USO DO ÁCIDO POLI‑L‑LÁTICO EM PACIENTES COM PERDA DE GORDURA FACIAL COM LIPODISTROFIA ASSOCIADA AO HIV

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512081648


Nuno Manuel Monteiro Domingues1
Susana Margarida Pires da Silva2


Resumo

Objetivo: Sintetizar a evidência clínica sobre eficácia e segurança em longo prazo do ácido poli‑L‑lático (PLLA) na correção de lipoatrofia/perda de gordura facial, abrangendo lipoatrofia associada ao HIV e perda volumétrica por envelhecimento.

Métodos: Busca estruturada em PubMed/MEDLINE, Scopus e Web of Science (última atualização: 11 de novembro de 2025). Incluímos ensaios clínicos, estudos observacionais, revisões sistemáticas e relatos de caso com seguimento ≥12 meses ou que descrevessem eventos adversos tardios. Dois revisores, de forma independente, selecionaram estudos e extraíram dados sobre desfechos de eficácia (duração do efeito, necessidade de retoque) e segurança (nódulos/granulomas tardios).

Resultados: O PLLA produz melhora volumétrica e da espessura dérmica sustentada tipicamente por 24–36 meses, com alta satisfação e possibilidade de manutenção com sessões de retoque anuais ou bianuais. Em lipoatrofia por HIV, há base mais robusta sustentando benefício duradouro e melhora de qualidade de vida. A segurança em longo prazo é globalmente favorável, mas podem ocorrer nódulos e granulomas tardios meses a anos após o tratamento (casos descritos >60–100 meses, raros). Técnica, reconstituição/diluição e plano de injeção influenciam o risco.

Conclusões: O PLLA é opção eficaz e duradoura para perda de gordura facial, com perfil de segurança aceitável quando aplicadas boas práticas técnicas modernas. Persistem lacunas quanto a estimativas precisas de eventos tardios em indicações estéticas e comparações diretas com outros bioestimuladores.

Palavras‑chave: ácido poli‑L‑lático; lipoatrofia facial; HIV; envelhecimento facial; granuloma tardio; bioestimulador de colágeno.

Abstract

Objective: To summarize the clinical evidence on the long-term efficacy and safety of poly-L-lactic acid (PLLA) for the correction of facial fat loss, including HIV-associated lipoatrophy and age-related volume depletion.

Methods: A structured search was conducted in PubMed/MEDLINE, Scopus, and Web of Science (latest update: November 2025). Eligible studies included clinical trials, observational cohorts, systematic reviews, and case reports with ≥12 months of follow-up or documentation of delayed adverse events.

Results: PLLA demonstrated consistent volumetric improvement and dermal thickening with sustained results typically lasting 24–36 months. Evidence in HIV-associated lipoatrophy is robust, showing long-term correction and enhanced quality of life. Aesthetic indications show similar durability, though fewer high-quality trials are available. Long-term safety is generally favorable; however, delayed nodules and granulomas occurring months to years after treatment have been reported.

Conclusions: PLLA is an effective and long-lasting option for facial volume restoration. Further prospective studies with extended follow-up are warranted.

Keywords: poly-L-lactic acid; facial lipoatrophy; HIV; facial aging; late granuloma; collagen biostimulator.

Introdução

A perda de gordura facial (lipoatrofia) pode ser consequência do envelhecimento, perda peso, de condições patológicas (p. ex., HIV e terapia antirretroviral) e de traumatismos. O ácido poli‑L‑láctico (PLLA) é um polímero biodegradável usado como injetável subcutâneo/dermal profundo para restauração volumétrica e bioestimulação de colágeno. Diferentemente de preenchedores puramente volumizadores, o PLLA induz neocolagênese, resultando em melhora progressiva e difusa da qualidade tecidual e maior longevidade do efeito.

Esta revisão sintetiza a evidência disponível sobre a eficácia e os efeitos adversos de longo prazo do PLLA na correção da perda de gordura facial, destacando a duração dos resultados, a necessidade de manutenção e a incidência e o manejo de eventos tardios (nódulos/granulomas).

Métodos

A pergunta de investigação utilizada foi “Em adultos com perda de gordura facial (por HIV ou envelhecimento), qual é a eficácia e a segurança em longo prazo do PLLA?”.  Pesquisa de artigos na PubMed/MEDLINE, Scopus e Web of Science, sem restrição de idioma, publicados até 11/2025.

Termos Mesh utilizados (PubMed): (“poly-L-lactic acid”) AND (“facial lipoatrophy” OR “facial volume” OR “facial aging”) AND (long-term OR durability OR maintenance), (“poly-L-lactic acid”) AND (granuloma OR nodules OR delayed OR late), (“poly-L-lactic acid”) AND (HIV OR HAART) AND (lipoatrophy).

Critérios de inclusão: ensaios clínicos, estudos de coorte/séries consecutivas, revisões sistemáticas e relatos de caso com dados de seguimento ≥12 meses para eficácia e/ou descrição de eventos adversos tardios; população adulta; injeção facial de PLLA.

Critérios de exclusão: estudos exclusivamente em animais ou in vitro; uso não facial; polímeros não‑PLLA (p. ex., PDLLA) quando sem dados comparáveis; relatos sem desfechos de interesse.

Dois revisores, de forma independente, avaliaram títulos/resumos e textos completos; as discordâncias foram resolvidas por consenso. Foi analisado para cada um dos estudos incluidos o desenho, população, indicação (HIV vs. estético), protocolo (nº de sessões, diluição), seguimento, desfechos de eficácia (duração percebida, espessura dérmica, escores estéticos, necessidade de retoques ou sessões adicionais), bem como os desfechos de segurança (eventos adversos imediatos e tardios, taxas de complicações e necessidade de intervenção).

Devido à heterogeneidade, realizamos síntese narrativa, destacando faixas de duração, taxas reportadas de eventos tardios e recomendações práticas. Quando disponível, apresentamos valores numéricos e janelas de seguimento.

Resultados

Visão geral dos estudos

Foram incluídos: ensaios e séries prospectivas em lipoatrofia por HIV com seguimento de 12–36 meses; revisões sistemáticas recentes em indicações estéticas; estudos observacionais de mundo real e relatos de reação tardia do tipo granulomatosa.

Tabela 1 – Estudos Incluídos (n=7)

Eficácia e duração do efeito

Lipoatrofia associada ao HIV: Ensaios e extensões de estudos (até 24–36 meses) mostram aumento sustentado de espessura cutânea/volume e elevada satisfação, com possibilidade de manutenção por sessões adicionais. Em geral, 2–4 sessões iniciais, espaçadas 3–6 semanas, promovem correção durável.

Indicações estéticas (envelhecimento): Revisões sistemáticas recentes reportam melhora consistente de escores estéticos e de espessura dérmica, com efeitos mantidos por ≥24–25 meses em vários estudos, e evidência de superioridade sobre colágeno injetável em comparações limitadas.

Mecanismo e longevidade: A neocolagênese induzida pelo PLLA explica a durabilidade (até 24–36 meses), especialmente com protocolos fracionados e retoques periódicos.

Segurança a longo prazo

Eventos comuns e transitórios: edema, eritema, equimoses, sensibilidade local e irregularidades/pápulas subclínicas; usualmente autolimitados.

Nódulos e granulomas tardios: descritos meses a anos após o tratamento. Há relatos além de 60–70 meses e, mais recentemente, >100 meses, embora raros. Fatores de risco incluem reconstituição insuficiente, injeção muito superficial, volumes/bólus grandes, intervalos curtos e possível biofilme.

Frequência: varia amplamente conforme técnica e época (maiores taxas em séries antigas; taxas mais baixas com técnicas modernas de alta diluição e plano profundo).

Manejo: massagem e observação em nódulos subclínicos; para granulomas, corticoide intralesional (± 5‑FU), antibióticos quando biofilme suspeito, e energia‑baseado (laser) em casos selecionados.

Necessidade de manutenção

A maioria das séries descreve retoques anuais ou bianuais com menores volumes para preservar o resultado após a série inicial de indução.

Discussão

Síntese principal: O PLLA apresenta eficácia sustentada por 24–36 meses para restauração volumétrica facial, com robustez maior na indicação de lipoatrofia por HIV e evidência crescente nas indicações estéticas. A segurança em longo prazo é aceitável, porém eventos tardios (nódulos/granulomas) são uma realidade rara, porém não nula, reforçando a importância da técnica, da seleção do paciente e do consentimento informado.

Comparação com outros preenchimentos (ácido hialuronico)/bioestimuladores: O PLLA oferece uma melhoria na qualidade da pele e resultados mais duradouros, mas exige necessidade de várias sessões de tratamentos e período de latência para pleno efeito, oferecendo um rejuvenescimento natural e progressivo. Em comparação com CaHA e hidroxiapatita, faltam ensaios diretos de longo prazo.

Implicações práticas:  Planeamento: 2–4 sessões iniciais (3–6 semanas de intervalo), reconstituição prolongada (ex.: ≥12–24 h) e diluições maiores para reduzir risco de nódulos. Técnica: injeção profunda (supra‑periostal/hipoderme profunda conforme área), pequenos depósitos em leque/túneis retrogrados, evitar sobrecorreção.

Seguimento e manutenção: avaliação em 4–8 semanas após cada sessão; retoques anuais/bianuais para sustentar o ganho.

Gestão de risco: informar sobre raridade de granulomas tardios e vias de manejo; considerar protocolos de assepsia e intervalos adequados, além de documentação fotográfica.

Limitações desta revisão: heterogeneidade clínica e metodológica dos estudos, poucos ensaios de alta qualidade em medicina estética, e dados limitados além de 36 meses na maioria das séries (embora existam relatos tardios de eventos adversos).

Conclusão

O ácido poli‑L‑lático é um bioestimulador eficaz no tratamento da flacidez e perda de gordura facial, pois permite a revolumerização facial e melhorar a qualidade da pele (firmeza e textura), pois estimula os fibroblastos do próprio corpo a produzir novo colágeno e elastina com efeitos que podem durar até 24-36 meses e possibilidade de tratamentos de manutenção. A segurança a longo prazo é globalmente favorável, no entanto podem ocorrer nódulos/granulomas tardios (embora raro) até muitos anos após o seu procedimento e devem ser explicitamente e discutidos com o paciente. São necessárias coortes contemporâneas com seguimento com mais de 5 anos e comparações com outros bioestimuladores existentes.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

Referências

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    1Médico especialista em Medicina Geral e Familiar; pós-graduado em Medicina Estética; USF D. Francisco de Almeida, ULS Médio Tejo; E-mail: nunocavmonteiro@gmail.com

    2Médica especialista em Medicina Geral e Familiar; USF D. Francisco de Almeida, ULS Médio Tejo; E-mail: sm.pires.silva@gmail.com