TRATAMENTO DE REVASCULARIZAÇÃO EM DENTE ADULTO COM REABSORÇÃO APICAL EXTERNA: RELATO DE CASO.

REVASCULARIZATION TREATMENT IN AN ADULT TOOTH WITH EXTERNAL APICAL RESORPTION: CASE REPORT.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202503141421


Anna Carolina Santos Silva¹; Ana Beatriz Barbosa Cruz¹; Matheus Felipe Nascimento Pereira¹; Júlia Silva Pinheiro¹; Antônio Henrique Braitt².


RESUMO

Desde o incremento das pesquisas das células-tronco em 1961, por cientistas canadenses, os avanços em estudos, pesquisas e o desenvolvimento de novos tratamentos com esse tipo de recurso se mostram promissores. O uso de células-tronco é uma grande aposta tanto para a medicina quanto para a odontologia regenerativa.  O potencial dessas células tão especiais se encontra em duas características peculiares: elas são capazes de se multiplicarem e de se diferenciarem em outros tipos de células, como de tecidos, cartilagens e neurônios. É dessa maneira que elas têm um papel fundamental para estudos e tratamentos relacionados à regeneração. O tratamento endodôntico em dentes imaturos com polpa não vital (Revascularização) é um método eficiente de indução à revitalização pulpar por meio de uso da sobre instrumentação do canal dentinário, procurando provocar um sangramento, recolhendo nesta manobra uma certa quantidade de células tronco. Dentes diagnosticados com rizogênese incompleta, acometidos por traumas ou cárie profunda com necrose pulpar, necessitam ser tratados e para estes casos tratados endodonticamente. Apresentamos uma Revascularização em um dente de paciente adulto com reabsorção externa da raiz, confiando na eficiência das células tronco na regeneração tecidual. 

Palavras Chaves: Endodontia, Tratamento de canais radiculares, Revascularização.

ABSTRACT

Since the increase in stem cell research in 1961 by Canadian scientists, advances in studies, research and the development of new treatments with this type of resource have shown promise. The use of stem cells is a great bet for both medicine and regenerative dentistry.  The potential of these very special cells lies in two peculiar characteristics: they are capable of multiplying and differentiating into other types of cells, such as tissues, cartilage and neurons. It is in this way that they play a fundamental role in studies and treatments related to regeneration. Endodontic treatment in immature teeth with non-vital pulp (Revascularization) is an efficient method of induction of pulp revitalization through the use of over-instrumentation of the dentin canal, seeking to cause bleeding, collecting in this maneuver a certain amount of stem cells. Teeth diagnosed with incomplete rhizogenesis, affected by trauma or deep caries with pulp necrosis, need to be treated and treated endodontically. We present a Revascularization in an adult patient tooth with external root resorption, relying on the efficiency of stem cells in tissue regeneration.

Key Works: Endodontics,  Root Canal Treatment, Revascularization.

INTRODUÇÃO

As células tronco são células embrionárias que tem a capacidade de se multiplicar e formar qualquer célula. Devido sua capacidade de diferenciação, estão sendo usadas cada vez mais para o tratamento de diversas doenças como a regeneração da córnea, mal de Parkinson e até mesmo regeneração da polpa dentária. 

“Nem todo mundo sabe, mas as células-tronco podem ser encontradas em lugares diferentes do corpo. Ao pensar sobre o assunto, lembramos principalmente da presença delas no sangue do cordão umbilical e na medula óssea”1. No caso da revascularização, são usadas as células do próprio periodonto apical.

Sendo assim, a Revascularização, um tratamento não muito conhecido pelos Cirurgiões Dentistas da cidade de Ilhéus2, consiste em utilizar as células tronco existentes no periodonto apical provocando um sangramento através do forame apical como estímulo para desenvolvimento de uma metaplasia celular maturando o terço apical da raiz. No intuito de manter o pH elevado, o que colabora para a transformação do coágulo em tecido mineralizado aplicamos uma camada de MTA (Agregado Trióxido Mineral) no terço cervical. O MTA promove uma barreira apical e serve como base para o material restaurador. No caso de dentes imaturo, estudos indicam que a revascularização possibilita o desenvolvimento da largura e do comprimento da raiz3.

Este tratamento é feito em duas etapas. Na primeira etapa é promovida a eliminação das bactérias presentes no utilizando uma irrigação com hipoclorito de sódio e medicação intracanal com hidróxido de cálcio ou antibióticos. Trinta dias após é provocado um sangramento, ultrapassando o forame com 2mm a 5 mm de sobre instrumentação. Após o sangue ter coagulado se coloca por cima deste coágulo uma porção de MTA e restaura-se o dente. Por fim, informa ao paciente a necessidade de retorno para consultas de proservação.

A desinfecção dos canais é uma etapa primordial no tratamento de revascularização, pois a infecção impede a regeneração dos tecidos. Estudos apontam que a maioria dos tratamentos que falharam foi porque tiveram uma desinfecção inadequada.  Na limpeza dos canais, a utilização da instrumentação, normalmente usada no tratamento endodôntico, é contraindicada na revascularização já que se trata de dentes com paredes finas1,5.

Após a desinfecção dos canais radiculares, utiliza-se o MTA que promove uma barreira imediata. O material é colocado de 3 à 4 mm no ápice da raiz.

Como foi dito anteriormente, a desinfecção dos canais radiculares é de extrema importância, porém dependendo do formato desse canal, essa etapa se torna extremamente difícil. Os autores Sanches et al7. mostraram um caso clínico de retratamento comrevascularizaçãode um molar inferior com o canal em forma de C em um paciente com 66 anos. Ao exame clínico, o dente 37 demonstrou ausência de trincas, resposta positiva para os testes de palpação e percussão e havia a presença de uma fístula intra oral associada. Foi solicitada TCFC para mapeamento anatômico e planejamento do caso, evidenciando uma lesão periapical e sobreobturação. Na primeira sessão foi feita a desobturação com o sistema Reciproc Blue R40 (VDW, Munique, Alemanha) e pontas de ultrassom, Flatsonic e Clearsonic (Helse, São Paulo, SP, Brasil); o formocresol foi utilizado como medicação intracanal. Na segunda sessão, foi feita irrigação com NaOCl 2, 5%, soro fisiológico estéril e EDTA 17%, ambos agitados com Irrisonic (Helse, São Paulo, SP, Brasil) e EasyClean (Easy, Belo Horizonte, MG, Brasil); foi utilizado Ultracal (Ultradent, South Jordan, UT, EUA) como medicação intracanal por 30 dias. Na terceira sessão, foi feita a técnica de revascularização, induzindo um sangramento apical, colocou-se Hemospon (Maquira, Maringá, PR, Brasil) e preencheu-se o canal até terço médio com MTA; a restauração foi feita com resina composta7.

Um método de tratamento utilizado há algum tempo atrás era a apificação com aplicação de hidróxido de cálcio, que assim como o MTA, induz a formação de uma barreira mineralizado. Contudo, essa técnica precisa de trocas consecutivas do hidróxido de cálcio no canal, podendo haver a recontaminação do canal e deixando a raiz mais enfraquecida e posteriormente fraturando-a8.

Shah9 escreveu em seu artigo que Ostby em 1961 e Centenaro10 cita que o desenvolvimento de tecido de granulação normal e estéril dentro do canal radicular ajuda na revascularização e estimulação dos cementoblastos ou das células mesenquimais indiferenciadas no periápice, levando à deposição de um material calcificado no ápice, bem como nas paredes dentinárias laterais.

Apesar de grande parte dos cirurgiões dentistas não conhecerem a revascularização, esse tratamento já vem sendo estudado há muito tempo. Rule e Winter em 1966, realizaram estudos em dentes necrosados de crianças e descobriram que após o tratamento, o ápice radicular foi desenvolvido1. Com isso, em dentes não vitais, imaturos e infectados a revascularização é uma boa escolha de tratamento9. Segundo as pesquisas realizadas por Braitt em seu livro Células Tronco- Endodontia Regenerativa- Revascularização (2023) as células tronco necessitam de um ambiente adequado composto por hidroxiapatita para induzir a formação das estruturas necessárias. Ele cita que alguns autores testemunharam formação de tecido ósseo fibroso autólogo em indivíduos acima de 30 anos de idade. Apesar disso, a revascularização nem sempre é escolhida como tratamento para indivíduos adultos.

Revascularização é um tratamento de extrema importância na odontologia, pois se trata de uma técnica menos invasiva que o tratamento endodôntico convencional, regenera os tecidos sendo uma nova alternativa ao dente. Pesquisas apontam que a revascularização em dentes imaturos, quando feito uma boa desinfecção, tem grande eficácia. Nesse estudo, será avaliado se a Revascularização é viável em dentes de pacientes adultos que sofreram reabsorção radicular externa apical.

Esse trabalho pretende levar à classe odontológica uma melhor compreensão sobre à revascularização para os cirurgiões-dentistas. Por ser um tratamento dependente das células tronco, encontradas no periodonto apical, muitos profissionais optam por um tratamento endodôntico tradicional. À medida que as pessoas envelhecem, as células-tronco do corpo perdem a sua qualidade, o que pode acarretar um prognóstico duvidoso ao tratamento sendo esse o motivo pelo qual os profissionais não usam a revascularização em adultos.

Sendo assim, esse estudo também tem o intuito de enaltecer a revascularização e mostrar que é um tratamento que tem várias vantagens. É um tratamento que requer menos tempo clínico, podendo ser finalizado em até duas sessões, além de também ter um custo favorável, já que não precisa de materiais adicionais, ainda estimula a formação e o fortalecimento radicular1.

REVISÃO DA LITERATURA.

Em seus estudos, Östby 4 avaliou se o tecido da polpa era capaz de ser regenerado e estudou a importância da indução do sangramento e formação do coágulo sanguíneo. É a partir desse coágulo que as células tronco presentes na papila apical associadas aos fatores de crescimento começam a formar um novo tecido no interior do canal4.

Estudos apontam que mais de 400 bactérias podem ser encontradas nos canais rasiculares infectados, sendo a maioria bactérias anaeróbias estritas. As bactérias mais encontradas nas infecções primárias são Treponema, Tannerella, Fusobacterium, Dialister, Prevotella, Porphyromonas, Peptostreptococcus, Pseudoramibacter, Eubacterium e Actinomyces10.

O tratamento endodôntico consiste em limpar os canais radiculares utilizando instrumentos endodônticos, irrigação geralmente com hipoclorito e EDTA, utilizando material obturador. Os instrumentos endodônticos irão remover a dentina e microrganismo presentes de forma mecânica. O efeito desses instrumentais é potencializado por substâncias químicas, os irrigadores. A ação dos instrumentais e da irrigação em conjunto é capaz de reduzir significativamente a quantidade de bactérias, principalmente se os irrigadores de escolha tiverem ação antibacteriana10.  

Tratamentos endodônticos em pacientes idosos são um desafio, pois o envelhecimento gera alterações funcionais na cavidade bucal e os dentes são mais quebradiços com canais radiculares atrésicos. Assim sendo, problemas como cárie extensa, trauma e reabilitação protética podem necessitar de um tratamento endodôntico e isso pode aumentar a

Demanda de pacientes idosos.

Conclui-se que a perda de elementos dentários leva os pacientes a terem tendência a quadros depressivos já que além de prejudicar a mastigação, fonética e digestão, também interfere na fala, estética e paladar11. Sendo assim, o tratamento endodôntico se mostra eficaz na prevenção de futuros problemas funcionais e psicológicos. Com isso, a filosofia preventiva, bastante pensada nos dias atuais, permite que as pessoas que já estejam em um processo de envelhecimento avançado percam cada vez menos elementos dentários12.

Apificação

A apicificação é indicada para dentes com rizogênese incompleta e que tenham sido irreversívelmente afetados. Essa técnica permite que a raiz continue se desenvolvendo, já que induz uma barreira calcificada na raiz com ápice aberto e com polpa necrótica. Geralmente, o material mais usado nessa técnica é o hidróxido de cálcio13.

De acordo com os estudos de Estrela e Sydney14, para obter sucesso nesse tratamento é necessário que o interior do canal esteja alcalino, ou seja, que tenha o pH elevado15.

No entanto, manter o pH elevado não é a única coisa a ser feita. Conforme Felippe et al.16, quando ocorre a necrose de um dente, interrupção do fluxo de sangue e oxigênio, que ainda não teve sua formação radicular completa, o crescimento da raiz é cessado e o ápice fica aberto, por conta disso as paredes radiculares ficam frágeis e o dente se torna apto para uma apecificação, porém é de extrema importância a limpeza adequada do canal com soluções irrigantes para prognóstico positivo15.

Em 1992 o material de escolha era o hidróxido de cálcio P.A., usado tanto isoladamente quanto misturado. Os profissionais da época utilizavam o hidróxido de cálcio-paramonoclorofenol canforado ou hidróxido de cálcio com propilenoglicol17.

O tratamento tradicional tem sido contestado nos dias atuais. Devido as trocas sucessivas do curativo e as raizes permanecem finas e curtas18.

Soares em desenvolveu uma pasta obturadora que não precisa de trocas consecutivas. A pasta é composta por hidróxido de cálcio, óxido de zinco e gel de clorexidina a 2%. Os casos foram acompanhados por um ano e tiveram resultados bons18

Pulpotomia

Vale ressaltar que o MTA, por ser um material que promove a formação de tecido, pode ser usado em diversos procedimentos, um deles é a pulpotomia. A pulpotomia é um tratamento no qual a polpa coronária é removida e a polpa radicular é preservada. A técnica clássica, iniciada por Bucley em 1904, consiste em utilizar o formocresol na pulpotomia. No entanto, essa técnica recebe muitas críticas por ter o risco de toxicidade e mutagenicidade do formaldeído. Hoje em dia, essa técnica ainda é utilizada, porém vem sendo cada vez mais usado o MTA, sulfato férrico, entre outros19.

A pulpotomia não era um tratamento de primeira escolha para dentes com rizogênese completa, principalmente os que tinham pulpite reversível. Nos dias atuais, o MTA vem mostrando resultados promissores em dentes permanentes. Em dente que a rizogênese está incompleta existem maiores chances de sucesso já que a capacidade de reparo é maior20.

Sobre a pulpotomia, o autor fala que apesar da grande preocupação com relação à ocorrência da carie dentinária, a população ainda carece de assistência odontológica, havendo acentuada perda de elementos dentais. A pulpotomia é um tratamento conservador que tem objetivo de preservar a vitalidade pulpar, principalmente em dentes com rizogênese incompleta, com ápice aberto, tem sido considerado um tratamento provisório que deveria ser seguido pela pulpectomia. Também tem sido indicada para dentes afetados pela carie. O diagnóstico do estado do tecido pulpar, o controle da hemorragia, o material usado para capeamento e para restauração, o controle do sucesso do tratamento e a importância social do mesmo são alguns dos fatores analisados. Dessa forma foi verificado que a pulpotomia é um tratamento alternativo, viável não apenas para dentes com rizogênese incompleta, mas passível de emprego em polpas inflamadas de dentes afetados pela cárie21.

Os dentes mais afetados com lesões de cárie são os primeiros molares permanentes, principalmente por conta das fissuras e fóssulas. Por serem os primeiros dentes permanentes a aparecerem na boca, a partir dos 6 anos de idade, é muito mais frequente esses elementos terem sua polpa afetada. Sendo assim, a pulpotomia é uma abordagem menos invasiva, mais indicadas em dentes permanentes com rizogênese incompleta e polpa exposta pela cárie. Entende-se que o objetivo da pulpotomia é a remoção da infecção na área da exposição e manter a polpa, que não foi infectada, dos canais radiculares 22. Segundo suas pesquisas os estudos comprovavam que havia sucesso da técnica de pulpotomia associada ao hidróxido de cálcio em dentes permanentes jovens. O hidróxido de cálcio, considerado o material mais biocombustível, é bastante utilizado nessa técnica pois induz formação de dentina reparadora e mantém a vitalidade da polpa. Os autores mostraram em seu artigo alguns critérios antes de indicar uma pulpotomia, sendo elas: o estado geral dos pacientes; aspecto macroscópico da polpa; cor; sangramento e por último, se o dente pode ser restaurado sem necessitar de ancoragem da camada pulpar ou dos canais21.

Revascularização

Deve-se entender que a revascularização é um tratamento que faz uso das células tronco encontradas no periodonto apical. Essas são células indiferenciadas que se manipuladas da forma certa, podem se transformar em outra célula e substituir qualquer célula morta ou em o de necrose1

Sobre os dentes imaturos, o autor afirma: Com o recente isolamento e caracterização de células-tronco dentárias adultas e o surgimento do conceito de medicina regenerativa, os médicos devem reavaliar os protocolos clínicos atuais ao planejar o tratamento de determinados casos clínicos. Isto é especialmente importante quando se trata de dentes imaturos, uma vez que ainda estão em fase de crescimento e são susceptíveis de transportar células estaminais potentes que permitem ao tecido regenerar-se e reparar melhor do que os tecidos amadurecidos22.

Contudo, apesar da revascularização ter grande eficácia em dentes imaturos, isso não denota se é ou não um tratamento viável em dentes adultos.

Braitt1 escreve sobre o estudo de alguns autores. A maioria dos relatos mostraram o aumento da espessura do canal e o fechamento apical.

Selye23 estudou o crescimento de tecido no interior tubos vazios implantados no subcutâneo de ratos. Benatti et al.24, Souza Filho et al25. estudaram que, em dentes de cães, após a ampliação foraminal com instrumentos K#25 a K#80, ocorreu invaginação tecidual via forame apical. Huang et al22 notaram que tecidos formados no espaço do canal radicular de dentes humanos imaturos com necrose e lesão apical são tecidos semelhantes aos do ligamento periodontal. Kling et al26 notaram que o crescimento deste novo tecido está relacionado com o diâmetro do forame e com o comprimento do espaço radicular e também notou que a proliferação de tecido conjuntivo no interior de tubos implantados no dorso de animais de laboratório depende do comprimento e do diâmetro dos tubos. Melcher27 observou a neoformação contínua de uma diferenciação celular semelhante ao cemento.

Na revascularização, o sugerido é induzir um estímulo sanguíneo, que posteriormente forma um coágulo preenchendo o canal radicular. Esse coágulo será o ponto de partida para a formação do tecido vital em todo o comprimento da raiz1.

Martin Tropo28, explica sobre a técnica tradicional, enfatizando que na maioria dos casos a primeira fase é a desinfecção dos canais radiculares, pois garante a cicatrização periapical.

O comprimento do canal é estimado com uma radiografia pré-operatória. Após feito o acesso aos canais, é colocada uma lima nesse comprimento. Quando o comprimento for confirmado radiograficamente, dependendo da espessura das paredes dentinárias remanescentes, é realizada uma limagem muito leve ou nenhuma limagem com irrigação abundante usando hipoclorito de sódio a 0,5 (NaOCl) para remover o tecido pulpar necrótico. Uma baixa concentração de NaOCl é usada devido ao aumento do risco de empurrar o hipoclorito de sódio através do ápice dos dentes imaturos. A menor concentração de NaOCl é compensada pelo volume de irrigante utilizado. Quando o irrigante que sai do canal parece “limpo” de detritos, a medicação intracanal pode então ser colocada.

Segundo Bose et al.29 todos os tratamentos regenerativos estudados no artigo foram considerados bem-sucedidos, visto que houve a regressão dos sinais e sintomas. Também obtiveram como evidência o desenvolvimento radicular contínuo, observado nas radiografias. Os resultados do estudo indicaram que o tratamento regenerativo vinculado com os métodos antimicrobianos procede no aumento comprimento da raiz e espessura da dentina.

Relato de caso.

No dia 16/10/2015, compareceu à Clínica Endo – Tratamento de Canais Radiculares a paciente M. R. P. com 53 anos de idade, queixando-se do dente 12 e informando que tinha comparecido a outro profissional e o mesmo sugeriu a avulsão da unidade, substituindo-a por um implante intraósseo de níquel titânio, o que ela queria evitar.

Foi sugerido então tentar um Tratamento de Revascularização, mesmo a paciente não estando em idade ideal. Aos 53 anos provavelmente teria menos células tronco no periodonto apical o que poderia dificultar o sucesso do tratamento.

Nesta mesma data a paciente foi examinada, constatado uma fístula na mucosa gengival acima da coroa do dente 12. Ao exame radiográfico notou-se que o dente examinado era portador de reabsorção interna, reabsorção externa, radiolucidez no periodonto apical, o que sugeria necrose pulpar. (Figura 1).

Foi então iniciado imediatamente o tratamento de Revascularização pulpar com ao paciente anestesiada com Prilocaína/Vasopressina, isolamento com dique de borracha e acesso cirúrgico.(Figura 2). Foi realizada uma Instrumentação Passiva  Ultrassônica utilizando um inserto ultrassônico E1 (Irrisonic – Helse) irrigando um minuto com hipoclorito de sódio a 6% (pH 8), um minuto com EDTA a 17% (pH 7) e mais um minuto com hipoclorito de sódio a 6% (pH 8). As duas substâncias de fabricação própria. Após secagem o canal foi preenchido com hidróxido de Cálcio (Ultra Cal). Trinta e oito dias após, no dia 24/11/2015 a paciente retornou, foi anestesiada com Mepivacaína sem vasoconstrictor, o dente foi novamente isolado e acessado. O hidróxido de cálcio foi removido com EDTA a 17% (por ser quelante) seguido de uma irrigação com hipoclorito de sódio para neutralizar o EDTA. O canal foi seco com pontas de papel absorventes e foi colocado um instrumento intracanal tipo K a 5 mm além forame. Com movimentos circulares e de vai e vem, foi provocada uma hemorragia. Quando o sangue já fluía na entrada do canal foi realizada uma hemostasia com algodão estéril e sobre o coágulo formado foi colocado 5 mm de MTA (Agregado de Trióxido Mineral) (Figuras 3 e 4)                   

O dente foi restaurado com resina composta e foram realizadas visitas de proservação nos dias 16/10/2016 (11 meses), 20/09/2018 (31 meses), 16/11/2020 (5 anos) e 12/11/2021 (6 anos) (Figuras 5, 6, 7 e 8))

DISCUSSÃO

Em seus estudos, Shah et al9 declararam que a revascularização é um tratamento que requer menos tempo clínico, tem custo-benefício bom e estimula o desenvolvimento da raiz dentária. Östby4 estudou a reação do canal radicular com o tecido de granulação provocado pelo coágulo sanguíneo e os autores Rule e Winter30 perceberam o desenvolvimento do canal radicular, fechamento do ápice e a formação de uma barreira nos dentes necrosados das crianças1,4,9,30.

Segundo as pesquisas de Braitt1, a etapa da desinfecção dos canais é o ponto chave para a obtenção de sucesso o tratamento, sendo o melhor método a irrigação potencializada pela movimentação sônica ou ultrassônica e o uso do medicamento intracanal. Em concordância, Lin et al31 estudaram sobre o método de desinfecção utilizado, tendo em vista que sem a remoção completa da infecção, muito provavelmente a revascularização não vai ser bem-sucedida1,31.

Para Mori et al32, além do desafio da desinfecção do canal radicular também é necessário atentar-se para o preparo adequado do interior do canal e para o selamento coronário satisfatório. Os objetivos desse tratamento são ausência de sintomas e desenvolvimento radicular, tendo seu material de escolha o trióxido mineral agregado (MTA). Em seu artigo foi mostrado uma desvantagem do  MTA, a descoloração gradual do dente. Problema solucionado com cimento biocêramico, material que melhora a formação de tecido mineralizado mas não altera cor, no terço acessível do dente32.

Em 1992, o material mais utilizado para a apicificação era o hidróxido de cálcio PA, podendo ser misturado com outras substâncias, por conta de sua ação bactericida e indutor de barreira apical (de Deus; Quintiliano, 1992 ). Entretanto, quando se usa esse material é necessário que o paciente faça vários retornos ao dentista. O MTA foi o material escolhido para reduzir o número de sessões. Contudo, após a apicificação a raiz continua fraca (Hyon-Beom et al., 2015).

Os resultados do estudo de Bose et al29 indica que o Ca(OH)2 e a pasta antibiótica tripla quando são usados como medicamento intracanal promovem o desenvolvimento funcional da polpa, apesar disso, esse dados não são resultados definitivos para a endodontia regenerativa29.

Nas pesquisas de Jeeruphan et al3 foi demonstrado o uso do MTA na apificação, o que gerou uma barreira apical artificial para compactar material obturador e reduz o número de consultas de retorno. Porém, esse procedimento não fortalece a raiz e nem promove o seu crescimento, permanecendo frágil e fina. Por sua vez, Marchesan et al15 apresenta o MTA como uma alternativa promissora , uma vez que o hidróxido de cálcio, mesmo sendo muito utilizado, deixa esse tratamento mais demorado e difícil. O MTA tem grande relevância por ser biocompatível, estimulando reparo e permitindo a proliferação celular 3,15.

CONCLUSÃO

Através do enorme potencial metaplásico encontrado nas células tronco, torna-se viável o tratamento do Sistema de Canais radiculares urilizando-se a técnica da Revascularização, mesmo em pacientes mais idosos, adultos. Observa-se que, mesmo em pacientes com idade avançada, a maturação dos tecidos é viável, vez que o cemento encontrado no terço apical, continua se metaplasiando em cimentócitos, com posterior diferenciação em cementoblastos, tornando possível a indicação dessa técnica como uma opção de tratamento promissora.

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¹Acadêmicos do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI);
²Cirurgião-Dentista, Especialista e Mestre em Endodontia. Professor de Endodontia Clínica do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI). Coordenador do Curso de Especialização em Endodontia do Instituto Excellence (Ilhéus).