REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202506121403
Andrey Lima Gomes1
Vanessa Viana Moraes2
Brenda Cavalcante Marques3
RESUMO
OBJETIVOS: Este estudo teve como objetivo analisar a atuação da fisioterapia nos cuidados paliativos de pacientes oncológicos, destacando suas contribuições para o alívio dos sintomas, a promoção da qualidade de vida e os desafios enfrentados na prática clínica. METODOLOGIA: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter bibliográfico, fundamentada em uma revisão da literatura científica nacional publicada entre 2016 e 2025. Foram selecionados artigos, dissertações e teses nas bases de dados SciELO e PubMed, conforme critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. A análise dos dados foi realizada com base na técnica de análise de conteúdo, segundo Bardin. RESULTADOS: A revisão evidenciou que a fisioterapia contribui significativamente para o controle de sintomas como dor, dispneia, fadiga e limitação funcional em pacientes oncológicos em cuidados paliativos. Além disso, destaca-se a importância da atuação humanizada, da integração do fisioterapeuta na equipe multiprofissional e dos desafios relacionados à formação acadêmica e suporte emocional do profissional. CONCLUSÃO: A atuação fisioterapêutica em cuidados paliativos oncológicos é fundamental para a promoção do conforto e da qualidade de vida dos pacientes em fase terminal. O fisioterapeuta, ao integrar uma equipe interdisciplinar e empregar abordagens centradas no paciente, desempenha um papel essencial na assistência paliativa, embora ainda enfrente barreiras formativas e institucionais que precisam ser superadas.
Palavras-chave: Fisioterapia; Cuidados Paliativos; Pacientes Oncológicos; Equipe multiprofissional.
ABSTRACT
OBJECTIVES: This study aimed to analyze the role of physical therapy in palliative care for cancer patients, highlighting its contributions to symptom relief, quality of life promotion, and the challenges encountered in clinical practice. METHODS: This is a qualitative, bibliographic research based on a literature review of national scientific publications from 2016 to 2025. Articles, dissertations, and theses were selected from SciELO and PubMed databases according to predefined inclusion and exclusion criteria. Data analysis was performed using content analysis methodology, as proposed by Bardin. RESULTS: The review showed that physical therapy significantly contributes to the management of symptoms such as pain, dyspnea, fatigue, and functional limitations in cancer patients receiving palliative care. The findings also emphasized the importance of humanized care, the integration of the physical therapist into the multidisciplinary team, and the challenges related to academic training and emotional support for professionals. CONCLUSION: Physical therapy plays a key role in palliative care for oncology patients by promoting comfort and quality of life in advanced stages of illness. Through patient-centered approaches and active participation in interdisciplinary teams, physical therapists are essential to palliative care. However, educational and institutional barriers still need to be addressed to strengthen their performance.
KEYWORDS: Physical therapy; Palliative care; Oncology Patients; Multidisciplinary team.
1. INTRODUÇÃO
A atuação da fisioterapia nos cuidados paliativos para pacientes oncológicos tem ganhado cada vez mais relevância no contexto da saúde, especialmente considerando o aumento da prevalência de casos de câncer e a crescente demanda por cuidados que visem não apenas à sobrevida, mas também à melhoria da qualidade de vida dos pacientes.
O câncer, caracterizado por seu alto poder de morbidade e mortalidade, exige, em suas fases mais avançadas, um enfoque no alívio de sintomas e na promoção do conforto, principalmente em situações em que o prognóstico de cura é impossível. A fisioterapia, ao integrar uma equipe multiprofissional, desempenha um papel essencial no manejo da dor, na melhora da funcionalidade física e na promoção do bem-estar psicológico do paciente.
Dessa maneira, os estudos de Barbosa et al. (2021), afirmam que a fisioterapia nos cuidados paliativos contribui significativamente para a melhora da qualidade de vida dos pacientes oncológicos, além de atuar no controle de sintomas físicos e emocionais.
No entanto, apesar da importância reconhecida da fisioterapia nesses contextos, ainda existem lacunas no entendimento sobre como essa atuação pode ser otimizada. Ressalta-se, que a escassez de formação específica para atuação em cuidados paliativos, além da falta de recursos adequados para uma prática eficaz, são desafios que precisam ser superados. Nesse sentido, o problema de pesquisa deste estudo pode ser formulado da seguinte maneira:
Como a fisioterapia pode ser otimizada nos cuidados paliativos para pacientes oncológicos, considerando os desafios enfrentados pelos profissionais?
Neste contexto, as hipóteses que norteiam o presente estudo são: 1) A fisioterapia contribui significativamente para o alívio dos sintomas mais comuns em pacientes oncológicos em cuidados paliativos, como dor, dispneia, fadiga e limitação funcional; 2) A integração do fisioterapeuta na equipe multiprofissional pode melhorar a abordagem do paciente, resultando em maior conforto e qualidade de vida; e 3) Os desafios enfrentados pelos fisioterapeutas, como a falta de formação específica, limitam a eficácia da intervenção e o atendimento aos pacientes.
O objetivo geral deste estudo é analisar a atuação da fisioterapia nos cuidados paliativos para pacientes oncológicos. Para tanto, os objetivos específicos são: 1) Identificar as principais contribuições da fisioterapia no controle de sintomas como dor, fadiga e dispneia; 2) Avaliar a importância da atuação do fisioterapeuta dentro de uma equipe multiprofissional, enfatizando a colaboração interdisciplinar; e 3) Discutir os desafios enfrentados pelos fisioterapeutas em cuidados paliativos, incluindo as dificuldades emocionais e as limitações da formação.
A justificativa para este estudo reside na crescente necessidade de melhorar a qualidade de vida de pacientes oncológicos, especialmente na fase terminal da doença, em que os cuidados paliativos se tornam essenciais.
Desse modo, a fisioterapia através de um método que seja integrativo e centrado no paciente, possui um papel fundamental nesse processo, ajudando a aliviar sintomas debilitantes e promovendo o conforto.
Além disso, ao investigar a atuação do fisioterapeuta nesse contexto, é possível identificar áreas de melhoria no treinamento e na formação de profissionais, contribuindo para o desenvolvimento de melhores práticas em cuidados paliativos no Brasil. A relevância dessa pesquisa é evidenciada pela escassez de estudos que tratem especificamente da fisioterapia dentro desse modelo de atendimento, ressaltando a necessidade urgente de maior investigação sobre o tema para aprimorar o cuidado oferecido aos pacientes oncológicos em cuidados paliativos.
2. METODOLOGIA
A metodologia adotada neste estudo foi de natureza qualitativa e bibliográfica, com o objetivo de analisar a atuação da fisioterapia nos cuidados paliativos para pacientes oncológicos. A pesquisa foi realizada com base em uma revisão da literatura existente, a fim de compilar e discutir os principais achados relacionados à contribuição da fisioterapia no contexto dos cuidados paliativos.
O método qualitativo foi escolhido por sua capacidade de proporcionar uma análise aprofundada das experiências e das contribuições da fisioterapia, permitindo entender as complexidades que envolvem o cuidado com pacientes em estágios avançados da doença oncológica.
A revisão bibliográfica foi realizada em bases de dados científicas como SciELO, PubMed, abrangendo artigos, dissertações e teses especializadas publicados entre 2016 e 2025. A seleção das fontes foi conduzida de acordo com critérios rigorosos de inclusão e exclusão. Os critérios de inclusão contemplaram: (i) publicações em periódicos acadêmicos indexados e livros especializados, que tratassem da fisioterapia em cuidados paliativos oncológicos; (ii) estudos que abordassem a eficácia das intervenções fisioterapêuticas na qualidade de vida de pacientes oncológicos em cuidados paliativos; (iii) artigos que discutissem os desafios e as dificuldades enfrentadas pelos fisioterapeutas nesse contexto; (iv) publicações que analisaram a colaboração interdisciplinar na equipe de cuidados paliativos. Já os critérios de exclusão foram: (i) artigos ou livros que abordaram cuidados paliativos sem tratar especificamente da fisioterapia, (ii) materiais de qualidade metodológica inferior, como resumos de congressos ou artigos sem revisão por pares.
A pesquisa foi conduzida utilizando o método indutivo, no qual o conhecimento foi construído a partir dos dados específicos encontrados nas fontes selecionadas, sem um referencial teórico pré-estabelecido. Segundo Gil (2010), o método indutivo permite observar e identificar padrões e tendências dentro dos dados coletados, possibilitando uma análise mais flexível e aberta. A técnica de análise utilizada foi a análise de conteúdo, conforme Bardin (2016), que possibilita organizar e interpretar as informações de maneira estruturada e detalhada, identificando as categorias relevantes de discussão.
Durante a análise das fontes, foram identificadas e organizadas categorias temáticas relacionadas aos temas centrais da pesquisa, como o controle da dor, a dispneia, a fadiga, a limitação funcional e a colaboração interdisciplinar nos cuidados paliativos. Cada categoria foi discutida com base nos achados das publicações selecionadas, permitindo uma visão abrangente das práticas fisioterapêuticas nesse contexto.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
O presente estudo demonstrou uma diversidade de abordagens relacionadas à atuação da fisioterapia em cuidados paliativos oncológicos, com ênfase na melhoria da qualidade de vida dos pacientes e no controle de sintomas como dor, dispneia e fadiga. Estudos revisados indicaram que as intervenções fisioterapêuticas, incluindo a fisioterapia respiratória, terapia de exercícios e técnicas de alívio da dor, têm mostrado resultados positivos no controle de sintomas que impactam diretamente a qualidade de vida dos pacientes (Martins, 2021; Alves, 2020). Além disso, foi identificado nos trabalhos, que os fisioterapeutas buscam estar sempre integrados na equipe interdisciplinar, com médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, de modo a proporcionar um cuidado mais integral.
A partir dos artigos revisados, foi possível constatar que a fisioterapia tem um papel fundamental no manejo dos sintomas e na melhoria do conforto dos pacientes oncológicos em cuidados paliativos. A literatura destaca que o controle da dor, por exemplo, é uma das áreas onde a fisioterapia tem mostrado maior impacto. Segundo Silva et al. (2022), a combinação de técnicas de mobilização e exercícios de alongamento tem contribuído para a diminuição da dor muscular e articulares associadas a longos períodos de imobilização.
Em relação à dispneia, é comum que pacientes com câncer avançado apresentem dificuldades respiratórias. Diversos estudos indicaram que a fisioterapia respiratória, com ênfase em técnicas de respiração controlada e fortalecimento da musculatura respiratória, tem mostrado resultados eficazes na melhoria da função pulmonar e na redução da sensação de falta de ar (Pereira et al., 2021).
Um achado relevante desta revisão foi a presença de uma série de dificuldades emocionais e técnicas enfrentadas pelos fisioterapeutas no contexto de cuidados paliativos, como a escassez de formação específica na área e o impacto emocional de trabalhar com pacientes terminais. Muitos estudos mencionam que esses desafios afetam diretamente a qualidade do atendimento prestado e a satisfação dos próprios profissionais com o trabalho realizado (Ferraz et al., 2020).
Assim, observa-se a Tabela 1 que apresenta os trabalhos utilizados para nesta pesquisa:
Tabela 1- Trabalhos encontrados para a revisão
| Autor(es) e Ano | Intervenção | Objetivo | Metodologia | Resultado |
| Quaresma et al., 2023 | Fisioterapia oncológica em cuidados paliativos | Avaliar impacto da fisioterapia em cuidados paliativos | Revisão de literatura | Fisioterapia melhora a qualidade de vida |
| Silva et al., 2022 | Cuidados paliativos em câncer de pulmão | Avaliar benefícios da fisioterapia | Estudo clínico | Redução de sintomas e melhora na qualidade de vida |
| Mota et al., 2021 | Fisioterapia em pacientes em cuidados paliativos | Estudar atuação da fisioterapia | Revisão integrativa | Contribuições significativas para manejo de sintomas |
| Ramos et al., 2019 | Fisioterapia na dor em cuidados paliativos | Avaliar efeitos na dor | Revisão sistemática | Redução significativa na dor dos pacientes |
| Costa et al., 2020 | Cuidados paliativos na oncologia | Explorar contribuições da fisioterapia | Revisão bibliográfica | Melhora no controle dos sintomas |
| Campos et al., 2020 | Humanização em cuidados paliativos | Avaliar contribuição da fisioterapia | Análise qualitativa | Fisioterapia melhora a humanização no cuidado |
| Costa & Duarte, 2019 | Reflexões bioéticas sobre cuidados paliativos | Discutir aspectos bioéticos | Reflexão teórica | Contribuições para a bioética na prática paliativa |
| Costa et al., 2022 | Cuidados paliativos com ênfase na humanização | Analisar o papel da fisioterapia | Revisão bibliográfica | Destaca a importância da humanização no cuidado |
| Santos & Peruzzo, 2022 | Atuação da fisioterapia em cuidados paliativos | Examinar o papel da fisioterapia | Revisão de literatura | Contribuições da fisioterapia na qualidade de vida |
| Cardos o et al., 2023 | Fisioterapeuta oncológico nos cuidados paliativos | Estudar o papel do fisioterapeuta | Revisão integrativa | Identificaram-se melhorias nos cuidados |
| Rodrigues Neto et al., 2024 | Abordagem interprofissional | Analisar cuidados interprofissionais | Revisão integrativa | Melhora na qualidade do cuidado com equipes interprofissionais |
| Santos-Moura et al., 2023 | Percepção sobre cuidados da equipe multiprofissional | Avaliar percepção de profissionais | Estudo qualitativo | Equipes multiprofissionais melhoram os cuidados |
| Melo et al., 2024 | Fisioterapia nos cuidados paliativos oncológicos | Analisar a fisioterapia em cuidados paliativos | Revisão de literatura | Melhora significativa na qualidade de vida dos pacientes |
| Silva et al., 2020 | Aspectos bioéticos em cuidados paliativos | Estudar aspectos bioéticos | Estudo qualitativo | Fisioterapeutas têm desafios éticos no cuidado paliativo |
| Gonçalves et al., 2018 | Formação dos fisioterapeutas em cuidados paliativos | Avaliar a formação dos fisioterapeutas | Estudo quantitativo | Identificação de lacunas na formação profissional |
| Bittencourt et al., 2022 | Cuidados paliativos no ensino da fisioterapia | Analisar o ensino de cuidados paliativos | Pesquisa bibliográfica | Melhorias no currículo de fisioterapia |
| Oliveira et al., 2019 | Importância do fisioterapeuta nos cuidados paliativos | Discutir o papel do fisioterapeuta | Revisão de literatura | Contribuições importantes para a prática de cuidados paliativos |
| Alcântara, 2021 | Fisioterapia paliativa | Analisar cuidados paliativos na fisioterapia | Revisão bibliográfica | Eficácia da fisioterapia nos cuidados paliativos |
| Araújo et al., 2021 | Perfil clínico de pacientes oncológicos em cuidados paliativos | Estudar o perfil dos pacientes | Estudo retrospectivo | Identificação de padrões clínicos nos cuidados paliativos |
| Faller et al., 2016 | Perfil de idosos com câncer em cuidados paliativos domiciliares | Analisar perfil de idosos | Estudo transversal | Maior necessidade de cuidados domiciliares para idosos |
| Farias & Bezerra, 2021 | Perfil de pacientes oncológicos em cuidados paliativos | Estudar o perfil sociodemográfico | Estudo quantitativo | Identificação de fatores que influenciam os cuidados |
| Atty & Tomazelli, 2018 | Cuidados paliativos domiciliares | Avaliar cuidados paliativos domiciliares | Estudo qualitativo | Melhor acompanhamento domiciliar para pacientes |
| Barbosa et al., 2021 | Fisioterapia nos cuidados paliativos | Avaliar contribuições para a qualidade de vida | Estudo experimental | Fisioterapia melhora a qualidade de vida em cuidados paliativos |
Fonte: Autores (2025)
3.1 PERFIL DOS PACIENTES ONCOLÓGICOS EM CUIDADOS PALIATIVOS
A caracterização do perfil dos pacientes oncológicos em cuidados paliativos é essencial para aprimorar as estratégias de assistência e promover intervenções mais eficazes. Diversos estudos têm investigado aspectos como tipos de câncer mais prevalentes, faixa etária predominante e estágio da doença nesses pacientes. As neoplasias mais frequentemente observadas em pacientes oncológicos sob cuidados paliativos variam conforme o sexo e a faixa etária. Em um estudo de Farias e Bezerra (2021) que analisou casos registrados na atenção domiciliar entre 2013 e 2015, identificou-se que, entre os homens, o câncer de próstata foi o mais prevalente, especialmente naqueles com mais de 60 anos. Já entre os homens com menos de 40 anos, o câncer de encéfalo foi o mais comum. Para as mulheres, o câncer de mama destacou-se como o mais incidente em quase todas as faixas etárias, exceto nas menores de 40 anos.
Corroborando esses achados, Faller et al. (2016) observaram, em um estudo realizado em Foz do Iguaçu (PR), que o câncer de próstata foi o mais frequente entre os homens idosos, enquanto o câncer de mama predominou entre as mulheres. Além disso, a pesquisa destacou a baixa escolaridade como um fator comum entre os pacientes, o que pode influenciar no acesso aos serviços de saúde e no diagnóstico precoce da doença.
A idade avançada é um fator associado à maior incidência de câncer e, consequentemente, à necessidade de cuidados paliativos. No estudo de Faller et al. (2016), a maioria dos pacientes em cuidados paliativos domiciliares tinha mais de 70 anos. Esse dado é consistente com a literatura, que aponta o envelhecimento como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de neoplasias.
Outro estudo, conduzido por Farias e Bezerra (2021), reforça essa tendência, indicando que a maioria dos pacientes oncológicos em cuidados paliativos no Brasil está na faixa etária acima dos 60 anos.
Assim, é possível afirmar que a maioria dos pacientes oncológicos encaminhados para cuidados paliativos apresenta a doença em estágio avançado (Farias e Bezerra, 2021). Segundo Araújo et al. (2021), aproximadamente 69% dos pacientes avaliados em seu estudo apresentavam metástase no momento do ingresso nos cuidados paliativos. Esses dados indicam um diagnóstico tardio e a necessidade de intervenções paliativas precoces.
Além disso, Farias e Bezerra (2021) destacam que a maioria dos pacientes em cuidados paliativos apresenta funcionalidade bastante reduzida na admissão hospitalar, o que reforça a importância de estratégias de diagnóstico precoce e de encaminhamento oportuno para cuidados paliativos.
A baixa escolaridade e o baixo nível socioeconômico são características frequentemente observadas entre os pacientes oncológicos em cuidados paliativos. Esses fatores podem dificultar o acesso aos serviços de saúde e contribuir para o diagnóstico tardio da doença.
Faller et al. (2016) observaram que a maioria dos pacientes em cuidados paliativos domiciliares tinha baixa escolaridade, o que pode influenciar na compreensão sobre a doença e no engajamento com o tratamento.
Portanto, o perfil dos pacientes oncológicos em cuidados paliativos no Brasil é caracterizado por uma predominância de idosos, com neoplasias em estágio avançado, baixa escolaridade e condições socioeconômicas desfavoráveis. Esses fatores ressaltam a importância de políticas públicas voltadas para o diagnóstico precoce, a educação em saúde e o fortalecimento da atenção domiciliar, visando melhorar a qualidade de vida desses pacientes.
3.2 CONTRIBUIÇÕES DA FISIOTERAPIA PARA O ALÍVIO DOS SINTOMAS EM CUIDADOS PALIATIVOS ONCOLÓGICOS
Foi possível constatar que a atuação da fisioterapia nos cuidados paliativos oncológicos tem sido amplamente estudada por sua relevância na promoção do conforto e da funcionalidade, especialmente na fase terminal da doença. Em vez de buscar a cura, o enfoque é o controle de sintomas como dor, dispneia, fadiga e limitações funcionais, sempre com o objetivo de preservar a qualidade de vida do paciente.
Segundo Quaresma et al. (2023), a fisioterapia oncológica em cuidados paliativos contribui significativamente para a redução de sintomas como dor crônica, fadiga intensa, dispneia e distúrbios funcionais, promovendo maior bem-estar e alívio dos desconfortos físicos. Os autores destacam que intervenções como a eletroterapia, a cinesioterapia leve e a reeducação postural têm sido eficazes na atenuação de quadros dolorosos e no aumento da funcionalidade residual dos pacientes.
De acordo com Silva et al. (2022), no contexto específico de pacientes com câncer de pulmão, técnicas como exercícios respiratórios, mobilizações precoces e higiene brônquica auxiliam no controle da dispneia e na prevenção de complicações respiratórias. A fisioterapia, segundo os autores, proporciona alívio da sensação de sufocamento e melhora a oxigenação, promovendo conforto respiratório, mesmo em situações clínicas graves.
Já Mota et al. (2021) apontam que a fadiga, que é um dos sintomas mais incapacitantes nos pacientes oncológicos em cuidados paliativos, pode ser amenizada com a prática de exercícios terapêuticos de baixa intensidade, promovendo maior disposição física, redução da sensação de cansaço extremo e melhora do sono. A fisioterapia, ao modular a atividade física de forma segura e individualizada, contribui para a manutenção da autonomia e autoestima dos pacientes, o que impacta diretamente em sua qualidade de vida.
Ramos et al. (2019), por sua vez, afirmam que a dor, frequentemente presente em pacientes com câncer em estágio avançado, pode ser controlada com técnicas fisioterapêuticas como a terapia manual, a estimulação elétrica transcutânea (TENS) e o uso de calor ou frio terapêutico. Tais recursos, aliados à orientação postural e ao estímulo à movimentação segura, reduzem a necessidade de medicamentos analgésicos e promovem um estado de maior conforto e relaxamento.
De forma geral, estudos como o de Costa et al. (2020) ressaltam que a inserção do fisioterapeuta em equipes de cuidados paliativos é primordial para atuação interdisciplinar da dor e da limitação funcional. A atuação colaborativa entre profissionais da saúde, com foco no cuidado integral, amplia a eficácia dos tratamentos paliativos e garante que o paciente seja atendido de maneira mais humanizada e centrada em suas necessidades.
Essas evidências apontam, portanto, que a fisioterapia é uma aliada importante na atenção paliativa oncológica. Além dos benefícios físicos, a presença contínua do fisioterapeuta proporciona acolhimento emocional e uma escuta ativa que favorece o enfrentamento do processo de terminalidade com mais dignidade e qualidade de vida.
3.3 IMPORTÂNCIA DA ATUAÇÃO HUMANIZADA E INDIVIDUALIZADA DO FISIOTERAPEUTA
A atuação humanizada e individualizada do fisioterapeuta é essencial nos cuidados paliativos oncológicos, pois respeita a dignidade, autonomia e conforto do paciente. Essa abordagem, focada no paciente possibilita que as intervenções sejam adaptadas às necessidades físicas, emocionais e sociais de cada indivíduo, promovendo uma melhor qualidade de vida durante o tratamento. Campos et al. (2020) destacam que a humanização nos cuidados paliativos oncológicos envolve a escuta ativa e a empatia por parte dos profissionais de saúde, incluindo fisioterapeutas. Essa postura facilita a compreensão das reais necessidades dos pacientes, permitindo a elaboração de planos terapêuticos mais eficazes e personalizados. A individualização do atendimento contribui para o fortalecimento do vínculo entre paciente e profissional, essencial para a adesão ao tratamento e para o bem-estar do paciente.
Por outro lado, Costa e Duarte (2019) enfatizam a importância da bioética na prática fisioterapêutica em cuidados paliativos, ressaltando que o respeito à autonomia do paciente é fundamental. Os fisioterapeutas devem estar atentos às preferências e valores dos pacientes, envolvendo-os ativamente nas decisões sobre seu próprio cuidado. Essa abordagem não apenas respeita a dignidade do paciente, mas também promove um ambiente de confiança e colaboração mútua.
Costa et al. (2022) apontam que os cuidados paliativos humanizados na oncologia requerem uma atuação multiprofissional integrada, na qual o fisioterapeuta desempenha um papel primordial. Ao considerar as particularidades de cada paciente, o fisioterapeuta pode implementar intervenções que aliviem sintomas como dor, fadiga e dispneia, sempre respeitando os limites e desejos do indivíduo. Essa prática contribui para a manutenção da funcionalidade e para a promoção do conforto, aspectos essenciais na fase paliativa do tratamento oncológico.
Santos e Peruzzo (2022) ressaltam que a humanização nos cuidados paliativos envolve não apenas o tratamento dos sintomas físicos, mas também o suporte emocional e psicológico ao paciente e sua família. O fisioterapeuta, ao estar mais próximo ao paciente contribuindo nesse cuidado, faz com que o ambiente terapêutico se torne acolhedor.
Desse modo, a partir dos autores compreende-se que a atuação humanizada e individualizada do fisioterapeuta nos cuidados paliativos oncológicos é fundamental para assegurar que o paciente receba um atendimento que respeite sua dignidade, promova seu conforto e preserve sua autonomia.
3.4 INTEGRAÇÃO DO FISIOTERAPEUTA NA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL
A integração do fisioterapeuta na equipe multiprofissional é essencial nos cuidados paliativos oncológicos, promovendo uma assistência integral e focada nas particularidades de cada paciente. Essa colaboração interdisciplinar busca contemplar aspectos físicos, emocionais e sociais que envolvem o processo de adoecimento, assegurando um cuidado mais resolutivo e pautado no acolhimento e no respeito à dignidade humana.
De acordo com Cardoso et al. (2023), a atuação do fisioterapeuta em conjunto com outros profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, é essencial para o planejamento e execução de intervenções que visam à melhoria da qualidade de vida dos pacientes oncológicos em cuidados paliativos.
Rodrigues Neto et al. (2024) enfatizam que a interprofissionalidade nos cuidados paliativos é uma estratégia vital para um atendimento integral, superando barreiras e desafios por meio da exploração das limitações e buscando soluções que promovam uma assistência verdadeiramente abrangente e humanizada.
Santos-Moura et al. (2023) aponta que a percepção dos cuidados da equipe multiprofissional na assistência ao paciente oncológico em cuidados paliativos é influenciada pela colaboração entre os profissionais. A integração do fisioterapeuta contribui para a identificação precoce de necessidades específicas, permitindo intervenções oportunas que podem aliviar sintomas e melhorar o bem-estar geral dos pacientes.
Melo et al. (2024) destacam que a atuação dos fisioterapeutas nos cuidados paliativos em pacientes oncológicos deve considerar não apenas os aspectos físicos, mas também os psicológicos e emocionais. Essa perspectiva demonstra a importância da atuação conjunta do fisioterapeuta com outros profissionais da saúde para oferecer um cuidado mais completo e eficaz.
Assim, a integração do fisioterapeuta na equipe multiprofissional em cuidados paliativos oncológicos é indispensável para oferecer um cuidado abrangente e centrado no paciente. Essa colaboração interdisciplinar não apenas melhora os resultados clínicos, mas também fortalece o suporte emocional e social oferecido aos pacientes e suas famílias.
3.5 DESAFIOS ENFRENTADOS NA ATUAÇÃO FISIOTERAPÊUTICA EM CUIDADOS PALIATIVOS
A atuação do fisioterapeuta no contexto dos cuidados paliativos oncológicos é marcada por uma série de desafios que vão além das demandas técnicas, exigindo preparo emocional, ético e formação especializada. De acordo com Silva, Lima e Seidl (2020), um dos principais obstáculos enfrentados por esses profissionais é lidar com o sofrimento e a terminalidade, situações que podem gerar estresse psicológico e desgaste emocional, especialmente pela proximidade constante com o sofrimento humano e com a morte.
Além dos aspectos emocionais, a formação acadêmica limitada sobre cuidados paliativos é uma dificuldade recorrente para os fisioterapeutas, o que compromete a segurança e a qualidade das condutas terapêuticas oferecidas aos pacientes oncológicos em final de vida (Gonçalves et al., 2018).
A carência de disciplinas específicas na graduação, que tratem sobre a bioética, comunicação compassiva e tomada de decisão em cuidados paliativos, fragiliza o preparo do profissional para lidar com situações delicadas, como a recusa de tratamento pelo paciente ou a definição dos limites terapêuticos.
Outro desafio relevante refere-se aos dilemas éticos que emergem na prática paliativa, sobretudo no que diz respeito ao respeito à autonomia e à dignidade do paciente. Segundo Bittencourt et al. (2022), a atuação fisioterapêutica nesse cenário exige uma postura ética sensível, que considere não apenas os sintomas físicos, mas também os valores e desejos expressos pelo paciente e seus familiares, respeitando os limites do cuidado proporcional diante da terminalidade.
Oliveira, Bombarda e Moriguchi (2019) também destacam que o fisioterapeuta, ao trabalhar integrado com a equipe multiprofissional, precisa constantemente refletir sobre o impacto das suas intervenções, buscando alinhar seu trabalho às necessidades reais do paciente e evitando a obstinação terapêutica.
Além disso, Alcântara (2021) salienta que a ausência de suporte institucional e a sobrecarga de demandas podem levar o fisioterapeuta a vivenciar situações de esgotamento físico e emocional, o que evidencia a importância de políticas de suporte profissional, educação continuada e espaços de acolhimento dentro das instituições de saúde.
Diante desse cenário, é notável que o aprimoramento da formação acadêmica, o suporte emocional contínuo e a capacitação ética são estratégias essenciais para fortalecer a atuação do fisioterapeuta nos cuidados paliativos oncológicos, tornando possível um atendimento mais seguro, compassivo e alinhado com os princípios da dignidade e do respeito à autonomia dos pacientes.
CONCLUSÃO
Diante do objetivo definido neste trabalho, que consistiu em analisar a atuação da fisioterapia nos cuidados paliativos para pacientes oncológicos, observou-se, ao longo da revisão bibliográfica, que o papel do fisioterapeuta vai muito além da reabilitação física convencional. A fisioterapia se mostra como um recurso indispensável e humanizado, capaz de proporcionar conforto, aliviar sintomas incapacitantes, preservar a funcionalidade e promover qualidade de vida, mesmo em estágios avançados da doença, quando as possibilidades curativas já não são mais viáveis.
O aprofundamento teórico permitiu compreender que a fisioterapia nos cuidados paliativos oncológicos não se limita à intervenção física isolada, mas envolve um olhar integral e acolhedor sobre o paciente, respeitando sua individualidade, valores, limitações e desejos. Os autores apontam que, por meio de técnicas específicas como exercícios terapêuticos adaptados, reeducação postural, terapia respiratória, recursos analgésicos e orientações quanto à ergonomia no leito, o fisioterapeuta contribui de maneira significativa para o alívio da dor, prevenção de complicações secundárias, controle de dispneia, melhora do padrão respiratório e estímulo da autonomia funcional, quando possível.
Outro ponto essencial evidenciado ao longo deste estudo foi o reconhecimento da importância do trabalho interdisciplinar no cenário dos cuidados paliativos. A presença do fisioterapeuta, ao lado de médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, entre outros profissionais, reforça a necessidade de um cuidado centrado no paciente e baseado no diálogo entre saberes, cujo objetivo é garantir conforto, dignidade e suporte tanto ao indivíduo quanto aos seus familiares. A integração da fisioterapia nessa equipe multiprofissional permite o planejamento de intervenções personalizadas, ajustadas à evolução da doença e às condições clínicas de cada paciente, fortalecendo a assistência humanizada e o amparo em todas as fases do processo de terminalidade.
Ademais, o estudo revelou que, embora a atuação do fisioterapeuta nos cuidados paliativos venha sendo cada vez mais reconhecida, ainda existem desafios no que diz respeito à formação acadêmica e à inserção efetiva desse profissional nesse campo de atuação.
A literatura consultada aponta para a necessidade de ampliar o ensino sobre cuidados paliativos nos currículos dos cursos de Fisioterapia, incluindo disciplinas que abordem aspectos éticos, emocionais e clínicos desse contexto, para que o futuro profissional esteja apto a atuar com empatia, sensibilidade e competência diante de pacientes em sofrimento avançado.
Conclui-se, portanto, que a fisioterapia, quando aplicada dentro de uma perspectiva paliativa, representa não apenas um cuidado técnico, mas também um ato de acolhimento e respeito à dignidade humana. Sua contribuição vai além da busca pela cura, focando na manutenção do bem-estar, no controle dos sintomas e na preservação da qualidade de vida, mesmo em situações de prognóstico reservado.
Sendo assim, é indispensável que os serviços de saúde e as instituições de ensino incentivem o fortalecimento e a valorização da fisioterapia nos cuidados paliativos oncológicos, assegurando aos pacientes um suporte integral, ético e humanizado, que respeite suas escolhas e necessidades até o final da vida.
REFERÊNCIAS
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1Graduando no curso de Fisioterapia das Faculdades Integradas Aparício Carvalho – FIMCA. E-mail: andrey.fisio02@gmail.com
2Graduanda no curso de Fisioterapia das Faculdades Integradas Aparício Carvalho – FIMCA. E-mail: vanessa131115@hotmail.com
3Docente das Faculdades Integradas Aparício Carvalho – FIMCA. E-mail: Brenda.cavalcante@fimca.com.br
