REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601031037
Adriana Aparecida dos Santos Polon
Ângela Marques Batista
RESUMO
A crise ecológica contemporânea revela-se não apenas como um fenômeno ambiental, mas como expressão de uma profunda crise ética e civilizatória. Este artigo propõe compreender a degradação ambiental como reflexo da perda de valores fundamentais, como o cuidado, a solidariedade e o respeito à vida. Fundamenta-se na perspectiva da Ecologia Integral, presente na encíclica Laudato Si’ (Papa Francisco, 2015), e no Ecossocialismo, proposto por autores como Michael Löwy, que relaciona a destruição da natureza ao modelo capitalista de exploração ilimitada. A metodologia adotada é qualitativa e bibliográfica, com base em autores como Leonardo Boff, Enrique Leff e Boaventura de Sousa Santos. Conclui-se que a superação da crise ecológica exige uma profunda conversão ética e cultural, orientada por novos valores de cuidado, justiça socioambiental e espiritualidade ecológica.
Palavras-chave: Ecologia Integral. Ecossocialismo. Ética ambiental. Crise de valores. Sustentabilidade.
1 INTRODUÇÃO
A crise ecológica que marca o século XXI ultrapassa a dimensão meramente ambiental, configurando-se como uma crise de valores e de sentido. O modo de produção e consumo contemporâneo, baseado no individualismo, no lucro e no domínio técnico sobre a natureza, expressa uma ruptura entre o ser humano e o mundo natural. Essa ruptura não se dá apenas no plano econômico, mas principalmente no plano ético, espiritual e cultural, revelando uma crise de civilização.
A Laudato Si’ (FRANCISCO, 2015), que é uma encíclica (ou carta oficial papal destinada aos fiéis), escrita pelo papa Francisco no ano 2015 e a qual fez popularizar o termo “Ecologia Integral”, afirma que “não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental”. Essa afirmação desloca o debate ecológico para o campo da moral e da espiritualidade, convidando a humanidade a uma conversão ecológica que passa pela transformação do modo de pensar, sentir e agir. Assim, compreender a crise ecológica como crise de valores é reconhecer que a sustentabilidade verdadeira só pode emergir de uma nova consciência ética, que una justiça social, cuidado com a vida e respeito pelos limites da terra.
O presente artigo tem como objetivo analisar a crise ecológica contemporânea como uma crise de valores éticos e civilizatórios, à luz dos princípios da Ecologia Integral e do Ecossocialismo. Pretende-se discutir as raízes éticas, culturais e econômicas da crise ambiental, identificar os valores propostos pela Laudato Si’ e pelo pensamento ecossocialista e refletir sobre caminhos educativos e espirituais que possam favorecer uma nova relação entre humanidade e natureza.
A relevância deste estudo reside na urgência de repensar a crise ecológica sob uma perspectiva ética e educativa, e não apenas técnica. Compreender a degradação ambiental como uma crise de valores amplia a discussão para o campo da formação humana e cidadã, propondo um novo paradigma de convivência entre humanidade e natureza.
O diálogo entre Laudato Si’, Ecossocialismo, Ética Ambiental e Educação oferece uma base teórica consistente para pensar uma ecologia com alma, capaz de unir justiça social, sustentabilidade e espiritualidade.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. A crise ecológica como crise civilizatória
A degradação ambiental, expressa em fenômenos como o aquecimento global, a perda de biodiversidade e a poluição dos ecossistemas, é resultado direto de um modelo de desenvolvimento centrado na lógica da acumulação e do consumo. Segundo Enrique Leff (2001), a crise ecológica é também uma crise da racionalidade moderna, que separou o ser humano da natureza e transformou o mundo em um mero objeto de exploração. Para o autor, é necessário superar a racionalidade econômica dominante e construir uma racionalidade ambiental, fundada em novos valores de coexistência e sustentabilidade.
Boaventura de Sousa Santos (2010) também fala que o problema ambiental não é apenas técnico, mas epistemológico e ético. A modernidade ocidental, ao impor uma visão de mundo antropocêntrica e utilitarista, promoveu o que o autor chama de epistemicídio da natureza, apagando outras formas de saber e de relação com o meio ambiente. Assim, a crise ecológica é também uma crise de conhecimento e de sensibilidade.
Ainda nesse sentido, não podemos deixar de fora da exemplificação do que Paulo Freire (2021) traz em Pedagogia do Oprimido sobre o descobrimento do Brasil, no sentido de ter sido um marco histórico de opressão, que inaugura relações coloniais baseadas em invasão cultural, onde, na relação opressor–oprimido, o opressor tende a invadir culturalmente o oprimido. Para o autor, a chegada dos colonizadores ao Brasil é citada como exemplo clássico dessa invasão, onde os povos indígenas (guardiães da natureza) não foram considerados sujeitos, mas objetos da dominação, tendo seus modos de vida, culturas e saberes inferiorizados. Além disso, impôs-se a língua, a religião, as relações de trabalho a um modelo econômico europeu.
O que Freire (2021) traz nessa ideia é que a colonização do país se configurou como um processo de expropriação (de terras, corpos e culturas), instaurando um sistema que ainda marca o Brasil: desigualdade, racismo, autoritarismo e relações verticalizadas. Eis, quando pode-se associar essa invasão e expropriação ao início da crise de valores aqui no país.
Também coadunando com a ideia de epistemicídio, Paulo Freire (2021) traz o processo de colonização brasileira como o início do “silenciamento” dos oprimidos, no que ele chama de início da pedagogia da dominação, na qual se nega ao colonizado a possibilidade de pensar, interpretar e narrar a própria realidade. Nesse sentido, é possível falar de ética quando não se é possível refletir sobre a própria realidade?
Sendo o descobrimento do Brasil um símbolo do processo de opressão que funda a sociedade brasileira, se poderia também dizer que esse processo de opressão se estendeu para a relação com a natureza e com a casa comum, sendo a atual crise ambiental uma das maiores ameaças à continuidade da vida no planeta.
No entanto, mais do que um problema técnico ou científico, trata-se de uma crise de valores: o modo como o ser humano se relaciona com a natureza reflete escolhas éticas e culturais profundamente enraizadas. Nesse sentido, a Antropologia, enquanto ciência que estuda as relações humanas e seus significados simbólicos, torna-se fundamental para compreender as origens desse desequilíbrio e apontar caminhos para uma convivência mais harmoniosa com o meio ambiente.
Desde a Revolução Industrial, consolidou-se no Ocidente uma visão de mundo baseada na ideia de que o ser humano está acima da natureza e tem o direito de explorá-la ilimitadamente. Essa mentalidade, orientada pelo consumo e pelo lucro, gera práticas que degradam ecossistemas e intensificam desigualdades sociais. O resultado é uma profunda crise ambiental, cuja raiz está em uma crise ética, pois foi perdido o senso de responsabilidade coletiva e de pertencimento ao planeta. A devastação da natureza, portanto, é também a expressão da fragilidade dos valores humanos contemporâneos.
A Antropologia oferece um olhar crítico sobre esse fenômeno ao mostrar que a separação entre “natureza” e “cultura” não é universal. Diversos povos indígenas e comunidades tradicionais, por exemplo, possuem cosmovisões integradas, nas quais o ser humano é parte da natureza, e não seu dominador. Esses modos de vida revelam alternativas possíveis à lógica predatória ocidental, baseadas no respeito, na reciprocidade e no equilíbrio. Assim, o conhecimento antropológico contribui para repensar as bases culturais que sustentam a sociedade moderna e para reconstruir valores éticos voltados à sustentabilidade.
Um estudo antropológico, nesse sentido, ajuda a desnaturalizar o modelo moderno ocidental, reconhecer outras cosmologias e formas de habitar o planeta e propor novos valores baseados em interdependência, reciprocidade e respeito ao não humano.
2.2. Ecologia Integral: uma ética do cuidado e da interconexão
Ecologia Integral é um conceito que propõe uma visão de mundo interconectada, onde não há separação entre os aspectos ambientais, sociais, culturais e econômicos.
De acordo com Teixeira (2015), o termo Ecologia foi utilizado pela primeira vez no ano de 1866, pelo biólogo e naturalista alemão Ernest Haekel, que “se apropriou de duas palavras gregas: oikos, que significa ‘casa’ e logos, que é ‘estudo’, e aplicou ao mundo natural”, sugerindo que a ecologia fosse, portanto, o estudo da casa, do local onde se vive, e que essa casa seria um todo unificado e inter-relacionado. Ainda nesse sentido, o conceito de integral seria, segundo a autora, como algo que “não sofreu diminuição ou restrição, mas que se apresenta total, completo, com todos os seus componentes e propriedades originais”.
A encíclica Laudato Si (FRANCISCO, 2015) propõe compreender a ecologia justamente a partir dessa perspectiva integral, que articula dimensões ambientais, sociais, culturais e também espirituais. Nessa visão, a crise ambiental é inseparável da crise social, e a solução exige uma conversão ética coletiva, orientada pelo cuidado com a Casa Comum.
A partir da encíclica, o Papa Francisco (2015) faz uma contundente denúncia ao que chama de “paradigma tecnocrata”, que é a mentalidade de submeter a natureza à uma lógica de dominação e lucro, afirmando que “o problema fundamental é outro e ainda mais profundo: o modo como realmente a humanidade assumiu a tecnologia e seu desenvolvimento juntamente com um paradigma homogêneo e unidimensional”, trazendo, ainda, que:
(…) na origem de muitas dificuldades do mundo actual, está principalmente a tendência, nem sempre consciente, de elaborar a metodologia e os objectivos da tecnociência segundo um paradigma de compreensão que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Os efeitos da aplicação desse modelo a toda a realidade, humana e social, constatam-se na degradação do meio ambiente, mas isto é apenas um sinal do reducionismo que afeta a vida humana e a sociedade em todas as suas dimensões (FRANCISCO, Laudato Si, 2015, nº 107, p.84).
Ética ambiental é um ramo da ética que estuda a relação moral entre os seres humanos e o meio ambiente, questionando quais responsabilidades temos em relação à natureza e às demais formas de vida. Ela propõe uma ampliação do círculo moral — que tradicionalmente inclui apenas os seres humanos — para abranger também os animais, as plantas e os ecossistemas como um todo, como explica Leonardo Boff (1999) “Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Representa uma ocupação, preocupação, responsabilização e envolvimento afetivo com o outro e com a natureza.” Nesse sentido, a ética ambiental apresenta-se como um campo que busca refletir sobre a relação entre o ser humano e a natureza, destacando a responsabilidade moral que temos diante da criação
O Papa Francisco, em sua exortação apostólica Laudate Deum (2023), retoma e aprofunda os temas tratados na encíclica Laudato Si’, chamando atenção para a urgência da crise climática e para a necessidade de uma conversão ecológica integral. Ele critica a indiferença e o negacionismo diante dos impactos ambientais causados pelo modelo econômico atual, que privilegia o lucro em detrimento da vida e do equilíbrio do planeta.
A decadência ética do poder real é disfarçada pelo marketing e pela informação falsa, mecanismos úteis nas mãos de quem tem maiores recursos para influenciar a opinião pública através deles.Com a ajuda destes mecanismos, quando se pretende iniciar um projeto com forte impacto ambiental e elevados efeitos poluidores, iludem-se os habitantes da região falando do progresso local que se poderá gerar ou das oportunidades económicas, ocupacionais e de promoção humana que isso trará para os seus filhos. Na realidade, porém, falta um verdadeiro interesse pelo futuro destas pessoas, porque não lhes é dito claramente que, na sequência de tal projeto, terão uma terra devastada, condições muito mais desfavoráveis para viver e prosperar, uma região desolada, menos habitável, sem vida e sem a alegria da convivência e da esperança, para além do dano global que acaba por prejudicar a muitos mais. (FRANCISCO, Laudate Deum, 2023, nº 29, p.07).
Nessa perspectiva, a ética se torna um instrumento fundamental para orientar nossas ações individuais e coletivas rumo a uma convivência mais justa e sustentável.
A Laudate Deum enfatiza que a crise ambiental é poliédrica, pois também é uma crise ética e espiritual. O Papa Francisco alerta que as soluções exigem uma mudança profunda de mentalidade, na qual o cuidado com a casa comum e a solidariedade entre os povos sejam prioridades. Ele denuncia a “falta de vontade política” e o predomínio de interesses econômicos que perpetuam a degradação ambiental e a desigualdade social. Assim, o documento convida cada pessoa e comunidade a repensar seus hábitos de consumo e a promover uma cultura do cuidado, baseada no respeito à dignidade humana e à integridade da criação.
Essa proposta se aproxima do conceito da ética do cuidado desenvolvida por Leonardo Boff (1999), para quem cuidar é um ato profundamente humano e espiritual: “O cuidado é mais do que um gesto; é uma atitude fundamental de amor e responsabilidade para com toda forma de vida”.
Dessa forma, a Ecologia Integral propõe um resgate dos valores do cuidado, da compaixão e da interdependência, reconhecendo que “tudo está interligado”. A degradação ambiental é, portanto, consequência direta da ruptura desses valores, e sua restauração requer uma reeducação ética e afetiva da humanidade.
2.3. Ecossocialismo: a crítica ao capitalismo e a recuperação dos valores da justiça
O Ecossocialismo surge como uma crítica radical ao sistema capitalista, o qual é considerado por autores como Michael Löwy (2015) como a principal causa da devastação ambiental. Para o capitalismo, ao transformar a natureza em mercadoria, todos os valores humanos e ecológicos são submetidos à lógica do lucro.
Assim, o ecossocialismo surge configurando-se como
(…) teorias e movimentos que aspiram a subordinar o valor de troca ao valor de uso, organizando a produção em função das necessidades sociais e das exigências da proteção do meio ambiente. O seu objetivo, um socialismo ecológico, seria uma sociedade ecologicamente racional fundada no controle democrático, na igualdade social, e na predominância do valor de uso (Lowy, 2015, pg. 39)
(…) uma corrente de pensamento e de ação ecológica que faz suas as aquisições fundamentais do marxismo — ao mesmo tempo que o livra das suas escórias produtivistas. Para os ecossocialistas a lógica do mercado e do lucro — assim como a do autoritarismo burocrático de ferro e do “socialismo real” — são incompatíveis com as exigências de preservação do meio ambiente natural. Ainda que critiquem a ideologia das correntes dominantes do movimento operário, eles sabem que os trabalhadores e as suas organizações são uma força essencial para qualquer transformação radical do sistema, e para o estabelecimento de uma nova sociedade, socialista e ecológica (Lowy, 2015, pg. 38).
Para Löwy (2015), não há solução ecológica para um sistema baseado na acumulação ilimitada de capital, nesse sentido, o ecossocialismo propõe a construção de uma sociedade baseada em valores de solidariedade, igualdade e cooperação, em que o ser humano se reconheça parte da natureza e não seu dominador. Essa perspectiva dialoga diretamente com a Laudato Si’, quando o Papa Francisco denuncia as desigualdades ambientais e afirma que “o clamor da Terra é também o clamor dos pobres”.
Leonardo Boff (2012) também traz um termo que se costura perfeitamente a todos os conceitos tratados no artigo até o momento, que é o de “justiça ecológica”, a qual ele explica melhor a seguir:
A partir da consecução deste patamar básico de justiça social (relação social entre os seres humanos) se pode postular uma justiça ecológica possível (relação dos seres humanos com a natureza). Esta pressupõe mais que a justiça social. Pressupõe uma nova aliança dos humanos com os demais seres, uma nova cortesia para com o criado e a gestação de uma ética e mística de fraternidade/sororidade para com a inteira comunidade cósmica. A Terra também grita sob a máquina depredadora e mortífera de nosso modelo de sociedade e de desenvolvimento. Atender a estes dois gritos de forma articulada, vendo a mesma causa-raiz que os produz, é realizar a libertação integral (Boff, 2012, pg. 156).
Assim, tanto o ecossocialismo quanto a Ecologia Integral convergem na defesa de uma justiça ecológica, a qual deve vir sempre acompanhada de justiça social, junto à mudança de valores.
2.4. Ética, espiritualidade e educação para a ecologia integral
Para Leonardo Boff (2012), a crise ecológica é também uma crise espiritual. O esvaziamento dos valores humanos e a perda do sentido sagrado da Terra levaram à indiferença diante da destruição ambiental. A superação dessa crise requer o que ele chama de espiritualidade ecológica, que reconheça o planeta como um ser vivo — a “Mãe Terra” — e convoque a humanidade à comunhão com toda forma de existência. Em frente à isso, Boff (2012) faz uma crítica à chamada espiritualidade moderna, que é centrada no homem, dizendo que
Esta espiritualidade que animou, numa época, o espírito de progresso e de intervenção na natureza mostra-se impotente em face do preço ecológico de desestruturação dos ecossistemas e do excesso de violência que ela implica contra a natureza, as sociedades e as pessoas humanas. Ela precisa com urgência ser limitada e superada. Ela não nos ajuda a evitar o abismo. Antes nos anima a marchar em sua direção. Nem se mostra capaz de reintroduzir o ser humano na comunidade dos viventes e de devolvê-lo à Terra como pátria e mátria comum (Boff, 2012, pg. 264).
Nesse contexto, o autor entra com o conceito de ética do cuidado, explicando que “cuidar é mais que um ato, é uma atitude (…) representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e envolvimento afetivo com o outro.” Assim, Boff (2012) defende que tudo o que existe precisa ser cuidado para continuar a existir, explicando que a crise generalizada que se vê (e da qual se fala hoje em dia), se revela, justamente, pelo descuido com que se tratam tudo o que se refere à vida: natureza, bichos, pessoas.
Mas, esse cuidado de que Boff (2012) fala não é e nem pode ser um cuidado isolado, individual, embora perpasse pela ética pessoal de se questionar sobre os próprios valores humanos, mas diz respeito à um cuidado coletivo e transformador, coadunando com o que Lowy (2005) traz como ética ecossocialista, a qual depende de muitos “atores sociais, movimentos sociais, organizações ecológicas, partidos políticos, e não apenas indivíduos de boa vontade” para existir.
Além das questões da ética do cuidado e da ética ecossocialista, há, também, a noção de espiritualidade ecológica ou ecoespiritualidade, trazida por Boff (2012) como a opção plausível para superação da crise estabelecida. Tal espiritualidade teria como um dos eixos articuladores
(…) a vivência da simplicidade, a mais humana de todas as virtudes, porque deve estar presente em todas as demais. A simplicidade é que garantirá a sustentabilidade de nosso planeta, rico de infindáveis energias e recursos, mas sempre também limitado. A simplicidade exige uma atitude de anticultura e de anti-sistema. A cultura e o sistema dominante são consumistas e esbanjadores. A simplicidade nos desperta a viver consoante nossas necessidades básicas. Se todos perseguissem esse preceito, a terra seria suficiente para todos com generosidade e até com discreta abundância. A simplicidade sempre foi criadora de excelência espiritual e de grande liberdade interior (Boff, 2012, pg. 267).
No campo da educação e ecopedagogia, é impossível não recorrer à Paulo Freire (2020), principalmente a partir da sua Pedagogia da Indignação, em que ele traz a ideia da educação como algo que não pode ser neutro e que pode estar “tanto a serviço da decisão, da transformação do mundo, da inserção crítica nele, quanto a serviço da imobilização, da permanência possível das estruturas injustas, da acomodação dos seres à realidade irretocável”. Aqui, a ética se entrelaça à educação e se estabelece como uma reflexão das normas, estruturas e realidades estabelecidas.
Para Freire (2020) não há como colocar em curso sonhos, sejam eles quais forem, sem política; pelo contrário, o autor reforça que a realidade é feita de luta de interesses e os sonhos – como projetos pelos quais se tem o direito e o dever de mudar o mundo em prol de uma sociedade mais justa – também precisam apontar meios e diretrizes para a tal mudança, afinal, “os sonhos são projetos pelos quais se luta”.
Aqui, a educação e a espiritualidade desempenham um papel central, pois, educar para a Ecologia Integral é formar para o cuidado, para a empatia e para a responsabilidade compartilhada. Significa recuperar os valores éticos e afetivos que sustentam o equilíbrio entre o ser humano e o meio ambiente. Essa perspectiva educativa está presente em experiências de ecopedagogia, espiritualidade ecológica (ou espiritualidade) e educação ambiental crítica, que articula saber, sensibilidade e ação social.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa é de natureza qualitativa, com abordagem teórico-bibliográfica. As etapas metodológicas incluem levantamento bibliográfico de autores clássicos e contemporâneos, como Leonardo Boff, Michael Löwy, Enrique Leff, Paulo Freire e de obras de referência sobre Ecologia Integral, Ética Ambiental e Ecossocialismo, bem como análise interpretativa da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco e síntese reflexiva dos principais valores e princípios éticos capazes de orientar uma nova relação entre sociedade e natureza. Ao todo foram utilizadas onze referências bibliográficas e como resultado, espera-se propor uma compreensão integrada da crise ecológica como crise de valores e apontar possíveis caminhos educativos e éticos para sua superação.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A crise ecológica contemporânea expressa, de maneira profunda, uma crise de valores humanos e civilizatórios. O avanço tecnológico e econômico, quando desvinculado da ética e do cuidado, produziu um modelo de sociedade que ameaça a própria continuidade da vida no planeta.
A partir da Ecologia Integral e do Ecossocialismo, é possível compreender que a sustentabilidade verdadeira exige não apenas inovações técnicas, mas uma revolução ética e espiritual, orientada pelo cuidado, pela justiça e pela solidariedade planetária.
A Pedagogia da Indignação (2020), de Paulo Freire, contribui para a educação em ecologia integral ao despertar nos educandos uma postura ética e crítica diante das injustiças sociais e ambientais. Freire defende que a indignação é um sentimento necessário para transformar a realidade, pois mobiliza o ser humano a agir contra qualquer forma de opressão e destruição da vida. Nessa perspectiva, a educação torna-se um ato político e amoroso, que incentiva a responsabilidade coletiva pelo cuidado com o planeta e com os mais vulneráveis. Ao promover a reflexão sobre as causas da degradação ambiental — como o consumismo e a exploração econômica —, a pedagogia da indignação ajuda a formar sujeitos conscientes e engajados na construção de uma ecologia integral, em que justiça social, ética e sustentabilidade caminham juntas em favor da dignidade da vida em todas as suas formas. Dessa forma, a pedagogia freireana sustenta a ecologia integral — conceito presente na Laudato Si’ do Papa Francisco — ao promover uma formação humana comprometida com a justiça social, o cuidado com a vida e a transformação solidária do planeta.
As ações editandas podem ser compreendidas como ações em gestação, ainda não realizadas, mas já anunciadas no movimento crítico que emerge quando sujeitos analisam sua realidade e reconhecem a necessidade de transformá-la. Embora o termo seja empregado principalmente por intérpretes de Paulo Freire, ele dialoga profundamente com o coração de sua pedagogia: a ideia de que a conscientização, ao revelar o “inédito viável”, convoca os indivíduos a criar práticas capazes de superar situações-limite. Nesse sentido, a educação ambiental se torna um campo privilegiado para o nascimento dessas ações, pois é na reflexão crítica sobre o mundo que percebemos a urgência ecológica e a corresponsabilidade por nossa casa comum. Freire nos lembra que ninguém liberta ninguém: libertamo-nos em comunhão — e isso vale também para a libertação ecológica, que exige novas formas de habitar o planeta. Assim, as ações editandas na educação ambiental representam os gestos ainda por vir, mas já força viva, que surgem quando estudantes compreendem que suas escolhas, individuais e coletivas, podem inaugurar práticas sustentáveis. A educação, nesse contexto, é o meio mais potente para que o possível se torne real, para que a consciência se converta em ação e para que uma nova ética ecológica seja construída de forma crítica, dialógica e transformadora.
A conversão ecológica, como propõe a Laudato Si’, depende da redescoberta de um sentido de pertença à Terra e do reconhecimento de que “tudo está interligado”. Somente a partir dessa nova ética, que reconcilia ser humano e natureza, será possível construir uma sociedade ecologicamente sustentável, socialmente justa e espiritualmente plena.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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TEIXEIRA, Aleluia Heringer Lisboa. Laudato Sí e a Educação: qual a parte que nos cabe? Belo Horizonte: 2015.
