AS CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA COGNITIVA COMPORTAMENTAL NA RELAÇÃO ENTRE TRANSTORNO DE ANSIEDADE E CIÚME EXPERIENCIADOS EM CASAIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602091340


Frederico Magalhães Ferreira1


RESUMO 

O presente artigo tem como finalidade investigar, por meio de revisão bibliográfica,  a possibilidade da relação causal entre o ciúmes experienciado por casais com  algum tipo de transtorno de ansiedade, bem como estabelecer como se opera essa relação, buscando verificar quais fatores contribuem para o aumento da ansiedade  em uma situação de ciúmes em relações experienciadas por casais, descrevendo a  relação entre ansiedade e ciúme em casais e identificando as contribuições da teoria  cognitivo comportamental no tratamento da ansiedade com reflexos no controle do  ciúme. Trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica, descritiva, de caráter  qualitativo. E tem como objetivo investigar a possibilidade de relação causal entre o  ciúme experienciado por casais com algum tipo de transtorno de ansiedade. Ambas  as realidades são permeadas por inseguranças e incertezas que se esgueiram por  todas as lacunas abertas na percepção, trazendo à tona antigos temores, tornando o indivíduo refém dos mesmos. O artigo traz a ansiedade e o ciúmes, como ponte de análise para identificar a relação causal. E, por fim, é apresentada uma síntese  dos pontos em comum, trazendo as principais relações identificadas na análise dos  dados coletados durante a pesquisa. O ciúme, a premonição do fim ilusório de uma  conexão ameaçada por outrem, por si, já basta para fazer do indivíduo refém de seus temores primitivos em relação a pessoa amada. A relação com terceiros, já é  algo experienciado desde o começo da vida, partindo do seio materno até o  desenvolvimento de relações interpessoais, o desejo de reestabelecer uma  simbiose novamente é maior e mais intrínseco que se imagina, ameaçar desfazer  esse laço, na menor das ameaças já é o suficiente para acionar os mais hostis  mecanismos de defesa. 

Palavras-chave: Ciúmes. Transtorno de ansiedade. Estresse. Feminicídio. 

ABSTRACT 

The purpose of this article is to investigate, through a bibliographical review, the  possibility of a causal relationship between jealousy experienced by couples with some type of anxiety disorder, as well as to establish how this relationship operates,  seeking to verify which factors contribute to the increase of anxiety in a situation of  jealousy in relationships experienced by couples, describing the relationship between anxiety and jealousy in couples and identifying the contributions of cognitive  behavioral theory in the treatment of anxiety with effects on the control of jealousy.  This is a descriptive, qualitative literature review research. And it aims to investigate  the possibility of a causal relationship between jealousy experienced by couples with  some type of anxiety disorder. Both realities are permeated by insecurities and  uncertainties that sneak through every gap in perception, bringing old fears to the  surface, making the individual a hostage to them. The article brings anxiety and  jealousy as a bridge of analysis to identify the causal relationship. And finally, a  synthesis of the common points is presented, bringing out the main relationships  identified in the analysis of the data collected during the research. Jealousy, the  premonition of the illusory end of a connection threatened by another, is enough in  itself to make the individual a hostage of their primitive fears in relation to the loved  one. The relationship with third parties is already something experienced from the  beginning of life, starting from the mother’s breast to the development of interpersonal relationships, the desire to re-establish a symbiosis again is greater and more intrinsic than one imagines, threatening to undo this bond, in the slightest of circumstances. Threats are enough to trigger the most hostile defense mechanisms.

Keywords: Jealousy. Anxiety disorder. Stress. Femicide. 

1. INTRODUÇÃO 

A união conjugal e suas diretrizes sofreram e ainda sofrem alterações  constantes, desde sua forma de consumação, até a moral dentro e fora do mesmo  diante do contexto social em que se instaura. É notória as diferenças dos costumes e da visão do elo afetivo entre os indivíduos de décadas atrás, se comparadas aos  dias de hoje, e isso se deve a muitos fatores sociais, dentre outros eventos históricos que causaram transformações nos pilares da sociedade tradicional. 

Seria interessante visitar os vários contextos, culturas e mudanças sofridas  neste elemento social tão primordial, que é uma fonte inesgotável de emoções.  Certamente seria muito bom entender como é possível que algo resista tanto ao tempo,  a não ser que pareça ser um aspecto inerente ao ser humano, sem o qual o conceito  de união entre pares da mesma espécie parece não ser cabível. O ser humano não  nasceu para a solidão, tanto que o isolamento intenso geralmente é associado a  alguma patologia. 

Neste contexto, a ansiedade como patologia de caráter primária, embora  raramente desacompanhada, detentora de inúmeras outras variações, genericamente falando, pode ser caracterizada por um medo excessivo e  desproporcional, episódico, mas que pode vir a ser crônico em alguns casos. De uma forma geral, uma crise pode vir a se iniciar diante de elementos, ambientes,  contingências, sensações, sentimentos e etc., que anteriormente tenham sido  danosos ao indivíduo, de modo que este entre no modo de ação que lhe confira uma  defesa, ou a ilusão desta, a fim de não ser acometido novamente, contraditoriamente já revivendo muito do processo internamente de maneira precoce. 

A descoberta é excitante, a conquista é satisfatória e a perda é um assunto  complicado. Mas, até que ponto esse medo se torna algo patológico? Até que ponto  atribuímos às turbulências da desconfiança conjugal ao mero ciúme, uma paixão  desmedida e acalorada que foge a razão e retalia qualquer ameaça, real ou  imaginária, sem considerar a ansiedade como principal argamassa capaz de  solidificar uma enorme fortaleza para aprisionar a razão. 

Leve em conta o quão perigoso é a onipresença de um elemento social  vigente e resistente ao tempo, mas que detém uma natureza confusa e que diante de determinados fatores pode levar ao feminicídio. Se a um construto, um aspecto  psicológico, que pode levar a conceber uma explicação, nem que seja uma  aproximação do mesmo, pode ser que possíveis tratamentos sejam eficazes nessas  situações. Será esse o objeto da pesquisa, à luz da terapia cognitivo  comportamental, seus conceitos e práticas clínicas, buscando entender e auxiliar  pessoas acometidas de ciúme e ansiedade no bojo de relações, não sem antes  trazermos algumas considerações a esses dois processos psicológicos. 

2. METODOLOGIA 

Essa pesquisa compreende um estudo por meio da revisão bibliográfica,  utilizando como fonte artigos listados pela base de dados Scientific Electronic Library Online – Scielo e livros específicos sobre ciúmes e relações afetivas, no intuito de  descrever a relação causal entre o ciúmes experienciado por casais com algum tipo  de transtorno de ansiedade, partindo-se do método qualitativo para coleta de dados e qual a contribuição que a terapia cognitiva comportamental pode trazer no  tratamento da ansiedade com reflexos no controle do ciúme. 

Visa assim, estabelecer um paralelo entre alterações emocionais, principalmente o transtorno de ansiedade e suas variáveis em relação aos ciúmes  entre casais. 

A pesquisa se direcionou ao aspecto descritivo, recolhendo informações  específicas e mais detalhadas possível, como critérios de inclusão nesta pesquisa  a busca de artigos que considerassem a descrição “ciúmes, “transtorno de  ansiedade” “relacionamentos afetivos” “terapia cognitivo comportamental” para um  melhor apuramento dos dados coletados, a fim de otimizar o direcionamento do  grupo em prol de uma maior coesão do projeto. 

Foi utilizado o método qualitativo durante a pesquisa do material base,  buscando aspectos da realidade que não podem ser quantificados, mas que são  centrados na compreensão e na explicação da dinâmica entre ansiedade e ciúmes  nas relações entre casais, suas consequências e possível tratamento. Não nos  atemos a respeito do ano de publicação, mas sempre priorizando pelo máximo de  dados atualizados disponíveis. 

3. REFERENCIAL TEÓRICO 

O referencial teórico deste trabalho, tem como embasamento principal a teoria cognitiva comportamental,que é uma abordagem terapêutica que se baseia  em compreender como os pensamentos influenciam os comportamentos e emoções  dos indivíduos, com o objetivo de identificar e modificar os padrões de pensamentos  negativos e distorcidos, bem como as crenças que contribuem para o sofrimento  emocional. É uma abordagem muito utilizada em tratamentos de ansiedade e  ciúmes, motivo pelo qual ampara o presente estudo. 

3.1 A teoria cognitivo comportamental aplicada a ansiedade e aos ciúmes 

Ao direcionar os tratamentos de ansiedade e ciúmes, a terapia cognitivo  comportamental enfatiza a importância de identificar os pensamentos negativos que  permeiam o indivíduo que sofre de ansiedade e ciúmes excessivos a fim de melhorar  a si mesmo e sua relação com os demais indivíduos, o que promove um pensamento  mais saudável. Também existe técnicas utilizadas para gerenciar as emoções como  a reestruturação cognitiva a fim de identificar e modificar os pensamentos distorcidos, a técnica de exposição com o objetivo de expor a situações que geram  a ansiedade e os ciúmes aprendendo a lidar com os mesmos de forma saudável e  a técnica do relaxamento e respiração que contribui para controlar o estresse e a  ansiedade através de exercícios de relaxamento e respiração. 

Na terapia cognitivo comportamental, o psicólogo irá coletar dados sobre a  história do paciente, questões atuais, as situações gatilho, crenças intermediárias e  centrais e estratégias compensatórias que têm mantido essas crenças. Assim,  ajudará o cliente a identificar e contestar os pensamentos e as crenças centrais que  são ativadas quando está com ciúmes, bem como sinalizar a ele a forma com que  ele foca naquilo que confirma as suas crenças (viés confirmatório). 

Conforme Pinto (2013), o primeiro passo do tratamento é compreendido pelo  paciente admitir o problema e, se já não estiver em terapia, procurar ajuda. É  necessário admitir para si que necessita de ajuda. O objetivo principal do tratamento  psicológico não está focado na eliminação de sentimentos, mas no equilíbrio deles  e na administração dos excessos emocionais, controlando sua força e sua duração  e conduzindo as pessoas a lidar com emoções e sentimentos proporcionais às  circunstâncias, ou seja, validar os sentimentos do paciente para que ele perceba que não tem problema sentir ciúmes, mas que ele pode aprender a ter  comportamentos menos extremos. 

Auxilia-se o indivíduo a construir a sua motivação para a mudança, listando  vantagens e desvantagens dos ciúmes. O terapeuta ajuda o cliente a avaliar também se os ciúmes são produtivos ou improdutivos. Quando os ciúmes levam a  alguma ação específica ele pode ser útil, porém, apenas quando faz a pessoa  ruminar sobre aquilo que não está no seu controle, torna-se improdutivo. 

Um ponto importante a ser avaliado é a autoestima do paciente, considerando  que quando esta se encontra rebaixada, as dificuldades para tomada de decisões  aumentam tanto quanto diminuem a criatividade e as iniciativas frente aos  problemas, tornando-as apáticas e sem autoconfiança. Deve-se, então, reforçar a  autoestima e valorizar a autoimagem da pessoa ciumenta, melhorando sua confiança diante de si e dos outros. Esse procedimento deve envolver a família e  amigos, já que a existência de apoio emocional é imprescindível (PINTO, 2013). Outro passo que consiste em ajudar o paciente a desenvolver uma postura de consciência diante da situação, dessa forma, ele irá se conectar com o presente  e observará sem julgamentos, suas reações internas, isto colabora para que ele não haja de forma impulsiva e, assim, tenha respostas com base na realidade. Assim, o tratamento mais indicado e eficaz para casos de ciúme patológicos é a TCC, trabalhando com foco nos pensamentos e comportamentos que  acompanham o ciúme patológico. É preciso entender o próprio funcionamento para  buscar sempre reconhecer suas emoções e questioná-las quando estas surgirem  frente a determinadas situações geradoras de ciúmes. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Visto a contextualização da temática aqui abordada, far-se-á a análise  bibliográfica da possibilidade de relação causal entre o ciúme experienciado por  casais com algum tipo de transtorno de ansiedade. Os próximos subtópicos trazem a  ansiedade e o ciúmes, como ponte de análise para identificar a relação causal. 

E, por fim, é apresentada uma síntese dos pontos em comum, trazendo as  principais relações identificadas na análise dos dados coletados durante a pesquisa. 

4.1 A predominância da ansiedade nos contextos de ciúmes 

Dentro do contexto evolucionário, a ansiedade, a inquietação mediante a um  estímulo aversivo ao organismo, merece seu mérito com relação à evolução da  espécie. A capitação de estímulos, o processamento e por fim seu armazenamento  na rede neural trouxe aos nossos ancestrais a capacidade de aprender com os  próprios erros, bem como a presenciar e aprender com outros ao seu redor, a  identificar ameaças, fugir e se esquivar das mesmas. 

Não obstante, a sociedade evoluiu, e com ela, seus mecanismos de defesa,  articulados aos novos desafios apresentados a cada etapa do progresso da  sociedade. Nomes diferentes, situações novas, mas sempre os mesmos constructos. Em um nível mais intrínseco, eventos estressores são, entre muitos  aspectos, um dos fatores que desencadeiam e prolongam sintomas que vem a  desencadear sintomas ansiosos. O termo estresse denota o estado gerado pela  percepção de estímulos que provocam excitação emocional e, ao perturbar a  homeostasia, disparam um processo de adaptação caracterizado, entre outras  alterações, pelo aumento de secreção de adrenalina produzindo diversas  manifestações sistêmicas, com distúrbios fisiológico e psicológico. O termo estressor por sua vez define o evento ou estímulo que provoca ou conduz ao  estresse. 

Aos moldes da modernidade, o homem sai para “caçar” seu sustento, a  mulher zela e cuida da “toca” e das “crias”, isso claro se levar apenas a modelação  padronizada da sociedade europeia e seus satélites culturais, mas fato é que a  sociedade caminhou longos passos rumo ao desenvolvimento, mas em termos  antropológicos, permanece ainda tentando mascarar verdades inerentes que  sobreviveram a civilidade. 

A ansiedade, como já supracitada, é um conjunto de fatores que colocam o  indivíduo em uma posição de alerta premonitório para algo que o aflige, possuindo  para tal inúmeras variações para com sua natureza. É compreensível uma reação  aversiva mediante a algo indesejado, o salto para patologia ocorre quando o ser  acometido tem reações exageradas e desmedidas para com o estimulo, de modo a  prejudicar sua autonomia e capacidade de discernimento do que venha a ser real  ou imaginário. 

A ansiedade e o medo passam a ser reconhecidos como patológicos quando  são exagerados, desproporcionais em relação ao estímulo, ou qualitativamente  diversos do que se observa como norma naquela faixa etária e interferem com a  qualidade de vida, o conforto emocional ou o desempenho diário do indivíduo. Tais  reações exageradas ao estímulo ansiogênico se desenvolvem, mais comumente, em indivíduos com uma predisposição neurobiológica herdada. 

No cerne de variações da patologia, são destacadas algumas como o  transtorno de estresse pós-traumático, que carrega em si muitos dos aspectos mais  associados a presença massiva da esquiva diante de eventos estressores: 

De acordo com a revisão de texto do DSM-IV (DSM-IV-TR; APA, 2002), o TEPT caracteriza-se por um conjunto de sintomas que se manifesta após a exposição a um evento estressor traumático, incluindo revivência persistente, embotamento relacionado à responsividade geral, esquiva e excitabilidade aumentada. Os sintomas de revivência mais típicos do TEPT manifestam-se na forma de recordações ou pesadelos, que tendem a ser cenas ou aspectos relacionados à experiência traumática (APA, 2002,pág.3). 

O medo da experiência ser repetida acaba por dar forma a contramedidas  para a auto preservação que podem vir a resultar em atitudes mais miraculosas a fim de que este se veja seguro, não importa o que aconteça. O paciente evita falar sobre o que aconteceu, pois isso lhe é muito doloroso, e essa atitude parece perpetuar os sintomas como em geral acontece com todos os transtornos ansiosos. Para o indivíduo, toda e qualquer medida é aceita desde que não se veja  novamente diante do cerne de sua patologia, a depender da natureza deste, reações  violentas e mais diretas podem vir a ser uma realidade quase constante, mesmo em  casos em que não haja a sinal de uma possível manifestação do seu algoz. 

Na situação de estresse crônico, ou seja, durante o estado contínuo de ativação em que o indivíduo percebe as demandas do ambiente como sendo superiores aos recursos internos e externos disponíveis, o organismo precisa estar constantemente pronto para a situação de perigo na qual foi ou continua sendo submetido (Gerrig  & Zimbardo, 2005; McEwen & Lashley, 2004, pág.2). 

Mediante o desenvolvimento, muitos aspectos da ansiedade se manifestam  ainda na infância, através de pequenos sinais que a olhos desatentos podem vir a  ser encarados como meros momentos de birra ou mesmo aspectos mais inerentes  à fase em que se encontram. 

Ansiedade e suas inúmeras variações, tais como o transtorno de ansiedade de separação, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de estresse pós traumático, ou mesmo fobias mais específicas podem se originar de maneiras  variadas no decorrer da infância e se transmutam na vida adulta a ponto de  fazerem considerável estrago em sua vida pessoal e profissional. 

Os transtornos ansiosos são os quadros psiquiátricos mais comuns tanto em  crianças quanto em adultos, com uma prevalência estimada durante o período de  vida de 9% e 15% respectivamente. 

Ainda em anos iniciais, é recorrente os casos em que são relatados de evasão escolar ou mesmo de maneira menos acentuada, seu baixo desenvolvimento escolar. Em crianças, o desenvolvimento emocional influi sobre as  causas e a maneira como se manifestam os medos e as preocupações tanto normais quanto patológicos. Diferentemente dos adultos, crianças podem não  reconhecer seus medos como exagerados ou irracionais, especialmente as menores. 

A exemplo do transtorno de estresse pós-traumático, alguns eventos  estressores como definido por Han Selye em 1930, são danosos à saúde física do  indivíduo. Ao se defrontar com um evento estressor, o organismo tende a ter uma  resposta de estresse que pode ser aguda e momentânea ou pode ser crônica  (McEwen & Lashley, 2004). 

Comumente, acometidos por esse frequente estado de paranoia, acabam por desenvolver uma barreira de defesa, para aquilo que julgam ser nocivo ou que  remata ao evento estressor. 

No TEPT, especificamente, o indivíduo tem uma sensação presente de  ameaça (Ehlers & Clark, 2000), ficando em alerta constante. Dessa maneira, o  organismo permanece num estado crônico de estresse, ativando um padrão de  respostas para lidar com estímulos no ambiente interpretados como ameaçadores  (Yehuda & LeDoux, 2007). 

Em suma, um indivíduo acometido por eventos que coloquem em xeque seus  recursos internos mediante a situações externas, sejam elas relativas a suas ações  ou não, este pode vir a sofrer momentaneamente efeitos em diversos níveis. A  ansiedade, e seus efeitos posteriores vem quando, ainda sentindo os efeitos destes  eventos catastróficos, este vem a mudar aspectos comportamentais de modo a  trazer consequências danosas para si e a outros ao seu redor. 

4.2 Ciúmes como fonte de eventos desencadeadores da ansiedade 

Entre as mais diversas emoções humanas, o ciúme pode ser considerado  como algo bom ou ruim, a depender de sua ocorrência. Em se tratando do ciúme  romântico podemos considerá-lo como algo saudável até certo ponto, uma vez que,  sendo uma manifestação de preocupação e cuidado com a pessoa amada em níveis  normais, torna-se algo satisfatório. Mas, quando se torna exagerado, expressando  situações de constrangimento, medo, impulsividade, controle sobre o outro e  agressividade isso se torna preocupante podendo torna-se algo patológico, a ponto  de chegar a violência como a agressão física. Fato que ocorre em diversas relações  entre casais, podendo ocorrer até morte, neste caso trataremos em falar sobre o  feminicídio. 

De acordo com Centeville e De Almeida (2007), o ciúme patológico pode  causar inúmeros transtornos no relacionamento amoroso, podendo prejudicar  inclusive, outros âmbitos da vida de uma pessoa, como o social, o profissional, o  familiar e o íntimo, provocando, por vezes, sérios conflitos. Diante desses conflitos,  os comportamentos apresentados pelo ciumento, são comportamentos ansiosos que podem levar a exposição do seu parceiro inclusive a presenciar cenas vexatórias em público. A ansiedade e o ciúme estão frequentemente interligados,  pessoas com transtornos de ansiedade estão mais propensas a experimentar níveis elevados de ciúmes devido à intensa preocupação com a possibilidade de perder o  parceiro. Por outro lado, o ciúme excessivo também pode desencadear sintomas de  ansiedade, como palpitações e pensamentos obsessivos. 

Eis aqui o algoz que se disfarça de benevolente indispensável nas estruturas  afetivas, mas comumente associados aos mais diferentes tipos de amor, sobretudo  Eros, o que o torna mais suscetível a caminhar lado a lado com Tanatos. Na obra  shakespeariana, foi o responsável por dar fim a muitos personagens pela influência  indireta, quando não era direta, pelos mesmo a que alegavam ser a razão de sua  existência. 

Entre todos os tipos de ciúmes citados na literatura científica, o ciúme  romântico, isto é, aquele que ocorre em relacionamentos amorosos, é um dos que  tem despertado maior atenção de psicólogos e leigos. Segundo alguns teóricos, ele  seria inerente, isto é, constitutivo da natureza humana, de modo que todos nós  seríamos ciumentos em maior ou em menor grau. Ele pode ocorrer em quaisquer tipos de relacionamentos, mas está comumente associado aos relacionamentos  amorosos (Bringle, 1995). 

O ciúme romântico se configura como um conjunto de emoções  desencadeadas por sentimentos de alguma ameaça à estabilidade ou qualidade de  um relacionamento íntimo valorizado. 

O ciúme foi cadafalso de inúmeras relações amorosas, assustadoramente  respaldado pela moral e pelos costumes por inumeráveis décadas e sociedades,  carregadas de valores embasados no poder do homem sobre a criação e do seu  direito de posse, isso claro, inclui aquele a quem denominava esposa. 

Chamar ou classificar costumes como estruturalmente machistas já deixou  de ser novidade. A influência do patriarcado na sociedade, a passos  morosos parece ter seus aspectos avaliados sobre uma ótica mais racional ao ponto  de ter seu poderio parcamente subjugado, suficiente para ser questionada e  confrontada mais enfaticamente, de modo que o que antes seria aplaudido ou  minimamente aceito pela sociedade, hoje enfrenta represálias… ao menos em  alguns casos. 

Em sociedades caracterizadas pela chamada “cultura da honra”, como a brasileira, a violência doméstica contra mulheres é aceita, de maneira implícita, de acordo com os resultados apontados por  uma pesquisa realizada por Vandello e Cohen (2003), pág 7.

A insegurança, o medo da perda do parceiro para um potencial rival trazem  para o enciumado a forte sensação e impotência para si mesmo, dentre outras  sensações que venha a trazer reprimendas violentas para consigo mesmo e seu  cônjuge. O homem já alimentado com a natureza posse e domínio, em defesa de sua “honra” vem a tomar atitudes em prol do “relacionamento”, atitudes violentas  para com o suposto rival, ou não tão improvável de acontecer, parte em retaliação da parceira. 

Em um ato de insegurança, o controle e a possessividade para com o parceiro passam a ser um constante na luta, real ou imaginária, contra o rival que o  ameaça. Dentro das tentativas de dominação é possível enquadrar as mais diversas  formas de violência, sejam elas mais sutis ou até mesmo diretas. Analisando de uma  forma mais longitudinal, as violências físicas em muitos dos casos veem a ser  apenas o fim de uma via sacra longa e arrastada. 

O tema ciúme mostra-se de grande importância enquanto área de estudo, já  que diferentes estudos o colocam como fator de motivação em casos de homicídios, violência doméstica e outros contextos de agressão física e verbal. Ultimamente,  muito dos conflitos e da violência entre homens e mulheres no âmbito dos  relacionamentos amorosos têm crescido derivados do ciúme e estão relacionados  com a questão da infidelidade. 

Alguns casos podem vir a ser previsíveis, dado o histórico de violência que  acompanham alguns homens, nesses cenários a agressão é quase certa e pode vir  em primeiro plano com uma pequena fagulha. Por outro lado, indivíduos sem essa  alcunha podem vir a surpreender dada tamanha sutileza de seus atos que precedem  a agressão física; de maneira a parecerem preocupados, apaixonados, fofos,  simples cavalheiros com desejos nobres reforçados por boas intenções. 

A violência pode começar no simples ato de questionar, ou mesmo parecer sugerir mudanças, sejam fotos em redes sociais, uma mudança sutil de roupas, e etc; próximo a isso, vem os pedidos para mudanças de hábito, rotina, como parar  de frequentar certos lugares, ou impedir, através de ameaças, chantagens  emocionais que pare de ver certas pessoas, tudo acompanhado e fiscalizado com lentes de aumento que a todo momento fazem com que cada pequeno elemento que fuja a tabela normativa seja visto como uma explosão nuclear. Ao  que parece um ataque à sua honra e sua integridade, o enciumado se sente no direito de retaliar brutalmente.

A violência doméstica, no caso física, quando não perdurar, ao ponto de  virar parte da realidade dos envolvidos, e até mesmo sendo conhecida por pessoas  de fora da família que ainda se baseiam na ideia “em briga de marido e mulher não  se mete a colher”, torna-se coniventes com a agressão, pode ocorrer apenas uma  vez derradeira e fatal que culmine na morte de um dos parceiros. 

4.3 Relação entre ansiedade e ciúme no contexto afetivo 

Tanto no ciúme como na ansiedade predominam a influência característica  marcada daquilo que vem a ser classificado dentro da teoria comportamental como  distorção cognitiva. 

Em um resumo didático, a distorção cognitiva se origina de experiências  anteriores, que de algum modo vieram a crivar-se na base interpretativa do indivíduo,  como uma pedra presa a um filtro de água, de modo que à medida que sua corrente  segue o fluxo, esta sofre as influências da pedra. 

Assim como no dilema de Ouroboros, a ansiedade e o ciúme parecem percorrer um ciclo infinito de alta perseguição, ao qual torna-se confuso rastrear sua  origem e seu destino… ou quase. 

No livro, Ciúme excessivo e amor patológico, da autora Andrea Lorena da  Costa Stravogiannis, traz à tona aspectos que corroboram a predominância de  sintomas ansiosos primeiros em relação a eventos desencadeadores do ciúme em si, contudo, a também casos em que a ansiedade se desenrola a partir de situações  desencadeadoras de ciúmes excessivos. 

Ambas as realidades são permeadas por inseguranças e incertezas que se  esgueiram por todas as lacunas abertas na percepção, trazendo à tona antigos  temores, tornando o indivíduo refém dos mesmos. 

Sempre em alerta, quase como se acuado, inevitavelmente insatisfeito, visto  que mesmo ao ter suas incertezas confirmadas, este encontra nelas mais uma fonte  de angústia e fortalecimento de suas crenças, e mesmo diante de uma negativa de seus pesares, não cessa a procurar por mais pistas e mais indícios de suas  pseudocertezas.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Ansiedade como um todo é de caráter inerente a qualquer evento  desconhecido com potencial destrutivo ao indivíduo, seja ele físico, mental ou  emocional. A realidade nesses casos é negligenciada em prol de uma fantasia  mordaz, o que não necessariamente significa estar alheio aos fatos, muitas vezes as informações são claras, mas as lacunas, por mais diminutas que pareçam,  acabam por comportarem muitos temores e anseios. 

Em um exemplo específico do contexto acima, a ideação de um  relacionamento visa a satisfação de desejos e anseios que o indivíduo não se  encontra no poder de satisfação por si só, firmando-se assim um contrato, verbal  e/ou escrito, que visa a confiança, a lealdade, e exclusividade no que diz respeito a  muitos comportamentos e hábitos outrora não “patenteados” pelo parceiro. Algo até  simples de conceber em nossa realidade, contudo, depositar seus desejos e afetos  em outrem e confiar a esta sua felicidade é um passo arriscado, especialmente se  levar em conta que tudo depende apenas da confiança mútua. 

O ciúme, a premonição do fim ilusório de uma conexão ameaçada por outrem,  por si, já basta para fazer do indivíduo refém de seus temores primitivos em relação  a pessoa amada. A relação com terceiros, já é algo experienciado desde o começo  da vida, partindo do seio materno até o desenvolvimento de relações interpessoais, o desejo de reestabelecer uma simbiose novamente é maior e mais intrínseco do que se imagina, ameaçar desfazer esse laço, na menor das ameaças já é o suficiente  para acionar os mais hostis mecanismos de defesa. 

Não cabe aqui discutir o que deve ou não ser levado como crime, mas sim  tentar nos aproximar ao máximo daquilo que tomamos como base para dar luz a conexão  entre o ciúme e a ansiedade. De forma suscinta, ambos os elementos carregam  consigo temores que se ascendem ao menor traço de um evento anterior, ou seja, a  ansiedade carrega consigo um amplo campo de influência, enquanto que o ciúme  refere a um desses campos, no qual o medo da perda da figura amada, proveniente  da experiência de perda na castração. Tanto no ciúme como na ansiedade  predominam a influência característica marcada daquilo que vem a ser classificado  dentro da teoria comportamental como Distorção cognitiva.Sendo assim, é seguro  afirmar que um indivíduo com características ansiosas têm mais propensão a crises  de ciúme mais intensas ao menor sinal de ameaça.

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1Graduado em Psicologia pela Rede de Ensino Doctum de João Monlevade e Mestre em Administração  pela Faculdade Pedro Leopoldo