REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202601311548
Ana Lúcia dos Santos1
RESUMO
A arte de contar histórias é uma prática antiga e fundamental, sendo uma das principais ferramentas de transmissão de saberes, valores, crenças e tradições. Ela atua como guardiã de memórias coletivas, molda identidades e perpetua a centralidade de conhecimentos e valores, mesmo quando as tradições são “inventadas” ou transformadas. A arte de contar histórias é universal, presente em diversos contextos geográficos e históricos, mediando entre passado e presente, experiência individual e imaginário coletivo. Este ensaio discute sua importância na construção da identidade cultural, baseando-se em estudos de autores como Walter Benjamin, Eric Hobsbawm e Regina Stela Barcelos Machado, além de analisar suas transformações contemporâneas, como na era digital.
Palavras-chave: histórias. identidade. tradição. cultura.
RÉSUMÉ
L’art de raconter des histoires est une pratique ancestrale et fondamentale, étant l’un des principaux outils de transmission des connaissances, des valeurs, des croyances et des traditions. Elle préserve la mémoire collective, façonne les identités et perpétue la place centrale du savoir et des valeurs, même lorsque les traditions sont “inventées” ou transformées. L’art de raconter des histoires est universelle, présente dans des contextes géographiques et historiques divers, faisant le lien entre passé et présent, expérience individuelle et imaginaire collectif. Cet essai examine son importance dans la construction de l’identité culturelle, en s’appuyant sur des études d’auteurs tels que Walter Benjamin, Eric Hobsbawm et Regina Stela Barcelos Machado, et en analysant ses transformations contemporaines, comme à l’ère numérique.
Motsclés: histoires. identité. tradition. culture.
Introdução
Contar histórias é uma das práticas mais antigas e fundamentais, no sentido de legado cultural2, para a vida em sociedade. Muito antes da escrita, antes mesmo das primeiras formas de registro visual, as narrativas orais eram as principais ferramentas de transmissão, como também, absorção de saberes, valores, crenças e tradições. Uma vez que, “O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes.” (BENJAMIN, 1994, p.4,5). Nesse contexto, o contador de histórias emerge como uma figura essencial, responsável por perpetuar memórias coletivas e moldar identidades.
Figuras emblemáticas com crenças e valores que perpetuam a ancestralidade, através de histórias, embasadas no saber doxa3. Aprendizado que faz parte não só da cultura popular, como também das tradições orais presentes nas comunidades. Como salienta Hobsbawm em sua obra, A invenção das tradições.
O termo “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as “tradições” realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e determinado de tempo – às vezes coisa de poucos anos apenas – e se estabeleceram com enorme rapidez. (HOBSBAWM, 1984, p. 09).
Sob esse viés, Hobsbawm, aborda sobre o real valor das tradições, sendo elas inventadas ou não, o que realmente importa é o seu contexto social, como é o caso das histórias contadas que se transformam em verdadeiros legados histórico-sociais por meio de seus interlocutores.
As tradições orais são um marco na história de todo cidadão, uma vez que a existência humana é constituída por histórias, verídicas ou não, contribuem significativamente para a construção de valores e legados culturais que carregamos ao longo da vida. Muitas das vezes atuando como âncora para dar sentido a um futuro, seja na vida profissional ou afetiva. Embasando olhares advindos de outras experiências.
O presente ensaio discute a importância desse(s) narrador(es) na construção da identidade cultural, analisando sua função social, simbólica e educativa ao longo do tempo. Para isso, trabalharemos fundamentados sob o olhar de estudiosos a cerca desses vieses, como: Walter Benjamin, Eric Halbwach, Terence Ranger, Marcos Vinícius Santos Silva, Paula Cristina Vilas, Amadou Hampâté Bâ, Regina Stela Barcelos Machado.
Partiremos da ideia imagética do contador de histórias: sua origem e significado; seguido do contador de histórias como agente de educação e transmissão de valores; não esquecendo das transformações contemporâneas: o contador de histórias na era digital; e, por fim, com um apanhado geral a cerca dessa emblemática figura em questão.
O contador de histórias: sua origem e significado
A figura do contador de histórias é universal. Ela aparece nos griots africanos4, nos xamãs indígenas5, nos bardos celtas6, nos trovadores medievais e nos narradores populares presentes em diversas culturas. Independentemente da geografia ou do período histórico, esse personagem ocupa um papel de mediação entre o passado e o presente, entre a experiência individual e o imaginário coletivo, mas sobretudo nas vivências, como evidência Marcos Vinícius Santos Silva apud Abbagnano e Halbwachs, em sua tese de doutorado.
O resgate das vivências, à luz dos testemunhos sociais e/ou outros fatos, dados no curso da história, é, primordialmente, elemento transitório, mas relevante, no campo da memória. Nesse postulado, acrescento que, a memória pode ser considerada, como conjunto das representações ou conhecimentos, sob determinação pregressa (Abbagnano, 2012). Assim sendo, seu entendimento, à luz de um direcionamento epistêmico, nos aportes crítico-reflexivos da Sociologia e da Filosofia, interpela rotas e confrontamentos, no plano das construções identitárias, a partir das ideações subjetivas e políticas, constituídas nas/das relações implicadas. Ou seja, há um intercruzamento entre identidade e memória, consequentemente, uma dialética entre memória individual e coletiva (Halbwachs, 1990). (SILVA,2024, p.23).
Fatos históricos embasados em testemunhos e vivências, promovem resgates culturais transitórios, bastantes relevantes para memória que podem ser vistas como um conjunto de representações ou conhecimentos determinados pelo passado. Além disso, é percebido nas falas de Abbagnano e Halbwachs citado por Vinícius Silva, um interligamento entre identidade e memória que corroboram com lembranças tanto individuais quanto coletivas.
Portanto, ao narrar uma história, o contador estabelece vínculos afetivos, reforça identidades e ajuda a organizar a experiência humana em forma de narrativa. Ele atua como guardião da memória cultural, preservando conhecimentos que, de outra forma, poderiam se perder com o tempo.
Por isso, o orador se expressa com base na identidade cultural, uma vez que, a oralidade é, por excelência, o espaço em que a identidade cultural se forma e se transforma. Por meio dela, uma comunidade compartilha suas visões de mundo, seus mitos de origem, seus ritos de passagem e suas explicações simbólicas sobre a vida.
O contador de histórias, portanto, não apenas narra acontecimentos, mas recria a cultura a cada performance. Sua narrativa é viva, dinâmica e sempre atualizada, permitindo que o passado se reconecte com o presente. Base visionária firmada na oratória de Paula Cristina Vilas em sua tese de doutorado sobre: Vozes entre festas vocalidades entre o trabalho de campo e a produção vocal em cena, a mesma diz.
… Essa reflexão é favorecida pela própria perspectiva de vocalidade com a qual abordo o campo das performances tradicionais e o campo da cena. A proposta então é tomar contato com as vocalidades das performances tradicionais e a partir dessa comoção produzir voz, labor que posso sustentar a partir da noção de produção de voz para uma performance centrada na voz e na palavra, (VILAS,2007, p.25).
É nessa contínua negociação entre tradição, inovação e performance, vista na fala de Vilas, que a identidade cultural se fortalece e se renova. Firmando bases sólidas para aqueles que são conquistados pelas diferentes atuações apresentadas por quem costuma manter vivas crenças epistemológicas7.
O contador de histórias como agente de educação e transmissão de valores
Além de preservar tradições, o contador de histórias desempenha forte papel educativo. Suas narrativas frequentemente carregam ensinamentos morais, éticos e sociais. Em muitas culturas, contar histórias é um modo de ensinar às gerações mais jovens como se comportar, como enfrentar desafios e como se relacionar com o mundo.
Através de metáforas, ou seja, de uma comparação implícita que transfere o significado de uma palavra para outra com base em uma semelhança, como também personagens arquétipos8 e conflitos simbólicos, os contos ajudam a comunidade a refletir sobre seus próprios dilemas.
Assim, o contador de histórias contribui para a formação subjetiva e coletiva, fortalecendo valores que sustentam a identidade cultural de um grupo.
A construção da identidade cultural por meio da memória coletiva de uma comunidade é edificada com base em uma memória compartilhada, feita de mitos, lendas, experiências e acontecimentos marcantes. O contador de histórias é o articulador dessa memória: ele seleciona, reorganiza e ressignifica elementos culturais para transformá-los em narrativas compreensíveis e significativas. Criando assim as tradições orais, pelo fato que, como fomenta Amadou Hampâté Bâ em sua obra A tradição viva.
A tradição oral é a grande escola da vida, e dela recupera e relaciona todos os aspectos…Dentro da tradição oral, na verdade, o espiritual e o material não estão dissociados. Ao passar do esotérico para o exotérico, a tradição oral consegue colocar-se ao alcance dos homens, falar-lhes de acordo com o entendimento humano, revelar-se de acordo com as aptidões humanas. Ela é ao mesmo tempo religião, conhecimento, ciência natural, iniciação à arte, história, divertimento e recreação, uma vez que todo pormenor sempre nos permite remontar à Unidade primordial. (HAMPATÉ BÂ,2010, p.169).
Nessas palavras de Hampté Bâ, concluímos que a tradição oral é uma grande escola de vida, por envolver não somente o lado material, mas também o espiritual, se adapta ao entendimento humano e vai além, perpassa pelo campo do conhecimento, religião, da ciência, arte, história, lazer. Além de que as histórias exercem um papel fundamental na integração social que fortalecem o pertencimento de grupos.
Dessa forma, histórias não são apenas relatos; são instrumentos de coesão social. Quando uma comunidade escuta narrativas que retratam seus ancestrais, suas lutas ou seus valores fundamentais, ela se reconhece nessas palavras e reafirma seu pertencimento.
Transformações contemporâneas: o contador de histórias na era digital
Com o avanço das tecnologias, o papel do contador de histórias se expandiu para novos suportes e linguagens. Hoje, influenciadores, cineastas, escritores, performers, educadores e até usuários comuns nas redes sociais assumem, em certa medida, o papel de narradores modernos. Embora o formato tenha se transformado, a função permanece a mesma: transmitir experiências, compartilhar saberes e construir identidades sociais. O desafio contemporâneo é preservar a riqueza da oralidade tradicional enquanto se explora a força das variadas narrativas, que alcançam públicos amplos e diversificados. Afinal de contas, como expressa Regina Stela Barcelos Machado.
A intenção é o que move e dá sentido à experiência de contar histórias. Cada pessoa tem um modo de entender e investigar essa questão. Alguém conta histórias porque gosta de sonhar ou quer compartilhar um momento de magia. Ou porque deseja que outros experimentem o mesmo estado acima e além do tempo, ou se sente desafiado a conquistar uma audiência, ou gosta de ver o brilho nos olhos das crianças. Tanta coisa… (MACHADO, 2002, p. 1 e 2).
Nessa fala de Regina Machado, é valorizado a ‘intenção’ como mola percussora que movimenta e dá sentido ao ato de contar histórias, cada pessoa tem motivos distintos para fazê-lo, o que não acontece com a modernidade digital, esse contato humano, o chamado olho no olho não é possível, bem como o feedback visto nos gestos dos espectadores torna-se inviável entre telas, resume-se apenas em likes positivos ou não, redução ou aumento dos ouvintes no caso de uma live, por exemplo.
Por fim, o contador de histórias é, e sempre foi, uma figura essencial na construção da identidade cultural dos povos. Ao narrar, ele preserva memórias, transmite valores, educa e dá sentido à experiência humana. Ele é, ainda, um agente de conexão entre gerações: ao contar lendas, mitos, crônicas e relatos de vida, cria pontes entre o saber dos mais velhos e a curiosidade dos jovens, garantindo que saberes tradicionais não se percam no tempo. Seu papel ultrapassa a simples prática de contar histórias: ele é um organizador simbólico, um mediador entre o passado e o presente, um guardião da cultura.
Mesmo em um mundo marcado por rápidas transformações tecnológicas, a necessidade de narrativas permanece inalterada. Histórias continuam sendo fundamentais para que as comunidades se reconheçam e se fortaleçam.
Hoje, essa figura se reinventa também em plataformas digitais, podcasts, canais de vídeo e redes sociais, mantendo sua essência, mas adaptando suas formas de alcançar e envolver públicos diversos. Por conseguinte, a figura do contador de histórias, seja tradicional ou contemporânea, permanece indispensável para a formação e a continuidade das identidades culturais.
2. Legado cultural: conjunto de bens, valores, saberes, tradições, expressões artísticas e técnicas
transmitidos de geração em geração dentro de uma sociedade ou grupo.
3. Doxa (em grego: δόξα) é uma palavra grega que significa crença comum ou opinião popular e de onde se originaram as palavras modernas ortodoxo e heterodoxo.
4. Griot (ou griô) africanos: são guardiões da memória, história oral, tradições e conhecimentos de um povo, atuando como contadores de histórias, poetas e músicos.
5. Xamãs indígenas: são líderes espirituais que atuam como intermediários entre o mundo natural e o mundo espiritual, guiando rituais de cura, prevendo o futuro, e mantendo a sabedoria de seu povo.
6. Bardos celtas: eram poetas-cantores talentosos, figuras centrais na sociedade celta, responsáveis por preservar e transmitir a história, a mitologia, as leis e a cultura do seu povo de forma oral, através de poemas recitados, canções e narrativas épicas.
7. Crenças epistemológicas: referem-se às convicções e teorias subjetivas que um indivíduo possui sobre o conhecimento e a aquisição do saber.
8. Arquétipos de personagem: são padrões universais de comportamento e características que se manifestam em personagens de histórias, sendo instantaneamente reconhecidos pelo público.
REFERÊNCIAS:
•BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense,1994, p. 197-221.
•HALBWACHS, M. A memória coletiva. 2. ed. SP: Edições Vértice. Editora Revista dos Tribunais, 1990.
•História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África/ editado por Joseph Ki- Zerbo.-2.ed.rev. -Brasília: UNESCO, 2010. Hampâté Bâ, A.:A tradição viva. Capítulo 08. Dá pg.167 à 212.
•HOBSBAWM, Eric e RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. Págs. 9-23.
•MACHADO, Regina Stela Barcelos. Acordais: fundamentos teórico poéticos da arte de contar histórias. 2002. Tese (Livre Docência) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. Acesso em: 23 jan. 2026 às 19:58.
•SILVA, Marcos Vinícius Santos: KOSI EWÊ, SEM FOLHA NÃO TEM NADA: Os sentidos atribuídos aos ebós e às práticas de saúde, em Terreiros de Candomblé, nos municípios de Alagoinhas e Catu, no estado da Bahia.Tese de Doutorado; Alagoinhas,19 de dezembro de 2024.
•VILAS: Paula Cristina: Vozes entre festas vocalidades entre o trabalho de campo e a produção vocal em cena. Tese de Doutorado; Brasília, julho de 2007.
1Ana Lúcia dos Santos: Graduada em Letras Língua francesa pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus II, Alagoinhas. Três vezes pós-graduada Lato Sensu: FACUVALE (Faculdade de Minas (EAD), nas áreas de: Pedagogia; Gestão, Orientação e Supervisão Escolar; Educação Especial: Educação Inclusiva e Múltiplas Deficiências, 2024-2025. Aluna Especial de Pós-graduação Stricto Sensu (Mestrado) – UNEB, 2025, nas disciplinas de: Políticas da Subjetividade e Tradição Oral e Cultura Popular. Teve Participação como coautora no artigo sobre Gnose Tecnológico: Uma abordagem dinâmica no estudo do FLE (2024), do livro Línguas, Literaturas e Artes: Investigações Teóricas e Práticas-DLLARTES, Campus II (Departamento de Linguística, Literatura e Artes, UNEB, editora: MC&G.
