lesão renal aguda (LRA) ocorre em 4% a 50% dos casos, associada à hipercalemia e à hipocalcemia. O tratamento prioriza hidratação agressiva com cristaloides, enquanto o enfermeiro monitora sinais vitais, débito urinário e educa o paciente. A falta de consenso sobre critérios diagnósticos e a subnotificação de casos leves reforçam a necessidade de mais pesquisas para padronizar condutas.
Palavras-chave: Rabdomiólise, Mioglobina, Lesão Renal Aguda, Diagnóstico, Cuidados de Enfermagem.
ABSTRACT
Abstract: This integrative review explores the causes, diagnosis, pathophysiology, treatment, and the nurse’s role in managing rhabdomyolysis, a severe syndrome characterized by the destruction of skeletal muscle fibers, releasing myoglobin and other intracellular components into the bloodstream. The research was conducted in databases such as Scientific Electronic Library Online – SciELO, National Library of Medicine – PubMed, and Google Scholar, including articles from 2016 to 2025. Etiologies encompass trauma, intense exercise, medications, infections, metabolic disorders, and genetic factors, with emphasis on the genetic predisposition identified by the “RHABDO” acronym. Diagnosis relies on elevated serum creatine kinase (CK) levels (>5 times the normal limit) and myoglobinuria, supplemented by electrolyte and renal function tests. Acute kidney injury (AKI) occurs in 4% to 50% of cases, associated with hyperkalemia and hypocalcemia. Treatment prioritizes aggressive crystalloid hydration, while nurses monitor vital signs, urine output, and educate patients. The lack of consensus on diagnostic criteria and underreporting of mild cases highlight the need for further research to standardize protocols.
Keywords: Rhabdomyolysis, Myoglobin, Acute Kidney Injury, Diagnosis, Nursing Care.
INTRODUÇÃO
Este estudo em questão trata-se de uma revisão de literatura, que visa oferecer maior visibilidade ao tema, que carece de estudos, pesquisas relevantes e atuais, assim fornecendo a oportunidade de desenvolver um maior conhecimento da patologia em questão aos profissionais de saúde. Revisando assuntos como a fisiopatologia, causas, tratamento, diagnóstico, o papel do enfermeiro, enfatizando a importância da identificação precoce e do manejo multiprofissional.
A rabdomiólise é uma síndrome clínica grave caracterizada pela ruptura das fibras musculares esqueléticas, liberando componentes intracelulares, como mioglobina, creatina quinase (CK), potássio e fosfato, na corrente sanguínea (5). Essa liberação pode levar a complicações como lesão renal aguda (LRA), desequilíbrios eletrolíticos e, em casos graves, falência de múltiplos órgãos (9). O termo, derivado do grego (rhabdos: vara; myo: músculo; lysis: dissolução), foi descrito inicialmente durante a Segunda Guerra Mundial em vítimas de esmagamento (6). Com etiologias variadas, incluindo traumas, exercícios intensos, medicamentos, infecções e fatores genéticos, a rabdomiólise apresenta desafios diagnósticos devido à alta prevalência de casos assintomáticos (até 50%) (13).
METODOLOGIA
Esta revisão integrativa seguiu cinco etapas: definição do tema e objetivo, sendo este, busca em bases de dados, coleta de dados, avaliação crítica e síntese dos resultados. Foram consultadas bases como Scientific Electronic Library Online – SciELO, National Library of Medicine – PubMed, Google Scholar, Clinical Kidney Journal e UpToDate, utilizando os descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Rabdomiólise”, “Etiologia”, “Diagnóstico”, “Tratamento” e “Cuidados de enfermagem”. Incluíram-se estudos de 2016 a 2025, disponíveis na íntegra, excluindo duplicatas e artigos irrelevantes. Dos 45 estudos identificados, 22 foram selecionados, sendo utilizados critérios de inclusão e exclusão, estes são, ano de publicação de até 7 anos, com exceção de um artigo considerado relevante correspondente ao ano de 2016, bem como, conteúdo e estudos correspondentes com o tema.
RESULTADOS
Causas
As etiologias podem ser classificadas em causas físicas e químicas. Acontecimentos como acidentes automobilísticos e terremotos com situações de esmagamento podem levar a lesões diretas aos tecidos musculares, bem como, a prática de atividades físicas intensas, e a permanência em apenas uma posição por longos períodos, infecção febril, que pode comprometer a perfusão muscular, resultando em lesão tecidual. (5)
A rabdomiólise é desencadeada por uma ampla gama de fatores que comprometem a integridade das fibras musculares esqueléticas, levando à depleção de ATP e à ativação de proteases que causam necrose muscular (2). As causas podem ser classificadas em categorias principais, detalhadas a seguir:
- Trauma e isquemia: Lesões por esmagamento, comuns em acidentes automobilísticos, desastres naturais (ex.: terremotos) ou explosões, são causas frequentes, afetando até 85% das vítimas de trauma grave, com 10% a 50% evoluindo para LRA (18). Outras condições, como queimaduras extensas, fraturas complexas e síndrome compartimental, aumentam a pressão intramuscular, comprometendo a perfusão e levando à necrose (4). Imobilização prolongada, como em pacientes inconscientes ou em coma, também pode induzir rabdomiólise por compressão muscular persistente (3).
- Medicamentos e toxinas: Estatinas (ex.: sinvastatina, atorvastatina) inibem a coenzima Q, reduzindo a produção de ATP e causando miotoxicidade, especialmente em doses altas ou em combinação com inibidores do CYP3A4 (ex.: claritromicina) (4). Outros fármacos, como antipsicóticos (haloperidol), fibratos, colchicina e anfetaminas, também estão implicados (2). Drogas ilícitas, como cocaína, heroína e metanfetaminas, induzem vasoconstrição e isquemia muscular. O álcool, em doses excessivas, provoca toxicidade direta nos miócitos (13). A hipertermia maligna, uma reação rara a anestésicos voláteis (ex.: halotano ou succinilcolina), é uma causa grave em pacientes com mutações no gene RYR1 (7).
Causa genética
Estudos recentes apontam a predisposição genética como um dos mecanismos subjacentes à ocorrência da rabdomiólise. Estes mesmos estudos apontam a rabdomiólise como uma síndrome com múltiplos fatores de origem envolvidos em sua incidência. Segundo Kruijt et al. (10), “Uma falha genética que intensifica a suscetibilidade à rabdomiólise pode ser considerado em casos que preenchem um ou mais critérios ‘RHABDO’, descritos abaixo:
| SIGLA | EPISÓDIOS |
| R | Episódios frequentes de rabdomiólise por esforço. |
| H | HiperCKemia persistente, por mais de 8 semanas posterior ao evento. |
| A | Exercício físico regular. |
| B | Creatina quinase (CK) sanguínea >50 × limite superior do normal. |
| D | O consumo de medicamentos/suplementos ou outros fatores exógenos e endógenos não justificam suficientemente o agravo da rabdomiólise. |
| O | Outros membros da família afetados / outros sintomas de esforço (por exemplo, cãibras ou mialgia)”. |
A sigla “RHABDO” é utilizada com o intuito de identificar episódios de rabdomiólise que sugerem uma predisposição genética subjacente. Desenvolvida a partir de uma revisão abrangente da literatura, essa sigla foi adotada em uma revisão recente sobre rabdomiólise induzida por esforço. Seu objetivo é diferenciar os pacientes nos quais os gatilhos externos são suficientes para explicar o episódio de rabdomiólise daqueles em que esses gatilhos não explicam adequadamente a gravidade do evento. Nesse estudo realizado em pacientes admitidos no Radboud University Medical Center, na Holanda, 79% dos pacientes foram causas não neuromusculares, 21% apresentaram predisposição genética, ou suspeita de patologia neuromuscular no momento do evento. Isquemia sendo o gatilho mais frequente, com 42% dos casos, seguido por trauma com 20% de todos os casos do estudo em questão. Para a pesquisa foram utilizados registros médicos de 1.302 pacientes que passaram pelo hospital Radboud University Medical Center entre 2014 e 2019 (10).
Distúrbios metabólicos
Distúrbios metabólicos e endócrinos: Hipocalemia (<2,5 mEq/L), hipofosfatemia, hipernatremia, cetoacidose diabética e hipotireoidismo severo alteram o equilíbrio iônico muscular, promovendo lise (20). A rabdomiólise associada a distúrbios metabólicos é mais comum em pacientes com comorbidades, como diabetes tipo 2 (19).
As alterações sistêmicas decorrentes da rabdomiólise refletem os efeitos dos produtos celulares liberados, especialmente sobre a bioquímica plasmática e a função renal. Do ponto de vista fisiopatológico, a liberação de mioglobina, potássio, fosfato, creatina quinase (CK), ácido úrico e outras enzimas musculares na corrente sanguínea representa o principal evento inicial (11).
A mioglobina, uma proteína de baixo peso molecular com função de armazenamento de oxigênio no músculo, é rapidamente filtrada pelos glomérulos renais. Em concentrações elevadas, especialmente em ambientes de pH urinário ácido, a mioglobina pode precipitar nos túbulos renais, promovendo obstrução tubular, estresse oxidativo e necrose tubular aguda. Esse processo é um dos principais mecanismos responsáveis pela insuficiência renal aguda associada à rabdomiólise (11).
Paralelamente, a liberação excessiva de potássio intracelular leva à hipercalemia, uma condição potencialmente letal devido ao risco de arritmias cardíacas graves, como fibrilação ventricular e assistolia. Esse distúrbio eletrolítico constitui uma das principais emergências metabólicas associadas à rabdomiólise. Além disso, o fosfato liberado em grandes quantidades, ao se complexar com o cálcio plasmático, promove hipocalcemia transitória, particularmente nas fases iniciais do quadro. Essa queda nos níveis de cálcio pode manifestar-se clinicamente por sinais neuromusculares, como parestesias, tetania ou convulsões. Curiosamente, durante a fase de recuperação, ocorre frequentemente hipercalcemia de rebote, resultante da mobilização do cálcio anteriormente depositado nos tecidos necróticos (12).
Do ponto de vista hemodinâmico, a extensa lesão muscular induz um importante extravasamento de fluido intravascular para o compartimento intersticial, caracterizando uma hipovolemia relativa. Essa redistribuição de volume compromete a perfusão renal, agravando a nefropatia induzida pela mioglobina. Concomitantemente, ocorre liberação de ácido lático e outros metabólitos celulares, contribuindo para o desenvolvimento de acidose metabólica, o que acentua a toxicidade tubular e agrava as alterações cardiovasculares (12).
Além das repercussões renais e eletrolíticas, a rabdomiólise pode desencadear uma resposta inflamatória sistêmica significativa, com ativação de citocinas pró- inflamatórias e possível evolução para complicações sistêmicas, como coagulação intravascular disseminada (CIVD) ou síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS), especialmente nos casos mais graves (12).
Causa por exercícios intensos
A rabdomiólise em atletas de alta intensidade é uma condição clínica cada vez mais reconhecida no contexto esportivo, especialmente em modalidades que envolvem exercícios extenuantes, repetitivos e de alta carga muscular, como treinamento funcional (ex.: CrossFit), levantamento de peso olímpico, triatlo, corrida de longa distância e exercícios intervalados de alta intensidade (HIIT). O estresse fisiológico extremo imposto aos miócitos durante o exercício extenuante, particularmente quando realizado em condições de desidratação, calor excessivo ou falta de aclimatação, promove disfunção na homeostase celular e induz lesão estrutural da membrana plasmática (1).
Durante o esforço físico intenso e prolongado, o aumento sustentado na demanda metabólica muscular pode exceder a capacidade de fornecimento de oxigênio e nutrientes, levando a hipóxia relativa e acúmulo de metabólitos tóxicos, como íons hidrogênio e radicais livres. A depleção de ATP, crucial para a manutenção da integridade da membrana celular, promove disfunção das bombas iônicas transmembranares (como a Na⁺/K⁺-ATPase e a Ca²⁺-ATPase), culminando em sobrecarga de cálcio intracelular. Essa sobrecarga ativa proteases e fosfolipases que degradam componentes estruturais celulares, favorecendo a lise do sarcolema e liberação de proteínas musculares, como mioglobina, creatina quinase (CK), aldolase e lactato desidrogenase (LDH), além de eletrólitos como potássio e fosfato (18).
Na circulação sistêmica, esses produtos celulares promovem uma série de efeitos deletérios. A mioglobina, ao ser filtrada pelos rins, pode precipitar nos túbulos renais, especialmente em condições de hipovolemia e acidose urinária, levando à obstrução tubular e à necrose tubular aguda, um dos principais mecanismos envolvidos na insuficiência renal aguda associada à rabdomiólise. A hipercalemia decorrente da liberação de potássio intracelular pode causar distúrbios eletrofisiológicos cardíacos graves, como arritmias fatais. Simultaneamente, a hipocalcemia transitória, causada pela formação de complexos insolúveis entre fosfato e cálcio, pode gerar manifestações neuromusculares relevantes (18).
Em atletas, fatores adicionais de risco incluem desidratação, uso de suplementos ou substâncias ergogênicas (como creatina ou estimulantes adrenérgicos), treinamento em ambientes quentes e úmidos, retorno abrupto à atividade física após períodos de inatividade ou superação de limites fisiológicos por motivação competitiva ou pressão externa. Não raramente, os indivíduos acometidos são jovens, previamente saudáveis e com alto desempenho físico, o que contribui para a subestimação inicial dos sintomas, atrasando o diagnóstico (1).
Condições raras: Doenças neuromusculares (ex.: distrofia muscular de Duchenne), crises convulsivas prolongadas e envenenamento por toxinas (ex.: picada de serpente, monóxido de carbono) também podem desencadear rabdomiólise. Casos raros associados à hipotermia ou hipertermia severa foram reportados (19).
Manifestações clínicas
A anamnese deve investigar traumas, exercícios intensos, imobilização prolongada, uso de medicamentos (estatinas, antipsicóticos), infecções recentes, sintomas metabólicos e histórico familiar de doenças neuromusculares (2). O exame físico pode revelar hipersensibilidade muscular, edema, fraqueza (grau 4/5) e colúria (urina marrom-avermelhada) (19).
As manifestações clínicas podem ocorrer em distúrbios eletrolíticos e metabólicos, mialgia, edema, astenia e colúria. Entretanto, de acordo com um estudo da Clinical Kidney Journal, de fevereiro de 2025, cerca de 50% dos pacientes com rabdomiólise, podem não apresentar sintomas algum, fato que acaba resultando em complicações como a LRA, e diagnósticos perdidos (13).
Sintomas que também podem ser manifestos são a mioglobinúria, oligoanúria, podendo apresentar taquicardia secundária a dor, edema muscular que pode aparecer após a ressuscitação volêmica, alterações cutâneas que podem indicar lesão por compressão (7).
Uma problemática para a realização tanto do diagnóstico, quanto para estudos, é o fato de que a rabdomiólise geralmente implica em outras complicações, é comum ela não ser registrada como diagnóstico principal, portanto dificilmente temos sua exata incidência (8).
O diagnóstico da rabdomiólise é clínico e laboratorial, exigindo alta suspeição devido à variabilidade dos sintomas (3). A tríade clássica (mialgia, fraqueza muscular e urina escura) está presente em menos de 10% dos casos, com até 50% sendo assintomáticos (13).
Exames Laboratoriais
- Creatina quinase (CK): Elevação >5 vezes o limite normal (>1000 U/L) é o principal marcador. Valores >5000 U/L indicam risco de LRA (21).
- Mioglobina: Mioglobinúria (>250 mcg/mL) é específica, mas menos sensível, devido à rápida metabolização. Urina sem eritrócitos confirma mioglobinúria (20).
- Eletrólitos: Hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia (fase inicial) e hipercalcemia (recuperação) são comuns (20).
- Desidrogenase lática (DHL): Elevada, mas inespecífica (20).
- Função renal: Elevação da creatinina sérica e acidose metabólica indicam LRA (3).
- Outros: Hiperuricemia, trombocitopenia e elevação de transaminases (TGO/TGP) com GGT normalmente diferenciam rabdomiólise de lesão hepática.
A lise muscular libera mioglobina, que precipita nos túbulos renais em pH ácido, causando obstrução, estresse oxidativo e necrose tubular aguda (11). A depleção de ATP compromete bombas iônicas, levando a influxo de cálcio e ativação de proteases (20).
A hipercalemia aumenta o risco de arritmias (12). A hipovolemia relativa e a acidose metabólica agravam a disfunção renal (12). A resposta inflamatória pode evoluir para coagulação intravascular disseminada (CIVD) (18).
Tratamento
O estabelecimento de condutas terapêuticas eficazes e precoce torna-se essencial para a redução da morbimortalidade associada à condição, de forma geral, tratamento vai visar prevenir complicações sistêmicas, entre elas, a insuficiência renal aguda. O manejo com a doença deve ser individualizado, levando em conta a gravidade do quadro, as comorbidades prévias do paciente e a presença de fatores de risco para as complicações renais (6).
A abordagem deve ser realizada precocemente, a fim de garantir um bom prognóstico, visando principalmente a reposição volêmica intravenosa, no controle dos distúrbios hidroeletrolíticos e também no monitoramento contínuo da função renal. A administração de fluidos intravenosos e a indução de diurese são estratégias terapêuticas fundamentais no manejo da rabdomiólise, com o objetivo de promover a eliminação da mioglobina circulante e prevenir lesões renais (6).
A base fundamental do tratamento é a reposição volêmica agressiva com soluções cristaloides, geralmente soro fisiológico a 0,9%, que entra com o objetivo de manter a perfusão renal adequada e facilitar a eliminação da mioglobina pelos rins. A reposição deve preferencialmente ser iniciada nas primeiras seis horas após o início do quadro clínico, visando uma diurese alvo de 200 a 300 mL/hora (14).
Alguns estudos trazem a possibilidade de utilizar bicarbonato de sódio para alcalinização urinária, especialmente quando os níveis de mioglobina estão elevados e o risco de nefrotoxicidade é maior. A alcalinização tem como objetivo reduzir a precipitação tubular de mioglobina e prevenir a formação de cilindros obstrutivos. No entanto, seu uso deve ser criterioso, considerando os riscos de alcalose metabólica e hipocalcemia (15).
Outro aspecto importante no manejo da rabdomiólise é o monitoramento e correção de distúrbios eletrolíticos, principalmente hiperpotassemia, hipocalcemia e hiperfosfatemia. A hiperpotassemia, em especial, representa risco imediato à vida devido ao potencial de causar arritmias fatais. O tratamento inclui administração de glicose com insulina, uso de resinas trocadoras de potássio, bicarbonato de sódio e, em casos graves, diálise (16).
No entanto, a eficácia dessas intervenções pode ser comprometida em casos de insuficiência renal estabelecida, uma vez que a função excretora dos rins está prejudicada. Em casos de gravidade mais elevada, onde a função renal é consideravelmente prejudicada, pode haver necessidade de suporte dialítico, embora não remova efetivamente a mioglobina, a diálise é fundamental no controle das complicações associadas à falência renal (9).
As etapas iniciais mais importantes após a suspeita ou confirmação, incluem a identificação e eliminação dos fatores patogênicos. É essencial identificar e tratar a causa subjacente da rabdomiólise, como trauma, exercício físico extenuante, uso de drogas ou toxinas, infecções, distúrbios metabólicos, entre outros que causam danos contínuos ao corpo e a detecção rápida de complicações graves que podem ser fatais (17). Atualmente, não existem estudos de alta qualidade, como ensaios clínicos randomizados, que forneçam evidências claras sobre o tratamento precoce da rabdomiólise. As recomendações terapêuticas mais frequentemente adotadas baseiam-se, principalmente, em estudos retrospectivos, relatos de caso e experimentos (18).
Em resumo, o tratamento da rabdomiólise é baseado em medidas de suporte intensivo, com ênfase na hidratação vigorosa, correção de alterações metabólicas e acompanhamento rigoroso da função renal e do equilíbrio eletrolítico (16).
Apesar de representar uma emergência médica que requer atenção imediata, a compreensão aprofundada de suas causas, sintomas e abordagens terapêuticas é essencial para profissionais de saúde, visando a redução da morbimortalidade associada a essa condição. Tendo em vista a dificuldade e falta de diagnósticos da patologia em questão, o conhecimento, a informação e treinamento para intervenção precoce, e um bom prognóstico, sem lesões traumáticas ou irreversíveis para o paciente, são de grande importância (19).
DISCUSSÃO
Levando em conta os artigos abordados pode – se considerar que o assunto em questão é de grande relevância, porém causa distonância dos estudos e dos dados, uma vez que, frequentemente os sintomas são associados com demais condições do paciente, assim como o tratamento, por ser através de fluidoterapia, muitas vezes a doença acaba sendo tratada sem o registro do diagnóstico. O que pode levar a uma alteração dos índices uma vez que não são registrados de forma eficaz, e a percepção distorcida dos riscos da condição pela sociedade e principalmente dos profissionais da saúde (19)
Considerando que a rabdomiólise é uma condição em que acontece o rompimento da fibra muscular, que libera mioglobina (conteúdo da célula muscular) na corrente sanguínea, podendo levar a graves complicações, como lesão renal aguda (LRA) e distúrbios eletrolíticos. De forma geral, a condição têm etiologias variáveis, em concordância com o estudo de Stanley et.al, que apresenta a importância de entender o fator determinante, como por exemplo, se a origem é de lesão traumática ou não traumática, se foi por medicação ou até por algum esporte de alta intensidade (12). Já de acordo com Yang et.al., a etiologia da rabdomiólise pode ser complexa, podendo variar desde doenças genéticas, medicações e vários traumas (como o trabalho de parto, academia ou até imobilização) , vale ressaltar que assim como o autor explica várias condições podem elevar o creatinina fosfoquinase sérica (CPK), por quanto, leva-se em conta a avaliação clínica e individual de cada paciente, levando em consideração seu histórico e comorbidades prévias, uma vez que, os sintomas variam de mialgia, mioglobinúria , fraqueza muscular e distúrbios eletrolíticos (como hipocalcemia, hipercalemia, hiperfosfatemia e hiperpotassemia que em especial, apresenta risco imediato à vida, já que pode causar arritmias fatais (17), pode-se pontuar também, os casos de pacientes assintomáticos (16). Sampaio et.al., ressalta a presença de lacunas no tratamento e no manejo terapêutico ideal, visando a diferença e importância da abordagem com uma equipe multidisciplinar, em contrapartida Yang et.al., enfatiza o manejo da equipe médica na intervenção e bom prognóstico no paciente (17) .
Conforme os estudos selecionados, a intervenção imediata é de extrema importância para o melhor desfecho do caso, pode – se observar um consenso na literatura com relação ao tratamento através da reposição volêmica e da correção de possíveis desequilíbrios eletrolíticos (19).
Papel do Enfermeiro
O enfermeiro desempenha um papel central no manejo da rabdomiólise, integrando cuidados clínicos, monitoramento intensivo, educação do paciente e suporte psicossocial para otimizar o prognóstico e prevenir complicações (20). Suas responsabilidades incluem:
- Avaliação inicial e contínua: Realizar anamnese detalhada para identificar fatores de risco (ex.: trauma, exercícios intensos, uso de estatinas) e avaliar sinais clínicos, como mialgia, edema, colúria e fraqueza muscular. A monitorização de sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória, temperatura e escala de dor) é essencial para detectar instabilidade hemodinâmica ou sinais precoces de LRA (14).
- Administração de fluidos: Gerenciar a hidratação agressiva com cristaloides (soro fisiológico 0,9%), ajustando a infusão para manter uma diurese de 200–300 mL/hora, enquanto monitora sinais de sobrecarga hídrica (ex.: edema pulmonar, dispneia). O uso de cateter urinário pode ser necessário para medição precisa do débito urinário (11).
- Monitoramento de complicações: Observar sinais de hipercalemia (ex.: arritmias, alterações no ECG, como ondas T apiculadas), hipocalcemia (tetania, parestesias) e LRA (oligúria, creatinina elevada). Relatar alterações imediatamente ao médico e preparar medicações de emergência, como gluconato de cálcio ou insulina/glicose (16).
- Administração de medicamentos: Aplicar bicarbonato de sódio (se prescrito) para alcalinização urinária, monitorando o pH urinário e sérico para evitar alcalose metabólica. Administrar diuréticos (ex.: furosemida) ou resinas trocadoras de potássio conforme indicação (15).
Prevenção de complicações secundárias: Implementar medidas para prevenir úlceras por pressão em pacientes imobilizados, com mudanças de decúbito regulares e uso de colchões apropriados. Monitorar o risco de síndrome compartimental em casos de edema muscular severo, avaliando dor desproporcional ou pulsos periféricos (2).
CONCLUSÃO
Complementa-se que a realização desta revisão da literatura permitiu identificar e compreender, de forma minuciosa e ampla, as principais causas, manifestações clínicas e estratégias terapêuticas associadas à rabdomiólise. A síndrome, apesar de relativamente rara, configura-se como uma condição potencialmente grave, exigindo atenção e conhecimento específico por parte dos profissionais de saúde. A identificação precoce dos fatores etiológicos, como traumas musculares, uso de substâncias tóxicas e distúrbios metabólicos, é essencial para retardar a progressão do quadro e evitar complicações, especialmente a LRA, uma das consequências mais agravadas.
No que se refere às manifestações clínicas, a tríade clássica composta por mialgia, fraqueza muscular e urina escura continua sendo um importante indicativo diagnóstico, embora nem sempre esteja presente em sua totalidade, o que reforça a necessidade de uma avaliação clínica e laboratorial atenciosa.
Em relação às estratégias terapêuticas, destaca-se a importância da reposição volêmica agressiva, da correção dos distúrbios hidroeletrolíticos e do monitoramento contínuo da função renal, sendo medidas fundamentais para evitar complicações e reduzir a morbimortalidade.
Percebe-se uma escassez de estudos atualizados sobre o tema, o que limita o desenvolvimento de estratégias eficazes de prevenção, tratamento e a compreensão abrangente da doença. A falta de definições clínicas formais e a subnotificação de casos leves dificultam a precisão na incidência da rabdomiólise, dificultando a coleta de dados epidemiológicos fidedignos. Além disso, a maioria dos estudos existentes concentram-se em relatos de casos ou revisões não sistemáticas, o que evidencia a necessidade de pesquisas mais robustas e abrangentes.
A falta de critérios diagnósticos padronizados e a carência de evidências sólidas sobre o manejo da insuficiência renal aguda associada à rabdomiólise indicam a necessidade de estudos mais aprofundados. Diante disso, é fundamental que futuros estudos se concentrem em ampliar o entendimento sobre a rabdomiólise, suas causas, sintomas e abordagens terapêuticas. A realização de estudos clínicos e epidemiológicos de alta qualidade é de grande importância para preencher as lacunas existentes e melhorar o manejo dessa condição.
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1Graduanda de enfermagem Instituição: Unisociesc Jaraguá do Sul Endereço: Jaraguá do Sul, SC, Brasil E-mail: hadassamchertt@gmail.com
2Graduanda de enfermagem Instituição: Unisociesc Jaraguá do Sul Endereço: Jaraguá do Sul, SC, Brasil. E-mail: joaoxpadilha4@gmail.com
3Graduanda de enfermagem Instituição: Unisociesc Jaraguá do Sul Endereço: Jaraguá do Sul, SC, Brasil. E-mail: redmerskimaisa@gmail.com
4Mestre em tecnologia e inovação na saúde pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Instituição: Unisociesc Jaraguá do Sul – Endereço: Jaraguá do Sul, SC, Brasil E-mail: farias.patricia@ulife.com.br
