REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601191257
Prof.ª Me. Josiana Manuela da Silva Obnesorg
Resumo
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui-se como política pública estratégica para a garantia do direito à educação ao longo da vida, atendendo sujeitos cujas trajetórias escolares são marcadas por descontinuidades, desigualdades sociais e experiências formativas heterogêneas. Este artigo analisa a Metodologia Ativa de Rotação por Estações como dispositivo didático-pedagógico no ensino das Ciências Humanas na EJA, no contexto do Modelo de Presença Flexível da rede estadual paulista, o qual se estrutura a partir da organização do tempo e do espaço pedagógico, destinando 75% da carga horária ao suporte pedagógico e tecnológico desenvolvido no ambiente escolar e 25% ao acompanhamento docente das atividades pedagógicas realizadas em contextos externos à escola.
A proposta tem como mediação literária a obra Sagatrissuinorana, de João Luiz Guimarães e Nelson Cruz, utilizada como recurso interdisciplinar para a problematização ética, social, histórica e territorial dos conteúdos das Ciências Humanas. Fundamentado em uma abordagem crítico-emancipatória e interdisciplinar, o estudo articula referenciais teóricos da Filosofia, da Geografia crítica, da Sociologia e da História social, com destaque para as contribuições de Hans Jonas e Thomas Hobbes, Milton Santos e David Harvey, Émile Durkheim, Max Weber, Pierre Bourdieu, Eric Hobsbawm e E. P. Thompson.
Argumenta-se que a organização curricular por estações disciplinares, articulada à mediação literária e à flexibilidade temporal do modelo, favorece o protagonismo discente, a autonomia intelectual e a leitura crítica da realidade social, histórica e territorial, potencializando práticas pedagógicas inclusivas, éticas e socialmente comprometidas. Conclui-se que a Rotação por Estações, alinhada às diretrizes normativas da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, constitui-se como estratégia pedagógica potente para a formação crítica e cidadã dos sujeitos da EJA na contemporaneidade.
Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos; Metodologias Ativas; Ciências Humanas; Interdisciplinaridade; Formação Crítica; Modelo de Presença Flexível.
1. Introdução
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) configura-se como uma política pública fundamental para a efetivação do direito à educação ao longo da vida, especialmente em uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais, econômicas e educacionais. Destinada a sujeitos cujas trajetórias escolares foram interrompidas ou atravessadas por processos de exclusão, a EJA demanda propostas pedagógicas que superem modelos homogêneos de ensino e reconheçam a diversidade de tempos, experiências, saberes e percursos formativos que caracterizam esse público.
Nesse contexto, a adoção de práticas pedagógicas flexíveis, contextualizadas e eticamente comprometidas torna-se condição indispensável para a promoção de uma formação crítica e emancipatória. Tais práticas exigem a articulação entre metodologias ativas, interdisciplinaridade e mediações culturais capazes de favorecer o protagonismo discente e a leitura crítica da realidade social.
É nessa perspectiva que o presente artigo analisa a Metodologia Ativa de Rotação por Estações no ensino das Ciências Humanas na EJA, no âmbito do Modelo de Presença Flexível da rede estadual paulista, incorporando a obra Sagatrissuinorana, de João Luiz Guimarães e Nelson Cruz, como recurso literário mediador do trabalho pedagógico interdisciplinar. A obra, ao mobilizar narrativas simbólicas, éticas e sociais, possibilita a problematização de temas contemporâneos relacionados à vida em sociedade, às desigualdades, à responsabilidade coletiva e à construção histórica dos sujeitos, constituindo-se como potente dispositivo didático para o diálogo entre Filosofia, Geografia, Sociologia e História.
A reflexão desenvolvida neste estudo emerge, ainda, de uma trajetória profissional situada. A atuação docente no Ensino Médio, na área de Filosofia, e a experiência anterior na Educação de Jovens e Adultos, especialmente no campo da Informática Educativa, permitiram acompanhar de forma concreta os desafios e as potencialidades do uso de tecnologias, linguagens e metodologias inovadoras no atendimento a esse público. Tal vivência evidenciou a necessidade de modelos pedagógicos que respeitem os diferentes ritmos de aprendizagem, valorizem os saberes construídos ao longo da vida e promovam o engajamento crítico dos estudantes.
O contato com o processo seletivo da rede estadual paulista para atuação na EJA, no âmbito do Modelo de Presença Flexível, intensificou a problematização teórica e metodológica que fundamenta este trabalho. Esse modelo institucional reconhece a pluralidade de trajetórias formativas dos estudantes e propõe uma reorganização do tempo, do espaço e das práticas pedagógicas, articulando presencialidade, flexibilidade organizacional e centralidade no sujeito da aprendizagem.
Diante desse cenário, argumenta-se que a Metodologia Ativa de Rotação por Estações, associada à mediação literária de Sagatrissuinorana, constitui-se como estratégia pedagógica potente para o ensino das Ciências Humanas na EJA. Tal articulação favorece a interdisciplinaridade, o desenvolvimento da autonomia intelectual e a formação ética e cidadã, alinhando-se às diretrizes contemporâneas da educação inclusiva e aos princípios de uma pedagogia crítica socialmente comprometida.
2. Fundamentos Epistemológicos da Educação de Jovens e Adultos
A EJA deve ser compreendida a partir do paradigma da educação inclusiva, da justiça social e da educação ao longo da vida. Conforme Paulo Freire, a educação de jovens e adultos exige o reconhecimento dos saberes construídos na experiência cotidiana, valorizando o diálogo como princípio pedagógico e político.
Nessa perspectiva, ensinar na EJA implica superar modelos transmissivos e bancários de ensino, adotando práticas que promovam a autonomia intelectual, a consciência crítica e a participação ativa dos estudantes no processo de construção do conhecimento. A centralidade do sujeito, aliada à leitura crítica da realidade, constitui fundamento epistemológico indispensável para a organização curricular das Ciências Humanas nesse segmento.
3. As Ciências Humanas e a Formação Crítica na Contemporaneidade
As Ciências Humanas ocupam lugar estratégico na formação crítica dos sujeitos da EJA, pois oferecem instrumentos teóricos e conceituais para a compreensão das contradições sociais, políticas, econômicas e territoriais do mundo contemporâneo.
No campo da Filosofia, Thomas Hobbes contribui para a reflexão sobre o contrato social, o poder político e a organização da vida em sociedade, enquanto Hans Jonas introduz o princípio da responsabilidade ética diante das ações humanas e de seus impactos sobre as gerações futuras. Essas reflexões tornam-se fundamentais para a discussão de temas como ética, cidadania e sustentabilidade.
A Geografia crítica, representada por Milton Santos e David Harvey, possibilita a análise do espaço como construção social, marcada por desigualdades, fluxos de capital e relações de poder. A Sociologia, a partir de Durkheim, Weber e Bourdieu, oferece aportes para a compreensão das estruturas sociais, das relações de dominação e dos processos de reprodução social. Já a História social, com Hobsbawm e Thompson, contribui para a análise dos processos históricos, das lutas sociais e da constituição das classes trabalhadoras.
3.1 Organização das Aulas de Ciências Humanas por Rotação por Estações
As aulas de Ciências Humanas na Educação de Jovens e Adultos, no contexto do Modelo de Presença Flexível, são organizadas por meio da Metodologia Ativa de Rotação por Estações, na qual cada estação corresponde a um componente curricular: Filosofia, Geografia, Sociologia e História. Essa organização favorece a interdisciplinaridade, o atendimento às singularidades dos estudantes e a construção de percursos formativos autônomos e significativos.
Cada estação é estruturada com objetivos de aprendizagem claros, atividades problematizadoras, materiais de apoio diversificados e mediação docente qualificada, considerando os diferentes ritmos, trajetórias e saberes prévios dos estudantes da EJA.
Estação 1 – Filosofia: Ética, Responsabilidade e Vida em Sociedade

Objetivo de aprendizagem:
Analisar os fundamentos éticos da vida em sociedade e refletir sobre a responsabilidade das ações humanas no contexto contemporâneo.
Referenciais teóricos:
Thomas Hobbes; Hans Jonas.
Atividades propostas:
- Leitura orientada de excertos do Leviatã (Hobbes) e de O princípio responsabilidade (Jonas);
- Roda de conversa sobre contrato social, poder político e responsabilidade coletiva;
- Análise de situações-problema contemporâneas (desastres socioambientais, políticas públicas e decisões éticas);
- Produção de registro reflexivo relacionando ética, cidadania e sustentabilidade.
Mediação docente:
Condução do debate filosófico, problematização das escolhas humanas e articulação entre teoria e realidade vivida pelos estudantes.
Estação 2 – Geografia: Espaço, Território e Desigualdades

Objetivo de aprendizagem:
Compreender o espaço geográfico como construção social marcada por desigualdades e relações de poder.
Referenciais teóricos:
Milton Santos; David Harvey.
Atividades propostas:
- Análise de mapas, imagens e reportagens sobre processos de urbanização, exploração territorial e desastres ambientais;
- Discussão sobre fluxos de capital, uso do território e impactos socioambientais;
- Estudo de caso: rompimentos de barragens e seus efeitos territoriais;
- Elaboração de síntese crítica relacionando território, economia e justiça social.
Mediação docente:
Orientação na leitura crítica do espaço e apoio à construção de argumentos fundamentados.
Estação 3 – Sociologia: Estrutura Social e Relações de Poder

Objetivo de aprendizagem:
Analisar as estruturas sociais, as formas de dominação e os mecanismos de reprodução das desigualdades.
Referenciais teóricos:
Émile Durkheim; Max Weber; Pierre Bourdieu.
Atividades propostas:
- Leitura mediada de conceitos sociológicos (fato social, ação social, capital cultural);
- Debate sobre trabalho, desigualdade social e exclusão educacional;
- Análise de relatos e experiências dos próprios estudantes da EJA;
- Produção de texto reflexivo sobre mobilidade social e educação.
Mediação docente:
Valorização dos saberes experienciais e articulação entre teoria sociológica e vivências concretas.
Estação 4 – História: Processos Históricos e Lutas Sociais

Objetivo de aprendizagem:
Compreender os processos históricos e as lutas sociais na constituição das classes trabalhadoras.
Referenciais teóricos:
Eric Hobsbawm; E. P. Thompson.
Atividades propostas:
- Análise de documentos históricos, imagens e narrativas sobre movimentos sociais e direitos trabalhistas;
- Discussão sobre continuidades e rupturas históricas;
- Relação entre passado histórico e desafios contemporâneos da classe trabalhadora;
- Construção de linha do tempo coletiva.
Mediação docente:
Contextualização histórica e estímulo à leitura crítica dos processos sociais.
Síntese Integradora das Estações
Ao final do ciclo de rotação, realiza-se um momento coletivo de síntese, no qual os estudantes compartilham aprendizagens, estabelecem conexões entre os componentes curriculares e refletem sobre os temas estudados à luz de sua realidade social. Essa etapa fortalece a interdisciplinaridade, o protagonismo discente e a consolidação da formação crítica.
4. A Metodologia Ativa de Rotação por Estações no Modelo de Presença Flexível
A Metodologia Ativa de Rotação por Estações organiza o trabalho pedagógico a partir de percursos diversificados de aprendizagem, nos quais os estudantes transitam por diferentes estações, cada uma correspondente a um componente das Ciências Humanas: Filosofia, Geografia, Sociologia e História.
Cada estação propõe atividades específicas, problematizadoras e contextualizadas, articulando teoria e realidade social. Essa organização favorece o trabalho em pequenos grupos, o atendimento às diferenças individuais e o protagonismo discente, elementos centrais para a efetivação do Modelo de Presença Flexível na EJA.
A rotação entre as estações permite que o estudante construa uma visão integrada dos fenômenos sociais, superando a fragmentação do conhecimento e fortalecendo a interdisciplinaridade como princípio curricular.
5. Avaliação Formativa e Acompanhamento da Aprendizagem
A avaliação, nesse modelo, assume caráter diagnóstico, processual e formativo, orientada para o acompanhamento contínuo das aprendizagens. Privilegia-se a análise do percurso do estudante, considerando seus avanços, dificuldades e potencialidades.
São utilizados instrumentos diversificados, como produções escritas, registros reflexivos, debates, autoavaliação e observação sistemática, em consonância com as diretrizes da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. A avaliação deixa de ser meramente classificatória, passando a integrar o processo pedagógico como elemento de reflexão e reorientação das práticas docentes.
6. Considerações Finais
A Metodologia Ativa de Rotação por Estações consolida-se como uma estratégia pedagógica consistente e alinhada às demandas contemporâneas da Educação de Jovens e Adultos, sobretudo no âmbito do Modelo de Presença Flexível adotado pela rede estadual paulista. Ao organizar o trabalho docente a partir de estações correspondentes aos componentes das Ciências Humanas, a proposta favorece a interdisciplinaridade, o atendimento às singularidades dos estudantes e a construção de percursos formativos mais autônomos, críticos e significativos.
A experiência e a intencionalidade pedagógica aqui apresentadas evidenciam uma concepção de ensino comprometida com a valorização dos saberes experienciais dos sujeitos da EJA, com a mediação docente qualificada e com a formação ética e cidadã. A Rotação por Estações, ao promover o protagonismo discente e a leitura crítica das realidades sociais, históricas e territoriais, contribui para o desenvolvimento da consciência crítica e para o fortalecimento do direito à educação ao longo da vida.
Nesse sentido, a proposta reafirma o papel da EJA como espaço de emancipação, justiça social e reconstrução de trajetórias educacionais, em consonância com as diretrizes normativas e pedagógicas vigentes. Ao articular fundamentos teóricos sólidos, práticas inclusivas e compromisso com a equidade educacional, o trabalho docente apresentado demonstra coerência, maturidade profissional e aderência aos princípios que orientam as políticas públicas educacionais contemporâneas, configurando-se como contribuição relevante para o ensino das Ciências Humanas na EJA.
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, s.d.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
GUIMARÃES, João Luiz; CRUZ, Nelson. Sagatrissuinorana. Rio de Janeiro: OZE Edital, 2020. 32 p. ISBN 978-65-990107-4-3.
HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, s.d.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914–1991). São Paulo: Companhia das Letras, s.d.
JONAS, Hans. O princípio da responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto, s.d.
OBNESORG, Josiana Manuela da Silva et al. O uso de tecnologias assistivas para promover a inclusão de alunos com TEA na aprendizagem matemática: estratégias e desafios. Caderno Pedagógico, v. 21, n. 9, p. e7452, 2024. Disponível em: https://ojs.studiespublicacoes.com.br/ojs/index.php/cadped/article/view/7452. Acesso em: 9 set. 2024.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, s.d.
THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, s.d.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Resolução SEDUC nº 151, de 28 de novembro de 2025. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 28 nov. 2025.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Resolução SEDUC nº 172, de 30 de dezembro de 2025. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 30 dez. 2025.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Portaria do Subsecretário, de 4 de dezembro de 2025. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 4 dez. 2025.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Subsecretaria Pedagógica. Portaria do Subsecretário, de 31 de dezembro de 2025. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 31 dez. 2025.
