MANEJO CLÍNICO NO TRATAMENTO DE PACIENTE COM TRANSTORNO ESQUIZOFRÊNICO E PERIODONTITE: EXTRAÇÃO DENTÁRIA E REABILITAÇÃO COM PRÓTESE TOTAL COMO ESTRATÉGIA PARA MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA

CLINICAL MANAGEMENT IN THE TREATMENT OF PATIENTS WITH SCHIZOPHRENIC DISORDER AND PERIODONTITIS: TOOTH EXTRACTION AND REHABILITATION WITH COMPLETE DENTURE AS A STRATEGY FOR IMPROVING QUALITY OF LIFE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510060834


Larissa Dos Santos Cintra1
Livia Benvindo Sampaio1
Luciana De Fátima Nascimento Simões1
Nicole Klauck1
Rafaela Ribeiro Veloso1
Tainá do Nascimento Gonçalves2


RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo relatar a importância do tratamento odontológico em pacientes com transtorno esquizofrênico associado à periodontite avançada, destacando a extração dentária e a reabilitação com prótese total como estratégias para a melhoria da qualidade de vida. A esquizofrenia é um transtorno mental crônico que compromete a percepção da realidade, o comportamento e a cognição, o que frequentemente dificulta o autocuidado e o acesso adequado aos serviços de saúde, incluindo a saúde bucal. Pacientes com este diagnóstico tendem a apresentar piores condições periodontais devido à negligência na higiene oral, uso prolongado de medicamentos psicotrópicos e hábitos deletérios, o que pode levar à perda dental severa. Diante desse cenário, a atuação conjunta entre cirurgião- dentista, psiquiatra e equipe de apoio psicossocial torna-se fundamental para o planejamento e execução de um tratamento humanizado e eficaz. A exodontia dos dentes comprometidos e a posterior instalação de próteses totais proporcionam não apenas a restauração estética e funcional, mas também ganhos significativos na autoestima, na socialização e no bem-estar geral do paciente. Conclui-se que a integração entre as especialidades é essencial para promover uma reabilitação oral completa e sustentável, especialmente em pacientes com transtornos mentais severos, contribuindo significativamente para a promoção da saúde integral.

Palavras-chave: Esquizofrenia. Periodontite. Saúde mental. Prótese total.

ABSTRACT

This study aims to report the importance of dental treatment in patients with schizophrenia associated with advanced periodontitis, highlighting tooth extraction and total prosthetic rehabilitation as strategies to improve quality of life. Schizophrenia is a chronic mental disorder that impairs perception of reality, behavior, and cognition, often hindering self-care and proper access to healthcare services, including oral health. Patients with this diagnosis tend to present worse periodontal conditions due to poor oral hygiene, prolonged use of psychotropic medications, and harmful habits, which can lead to severe tooth loss. In this context, the joint work of the dentist, psychiatrist, and psychosocial support team is essential for the planning and execution of a humanized and effective treatment. The extraction of compromised teeth and subsequent installation of complete dentures not only restore aesthetics and function but also significantly improve the patient’s self-esteem, socialization, and overall wellbeing. It is concluded that integration between specialties is crucial to promote complete and sustainable oral rehabilitation, especially in patients with severe mental disorders, thus contributing significantly to the promotion of overall health.

1  INTRODUÇÃO

A saúde bucal está diretamente relacionada à saúde física e mental, pois interfere na mastigação e digestão dos alimentos, na comunicação e na expressão por meio de sinais não verbais, além de influenciar a estética e a autoestima. Além disso, sua relação com a saúde sistêmica é evidente, uma vez que a adoção de cuidados adequados com a higiene oral pode ajudar a prevenir doenças como as cardiovasculares, pulmonares, da próstata, osteoporose, diabetes e até mesmo alguns tipos de câncer (Oliveira et al., 2021).

Entre as doenças bucais mais prevalentes, a periodontite se destaca por seu caráter inflamatório crônico e multifatorial, podendo comprometer os tecidos de suporte dos dentes e levar à reabsorção óssea e perda dentária. Caso não seja tratada, essa condição pode gerar consequências significativas para a saúde geral do paciente, afetando não apenas a função mastigatória, mas também contribuindo para problemas sistêmicos (Lima et al., 2022).

A periodontite quando associada a transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia, pode se tornar ainda mais desafiadora. Pacientes com esquizofrenia frequentemente apresentam dificuldades com o autocuidado, comprometendo a manutenção da saúde bucal e aumentando o risco de doenças periodontais. Além disso, os efeitos adversos dos medicamentos antipsicóticos, como a boca seca e a diminuição da produção salivar, podem agravar o quadro, facilitando o desenvolvimento da periodontite e outras condições bucais (Tanganeli et al., 2023).

Neste contexto, a abordagem de um paciente com esquizofrenia e periodontite demanda a atuação integrada de uma equipe multidisciplinar, composta por profissionais da saúde bucal, psiquiatras, psicólogos e outros especialistas. Quanto à saúde bucal, uma das estratégias eficazes para melhorar a qualidade de vida desses pacientes é a orientação prévia sobre higienização e saúde bucal. Entretanto, a remoção de dentes comprometidos e a restauração da função mastigatória e estética por meio de próteses, pode ser eficiente para melhorar a saúde bucal, a autoestima e, consequentemente, o bem-estar geral do paciente (Cunha; Oliveira; Oliveira, 2024).

Com base nesse contexto, esse estudo caracteriza-se como um estudo de caso clínico com abordagem qualitativa e descritiva, cujo intuito é relatar o manejo odontológico de uma paciente esquizofrênica com periodontite grave, submetida a extrações dentárias e reabilitação oral com prótese total, como estratégia para a melhora da qualidade de vida

A problemática levantada foi: como a extração dentária e a reabilitação com prótese total superior e inferior podem contribuir para a recuperação funcional e a melhoria da qualidade de vida de pacientes com periodontite avançada e comprometimento neurológico? Considerando essa questão, este estudo parte da hipótese de que a reabilitação com prótese total constitui a abordagem mais adequada para o caso clínico, promovendo melhorias funcionais e estéticas significativas. Acredita-se que essa reabilitação favorece funções essenciais como a mastigação, digestão e comunicação, além de reduzir o risco de infecções sistêmicas e locais. Ademais, presume-se que a atuação integrada da equipe multiprofissional favorece a adesão ao tratamento odontológico, contribuindo para o bem-estar e autoestima do paciente, refletindo positivamente em sua interação social.

Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo devolver à paciente a capacidade funcional e estética por meio da extração de dentes acometidos pela periodontite e reabilitação oral com prótese total, promovendo qualidade de vida e bem-estar. Como objetivos específicos, busca-se avaliar o impacto da reabilitação oral na autoestima do paciente com esquizofrenia e periodontite, analisar os efeitos da reabilitação com prótese total na função mastigatória e na digestão dos alimentos, e investigar a influência da perda dentária e da reabilitação oral na fala e na comunicação.

Este estudo se justifica pela relevância de proporcionar aos pacientes com transtornos psicóticos uma solução odontológica que atenda às suas necessidades de saúde bucal e de bemestar psicológico. A extração dentária dos elementos comprometidos, seguida da instalação de prótese total, representa uma estratégia eficaz para recuperar a função mastigatória, melhorar a estética e, consequentemente, elevar a autoestima do paciente. Sendo assim, esse estudo contribui para a literatura científica ao aprofundar a compreensão da relação entre transtornos mentais e saúde bucal, evidenciando como a intervenção odontológica pode impactar positivamente a vida desses indivíduos.

2  FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1  PERIODONTITE E SEUS IMPACTOS NA SAÚDE GERAL

A periodontite é uma doença inflamatória crônica e multifatorial, associada a fatores como higienização, resposta imune, anatomia dentária e estrutura tecidual. Sua progressão compromete os tecidos de suporte dos dentes, podendo levar à reabsorção óssea e perda dentária. Assim como a cárie, é uma das doenças mais comuns na cavidade bucal, sendo influenciada pela microbiota oral, que pode afetar o equilíbrio entre saúde e doença. Além disso, a periodontite está relacionada a condições sistêmicas, como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e pulmonares (Lima et al., 2022).

A periodontite é a forma mais grave da doença periodontal, caracterizada por um processo inflamatório crônico e multifatorial associado ao biofilme disbiótico, levando à destruição progressiva do suporte dentário (Pontes et al., 2025). Sendo assim, bactérias Gramnegativas, como Porphyromonas gingivalis (Pg), Treponema denticola, Tannerella forsythia, Aggregatibacter actinomycetemcomitans (Aa) e Fusobacterium nucleatum, são os principais patógenos envolvidos na progressão da doença (Picone et al., 2024).

Cada bactéria contribui de forma específica para o dano periodontal. P. gingivalis produz colagenases e metaloproteinases de matriz (MMPs), degradando colágeno e matriz extracelular, enquanto A. actinomycetemcomitans libera leucotoxinas que comprometem a defesa imunológica, agravando o estado inflamatório crônico. Para restaurar a homeostase, o sistema imunológico ativa os mecanismos de defesa, buscando equilibrar as funções biológicas (Picone et al., 2024).

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (2022), a doença periodontal afeta cerca de 35% da população mundial, sendo a condição crônica mais prevalente em humanos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a inflamação gengival acomete 96,5% dos adultos. Fatores como sexo masculino, baixo nível socioeconômico e tabagismo intenso estão associados a uma maior prevalência da periodontite. Por se tratar de uma doença socialmente determinada, a redução de sua incidência depende de políticas públicas voltadas para a equidade em saúde e o atendimento integral (Brasil, 2022).

A esquizofrenia é um transtorno cerebral que afeta pensamentos, emoções, percepções e comportamentos, manifestando-se geralmente na adolescência ou início da vida adulta, fase crucial para o desenvolvimento social e profissional. Sua evolução varia desde a recuperação até a incapacidade completa, sendo que 15% dos casos não apresentam recorrência, a maioria alterna entre remissão e exacerbação, e 10 a 15% evoluem para sintomas psicóticos crônicos graves (Silva et al., 2022).

Os avanços na neurociência têm ampliado a compreensão da esquizofrenia, revelando que anomalias no desenvolvimento neural, especialmente na infância e adolescência, podem predispor ao transtorno. Alterações estruturais e funcionais no cérebro, como a redução do volume do hipocampo e disfunções dopaminérgicas, são frequentes em pessoas com esquizofrenia (Fernandez et al., 2024).

Pesquisas genéticas, como os estudos de associação genômica ampla (GWAS), identificaram diversos loci genéticos ligados à esquizofrenia, indicando que a doença resulta da interação entre variantes genéticas comuns e raras. Além disso, fatores epigenéticos, como a metilação do DNA e modificações das histonas, também influenciam a expressão gênica (Dias et al., 2024).

Pacientes com esquizofrenia apresentam maior taxa de mortalidade em comparação à população geral, tanto por causas naturais quanto por acidentes. De acordo com Cadilho et al. (2023), os principais fatores relacionados a esses óbitos incluem suicídio, acidentes e doenças associadas ao transtorno. Outros elementos de risco envolvem o uso de substâncias psicoativas, baixa adesão ao tratamento, autoestima reduzida, estresse, depressão e experiências de vida negativas.

2.2  ESQUIZOFRENIA E SAÚDE BUCAL

O tratamento baseia-se principalmente no uso de antipsicóticos, voltados ao controle dos sintomas positivos e à prevenção de recaídas. No entanto, a eficácia varia entre os pacientes, e os efeitos colaterais podem dificultar a adesão ao tratamento (Fernandez et al., 2024).

É importante destacar que a saúde bucal de pessoas com esquizofrenia tende a ser prejudicada devido à dificuldade em realizar atividades cotidianas e à limitação no autocuidado, incluindo a redução da percepção sobre seus próprios problemas orais (Brasil et al., 2021).

Segundo Ulisses et al. (2020), indivíduos com transtornos mentais apresentam maior suscetibilidade a fatores que comprometem a qualidade de vida, como sedentarismo, alimentação inadequada, instabilidade emocional e os efeitos colaterais do uso de medicamentos psicotrópicos. Além disso, alterações na coordenação motora dificultam a higienização bucal adequada, favorecendo o aparecimento de cáries, lesões de mucosa, doenças periodontais e distúrbios de oclusão, ocorrências mais frequentes nesse grupo.

O acesso restrito aos serviços de saúde agrava as condições bucais de pacientes com esquizofrenia, tornando essencial o fortalecimento das políticas públicas e a inclusão da atenção odontológica no cuidado em saúde mental. A avaliação contínua da saúde bucal é importante, pois alterações estão associadas a fatores como má higiene, dificuldades psicomotoras, uso de psicotrópicos e barreiras no acesso ao atendimento. Para um tratamento odontológico eficaz, é necessário adaptar a abordagem clínica às necessidades do paciente, com consultas breves, postura adequada na cadeira e, se necessário, apoio de acompanhantes para estabilização dos movimentos (Brasil et al., 2021; Ulisses et al., 2020).

2.3 IMPACTO DA REABILITAÇÃO ORAL COM PRÓTESE TOTAL NA QUALIDADE DE VIDA DO PACIENTE EDÊNTULO

A American Dental Education Association define a prótese como a ciência e a arte de substituir adequadamente a porção coronária de dentes ou elementos dentários ausentes, juntamente com suas estruturas associadas, com o objetivo de restaurar as funções mastigatórias, a estética, o conforto e a saúde geral do paciente. As próteses dentárias podem ser classificadas em diversas categorias, como: unitária, parcial fixa, parcial removível, total (dentaduras completas), ortodôntica, bucomaxilofacial e sobre implantes (Montaldi et al., 2024).

De acordo com os princípios da prótese dentária, a perda de um dente ou de sua coroa deve ser corrigida o quanto antes, desde o segundo molar superior até o segundo molar inferior, pois a ausência não tratada de um único elemento pode causar o deslocamento dentário, formação de espaços interdentais, impactação alimentar e surgimento de bolsas periodontais, além de comprometer o alinhamento dos arcos dentários (Xavier; Carneiro, 2024).

A ausência de dentes também afeta a articulação de sons, impactando negativamente a clareza da fala. A prótese total contribui para a restauração da fonética, auxiliando na produção de sons que dependem do contato entre a língua e os dentes. No entanto, o sucesso na recuperação da função fonética está diretamente relacionado à adaptação do paciente à prótese e à precisão do seu ajuste (Santos; Lopes; Fernandes, 2019).

Outro aspecto funcional importante é a deglutição. A perda dos dentes pode dificultar a formação do bolo alimentar e sua condução adequada. A prótese total auxilia na restauração dessa função, mas a adaptação à prótese e a reeducação dos músculos envolvidos são essenciais para o sucesso do processo (Santos; Lopes; Fernandes, 2019).

Segundo Moura (2023), pacientes reabilitados com prótese dentária total apresentam maior qualidade de vida, isso porque a reabilitação oral promove a restauração das funções mastigatória e fonética, melhora a estética facial e contribui positivamente para a autoestima e o convívio social. Além disso, a sensação de bem- estar proporcionada pela prótese adequada favorece a adesão aos cuidados com a saúde bucal e geral, refletindo diretamente na saúde física e mental desses indivíduos.

3  RELATO DE CASO

Na Clínica Integrada da Faculdade Sulamérica, localizada na cidade de Luís Eduardo Magalhães, foi atendida uma paciente do sexo feminino, com 54 anos de idade, diagnosticada com transtorno esquizofrênico e periodontite avançada. Apresentava dentição severamente comprometida, com múltiplos elementos dentários com mobilidade, inflamação gengival intensa, reabsorção óssea generalizada e perda de inserção periodontal, conforme observado na Figura 1. Diante desse quadro, indicou-se a realização de exodontias múltiplas, seguida de reabilitação oral com prótese total.

Figura 1 – Periodontite estágio IV, grau B

Fonte: CODI, 2025.

Inicialmente, realizou-se avaliação clínica e análise do prontuário médico e odontológico, com autorização formal do responsável legal para a realização do tratamento e participação na pesquisa. Todas as etapas foram conduzidas com acompanhamento cuidadoso, respeitando os limites emocionais e cognitivos da paciente. A comunicação foi adaptada de forma simples e acessível, com apoio de recursos visuais e da equipe multidisciplinar, incluindo o psiquiatra e o apoio psicossocial.

O plano de tratamento foi estabelecido em conjunto com a equipe psiquiátrica, assegurando a estabilidade clínica da paciente antes das intervenções odontológicas. A participação dos cuidadores, especialmente os filhos, foi fundamental para o reforço das orientações e acompanhamento da evolução pós-operatória.

As exodontias foram realizadas em quatro seções distintas, divididas por quadrantes, com o objetivo de reduzir o estresse físico e emocional e facilitar a adesão ao tratamento. Todos os procedimentos seguiram protocolos de biossegurança, com controle rigoroso da dor e acompanhamento pós-operatório adequado.

Concluída a fase cirúrgica e após a cicatrização dos alvéolos, iniciou-se a etapa protética, composta por moldagem anatômica e funcional, registro de mordida em plano de cera e prova de dentes, culminando na instalação das próteses totais superior e inferior. Durante o processo, observou-se evolução significativa no comportamento e na aceitação da paciente, com melhora na interação, autoestima, fala e função mastigatória.

A adaptação às próteses foi satisfatória, sem queixas relevantes, e a paciente demonstrou crescente autonomia no uso e higienização dos dispositivos. Retornou pontualmente às consultas, evidenciando boa adesão ao tratamento.

Figura 2 – Resultado da Prótese

Fonte: Arquivo pessoal, 2025

A atuação integrada e humanizada da equipe foi decisiva para o sucesso do caso clínico, promovendo acolhimento, segurança e qualidade de vida. Os registros clínicos e observações diretas confirmam os benefícios obtidos com a reabilitação oral, tanto no aspecto funcional quanto no psicológico e social.

4  DISCUSSÃO 

O presente estudo de caso evidenciou a complexidade do manejo odontológico em paciente com transtorno esquizofrênico e periodontite avançada, reafirmando a importância da atuação integrada e humanizada da equipe multidisciplinar para o sucesso do tratamento. A literatura destaca que a periodontite é uma doença inflamatória crônica com impacto significativo na saúde geral, principalmente em populações vulneráveis, como pacientes com transtornos mentais (Lima et al., 2022; Pontes et al., 2025).

De acordo com Ulisses et al. (2020), indivíduos com transtornos mentais apresentam maior suscetibilidade a fatores que comprometem a qualidade de vida, como sedentarismo, alimentação inadequada, instabilidade emocional e os efeitos colaterais do uso de medicamentos psicotrópicos. Além disso, alterações na coordenação motora dificultam a higienização bucal adequada, favorecendo o aparecimento de cáries, lesões de mucosa, doenças periodontais e distúrbios de oclusão, ocorrências mais frequentes nesse grupo. 

No caso apresentado no presente estudo, a paciente com quadro clínico de esquizofrenia e periodontite avançada demonstrou as dificuldades típicas descritas na literatura, como a severa inflamação gengival, mobilidade dentária e extensa reabsorção óssea, condições agravadas pela limitação no autocuidado e pela adesão reduzida às práticas de higiene bucal, conforme apontado por Ulisses et al. (2020). Portanto, foi necessária a adaptação da comunicação e do atendimento clínico conforme recomendado por Brasil et al. (2021), para garantir o sucesso terapêutico e a minimização do sofrimento. 

O quadro clínico bucal da paciente revelou uma periodontite severa, caracterizada por múltiplos elementos dentários comprometidos e reabsorção óssea generalizada, condiz com os estágios avançados da doença, os quais demandam intervenções radicais, como exodontias múltiplas e reabilitação protética (Picone et al., 2024). 

A escolha do tratamento foi a prótese total devido a necessidade funcional, como também pelo potencial benefício para a autoestima e qualidade de vida da paciente. Segundo Moura (2023), pacientes reabilitados com prótese dentária total apresentam maior qualidade de vida, isso porque a reabilitação oral promove a restauração das funções mastigatória e fonética, melhora a estética facial e contribui positivamente para a autoestima e o convívio social. Além disso, a sensação de bem-estar proporcionada pela prótese adequada favorece a adesão aos cuidados com a saúde bucal e geral, refletindo diretamente na saúde física e mental desses indivíduos.

A escolha do tratamento com prótese total deveu-se não apenas à necessidade funcional, mas também ao potencial benefício psicossocial. Conforme destaca Moura (2023), esse tipo de reabilitação promove restauração das funções mastigatória e fonética, melhora a estética facial, favorece a autoestima e contribui para o bem-estar geral do paciente, refletindo positivamente na saúde física e mental.

A divisão das exodontias em sessões quadrantes, associada ao controle rigoroso da dor e ao monitoramento pós-operatório, mostrou-se eficaz para minimizar o estresse físico e emocional da paciente, uma prática alinhada com protocolos para o atendimento de pacientes psiquiátricos em odontologia (Fernandez et al., 2024).

Os resultados positivos observados na reabilitação oral incluíram a melhora considerável da mastigação, fala, autoestima e interação social, o que corroboram com os benefícios amplamente reconhecidos da prótese total em pacientes com necessidades especiais (Moura, 2023; Xavier; Carneiro, 2024). Ademais, a adesão da paciente ao tratamento e a autonomia no uso e higienização das próteses indicam que, mesmo em casos complexos, a abordagem humanizada e o suporte contínuo podem promover resultados satisfatórios.

Do exposto, a experiência clínica relatada também destaca a relevância do trabalho interdisciplinar para o manejo de pacientes com condições clínicas e psiquiátricas concomitantes, favorecendo uma melhor qualidade de vida e inclusão social.

5  CONCLUSÃO

O presente estudo de caso evidenciou que o manejo odontológico de pacientes com transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia, e comprometimento periodontal avançado, demanda uma abordagem multidisciplinar, sensível e humanizada. A associação entre saúde mental e saúde bucal se mostrou evidente, demonstrando que as limitações no autocuidado, comuns em pacientes com esquizofrenia, agravam o quadro clínico bucal e dificultam a adesão ao tratamento convencional.

A realização de exodontias múltiplas, conduzida de forma gradual e cuidadosa, seguida da reabilitação com prótese total, representou uma estratégia eficaz para restaurar a função mastigatória e fonética, bem como aspectos estéticos e psicossociais da paciente. Os resultados obtidos reforçam a importância da atuação conjunta entre cirurgiões-dentistas, psiquiatras, psicólogos e cuidadores, garantindo segurança, acolhimento e respeito aos limites da paciente. 

O caso relatado também evidencia a necessidade de fortalecimento das políticas públicas que promovam o acesso à atenção odontológica qualificada no contexto da saúde mental. Conclui-se, portanto, que a reabilitação oral com prótese total em pacientes com esquizofrenia e periodontite avançada contribui significativamente para a melhoria da qualidade de vida, sendo essencial que o cuidado odontológico seja planejado de forma individualizada, multidisciplinar e comprometida com o bem-estar global do paciente.

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1Discente do Curso em Odontologia da Faculdade Sulamérica – Luís Eduardo Magalhães/BA.
2Docente, Preceptora Clínica e Coordenadora do Curso de Odontologia da Faculdade Sulamérica – Luís Eduardo Magalhães/BA.